quinta-feira, agosto 31, 2017

(DL) Uma pérfida personagem

Que tipo de masoquismo pode ter um escritor, quando escolhe como protagonista do seu romance uma personalidade execrável, aquele tipo de criatura de quem nos apressaríamos a impor higiénica distância se a encontrássemos na vida real? Desconheço a motivação do autor de «A Ministra», mas adivinho o quanto terá sido difícil passar semanas com uma mulher tão despojada de qualidades, tudo nela sendo mesquinhez, calculismo, arrogância.
Miguel Real imaginou tal criatura a receber o convite do primeiro-ministro para integrar a sua equipa e a pedir uns dias de reflexão até dar a resposta, que já sabe vir a dar. Apenas pretenderá fazer-se difícil…
Nesses dias de ansiosa expetativa por ver a vida dar-lhe tão prodigioso salto, ela recorda todo o passado, desde a infância no Algarve até aos longos anos de professora na Universidade lisboeta.
Em miúda, ainda antes de testemunhar o assassinato da mãe às mãos do marido, que a apanhara em flagrante nos braços do amante, já ostentava um carácter perverso ao tomar como hobby preferido o arranque da cabeça das bonecas.
A adolescência será passada no orfanato, onde ganha a alcunha da «Encolhida», mas em que tudo faz para ganhar a afeição das freiras. Doravante ela saberá sempre identificar quem possui o poder nos sítios, que frequenta e como tirar vantagem de se lhe colar através da bajulação. É assim que conseguirá progredir rapidamente na carreira docente, copiando estatísticas de trabalhos estrangeiros e adaptando-os às realidades nacionais. Ninguém se apercebe que ela se limita a plagiar textos alheios e ela ganha renome como especialista de uma nova especialização da Sociologia fundamentada apenas nos indicadores quantitativos.
Se pela mão do ex-marido chegara à Universidade como assistente, depressa dali o desalojara para o Ensino Secundário, substituindo-o como professor de diversas cadeiras e doutorando-se sempre à custa da forma manhosa como se ia fazendo fraca perante os fortes (os catedráticos) e plagiando o mais habilidosamente possível trabalhos alheios.
Agora, aos cinquenta anos, vê-se desprezada pelos filhos, que preferem a companhia do pai e da nova esposa, por quem passara a nutrir um insuportável ódio de estimação. Politicamente os seus valores eram os do regime fascista, mesmo que disfarçando-os, ciente de quanto veria perigado tudo quanto conquistara se os assumisse sem pejo.
No ministério conta aplicar o seu programa de clara divisão entre as elites e as camadas mais empobrecidas da população às quais apenas pretenderia garantir os conhecimentos básicos para virem a servir de trabalhadores pouco qualificados numa economia baseada nas exportações de mercadorias com pouco valor acrescentado. Mas o que a compraz é viver por antecipação o gozo de ser vista pelos outros como pessoa poderosa, que nunca mais teriam vontade de menosprezar.
O problema é que virá a acontecer o que cedo adivinhamos: quando liga para o primeiro-ministro este pede-lhe muita desculpa, mas já decidira atribuir a pasta ministerial em causa a outra personalidade.
A ministra que o não chegara a ser vê-se condenada a passar o Natal a remoer o despeito de ter perdido uma tão soberana oportunidade para escamotear a sua efetiva mediocridade. 

quarta-feira, agosto 30, 2017

(DIM) Um português na rodagem de um filme argentino

Rui Poças é um dos mais interessantes diretores de fotografia do atual cinema português, presença habitual no genérico de obras de Miguel Gomes ou de João Pedro Rodrigues. Agora, em Veneza, no festival em curso, é ele o responsável pela imagem de «Zama», o mais recente, e muito aguardado projeto da argentina Lucrécia Martel.
Na entrevista que deu a Vasco Câmara, ele conta como, apesar de situado no século XVIII, a realizadora pretendia uma ambiência oposta à do canónico «Barry Lindon». E lembrou-se, então, de um quadro descoberto num museu de Copenhaga e intitulado “And In His Eyes I Saw Death” de Ejnar Nielsen.
Datado de 1897 essa obra é o exato contrário da exuberância de cores e de expressão corporal dos personagens do filme de Kubrick. E, tanto quanto se pode aferir das palavras de Poças, ajusta-se, na sua intemporalidade austera, ao clima pretendido pela realizadora, que mantém a estória como sendo passada há três séculos, mas a aborda com a flexibilidade de podendo concebe-la numa lógica de ficção científica. Porque alguém que espera por um futuro, que parece distanciar-se cada vez mais, tanto pode fazer sentido nesse passado colonial como nos nossos dias, ou num qualquer devir.
Pelo que se pode depreender do trailer parece prometida a habitual reação de estranheza, mas também de fascínio, que se evoca da experiência de espectador dos anteriores filmes de Lucrécia Martel.



(DL) A sordidez dos pais que vendiam os filhos para serem limpa-chaminés

No «Ronda da Noite» excelente programa que Luis Caetano anima na Antena 2 quatro vezes por semana, surge regularmente Ana Luísa Amaral para com ele apresentar uma proposta poética, primeiro na língua original, depois na sua versão traduzida. É «O Som que os Versos Fazem ao Abrir».
Há alguns meses atrás esteve em foco «O Limpa-Chaminés», criado por William Blake para as suas «Canções de Inocência», criadas em 1789, ano da Revolução Francesa, que ele muito prezaria ou não se desse na época com todos os que tinham pensamentos radicais.
O poema é uma sátira ferocíssima à igreja e à forma como era assumida a paternidade nesses finais do século XVIII. Porque o narrador desse poema é um miúdo, que ficou órfão de mãe e se viu vendido pelo pai para ser limpa-chaminés. Só corpos franzinos de crianças cabiam nos exíguos espaços onde tinham de retirar a fuligem, escravizados por donos que nada deviam aos piores personagens, que Charles Dickens depois incluiria nos seus romances. Algumas dessas crianças tinham apenas quatro anos, quando eram iniciadas em tão terrível trabalho!
Por tão negra condição, esses miúdos tinham uma esperança de vida muito curta, porque os pulmões depressa se atolavam com as cinzas, que estavam incumbidos de desincrustar das chaminés londrinas.
No poema em causa o narrador tenta consolar um companheiro de infortúnio, Tom Dracre, que perde o medo perante a hipótese de chegar ao céu e ser tomado por Deus como seu filho amado. E já nem chora os caracóis loiros, que lhos cortaram, quando se juntou aos tristes oficiais do seu novo ofício, animado por tão excelente perspetiva, que lhe é ditada por um anjo em sonhos:

“When my mother died I was very young, 
And my father sold me while yet my tongue 
Could scarcely cry " 'weep! 'weep! 'weep! 'weep!" 
So your chimneys I sweep & in soot I sleep. 

There's little Tom Dacre, who cried when his head 
That curled like a lamb's back, was shaved, so I said, 
"Hush, Tom! never mind it, for when your head's bare, 
You know that the soot cannot spoil your white hair." 

And so he was quiet, & that very night, 
As Tom was a-sleeping he had such a sight! 
That thousands of sweepers, Dick, Joe, Ned, & Jack, 
Were all of them locked up in coffins of black; 

And by came an Angel who had a bright key, 
And he opened the coffins & set them all free; 
Then down a green plain, leaping, laughing they run, 
And wash in a river and shine in the Sun. 

Then naked & white, all their bags left behind, 
They rise upon clouds, and sport in the wind. 
And the Angel told Tom, if he'd be a good boy, 
He'd have God for his father & never want joy. 

And so Tom awoke; and we rose in the dark 
And got with our bags & our brushes to work. 
Though the morning was cold, Tom was happy & warm; 
So if all do their duty, they need not fear harm.” 

Depois de ouvir um texto tão pungente tem de se dar razão a Luís Caetano, quando afirma não se poder considerar o coro dos limpa-chaminés de «Mary Poppins» da mesma forma.


(S) O Noturno Opus 9, nº 2 de Chopin por Valentina Lisitsa

(DL) Quando as purgas de Moscovo estavam quase a começar

Sobre o estalinismo estou convicto de ter-se tratado de um período terrível da história soviética, mas com tanto de negativo a associar-se-lhe quanto o de outras sociedades da mesma época, dominadas pelo capitalismo selvagem. Entre o medo dos intelectuais russos da época das purgas e o desespero dos imigrantes de Steinbeck na época da Grande Depressão, o sofrimento poderia comparar-se, mas dificilmente ordenar-se quanto à respetiva dimensão.
O que aconteceu na década de 30 com as grandes purgas de Moscovo teve a ver com escolhas erradas do Comité Central, por incompetência e cegueira perante desafios novos para os quais não existiam receitas testadas, e com efeitos devastadores junto dos que já deveriam estar na altura a colher os benefícios de um regime concebido para lhes garantir indizível felicidade. Como em vez da abundância e da igualdade, surgiu a escassez, a miséria, a doença e a corrupção, inventou-se o inimigo interior capaz de tudo destruir com as suas sabotagens. Que não eram tão descabidas quanto isso, porque desde a tomada do poder pelos bolcheviques nunca os vizinhos ocidentais se pouparam nos esforços para devolver o poder aos suspeitos do costume.
«O Caso do Camarada Tulaev», o romance de Victor Serge há pouco traduzido para português, é uma proposta interessante, mesmo que a saibamos enfeudada à lógica de descrever a realidade moscovita de 1934 com as cores mais sombrias possíveis. Mas se o autor explicita as carências dos mais desvalidos, a prostituição, a fome nos campos e as filas para comprar alimentos básicos, o talento com que o faz redime-o de tão sórdido conteúdo.
Romachkin, um dos personagens, cedo atribui as culpas de tanto sofrimento a Estaline e decide comprar uma pistola para seguir os seus instintos anarquistas assassinando-o. Quando, porém, se cruza com ele num jardim adjacente ao Kremlin a cobardia impede-o de agir.  Trata-se de uma espécie de alter ego do escritor, também ele anarquista nascido na Bélgica, mas presente na Revolução Russa desde os seus primórdios e ator efetivo da atividade revolucionária associado a Trostski, o que lhe valeria as condenações ulteriores à prisão efetiva.
Proibido de escrever na cadeia, Serge criaria romances, que só traduziria para o papel, quando se exilou e foi encontrando bastante desconfiança, senão mesmo hostilidade nos países europeus onde nunca conseguiu voltar a instalar-se.
A exemplo do antigo companheiro de luta em Moscovo, só ganharia algum sossego no México, onde morreria em 1947 por suposto envenenamento, que se prestaria a muitas especulações quanto a quem o provocara.
Se se justifica algum comedimento em aceitar o relato de Serge como objetivo, tendo em conta a experiência prisional que lhe condicionara a interpretação dos factos, «O Caso do Camarada Tulaev» revela um escritor digno de ser integrado no exigente lote dos que, no exílio, fizeram Literatura com maiúscula a respeito do seu espaço de des-pertença.  

segunda-feira, agosto 28, 2017

(S) Janis a meio século de distância

Quando soube da morte de Janis Joplin, em outubro de 1970, não fiquei particularmente chocado nem impressionado. O rock ‘n rol  já ganhara bastantes pergaminhos enquanto máquina trituradora de alguns dos seus principais nomes: Otis Redding desaparecera três anos antes, Brian Jones no ano anterior e Jimi Hendrix apenas duas semanas antes. E, também não me admiraria com o fim de Jim Morrison daí a nove meses. Por essa altura ainda tinha muito sucesso uma célebre frase do argumento de um filme de Nicholas Ray (“Knock on any door”, 1949) segundo a qual importava, sobretudo, viver depressa, morrer cedo e deixar a imagem de um bonito cadáver.
Por essa altura, e por mais que abundassem livros a dar conta dos perigos de morte inerentes ao uso de LSD e outras substâncias psicotrópicas, elas prometiam estados alterados do conhecimento segundo a proposta de Timothy Leary, um respeitável professor universitário de Harvard. E que justificavam, que se as experimentasse pelo menos um par de vezes.
Na época não tinha grande simpatia pelos temas da cantora: achava-a demasiado gritante para os meus ouvidos, que lhe preferiam coisas bem mais harmoniosas (Peter, Paul & Mary, Mammas & Papas, Beach Boys) ou politicamente sugestivas (Pete Seeger, Tom Paxton, Phil Ochs).
Não fiquei, porém, indiferente ao fenómeno mediático, que se criou em torno da cantora nascida em Port Arthur em 1943 e uma das que alimentou a tese do síndroma dos 27 anos para muitos dos principais vultos da pop music.
O filme de Amy Berg - «Janis: Little Girl Blue» - permite conhecer as circunstâncias em que o patinho feio da escola secundária local e aquela que seria «aclamada» como o «aluno mais feio da Universidade do Texas» andou sempre à procura que a amassem e julgou possível a redenção através da voz incrível com que se punha a cantar blues.
Graças aos testemunhos dos irmãos, dos amigos, dos que com ela partilharam tournées nas várias formações, que integrou ou liderou, percebemos quanto era lógico o percurso autodestrutivo de Janis. A exemplo de Ícaro, a subida a patamares de reconhecimento equivaleu a ver fundidas as asas, precipitando-se fragorosamente na morte.
Apesar de alguns dos festivais onde atuou - Monterey ou Woodstock - fossem seriamente marcados pelas mensagens antiguerra do Vietname nada no seu discurso aponta para uma qualquer consciência política de que pudesse pretender-se porta-voz. Pelo contrário: a sua disputa com as feministas mostra-a como protagonista de um papel muito conservador da mulher, apostada em ver-se muito amada e transformada em fada-do-lar. Papel que não imaginaríamos, de modo algum, possível para quem passou anos e anos desorientada até conseguir da heroína a definitiva libertação de todas as suas assombrações.
Curiosa não deixa de ser o paralelismo com essa outra força da Natureza, que se chamou Amy Winehouse. Com quarenta anos de distância ambas ter-se-ão assemelhado no inato talento vocal para o blues e na incapacidade para encontrarem o tal grande Amor, que as reduziu à mais desesperada solidão. Motivo porque não podemos compreender como, perante esse exemplo anterior tão óbvio, não houvesse quem tivesse estendido debaixo do trapézio onde Amy precariamente se equilibrava uma rede protetora, que a pudesse ter salvo.


(S) "Le veau d'or est toujours debout" do "Faust" de Gounod

(S) 

(DL) Gosto de ler os romances de Conrad apesar de...

Alguns dos romances de Joseph Conrad interessaram-me por ele testemunhar muitas das vivências colhidas na sua experiência de mais de vinte anos na Marinha Mercante. Ora, eu que acumulei duas dúzias de anos pelos mares e oceanos de todo o planeta, procuro-lhe nas páginas algumas semelhanças com as minhas próprias experiências. E colhi-as de facto nalguns casos: em «Tufão» reencontrei a força bruta dos elementos, poderosos demais para a fragilidade do casco, que lhe sofre os embates. Em «Shadow Line» revivi a sensação de dias e dias sempre iguais, entre os trópicos do Índico, com a máquina a direcionar a proa com exasperante lentidão para o cais onde nunca mais se parece conseguir chegar.
Há, porém, uma vertente ficcional de Conrad, que me irrita. Lembro-me, por exemplo, de «O Agente Secreto», que outro contumaz reacionário, Alfred Hitchcock, transformou num policial ainda do seu período inglês. Nesse romance o escritor de origem polaca espelha bem o horror que lhe merecia a possibilidade de viver uma revolução. E sem nunca ter contactado com um anarquista ei-lo a apresentar um espécime desse credo com o traço mais virulento de que foi capaz. Não terá sido impunemente que cresceu sob a égide de uma família de proprietários rurais da Polónia e frequentou depois, em Marselha, o ambiente dos exilados monárquicos espanhóis e dos ex-esclavagistas americanos.
Fascinam-me muitos dos personagens, que trouxe para os seus romances, ora traficantes europeus amarrados aos ambientes exóticos, ora os aventureiros falhados, que se convertem em párias, vagabundos ou maníacos. No seu «Porquê ler os clássicos», Calvino explica a razão para nos sentirmos atraídos por essas aventuras tomadas como pretexto para se dizerem coisas novas sobre os homens: “Conrad via o universo como uma coisa escura e inimiga, mas contrapunha-lhe as forças do homem, a sua ordem moral, a sua coragem”. E o mais estranho é que a suposta etiqueta aristocrática dos seus heróis positivos fazem muito mais sentido se os virmos como intérpretes dos valores ideológicos opostos ao que o seu autor professou.

sábado, agosto 26, 2017

(EdH) Aquela que diz Não!

Eis que o outrora poderoso rei de Tebas, aquele que conseguira responder ao enigma da Esfinge, se perde no tormento do seu destino incontornável. Édipo, que tão admirado fora por toda a Grécia graças à sua sabedoria, tornou-se um pária conhecido que foi o parricídio e a relação incestuosa com a mãe.
Proscrito, vagabundeia no seu exílio, apenas acompanhado pela filha mais velha, Antígona. Severa e triste, ela mantém a cabeça bem erguida, indiferente às injúrias, que lhes lançam pelo caminho. Porque bem sabe quanto o velho cego, que guia em direção a nenhures, tudo tentara para evitar a predição do oráculo de Delfos: se matara Laio e casara com Jocasta, mais não fora porque os julgara sem qualquer relação com o seu nascimento.
Já sem a mãe, que se enforcara como resposta ao desgosto da evidência, Antígona sabe restarem-lhe três irmãos: Éteocles, Polinice e Isméne. E o tio, Creonte, que volta a assumir a regência da cidade, como já o fizera, quando morrera Laios.
O irmão de Jocasta nada decide contra o cunhado, cujo sofrimento, associado à cegueira a que se condenara com os agrafos de ouro retirados do cabelo da rainha, já mais do que bastara. Mas os dois filhos varões não se dão por satisfeitos, querem mais e fazem prender o pai antes de o expulsar de Tebas. Julgam assim compensar-se da vergonha por que ele os terá feito passar.
Na escolha que fez para si mesma, Antígona sabe não vale a pena contrariar o destino: por isso decide ser o único apoio de Édipo nos anos, que ainda lhe couberem viver. O repouso encontra-o na residência de um amigo não longe de Atenas, indiferente à confusão que grassa no seu antigo reino.
Um ano depois, porém, batem à porta. É Isméne que lhe vem contar as vicissitudes de tudo quanto sucedera desde então. Etéocles e Polinice tinham tomado o poder e decidido que, ano sim, ano não, cada um seria o rei numa sucessão sem disputas mútuas. Deixando ao mais velho a primazia nesse primeiro ano, Polinice tinha ido viver para o reino vizinho, o de Argos, e desposara a filha mais velha do soberano local, julgando assim firmar um elo forte entre os dois territórios.
Quando lhe cabe a vez de assumir o ceptro real, Polinice depara com Etéocles disposto a não respeitar o acordo, tão grande fora a vertigem de se saber no poder. Fugindo antes que os soldados do irmão o prendessem, Polinice sai de Tebas decidido a vir reclamar pelas armas o que lhe pertence de direito.
O que Isméne pretende é levar Édipo de volta a fim de decidir qual dos dois filhos merece, de facto, o poder. Mas o velho escusa-se a tal missão, porque devem ser eles a enfrentar o que o destino lhes ditar. Apenas lhe importa o desgosto com tudo quanto lhe acontecera.
Nesse momento um terramoto abre o solo debaixo de Édipo e, impotentes, as duas irmãs veem-no descer lentamente até ao local onde jazem os mortos. Zeus decidira pôr-lhe termo ao sofrimento.
Isméne chora nos braços de Antígona, que permanece impassível. Ela sabe que lhe cabe regressar a Tebas, porque o enorme exército facultado pelo rei de Argos ao genro está a cercar as muralhas da cidade e a forçar as suas sete portas.
As palavras com que tenta apaziguar Polinice de nada valem: ciente da sua força, o irmão quer que Etéocles pague pela sua traição. De igual modo nada consegue do acossado, a quem incita a renunciar ao trono e ao combate. A guerra é inevitável…
Horas a fio os dois exércitos disputam a vitória sem que nenhum se sobreponha ao outro. Já a noite está a cair, quando Polinice propõe ao irmão um combate singular entre ambos, cabendo o reino a quem o ganhar.
Polinice cai trespassado pela espada do irmão e Etéocles rejubila com a vitória, distraindo-se do que se passa com o corpo exangue atrás de si. Não o vê, pois, levantar-se e, num derradeiro gesto, espetar-lhe a sua espada. Os dois filhos varões de Édipo jazem então na poeira.
Antígona chora o triste desiderato da família. Creonte volta a assumir o trono, enquanto organiza os funerais. E decide cuidar para que tal tragédia não volte a repetir-se: Éteocles será venerado como defensor da cidade, enquanto o corpo de Polinice será abandonado no campo de batalha para ser devorado pelas feras. Porque esse deve ser o castigo de quem decide atacar a própria cidade.
Antígona insurge-se contra essa suposta razão de Estado, que condena irremediavelmente Polinice aos infernos sem direito a quaisquer ritos funerários. Por isso levanta-se contra o tio e diz Não, rejeitando que ele assuma decisões que apenas cabem aos deuses. E, durante a noite, decide cuidar dos despojos do irmão, contando para tal com a ajuda de Ismene. Mas esta recusa-lhe o apoio, disposta que está a satisfazer as leis dos homens.
Sozinha ela avança pela planície à procura do cadáver de Polinice e canta-lhe os ritos mortuários. Cobrindo-o de terra, tão só os acaba. Levada prisioneira à presença de Creonte enfrenta-o olhos nos olhos. Ele bem se arrepende de ter promulgado aquela lei terrível, mas agora não tem escolha: devido à sua irreverência, Antígona deve morrer. Mas os guardas não ousam tocar-lhe tão forte é a determinação, que a anima. Será ela quem avança impassível até à cripta onde está a família sob o olhar consternado dos habitantes da cidade. Entrando naquele espaço, Antígona vê os guardas fecharem-no para que aí aguarde a morte. Mas simbolizará quem, pela primeira vez, se insurge contra o poder absoluto…
Antígona representará sempre a resistência em nome da consciência contra as leis divinas ou as de Estado. 

Quando se trata de assumir a falta do Outro

Com quatro anos de atraso li agora «Os Níveis da Vida» de Julian Barnes, um autor que muito me comprazeria ver reconhecido com o Nobel da Literatura e decerto com bastante mais razão do que o mais recente, um bardo de canções conhecido como acionista da indústria de e travesti de quem começara como suposto ativista dos tempos de mudança, que parecia anunciar.
À escrita de Barnes, muito imaginativa na forma de expressar a evidente erudição, tudo se desculpa, até mesmo a forma como acentuou as dúvidas ideológicas de Chostakovitch no romance anterior, «O Sentido da Vida», que lhe valera o Man Booker Prize de 2011.
Neste romance em concreto a personagem principal demora a aparecer, mas compreende-se: o escritor terá sentido justificado pudor em trazer à cena Pat Kavanagh, com quem partilhara feliz conjugalidade durante mais de trinta anos e que, vitimada por doença incurável em 2008, lhe deixara um vazio doloroso, impossível de preencher.
Se já tivéramos com Joan Didion o testemunho comovente de uma perda sem solução - foi com «O Ano do Pensamento Mágico» - Barnes consegue ser mais impressivo, porque começa por focalizar a nossa atenção em três momentos heroicos do balonismo na segunda metade do século XIX: os protagonizados por Félix Tournachon entre Paris e Hanover em 1863, por Sarah Bernhardt em 1878 nos arredores da capital francesa e por Fred Burnaby em 1882 entre Dover e algures na separação entre Dieppe e Neuchatel. Se o primeiro ganharia renome bem mais merecido como fotógrafo primitivo sob o pseudónimo de Nadar, os outros dois viveriam uma história amorosa de grande fervor carnal, mas que, para pena do inglês só duraria umas semanas antes de se ver preterido por um rival no leito da mais famosa atriz da época.
Percebemos então o sentido do que Barnes nos quer revelar: a exemplo desses engenhos aeronáuticos, o amor sobe até às alturas possíveis, mas fica sujeito aos humores das circunstâncias. No caso do frustrado namoro de Burnaby, elas foram ditadas pela libertinagem fogosa de Sarah. Na sua história pessoal com Pat Kavanagh terá sido a saúde (ou a falta dela) de quem muito amou a ditar-lhe o fim. Razão para concluir como o faz na derradeira página: “ Não fomos nós que mandámos vir as nuvens e não temos poder para as dispersar. Só aconteceu que de algum lado - ou de nenhum lado - uma brisa inesperada surgiu e estamos de novo em movimento. Mas para onde nos leva? Para Essex? Para o mar do Norte? Ou, se o vento for de norte, então talvez, com sorte, para França.”.
Assim é a vida: gostamos de manobra-la na direção desejada, mas quantas vezes ela nos empurra ao sabor dos seus humores? E o pior pode surgir, como aconteceu com Julian Barnes, privado de quem mais precisava...

(S) O 6º andamento da Sinfonia nº 3 de Mahler

S) 

sexta-feira, agosto 25, 2017

(AV) Quando Miró trocou Barcelona por Maiorca

No ano em que nasci - 1956 - Miró tomou a decisão de se mudar da cada vez mais trepidante Barcelona para Palma de Maiorca, onde a luz, o mar e o sol prometiam ganhar uma enorme influência na sua obra. Instalar-se na ilha que, na infância, costumava visitar todos os verões a pretexto de passar férias em casa dos avós maternos, fazia todo o sentido, porque adivinhava nada ter ali que inventar. Tudo estava ali diante dos seus olhos para se espraiarem nas suas telas e murais. Ademais não fora ali que desposara o seu amor de infância, Pilar, também ela maiorquina?
Até então, e desde a década de 20, Miró passara por todos os géneros artísticos: do fauvismo saltara para o cubismo e deste para o surrealismo. Ganhara reputação como artista, mas sentia-se insatisfeito com a exiguidade do atelier e da sua imaginação. Por isso decide instalar-se na maior das ilhas Baleares.
Um arquiteto amigo, discípulo de Le Corbusier, desenha-lhe a casa na periferia de palma, abrindo-a para o horizonte marítimo e banhado de luz. O azul do seu famoso tríptico reproduz a cor do espelho líquido com que depara todas as manhãs.
Não muito longe dali também vai até à Catedral onde gosta de se recolher e ouvir, quando as circunstâncias o proporcionam, o som do seu órgão.
Nos anos que se seguirão Miró encontra o seu estilo abstrato e diversifica a paleta das cores nos seus quadros. Terá sido ali que verdadeiramente se encontrou. A exposição que, em breve, poderemos apreciar no Palácio da Ajuda será uma oportunidade única para captarmos algo dessa sua interligação com um espaço, que fez definitivamente seu.