sábado, agosto 19, 2017

(S) Sarab - N3rdistan

(DL) Consciencializar o mal e não o conseguir erradicar

Não sendo um entusiasta da sua obra literária, confesso ter sentido alguma alegria, quando Nadine Gordimer ganhou o Nobel da Literatura em 1991, porque o mérito residia na forma como sempre utilizara os seus romances e novelas para denunciar e contrariar o apartheid.
Nascida em Springs, aldeia mineira não muito distante de Joanesburgo, desde miúda, que se habituou a ver da janela a separação entre os mineiros brancos e negros. Quando quis que lhe explicassem essa surpreendente realidade ninguém lhe soube dar uma resposta que pudesse entender. Daí por diante estaria atenta à grande diferença entre a qualidade de vida dos que viviam em bairros-da-lata e os que dispunham de agradáveis vivendas nos bairros brancos das cidades. E, no entanto, nessa terra onde nascera, o dinheiro era tanto que cresciam edifícios ao bom estilo art deco, que eram moda na Europa nesses anos vinte do século passado. As ideias políticas surgir-lhe-iam como resultado da consciência de quão desigual era a distribuição de rendimentos entre os seus concidadãos.
Ela não se contentaria em situar as suas histórias nesse ambiente mineiro: as estepes do highvelt ou o ambiente cosmopolita de Joanesburgo também figurariam como cenário de fundo de dramas sempre focalizados na segregação racial. Por muito que variassem os personagens ou os sítios onde viviam os seus dramas, motivava-a a obsessão com o desejo de uma sociedade bem diferente.
Quando Mandela foi liberto e o ANC levou por diante a democratização sul-africana, Nadine julgou possível acabar os dias numa sociedade mais justa, conforme com a utopia igualitária, que sempre a acompanhara. Claro que se desiludiu: não é apenas a vontade de um homem a virar do avesso uma cultura de opressão e de submissão. Mesmo que os oprimidos de ontem se arroguem do desejo de serem os repressores dos novos tempos.
Três anos depois do seu desaparecimento físico e com o mandato de Zuma a arrastar-se penosamente até novas eleições decidirem quem procurará fazer melhor, o legado de Gordimer ainda está por cumprir. 

(S) O projeto em torno de Chopin por Ólafur Arnalds e Alice Sara Ott.

(AV) A infelicidade dos jovens na obra de Rafael

Entre 1509 e 1510 Rafael desenhou o estudo para o Massacre dos Inocentes, ilustrando nele a capacidade para suscitar a emoção dramática em quem viesse a apreciar a obra final. Nele vemos várias mulheres a tentarem salvar os filhos dos criminosos apostados em matarem-nos. Todos os personagens estão nus e avulta a personagem, que se agarra ao filho contra o peito como forma de o proteger. Mas são muitos outros os detalhes que poderemos apreciar: a expressão chorosa e de boca aberta de uma outra mãe, a criança do centro da composição quase em queda, o desespero de quem se procura afastar dos agressores.
É curiosa a frequência com que Rafael volta ao tema de crianças desprotegidas perante ameaças que as fazem procurem auxílio nos progenitores. Será que o pintor nunca se conseguiu livrar do trauma de ter ficado órfão de mãe aos oito anos e de pai aos onze? Será que as obras artísticas terão servido de paliativo para um sofrimento íntimo que nunca mais o abandonaria?
Não tendo como o provar, podemos ainda assim conjeturar que tal tese poderá fazer algum sentido! 

quinta-feira, agosto 17, 2017

(DL) Jean Rhys e as insanáveis dúvidas quanto ao sítio a que se pertence

Quando conheci a ilha de Dominica, nas Caraíbas, não a distingui grandemente de outras, que ali considerara semelhantes na exuberância da sua vegetação e no carácter quase selvagem das suas belíssimas praias. Na altura andava mal habituado: cirandando de ilha em ilha, deparava com cenários paradisíacos, como só viria a reencontrar depois nas Seychelles ou nas Maldivas. Não é fácil encontrar numa superfície ligeiramente inferior à de Portugal continental tantos rios e ribeiros ou seis florestas verdejantes.
Se sabia ter ali existido a exploração da escravatura como sustentáculo da rentabilidade das culturas do café, do cacau ou do açúcar, desconhecia ter sido ali que nascera uma das grandes escritoras inglesas do século XX, Jean Rhys, que se consagraria como uma das autoras de referência da escrita feminina desse período. Mais ainda, foi no ano do meu nascimento, 1956, que ela publicou o seu romance mais conceituado, «A Prisioneira dos Sargaços», que, embora situado no longo reinado da rainha Vitória, exprimia muito do que fora a insolúvel questão identitária da autora ao longo da sua vida. De facto, vivendo até aos 17 anos em Roseau, capital da ilha, Jean Rhys ainda ali pressentia os ecos dessa violenta forma de exploração humana. Embora condicionados pelos esforços de imposição da sua aculturação, os antigos escravos haviam conseguido preservar algo das suas tradições africanas na música, na dança e na gastronomia. Por isso mesmo olhava para a realidade à sua volta e encontrava-lhe expressões contraditórias em função das tonalidades da pele de quem as assumia.
Ela nascera dividida entre dois mundos: o da mãe, que provinha de uma dessas famílias de latifundiários sem escrúpulos relativamente á forma como haviam enriquecido, e o do pai, um médico, que servira na Índia e aceitara a transferência para aquela colónia inglesa na América Central. Na primeira Jean encontrava uma identidade crioula, mesmo que de pele alva, enquanto no progenitor, constatava a vontade de servir os outros, de tecer com eles elos de solidariedade. Politicamente essa visão refletia-se em posicionamentos distintos quanto à interpretação do passado, do presente e, sobretudo, do futuro.
A exemplo da heroína do seu romance Jean sempre verá sem resposta duas questões fundamentais: qual a comunidade a que pertencia? Qual o seu verdadeiro país? Essa estranheza fá-la-ia sentir-se desadaptada em todos os ambientes, que frequentava.
Mas essa singularidade complementava-se com a irrequietude em relação aos padrões definidos à sua volta para o que deveria ser o papel a mulher na sociedade. Jean Rhys não os aceita e nunca se cansa de, nos seus escritos, denunciá-los como limitadores do potencial que descobria em si e imaginava existirem no universo feminino.
Num mundo em que a globalização tende a diluir as questões identitárias e as conquistas femininas nunca deixam de ser postas em causa, a obra de Jean Rhys permanece atual e mereceria bem mais atenção do que vem tendo. 

(S) A ária "Torna la pace" da ópera «Idomeneo» de W. A. Mozart, interpretada por Richard Lewis

quarta-feira, agosto 16, 2017

(EdH) Ícaro e Dédalo, sem esquecer Teseu e o Minotauro

Um longo mergulho no vazio e acabou: Ícaro morreu. E, no entanto, o pai, Dédalo, bem o avisara: nunca deveria descer demasiado, porque a espuma das águas impregnaria as asas, torná-las-iam mais pesadas e ele seria engolido. Nem poderia subir alto demais sob pena de, aquecida, a cera derreteria e as penas das asas espalhar-se-iam, tornando-as ineficazes. Mas a imprevidência não deveria ser atribuída ao próprio Dédalo, que se tornara num notável inventor, inspirado pela deusa Atena?
Esse pai irresponsável era também talentoso arquiteto e escultor. Nesta arte específica criou um Hércules tão impressionante no seu realismo, que o herói, ultrajado, destruiu raivosamente a obra artística.
Dédalo tinha, igualmente, um defeito assinalável: era ciumento do sucesso alheio. Assim, quando o sobrinho criou a serra, que se revelaria tão útil nos trabalhos do dia-a-dia, a sua glorificação por toda a cidade de Atenas, enfureceu o tio. Razão para , dias depois, atrair Thalos à Acrópole, e do seu ponto mais elevado o empurrar. Depressa descoberto enquanto autor do odioso crime, Dédalo só não é condenado à morte, porque os atenienses levaram em conta os muitos serviços prestados até então. Mas ostracizaram-no, condenaram-no a partir para longe dali e proibindo-o de regressar.
O exílio leva Dédalo e o filho até Creta onde reinava o admirável Minos, que fora um dos três filhos concebidos por Europa na sua relação com Zeus.  A rainha era Pasiphae, que tinha fama de feiticeira, conseguindo livrar-se das possíveis rivais, matando-as graças ao talento para fazer com que cobras e escorpiões satisfizessem os seus desejos. Mas ela não possuia poderes bastantes para impedir Peseidon, o deus dos mares, de , através dela, se vingar do marido, que o ludibriara a respeito do touro branco destinado a ser sacrificado em sua honra por o ter ajudado a guindar-se ao trono, e afinal substituído por outro bem menos impressionante. Influenciada pelas palavras mágicas do deus dos mares, Pasiphae enamora-se perdidamente do animal e pede a Dédalo, já relevante na corte do rei, que lhe encontre forma de consumar o coito com o animal, sob pena de o fazer executar juntamente com o filho.
Apesar de considerar repulsiva a pulsão zoófila da rainha, Dédalo acede e encontra maneira de o touro se iludir, possuindo a rainha em vez de uma das vacas do prado. Nove meses depois, dessa união contranatura, nasce uma criatura terrível,  meio homem, meio touro, a que os cretenses chamarão o Minotauro.
Perante tal monstro, Minos instiga Dédalo a compensar o erro de ter acedido ao pedido da rainha e daí resulta o célebre Labirinto, onde aquele é aprisionado. Será uma fortaleza tão engenhosa que, quem nela entrar, nunca encontrará forma de regressar ao ponto de partida. Nem que se tratasse do seu criador. Eis que, por essa altura, o filho mais novo do rei, Androgeus, é assassinado em Atenas, em circunstâncias mais do que suspeitas. Decidido a vingar o crime, Minos cerca a cidade inimiga e sujeita-lhe os cidadãos a terrível fome.  No tratado, que define as condições para a paz, Minos estipula uma cláusula hedionda: todos os anos sete rapazes e sete raparigas atenienses ser-lhe-ão enviados para que sejam entregues ao Minotauro.
Durante anos os atenienses pagam o tributo sem o conseguirem evitar. Mas eis que o herdeiro do trono decide pôr-lhe cobro, propondo-se a ir matar o monstro cretense. Apesar da tentativa do pai em demovê-lo, Teseu parte para Creta e é recebido na corte de Minos. É nesse momento que a filha primogénita do rei, Ariana, se apaixona. Decidida a impedir que ele acabe nas mandíbulas do Minotauro, ou se perca no labirinto, ela pede ajuda a Dédalo, que lhe propõe a utilização de um fio pelo qual depois de matar a besta, Teseu poderá voltar para os seus braços.
Assim acontece: Teseu mata o Minotauro e enrolando o fio, que fora desenrolando enquanto avançava no labirinto, reencontra a saída. Nesse mesmo dia sai de Creta levando consigo a princesa.
Minos, encolerizado com a notícia e compreendendo quem ajudara os fugitivos, manda prender Dédalo e Ícaro, obrigando-os a internarem-se no labirinto. Andando em círculos dentro da sua própria criação, Dédalo imagina então uma solução. Graças às penas dos pássaros, que sobrevoam a construção, ele imagina a possibilidade de ambos voarem para fora dali.
Enquanto Dédalo tem presente o objetivo por que criara aquela engenhosa solução, Ícaro fica fascinado com o poder de se erguer bem alto nos céus, cada vez mais longe apesar dos gritos do pai, que o aconselham a descer. A vertigem de dominar o mundo a partir de muito alto inebria ícaro sem perceber, que a cera começa a fundir e as asas em breve deixarão de lhe servir. Desamparado,  mergulha nas águas doravante chamadas de Mar Icariano durante muitos séculos.
Por duas vezes Dédalo terá desafiado a natureza, a primeira para possibilitar a Pasiphae o seu indecoros coito e a segunda ao transformar o homem em pássaro. Não é impunemente, que se desafia a Natureza e Dédalo voltará a exilar-se numa ilha desértica até ao fim dos seus dias. 

terça-feira, agosto 15, 2017

(DIM) Revisitar Maupassant

À partida não teria grande interesse numa nova versão de «Une Vie», um drama de Maupassant sobre uma protagonista incapaz de se assumir como mulher adulta, e como tal, condenada à catástrofe. Recordo que a versão de Astruc, datada de 1958, com Maria Schell no papel de Jeanne, incomodara-me por a ver precipitar-se em erros sucessivos, primeiro casando com um oportunista apenas interessado no seu dinheiro, e que por isso a trai de forma quase compulsiva, depois sobreprotegendo o filho, que a desprezará e condenará à solidão. Convenhamos que não estaria disposto a sentir esse mal estar se não fosse Stéphane Brizé a assinar a realização. Com «A Lei do Mercado» ele tornou-se um dos mais interessantes cineastas franceses e será sempre interessante perspetivar como cada novo projeto possa constituir uma abordagem estimulante sobre as questões do dinheiro numa sociedade em que tê-lo ou não faz toda a diferença.
Há um outro aspeto aliciante a considerar na apreciação do filme, que está prestes a estrear-se com o título «A Vida de uma Mulher»: para além da história, Brizé assume enquadramentos completamente diferentes dos de quaisquer outros realizadores: nos planos decisivos, a protagonista é sempre vista de perfil e nunca de frente, de modo a deixar ao espectador o espaço necessário para recriar por si mesmo as emoções em causa. Ademais, invocando o percurso de documentarista, Brizé concebe cada plano como se fosse uma cena real em que a colocação da câmara obedeceria às respetivas contingências. Será, pois, natural, que nos desfocalizemos da intriga e nos disponibilizemos para uma atenção acrescida ao que nos possa suscitar estranheza na sua ilustração. Desde Brecht que sabemos quão importante é distanciarmo-nos da história em si para melhor lhe questionarmos o fundamento.
É essa a grande diferença entre um cinema convencional e o que escapa à entediante sensação de «déjà vu»: a pressentida sensação de estarmos a assistir a algo de original, de inabitual. E que, por isso mesmo nos desafia...



(S) "Believe in Trane" pelos Sumrrá

(EdH) O palpitante assassinato de Ronald Opus

Desde 1994 que a Internet tem sido palco de uma história falsa, ainda que assaz imaginativa, sintetizável em poucas palavras: um homem quis-se matar atirando-se de um décimo andar. No entanto, quando ainda mal começara a queda para o abismo, um disparo de arma gerado por uma discussão doméstica num piso inferior, mata-o antecipadamente com uma bala alojada na cabeça.
A singularidade do caso deveria acautelar os que tendem a ser mais crédulos e a aceitar como boas todas as notícias que lhes chegam, mesmo de canais pouco fiáveis, mas tornou-se tão popular que Paul Thomas Anderson inseriu-o no argumento do seu premiado «Magnolia», depois replicado num episódio da série «CSI Miami» e num jogo para Playstation.
A morte desse Ronald Opus merece ser, porém, aprofundada na razão porque se tornou conhecida. Quem concebeu tal estória foi Don Harper Mills, um conceituado jurista forense, que chegou a presidir à respetiva Academia Americana. Aconteceu que, em 1987, estando convidado para uma conferência resolveu criar um caso de estudo em que um aparente suicídio revelava-se um potencial homicídio.
Sobre a intenção de Ronald em matar-se não sobrava qualquer dúvida, porque os detetives incumbidos do caso haviam-lhe encontrado uma carta de despedida fechada pouco antes de se atirar do 10º piso.
O que o suicida não esperava era tombar apenas dois pisos abaixo, numa rede ali esticada pelos operários de construção civil incumbidos de obras na fachada do prédio. A intenção de suicídio teria falhado se o cadáver não apresentasse uma bala alojada no cérebro.
Procurando o autor do disparo os detetives encontram-no no nono andar na pessoa de um velho cujas disputas com a mulher acabavam invariavelmente com ele a apontar-lhe a pistola descarregada. Só que, sem que soubesse como fora possível, o casal desavindo surpreendera-se com o disparo efetivo da pistola, que não tinha acertado na anciã por mera sorte, mas estilhaçara a janela ali mesmo ao lado.
Nessa altura os detetives estavam decididos a levar o velho acusando-o de homicídio involuntário. Mas um deles decidiu aprofundar o caso e descobrir quem pusera a bala no carregador, acabando por concluir quanto à responsabilidade do filho do casal, irado com a mãe por ela lhe ter cortado o habitual apoio financeiro. Torna-se óbvio, que a legitimidade para formular a acusação do homicídio de Ronald Opus, transferira-se para o filho do casal.
Mas o volte-face não tarda: esse suspeito de matricídio tentado e assassínio do vizinho do 10º andar não é mais do que este último: a razão do suicídio tinha sido precisamente a de Ronald não suportar a ideia de ter congeminado a morte da própria mãe, caindo em terrível depressão propensa a acabar com os seus dias.
No final o caso do suicida assassinado volta a reclassificar-se como … suicídio. Embora não tendo acontecido como pretendera, Ronald fora de facto o autor da sua própria morte.
Engenhoso caso para animar discussões forenses, é interessante saber como houve quem o utilizasse para dá-lo como real e o difundisse como tal. Mas convenhamos que, se as fake news fossem todas deste tipo não nos poderíamos queixar: os mais tolos acreditariam na sua veracidade, mas não estariam ainda manipulados para levarem por diante o condicionamento do voto dos eleitores para um qualquer Trump de circunstância...


segunda-feira, agosto 14, 2017

(DIM) Profissão Alpinista

Depois de Londres e antes de Amesterdão ou Haia, a nossa vida de pais com uma filha lançada em carreira profissional além-fronteiras focou-se numa cidade francesa, que pouco significara para nós até então: Grenoble. Visitando-a em várias estações do ano, tanto ladeámos as impressionantes montanhas cobertas de neve como chegámos a arriscar uma subida à mais próxima, a Bastille, na outra margem do rio Isère, só pelo prazer de olhar a cidade noutra perspetiva.
Situada nas faldas dos Alpes sabíamos das pistas de ski onde ocorriam frequentes competições internacionais. Por isso mesmo foi sem espanto, que aí tomámos conhecimento de um festival de cinema totalmente dedicado aos maluquinhos do alpinismo. A exemplo de outros acontecimentos do género, este tinha os seus heróis, que nos eram totalmente desconhecidos, e toda a caterva de conferências e workshops, muito frequentados por quantos ansiavam pelos fins-de-semana para neles aproveitar a oportunidade de se testarem fisicamente à escala local na imitação dos grandes exploradores dos Himalaias.
Não me admiraria, que «Messner: profissão alpinista» tenha sido apresentado com a devida pompa e circunstância, tendo em conta a relevância de Reinhold Messner enquanto admirado praticante da modalidade. No curriculum conta com catorze cumes acima dos 8 mil metros de altitude e, em 1980, empreendeu uma arriscadíssima subida solitária ao topo do Evereste sem suporte de oxigénio.
A longa-metragem de Andreas Nickel, datada de 2011 não é propriamente uma hagiografia: aborda a forte influência do pai na sua vocação, embora ele e os irmãos não se privem de o caracterizar como um homem brutal, que nunca perdeu o padrão de comportamento do exercito nazi, que servira sem qualquer remorso posterior. Não se contornam os fracassos por que Messner passou, alguns deles com consequências trágicas, nomeadamente com a morte dos seus parceiros de expedição. Um deles foi um irmão, que sempre o tentava acompanhar nas difíceis escaladas.
Há também a militância política: situando-se à esquerda do espectro partidário, ele foi deputado europeu pelos Verdes durante um mandato. Mas o filme é, sobretudo, uma excelente oportunidade para conhecer materiais de arquivo e admirar as belíssimas paisagens das montanhas, que Messner continua a utilizar como alibi para o que designa como “conquista do inútil”. Quanto mais não seja, porque elas lá estão, para poderem ser escaladas...


(S) «La Valse d'Amélie» de Yann Tiersen

(AV) Rafael: dos desenhos emotivos para o idealismo platónico dos quadros

Durante muitos anos Rafael foi considerado o príncipe dos pintores da Renascença. O seu quadro «Escola de Atenas», em exposição no Vaticano, era tão considerado quanto a «Mona Lisa» ou o «David» de Michelangelo no conceito de obras-primas absolutas.
Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades, e com elas a forma de apreciar a arte dessa época distante. Mas a exposição dos seus desenhos, a decorrer até 3 de setembro no Museu Asmolean de Oxford, procura resgatá-lo da subalternidade, ao revelar-lhe a capacidade de captar ações e emoções com inesgotável criatividade.  Apreciam-se essas obras e é como se as figuras nelas retratadas tivessem o poder de, subitamente, ganharem vida.  É o caso de um estudo da cabeça de um jovem apóstolo (São Tiago?) para o retábulo da «Coroação da Virgem» destinado a uma igreja de Perugia.
No quadro ele surge junto ao túmulo da Virgem e olha fixamente para cima, para ver Jesus a coroá-la rainha dos céus. No desenho todas as linhas acrescentam deslumbre a esse olhar extasiado, que se complementa com a suavidade dos lábios separados  ou com as sombras no seu pescoço.
Quando criou esse quadro, o jovem Rafael parecia acreditar na importância da emoção, mas ao transitar os estudos para a pintura completa, diluía-a para acentuar o primado do idealismo platónico.

(S) «Eagle Brother» pela Mari Boine na Oslo Opera House em 2009

domingo, agosto 13, 2017

(DIM) Geiranger sem tsunamis

Nos três anos, que estive no paquete «Funchal» devo ter ido mais de vinte vezes ao fiorde de Geiranger, muito justamente reconhecido como Património da Humanidade devido à beleza indizível da paisagem. A navegação pelas águas tranquilas rodeadas de altas montanhas donde se despenhavam abundantes cascatas («As Sete Irmãs»), constituía um dos pontos altos dos cruzeiros até ao Cabo Norte. E quase sempre o navio tinha como passageiros os noivos e os seus convidados, que aproveitavam as horas de estadia ali para celebrarem esponsais junto ao hotel, que tinha uma cachoeira a desaguar ali perto.
Por muitos anos, que ainda viva, esse é dos postais colhidos ao vivo, que nunca deixarão de me acompanhar. Compreende-se, pois, que tenha alimentado por «Bolgen» uma natural curiosidade, mesmo considerando as críticas negativas assinadas por gente respeitável a propósito de um filme-catástrofe, tido como seguidor acrítico do modelo norte-americano. Ou seja com famílias muito unidas em risco de se desagregarem, mas que se salvam todos no fim, e com alguns exemplos sacrificiais para incrementarem a vertente dramática da intriga. Quanto aos efeitos especiais, embora não deslumbrem, também não deslustram, embora a verosimilhança não seja a sua maior preocupação.
Constatamos nele todos os habituais estereótipos, que levaram Hollywood a integrá-los numa espécie de cânone do género. Mas, no entanto, tem Geiranger e isso faz toda a diferença, porque podemo-nos abstrair da estória  e concentrarmo-nos na paisagem. Para quem a não conhece ao vivo a bidimensionalidade bastará para se deixar entusiasmar. Mas para quem resgata da memória o seu registo tridimensional, a experiência ainda consegue ser mais grata.
Há, porém, um efeito perverso no filme: eu que gostaria de ali voltar, nem que fosse por mais uma vez, vi-me a considerar se seria boa ideia tendo em conta a possibilidade levantada pelos argumentistas. E, por certo, se fosse norueguês, e ali vivesse, talvez me apressasse a procurar subsistência noutro qualquer local que não aquele.
Desconhecendo se o Turismo norueguês contribuiu para o financiamento da produção, diria que a tal ter acontecido, significaria um clamoroso tiro no pé. Seria algo semelhante a imaginar que Paulo Branco produzisse uma grande produção do Joaquim Leitão, em que o tema fosse uma réplica do terramoto de 1755 nos dias de hoje, e o levasse a concurso aos principais festivais de cinema com distribuição garantida nos principais mercados europeus, asiáticos e americanos. Em tempo de grande boom turístico não me lembraria de tão evidente ato de sabotagem...


(S) «O'Sullivan's March» pelos Chieftains

(EdH) Singularidades com odor a pimenta

Confesso o espanto que senti, quando vi uma chinesa de hijab pela primeira vez. Chegara a Kushing, a capital da parte malaia da ilha de Bornéu, e decidira sacudir a rotina das refeições a bordo, indo jantar a terra. No restaurante deparei-me com essa cena, até então inédita ao meu olhar: embora não ignorasse a existência de populações islâmicas dentro do enorme território chinês, ver uma mulher dessa nacionalidade com um tipo de vestimenta até então apenas vista nas árabes, surpreendera-me. Mesmo que em vez do tradicional preto, tivesse a cor castanha. Mas as demais mesas espelhavam o que o agente do navio naquele porto nos confidenciara: estávamos numa terra em que a miscigenação entre as diversas etnias da sua população resultara harmoniosa, porque há muito abundam os casamentos mistos entre chineses, malaios, indianos e quem veio de outras origens para ali encontrar modo de sobreviver.
Esse melting pot  ganha ainda maior sentido, quando olhamos para o mapa e constatamos que, desde tempos imemoriais, a ilha serviu de escala para o intenso comércio marítimo entre o Mar da China e as terras das especiarias. 
No dia seguinte seria outra novidade a surpreender-me: passeando pelo mercado sentiria o forte odor da pimenta do Sarawak, entre o resinoso e o floral. Não sabia ainda que estava perante aquele que é tida como um dos condimentos tidos como dos melhores do mundo.
Quem a começou a plantar foram os chineses, que para tal mandaram vir sementes da Índia. Mas, perante o sucesso desses cultivadores primitivos, outras comunidades começaram a imitá-los, a com eles rivalizarem no negócio. Igualmente na os chineses não tardariam a perder o seu domínio dos mares, quando os viram invadidos por caravelas portuguesas e navios espanhóis ou holandeses.
Em 1839 chega à ilha um aventureiro inglês, James Brook, que compreende quão periclitante está o poder do sultão face à revolta dos súbditos.  Ajudando a vencer os opositores, Brook é nomeado rajá, instalando-se no Forte Margarita. É dali que comanda o negócio de exportar a pimenta através do vizinho porto de Singapura.
O sobrinho e sucessor, Charles, é quem impulsiona decisivamente as plantações e as exportações, contratando a mão-de-obra na comunidade chinesa, que emigra massivamente para o Sarawak e não desdenha converter-se aos costumes e crenças locais, como constatei na tal senhora do restaurante.
Hoje a pimenta do Sarawak é valorizada não só pelo seu valor enquanto mercadoria, mas por proteger as ameaçadas florestas da ilha Que estariam seriamente postas em causa se fossem derrubadas para cultivar as malfadadas palmeiras destinadas a produzir óleo de palma.

(S) "When evening falls" por Boi Akih

(DL) Crimes que ficaram sem a devida punição

Quase trezentas pessoas de origem judaica chegaram a Vilar Formoso em 7 de novembro de 1940, escoltadas por guardas da Gestapo uniformizados. O objetivo era o de alcançarem Lisboa para embarcarem para o outro lado do Atlântico, de acordo com os vistos (na maioria falsos), que tinham comprado antes do comboio partir do Luxemburgo.
Tratava-se do terceiro comboio com refugiados, que chegava à fronteira depois de outros dois terem ali parado, um em agosto, outro em outubro. O primeiro passara sem grandes dificuldades, o segundo já encontrara maior relutância das autoridades lusas. O terceiro não passou e foi mandado para trás ao fim de dez dias, que constituíram um tormento insuportável para quem ali esteve sujeito ao frio, à fome e à privação de acesso a casas de banho. Valeu-lhes a população da aldeia fronteiriça portuguesa, que se organizou para fazer chegar pão e sopa aos desgraçados.
Dado que os dejetos tinham de ser atirados da janela para a linha férrea, o maquinista ia avançando ou recuando uns metros diariamente para evitar o cheiro nauseabundo por eles suscitado.
Só ao sexto dia é que a chegada de um inspetor da PVDE permitiu breves saídas das composições para o recurso às casas de banho da estação.
Salazar tomou então a decisão criminosa, que deveria ter justificado o seu julgamento no Tribunal Internacional criado após a Segunda Guerra Mundial para apurar as responsabilidades dos que tinham perpetrado crimes contra a Humanidade. É que, mandando o comboio de volta para a fronteira francesa, o ditador condenava todas essas pessoas a uma morte certa. Só assim não ocorreu, porque os franceses também recusaram entrada aos refugiados, internando-os num campo de prisioneiros perto de Bayonne e depois facilitando-lhes a fuga. Mas cinquenta desses infelizes decidiram ficar na França ocupada sem imaginarem que nenhuma proteção os salvaria das câmaras de gás.
Será que esses condenados terão lembrado essa fronteira, que os separara da liberdade, quando se viram à beira do martírio? Não podemos imaginar, mas Margarida Magalhães Ramalho e Irene Pimentel entrevistaram dois dos sobreviventes desse episódio ainda vivos e eles quase o tinham esquecido, tão traumática havia sido a provação. O livro, que publicaram este ano na Esfera dos Livros - «O Comboio do Luxemburgo» - desmente quem ainda possa teimar em não reconhecer o carácter crapuloso do ditador de Santa Comba Dão. É, por isso mesmo, de leitura obrigatória.


sexta-feira, agosto 11, 2017

(EdH) Uma história de amor impossível

De Orfeu sabemos que perdeu Eurídice por não ter resistido a olhar para trás, quando a trazia resgatada do reino dos Mortos. Mas essa existência mítica é rica em episódios, que valerá a pena recordar. Por exemplo o seu imenso talento musical: quando tocava a lira, os sons eram doces como o mel, calorosos como a felicidade, tão fortes como o mais consistente dos metais. Bastava iniciar harpejos no instrumento e logo os lobos das florestas se silenciavam para o escutarem. E não se pense apenas na rendição de seres de carne e osso: os rios alteravam o curso para dele se aproximarem e os rochedos do subsolo vinham à superfície só para se deleitarem com tal talento. Que levava os próprios deuses do Olimpo, a dele se debruçarem para usufruírem de igual encantamento.
Semideus, Orfeu é filho de Calíope, musa da poesia e da eloquência, e do mortal Oiagros, rei da Trácia. Mas seria assim? É que, ao nascer, o deus protetor da luz e dos poetas, veio-lhe depositar no berço uma lira mágica com nove cordas, tantas quantas as musas. Razão para crescerem os rumores de ser ele o verdadeiro progenitor.
Ao crescer, Orfeu ganhou o prazer da viagem e da aventura, sendo saudado por todos com que se cruza. Uma manhã, na Tessálida, encontra Jasão a preparar a expedição para ir em busca do Tosão de Ouro, uma pele mágica pendurada num castanheiro n a Cólquide.  Zeus tê-la-ia oferecido a dois miúdos em perigo para com ela se esconderem dos perigos mortais em que incorriam. Um deles teria morrido durante a fuga, mas o outro chegara a esse distante porto de abrigo, onde a pusera sob a proteção de temível dragão.
Jasão tinha motivo imperioso para se apossar de tal objeto mítico: só dele possuidor conseguiria o acesso ao cobiçado trono do reino onde nascera. Fascinado pela possibilidade de ver mundos diferentes, Orfeu embarca no «Argo», juntamente com a elite dos príncipes de toda a Grécia, que perfazem a tripulação de cinquenta e dois argonautas. Será ele a garantir o sucesso do empreendimento: com as canções sossega as águas, acalmando-as e livrando os amigos das tempestades. Mas o perigo maior vem das sereias, seres maléficos que os querem enfeitiçar com os seus cânticos. Vale aos audazes, que os de Orfeu se lhes sobrepõem. Anos depois, nesse mesmo local, Ulisses tem de se aprisionar ao mastro e impedir todos os companheiros de ouvirem e verem tais seres para se livrarem dos seus manipansos.
E, com igual arte, Orfeu distrai o dragão e permite a Jasão apossar-se do desejado troféu.
Acabada essa epopeia, Orfeu vai até ao Egito, passando vinte anos com os sacerdotes de Mênfis. É aí que encontra a bela Eurídice, por quem se apaixona em dimensão assolapada: deusa dos bosques, ela é aquela com que sonhou toda a vida, a canção que nunca conseguiu compor.
Os deuses comparecem à boda, que fica ensombrada com o funesto presságio de uma tocha a apagar-se. O amor perfeito cumpre-se durante alguns meses até se precipitar a tragédia: internando-se num bosque Eurídice é assaltada por um pastor junto a um lago. Para escapar à violação foge-lhe e não consegue ver uma serpente, que a mata com a fatal mordedura. Quando vai á sua procura Orfeu encontra-a já cadáver.
Inconsolável decide ir aos Infernos, apesar de saber nunca ninguém dali ter regressado. Nas margens do rio Styx enfrenta o cão Cérbero e o seu dono, o barqueiro a quem acaba por convencer a transportá-lo na sua barca, recorrendo para tal ao seu talento na lira.  Aprofundando-se naquele espaço onde os mortos vagueiam, encontra-se com Hades e a sua rainha Perséfone, a quem comove com uma canção ilustrativa do seu infortúnio.
Convencidos por tão persuasiva confissão, Hades autoriza o regresso de Eurídice ao mundo dos vivos, na condição de Orfeu seguir adiante sem nunca se voltar para trás, sob pena de a perder de vez.
A viagem ascendente é difícil e tormentosa, mas Orfeu resiste. Ele bem sabe o que tem a perder.
Porém, quando já se avizinha a luz da superfície, e vencido pela dúvida de ver frustrado o seu desejo, não aguenta. Ao virar o pescoço para onde está a amada, é com horror que a vê desaparecer, puxada pelas inomináveis criaturas das Trevas.
Em vão tenta de Hades a correção do seu erro, mas já nem este tem o poder de alterar o inevitável. Mortificado Orfeu volta ao mundo dos homens e para eles fica como o símbolo de quem pressente a vertigem da vitória e tudo perde antes de a alcançar.
O luminoso cantor torna-se numa sombra do que fora: eremita só passa a compor temas melancólicos, pungentes. Acabará morto por acompanhantes do hedonista Dionísio, as ménades, que se espantam por ver-lhe a cabeça decapitada a prosseguir nos seus cânticos.