sábado, junho 24, 2017

(DIM) A nostalgia da inocência com que se ria tão facilmente

Era uma vez um miúdo que, uma manhã, deu com um circo instalado em frente à sua casa.  Que momento inesquecível: o espetáculo visto nessa noite tinha homens superfortes, anões, atiradores de facas, a mulher Hércules, um faquir que se deixou enterrar a metro e meio de profundidade na própria pista, a sereia Neptunia, os irmãos siameses apresentados em álcool num grande frasco. Mas quando vieram os palhaços o miúdo assustou-se, quis-se ir embora. Até porque lhe lembravam algumas das mais desagradáveis pessoas da aldeia: o sabujo que costumava assediar as mulheres com obscenidades, a freira anã sempre a falar sozinha, o mutilado da Grande Guerra, a viúva capaz de reproduzir de cor os discursos de Mussolini, os cocheiros da estação ferroviária sempre a invetivarem-se e a emitirem gases uns para os outros ou o louco ainda a julgar-se no teatro de guerra e a simular movimentos de ataque.
Talvez tenha sido essa primeira reação negativa ao espetáculo com palhaços a motivar Federico Fellini a rodar um filme sobre eles muitos anos depois. «Clowns», estreado em 1970, serve de vista ao passado, porque os circos pouco se assemelham aos da sua infância. Deixaram de apelar para uma certa inocência, perdida em favor de uma hipocrisia definitivamente instalada no quotidiano da sociedade contemporânea.
O projeto torna-se, então, numa sucessão de entrevistas com antigos palhaços, que vão discutindo como ainda pode ser possível fazer rir o público, cientes de já não resultarem as estratégias, que lhes haviam garantido tantos risos e palmas.
Pierre Étaix, então casado com mais mediática herdeira do clã Frattellini, sugere a possibilidade de ter ocorrido nas pessoas a perda da capacidade em se rirem.  Por isso mesmo, mais do que um filme sobre o circo, ou sobre os palhaços, acaba por constituir uma meditação sobre a solidão e a velhice, servido pela lindíssima banda sonora de Nino Rota.
No fundo Fellini recorre ao que o motivou em tantos filmes: a nostálgica evocação da infância confrontada com a sensação de perda de algo de indefinido nos seus tempos de adulto.


sexta-feira, junho 23, 2017

(DL) As histórias do adolescente Truman Capote

Li «A Sangue Frio» há mais de quarenta anos e esse relato sobre as circunstância em que dois pobres diabos matavam cruelmente uma família do Kansas deixou-me uma impressão muito forte, nunca mais esquecida. No entretanto vi o filme e acompanhei a polémica sobre o oportunismo do escritor, que teria subentendido aos homicidas a possibilidade de os livrar da condenação à morte, na condição de tudo lhe contarem - os factos e o que haviam sentido -, e nada fez para lhes evitar o expectável desiderato.
Fui, igualmente, lendo alguns livros de contos, que denotavam a sua inegável tarimba, mas nunca me chegaram verdadeiramente a entusiasmar. No fundo dava razão aos críticos, que viam Truman Capote como um escritor capaz de uma obra-prima inquestionável, mas incapaz de reencontrar a epifania, que a possibilitara. Talvez porque o gosto pela vida social e pelo álcool o privassem da ambiência criativa em que melhor explorara o talento. E se ele era real!
Aos 16 anos Capote publicou na revista «The Green Witch» um conto intitulado «A Encruzilhada», que dá bem conta do seu engenho: dois vagabundos param para arranjar um parco jantar ao ar livre, permitindo-nos  conhecer o quanto são opostos: Jake é imponente e vigoroso, Tim é um jovem delicado. A conversa permite-nos saber que o rapaz arranjou forma de ganhar dez dólares com que conta regressar a casa, pondo termo a uma aventura, que durara  dois anos.
Todos os diálogos e descrições criam uma tensão entre os dois personagens, connosco a imaginarmos o que sucederá: valendo-se da corpulência Jake espoliará Tim do seu «tesouro», impedindo-o de cumprir o destino de filho pródigo.  E, de facto, aproveitando a ida dele a uma quinta para trazer uma barrica com água, Jake surripia o dinheiro ao parceiro.
Quando Tim já se conforma com a triste sina, Jake despede-se dele, dando-lhe um aperto de mão, nela depositando a nota, que estivera tentado a fazer sua. No último instante possibilitara o cumprimento do sonho ao rapaz, já que ele nem capacidade já tem para o  imitar.
Este conto foi recentemente descoberto, com um conjunto de outros, nos arquivos da Biblioteca Pública de Nova Iorque, sendo publicados pela Random House sob o título de «Early Stories». Agora, a Grasset, verteu-os para francês e crismou-os de «Mademoiselle Belle».
O que se revela nos catorze textos, escritos por Capote quando tinha contava entre 15 e 19 anos, é uma espantosa maturidade e já a curiosidade pela gente simples do sul dos Estados Unidos. Quer com Tim, Miss Belle, Lucy ou Sally, somos mergulhados em universos efémeros, definidores de modos de vida e espaços que nos questionam e perturbam.

(DIM) Os equívocos de um discurso ideológico “irreverente”

Comecei a ver «Nunca Desistas» mais pela oportunidade de ver atores e atrizes, que aprecio - Maggie Gyllenhaal, Viola Davis, Holly Hunter ou Oscar Isaac - do que propriamente pelo tema, cujo conteúdo desconhecia.
A princípio fui-me deixando levar na onda: motivada pela má qualidade do ensino propiciado à filha, cuja dislexia a impede de saber ler numa idade em que isso já deveria ser dado adquirido, Jamie decide lançar-se num desafio tenaz: tomar de assalto a direção da escola. Compromete nesse objetivo uma professora ansiosa pela redenção, que a devolva ao idealismo da juventude, e possibilite ao filho, igualmente com problemas de aprendizagem, o ensino especial de que ele carece.
Enquanto tudo se cinge à luta de duas pasionarias , apostadas em sacudir o conservadorismo vigente, ainda ia dando o benefício da dúvida, muito embora já fosse evidente o primarismo da abordagem.
Eis, porém, que surge a denúncia de quem não pretende a mudança por mero interesse corporativo: o sindicato dos professores, mais interessado em salvaguardar os direitos dos associados do que em alinhar na transformação de uma realidade feita de manutenção de gritantes desigualdades entre os mais ricos e os mais desvalidos.
Tendo a experiência de estar sindicalizado há mais de quarenta e dois anos e de pertencer a corpos gerentes da minha associação de classe há trinta e muitos, sei bem como as organizações representativas dos trabalhadores não são perfeitas. Nelas tenho conhecido alguns caciques, mais apostados em defenderem os seus próprios interesses do que os de quem representam. Mas esses são casos de polícia, que mereceriam uma intervenção mais proactiva de quem é prejudicado e pactua com essa realidade. Mas o facto de haver a perversão dos princípios, que devem nortear os movimentos sindicais, não nos deve impedir de valorizar e exigir o seu respeito, sempre que eles são objeto de tratamento literário ou cinematográfico. Porque aí, mais do que se mostrar o que são, devem-se enfatizar os comportamentos que deverão ter.
É isso que não acontece neste filme de Daniel Barnz, exemplo típico do produto feito para vender gato por lebre. Algo em que as direitas mais conservadoras se têm especializado, muitas vezes se confundindo com discursos de esquerda radical. Com sucesso, como se tem visto em França ou em Itália, onde antigos eleitores comunistas se têm mudado, de armas e bagagens, para as extrema-direitas fascistas. Porque, em aparência, pouco os pareceriam distinguir.
A confirmação desta suspeição decorre da própria influência no argumento do filme de um conhecido propagandista do Tea Party, Philip Anschutz, conhecido por  campanhas populistas destinadas a dissociar os trabalhadores norte-americanos dos sindicatos.
Há, pois, que ter muito cuidado com o tipo de propaganda, que aceitamos subscrever: é que não foram poucos os meus amigos de esquerda, que começaram por entusiasmar-se com os discursos de Nigel Farage no Parlamento Europeu a invetivar Durão Barroso. Quem o via até parecia um clarividente militante das esquerdas! Até que se foi denunciando, mais e mais, na sua ardilosa essência de refinado canalha.

quinta-feira, junho 22, 2017

(DL) Russell Banks, o quase desconhecido

Que eu saiba Russell Banks só teve um dos seus muitos livros publicado entre nós: «Darling» e foi a Teorema que ousou divulga-lo há mais de dez anos. Sem sucesso - está-se mesmo a sentir! -, porque permanece desconhecido, apesar de não desmerecer dos mais conhecidos Paul Auster ou John Irving.
«Darling» , publicado em 2004, era a história de Hannah Musgrave, uma quase sexagenária que abandonava a sua quinta ecológica para regressar a África, onde vivera a partir dos anos 70, quando, jovem oriunda da burguesia de esquerda, decidira mudar-se para a Libéria e trabalhar num laboratório por conta de sociedades farmacêuticas americanas. Aí conhecera e casara com o Dr. Woodrow Sundiata, burocrata local, oriundo de uma das mais poderosas tribos do país e vocacionado para prometedora carreira política.
Acontecera, porém, a devastadora guerra civil e Hannah fugira dos seus sinistros efeitos regressando à América e deixando para trás os três filhos. O romance é o do regresso de uma mulher complexa, eivada de má consciência, e em busca da identidade por entre as mentiras e confissões, os erros e os arrependimentos.
Apoiante entusiasta de Bermie Sanders, Russell Banks nasceu no Massachusetts em 1940, passando a infância numa pequena cidade do New Hampshire. Estava a estudar na Universidade, quando se sentiu tentado pela Revolução Cubana, juntando-se às forças rebeldes de Fidel Castro. Não admira que toda a sua obra seja perpassada pela abordagem das barreiras sociais e raciais.
«Continental Drift», de 1985, expressa bem essa preocupação, com dois personagens, Bob Dubois e Vanise Dorsinville. O primeiro reparava caldeiras no New Hampshire e convencera a mulher e as filhas a mudarem-se para a Flórida para aí encetarem uma nova etapa passível de os libertar da pobreza. Ela era uma emigrante do Haiti, que viera com o bébé e o sobrinho à procura do pai deste último.
Existe, pois, a esperança num novo começo, mas que se revela ilusório: as dificuldades são tantas, que só encontram solidão, injustiça, desajuste em relação ao que prometia ser o espaço da utopia. A trágica condição humana confronta-se com a negação do sonho americano.
No pesadelo inerente à conquista da Casa Branca por Trump, Russell Banks teme sobretudo os ataques à liberdade de expressão, colocando-se na mira de quem detém o poder: “cada vez que um regime autoritário procura um inimigo o primeiro que encontra é um escritor!”.
Tenho agora em mãos o seu livro mais recente - «Voyager» - publicado em 2016. Trata-se de uma autobiografia pretextadas pelas muitas viagens que fez pelas Caraíbas, Andes, Himalaias. Revisita o encontro com Fidel, recorda os hippies de Chapel Hill, as experiências radicais, a fuga para Edimburgo para casar com a quarta esposa.  Mas o que sobreleva de todas essas evocações são as suas interrogações sobre o mundo, o balanço das relações com quem amou e desamou, numa permanente busca de si mesmo. Uma leitura que promete ser estimulante...

(S) Cancioneiro Popular norte-americano (I): «Working Girl Blues»

quarta-feira, junho 21, 2017

(DIM) Quando Johnny Guitar acorreu a salvar Vienna

Em 1954 Nicholas Ray assinou um dos grandes westerns da História do Cinema, filme que João Bénard da Costa escolhia como um dos que preferira ao longo da sua vida.
Existem interesses empresariais, que explicam a intenção de acabar com o bar gerido por Vienna (Joan Crawford num dos seus mais memoráveis desempenhos!), mas sobretudo a raiva de uma mulher ciumenta, apostada em matar quem a priva dos favores do Dancing Kid.
É a tão explosivo ambiente, que chega o cowboy da guitarra, esse Johnny, que parece bastar-se com um café e uma cigarrada. Na realidade ele vem ajudar a ex-amante a escapar à intriga da terrível Emma (Mercedes McCambridge), capaz de tudo quanto possa estar ao seu alcance para conquistar o coração de quem ama.
Truffaut dizia tratar-se de um belo filme “onde os cowboys desmaiam e morrem com a graça das bailarinas” e Ray demonstrava ser o género algo mais do que a acostumada guerra aos índios tal qual o estereotipavam os filmes com John Wayne.


(DIM) «Perfume de Mulher», o filme que garantiu o primeiro Óscar a Al Pacino

Em 1992, depois de revelar o talento em filmes bem mais interessantes, Al Pacino ganhou o seu primeiro Óscar da interpretação masculina com este papel de Frank Slade, um tenente-coronel, que estivera no Vietname e nos serviços secretos durante o mandato de Lyndon Johnson e cegara num acidente com granadas, quando estava embriagado. Trata-se, no fundo, de uma tradição da Academia de Hollywood: ou se esquece de quem mereceria receber a consagração - e o caso mais paradigmático aconteceu com «O Mundo a Seus Pés» de Orson Welles - ou, quando o faz, já é tarde, a desoras e por trabalhos aquém dos que deveriam ter sido premiados.
Quer isto dizer que, num ciclo consagrado a Al Pacino, este desempenho destoa dos já apreciados nos filmes anteriores? Nem tanto ao mar, nem tanto à  terra, muito embora haja neste trabalho em particular um aflorar do cabotinismo noutras circunstâncias bem mais contido.
Martin Brest, o realizador desta suposta adaptação do filme italiano do mesmo nome, assinado por Dino Risi em 1974 - mas quase com nada a assemelhá-los na estória! - mostra a habitual competência dos tarimbeiros de Hollywood, que não surpreendem pelo engenho, mas também não comprometem uma intriga bem urdida.
A vinte cinco anos de distância, quem viu o filme recordará sobretudo a cena do esplêndido tango dançado com uma desconhecida num salão de baile e que garantiu fama eterna a Gabrielle Anwar, que nunca mais conseguiu desempenho, que se assemelhasse a este. Mas tudo se define na relação de Frank com o jovem Charles, contratado por 300 dólares para o acompanhar durante o fim-de-semana da Ação de Graças, porventura o mais importante feriado anual norte-americano.
Cria-se rapidamente uma relação paternal entre o mal humorado militar e o rapaz acicatado por tantos problemas: já não lhe bastava ser um dos poucos pelintras (vale-lhe uma oportuna bolsa!) num colégio elitista destinado a preparar os betinhos para entrarem em Harvard, como tem às costas a ameaça de expulsão por resistir ao papel de bufo pretendido pelo diretor, que lhe exige os nomes dos três colegas, que o terão sujeito a uma partida humilhante.
Incapaz de controlar os acontecimentos Charles vê-se rapidamente num avião tendo por destino Nova Iorque, onde Slade reserva quartos no seleto Waldorf Astoria. É nesse voo, que o vê confessar o fascínio fetichista pelos variados perfumes das mulheres.
Seguem-se dias como nunca Charles sonhara viver: fazem-se transportar em limusines, comem em luxuosos restaurantes, compram fatos de corte irrepreensível. Slade está disposto a usufruir o que de melhor a vida lhe pode oferecer porque, como Charles não tardará a compreender, pretende fazer de tal viagem a sua despedida. Convencê-lo a não usar a arma de serviço contra si mesmo, é tarefa a que se entrega com suficiente competência para o ir disso dissuadindo. Mesmo que isso implique passar pelo susto de ver Slade pilotar um Ferrari em ruas movimentadas, apenas guiado pelas suas orientações.
O final será, obviamente, feliz: Charles verá resolvidos todos os seus problemas e Slade até regressa a casa com outra assertividade para  com os sobrinhos, que lhe suportavam os maus humores.
Quando se chega ao final podemos reconhecer que as duas horas e meia de filme poderiam ter sido encurtadas pelo menos de um quinto para se fixar nas bem mais aceitáveis duas horas. Mas não terá sido essa a decisão de quem se incumbiu da montagem final e só temos de nos acomodar a essa escolha...


terça-feira, junho 20, 2017

(DIM) As inquietações místicas de Terrence Malick

Houve um tempo em que me cheguei a interessar pelas religiões orientais. Andava pelo fim da adolescência e comecei a consumir vulgatas sobre os princípios básicos do budismo. O mais sério terá sido «Siddhartha» de Hermann Hesse, que constituía leitura obrigatória para a geração entre os quinze e os vinte anos nessa época da falsa Primavera marcelista.
Mas também umas coisas difíceis de definir - mas arquiváveis na prateleira das muitas vigarices nessa altura editadas em forma de livro - e que tratavam da experiência de um tal Lobsang Rampa, apostado em nos convencer da existência de uma suposta terceira visão.
Entre o miúdo, que abria os olhos para a indignação antifascista e o que se se questionava e considerava imperioso o conhecimento do eu, andei a vacilar. Tanto mais que esses foram, igualmente, os anos do fascínio dos Beatles pelo vizinho hinduísmo, fazendo publicidade não negligenciável a uns quantos gurus indianos.
Católico já há muito sabia que o não era, budista ou hinduísta nunca sequer me vi tentado a ser tão desinteressantes eram comparativamente com as idiossincrasias em crescente pertinência nas intimas preocupações.
Nestas décadas desde então cumpridas, tenho vivido bem na rejeição dessa condição espiritual, que muitos consideram inerente à espécie humana. O meu Ego é assumidamente contraditório, sujeito às circunstâncias, que o vão reaferindo, mas norteado por um conjunto de valores dos quais nunca abdicarei: os que condizem com a aproximação tão acelerada quanto possível ao objetivo da sociedade sem classes concetualizado por Marx e Engels. Fiz-me comunista de coração, vou sendo socialista na convicção de existirem etapas intermédias imprescindíveis para que o objetivo final não se veja desviado pelas perversas caricaturas das fracassadas tentativas ensaiadas ao longo do século vinte em diversos continentes.
As religiões, o consumismo desenfreado ou certas trapaças regularmente publicitadas para espantar os incautos - ovnis, teorias conspirativas e distrações afins - só servem para iludir os rebanhos acefalizados, diariamente levados para a tosquia das suas mais-valias, impedindo-os tanto quanto possível de questionarem as razões para uns terem tanto e as multidões azombizadas a quase nada acederem.
Foi essa constatação, que me suscitou «Cavaleiro de Copas», o filme que Terrence Malick realizou em 2015. Do autor sabemos o quanto durou o afastamento da indústria cinematográfica depois de estreia animosa nos anos 70. Em tão longo interregno foram muitos os cinéfilos a questionarem-se sobre o porquê de tal exílio, dada a consagração de muitos dos pares, igualmente revelados nesses mesmos anos, e a obrigatória transição para as séries televisivas dos menos bem sucedidos. Pressupunha-se nele a escusa a uma indústria em que não se reconhecia, preferindo-lhe a Filosofia em que se formara.
Algumas exceções a esse voluntário afastamento, uma no final dos anos 90, outra já a meio da primeira década deste século, anunciavam o que «A Árvore da Vida» viria confirmar em 2011: Malick regressava para traduzir em cinema a sua trabalhada cosmogonia interior, profundamente influenciada pelas tais religiões orientais, que haviam sido objeto da minha curiosidade, e de posterior  e convicta rejeição pelo jovem que fui.
«Cavaleiro de Copas» é o percurso iniciático do personagem interpretado por Christian Bale até à encosta da montanha da sabedoria que intenta escalar. A surpresa que me fica é como um  septuagenário se deixa inebriar por algo, que a Ciência tem persistentemente rejeitado ao investigar as profundezas dos nossos cérebros e só julgaria fascinantes para adolescentes a contas com as suas angústias metafísicas. Crenças absurdas como as da reencarnação, dos kharmas e conceitos que tais integram o lado das sombras de um combate de ideias, que importa ganhar em nome da Razão. Tal como acontecia no século XVIII, quando a Revolução Francesa prometia torná-la definitiva, ainda andamos a contas com a sustentabilidade da vitória das Luzes sobre as Trevas. Com efeitos relevantes nos dias que correm: Trump, Erdogan, Orban e tantos outros biltres da mesma espécie vão durando por persistirem essas manifestações sombrias nos nossos dias. Importa destrui-los, reduzi-los a pó com  a força da nossa iluminada aposta num futuro diferente.
O incómodo suscitado pelo filme de Terrence Malick é o da consciência de, pelos mais ínvios meios, haver quem continue a querer mergulhar-nos na inconsequente caverna de Platão.


(DL) O romantismo para além de Goethe

Menos celebrado do que Goethe, o seu contemporâneo Benjamin Constant é autor de um romance igualmente elucidativo quanto às características fundamentais do romantismo: «Adolphe», publicado em 1816.
Tendo-se tratado de obra surgida de longa gestação (dez anos), explora as subtilezas da análise psicológica, permitindo ao autor, através  do seu alter ego, explorar retroativamente os tempestuosos amores com Charlotte de Hardenberg, Madame de Stäel e Anne Lindsay.
O editor do livro apresenta-o como o relato de um tal Adolphe, jovem tímido e solitário, com quem se encontrara e que lhe confidenciara as vicissitudes justificativas da sua tristeza.
Desagradado com o progenitor, Adolphe saíra da sua Gottingen natal e instalara-se na corte de outra cidade alemã. A reputação de frívolo não o impede de seduzir uma mulher dez anos mais velha, Ellenore, que por ele ganha paixão incurável.
Tão só conquistada, Adolphe desinteressa-se dos seus favores, mas ela não se dá por vencida: “Não eram os arrependimentos do amor. Era um sentimento mais sombrio e triste: o amor identifica-se tanto com o objeto amado, que até no desespero conserva algum encanto.”
Para recuperar a liberdade, Adolphe regressa a Gottingen, mas ela segue-o até ali disposta a de tudo abdicar por ele: os filhos, a fortuna, a reputação.
Comovido com essa entrega, e para escapar à pressão paterna, que lhe exige o rompimento, Adolphe volta a partir, instalando-se com ela noutra cidade boémia, Caden. Mas, nem aí se consegue livrar dos ditames paternos, chegados através de um barão, amigo da família.
Seja por vontade própria, seja por tais imposições, Adolphe abandona Ellenore, que morre de desgosto. Não tardará a descobrir-lhe uma carta póstuma em que prevê que, sem ela, a vida se lhe acinzentará.
No epílogo o editor censura o protagonista em modo edificante: “O exemplo de Adolphe não será menos instrutivo se vos acrescentar que, depois de ter sacrificado o ser que o amava, não ficou menos inquieto, menos agitado, menos descontente.  Que não usufruiu da liberdade conquistada à custa de tantas dores e lágrimas. E que, justificando a censura, também se tornou digno de piedade.”.
Encontramos, pois, o tema principal da obra de Constant: a incapacidade do ser humano para ser feliz.

segunda-feira, junho 19, 2017

(AV) Os perturbantes significados da agulha de cozer

Na 13ª Trienal de Escultura, que está a decorrer em Bex, localidade suíça com vista privilegiada para o Lago Leman, uma das trinta e três obras expostas ao ar livre tem sido  objeto de particular atenção: trata-se de uma gigantesca agulha de 8 metros de comprimento enterrada no solo da autoria da Nicole Dufour.
A primeira tentação interpretativa do seu significado poderia levar-nos para a mítica Excalibur, a espada que faria de Artur o rei dos Bretões.
A artista confessa ter uma atração fetichista por esse objeto tão comum: porque é ambivalente, ora fazendo sangrar, ora curando ao permitir o tratamento de uma ferida aberta. Por isso tanto pode assassinar como reparar.
Não constitui, pois, motivo de espanto que a visita ao seu atelier permita encontra-lo com muitas outras esculturas subordinadas ao mesmo tema. Ademais, e quem o refere é a blogger Agnés Giard, a agulha também simboliza a bissexualidade, porque tanto penetra no tecido como é penetrada pela linha.
Avançando ainda mais nas conotações simbólicas da agulha, não deixa de ser perturbadora a ideia de, no passado, as meninas aprenderem a cozer, quando tinham próxima a puberdade: os sangramentos propiciados pelas agulhas, desajeitadamente manipuladas, permitiam-lhes aceitar mais facilmente o sangramento do corpo, levando-as a não se perturbarem ao surgirem as primeiras regras.
Compreende-se, pois, que os contos infantis - cuja inocência deixou de fazer sentido depois de analisados pelo psicanalista Bruno Bettelheim! - contenham tantos episódios de meninas picadas por objetos perfurantes, como era exemplo clássico o fuso da roca.
Por todas essas razões a obra em exposição da artista suíça comporta códigos de interpretação, que não se  lhe adivinhavam à primeira vista.


domingo, junho 18, 2017

(EdH) O fogo de Prometeu

Hesíodo contou-lhe a estória no século VIII a.C. no seu «Teogonia». Prometeu seria, doravante, um dos grandes vultos da mitologia grega, aquele que mais amigo se mostraria dos homens.
Nascido dos amores de Japeto e de Clímene, ele possuía a faculdade de pressentir os acontecimentos antes que ocorressem. Por isso mesmo, quando Zeus se rebelou contra o pai, Cronos, cujo poder ambicionava, ele e o irmão Epimeteu foram os únicos titãs a porem-se do seu lado, porque lhe adivinhavam a vitória. Quando isso sucedeu o Olimpo passou por um período de grande apaziguamento. Ao ponto dos deuses se aborrecerem com tanta monotonia.  Daí que Zeus incumbisse o filho, Hefesto, de criar os homens e os animais. As qualidades de uns e de outros seriam definidas pelos dois titãs, mas Epimeteu apressou-se a gastar todos os recursos disponibilizados por Zeus, investindo-os nos animais: a coragem, a força, a rapidez, a sagacidade e outras capacidades para sobreviverem. Quando Prometeu quis dotar os homens das mesmas e outras qualidades, já elas se tinham esgotado. Por isso ofereceu-lhes o fogo com que se aquecessem, iluminassem, se defendessem e até cozinhassem.
Embora ainda não existissem mulheres, a Humanidade viveu então numa Idade do Ouro: homens e deuses afastavam o tédio em festins constantes para que, mutuamente, se convidavam.
Zeus é que não apreciou essa quase igualdade entre uns e outros e decidiu sonegar aos homens a dádiva, que Prometeu lhes propiciara. Ora este, desobedecendo-lhe, entrou clandestinamente no Olimpo com a ajuda de Atena e foi roubar uma das achas ao fogo sagrado.
Quem poderia conter então a fúria do vingativo deus? Para transformar a vida dos homens num inferno, fez com que, do barro, Hefesto lhes criasse … uma mulher! O feminismo não tinha seguramente boa reputação na mitologia grega!
Pandora, assim se chamava ela, tinha as características nela vertidas por todas as deusas, nomeadamente a incontida curiosidade. Ora Zeus fá-la levar consigo uma caixa com a ordem expressa de nunca a abrir sob pena de acontecerem coisas terríveis. E elas realmente aconteceram, porque Zeus inserira ali todos os males imagináveis: a ganância, as pestes, a inveja, o ciúme, entre muitos outros, doravante à solta entre o género humano. Pandora não resistira à tentação de saber o que dentro dela se continha.
Vendo o seu erro fechou a caixa tão rapidamente quanto possível e por isso ainda lá conseguiu encerrar a desesperança. É essa a razão porque,  mesmo nos cenários mais terríveis, os homens ainda conseguem reatar as forças na expetativa de virem a acontecer melhores tempos.
Igualmente terrível a pena, que Zeus impõs a Prometeu: levado para ser acorrentado ao topo de uma das maiores montanhas do Cáucaso, ele seria continuamente bicado por terrível águia, que lhe devorava o fígado. E diariamente ele se regenerava para que a ave se continuasse a saciar…
Só mais tarde, e adivinhando que o supliciado tinha um segredo importante, que não lhe quisera revelar, Zeus o  mandou libertar dando a Hércules esse como um dos seus famosos doze trabalhos. Foi assim que o pai dos deuses ficou sabedor do que sucederia se persistisse no namoro com Tétis: o filho por ela gerado far-lhe-ia o que ele próprio conspirara contra Cronos. Daí que a nereida tenha sido dada de casamento a um mortal, Peleu, de quem teria um famoso filho: Aquiles.