domingo, maio 31, 2015

SONORIDADES: os sons e as histórias de Mogadouro (4º episódio de «O Povo que ainda canta»)

No quarto episódio da excelente série de Tiago Pereira dedicada ao «Povo que ainda Canta»  vamos conhecer os sons e os costumes do povo de Mogadouro, zona de caretos, gaiteiros e pauliteiros.
Nos Solstícios de Inverno algumas aldeias ainda resistem aos avanços da modernidade e mantêm os rituais ancestrais. E há histórias deliciosas como a do aprendiz de gaiteiro, que deixou de tocar por não suportar mais a ideia de ver a namorada a dançar com outros.
Existe igualmente uma malícia, se não mesmo uma explicitação crua da sexualidade nalgumas canções, entoadas com uma tal naturalidade, que nos leva a pensar se aqueles rostos, já muito marcados pelos anos de labuta, estão mesmo cientes do que estão a cantar. Muito embora muitos dos temas tenham a ver com a brutalidade de uma violência subordinada não só à sexualidade, mas também ao trabalho infantil.
Como sempre um documentário de visão obrigatória... 

PALCOS: «A Batalha de Não Sei Quê» pelo Teatro do Elétrico

Faltam apenas dez dias para sair de cena esta peça do Teatro do Elétrico, que está na sala da Politécnica gerida pelos Artistas Unidos. Não tão entusiasmante quanto «Mary Poppins, a mulher que salvou o mundo», ou mesmo as «Menos Emergências», que ainda há pouco revi no Trindade, a peça de Ricardo Neves-Neves é, porém, bastante mais interessante do que a maior parte dos espetáculos atualmente disponíveis em Lisboa. Porque, tal qual a veterana Custodia Gallego reconhecia há dias numa das emissões do «Inferno» no canal Q, a inteligência e a originalidade com que são criadas novos projetos no Teatro do Elétrico é de molde a justificar a nossa militante atenção.
Nest’”A Batalha de Não Sei Quê» temos uma brilhante demonstração do que pode ser o teatro do absurdo, na linha de Beckett, aplicado a um contexto, que se critica com particular acutilância.
Temos então uma batalha marcada para as cinco da tarde, o que suscita agrado em quem a irá protagonizar porque, pelo menos, é capaz de dar tempo para o lanche.
O tenente, que comanda as tropas, fala com tal rapidez, que come boa parte das palavras,. O aviador vai espreitar o inimigo e traz notícias alarmantes, que prenunciam uma iminente derrota, mas qual o interesse de tal possibilidade se encontra por ali uma espanhola concupiscente? Há também uma freira, que solta palavrões sempre que abre a boca. E um radio(telegrafista?) comunista, que dá belas preleções sobre os perigos dos crocodilos vislumbrados pelo aviador e vê o discurso deturpado pela hierarquia, que se põe a falar de cangurus.
Mas a mensagem mais explicita da peça é a de deixar o tenente a falar sozinho no campo de batalha, depois de ter matado todos os subordinados. Como metáfora da luta de classes não podia ser mais eloquente...

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «My Heart of Darkness» de Staffen Julen e Marius Van Niekerk

Na semana passada, no âmbito de um festival dedicado ao 40º aniversário das independências das ex-colónias, passou no Cinema S. Jorge um documentário de Staffen Julen e de Marius Van Niekerk, intitulado «My Heart of Darkness».
Datado de 2010, o filme remete para o título do romance de Joseph Conrad, que permitiu o ensejo a Coppola de rodar o seu «Apocalipse Now». Mas, embora algumas imagens iniciais citem explicitamente aquele filme passado no Vietname, os realizadores tomaram como referência maior o cambojano Rithy Panh, autor de documentários sobre o reencontro entre alguns antigos chefes khmers vermelhos e os sobreviventes do genocídio, que perpetraram.
Julen e Niekerk colocam no mesmo espaço um antigo militar sul-africano, um ex-guerrilheiro do MPLA, outro da UNITA e ainda um quarto envolvido na defesa do apartheid, combatendo o seu próprio povo.
Todos eles foram vítimas e carrascos, presenciaram e participaram em crimes horrendos, mas a palavra serve, agora, de catarse para os demónios que permaneceram nos cérebros como herança de conflitos já completamente falhos de sentido.
A questão, que o filme levanta é esta: será que o cinema poderá servir de fator de distensão de exacerbamentos relacionados com experiências bélicas já enterradas nas memórias, mas delas ainda a emergirem em imprevisíveis manifestações de violência?
Gostaríamos muito de assim crer... 

SONORIDADES: Os Tubarões estão de volta



A Câmara Municipal de Lisboa terá tido grande influência no reagrupamento dos Tubarões, que nos anos 70 e 80 tanto ilustraram a música de Cabo Verde.
Agora os tempos não estão para grandes militâncias e Ildo Lobo, o vocalista, já faleceu, mas é sempre uma boa notícia o regresso de quem tanto contribuiu para nos identificar com a excelente música do arquipélago africano. 

sexta-feira, maio 29, 2015

PLANOS CRUZADOS: Incongruência

Veneza vive do encanto dos palácios cujas paredes foram cicatrizando as marcas deixadas pelo tal arquiteto de que falava Marguerite Yourcenar, assentes em estacas de madeira apodrecidas.
Olhamo-los e há neles um sentido de efemeridade, que desafia a nossa imaginação. Por quanto mais tempo nos serão acessíveis as caminhadas pelos passeios, que ladeiam os canais, sempre capazes de surpreender quando se chega a uma esquina e não se adivinha o que atrás dela se esconde. Uma igreja barroca, uma pequena praça com cadeiras onde possamos descansar os pés, os ciprestes da ilha de San Michele?
Quando chega a invernia outros cuidados se têm de acautelar, que a acqua alta traz notícias do siroco, a soprar do sul para subir as ondas do Adriático.
É a patine das memórias ali acumuladas,  a trazer multidões de turistas que, uma vez, quando arrisquei o percurso entre a Praça de São Marcos e o Rialto, me fizeram crer na breve suspensão dos corpos como se, colados, formassem um todo único a deslocar-se às ordens dos guias turísticos e das suas multicolores bandeirinhas.
Por remeter a cada instante para o passado é obscena a passagem regular dos gigantescos paquetes, que desafiam as alturas do Campanile quanto ao melhor local para espreitar toda a laguna e, olhando para norte, vislumbrar os contrafortes alpinos.
Os «Costas», os «Sovereigns» ou os «Voyagers», na condição de modernos arranha-céus, constituem uma grotesca aberração na paisagem urbana, e ameaçam, nos esforços acrescidos das águas por si movimentadas,  os frágeis caboucos onde o espírito do lugar tão brevemente assenta.

quinta-feira, maio 28, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Deus Branco», uma metáfora húngara




Quando a Hungria era “comunista”, o seu cinema era do que de mais interessante provinha do antigo bloco de leste. Realizadores como Miklos Jancso ou Marta Meszaros mereciam atenção pela riqueza conceptual de cada um dos seus títulos.

Com a implantação de uma «democracia à ocidental», que resultou na atual ditadura de Viktor Orban, o cinema húngaro só não desapareceu porque Bela Tárr andou anos a lutar contra a corrente até se declarar farto com o seu desesperado «O Cavalo de Turim».

Este filme de Kornél Mundruczó, agora estreado em Lisboa, revela-se estimulante para diversos tipos de público. Na sua leitura mais direta agradará aos amigos dos animais, que apreciarão a forma como os cães rafeiros se revoltam contra a ordem de extinção de que são alvo. Muito embora se possam questionar quanto às declarações da produção em como nenhum dos quase trezentos animais utilizados nas filmagens sofreu com a aparente violência aqui ilustrada.

Mas, tendo em conta que essa ordem visa diretamente os que não são de raça pura, existem óbvias referências a uma realidade húngara, onde os ciganos são perseguidos, se não mesmo assassinados, e os dois partidos mais votados contêm em si os genes dos que, durante a Segunda Guerra Mundial, serviram de corte ao ditador Horthy no seu colaboracionismo com Hitler.

«Deus Branco» é dos filmes mais interessantes hoje disponíveis nos ecrãs lisboetas.

quarta-feira, maio 27, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: «Felicidade» de Will Ferguson (V)

Tínhamos deixado o protagonista do livro, Edwin De Valu, desesperado por ter perdido a súbita fortuna ganha em bolsa, a esposa, a casa e até a amante, May, para esse enigmático Tupak Soiree, de quem publicara o livro de autoajuda «O Que Aprendi na Montanha».
Os milhões de exemplares entretanto vendidos estavam a transformar toda a sociedade norte-americana, com grandes indústrias a claudicarem perante a vontade dos respetivos leitores em adotarem um comportamento assumidamente zen.
Encontramos, então, Edwin na Penderic Books para beber um último copo com o sr. Mead - também ele um dos que integravam o pequeno núcleo de 0,3% de leitores, que ficavam completamente imunes ao sortilégio causado pela prosa de Tupak.
Edwin sente que se está a viver um retrocesso civilizacional: “Os últimos quinhentos anos de desenvolvimento, progresso e pensamentos humanos; o Renascimento, o Século das Luzes, as árduas lições aprendidas com as guerras ideológicas do século XX; o triunfo sobre o dogmatismo; os grandes avanços na saúde e na medicina: estava tudo prestes a extinguir-se. A natureza humana, no seu melhor, sempre se baseara num profundo sentido heroico de inquietude, no desejo de alguma coisa - alguma coisa diferente, alguma coisa mais , fosse o verdadeiro amor, fosse um vislumbre para além do horizonte. Era a promessa da felicidade, não a sua concretização que mantivera todo o motor em marcha, a insensatez e a glória de quem somos. A insensatez e a glória: não se excluíam mutuamente. Muito longe disso.” (pág. 245)
Poderá parecer uma ideia muito simplista, mas não deixa de ser tentadora esta tese segundo a qual a evolução da história humana e, particularmente, a da sua organização económica, muito deve à ambição de se chegar a uma qualquer forma de realização pessoal, que deixa de ser satisfatória se alguma vez se revelar exequível.
Para Edwin é muito fácil designar um culpado, que mereceria ser castigado. “Tupak Soiree tinha levado tudo o que Edwin possuía: a mulher, a riqueza, a carreira e o futuro. Edwin era capaz de viver com isso. Mas Tupak Soiree  - um monstro que Edwin pusera à solta com as suas próprias mãos - destruíra igualmente May Weatherhill, sugara a seiva e a tristeza do seu corpo, transformara-a numa pessoa oca e extraordinariamente trivial. Por isso, Tupak Soiree, teria de pagar. (pág. 246)
Para arranjar os 50 mil dólares que um assassino profissional lhe cobra para matar Tupak, Edwin planeia socorrer-se do cofre de Mead. Mas, sem sucesso: não lhe adivinha a combinação. Mas também não precisa: o próprio Mead e o sr. Ética oferecem-se para o ajudarem na tarefa.
Serão bem sucedidos? É o que veremos no próximo texto dedicado ao livro de Will Ferguson...

terça-feira, maio 26, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIENTO: "Las Acacias" de Pablo Giorgelli (2011)




É a história de um motorista de camião obrigado a levar como passageiras uma mulher e a respetiva filha de cinco meses até Buenos Aires. O resultado é um encontro singular, filmado com pudor, e que impressionou o júri de Cannes em 2011, pois atribuiu-lhe a Câmara de Ouro.

Ruben já estava há trinta anos na profissão e sempre se habituara a grandes silêncios no périplo habitual, entre as capitais paraguaia e argentina. Por isso quando, em Assunção, recebe a ordem para encontrar Jacinta e Anahi e dar-lhes boleia até Buenos Aires, sente grande desconforto. Que transfere para a falta de cortesia com que as trata nas primeiras horas.

Em vez de apaziguador, como quando estava sozinho, o silêncio torna-se tenso, opressivo. Mas, á medida que se vão vencendo os 1400 quilómetros, o muro que parecia separar o condutor das passageiras vai-se fissurar.

Pablo Giordelli assina aqui a primeira longa-metragem, que tem a curiosidade de ser quase inteiramente passada no habitáculo do camião. É dele que se espreita para os campos a perder de vista onde a indolência impele os personagens a um adormecimento mesmo que de olhos abertos.

Lentamente vão emergindo as dores de Rubén e de Jacinta, que abrem espaço para a possibilidade de um amor à partida improvável.

SONORIDADES: O Algarve na série «O Povo que Canta»



O Algarve tem muitas manifestações da criatividade popular como se vê neste episódio da série realizada por Tiago Pereira.

segunda-feira, maio 25, 2015

IDEIAS: Será a improvisação uma escola da necessidade?

Que preparação se deve ter para conseguir improvisar? Será que a capacidade para compor no próprio momento decorre exclusivamente do virtuosismo? Quando se improvisa, é-se livre de tudo interpretar?
A conversa de filosofia desta semana na ARTE decorreu entre Raphaël Enthoven e Karol Beffa, que se doutorou em musicologia do século XX e foi premiado como compositor do ano em 2013.
Numa das suas cartas Rilke considerava imprescindível a solidão, que permitisse a máxima concentração de quem quisesse conceber uma obra artística. Como se apenas alcançando as profundezas de si mesmo fosse possível avançar para a expressão de uma criatividade espontânea.
Uma das escolas de improvisação apostava na possibilidade de se esquecer tudo quanto se soubesse e encarar com a máxima virgindade possível o desafio de criar. «Não te esqueças de esquecer!» era a regra que impunha a quem se predispusesse a compor algo num instante bem preciso..
Beffa considera-se doutra escola, influenciada por John Cage, em que o compositor aborda a improvisação como o momento em que opta por escolher dentro de um vasto leque de possibilidades em si interiorizadas como resultado de influências várias.
Mais do que recorrer à memória, o improvisador utiliza o que lhe ficou incrustado ao nível das reminiscências. Será algo de semelhante ao que Kasparov disse um dia, quando descreveu a sua forma de jogar xadrez: limitava-se a deixar as mãos agirem por si mesmas. Como se a improvisação mais não significasse do que uma memória sem recordações.
Quando se trata de escolher um compositor, que muito deva à improvisação, Beffa decide provocar com a escolha pouco óbvia de J.S. Bach. Mas para ele faz todo o sentido: tratando-se de um dos compositores mais cerebrais com que contou a História da Música, ele tem obras, que muito devem a momentos inspirados de improvisação. Depois, e recorrendo à sua memória prodigiosa, Bach tê-los-á vertido para a pauta…
Essa passagem de algo de efémero para a forma escrita pode ser vista como contrária à memória se nos ativermos ao diálogo entre dois faraós tal qual o imaginou Platão no seu «Fedro». Um deles confidencia ao outro:
- Acabo de descobrir algo de absolutamente genial para que tudo perdure: a escrita!
E o outro riposta:
- Estás enganado! Acabas de descobrir o que melhor facilitará o esquecimento!
Nessa lógica, Enthoven questiona: será que a escrita constitui um bom pretexto para o esquecimento?
Beffa prefere colocar a questão conflitual entre a interpretação e a notação em pauta. Porque aquela nem sempre se dispõe a seguir rigorosamente o que foi composto.
A improvisação pode surgir do que se imagina entre as notas da pauta. E Mozart não se privava de, como intérprete, desrespeitar o cânone.  Porque sempre nele habitou algo de criança e a improvisação corresponde, de facto, a algo de infantil. Faz, então, todo o sentido distinguir entre a criação e a criatividade, constituindo esta última uma forma original de interpretar algo que foi criado.

domingo, maio 24, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Setembro» de Penny Panayotopoulou (2013)




Neste filme grego, datado de 2013, uma mulher fica inconsolável após a perda do  cão e torna-se insuportável para os vizinhos cuja vida tenta invadir.

Se o filme fosse mais recente, posterior à vitória do Syriza, poderíamos considerar que estávamos a braços com uma metáfora ao gosto do sr. schäuble:  alguém que perdeu algo de inestimável - aqui o seu bicho de estimação, mas podemos sempre vê-lo como a da qualidade de vida, que não se pensa poder recuperar - e se torna extremamente incómodo para quem tem o azar de viver ao lado.

Ao princípio a família de Sofia e de Stathis até começam por lhe dar conforto afetivo. Mas não tarda que Anna, que via nesses vizinhos o símbolo da felicidade, se torne omnipresente e se imiscua no seu dia-a-dia. Fartos dela, esses efémeros amigos, acabam por rejeitá-la.

Temos, assim, um filme que começa por abordar o luto de um animal de estimação, mas depressa evolui para as questões da perda e da reconstrução de si mesmo.

Mas o mais ambígua é a leitura propiciada pelos acontecimentos posteriores, pelo que vê-lo hoje é diferente de o ter feito há dois anos, quando se tornou particularmente digno de atenção pelas interpretações femininas de Kora Karvouni e Maria Skoula, então premiadas no Festival de Karlovy Vary.

ESTÓRIAS DA HISTÓRIA: Pelas terras da Rainha do Sabá? (2)

Em texto anterior víramos como, em 1871,   Karl Mauch encontraria as ruínas do que parecia ter sido uma majestosa cidade  de desconhecida civilização africana. Seriam os vestígios da mítica terra da rainha do Sabá, que tanto entusiasmara o rei Salomão?
As dificuldades, que enfrentara, eram incríveis tendo em conta a falta de apoios oficiais para as suas explorações. Para as autoridades alemãs as origens modestas de Mauch desaconselhavam qualquer ajuda, apesar do esforço autodidata por ele há muito assumido para levar a peito uma ambição, que lhe perdurara desde a infância.
Na perspetiva preconceituosa dos que lhe recusaram acintosamente o apoio, só quem provinha das classes mais privilegiadas deveria ter condições para ganhar glória e proveito com esse tipo de expedições. Até porque esse tipo de aventuras africanas eram caras e muito arriscadas: dezenas de europeus já ali tinham morrido de febres ou de encontros inamistosos com as tribos locais. Mesmo contando com riqueza bastante para contratarem elevado número de nativos incumbidos de lhes transportar as volumosas cartas com alimentos, ferramentas e armas.
De início Mauch nem dinheiro tinha para o bilhete de barco para os portos africanos donde pretendia iniciar o seu périplo. Por isso, com 27 anos, oferece-se como voluntário para a tripulação de um navio, que escalaria Durban. Estava-se em 1864.
Finalmente, o navio chegara a África” - escreveu no seu diário. - “Como ansiava por aquele momento em que, pela primeira vez, iria pisar aquela terra estranha.”
Mas a realidade de Durban e a existência de muitos colonatos europeus na África do Sul colidiram com a expectativa de Mauch de se tratar de uma terra por domar.
Em 1865 várias tribos constituíam a África do Sul, muito embora já preponderassem os xhosas e os zulus. Os brancos que aí se tinham estabelecido não chegavam a 250 mil.
Para sua surpresa, Mauch sentia-se mergulhado num mundo estranho mesmo numa floresta à beira das zonas mais europeizadas. E começou a suspeitar de que África constituiria um desafio bem mais difícil do que aquele para que se preparara.
Entrei na selva densa. Árvores altas com troncos sombrios crescendo juntos uns dos outros. Podia ouvir-se o mais ínfimo ruído. Sentia-me dominar por uma sensação de medo e terrivelmente isolado no meio da estranha natureza.”
Acabou por superar o medo e avançou a pé até ao que é hoje a fronteira norte da África do Sul. Levou três semanas em tal caminhada, aceitando trabalhos ocasionais em fazendas a troco de comida e abrigo. E apanhou boleia de uma das caravanas, que levava mantimentos para um dos colonatos fronteiriços.
No tempo livre tomava notas, fazia esboços e recolhia espécimes. Apaixonou-se pelo país, mas antipatizou com os colonos, particularmente os boers, que considerava pouco civilizados e cruéis para com os negros.
Para os boers, um ‘kaffir’ ou um nativo de cor não é um homem.”
Passados vários meses encontrava-se onde pretendia: no limiar da África desconhecida.
“Pensei para comigo que tinha passado a fase preparatória da expedição e que iniciava verdadeiramente a da viagem em si.”
- textos baseados num documentário da National Geographic

sábado, maio 23, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: «Felicidade» de Will Ferguson (IV)

No texto anterior tínhamos ficado na altura em que toda as grandes empresas da sociedade norte-americana começam a claudicar, porque o livro de autoajuda de Tupak Soiree incita os executivos a irem à pesca e a generalidade da população a adotar comportamentos zen em vez de viver obcecada com as rotinas do dia-a-dia.
Entra, então, em cena uma personagem, que acompanhará o protagonista quase até ao fim: Robert Alascar, aquele que tinha alcançado fama como Sr. Ética pelos livros sobre tal temática para a Penderic Books mas, entretanto, encarcerado por fraudes fiscais.
Ao contrário do que ocorrera com a maioria dos seus leitores, o livro de Tupak deixara-o furibundo, pelo que  foge da prisão para se vingar do responsável pelo êxito de quem lhe sucedera na coleção de que se tinha sido praticamente o exclusivo autor.
Desconhecedor do perigo em que incorre, Edwin procura salvar May do apocalipse, que adivinha iminente: “É uma bomba-relógio, May! Uma bomba-relógio a trabalhar pronta a rebentar a qualquer momento. A convulsão a que assistimos até agora … a indústria do tabaco, o colapso das empresas de bebidas alcoólicas … não é nada May. É só a primeira vaga. Temos quase dez milhões de exemplares no prelo e é só a primeira vaga. O pior ainda está por vir.”(pág. 195)
Para Edwin torna-se cada vez mais evidente que toda a economia capitalista assentava nas fraquezas humanas, nos maus hábitos e nas incertezas. Na dúvida pessoal e na insatisfação, que impulsionava a vontade de consumir.
“Pensa no que podia acontecer, se as pessoas fossem realmente, verdadeiramente felizes. Se se sentissem verdadeiramente satisfeitas com as vidas que levam. Seria calamitoso. O país inteiro paralisava” (pág. 196), continua ele enquanto tenta convencer a indiferente May.
“As clínicas de emagrecimento e os ginásios de musculação foram os seguintes a entrar em colapso., seguidos de perto pelo mercado da ginástica doméstica e das curas milagrosas da calvície” (pág. 198). As vendas de «O Que Aprendi na Montanha” já então ascendem a 45 milhões sem fim à vista.
Seguiu-se a indústria do pronto-a-comer, ou seja os McDonald’s e a KFC. Os cosméticos nas prateleiras, os grandes armazéns às moscas. A moda morreu sem dar luta.
Perante a expetativa de lhe ser devolvida a fortuna recentemente ganha na Bolsa, Edwin despede-se do emprego sem avisar, nem se despedir de quem quer que seja e surpreende-se com o silêncio na Grand Avenue. Mas já está a imaginar o potencial de um movimento rebelde de pessoas dispostas a recusarem-se a desistir dos maus hábitos, quando chega a casa e constata ter Jenni vendido tudo quanto ali  existia para financiar a nova vida de concubina junto de Tupak Soiree. E, na manhã seguinte, antes de conseguir a transferência da fortuna para paraísos fiscais, conclui, horrorizado, que também por ali passara a ação de limpeza de Jenni...

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Os segredos mais recentes do exército de terracota» de Ian Bremmer (2014)

Em 1974, quando o decrépito Mao assistia, impotente, às batalhas no topo do Partido Comunista Chinês para definir quem deteria o poder após a sua morte, um modesto camponês de Xian decidiu procurar água na sua terra fustigada por rude seca e encontrou vestígios de uma antiga civilização.
Por mero acaso descobria-se o mais vasto monumento funerário conhecido, mandado construir há mais de dois mil e duzentos anos pelo primeiro imperador chinês, Qin Shi.
Apostada em ganhar reconhecimento internacional e fazer esquecer os excessos da Revolução Cultural, a liderança chinesa depressa recorreu ao espanto suscitado por tal descoberta arqueológica para suscitar boa imagem na imprensa internacional, que já conseguira encetar com o encontro histórico entre Mao e Nixon.
Mas, à medida que iam sendo desenterradas novas estátuas, e o exército dos soldados em terracota - construídos para assegurarem a proteção do imperador no Além e garantirem-lhe o sucesso da governação nessa outra dimensão -, começava a ganhar aspeto ia-se justificando o crescente interesse da comunidade científica internacional e do público em geral. Porque, muito embora se soubesse da terrível crueldade do soberano - implacável com qualquer oposição aos seus ditames - a sofisticação dos achados arqueológicos só podia impressionar. Não só pelas estátuas, de que hoje já se conhecem mais de mil, todas elas diferentes entre si, mas também pelas armas, cuja composição científica e arquitetura demonstravam uma clara superioridade do exército do imperador face aos seus vizinhos, o que explica a facilidade com que os foi conquistando até agregar todos esses reinos adjacentes numa nova unidade territorial, que ficou doravante conhecida como China.
O documentário de Ian Bremmer reconhece a prudência com que avançam os trabalhos arqueológicos, já que se adivinham mais oito mil estátuas ainda por desenterrar e restaurar, e sobretudo alcançar o túmulo do próprio Qin Shi, que se perspetiva como tendo uma magnificência inimaginável. Mas os arqueólogos estão cientes de não terem ainda competências técnicas para evitar que se estrague mais do que se descubra, se se quiser avançar demasiado depressa na prospeção do que ainda está escondido no subsolo.
Fica mais do que demonstrado que existe trabalho para muitas décadas com novas e imprevisíveis revelações ainda por colher. O Exército dos soldados de terracota está longe de ter revelado todos os seus segredos...

sexta-feira, maio 22, 2015

SONORIDADES: o 2º Episódio de «O Povo Que Ainda Canta»



Entre Pinhel e a Guarda a câmara de Tiago Pereira capta testemunhos da vida e da música de quem ali vive há décadas.
As vozes desafinam e os dedos nas cordas ou nas teclas vão falhando de vez em quando, mas a espontaneidade é o que mais avulta nesta série.
Podemos adivinhar muitos preconceitos cristalizados  nas  cabeças desta gente, mas aqui e além os versos exprimem uma irreverência, que a faz sair dos formatos nelas incrustados por gerações de padres .

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: O Cinema pode dispensar o romance?

Será que o cinema é viável sem o apoio do romance literário? Eis a questão que Frédéric Bonnaud decidiu colocar a diversos convidados entre cineastas, argumentistas e escritores no documentário «Le Cinéma peut-t-il se passer du roman»», que integra a coleção «Histoires de cinema», e foi realizado por Florence Platarets e Xavier Villetard.
Como ponto de partida escolheu um lugar comum tão velho como o cinema: um bom livro significa um bom filme.
Mas será mesmo assim?
Hoje a sétima arte serve-se da literatura como se ela correspondesse a um tesouro inesgotável de histórias por contar, a tal ponto que um em cada dois filmes resulta da adaptação de um romance.
É quase uma regra incontornável: um sucesso literário resultará num filme, de forma mecânica e quase automática. Ou seja, mediante uma adaptação preguiçosa e sem qualquer esforço de originalidade. Ainda que muitos realizadores dignos desse nome consigam enriquecer o material sobre que se baseiam e proponham uma leitura inédita e apaixonante.
Veja-se como Luchino Visconti conseguiu ser tão bem sucedido com a adaptação de «Morte em Veneza» de Thomas Mann, embora depois falhasse com estrondo a que quis fazer de «O Estrangeiro» de Albert Camus. Ou como Coppola partiu de um romance de Joseph Conrad passado no Congo colonial e o transformou num filme apaixonante passado na Indochina com «Apocalipse Now».
Uma questão para  a qual é difícil encontrar resposta é a de se saber como adaptar uma obra-prima? Tanto mais que ela tem de ser lida em função da época em que se roda o filme. Por exemplo a adaptação de «Le Rouge et le Noir» de Stendhal resultou num filme dos anos 50, que contava com Gérard Philippe e Danielle Darrieux, dois dos melhores atores do seu tempo. E, no entanto, a solução adotada por Autant Lara e os argumentistas, que consigo trabalharam, de nada serve a Mathieu Amalric, que anda às voltas com um novo projeto de o adaptar, mas com tal ambição em ser fiel ao romance que está a transformá-lo numa impossibilidade quase certa de vir a ser concretizado.
Algo de semelhante ao que se passou com os milhares de páginas, que integram o «À Procura do Tempo Perdido»,  abordado por sucessivos cineastas sem grande sucesso e provavelmente melhor ilustrado pela forma como Bertrand Bonello cuidou recentemente da biografia de Yves Saint-Laurent.
Mas o documentário mostra-se estimulante em muitos outros aspetos, quando entrevista Wes Anderson a propósito do «Grand Budapest Hotel», que quis passar para o cinema o universo de Stefan Zweig e não tanto um qualquer dos seus romances em particular. Ou num filme de arquivo com Marguerite Duras, que só aceitava a passagem de romances para cinema por uma questão de ganhar dinheiro, porque quando Jean Jacques Annaud se atreveu a filmar «O Amante» ela logo tratou de reescrever a história  numa nova versão - «O Amante da China do Norte» - como que para recuperar-lhe a respetiva posse.
Numa fascinante viagem pelos bastidores dos autores e do seu esforço criativo, fica a concluir uma piada muito engraçada de Hitchcock, que contou um dia o que sucedera com duas cabras  quando estavam a comer erva num campo, e deram por si a mastigar restos de película cinematográfica. Pergunta uma delas à parceira:
- Então, o que achas?
- Não está mal, mas o romance era bem melhor!