sábado, dezembro 10, 2016

(DL) Sobreviver ao massacre

Daqui a poucas semanas cumprem-se dois anos sobre o atentado cometido em 7 de janeiro nas instalações da redação do «Charlie Hebdo». Para os que escaparam com vida a superação psicológica da experiência não tem sido fácil. Como é o caso de Catherine Meurisse que escapou por nesse dia se ter deixado dormir até tarde e comparecer atrasada à reunião do comité de redação.
O desaparecimento de tantos amigos, colegas e mentores, foi para ela um choque devastador. Ali ficava o seu espaço criativo, a sensação mais evidente de liberdade. Tal qual a sentira nos dez anos anteriores. É que, em 2005, ainda estudante de Belas Artes, fora para ali contratada.
 Nos dias seguintes à fuzilaria ela perdeu a memória e a imaginação, temendo ver cerceado em definitivo o seu percurso profissional.
A questão da identidade era a mais relevante: afinal andavam todos a dizerem-se Charlie e ela a questionar-se sobre quem era. As imagens de manifestações e de um consenso político a nível global sobre o horror, que se viera instalar-se na vida, foi sentido por Catherine como algo de assaz exterior às próprias emoções.
Vendo-a devastada os amigos metem mãos à obra e levam-na para sul ao encontro da paisagem deslumbrante da Duna do Pyla, perto de Bordéus. Oportunidade para ela se ver acometida de inesperada epifania:  o choque estético com a beleza no seu estado puro.
Tinham-se passado quinze dias e ela recomeça enfim a desenhar, a desenhar-se. Porque é isso que se lhe torna urgente: descobrir como se tornou protagonista de uma história tão perturbadora. Decide, pois, representar o medo na forma de uma parede invisível, que se vê obrigada a atravessar e onde deixa para trás, pendurado, o célebre quadro de Munch.
A superação desse medo só tem nela uma resposta: a focalização voluntaria só no que é Belo. Se tem de operar a catarse, que ela se concretize tão-só pelo recurso ao que pode haver de mais gratificante na arte, na cultura, na vida em si.
O regresso ao seu antigo emprego ficou excluído como hipótese. Embora continue a trabalhar como ilustradora, Catherine optou por o fazer sem vínculo exclusivo a um qualquer grupo editorial. Como free lancer conserva o estatuto de liberdade, que se tornou o único em que reconhece exequível a continuidade do seu trabalho. O mais recente é um álbum intitulado «Ligeireza» e refere-se a isso mesmo: com tantos motivos para dificultar a vida de todos os dias a solução reside em ignorá-los e, em alternativa, empolar tudo quanto a possa suavizar.
Não é aquilo que todos desejamos?

quinta-feira, dezembro 08, 2016

(A) Tallinn, uma capital com a dimensão de uma aldeia

Se dos vários continentes colhi experiências múltiplas entre o deslumbramento e a inquietação, em todos eles deixei - pelo menos até agora! - muito por conhecer. Dos três Estados bálticos, que integraram a União Soviética até aos anos 90, só estive na Letónia, tendo sido Ventspils o primeiro porto estrangeiro a que cheguei de navio em 1975. Nada então me levaria a pensar que as coisas tais quais eram, tornar-se-iam muito diferentes em apenas década e meia.
Nunca conheci Tallinn, mas a sua vida cultural denota um dinamismo que suscita admiração. Apesar da realizadora Triin Ruumet a considerar uma aldeia com pretensões a ser entendida como cidade, pois todos se conhecem entre si e até lhes é possível identificar laços familiares mais ou menos próximos.
É dela o filme «The days that confused», passado nesses anos imediatos à independência, quando a juventude se viu perante uma liberdade desconhecida e com que não sabia lidar. O vazio a que ela a condenava era quase sempre afogado em muito álcool.
Uma alternativa é o canto e, surpreendentemente, numa cidade tão pequena existem 330 grupos corais. Há quem diga que esse gosto por partilhar experiências musicais está no ADN de cada estónio. Um desses coros é o «Sereen» de que fica aqui proposto um clip.
Os estudantes de Artes e Arquitetura da respetiva academia andam ocupados com uma tarefa proposta pelo professor Hannes Praks: procedem ao estudo aprofundado de todas as esculturas de um grande edifício barroco do século XVII até agora fechado ao público. Espera-se que, em breve, as suas portas se abram para enriquecimento do circuito que leva muitos turistas a  arriscarem-se nestas latitudes nórdicas, onde as longas noites de inverno conseguem ser tão densamente escuras como o breu.
Há também quem, com a sua colaboração, se dedique a investigar novos materiais destinados a substituir os plásticos e em que a ligação dos compostos orgânicos é feita com mel ou café.
O percurso cultural ainda pode passar pela casa-museu de Flo Kasearu, construída em 1911, quando a Estónia viveu um curto período de independência antes da ocupação russa, e expropriada até há sete anos, altura em que foi devolvida à família. Ela decidiu fazer um museu subjetivo bem humorado em que propõe um olhar sobre o presente e o passado do país.
Interessante, pois, esta capital europeia onde a população russa constitui 1/3 da que aí vive e onde a sua influência no próximo governo é tida como determinante.


(C) Laplace e a dimensão do nosso desconhecimento

Admirável o percurso biográfico de Pierre-Simon Laplace, sobre quem acabo de ler exaustivo ensaio. Como cientista devem-se-lhe inúmeros contributos desde a imposição do sistema decimal ao cálculo de probabilidades, passando pela explicação da mecânica celeste.
Os detratores, que foram muitos, acentuaram a volubilidade das suas convicções políticas ora sendo prestável súbdito do último dos Luíses do século XVIII, ora adotando intenso fervor revolucionário durante o período compreendido entre a tomada da Bastilha e a consagração de Napoleão como imperador, a quem logo prestou apoio.
O conúbio com o poder valera-lhe nomeações para cargos públicos com as inerentes regalias. Que não perdeu com a breve ressurreição monárquica depois do exílio do corso em Santa Helena, porque logo se declarou a favor do novo soberano.
Mas algo houve com que nunca transigiu: o ateísmo, que via como consequência incontornável da persistente busca de explicação científica para tudo quanto ignorava. Razão justificativa das suas derradeiras palavras: “O que conhecemos é muito pouco, o que ignoramos é imenso… O homem apenas persegue quimeras.”
Nesse sentido terá convergido com Newton, cujas descobertas científicas o haviam fascinado, mas em quem nunca entendera a insensata tentativa de as conciliar com a crença num ser divino.  O que o antecessor inglês dissera - “fui como uma criança jogando à beira-mar (…) enquanto o grande oceano da verdade se estende inexplorado diante de mim” - era outra forma de estabelecer a comparação entre o que conseguimos compreender e o que nos falta saber para se alargar a dimensão desse conhecimento.

(DIM) A Qualquer Custo

Um western a que convirá dar atenção. Pelo tema, pelos atores, pela ambiência desassombrada de um país acabado de cair nas malhas de Trump e seus cúmplices.

(EdH) «O suor poupa o sangue» de Pascal Cuissot

Quando o marechal Vauban morreu em Paris, em 1707, Luís XIV dedicou-lhe um lacónico elogio fúnebre: “perdemos um dedicado servidor à nossa pessoa e ao Estado”. No entanto, durante meio-século, Vauban foi o grande impulsionador da modernização da França ambicionada pelo Rei-Sol, contribuindo para que este consolidasse o poder e ganhasse enorme prestígio por toda a Europa, através da construção de imponentes praças-fortes e novas urbanizações.
Vauban era um infatigável construtor assinando os projetos de mais de uma centena de cidadelas ou fortalezas, que protegerão as fronteiras da França, e ainda hoje persistem de pé.
A sua vida (1633-1707) confunde-se com a do reino de Luís XIV, que foi um dos mais longos e memoráveis da história francesa.
O filme de Cuissot mistura a ficção com o documentário para biografar este estratega militar, que tinha um fascínio incomum pelas viagens de estudo.
O século do Rei-Sol não se cinge aos faustos da corte, nem à grandeza da monarquia, como se constata nesta pintura histórica, que constitui, igualmente, uma reflexão política sobre o percurso de um homem que, depois de ter servido zelosamente o soberano, não disfarçou as interrogações sobre a legitimidade do absolutismo quando o reino continuava a ter tantos súbditos a viverem na maior das misérias.

quarta-feira, dezembro 07, 2016

(DIM) Sabemos para onde vamos, mas desconhecendo com que custos

Ao ver um programa televisivo sobre as mais recentes estreias nos cinemas nacionais constatamos que o enfoque publicitário vai para as grandes produções protagonizadas por atores reconhecidos como garantes de boas receitas («Aliados», com Brad Pitt e Marion Cotillard) ou com o tipo de temas procurados pelos adolescentes como pretexto para comerem pipocas e beberem coca-colas (mais uma eniésima versão de filmes de vampiros construídos com a habitual parafernália de efeitos especiais).
A eleição de Trump e a ascensão das extremas-direitas como sintoma da exigências dos mais timoratos com os efeitos das mudanças sociais e tecnológicas em curso pode significar uma transformação nos gostos já expressa com a Palma de Ouro de Cannes atribuída ao filme de Ken Loach, que aqui temos repetidamente valorizado nos dias mais recentes: «Eu, Daniel Blake».
É que se a classe trabalhadora tem orientado mal as suas escolhas políticas, não deixa de parecer inconformada com a tentativa de silenciamento da sua voz e aspirações. A fase em que pareceu acomodar-se à ideia de ser sua exclusiva culpa não encontrar emprego digno desse nome ou qualidade de vida bastante para substituir as frustrações pela esperança, está a dar lugar  a outra em que, mesmo apoiando quem dela tenta cavalgar em nome de valores sinistros,  exige ser ouvida e respeitada. Assim saibam as esquerdas identificar, compreender e canalizar a expressão desse crescente protesto e traduzi-lo numa estratégia política reorientada para os grandes objetivos transitoriamente perdidos com as fraudulentas Terceiras Vias.
Esse clamor de desencanto à espera de se integrar num consistente movimento de protesto, também aparece noutro filme que por aí anda, intitulado «Estive em Lisboa e lembrei de você». Realizado pelo português José Barahona cuida do triste percurso dos que atravessaram o oceano atraídos pela possibilidade de aqui encontrarem uma espécie de Eldorado e acabam por se ver humilhados por quem lhes explora as fragilidades. O retrato de nós traçado - um país colonizador, que não quer ser colonizado - é pouco lisonjeiro. E o mais comum neste tempo em que funciona o cada um por si e Deus contra todos, é não se encontrarem mais soluções alhures do que aquelas igualmente sonegadas onde se (sobre)vive.
Ganham, pois, superior interesse os filmes que conciliam o lado ficcional com o documentário objetivo das realidades existentes. E podem até só cingir-se a esta última vertente como ocorre com «Eis o Admirável Mundo em Rede» do alemão Werner Herzog. Ele aborda a história e os futuros possíveis da economia digital com o sentido pedagógico de dar a conhecer algo ainda pouco divulgado sobre o quanto irão mudar as nossas vidas.
Herzog traz-nos o desafio de uma mudança de paradigma, que muito tem a ver com o sofrimento de Daniel Blake ou do brasileiro Sérgio, porque muito do que fundamentava o direito ao trabalho de milhões de pessoas, passa a ser produzido por algoritmos de sofisticados programas de software. Trata-se, pois, de uma proposta cinéfila de testemunho deste momento histórico em que se vislumbra nitidamente para que tipo de futuro evoluímos, mas em que quem dele fica marginalizado ainda detém capacidade bastante para lhe procurar quixotescamente travar o passo.


(DL) A desnorteada bússola de Franz Ritter

Na sua longa noite de insónia em Viena, Franz Ritter tem em Sarah a sua obsessão: inacessível objeto do desejo, não tem como dela se aproximar. Não só viu-a derivar cada vez mais para o Oriente, estando algures numa floresta malaia, como ele próprio foi acometido de depressão debilitante. Nas suas reflexões lamenta saber pouco da família dela que, oriunda da Argélia, se radicara em Paris depois da independência.
Aí uma de muitas coincidências os poderiam ter aproximado: ambos tinham vivido próximo um do outro, exatamente em sítios onde Balzac habitara. O mesmo Balzac, que em Viena conhecera o grande amor da sua vida: a Mme Hanska. E também ele um apaixonando pelo orientalismo, a moda criada e desenvolvida a partir da estadia forçada de Napoleão Bonaparte no Egito.
Todo o romance de Mathias Enard, que tem Franz por protagonista - «Bússola», aqui lida na versão francesa - tem uma erudição inesgotável, apresentada muito naturalmente sem parecer forçada.
Franz é também musicólogo e evoca o último concerto de Beethoven ao piano, quando estava já bastante surdo e não detetava a disparidade entre o que as suas mãos teclavam e os sons efetivamente ouvidos pela desconcertada audiência. No fundo algo que se assemelhava à equívoca relação amorosa, que teria desejado concretizar com Sarah: “interpretamos sozinhos a nossa sonata, conduzidos pelos respetivos sentimentos, sem percebermos quão desafinado está o piano. Os outros compreendem bem como soamos a falso, quiçá incomodados com a nossa humilhação que os perturba, sem serem tidos nem achados para ela.” (pág. 97)
Estava a Síria ainda muito distanciada da guerra civil, que agora a destrói, quando aí tinham partilhado experiências memoráveis, como a de uma inesquecível expedição ao deserto: sobretudo uma noite passada numa tenda de beduínos entre Palmira e Rusafa, quando o céu lhes parecera tão puro e as estrelas tão numerosas que quase tocavam no solo.”  (pág. 117)
Nesses dias Sarah sentira-se extremamente feliz no convívio com dezenas de orientalistas por muito que alguns lhe parecessem paranoicos nos ódios, que entre si alimentavam.
Alepo servira-lhe para visitar os locais por onde, décadas atrás, tinha passado a sua admirada Annemarie Schwarzenbach. Por esses dias, sempre na sua sombra, Franz vivera sob intenso sortilégio:  “éramos príncipes do Ocidente, que o Oriente acolhia e tratava como tais, com requinte, obsequiosidade, suave languidez, em conformidade com a imagem mítica construída na nossa juventude. Era como se vivêssemos nas perdidas terras das Mil e Uma Noites, apenas para nós ressuscitadas.” (pág. 118).
Essas eram terras de sons envolventes, que relembram a Franz a tese antiga, que poucos levaram a sério: a música erudita dos séculos XIX e XX muito devera ao Oriente. “O exotismo tinha um sentido, que incorporava em elementos exteriores, do domínio da alteridade (…) para sacudir a ditadura do canto religioso e da harmonia.” (pág. 120)

terça-feira, dezembro 06, 2016

(DIM) Quando os monstros não são só os que nos quiseram vender

Uma das experiências impressionantes da minha vida foi ter estado na ex-Jugoslávia nos finais dos anos 80 ficando impressionado com o clima de liberdade e de tranquilidade ali então vivido. Dubrovnik, a cidade de que mais gostei, ficou-me como uma das mais belas desses Balcãs, mesmo tendo em atenção os seis meses então igualmente vividos na Grécia, suficientes para a conhecer razoavelmente desde Atenas até ao cabo Sounion.
Não poderia imaginar que, meia dúzia de anos depois, toda a República do marechal Tito se embrulharia numa guerra fratricida de que resultariam umas quantas novas nações independentes. Entre elas a Eslovénia, que me viria a ser tão próxima por razões familiares.
Essa guerra resultaria em mais de cem mil mortos, vitimados pelas ações de guerra entre sérvios, croatas, bósnios e eslovenos e, embora se as tenda a esquecer, igualmente pelas suscitadas com os criminosos bombardeamentos da NATO a Belgrado.
Sem escamotear a responsabilidade dos dirigentes sérvios na agudização de um conflito para o qual a Alemanha e o Vaticano se encarregaram de atiçar os seus aliados católicos e muçulmanos, a guerra dos anos 90 nos Balcãs foi a expressão da ambição expansionista de quem mandava na NATO para se aproximar mais e mais das fronteiras da Federação Russa, eliminando-lhe um a um os potenciais aliados.
E porque acabaram por ser derrotados no esforço para manter unida a nação jugoslava, foram os sérvios quem se viram diabolizados como culpados pelos genocídios de parte a parte cometidos.
Se à conta de Milosevic, de Karadzic e de Mladic foram cometidos muitos crimes, também o croata Franjo Tujman ou o bósnio Hashim Thaçi não lhes ficaram atrás, porque guerra era a guerra e ninguém revelava grandes escrúpulos para com quem considerava inimigo.
No entanto se os líderes sérvios acabaram em Haia para serem julgados no Tribunal criado para os crimes cometidos na ex-Jugoslávia, os opositores não foram beliscados na sua liberdade de movimentos acabando até por se tornarem presidentes dos seus novos países.
Em 2014 Aleksandar Nikolic acompanhou vários meses na vida do advogado Marko Sladojevic, que integrava a equipa de defesa de Radovan Karadzic. Algo para ele paradoxal pois, antes de se radicar na Holanda para estudar Direito Internacional, participara durante dez anos na contestação ao regime de que o seu cliente era um dos mais expressivos líderes.
Embora incompreendido por antigos companheiros de estudos e de lutas, e até mesmo pela própria esposa, a eslovena Tina de quem se chega a separar durante alguns meses, Marko está decidido a fazer bem o seu trabalho. A ética profissional sobrepõe-se à que radica nas suas passadas emoções.
O que começa a descobrir surpreende-o: Karadzic pode ter sido um torcionário, mas muitas das provas contra ele criadas foram construídas por quem pretendia provar a existência de genocídios.
Um dos exemplos mais evidentes eram as fotografias de corpos supostamente executados em Markale em cujo solo não se detetava qualquer mancha de sangue. Comprovava-se, pois, que os promotores da prova fraudulenta tinham pegado em corpos arranjados num qualquer outro local e os tinham ali dispostos para criar um maior efeito cénico. No fundo algo que bem conhecemos como estando a passar-se atualmente em Alepo e «comprado» facilmente pelos «jornalistas», que pretendem criar de Bashar al Assad a mesma imagem monstruosa.
O documentário - «O Advogado da Sérvia» - poderia suscitar nalguns expeditos defensores das teses sobre quem sãos os ditadores e quem são os democratas algum sobressalto de inquietação. A singela pergunta se será mesmo verdade aquilo de que os querem convencer e fazer altifalantes. Mas convenhamos que a grande maioria já se deixou formatar para «verdades», que se lhes incrustaram como axiomas indiscutíveis...
 

(C) O Nuclear tal qual se tornou assustadora ameaça

Nos anos 50 existiam dois tipos de reatores nucleares: o reprodutor, cujo protótipo era o EBR-1, e o de água leve.  O primeiro reproduzia plutónio e podia recicla-lo repetidamente. O segundo era bem mais simples, mas produzia muitos mais resíduos, tendo sido escolhido pelo almirante Rickover para ser utilizado nos submarinos. Foi, igualmente,  por sua influência, que se tornou no principal reator comercial em utilização.
Os primeiros técnicos envolvidos na indústria viram a utilização dos reatores de água leve como um trampolim de curto prazo para a verdadeira produção de energia nuclear, assegurada pelo reator reprodutor. A seu ver seria ele a garantir a quase exclusiva produção de energia elétrica a nível mundial.
A opção pelo reator mais barato e mais poluente foi uma opção comercial ditada pelo medo de que a União Soviética, também produtora da tecnologia, se antecipasse aos americanos na conquista dos mercados europeus. É para tornarem as suas instalações mais interessantes, os norte-americanos desenvolveram intensa campanha de marketing intitulada «Átomos para a Paz».
As centenas desse tipo de reatores espalhados por todo o mundo causaram resíduos numa escala inesperada  e cujos danos ambientais perdurarão por milhares de anos. Razão para dar à energia nuclear uma má fama ainda mais justificada.  Foi o custo pago pela mira do lucro, sem qualquer preocupação quanto às consequências futuras, e com as decisões exclusivamente ditadas por executivos sem qualquer formação técnica para compreenderem o que comercializavam.
A principal central nuclear comercial dos EUA foi construída em Shippingport, na Pensilvânia. Era uma versão modificada de um grande reator dos submarinos. Um dos grandes motivos para a companhia de energia a querer foi o facto de o carvão criar muita poluição em Pittsburgh. A energia nuclear dava a impressão de ser limpa tal qual é.
Os primeiros reatores eram pequenos, mas as empresas produtoras de eletricidade  que os estavam a encomendar, intencionavam aumentar-lhes a dimensão e a potência o mais rapidamente possível. A segurança, em vez de vir embutida no próprio reator passava a ser-lhe construída à volta e exigiam-se sistemas de refrigeração do núcleo para evitar acidentes. Nessa fase a hipótese de eles virem a ocorrer ainda era diminuta, mas não impossível como se verificou em Three Mile Island onde a sucessão de uma pequena avaria e de más decisões dos operadores suscitaram a libertação de emissões radioativas para o exterior.
Duas semanas antes estreara-se nos cinemas o filme «Sindroma da China» com Jane Fonda, Jack Lemmon e Michael Douglas, que haviam preparado as multidões para a exequibilidade de verem os anunciados perigos converterem-se em realidade. O movimento «No Nukes», que rejeitava as armas e as centrais nucleares ganhou então uma dimensão coletiva, que parecia tornar irreversível a travagem dessa indústria.
A central de Shoreham, em Long Island, estava pronta para arrancar, quando o governador do Estado decidiu encerrá-la. Hoje ainda existe como um mausoléu de época distante...

(DIM) Quando já só se tem o nome para defender

Há alturas em que um Homem só tem o nome para defender. E é isso que Daniel Blake sente quando o escreve nas paredes exteriores da agência da segurança social onde se viu, semanas a fio, impossibilitado de vencer os meandros burocráticos impeditivos de receber o subsídio de desemprego ou a pensão de sobrevivência a que deveria ter direito.
A saúde declinou tanto, que os médicos desaconselham o regresso ao seu ofício de carpinteiro. E a persiste a sofrida memória da esposa, cuja ausência lhe suscitou tal vazio e desorientação, que mal sabe como vencer e só lhe agudiza o desespero.
Ao acompanhar-lhe os dias labirínticos entre casa e as instituições que o deveriam apoiar, Daniel Blake torna-se num gémeo de Josef K., o personagem de Kafka igualmente enredado numa teia de que não mais se conseguirá desenvencilhar. A burocracia revela-se a impiedosa arma ao serviço de quem comanda a sociedade para manter submissos quem a pode pôr em causa.
Nessa altura não há como esquecermos os projetos de Mota Soares em privatizar alguns serviços da Segurança Social, quando era ministro do setor no governo de Passos Coelho. É que a agência visitada por Daniel pertence a uma multinacional norte-americana a quem o governo inglês incumbira de lidar com os seus desempregados e reformados. E, como sempre que se entregam serviços a interesses privados, movidos apenas e exclusivamente pelo lucro, o objetivo é o de reduzir despesas para o Estado. Mesmo que o efeito seja o de assassinar lentamente quem deixou de estar em condições de ver explorada a força do seu trabalho.
Mas as vítimas não são só essas: a jovem Kate, mãe solteira de dois filhos, igualmente enredada nos mesmos labirintos de quem lhe nega os direitos a subsídios indispensáveis para a sobrevivência mais básica, acaba por se render à prostituição como modo de assegurar comida no prato para a família.
Ao ver «Eu, Daniel Blake» percebe-se bem porque Ken Loach infletiu na decisão de, chegado à condição de octogenário, abandonar a realização de filmes: é que a realidade social do seu país, e da Europa em geral, é demasiado grave para se sentir alheado de a tentar mudar à medida das suas capacidades.
Em tempos idos poderíamos considerar excessivo o recurso às emoções para viabilizar um discurso cinematográfico, mas chegámos a uma tal  manipulação das consciências por quem as quer vergar ao conformismo de aceitar as coisas tais quais estão, que Loach reivindica o direito a recorrer ao mesmo discurso primário com que se as aliena virando-o em sentido inverso.
Se é a solução para espevitar os oprimidos a saírem da sua inércia e se movimentarem no sentido da expressão determinada da sua indignação, pois que se a utilize. Muito mais do que nos anos 60 e 70, o cinema militante volta a ter carácter de urgência, porque a luta de classes apenas se atenuou por incúria das esquerdas e da sábia administração de distrações pelas direitas, mas continua a justificar intensa agudização.
No fundo a praia continua a existir por debaixo das pedras da calçada e já temos experiência bastante para concluir que os impossíveis são exequíveis, desde que os reivindiquemos...

segunda-feira, dezembro 05, 2016

(DL) O sargento Germano de Melo e os que o rodeiam

Às vezes são-nos mais interessantes os personagens dos livros, que andamos a ler do que as pessoas reais com quem nos cruzamos no dia-a-dia e já incapazes de se dissociarem dos estereótipos em que as catalogámos.
No ano em curso tem sido interessante conhecer a personalidade e as vicissitudes por que passa Germano de Melo, sargento do exército português, apanhado pela guerra contra os Vátuas em Moçambique na última década do século XIX. Ele é o protagonista de «A Espada e a Azagaia», o segundo dos títulos de Mia Couto integrado na trilogia «As Areias do Imperador».
Antes de chegar à colónia banhada pelo Índico, ele era um jovem republicano, que se batia tenazmente contra uma monarquia acobardada perante os ingleses de quem lhes acatara o Ultimato e, sobretudo, face aos crescentes movimentos de contestação social contra os quais não viria a encontrar outro antídoto, que não fosse a ditadura de João Franco.
Só neste volume vimos a conhecer o seu traumático passado familiar, porque condicionado por um pai abrutalhado e por uma mãe demasiado timorata perante ele para lhe poder prodigalizar os carinhos, que o marido exigia serem só para ele.
Colocado inicialmente no posto avançado de Nkokolani, que mais não era do que uma cantina para as trocas comerciais entre as populações negras e os colonos, Germano conhecera aí a bela Imani por quem se enamorara. O seu desejo, quase impossível de realizar, seria regressar à metrópole na sua companhia, fazendo-a esposa legítima, mesmo custando isso a ostracização de todos quantos os rodeassem.
Militar consciencioso começara a enviar relatórios para  quem o tutelava de uma posição na retaguarda. No segundo romance da trilogia «As Areias do Imperador» esses textos terão como remetente o tenente Ayres de Ornelas, cuja ambição desmedida só encontra paralelo com o ódio visceral, que dedica ao comissário António Enes.
Se no primeiro título da série a própria cidade de Lourenço Marques fora atacada por dois dos lugares-tenentes de Ngungunyane, nesta continuação os exércitos negros estão em perda, tendo sido derrotados na batalha de Magul.
Germano que fugira do seu posto, quando o vira atacado - perdendo alguns dedos das mãos nesse momento infeliz - vai recolher-se à missão de Sana Benene, onde, além de Imani e do respetivo pai, surgem outas figuras até então desconhecidas. O padre Rudolfo, por exemplo, é objeto de desconfiança das autoridades portuguesas, que o creem dúplice em relação aos dois lados em disputa.
Bibliana, a feiticeira, que reivindica ser o “marido” do padre, é uma mulher impressionante cujos poderes mágicos criam misterioso sortilégio à sua volta.
Bianca, a italiana vinda de Lourenço Marques para cobrar dívidas a quem afinal já morreu, perspetiva a hipótese de levar Imani consigo de regresso à grande cidade, ciente do potencial por ela representado enquanto futura meretriz.
Santiago da Mata é o militar que Ornelas enviou para resgatar Germano das perigosas companhias em que se encontra. Boçal na forma como recorre frequentemente ao vernáculo para impor-se perante os outros, também ele se preenche de expetativas quanto à possibilidade de vir a ganhar promoção pelas suas sucessivas escaramuças com os inimigos...
Outros personagens, entretanto aparecidos e desaparecidos, vão surgindo aqui e acolá, como sucede com Katini e Mwanatu, respetivamente o pai e o irmão de Imani.
Quase a chegar ao final da leitura deste volume, acompanho Germano no forçado retorno à retaguarda do exército luso, quando Imani, também ela contra vontade, é levada á presença de Ngungunyane com quem deverá casar … e matar. 

domingo, dezembro 04, 2016

(C) A energia nuclear terá futuro?

Se com Barack Obama as energias renováveis pareciam conhecer uma utilização crescentemente intensiva de forma a tornar obsoletas as centrais nucleares, de carvão ou queimando hidrocarbonetos, a futura administração Trump faz orelhas moucas aos alertas ambientalistas e prepara-se para devolver aos Estados Unidos a condição de primeiro poluidor a nível mundial.
Existe atualmente em curso uma campanha destinada a conferir ao nuclear um conjunto de virtudes, que subestimamos ao atendermos ao sucedido em Three Mile Island, em Tchernobyl ou em Fukushima. As imagens televisivas desta última a explodir ainda estão bem presentes na nossa memória para que escamoteemos os riscos inerentes a termos a Central de Almaraz tão perto de nós.
Primeiro foram as imagens terríveis da devastação causada pelo tsunami seguida da nuvem radioativa, que levou muitos norte-americanos da Costa Ocidental a inquietarem-se quanto à probabilidade de virem a sofrer as consequências da contaminação de materiais radioativos  libertados a tantos milhares de quilómetros de distância.
Para dar início a uma reação em cadeia basta um neutrão tal qual se pode ver num velho filme didático da Disney em que se prometia o advento de uma revolução maravilhosa por conta do átomo, capaz de assegurar o essencial da produção de energia. Havia também o submarino «Nautilus», que chegaria ao Pólo Norte movido a energia nuclear e as crianças ficaram fascinadas.
A energia nuclear iluminaria cidades e não se limitaria a alimentar a propulsão de submarinos. Essa campanha, ocorrida nos anos 50 do século passado, dava uma visão muito positiva da nova forma de energia até por assegurar postos de trabalho bem remunerados. Afinal meio quilo de urânio bastariam para produzir energia até então assegurada por cinco mil barris de petróleo.
No Idaho, a criação do primeiro reator, o EBR-1, provara que o conceito fazia sentido cientificamente. Embora comportasse a má fama de já ter sido utilizado para fazer bombas, que não se limitavam a ser armas: eram a janela aberta para o Armagedão. As histórias vindas de Hiroshima e Nagasaqui tiveram um impacto profundo, demonstrando que, mais do que fonte de energia, o nuclear era essencialmente uma arma.
Depois, os testes continuaram indefinidamente com referências à radiação causada pelo estrôncio 90. Em poucos anos, norte-americanos, russos, chineses e franceses fizeram mais de dois mil testes com armas nucleares.
As crianças nascidas nessa altura tiveram pesadelos com ataques terríveis de que se tornavam raros sobreviventes e as próprias escolas contribuíam para esse temor constante com os frequentes simulacros. Os mais amedrontados andaram por essa época a construir abrigos nucleares no quintal.
Por muito que os defensores da utilização civil da energia porfiassem no oposto, o nuclear ganhou má fama e justificou mobilizações entusiásticas para ser travado.
No espaço mediático até uma série como os Simpsons contribuiu para essa cultura antinuclear com Homer a ser um descuidado funcionário da central de Springfield, cujo dono era um ganancioso milionário sem ponta de escrúpulos.
Há quem, porém, se questione contra os dogmas estabelecidos por essa altura...