quinta-feira, agosto 25, 2016

(L) Uma arrivista mal sucedida

À partida até poderíamos socorrer-nos da psicanálise para explicar o caso de Magda Goebbels que, agora, se confirmou ter por pai biológico um judeu assassinado em Buchenwald. Aparentemente ela constituiria exemplo lapidar do principio de detestarmos nos outros, aquilo que mais odiamos em nós mesmos. 
Explicar-se-ia, assim, o entusiasmo pelo nazismo ao ponto de, no momento do suicídio, coincidente com o de Hitler e Eva Braun na sala ao lado do bunker  de Berlim, tenha assassinado os seis filhos por não ser a Alemanha doravante merecedora de os ter como seus cidadãos.
Que mãe desnaturada é capaz de praticar tão hediondo crime?
A biografia de Magda deixa-nos atónitos com o que pode representar um caso extremo de arrivismo. É que em jovem, e ciente da sua origem judaica, ela andara perdida de amores por um dos principais teóricos do sionismo, só por acaso tendo escapado ao destino de se enfileirar numa comitiva destinada a um dos kibutz então em formação na colónia britânica da Palestina.
Apesar de não se lhe reconhecerem grandes atributos de beleza, ela conseguiu desposar um riquíssimo industrial alemão, muito mais velho do que ela,  e de cujo divórcio garantiria a condição de uma das mais ricas descomprometidas da cidade de Berlim na viragem para os anos trinta, objeto de desejo dos mais ambiciosos peralvilhos.
A relação e posterior casamento com o futuro ministro da Propaganda do III Reich tem um objetivo em vista: só os nazis estariam em condições de lhe salvaguardarem a riqueza herdada do ex-marido contra os comunistas, por quem tinha profundo ódio. Não admira que se tenha enchido de fervor patriótico e de prosápia ariana numa das primeiras manifestações em que pôde ouvir Hitler.
Durante doze anos, ou seja acompanhando toda a ascensão e queda do regime nazi, Magda esteve no topo do mundo, apresentada a todos os alemães como o paradigma da dona-de-casa ariana cujo exemplo deveria ser escrupulosamente seguido. Quem é que nos cada vez mais dilatados domínios do Reich ignorava a identidade dessa loura, que surgia amiúde ao lado do marido e do próprio führer?
Saberiam Goebbels e o próprio Hitler - seu provável amante - que ela era efetivamente judia? Teria ela conseguido apagar dentro de si as memórias do progenitor cuja morte não lhe parece ter suscitado qualquer reação e cujo destino teria podido, mas não querido alterar?
Se é verdade que o hábito faz o monge, levando-o a forçar-se a acreditar no que, à partida, não lhe faria qualquer sentido, podemo-nos interrogar no que terá sentido Magda ao suicidar-se no estertor do nazismo. Terá tido a noção que, quinze anos antes pusera todas as suas fichas na casa de um tabuleiro de jogo acreditando no superjackpot estando afinal a assinar a sua sentença de morte?
Nunca poderemos imaginar o que se passaria na sua mente. É que se Hitler conseguiu congregar tantos monstros à sua volta, Magda sempre deu a ideia de a quase todos suplantar em perversidade, em malvadez...

quarta-feira, agosto 24, 2016

(L) «Roderick Hudson» de Henry James

Henry James publicou o seu primeiro romance em 1874, quando estava a decidir-se pela mudança para a Europa.
Compreende-se, pois, a razão de ser de Roderick Hudson o protagonista dessa primeira obra mais ambiciosa. Ele é um jovem advogado, de quem se espera um futuro brilhante, mas decidido a abandonar a carreira, a mãe e a noiva para se radicar em Roma e tornar-se escultor.
Manifestamente autobiográfico, o romance também revisita o passado de James, que ensaiara o talento para as artes plásticas antes de se decidir pela escrita.
Roderick conhece rápido sucesso produzindo obras admiradas pelos seus novos amigos. Até conhecer Christine Light, uma bela jovem, por quem perdidamente se enamora, mas cujos pais destinavam a um príncipe italiano.
Apostados em fazerem-no sair da depressão, que lhe passara a inibir qualquer produção artística, os amigos convocam Mary Garland, a antiga noiva, para o vir consolar, mas o resultado é pífio: para Roderick a comparação entre ela e a bela Christine só agudiza o desgosto de saber esta última no leito de outro homem.
Igualmente chegada a Roma, a mãe convence-o a ir viajar para, porventura, noutras paragens, esquecer o seu desgosto. Mas, por coincidência, Christine e o esposo também estão na Suíça, quando ele ali chega.
Eis então que, enquanto leitores, nos vemos surpreendidos: em vez de pôr Roderick a desafiar o príncipe italiano para um duelo ou a exigir à rapariga, que fuja com ele, ei-lo a cair acidentalmente de um precipício pondo cobro à possibilidade de um desvario ultrarromântico.
Temos, assim, uma história com personagens muito lineares do ponto de vista psicológico, sendo pouco crível que, mesmo por frustração amorosa, alguém caia tão subitamente das mais elevadas e inspiradas alturas para o mais inexorável dos abismos. Trata-se, pois, de obra imatura, mas a anunciar algumas das características principais da obra futura do escritor.

(V) Quatro semanas em 1945

Há momentos da História, que me fascinam por quanto neles sucedeu, ao suscitarem consequências bastantes para mudarem a face do mundo tal qual então existia. O intervalo entre a morte de Roosevelt em 12 de abril de 1945 e a capitulação nazi em 8 de maio, é um desses períodos, porque a política norte-americana formatou-se para se revelar despudoradamente imperialista no pós-guerra.
À data da tomada de posse do medíocre Truman  - cuja insignificância era tal, que o antecessor nunca o levara consigo para as conferências com Churchill e com Estaline -, as tropas aliadas avançavam para Berlim, pondo fim ao sonho nazi de um mundo regido por uma raça superior e que redundara em cidades destruídas e milhões de vítimas nos dois lados do conflito.
No Pacífico o exército japonês, que semeara o terror e a morte por todo o continente asiático nos últimos oito anos também estava exausto, com a Marinha Imperial quase inteiramente afundada.
Se nas sucessivas batalhas do Pacífico os americanos contabilizavam novecentas mil baixas, as japonesas ascendiam a um milhão e cem mil. O ministro da Guerra, general Korechika Anemi não via forma de repatriar as centenas de milhares de soldados, que tinha na Manchúria, quanto mais para reforçar o dispositivo militar em Okinawa, cuja perda equivaleria à derrota definitiva por muito que, em público, e nas reuniões ministeriais nunca se eximisse de reivindicar uma vitória final graças ao espírito japonês de lutar até à morte sem aceitar qualquer forma de rendição.
Na primeira reunião com a sua Administração, Truman nada alterou à estratégia seguida por Roosevelt, embora se apressasse a designar James Byrnes como seu nº 2 na qualidade de Secretário de Estado. Muito ambicioso e também sentindo indisfarçável desprezo por Truman, Byrnes é um falcão, que já imagina um pós-guerra à medida dos interesses norte-americanos.
Truman também foi informado da existência de uma nova bomba, que poderia precipitar a definição dos acontecimentos na Ásia. Tratava-se do Projeto Manhattan, liderado pelo general Leslie Groves que já deparava com as resistências éticas do responsável científico Robert Oppenheimer (ambos na foto). Este adivinhava que a nova bomba alterararia definitivamente as regras das guerras futuras dando aos líderes políticos a capacidade de destruírem a Humanidade.
Groves nada queria saber desses escrúpulos e comprometeu-se com Truman em ter a bomba de urânio pronta para meados de julho. Razão porque a casa Branca fez chegar às autoridades de Tóquio a exigência da capitulação sem condições logo no dia subsequente à celebração europeia da vitória.
Na reunião ministerial desse dia o primeiro-ministro Suzuki já não alimentava ilusões quanto ao que viria a acontecer, mas os militares não abandonaram a sua prosápia guerreira e até equacionaram a necessidade de tomarem o poder num golpe de Estado.
Em apenas quatro semanas os primeiros sinais da Guerra Fria estavam a revelar-se em Londres e em Washington.

terça-feira, agosto 23, 2016

(V) «Boa Noite Cinderela»

Dos realizadores nacionais, que ainda não deram o salto da curta para a longa metragem, Carlos Conceição é dos que mais expetativas me cria, tão amadurecidos me parecem os projetos, que dele vi. «Versailles» e «Boa Noite Cinderela».
No caso deste último filme, datado de 2014, e escolhido para o Festival de Cannes desse ano, o mínimo que se pode dizer é de ter utilizado eficientemente os cenários naturais de Sintra e do Palácio da Pena, na criação de uma ambiência romântica muito de acordo com a época em que, supostamente, se passa a ação.
Estamos a meio do século XIX, quando o príncipe herdeiro D. Luís ainda não tem noiva e uma criada ensaia com ele a estratégia da Gata Borralheira. Por isso desaparece uma noite do baile em que ele estava, deixando para trás um maravilhoso sapato. Encontrar quem usara tal peça de vestuário torna-se para o visado uma obsessão, contando para tal com a ajuda do escudeiro, D. Afonso. Este, porém, identificara a autora da tramoia e avisa-a para a insensatez de querer chegar onde nunca lhe seria possível.
Será que Afonso assim age por ciúmes? É que a relação com Luís não deixa de ser bastante ambígua!
O filme de Conceição organiza-se assim nessa sugestão irreverente, que até ganha maior consistência quando se dá o encontro final de Luís com a ambiciosa criada e se conclui estar ele apenas interessado em conseguir dela o outro sapato com que conseguirá completar o par.
Haverá, igualmente, alguma mordacidade, quando, na legenda final, se informará que D. Luís casará com Maria Pia de Sabóia ... por procuração.


(L) Surdo e sem alibis

Quem me ofereceu o mais recente romance da Élisabeth Barillé - «L' Oreille d’Or» - considerou que eu deveria encontrar muitas pontes de contacto com o que a escritora francesa nele assumiu num registo autobiográfico muito comum nos seus compatriotas. É que, tal como comigo sucede, ela só ouve de um lado, estando o outro praticamente morto.
Vivemos, porém, experiências distintas: enquanto ela assim se descobriu ainda criança, na sequência de uma virose, eu perdi a audição dobrado o meio século de vida como resultado de uma operação destinada a devolver-me o sentido de equilíbrio, tão frequentemente posto em causa pelo disfuncionamento dos pequenos cristais existentes no nosso ouvido interno.
Se Elisabeth Barillé quase considera uma bênção o ter perdido prematuramente metade de um dos seus principais recetores da realidade circunstancial, eu só prezo o facto de, apesar de surdo, raramente ter voltado a ter as crises devidas ao síndrome de Menière. Quanto à possibilidade de ter sido compensado sensitivamente com essa perda não dei por isso: sei que durante muito tempo não voltei a ter prazer em frequentar concertos - e se era então um frequentador assíduo dos que passavam na Gulbenkian ou no CCB - evitando, igualmente, os ambientes muito barulhentos, com sons provenientes de várias direções como sucede nos restaurantes ou nas feiras ao ar livre.
O testemunho da escritora é, pois, bem diferente do meu: na crise viu a oportunidade para justificar a apetência pela solidão e para «ouvir» a realidade de forma diferente da que conhecera. E lembra como Beethoven, apesar de ter perdido a audição, nunca deixou de escutar os sons, que o seu talento criativo fazia germinar.
Por isso agradece aos pais nada terem feito para lhe devolverem essa perda: “se me tivessem preferido perfeita, se me tivessem confiado aos especialistas universitários, nunca teria encontrado a solidão, não a sentiria como um deserto desejoso de ser florido e teria encaixado numa vida completamente diferente. Passaria ao lado desta oportunidade”.
«L' Oreille d' Or» acaba por ser uma odisseia intima de quem, da desgraça, vai forjar a Graça. Da sua deficiência, um tesouro. O que não se revelou tarefa fácil ou isenta de sofrimento, que, porém, só no-lo sugere, porque nada temos que saber desse lado do seu percurso.
Pelo contrário ela partilha connosco a alegria de ter concluído que só lhe restaria ser ela mesma, preservando-se dos constrangimentos sociais e descobrindo espaços de magia. Como foram os propiciados pelos livros, já que assim surgem as vocações: “ao empurrar-me para a fuga, a surdez empurrou-me para a aventura da introspeção”. Até por lhe ser fácil concluir que, quando escreve, ouve dos dois lados. E é muito apurada no resultado: as palavras são as certas, cada frase sem nada a mais, sem as tais asperezas que Hemingway elogiava como sendo requisito fundamental para que o livro seja oportunidade de nele deslizarmos.

(L) Quando julgávamos eterna a felicidade

Há cinquenta anos os verões eram tão longos que o tempo parecia parar. Na praia passava horas de molho e quando vinha para a areia era para disputar intensas partidas de futebol.
Debaixo do chapéu é que ninguém nos apanhava que, esse, era território dos adultos. Até porque eram secretas as suas conversas, subitamente interrompidas quando junto deles chegávamos. Aqui e além percebíamos que falavam da guerra em África ou do tal vizinho a quem tinham vindo buscar de madrugada para nunca mais ser visto.
Tínhamos então dez anos e acreditávamos que a felicidade era eterna.
Nos dias em que a praia não era opção, a alternativa era a leitura na marquise. Tínhamos os Cinco e os Sete, mas também a coleção de livros de aventuras com o Tom Sawyer, o Huckleberry Finn, o Robinson Crusoe ou a Moby Dick.  Personagens e intrigas que facilitavam a evasão, o desejo de viajar para muito longe. Mas também contávamos com os livros de quadradinhos da Coleção Falcão, do Mundo de Aventuras ou do Jornal do Cuto.
Foi para esse passado que remeteu a distribuição recente de alguns desses exemplares com a revista semanal da Impresa.
O major Alvega, o Fantasma ou o Mandrake: heróis que serviam há meio século para combater o tédio das horas de canícula dentro de casa e a que, agora, regressei com a curiosidade de saber que tipo de mentalidade nos era por eles formatada.
Para além da indigência do mais linear dos maniqueísmos está lá tudo quanto era necessário para alimentar preconceitos racistas, colonialistas e até antissindicais. Que grande ferramenta tinha então o regime para criar gerações de ingénuos dispostos a servirem de carne para canhão em África!
Felizmente que tudo isso começava a ser compensado pelo silêncio a que nos obrigavam por se ouvirem, noite adentro, as emissões radiofónicas em português emitidas de muito longe. Elas continham o outro lado das estórias que nos queriam impingir.
Meio século depois não falta quem nos queira continuar a convencer de narrativas falsas de que, por higiene mental, nos deveremos distanciar! E obrigando-nos a descobrir o outro lado, o mais verdadeiro, de cada uma dessas estórias...

segunda-feira, agosto 22, 2016

(V) Regresso a Bornéu

A primeira vez que me deparei com uma chinesa «fardada» com uma abaya foi na ilha de Bornéu numa noite em que, a convite do agente do navio em que estávamos, eu e o comandante fomos jantar a terra.
Agora, muitos anos passados, regresso à ilha na forma de um documentário televisivo, que confirma ser aquele um espaço de grande estranheza: há animais só ali existentes como se, a exemplo de Galápagos, tivessem encontrado beco sem saída as espécies em migração vindas de outras latitudes e longitudes, depois condenadas a evoluírem num habitat de dimensões limitadas. 
No caso de Bornéu, isso sucedeu quando se concluíram as últimas glaciações, e a ilha ficou sem «pontes» para o resto da Ásia. Por isso quase só ali se encontram orangotangos, rinocerontes anões, macacos com grandes apêndices nasais ou lagartos e mamíferos dotados de membranas em forma de asas para conseguirem planar de árvore em árvore, dada a elevada altura das respetivas copas.
Muitas dessas espécies estão à beira da extinção pela redução progressiva das outrora extensas florestas, no inexorável avanço de uma certa forma de contemporaneidade que, à diversidade, prefere resolutamente a estandardização.

(V) Simenon filmado por Tavernier

O que levou Bertrand Tavernier a interessar-se pelo romance de Georges Simenon não foi a possibilidade de, com ele, fazer uma réplica de um mau filme policial norte-americano. Por isso, quando o filme começa já o crime se consumou, não existindo qualquer dúvida quanto a quem o cometeu e não havendo nenhuma peripécia movimentada quando da sua captura.
Outra originalidade residirá na escolha do protagonista, que não deixa de ser um personagem «exterior» ao caso de polícia. Dando tempo ao tempo e até convidando a algum recuo, «L’Horloger de Saint-Paul» é Michel Descombes, que irá fazer o balanço de tudo quanto viveu, ao mesmo tempo que olha e ouve quanto ocorre à sua volta. É assim que, no meio da confusão dos ambientes judiciários ou das solicitações mediáticas, ele identificará algo a que nunca prestara atenção: quem é efetivamente o seu filho. Sente por ele afeição, mas é algo de teórico, de socialmente óbvio, sem constituir algo de mais forte, de genuíno.
Tavernier confessaria que, estando em causa o relacionamento de um pai com um filho, pretendia evitar a convenção de pôr o primeiro a dar lições ao segundo, como era comum nos filmes com Jean Gabin. Não estamos, pois, confrontados com um qualquer conflito de gerações, porque, aqui, ninguém tem razão ou deixa de a ter, eximindo-se o filme de cair na tentação do juízo moral. Assim, a relação de Michel e de Bernard nunca passa pela culpabilidade ou pelo remorso, situando-se antes na progressiva aceitação um do outro.
Michel irá tomar consciência de certas realidades até então desconhecidas, quando começa a contactar com personagens exteriores ao seu núcleo familiar. A um jornalista, que o pressiona a exprimir-se, responde assoberbado: “Mas o que quer que lhe diga? Nem sequer sei quem é o meu filho. Não lhe vou repetir o que lhe costumava dizer, porque deixou de fazer sentido. Nem sequer lhe ousaria falar nesta altura. (…) Ele nada espera de mim, porque se assim fosse, teria vindo confiar-se a mim, não é?”
Depois, já com uma antiga governanta, Madeleine, começa a medir quanto desconhece do rapaz, em tudo quanto não disseram um ao outro e os distanciou.
Quando, mais tarde, pai e filho poderão dialogar, Michel conta-lhe uma história da sua juventude, que nada tem a ver com o que acabou de acontecer. Mas o essencial não está no conteúdo, mas na intenção de se voltarem a falar.
Michel passa também muito tempo na conversa com o comissário Guiboud, superiormente interpretado por Jean Rochefort. Inicialmente é este último quem fala, descriminando os lugares comuns sobre o mundo, a juventude e os filhos. Mas, depressa, ele também acaba por confessar a existência de um filho mais ou menos da idade de Bernard, que, embora se prepare para entrar na polícia, tem slogans subversivos afixados nas paredes do quarto. Explicar-se-ia, assim, o interesse que dedica ao filho do interlocutor: “como nada compreendemos dos nossos filhos, procuramos entender o que se passa com os dos outros.”

domingo, agosto 21, 2016

(O) A música que nos chega da Guiné Bissau

Nascido no ano em que o seu país, a Guiné-Bissau, acedeu à independência, Kimi Djabaté é dos nomes da world music, que merece a nossa atenção. Os temas são autênticos hinos à sua cultura, que é fortemente influenciada pela tradição mandinga, e evocam ancestralidades que a ocidentalização global não consegue de todo esbater. 

sábado, agosto 20, 2016

(V) “O Desejado - As Montanhas da Lua» de Paulo Rocha

Do seu fascínio pela cultura japonesa seria natural a Paulo Rocha a transposição de uma das suas obras mais celebradas - o «Genji Monogatari» que Shikobu Murasaki escreveu no século XI - para a realidade portuguesa dos anos pós-Revolução.
Neste filme de 1987 Luís Miguel Cintra interpreta o papel de um político em ascensão num pequeno, mas influente partido, que vai visitando amigos e familiares enquanto, em pano de fundo, se vai desenvolvendo uma crise política por muitos considerada superável se o Presidente o convidar para ser primeiro-ministro. Essas deambulações entre a cidade e a província vai ilustrando o ambiente de permanente intriga política, com os comunistas a manterem a sua forte influência nos campos alentejanos.
Seduzindo as mulheres à sua volta e causando admiração nos homens, João está destinado ao sucesso, sobretudo se for bem sucedido na missão de trazer de Roma a filha do político, que o lançara na ribalta, e aí ligada a conhecido terrorista. Mas tudo irá complicar-se com mortes trágicas de permeio e uma criança nos seus braços, que não chega a saber se é seu filho ou neto, mas será decerto seu herdeiro. Como é fatal na cultura lusa, haverá sempre um Desejado com estatuto de redentor, para corresponder a todos os esperados desafios do futuro.
Não sendo dos filmes mais estimados de Paulo Rocha é fácil nele encontrar alguns dos problemas de construção de diálogos e de interpretação, que o cinema português de então comportava.
Há quem goste muito, eu por mim nem por isso!

(L) Henry James enquanto jovem

As comemorações do centésimo aniversário da morte do escritor Henry James justificam que continuemos a contribuir para o seu melhor conhecimento. Hoje vamos dedicar-nos a alguns aspetos mais relevantes da sua biografia.
Nascido em Nova Iorque em 15 de abril de 1843 tinha como antepassado um avô irlandês, que acumulara sólida fortuna mo Novo Mundo de forma a que as gerações, que lhe sucedessem, se vissem poupadas á vergonha de terem de comerciar.
O pai era um visionário, que se manifestava criticamente contra a sociedade do seu tempo e, sobretudo, contra a religião. Esse carácter brilhante, também replicado no próprio irmão, William, que será influente filósofo, tornou o jovem Henry muito taciturno, sentindo-se insignificante perante tais rivais. Por isso habituou-se a percorrer as ruas de Nova Iorque em pose de sonhador, buscando razões explicativas para a sensação de sempre se sentir à margem de tudo quanto o rodeava. Outra estratégia de catarse consistia em tornar-se num rato de Bibliotecas, devorando romances e peças de teatro sem jamais se cansar.
Terá sido dessas leituras, que o fascínio pela Europa cresceu em si, quase alcançando uma dimensão mística.
Para educar os rebentos os pais de William e de Henry optaram por uma rotação infinda de professores, de escolas e de residências, de forma a garantir que eles se tornassem seres livres e sem preconceitos. Como a família escolheu radicar-se na Nova Inglaterra para melhor escapar aos efeitos da Guerra Civil, Henry irá imbuir-se do seu característico puritanismo, que incluía a introspeção e o conhecimento das funções, dos movimentos e das “leis naturais” da alma e de tudo quanto seria suposto integrar a “servidão e a grandeza da vida humana”.
Uma lesão na coluna vertebral irá incapacitá-lo nos anos em que poderia ser convocado para o teatro de guerra, dilatando-lhe a sensação de isolamento, de estrangeirado.
Começa a comparar-se a Tirésias, o filósofo da Antiguidade capaz de tudo ver e prever sem participar, mas sofrendo as consequências do que antecipava. James crê com tal convicção nesse “destino”, que quase o considera uma espécie de voto monástico, justificado pelo papel redentor na libertação da experiência humana da cegueira e da desordem.
Nessa chegada à vida adulta James sente-se na obrigação de transformar o desperdício da vida na sublime manifestação da arte. Mas depressa conclui que o seu talento não faz sentido na pintura, orientando-se preferencialmente para a escrita, quando a leitura de Balzac o entusiasma.
Inicia-se na criação de contos e de críticas, que publica nas revistas mais importantes dos EUA, sem mostrar, porém, as qualidades discerníveis nas obras posteriores, tanto mais que se revela excessiva a influência de Nathaniel Hawthorn.
Por essa altura o verdadeiro escritor ainda tardava em revelar-se.


sexta-feira, agosto 19, 2016

(V) Bertrand Tavernier e a sua primeira longa-metragem (1)

Bertrand Tavernier já passava dos trinta anos, quando assinou a sua primeira longa-metragem, «L’Horloger de Saint-Paul». Mas engane-se quem pense, que se tratava de um desconhecido no cinema francês: apesar de ter estudado Direito, dedicara-se intensivamente à crítica cinematográfica, defendendo com entusiasmo alguns dos cineastas norte-americanos mais do seu agrado. Além de publicar os seus textos na «Positif, nos «Cahiers du Cinema» e noutras conhecidas publicações dedicadas à cinefilia, também coassinara um livro com Jean-Pierre Coursodon sobre o seu tema de eleição: «Trente ans de cinema américain».
A oportunidade de transitar da teoria para a prática aconteceu quando o produtor Georges de Beauregard lhe possibilitou a realização de sketches em filmes coletivos, quer em 1963 («Les Baisers»), quer em 1964 («La Chance et l’Amour»). Mas como se sentiu demasiado inexperiente para avançar decididamente para projetos mais ambiciosos, Tavernier contentou-se em ser assessor de imprensa desse mesmo produtor, quer para a promoção dos seus filmes, quer para a reabilitação de outros títulos imerecidamente esquecidos.
Dez anos depois cometeu um sacrilégio à luz do que eram os usos e costumes da Nouvelle Vague, ao convidar Jean Aurenche e Pierre Bost para com ele criarem o argumento para um filme dedicado aos diretores da Gestapo francesa durante a Ocupação nazi. Ora, Truffaut já verberara um e outro num célebre artigo de janeiro de 1954 sobre o chamado «cinema à papa».
Não havia em Tavernier a intenção de confrontar-se com os cineastas, que marcavam então a moda no cinema francês, e aos quais ele próprio apoiara, mais ou menos entusiasticamente nos seus textos, mas reconhecia a tais argumentistas a capacidade para estruturarem rigorosamente a história e conferirem consistência aos personagens.
Foi quando esse projeto ficou pelo caminho, que Tavernier virou agulhas para um romance de Georges Simenon intitulado «l’Horloger d’Everton», mantendo o convite aos mesmos colaboradores.
A primeira alteração que decidiu fazer no projeto foi a do local onde se passaria a ação: em vez dos Estados Unidos como sucedia no livro, transpô-la para Lyon, a sua cidade natal, cujas idiossincrasias se esforçou por replicar.
Num livro de Jean-Luc Doiun dedicado à sua obra, Tavernier explica que pretendeu representar uma cidade inesperada por detrás das suas paredes com pátios de cores florentinas bem no interior de um tipo de arquitetura insuspeitada. E descontados os bairros mais ricos, ilustrara uma cidade povoada de gente generosa à qual se ficava necessariamente afeiçoado.
Quando rodei ‘L’Horloger de Saint-Paul’ quis destruir alguns lugares comuns, escusando-me a utilizar Fourvière ou a praça de Bellecour. Quis encontrar o ambiente dos apartamentos com enormes pés-direitos, dos pátios com crianças barulhentas a gritar e de restaurantes com mesas de mármore”.
Para tornar credível esse clima Tavernier recusou filmar em estúdio, e muito menos em Paris, levando toda a sua equipa para a parte velha da cidade escolhida para situar o enredo.

quinta-feira, agosto 18, 2016

(V) Conhecer Gustave Doré

Em 2014 o Museu d’Orsay permitiu-nos resgatar de injusto esquecimento um dos mais interessantes artistas da segunda metade do século XIX que já não era objeto de uma exposição digna desse nome há mais de trinta anos.
Na realidade não havia um, mas vários Gustave Dorés: havia o ilustrador, o pintor, o desenhador, o caricaturista e o escultor. Mas também o ginasta, o alpinista, o violinista.
Doré era um homem dado a excessos, quer na sua produção artística, quer no comportamento, o que lhe suscitaria alguns engulhos.
A obra é gigantesca, desmesurada e demonstrativa da sua inigualável capacidade de trabalho e da ilimitada sua curiosidade. Mas também reveladora da insatisfação de um artista cuja celebridade nunca compensou a impossibilidade de se sentir reconhecido como um grande pintor da sua época...



quarta-feira, agosto 17, 2016

(L) O Massacre de Nataruk

Quando se pensava que a capacidade de extermínio de massas tinha surgido com as sociedades sedentárias, um massacre ocorrido há dez mil anos fez reequacionar as mais comuns teorias sobre a nossa violência coletiva.
Esse genocídio verificou-se numa pequena planície junto ao lago Turkana no norte do Quénia, perto do local tido como berço da Humanidade, e foi revelado em 2012 por vinte e sete esqueletos de pessoas aí violentamente assassinadas.
Na época o sítio correspondia a uma praia à beira do lago, razão porque os corpos rapidamente se viram cobertos naturalmente sem dar tempo para que necrófagos os danificassem. O relativo bom estado das ossadas facilitou, assim, o trabalho dos arqueólogos.
Nas proximidades não se descobriram vestígios de qualquer acampamento ou exploração agrícola, o que confirma a natureza nómada de tal população. Pedaços de obsidiana, utilizados como pontas para as armas utilizadas no crime, confirmam que os agressores vieram de longe, já que se trata de material inexistente naquela região.
Agressores e agredidos estariam, pois, de passagem, não se conseguindo imaginar o que possa ter justificado a dimensão violenta do seu embate. É que a sedentarização só ocorreria cerca de mil anos depois.
O entusiasmo inerente a este achado tem a ver com o facto de se julgar existir uma relação direta entre a sedentarização e a manifestação de atos de violência coletiva, explicados pelo surgimento do efeito de acumulação de animais domesticados, de alimentos em celeiros e outros bens só possíveis com a fixação de populações e a cobiça consequente por parte dos que as ansiavam adquirir por pilhagem.
Anteriormente, quando as tribos se iam deslocando de terra em terra, os embates seriam mais esporádicos e não propiciariam tão grande mortandade. Afinal conclui-se agora que o Bom Selvagem de Rousseau já continha em si as características de perversidade, depois potenciadas com a sua transformação em ser (mais ou menos) civilizado.
Para Richard Wrangham “mais do que empurrar-nos para a guerra, a sociedade moderna deverá ter por objetivo afastar-nos da nossa natureza violenta. É que a noção de paz é recente e deve tornar-se em utopia concretizável na sociedade em que nos inserimos”.