segunda-feira, junho 18, 2018

(AV) O MONA - Museu de Arte Antiga e Moderna de Hobart


No único verão que passei na Austrália, percorrendo-lhe a costa norte e toda a do Queensland a leste, nunca me aproximei sequer da Tasmânia. Situada mais a sul, a ilha era entendida até há pouco tempo pelos próprios australianos como os confins do seu território, sem nada de especial, que recomendasse a visita. E, no entanto, desde 2011, esse desinteresse deixou de fazer sentido, porque Hobart, a sua capital, passou a contar com um Museu fascinante: o Mona – Museum of Old and New Art.
Criado por um génio das matemáticas, que utilizou o engenho para ganhar dinheiro em casinos de todo o mundo, conta com dotações financeiras privilegiadas do seu patrono. Daí que alguns curadores percorram os cantos do mundo para angariar novas peças para a coleção.
O acesso faz-se de barco a partir do cais do outro lado da baía. Tão só chegados á margem onde se situa o museu, os visitantes têm de subir mais de 400 degraus para acederem ao elevador, que os mergulhará nas entranhas da Terra, até às profundidades onde outrora se procedia á extração mineira.
Ainda antes de acederem às salas de exposição, os visitantes são convidados a passarem pelo bar para se dessedentarem. Logo entram num amplo espaço onde se projeta uma cascata de palavras, todas elas integradas na lista dos que, nessa altura pesquisam a internet. Essas palavras mais frequentes nas buscas a nível mundial muito esclarecem sobre as idiossincrasias coletivas nos tempos atuais.
Nenhuma peça está identificada, quer quanto ao título, quer quanto ao autor, misturando-se as épocas nas que se apresentam nas várias salas - a ideia é possibilitar a apreciação sem os preconceitos suscitados pelas informações que sobre elas se afixasse,! - mas algumas são mais facilmente identificáveis e tidas como importantes na identidade do Museu
«Snake», obra de Sidney Nolan, datada de 1970-72, é uma homenagem à cultura aborígene, abrangendo as paredes de uma vasta sala onde as centenas de quadros compõem o efeito de evocação do ofídio, tão simbólico nas crenças primitivas de quem habitava a ilha antes da chegada dos ingleses.
Há também a «Galeria de tecidos com caixão de Iret-Heru-Ru», do final da 26ª dinastia, c. 600–525 aC.
Noutra sala vê-se a «Biblioteca Branca» de Wilfredo Prieto, de 2004-2006, com lombadas brancas a evocarem uma cultura dominada pelo vazio de ideias, de conhecimentos, de emoções.
«A Cloaca Professional» de Wim Delvoye (2010) recicla todos os restos de comida do restaurante do museu, processando-os quimicamente nos dias seguintes como se percorressem todo o sistema digestivo e concluindo no incontornável desenlace. E há, enfim, o «Carro Gordo» de Erwin Wurm (2006), que revela o lado kitsch da sociedade de consumo, que agiganta na sua gula tudo quanto possa abocanhar. Daí esse Porsche vermelho adiposo, sem a elegância glamourosa do modelo original.
Com esta nova instituição cultural Hobart viu crescer o número de turistas que visitam a cidade e garantem quase quatrocentas mil entradas anuais nas suas vastas e labirínticas salas.

domingo, junho 17, 2018

(S) A Sagração da Primavera de Stravinsky

(DL) Recordar Urbano Tavares Rodrigues pelas imagens de Possidónio Cachapa


Só dez anos depois de estreado é que consegui ver o «Adeus à Brisa», filme que o Possidónio Cachapa realizou com o apoio de Cláudia Varejão na câmara, para homenagear Urbano Tavares Rodrigues numa altura em que, já muito adoentado, ele mal saía de casa.
Compreende-se, pois, que todas as intervenções do escritor - que não naturalmente as de arquivo! - tenham sido circunscritas a esse espaço fechado no qual recordou as diversas fases da vida desde a infância partilhada com o irmão Miguel na quinta da família no Alentejo até ao júbilo suscitado pela Revolução de Abril sem esquecer de permeio as vicissitudes do seu antifascismo, que o levaram à prisão, á tortura e a uma contínua perseguição pelos esbirros do salazarismo.
Nessas conversas com o realizador, cuja presença só se adivinha por trás da câmara, Urbano não evita o que mais lhe terá sido doloroso: as divergências com os seus próprios camaradas no Partido, sobretudo porque nem esteticamente se sentiu alguma vez próximo dos neorrealistas, nem a União Soviética se lhe afigurou como um paraíso na Terra, já que as viagens ali efetuadas tinham-lhe servido para constatar as grandes diferenças entre a realidade e a que era descrita pelas guias disponibilizadas para lhe mostrarem aquilo que o regime mais gostaria de enfatizar.
De permeio surge Miguel a reconhecer que o irmão aderira aos ideais comunistas mais pelo coração do que pela razão, enquanto João de Melo lembra como era Urbano o que maior entusiasmo denotava no dia 28 de abril de 1974, quando o vira na Estação de Santa Apolónia, à chegada de Mário Soares e de Tito de Morais vindos do exílio.
Acabando por desaparecer em agosto de 2013 Urbano deixou uma vasta obra, que merece ser lida e relida, porque, além de muito bem escrita, testemunha o que foram os anos negros do salazarismo, embora também se tenha alargado para temas históricos ou transversalmente mais universais, que lhes obvia o risco de virem a parecer excessivamente datados.
De Urbano fica a memória do corajoso lutador, que nunca virava a cara a uma boa disputa física com quem o ofendia ou se lhe revelava um crápula, mas ao mesmo tempo simpatiquíssimo no trato a ponto de, muitas mulheres, o recordarem como um terno sedutor.

(P) Excelente teatro para ver na Costa da Caparica


Meses atrás quando a Associação Gandaia decidiu reativar o projeto de contar com um grupo  de teatro amador, que pudesse oferecer espetáculos de qualidade não só à população da Costa da Caparica, mas também de toda a zona metropolitana da capital, que, amiúde, se desloca para assistir às suas propostas culturais, imaginei as enormes dificuldades, que se colocariam à encenadora Christiane de Macedo, porquanto disporia de menos atores e atrizes do que desejaríamos e todos eles rigorosamente amadores, mesmo que entusiasmadíssimos com a possibilidade de revelarem os dotes histriónicos em palco.
Semanas a fio pude testemunhar a determinação com que todos encararam o desafio, cruzando-me com eles quando comparecia aos ensaios do Coro ou às sessões semanais do Cineclube. O pouco que ia sabendo referia-se à criação coletiva de um texto, que espelharia uma visão crítica sobre a sociedade atual. No demais só o grande entusiasmo da Christiane, confiante quanto a estar em preparação uma excelente surpresa para quem comparecesse à estreia do espetáculo.
No entretanto uma peça representada pela própria encenadora -  um one woman show sobre as diferentes facetas da personalidade feminina - confirmaram-nos o que dela começáramos por saber: que é atriz carismática e com muita tarimba no teatro brasileiro, senhora de um talento que mereceria acolhimento noutros palcos nacionais que não só o da Costa da Caparica.
Nesta sexta-feira o seu labor enquanto coordenadora da criatividade dos sete atores e atrizes, cuja direção se revelou irrepreensível, a Christiane excedeu em muito as minhas expetativas. O que se viu em palco nem parecia representado por amadores, porque todos poderiam medir-se em mestria com os de qualquer companhia profissional. E a peça em si tem um conteúdo sarcástico muito incisivo sobre algumas das principais idiossincrasias nacionais sem deixar de se revelar muito divertida.
Tratou-se de uma primeira apresentação, estando previstas mais oito de acordo com o cartaz ao lado. Vale a pena anotarem nas agendas essas datas para que sejam tão agradavelmente surpreendidos quanto me senti, tanto mais que, espectador assíduo de teatro, raras vezes me vi tão compensado nos últimos tempos como agora sucedeu.
À Christiane, aos atores e atrizes, e à Olga, ao Henrique e ao Nuno, que cuidaram do apoio técnico, só posso endereçar os meus mais vibrantes parabéns!!!

quinta-feira, junho 14, 2018

(DIM) «Um dia inesquecível» de Ettore Scola (1977)


Em 6 de maio de 1938 Hitler fez uma importante visita de Estado a Roma, fazendo-se acompanhar dos principais responsáveis do poder nazi. Na iminência de atacar os Sudetas, ele pretendia reduzir ao máximo a oposição das demais potências europeias, sendo-lhe essencial garantir a neutralidade de Mussolini. Este já ocupava o poder em Itália há dezasseis anos e viu na visita a possibilidade de coreografar uma enorme receção a quem já considerava um aliado. As cerimónias para tal organizadas foram das mais impressionantes, a que a cidade eterna assistira desde a sua tomada do poder. E, entre os muitos miúdos, que desfilaram perante o führer estava um petiz de oito anos chamado Ettore Scola todo ufano pela sua condição de balilla.
Foi essa experiência pessoal, que ecoou no realizador, quando procurou matéria narrativa para o filme subsequente a «Feios, Porcos e Maus». O tema deveria ser o do encontro entre duas solidões, que ele personificou numa dona-de-casa convencida das virtudes do papel a ela imposto pelo regime fascista e num homem de meia idade em vias de ser deportado pela não conformidade dos seus comportamentos políticos e sexuais. Tendo como fundo sonoro a transmissão radiofónica das cerimónias às quais compareceram quase todos os habitantes da cidade, Antonietta e Gabrielle vão conhecer-se, disputar-se nas diferenças que os começam por opor, mas aproximar-se o suficiente para viverem uma brevíssima relação amorosa. Ela, que é o elo mais fraco da típica família fascista, comandada por um bruto machista, reduzida á função de parideira de muitos filhos e quase não fazendo outra coisa que deles cuidar, irá evoluir da inconsciência primitiva para a contestação, mesmo que íntima, de todas as suas crenças ideológicas. Numa das cenas finais, quando Gabrielle é levado pela polícia para a ilha onde ficará enclausurado, ela vê-o do seu andar, lembrando-nos uma princesa agrilhoada numa torre, a pedir que a venham libertar. Razão para esperarmos que, tão só derrubado o fascismo, as Antoniettas de então tenham encontrado outros redentores, que não esses «chefes de família» abjetos, graças aos quais a ditadura perdurara mais de vinte anos.
Trata-se, pois, de um filme extremamente atual à luz do que vem acontecendo em Itália com a mentalidade fascista a reinstalar-se no quotidiano e a condenar o que é diferente do que institui como normativo. Mormente relativamente a esses náufragos do «Aquarius» a cuja má sorte o novo governo respondeu com a sua atitude assassina, desumana.
Para concretizar o projeto Scola seguiu os princípios do teatro clássico com o respeito pela unidade do espaço, da ação e do tempo. Traduziu-o em filme, mas não seria complicado que um qualquer encenador decidisse adaptar a história para um palco teatral.
O cenário escolhido também revela uma inteligente lucidez: o filme foi rodado num edifício romano, que corresponde ao paradigma da arquitetura fascista da época da sua construção com a possibilidade de, do seu espaço, a porteira vigiar tudo quanto nele se passa. Ora sabe-se de sobra como os regimes ditatoriais sempre gostaram de contar com a colaboração ativa desse tipo de profissões incumbidas de acompanharem ativamente a vida de quem habita as adjacências do seu espaço.
A forma como a câmara tudo capta também acentua essa sensação de opressão. Ora espreita Antonietta e Gabrielle por trás de janelas, ora deles se aproxima de súbito como que querendo apanhá-los em falso, ora muda de espaços com a rapidez furtiva dos pides e delatores. E, porque se vive numa tremenda cinzentude a cor do filme foi trabalhada para esbater o cromatismo das cores, aproximando-as tanto quanto possível do preto-e-branco.
Acresce, a concluir, o facto de Scola atribuir a Sophia Loren e a Marcello Mastroianni a interpretação de personagens nos antípodas dos que, habitualmente, se lhes colava, porquanto não só desfeia quem era ainda um sex-symbol consagrado, como incumbia o parceiro de ser o contrário do macho latino de tantos e tantos filmes da década anterior.

quarta-feira, junho 13, 2018

(DIM) «Morreu um homem» de Olivier Cossu (2017)


Em 1950 uma sucessão de greves afetou a cidade francesa de Brest, em plena fase de reconstrução, quando os operários da construção civil exigiram aumento dos salários e foram violentamente reprimidos pela polícia de choque. Em 17 de abril, um deles, Étienne Mazé, caiu assassinado durante uma manifestação, aumentando a determinação dos sindicatos em prosseguirem a luta e recorrerem a outra arma, a das imagens. Para tal solicitaram a um cineasta, René Vautier, que cubrisse os acontecimentos, nomeadamente à solidariedade operária com os que exigiam «pão, paz e liberdade».
O filme mudo de Vautier, tendo um poema de Paul Éluard como referência inspiradora - “Um homem morreu não tendo por defesa senão os seus braços bem abertos para a vida” - depressa se deteriorou com as más condições de itinerância em que era projetado. Por isso este filme de Cossu é uma espécie de resgate dessa memória, ao mesmo tempo que constitui exemplo eloquente quanto à possibilidade de recorrer à animação como forma de enriquecer o cinema militante com novos títulos.



(S) Um tema dos Black Santiago (jazz beninense)

(DL) «Zao» de Richard Texier


Zao Wou-ki morreu aos noventa e dois anos em 2013 e, nos próximos sete meses, tem a sua obra em exibição num dos principais museus parisienses. Artista dotado era igualmente um homem extremamente bom, sempre atento ao que podiam ser as inquietações e necessidades dos que o rodeavam, mesmo que figurantes anónimos onde ele era celebrado e recebido com todas as honras.  Como daquela vez em que, hóspede do rei de Marrocos, mandou parar o carro que o transportava para um banquete, porque, preocupado com o almoço do mordomo dessa residência, demasiado longe de tudo para que ele pudesse ir procura-lo ali perto. Dessa vez só aceitou a comparência ao evento programado, quando com ele se comprometeram a trazerem a refeição a quem ali ficaria à sua
espera.
Outro pintor, o francês Richard Texier conheceu-o em Marrocos nos anos 90 e logo compreendeu o quanto tinham em comum. Daí a pintarem frequentemente em conjunto foi um passo natural, sobretudo porque a partilha do local de trabalho dava, igualmente, oportunidade para falarem de tudo quanto mais os estimulava. Foi assim que compreendeu a personalidade do amigo, incapaz de aceitar que um ser fosse reduzido a manter-se como sombra invisível na paisagem. A presença do Outro era o acontecimento mais importante na sua vida.
Cinco anos depois da morte do artista, Texier publicou este testemunho comovido, procurando perenizar o amigo na memória dos que, não o tendo conhecido diretamente, lhe podem colher a influência através deste relato na primeira pessoa.

(S) A música da Picoby Band D'Abomey

(DIM) «Abril e o mundo extraordinário» de Christian Desmares e Franck Ekinci (2015)


O que poderia ter acontecido se, descoberta a máquina a vapor, e com ela o início da Revolução Industrial, nenhuma outra inovação tecnológica houvesse visto o dia desde então? É esse o pressuposto de partida deste filme de animação, que remete para a estética gráfica de Tardi, um dos nomes maiores da banda desenhada francesa.
A distopia apocalítica passa-se em Paris no ano de 1941 quando, em vez das tropas invasoras de Hitler, reina Napoleão V, cuja polícia persegue Avril, uma rapariga apostada em encontrar os pais, um casal de cientistas desaparecidos quando trabalhavam num soro da invisibilidade. A acompanhá-la na investigação está o gato Darwin e um miúdo da rua, Julius.
Sucedem-se as mirabolantes cenas de ação numa atmosfera, que lembra os romances futuristas de Julio Verne, mas que não impedem o espectador de equacionar o quão volúvel é a realidade, bastando situações aparentemente irrelevantes para todas as certezas se esfumarem. O que aqui se mostra é a necessidade de não atender apenas ao que mais releva nos noticiários do quotidiano, porquanto o futuro se encarrega de ilustrar o quanto mais teria valido constatar o que apenas parecia merecer alguma nota de rodapé.

segunda-feira, junho 11, 2018

(EdH) Cabora Bassa: a miopia de um fascismo ordinário em iminente estertor


Na época marcelista, quando o fascismo luso dava sinais de acelerada degenerescência, não passava semana alguma sem que se ouvissem elogios enfáticos ao projeto de Cabora Bassa. Os locutores do regime multiplicavam-se em adjetivos demonstrativos da determinação colonialista em manter as colónias e nelas investirem fortunas, que possibilitariam o seu desenvolvimento.
Acordando tarde para a inevitabilidade das dinâmicas independentistas dos movimentos de libertação africanos, o regime prometia investimentos de uma dimensão, que em nada se assemelhavam aos ali aplicados nas décadas anteriores, quando apenas a exploração das riquezas mais rentáveis estavam em equação.
Entre os séculos XVI e XVIII os portugueses tinham ocupado parcialmente a bacia do rio Zambeze, confrontando-se com as aristocracias locais e com os mercadores árabes pelo controle do negócio do ouro e dos escravos. Depois as matérias-primas exploradas viriam a ser a borracha, o carvão, a copra e as oleaginosas.
Em 1891, consumado o Ultimato, que cerceou as veleidades da monarquia lusa relativamente às terras englobadas no Mapa Cor-de-rosa, a exploração da bacia do rio fora negociada entre quem a reivindicava como exclusivamente sua: as coroas portuguesa e britânica.
No meio século seguinte o equilíbrio entre as potências coloniais não se alterou ate que, após a II Guerra Mundial, foi concebido o grande plano hidroelétrico de Cabora Bassa para regular os caudais do rio, regar as culturas e exportar energia para os «países «amigos» - a Rodésia e a África do Sul. Nas sucessivas fases do seu desenvolvimento, o ambicioso projeto pretendia fixar um milhão de colonos na região, impedindo que a cada vez mais ativa Frelimo descesse para o centro e o sul do país.
A importância de levar por diante o projeto não foi consensual dentro do regime: alguns consideravam inútil tal despesa, porventura cientes da inevitabilidade do rumo para onde a História evoluiria. Eram, porém, mais numerosos os que se iludiam com a possibilidade de ela retroceder conquanto pusessem rapidamente a barragem a reter as águas, a central hidroelétrica a produzir energia e os colonos brancos a imporem um crescimento económico, que bastasse para cativar em seu apoio as populações nativas a quem dariam emprego remunerado. Baltasar Rebelo de Sousa, o pai do atual inquilino de Belém, era um dos mais entusiastas promotores dessa perspetiva colonialista.
A partir de 1969, quando se assinaram os contratos com a empresa construtora e com a que viria a explorar o novo equipamento, e sobretudo a partir de 1972, quando o porto da Beira já conhecera obras de monta para receber as peças de enorme dimensão importadas da Europa para a montagem no local, as obras ganharam ritmo significativo. Mas, politicamente, e sobretudo a nível militar com o rotundo fracasso da Operação Nó Górdio com que Kaulza de Arriaga julgara possível vencer a guerra, a situação conheceu sucessivos agravamentos: em julho desse mesmo ano de 1972, a Frelimo já avançara para Tete e para as até então inexpugnáveis províncias de Manica e Sofala. Em breve a própria Cidade da Beira já estava a contas com as ações de guerrilha, que intimidavam a população. Ademais, a nível internacional, o regime via-se acossado pelo escândalo provocado pelas chacinas perpetradas pelos Comandos em Mukumbura e Wiriamu, que se haviam saldado por centenas de mortes nas populações africanas. As denúncias do Padre Hastings nas Nações Unidas transformaram a viagem de Estado de Marcelo Caetano a Inglaterra num doloroso calvário para um político enfim desmascarado como inábil na condução do fim de um regime ao qual prometera aligeirar os mais hediondos contornos, mas de cuja substância nada de essencial alterara. A suspeita em como seria menos radical na autocracia, possibilitando uma ilusória primavera, revelara-se mera ilusão...
O Acordo de Lusaca reconheceu a independência do novo estado moçambicano, com a correspondente titularidade dos equipamentos, então ainda em fase de montagem. Os empréstimos contraídos para a construção continuariam a ser responsabilidade de quem os contraíra, ou seja do estado português. Mas, devido à Guerra com os terroristas da Renamo, só na década de 90 se concluíram os trabalhos e se iniciou a produção de energia. Os que tinham imaginado a obra não poderiam imaginar que ela levaria tantos anos a concluir-se, mudaria de nome para Cahora Bassa e serviria de imprescindível valência de desenvolvimento de Moçambique enquanto estado independente.

(S) O Concerto para Piano nº 3 de Bela Bartok

(DIM) «Lisboa: crescer sob um céu inconstante» de Catarina Mourão (2003)


Quinze anos depois de ter sido rodado, este filme de Catarina Mourão - encomendado pelo canal franco-alemão ARTE para uma das suas noites temáticas - serve, sobretudo, para comparar o que era o Portugal do início do milénio com o que existe atualmente. Na época, a euforia da Expo 98 já passara, deixando como efeito mais óbvio uma cidade gentrificada, habitada por muitos africanos das ex-colónias e brasileiros, que aqui haviam sido atraídos pelas oportunidades de trabalho.
Tendo três jovens como protagonistas - um trabalhador nos cacilheiros, um desenhador e uma advogada estagiária - vemo-los contar quão escassas eram as oportunidades para se autonomizarem das respetivas famílias, ao mesmo tempo que sentiam muito próximo o problema das drogas, que fazia então de Portugal o segundo principal consumidor europeu.
Havia indignação com o conservadorismo coletivo, demasiado condicionado pelos valores do salazarismo, apesar de terem decorrido quase trinta anos desde a Revolução de Abril. A Igreja, que fora dileta cúmplice da ditadura ainda revelava tal importância, que a sua militância fora decisiva para que o referendo sobre o aborto acabara de resultar na manutenção da sua ilegalidade. Como então esperar que o (des)governo de Durão Barroso mudasse o que quer que fosse no sentido mais positivo?
Afinal quinze anos terão bastado para minimizar os efeitos das drogas e legalizar a interrupção voluntária da gravidez. A gentrificação mudou de características com os turistas a substituírem os proletários, que tinham dado o corpo ao manifesto por uma bolha imobiliária, marcada pela construção desenfreada de novos bairros suburbanos. Mas, mesmo depois de uma fase entroikada, o país revela-se bastante melhor do que o de então. Sobretudo, porque a atual maioria parlamentar reabriu algo que, então, parecia inviabilizar-se: a esperança.
Só a Igreja Católica continua igual a si mesma, como se viu recentemente no debate sobre a eutanásia.

domingo, junho 10, 2018

(DL) «Florinhas de Soror Nada» de Luísa Costa Gomes


Não concordo propriamente com o que se diz na contracapa de «Florinhas de Soror Nada», o mais recente romance de Luísa Costa Gomes. De facto a vida de Teresa Maria, a protagonista, não terá tanto de singular, quanto ali se preconiza. Na geração de meninas nascidas antes da Guerra Colonial, criou-se uma tal adoração pelas santas mártires, que a obrigação em as imitar na devoção e nos sacrifícios era regra a cumprir. Não tinham tais histórias uma vertente erótica, que acertava em pleno nos devaneios a quem se impunham condutas castas, sem lhes evitar os pensamentos pecaminosos?
Entre a infância passada na casa onde pai e mãe eram quase invisíveis um para o outro, a puberdade num colégio de freiras donde se veria expulsa por indomada irreverência, a juventude rebelde, a vida adulta aburguesada e a velhice em acelerado processo de demência, o percurso de Teresa Maria afigura-se muito semelhante ao de outras mulheres da sua geração. A falta de novidade - até porque a sua existência quase nunca se relaciona com o contexto histórico a que as suas várias fases vão correspondendo - poderia tender para uma relativização do valor do romance, mas tudo se altera na forma como Luísa Costa Gomes a explora. Porque trata-se de uma obra muitíssimo bem escrita, com um frasear pouco canónico, mas respeitador de cada estado de alma sentido pela personagem em cada momento. A prosa ora evolui numa tranquila arquitetura da narrativa, quando se detém num ou noutro episódio em concreto, ora ganha uma vertiginosa sucessão de descrições quando o tempo se acelera e se precipitam acontecimentos atrás de acontecimentos.
Um dos artifícios de que Luísa Costa Gomes se socorre é o de um breve levantar do véu sobre o que mais adiante sucederá, logo regressando ao ponto de partida para o detalhado desbravar de tudo quanto irá suceder até ao reencontro com essa antecipada revelação. Não é lisonjeiro o papel dos homens ao longo da história, porque ora são violadores, ora se revelam abúlicos companheiros de jornada, que quase correspondem a mais uma peça de mobiliário numa casa dificilmente enquadrável no conceito protetor de lar. Nesse sentido há uma sugestão feminista, que prima pela subtileza, mais do que pelo recurso a estereótipos redutores.
É romance que dá prazer na sua leitura, sobretudo para quem, já entrado nos anos, faz corresponder muitas das situações descritas com as vividas num contexto social e político, que se foi forçado a partilhar. Para quem viveu as agruras de um fascismo ordinário (nos seus múltiplos sentidos!) e, depois, abdicou dos amanhãs que prometiam cantar porque valores mais altos - os da sobrevivência familiar - se impunham, «Florzinhas de Soror Nada» inspira um permanente diálogo entre o conteúdo e o balanço de vida que sugestiona em quem o lê...

sexta-feira, junho 08, 2018

(DL) Esta tarde é lançado o mais recente romance de Maria Alzira Cabral


Há muitos anos, quando era jovem e começava a descobrir os primeiros passos na vida a bordo dos navios mercantes de bandeira portuguesa (hoje espécie quase extinta!), conheci um eletricista dado a falar sempre em rimas e que, ao acabar os turnos na Casa das Máquinas, costumava despedir-se sempre da mesma maneira: «O meu nome é Avelar/ e quem por mim demandar/ na messe me vai encontrar!».
É em homenagem da sua memória - pois por certo, já há muito terá deixado o mundo dos vivos! - que digo: quem nesta tarde me quiser procurar, na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, me irá encontrar! Porque será ali que, pelas dezanove horas, ocorrerá o lançamento do romance «Um Deus de Pés Descalços» de Maria Alzira Cabral.
A autora atribuiu-me o privilégio, mas também a responsabilidade de lhe apresentar a obra, e o agrado por tal missão revela-se tanto mais fácil, quanto ela me deu um enorme prazer na sua descoberta. Porque, falando do que em todos nós é mais comum - a pertença a uma família - também se amplia nos temas ao que nos dita a sociedade: as alegrias e as tristezas, os entusiasmos e as revoltas pelas desigualdades, os amores e desamores. E como não ficar entusiasmado - eu a quem os amigos sempre conheceram a costela cinéfila! - com as constantes referências a filmes, que me foram tão ditosos como «O Feiticeiro de Oz», quando era miúdo e me pus a sonhar como poderia alcançar o outro lado do arco-íris, ou o «Blade Runner», que me fez temer distopias passíveis de olharem como subversivos os mais legítimos afetos, sem esquecer de permeio um dos mais belos e esquecidos filmes da história do Cinema, «O Ano Passado em Marienbad» onde a frigidez esfíngica de Delphine Seyrig ameaçava estilhaçar um tempo parado, que só nele deixaria prisioneiros quem com tão estática situação se sentiria confortado.
Emílio, que sonha com filmes, acaba por cumprir na escrita a vontade de dar razão à citação inicial de Claudio Magris. Com uma achega: não só ela colmata os espaços brancos da existência de quem escreve, como também o suscita em quem lê. É que um bom romance vem ao encontro da apetência genética para que nos contem histórias capazes de nos evadirem das rotinas e interroguem as quotidianas inquietações e aspirações. Abrindo portas, quando se fecham janelas, mesmo nas alturas mais complicadas, as que nos fazem sofrer, quando se iluminam soluções imprevisíveis, inesperadas.
Fica, pois, o convite para que venham conhecer uma escritora cujos romances revelam uma vida rica em experiências e emoções, e o quanto estas páginas me deram jubilatórios momentos. Os mesmos que justificam o encontro com muitos leitores...