quarta-feira, fevereiro 22, 2017

(I) Será que o poder poderá ser ilusório?

Donde vem o poder? Deter o poder significa ter a legitimidade conferida pelo direito divino, como o reivindicavam os reis, ou ser eleito pela vontade do povo? E se o poder, pelo contrário, depender de cerimónias, dourados, fórmulas e paradas? E se o vestuário, o protocolo e as cimeiras, mais não fossem do que alimentarem uma ilusão (necessária)? E se o poder não fosse senão um efeito realista da nossa imaginação? É esta tese de Pascal que convirá aprofundar…
Hoje em dia existe um abismo entre as opiniões de políticos, ou ex-políticos de diferentes gerações. Nas camadas mais velhas o exercício do poder corresponde a uma certa forma de liturgia com algumas das características detetáveis na de cariz católico.  Nas camadas mais jovens enfatiza-se a questão do poder-cidadão, das sociedades participativas, etc.
Acontece algo de muito singular: olhando para os populistas, os mais tradicionais temem pelo futuro da Democracia, pela facilidade com que ela fica entregue a quem melhor souber manipular as consciências. Pelo contrário os mais jovens entusiasmam-se com movimentos inorgânicos, militando efemeramente por múltiplas causas sem as coordenarem mais eficientemente numa conjunção/síntese das principais de entre elas.
No século XVII Pascal estudou com bastante empenho as questões do poder e da imaginação. Por isso defendia que, sempre que existia o exercício de um qualquer poder, haveria obrigatoriamente uma encenação desse poder. Há, nesse sentido, uma aproximação à abordagem maquiavélica do poder, porque o fazia depender sempre de uma força física. O que suscitava nele esta interrogação: se quem detém o Poder também possui a força necessária para tal, porque se dá ao trabalho de adorná-lo de uma qualquer forma de encenação?
O caso mais extremo desse tipo de espetáculo do Poder foi o da coroação de Bokassa, ditador da República Centro-Africana que, em 1977, se declarou Imperador e se coroou a si próprio, numa imitação de idêntica representação de Napoleão I. Uma festa que terá custado 100 milhões de dólares pagos por Khadafi.
Para Pascal qualquer um poderia tomar as rédeas do poder. E assumi-lo com sucesso se se vestisse de acordo com o que se esperava da imagem desse poder. Católico, o filósofo francês não acreditava que o poder fosse conferido por vontade divina, mas que esta se conformava com quem o exercesse. E, igualmente, acreditava na necessidade de existirem os que mandavam e os que obedecessem. No entanto, e paradoxalmente, ele escrevera que “não podendo fazer com que se tornasse forte o que fosse justo, consagrou-se que é justo o que é forte!”
Há, porém, que levar em conta o facto de Pascal ter vivido numa época em que nunca se colocara a questão da representatividade pelo voto da maioria dos cidadãos. E em que era bem mais fácil encenar o exercício do poder do que exercê-lo de facto...
O que terá suscitado o descrédito de François Hollande à frente da República Francesa, foi ter-se querido apresentar como um «homem normal», quando o Poder exige outra atitude, uma certa forma de gravitas, que o tenderia a elevar aos olhos dos seus contemporâneos. Foi ao querer-se encenação de uma certa forma de banalização do valor de quem exerce o poder, que depressa se veria desrespeitado, deslegitimado.
Por isso mesmo compreender a natureza do poder, constitui a via para melhor o saber combater...  

terça-feira, fevereiro 21, 2017

(C) Quem anda a lucrar com certos discursos "ecologistas"?

O texto sobre dois documentários cujo tema era o desastre de Fukushima e as consequências para quem vivia na sua vizinhança, suscitou do Engº José Manuel Pereira uma resposta fundamentada. Embora polémicas as suas opiniões podem e devem suscitar a discussão, sobretudo em relação à questão de se saber quem verdadeiramente está a lucrar com toda uma narrativa mitológica em torno dos benefícios das energias renováveis? Será o clima ou serão uns quantos «empreendedores», que viram nelas a oportunidade de garantirem lucros substanciais?
E ainda outra questão: quem são os beneficiários das ações demagógicas de alguns movimentos ecologistas? Pretendem elas defender o nosso habitat ou satisfazerem os egos e as carteiras dos seus dirigentes?
Com o devido agradecimento ao autor aqui fica o texto  em causa:

Vivemos atualmente alguns dramas universais, sendo que um deles é o do crescente consumo energético. As pessoas mais afortunadas continuam sem mudar os seus hábitos consumistas, quando por razões óbvias milhões de pessoas começam a despertar para algum conforto inalienável e legítimo.
Neste contexto as centrais nucleares são o futuro, quer queiramos quer não, mas reconheço que Portugal foi complacente ao permitir a construção das centrais nucleares espanholas junto às fronteiras comuns. Ou seja, enquanto tudo correr bem os espanhóis fruem das vantagens, se correr mal, os portugueses, porque a jusante dos rios e canais de refrigeração, sofrerão as consequências.
O problema energético em Portugal decorre de inúmeros erros e opções, que privilegiando a corrupção e as negociatas, enveredaram por maus caminhos, também com a cumplicidade dos ambientalistas que preferem o protagonismo bacoco do que a solução sustentada do problema.
Subitamente a moda das renováveis, nomeadamente as eólicas e as fotovoltaicas, emerge apenas para servir interesses económicos ocultos, em detrimento da cogeração a fuel ou a gás, seja para industrias ou para distrit heating.
Colocam-se ventoinhas em tudo quanto é sítio, para estarem paradas mais de 50% do tempo, (basta olhar Douro acima) e semeiam-se espelhinhos em campos sem fim, que de eficiência também não chega a 30% do tempo num ano. Entretanto o consumidor paga isto tudo, subsidiando na fatura estas aventuras, e temos a energia mais cara da Europa.
Como bem sabes um simples motor da Sulzer RTL ou da Man, ocupando meia dúzia de m2 produz mais energia que as fotovoltaicas todas juntas (que ocupam umas centenas de campos de futebol, e ainda pode aquecer ou refrigerar uma vila com uma eficiência superior a 70%.
Ou que dizer das turbinas a gás com o tamanho de um contentor de 40 pés, que produz em contínuo (dia e noite, com ou sem vento favorável) o equivalente a centenas de ventoinhas. Até a central de ciclo combinado da Tapada do Outeiro, recente, faz um aproveitamento de energia térmica nulo, aquecendo o Douro eventualmente para as lampreias.
Mas isto é só uma pequena imagem do país que temos. As boas escolhas não dão votos, nem eventualmente geram comissões financeiras ocultas. E volto a citar, tudo isto ante a complacência dos ambientalistas que só aparecem como força de bloqueio às soluções evidente.

(DIM) Fukushima entre o acidente e a ressaca

Em 11 de março de 2011 um dos reatores da central nuclear de Fukushima explodiu na sequência de um terramoto, seguido de um tsunami.
Segundo o relato dos técnicos, que estavam na sala de controle na altura dos acontecimentos, ocorrera um black out, logo seguido de outro, que interrompeu a bombagem de água para arrefecimento do reator. Sobreaquecido para além do admissível ele provocaria a violenta explosão de hidrogénio.
Procuram-se, então, respostas para algumas questões técnicas: como foi possível acontecer um tal corte de energia no reator já depois do tsunami se ter verificado? Em que medida os trabalhadores da central tiveram a informação atempada dos danos causados na instalação? Até que ponto estavam preparados para corresponder a tal emergência? Terá sido inevitável a decisão dos responsáveis da central em deixarem libertar para a atmosfera a nuvem de vapor radioativo?
Para responder a tais questões o canal japonês NHK reuniu os testemunhos dos engenheiros que estavam de serviço nesse dia e reconstituiu alguns dos acontecimentos para demonstrar como era deficiente o sistema de segurança de todo o complexo, insuficiente o nível de preparação das suas equipas e vulnerável muitos dos seus sistemas e equipamentos.
Resultou dessa investigação o documentário «Fukushima, Crónica de um Desastre», de cuja realização se encarregaram Steve Burns e Akio Suzuki.
Contemporânea dessa rodagem terá sido a de Kenichi Watanabe para a Kami Productions e de que resultaria o documentário «O Mundo depois de Fukushima». O objetivo é encontrar a resposta para esta questão fundamental: como muda a vida das pessoas depois de uma catástrofe nuclear?
A equipa de filmagens regressou a Fukushima cerca de um ano depois da explosão da central  para constatar a precariedade das medidas tomadas pelos seus habitantes para minimizarem os efeitos da radiação ainda latente, uma espécie de monstro invisível, que procuram conter com a colocação de garrafas de água alinhadas às janelas.  Como se constituíssem filtro credível….
A determinação da maioria do entrevistados é a de prosseguirem com as suas vidas rotineiras de agricultores ou de pescadores, embora indignados com a arrogância criminosa de quem sempre lhes subestimara os riscos de viverem portas meias com uma tão ameaçadora bomba. Agora não escamoteiam o ódio por essa unidade industrial, que lhes ameaça a saúde dos filhos e deles próprios. Ou mesmo das gerações do futuro, razão porque uma das entrevistadas, uma senhora já de alguma idade, pedira às filhas, que não engravidassem pelos riscos de malformações e outras debilidades internas com que viessem essas crianças.
 Numa altura em que temos bem presente a ameaça, bem próxima, da central de Almaraz, ter em conta estes documentários faz todo o sentido. 

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

(DIM) «Serbis», um filme de Brillante Mendoza

Em Angeles, nas Filipinas, a família Pineda  está em acelerada decadência: em vez da rede de salas de cinema, que chegara a explorar, conta apenas com uma e um restaurante a ela associado, que mal vai dando para sustentar todos quantos vivem sob a alçada da matriarca, a Mamã Flor.
Há a filha mais velha, Nayda, que bem gostaria de ter seguido a carreira de enfermeira para que se formara, mas agora se vê condenada a gerir o negócio familiar com o marido Lando. Há o neto Jonas, que tudo espreita à sua volta, mormente a nudez da tia Jewel ou as cópulas dos homossexuais na penumbra da sala de cinema. Há Alan, que pinta os cartazes e acaba de engravidar Merly, e Ronald, com quem ele sempre se disputa.
A câmara acompanha as deambulações dos vários personagens por aquele espaço, donde quase nunca se sai. A contas com os demónios interiores, todos quantos integram a família, tentam ignorar o negócio do sexo, praticado nas suas barbas.
O cinema chama-se «Family», mas há muito que se adivinha não passarem ali filmes condizentes com tal nome: o que se vê nos breves vislumbres do que se passa no ecrã, são fitas pornográficas de há muitos anos, que ninguém se dá ao trabalho de apreciar, porque os escassos espectadores estão a prestar o «serviço» - daí o título - aos clientes de passagem. É um edifício vasto e  labiríntico, cuja arquitetura é captada em longos travellings pela câmara ao ombro do operador de Mendoza.
Na fachada para a movimentada rua, fica a cafetaria, onde Lando cozinha arroz e salsichas e o tio homossexual (que se casara para ter um filho) vende flores a preço exagerado.
Na cabine de projeção Ronaldo aproveita a atração que, por ele tem um travesti, enquanto um ou dois andares abaixo, Alan pinta os cartazes para anunciar os próximos títulos ao mesmo tempo que enfrenta a ira de Merly, que lhe exige casamento por estar grávida.
Toda essa família tem por soberana a Nanay Flor, aquela que maior consciência tem da anunciada e definitiva ruína daquele negócio de que dependem tantas bocas. Mas também a que acaba de perder o processo contra o ex-marido a quem pretendia cobrar o preço de a ter traído, e afinal apoiado por todos quantos ali dela dependem. Como pode conseguir justiça perante essa oposição, complementada com a corrupção dos juízes e dos advogados?
Mendoza revela as fraquezas e as potencialidades desses personagens, que se vão revelando em concomitância com a explicitação de todo o espaço em que atuam. Há um estilo muito pessoal na forma como gere o ritmo do filme, interligando a fotografia e o correspondente universo sonoro, lembrando de quando em quando os excessos fellinianos…
Sente-se a iminência de um desastre anunciado, mas sem auspiciosa redenção para o compensar.

(DL) A quotidiana leitura do recente romance de Paul Auster (I)

À medida que vou avançando no longo romance de Paul Auster fica a sensação de estar a percorrer diferentes narrativas interligadas apenas pelo facto de contarem com personagens semelhantes, mas aos quais as circunstâncias encarregam de diferenciar. O Archie Ferguson que fica órfão do pai, carbonizado no incêndio do grande armazém de mobiliário e de eletrodomésticos da família, é diferente do que, em texto anterior, dei conta de morrer aos treze anos na sequência da queda de um ramo de carvalho sobre a sua cabeça.
Quando Stanley Ferguson foi sepultado, a mulher e o filho vão procurar nova vida em Manhattan mudando-se para um apartamento em Central Park West.
“O avô chamou-lhe um curioso interregno, ou seja , um tempo que ficava entre dois tempos, um tempo de tempo nenhum em que todas as regras sobre como deveríamos viver tinham sido descartadas, e embora o rapaz sem pai compreendesse que não podia durar para sempre, desejava que se pudesse ter prolongado mais do que os dois meses que lhe tinham sido dados, mais dois meses para além dos dois primeiros, talvez, ou mais seis meses, ou talvez um ano.” (pág. 191)
Embora estivessem a viver o seu luto, Rose e Archie passavam juntos as vinte e quatro horas por dia, algumas delas a verem todos os filmes estreados nos vários cinemas da Grande Maçã.
Passado esse tempo, Archie começa as aulas na Hilliard School for Boys, onde é nítida a sua diferença social em relação aos endinheirados colegas, ademais quase todos católicos.
Não é sujeito a bullying, mas cedo compreende não ser aquele o tipo de sítio com que se sentisse identificado: “mesmo que não percebesse os costumes e as crenças peculiares do mundo onde tinha entrado, ele fazia o melhor que podia para respeitá-los, e nunca censurou a mãe nem a tia Mildred por terem-no mandado para lá”. (pág. 194)
As notas, porém, serão péssimas, por ele decidir-se a testar a existência de Deus, esperando pelo seu castigo. Por essa altura Rose, que dissociara-se do apelido Ferguson para recuperar o Adler de solteira, começou a trabalhar como fotógrafa para a Random House e para algumas revistas, que a faziam ausentar-se de casa mais frequentemente. Com oito anos o filho vive o fascínio pelos filmes de Laurel e Hardy.
As notas no novo estabelecimento de ensino também melhoram significativamente: “acabaram-se os blazers e as gravatas, acabou-se a missa matinal, acabaram-se as viagens de autocarro por Central Park, acabaram-se os dias enfiado num edifício sem raparigas, tudo melhorias nítidas, mas a maior diferença entre a terceira e a quarta classe não foi tanto o salto para outra escola, mas sim o fim do duelo de Ferguson com Deus. Deus fora derrotado, exposto como uma não existência impotente que já não podia castigar nem inspirar medo.” (pág. 212)
Os anos passam e, no início da puberdade, Rose já lhe dera um padrasto afável - Gil Schneiderman - e, dessa nova tribo viria a conhecer a prima Amy, com quem descobriria a magia do primeiro beijo.

domingo, fevereiro 19, 2017

(DIM) Passear os cães pelas lixeiras da Amadora

Uma das críticas mais demolidoras que li sobre cinema português foi há muitos e bons anos, quando a RTP criou uma série baseada num romance de Aquilino Ribeiro. O realizador era António Faria, hoje já quase totalmente esquecido do meio cinematográfico luso, e o protagonista um jovem Herman José, apostado em demonstrar talento dramático para além do de fazer rir. Era ele o Homem que Matou o Diabo e passava cenas inteiras a passear-se pelos campos da Beira Alta sem outros motivos, que não parecessem os de prolongar a fita até aos minutos contratados por quem a decidira produzir.
A coça que deram ao Faria por esses travellings sem fim!
Lembrei-me dessa críticas ao ver «A Cidade e o Sol», uma curta-metragem de Leonor Noivo, rodada há cinco anos. A estória é muito simples: alertada por alguém, uma mulher vai a casa do ex-namorado, subitamente desaparecido, para lhe ir buscar os cães abandonados na varanda e levá-los não se sabe bem para onde. Com base nessa ideia de luto, a realizadora mandou a atriz Sara Gonçalves armar-se de expressão abúlica e passear-se, primeiro pelas ruas de Lisboa, depois pelos baldios da Amadora cheios de lixo. 
Do que ela sente nada conseguimos pressentir, que a expressividade do rosto da atriz é tão impenetrável como o de uma esfinge. Quem era o dono dos cães, tão pouco, só o sabemos por um breve diálogo, ter sido muito importante para a protagonista.
É certo que, numa entrevista, a realizadora reivindica a condição de personagem para os objetos captados pela sua fotografia, minuciosa no detalhe, imaginativa na escolha dos enquadramentos. E esforça-se, de facto, nesse sentido. Mas não lhe sentimos a «voz», a personalidade própria.
Sei muito bem que o cinema português têm uma pavorosa falta de meios. Que beneficiando da facilidade de rodar filmes de baixo custo, graças à utilização das câmaras digitais, a nova geração de cineastas - aquela que anda agora pelos 30/40 anos - procura criar obra tão vasta, quanta a vontade de por ela ser reconhecida e, enfim, dignamente subsidiada. Mas é preciso ter ideias com alguma substância. O que não é o caso deste filme com menos de vinte minutos. Por ele somos levados para vidas alheias, que nos continuarão absolutamente desconhecidas e por paisagens suburbanas, cuja fealdade só nos pode incomodar. Se o objetivo é esse, o de nos suscitar algum desconforto, ele é conseguido. Mas desconfio tratar-se de efeito colateral de intenção alternativa cujo desígnio ficou por esclarecer.


(DL) Valério Romão na sessão LAL da Gandaia em 22 de fevereiro

Na próxima quarta-feira, 22 de fevereiro, o escritor Valério Romão animará mais uma das sessões mensais da Associação Gandaia dedicadas à literatura portuguesa contemporânea.
Nascido em França no ano da Revolução de Abril, veio em criança para o Algarve donde os país eram naturais. Licenciou-se em Filosofia, mas tem ganho notoriedade com sucessivas obras, ora na forma de romances, contos ou peças de teatro. São-lhe conhecidas igualmente participações em projetos multiculturais com outros criadores.
Lendo-lhe os contos, entretanto publicados na revista Granta, presumimos a importância que a família tem na sua obra, porquanto todos eles são vividos no interior da casa, espaço restrito onde se sentem as suas tensões e catarses.
Em «Enciclopédia Médica da Família» Romão narra-se na primeira pessoa, contando as circunstâncias do seu nascimento e a razão do nome  escolhido pelo progenitor. Há a identidade, que nunca será a francesa, porque genuína é a satisfação com que acolhe a opção do regresso a Portugal. E também a morte - outra constante nos três textos em causa - que é aqui a do pai, fulminado por ataque cardíaco na sua presença solitária, sem que nada consiga evitá-lo.
Em «Quando se pôs o meu irmão fora de casa» a disfuncionalidade da família passa pela rutura com o primogénito que, expulso do reduto, não deixa de ficar do lado de fora a espreitar as notícias dos telejornais pela janela. Existe a vontade de reintegração e a mãe bem procura sensibilizar o marido para essa possibilidade. Em vão, que o autocrata tudo põe e dispõe, até mesmo a abertura ou não das venezianas, que permita alguma interação entre os que vivem do lado de dentro e quem os espreita do lado de fora.
A morte estará presente através do bebé nascido da relação desse com uma rapariga tão desvalida quanto ele.
Mais perturbadora é ainda «À medida que fomos recuperando a mãe», o conto sobre o difícil luto de uma família depois de verem o cancro ganhar a batalha contra a progenitora. Abandonando-se no seu desespero, o pai só dele começa a reagir, quando um dos filhos mais velhos começa a imitar a voz e as expressões da defunta, tomando-lhe progressivamente o lugar para desatino dos mais novos, incapazes de entenderem tal transformação. Sobretudo quando leva esse processo até à assumpção das vestes da desaparecida.
À exceção do conto mais autobiográfico existe uma inquietante perversidade nos outros dois.  Constata-se a estranheza ligada ao processo de crescimento, a identidade do espaço a que se pertence, ao género por que se é reconhecido. E a fluidez de um estilo, que não enjeitando influências percetíveis (ele assume-as relativamente a Saramago e a Antunes), possui a especificidade de quem já encontrou a maneira de se definir como único.

(DIM) Dia 23 no Cineclube Gandaia: «O Pai dos Meus Filhos» de Mia Hansen-Love

O ciclo de cinema francês com filmes produzidos em 2008 e 2009 conclui-se com o drama de um pai de família, incapaz de conciliar os compromissos profissionais com a atenção à família. Tratando-se de um produtor de cinema, sente a empresa em risco e tenta a fuga em frente, que o levará ao desespero.
Inicialmente a vida de Grégoire parecia imaculada: oriundo de família abonada decidira dedicar-se à paixão pelos filmes independentes, financiando-os com a mitigada ambição de lhe renderem o bastante para aplicar as receitas em novos títulos passíveis de serem apresentados na cinemateca. Tenta conciliar o que tão difícil se costuma antagonizar: a arte com o lucro. E durante uns anos a sua hiperatividade e engenho em encontrar soluções, derrubam todos os problemas.
Embora nada no filme o referencie diretamente, Mia Hansen-Love fez do seu protagonista uma réplica de Humbert Balsan que, asfixiado pelas dívidas, pela recusa de novos créditos e pela traição dos que julgara amigos, suicidou-se brutalmente em 2005.
«O Pai dos Meus Filhos» aborda o amor ao cinema, a criação coletiva, o trabalho quase oculto dos que se escondem nos bastidores e se comprometem a fundo em torná-lo possível. Mas é, igualmente, um filme sobre a família aqui representada num clã radioso, constituído pela esposa e pelas filhas, que se queixam da atenção excessiva por ele dada ao telemóvel, mesmo em férias.
Quer para os colaboradores, quer para a família, Grégoire é o herói que a todos entusiasma com o entusiasmo e a capacidade de amar. Por isso todos ficarão devastados com a brutalidade do seu desaparecimento.
A realizadora é subtil na criação do melodrama: a aproximação ao desenlace é feito com pequenos sinais a prenunciarem a deriva para o abismo, que se vai anunciando aqui e acolá ao longo da narrativa. Mesmo quando ocorre há pudor em exibir o vazio suscitado pelo luto, respeitando-se a dignidade de quem vivera entre o desejo e o desespero, a força e a vulnerabilidade, a luz e a sombra.
Mia Hansen Love mostra que cada pessoa tem os seus segredos, os seus sofrimentos íntimos.  Por isso o filme não acaba com a morte de Grégoire: revoltada, desapontada por saber que o pai lhe escondera a existência de um irmão nascido de pretérito casamento, vai depois compreendê-lo e agarra-lhe no testemunho para se vocacionar no mesmo sonho. Imitando a mãe, que corajosamente tomara as rédeas da empresa e da família, quando compreendera não ter outra solução.
O que mais fascina no trabalho da realizadora é a sensibilidade com que evidencia a verdadeira natureza dos personagens. Por isso em vez de um filme crepuscular sobre a morte de um homem e do seu projeto, mostra Paris como no tempo da Nouvelle Vague com a energia e estado de graça dos que lhe sucederão. Importa pois atentar no trabalho de fotografia e de iluminação com a claridade a sobrepor-se à atração da penumbra.

sábado, fevereiro 18, 2017

((DL) À espera da travessia no Oceano

Se no ano transato, «A Espada e a Azagaia» foi o que, de todos os livros lidos, o que mais me agradou, cresce a expetativa quanto ao que trará a terceira parte da trilogia «As Areias do Imperador».
O primeiro volume, «As Mulheres de Cinza» correspondia à terra, o seguinte aos rios por onde os personagens deambulavam acima e abaixo, o próximo já terá como realidade maior o oceano em que Gungunhane será obrigado a viajar, tendo-o por cenário no forçado exílio na ilha Terceira. Será o mar como lugar interdito, a representação simbólica da morte intuída pelo antigo imperador.
Na entrevista ao JL de 18 de janeiro, Mia Couto explica quem é para si esse personagem: “a imagem de grande poder era ilusória. Parece-me até uma pessoa infeliz, impotente em relação ao que verdadeiramente queria. Como todos os infelizes, compensava as ausências com excesso, com o sonho de ter mais terras ou mais mulheres.
No livro refiro o caso do seu grande amor, que não é assim tão inventado e inspira-se numa certa memória que subsiste. Tinha 300 e tal esposas, mas a única mulher que amava foi morta pela sua corte. Era um amor interdito.
Tudo isso ajudou-me a definir uma dimensão mais humana. Podia ser alguém sentado  à nossa mesa a queixar-se das suas mágoas.  Porque o que me interessava era conhecê-lo na intimidade. Quando Imani visita Gungunhane numa pequena palhota descobre-o frágil, a pedir uma massagem porque sofre dos joelhos. Era com essa personagem que eu queria lidar.”
Antes de abordar esta fase da obra do escritor moçambicano a minha ideia de Gungunhane era diferente: rejeitava em absoluto a forma como Jorge Brum do Canto o concebera no seu panfletário «Chaimite» em 1953, que buscava a legitimação do colonialismo e a mistificação do tosco império português, mas imaginara-o mais consciente do seu papel de líder libertador do seu povo.
Mia Couto dá-nos de Gungunhane a perspetiva de um opressor de outros povos negros, cujas terras e riquezas procurava conquistar para si. Nesse tempo histórico não existem heróis, nem maus da fita: apenas a dominação do mais forte sobre o mais fraco. E o aventureirismo bacoco de Mouzinho de Albuquerque beneficiou da nem sempre certa sorte dos irresponsáveis. Contasse ele com adversário mais arguto e a presença colonial portuguesa em Moçambique teria cessado nesse ano de 1895 em que a própria monarquia estava moribunda depois de achincalhada pelo Ultimato Britânico.

(S) Diabo a Sete . Dança dos camafeus . 9Jul2016

(DL) Entre Aguirre e Corto Maltese

O meu filme preferido de Werner Herzog é «Aguirre, o Aventureiro», que abordava a expedição do vice-rei do Peru, Pedro de Ursua, em 1560, apostada na procura das cidades míticas da vasta região partilhada pelos rios Orenoco e Amazonas. 
Acompanhado pela mulher, a quem ia oferecendo banquetes frívolos e noites escaldantes, o chefe da aventura seria assassinado pelo lugar-tenente, Lopo de Aguirre, que se transformaria numa espécie de Coronel Kurtz («Apocalipse Now»), ao proclamar-se solitário imperador do vasto território, habitado sobretudo por macacos.
Era uma viagem às cada vez mais profundas trevas da floresta, transformada numa descida aos infernos feita de febre, delírio, de consumo da poderosíssimas ayahuasca.
Marco Steiner, que prefacia a edição de «A Lagoa dos Belos Sonhos» de Hugo Pratt, aborda os contrastes entre as lagoas de Veneza e as do atual Suriname, que surgem nas quatro histórias dos inícios dos anos 70 e tendo Corto Maltese como protagonista.
Se outrora os conquistadores espanhóis perdiam-se em buscas de ouro, os do século XX procuraram petróleo, minérios (bauxite) e as plantas há muito conhecidas pelos índios, que as farmacêuticas trataram de patentear para que mais ninguém as pudesse utilizar.
Não admira que Pratt tenha escolhido essa região como espaço privilegiado de algumas das estórias do seu personagem, mesmo trazendo-o amiúde a Veneza, como se fosse a cidade dos doges o que mais se poderia aproximar do conceito de porto de registo dos seus vetustos trampões.
O traço de convergência de Aguirre e Corto Maltese é a assumida solidão de ambos. Embora os oponha a ambição de poder de um com o desapego do outro. 

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

(DIM) A Trumpização dos media nacionais

O regresso de John Oliver, com o «Last Week Tonight» já tardava e só se lamenta que o alcance da emissão fique cingido aos assinantes do canal por cabo HBO, porque bem seria necessário torná-lo de visão obrigatória para a generalidade dos norte-americanos, e muito especialmente para os apoiantes de Trump.
Recorrendo ao humor inteligente aproveita a meia hora do programa para desancar forte e feio no inquilino da Casa Branca, denunciando-lhe a ignorância e a arrogância. Aliás uma das constatações é o quão incongruente fica a junção de duas palavras: Trump e Presidente.
Rumores criados em blogues de extrema-direita e em programas de «cães danados», para os quais a realidade é a que cria nas mentes doentias e não a derivada dos factos, são transformados em «verdades» assumidas como incontestáveis por quem neles quer acreditar - Trump em primeiro lugar e os seus apoiantes por arrasto.
A denúncia de tudo quanto tem acontecido nestas primeiras semanas de mandato justifica o sério apelo do apresentador no seu desenlace: tidos pela nova Administração como inimigos de estimação, os meios de comunicação social e os animadores das redes sociais deverão fazer o seu trabalho com seriedade e determinação para contestar todas as mentiras assimiladas pela Casa Branca e dela difundidas, revelando obstinadamente o seu desvio em relação às constatações factuais.
O apelo de Oliver faz tanto sentido nos Estados Unidos como aqui em Portugal, onde os meios de comunicação estão trumpizados na oposição ao governo e empolam todos os rumores e mentiras provenientes das direitas para que ganhem dimensão injustificada, a suficiente para encobrir com uma cortina de fumo os notáveis resultados económicos conseguidos neste último ano.