segunda-feira, setembro 25, 2017

(S) Country Joe Mcdonald em Woodstock a perguntar para que se andava a lutar no Vietname

(DIM) A Guerra do Vietname em versão curta

Nos próximos dias irei dedicar algum tempo de qualidade a relembrar a guerra do Vietname graças a uma série da autoria de Ken Burns e de Lynn Novick que, na versão original dura dezoito horas, mas na que chegou a este lado do Atlântico viu-se encurtada para metade.
Uma das novidades que comporta é o recurso a testemunhas norte-vietnamitas, algo raro nuns EUA ainda eivados de preconceitos para com quem ainda vê como inimigos. Persiste a falta de consenso sobre se se justificara ou não o empenho em tal conflito. Daí o compromisso dos realizadores em contarem com os relatos de norte-americanos, de vietnamitas do sul e do norte, de ativistas antiguerra, de desertores, de repórteres e guerra, para apresentarem uma resposta tão abrangente quanto possível.
A maior surpresa que Lynn Novick sentiu ao rodar este projeto foi a simpatia e sentido de abertura de quantos entrevistou na Indochina, onde não detetou qualquer rancor para com os filhos do tio Sam. E, no entanto, se aí morreram 58 mil norte-americanos, as vítimas no campo contrário ultrapassaram os três milhões, ou seja o equivalente a 10% da população. As próprias autoridades abriram os arquivos sem quaisquer restrições, bem como a agência de informação oficial.
O resultado foi uma obra que rejeita qualquer tentação maniqueísta aceitando as verdades de um e outro lado, sem as procurar comparar nem desqualificar entre si. Como já acontecia noutra obra emblemática da mesma equipa - «The War» - demonstra-se que não existem pessoas comuns em tempos de guerra, porque todas sobressaem na superação das inquietações e na coragem com que as contornam. Se continham em si alguma inocência, depressa a perdiam perante a excecionalidade das situações em que se viam mergulhadas. Daí a desconfiança crescente para com responsáveis políticos, que antes nunca se atreviam a pôr em causa. Nasce então uma nova consciência política, uma outra forma de ativismo, que se refletirá na agudização das lutas pelos Direitos Cívicos.
Apresentada  numa América tão dividida como a atual, a série pode aclarar algumas das  causas que lhe subjazem e abrir alas para respostas de outra clarividência.

 

domingo, setembro 24, 2017

(AV) As cidades Potemkin de Gregor Sailer

Não conhecia a obra do austríaco Gregor Sailer, mas ele deu-me a conhecer uma realidade insuspeitada: da França aos EUA,, passando pela Alemanha, existem muitos países a investirem verbas significativas na construção de cidades em trompe l’oeil destinadas ao exercício das suas forças militares. São aquilo a que chama Cidades Potemkin, normalmente vazias e inacessíveis, mas frequentemente percorridas por soldados equipados como se estivessem em cenário de guerra para aprimorarem as técnicas de intervenção contra atentados terroristas ou guerrilha urbana.
Nalgumas dessas cidades o pormenor vai ao ponto de criarem pequenas extensões de linhas de metro para exercitarem eventuais intervenções em estações das grandes cidades.
Se as fotografias de Sailer são irrepreensíveis no seu lado estético, dão conta de uma realidade  inquietante: embora possam parecer destinadas à preparação defensiva de combate contra quem assume uma postura ofensiva contra as suas sociedades, não temos de ser ingénuos: nos mesmos espaços onde se exercitam ações reativas, também se podem perfeitamente aprofundar as capacidades e competências em invasões contra os atuais clientes da indústria de guerra desses países, de um momento para o outro convertidos em inimigos cujas bem conhecidas armas se terão de neutralizar.


(S) A Marcha Imperial de John Williams

(AV) Um jardim para especular sobre o cosmos

Contamos entre nós com belos jardins da autoria de excelentes arquitetos paisagistas, mas quando olhamos para outros existentes noutras geografias, temos de reconhecer quanto temos pecado pela falta de ambição e de recursos para nos conseguirmos a eles equiparar.
O Jardim da Especulação Cósmica, que o casal Maggie e Charles Jencks construíram nos doze hectares da sua propriedade no sul da Escócia é disso um bom exemplo. Inspirado pelas ciências e pelas matemáticas, alia as técnicas da Land Art com esculturas destinadas a ilustrar temas tão ambiciosos como os fractais ou os buracos negros.
Não se pensem ali encontrar geometrias ao estilo do jardim inglês ou italiano: as simetrias e as curvas não são as das formas mais simples, adotando as perspetivas dos movimentos dinâmicos no sentido centrípeto ou centrífugo. Pretende-se dar forma visual à existência de universos paralelos ou da influência da gravidade nos movimentos da matéria. O infinitamente grande tem a primazia, mas o seu inverso também lá cabe. À exuberância das plantas, que outros jardins ostentam, prefere-se aqui a elegância, a harmonia da justaposição das superfícies no horizonte visual de quem por ali ciranda.
Não é espaço que se possa visitar facilmente, porque foi feito para usufruto dos proprietários, mas abre ao público uma vez por ano para recolher fundos destinados a organizações de luta contra o cancro, a doença que vitimou a cocriadora de tal obra de arte.

 

(S) A belíssima arte musical de Marin Marais interpretada por Elisabeth Reed, Cassandra Luckhardt e Katherine Heater

(DL) Como Michelangelo poderá ter encontrado o objetivo da sua arte

Em 1505 Michelangelo já é escultor consagrado graças à sua Pietá. No romance «Pietra viva», a escritora Léonor de Récondo (igualmente violinista e líder do Ensemble de música barroca «L’Iriade») imagina-o a ter um tremendo choque emocional em vésperas de iniciar a preparação da mais recente encomenda do Papa Júlio II, homem precavido porque interessado em garantir, tão cedo quanto possível, o seu túmulo. À mesa onde costuma dissecar os cadáveres, para lhes apreender o mistério de terem estado vivos, encontra o corpo do belo e bem amado Andrea sem sinais visíveis da causa do seu trespasse.
Não é que a paixão dele pelo jovem monge tivesse comportado alguma cumplicidade carnal - nesse sentido o artista mantém-se firme na equívoca virgindade! - mas o morto alimentara os seus mais excitantes fantasmas eróticos e artísticos.
Incapaz de, finalmente, tomar-lhe posse do corpo, Michelangelo parte nessa mesma noite para Carrara onde se atardará seis meses a escolher os mármores mais puros na pedreira ali dirigida pelo seu amigo Topolino. Uma dúvida o atormenta: que teria causado a morte de Andrea? Razão para pedir esclarecimentos por carta a outro clérigo, o frei Guido.
Por essa altura o leitor julga iminente um mistério policial em ambiente de «O Nome da Rosa», mas a autora dispensa-se de tal tipo de intriga, mesmo demorando a dar conta de uma prosaica febre como causa da morte do jovem monge. Aquela que poderia ser a ferramenta de esclarecimento do possível crime - uma «Bíblia» sublinhada, que o defunto lhe deixara em testamento - acaba por servir-lhe de complemento à descoberta, que o aguarda graças ao convívio, ora assertivo, ora entediado com Michelle, um miúdo de seis anos, cuja mãe morrera de parto num dos primeiros dias de estadia do artista na aldeia. É dos encontros e desencontros com esse rapaz, que o escultor verá mudada toda a perspetiva sobre a sua arte, recuperando na memória os rostos, quer de Andrea, quer da própria mãe, perdida em circunstâncias similares às do miúdo. A escultura torna-se-lhe a oportunidade para garantir a imortalização de quem ama com o recurso à pedra viva. É que, se a carne conhece a finitude, a pedra mantém-se quase imutável ao longo de muitos séculos.
Leonor de Récondo revela-se tão subtil no manuseio das palavras e na construção das frases, quanto nas cordas do seu violino. Se a estória é linear, sem azo a grandes elucubrações reflexivas, não deixa de estar bem contada, credibilizando um possível sentido para a arte de um dos grandes artistas do Renascimento.

(S) O Ensemble Yriade interpreta «Orfeu» de Rameau

sábado, setembro 23, 2017

(I) Quando o conceito de trabalho começou a ser teorizado

Tendo vivido na mesma época que Homero - ou seja entre 750 e 650 a.C. – Hesíodo foi dos primeiros a teorizar a importância do trabalho, considerando-o necessário e muito apreciado pelos deuses do Olimpo, que proporcionariam aos homens os frutos de tal esforço. Que seria dos pastores sem a ajuda de Aristeu ou de Pã? Ou dos agricultores sem Demétria? Ou dos caçadores sem Artemísia?
Ao contrário do que os Romanos viriam ulteriormente a defender, os deuses gregos não apreciavam a ociosidade, porque só através do trabalho se estabelecia a relação entre o homem e a divindade. Curiosamente a religião católica também viria a execrar o ócio apontando-o como a causa de todos os vícios.
A partir do século XVIII sucessivos filósofos elaboraram os fundamentos históricos do conceito do trabalho, fazendo-o evoluir à medida que se iam alterando os meios de produção.
Em «Princípios da Economia Política e do Imposto», publicado em 1817, David Ricardo retomou e afinou a noção do valor do trabalho, criada por Adam Smith no século anterior na famosa, e idolatrada pelos gurus do capitalismo, «Da Riqueza das Nações». Ao contrário do antecessor, Ricardo negava à terra o papel de criação desse valor, já que o aumento da riqueza apenas se deveria à conjugação do trabalho humano e do capital. E mesmo este dependia inteiramente do produzido pelo trabalho, afinal fonte única de criação da riqueza. O que Ricardo acrescenta à teoria de Smith é que, em vez de necessário à produção de mercadorias, o trabalho estava-lhe em toda a génese e desenvolvimento. Cada uma delas possuía um valor correspondente ao tempo de trabalho em cada uma das fases da sua criação, surgindo assim o conceito de «trabalho incorporado».
Ricardo ainda estipulava a diferença de valor entre duas mercadorias, que careceriam do mesmo número de horas de trabalho para serem concluídas: ela derivaria da diferença qualitativa nelas aplicadas, cuidando de as quantificar sob tal perspetiva.
O filósofo já integrava no seu corpo teórico a análise do ludismo, que tivera o seu auge entre 1810 e 1811 no norte de Inglaterra, sobretudo em Nottingham, com os operários têxteis a destruírem as novas máquinas a vapor, que lhes vinham pôr em causa a continuidade nos empregos. Defendidos por Lord Byron, que previa a existência de uma terrível sociedade futura em que todas as mercadorias seriam produzidas por máquinas, os luditas sofreram tal repressão que os seus principais líderes foram condenados à morte.
O advento da Revolução Industrial trazia consigo a alteração do conceito e das condições de trabalho, surgindo a preocupação em legislá-lo de forma a conter-lhe os piores contornos. A primeira lei especificamente sobre a implicação humana na produção de bens transacionáveis diria respeito á proibição do trabalho infantil. 

(S) A interpretação de Enrico Caruso de «Una Furtiva Lagrima» em 1904

(DIM) Chegar ao cume e depois?

No primeiro episódio de uma série televisiva, que promete bem mais do que convenceu nesta descoberta - «I'm Dying Up Here» - dois personagens comentam o feito de Edmund Hillary nos Himalaias. Durante anos ele esforçou-se na preparação do grande projeto de ser o primeiro a escalar o Evereste, tido como impossível de concretizar desde que Mallory ali perdera a vida.
Em 29 de maio de 1953, acompanhado de Tenzing Norgay, ele conseguiu-o à custa de um sofrimento quase insuportável, porque a bravura não encontrava equivalente na energia para o empurrar montanha acima nas agrestes condições em que o fez. Daí que só durasse quinze minutos a permanência nesse topo do mundo. O que justificava a questão implícita por quem contava a estória: teriam valido a pena tantos e tantos trabalhos, ao longo de anos a fio, para que o gozo do momento culminante se cingisse a esse quarto de hora? Ou, mais do que alcançar o objetivo, a satisfação tem mais a ver com tudo quanto se faz para lá chegar?
No diálogo ainda se comenta a forma como Hillary e Tenzing comemoraram o sucesso: quando regressaram ao campo-base comeram uma prosaica sopa. Comentário de um dos interlocutores da conversa: “espero que tivesse sido boa!”
A metáfora condiz com a forma de encararmos a nossa existência. Convirá alimentar sempre sonhos maiores do que os concretizáveis na realidade, porque arriscamo-nos à frustração de já não termos mais Índias para descobrir se só a elas pretendíamos alcançar. Daí a relevância das Utopias: podemos lamentar a lonjura que elas distam do que vivemos, mas, tendo-as sempre presentes, e esforçando-nos por delas nos aproximarmos, nunca seremos dos que se sentem desempregados, quando tocam o cume das ambições e mais nenhuma encosta se perfila para ser novamente escalada. 

(S) «The Time is the Enemy» por Quantic

quinta-feira, setembro 21, 2017

(DIM) Quando Woody Allen trocou os cenários novaiorquinos pela cinzenta capital inglesa

Em 2005, quando conseguiu que a BBC Films lhe produzisse o filme para que já não conseguia financiamento nos EUA, Woody Allen estava numa fase muito complicada da sua biografia: embora as desavenças com Mia Farrow tivessem ocorrido há uma dúzia de anos, as mossas na sua imagem tinham-se cristalizado negativamente, tanto mais que os sucessivos títulos  de tal período mostravam-no sem gravitas, quase rotineiro. Longe ia o tempo em que se pensava em Nova Iorque e se o referia como seu ícone incontornável. Já tinham passado dezasseis anos desde que assinara um filme verdadeiramente memorável, «Crimes e Escapadelas», que, muito curiosamente vai replicar neste mui saudado regresso à melhor expressão do talento. Escusando-se, igualmente, a dar o corpo ao manifesto na tela, resguardando-se exclusivamente atrás dela.
«Match Point» revela-se um thriller moral, focalizado num protagonista tão niilista como o era Martin Landau nesse título anterior. E não é, obviamente, por acaso, que começamos por ver esse Chris a ler «Crime e Castigo» de Dostoievski, verdadeira piscadela de olho para toda a trama que se seguirá. Mas, com Woody Allen, é preciso desconfiar desse tipo de sinais, porque alguns revelam-se falsos: quando Scarlett Johansson irrompe no ecrã vemo-la a homenagear Lauren Bacall com a jactância com que acende um cigarro. Logo lhe prevemos um desempenho de femme fatale, que não se confirma: pelo contrário, ela será a grande vítima de um assassino sem escrúpulos, interessado em consolidar a ascensão social obtida por um comportamento arrivista mais bem sucedido do que o «Barry Lyndon» de Kubrick, secundarizando as pulsões afetivas.
Uma das cenas mais memoráveis do filme - a da bola em equilíbrio precário na rede do court de ténis - explicita a tese de estarmos todos dependentes de circunstâncias casuísticas, definindo-se o futuro em função do lado para onde essa bola pende. No entanto a sequência melhor construída é a do assassinato, que dura uns dez minutos, mantém um suspense, até impossível de superar pelo mestre Hitchcock, quiçá só excedido pelas melhores páginas de Patricia Highsmith.
Essa cena, tendo por fundo sonoro o 2º ato da ópera «Otello» de Verdi, melhor evidencia outra das opções excecionais de Woody Allen neste filme: em vez do jazz dos anos 20, 30 ou 40, escolhe árias de sucessivas óperas italianas, sobretudo nas versões em 78 rpm, gravadas na época da Primeira Guerra Mundial e interpretadas em muitas delas pelo inolvidável Enrico Caruso.
«Match Point» foi o filme, que levou a crítica internacional a resgatar o realizador da subalternização a que o remetera por tantas deceções anteriores. Mesmo que, posteriormente, não voltasse a situar-se a um patamar de qualidade semelhante ao que aqui atinge. Mas, merecidamente, ao garantir receitas de 63 milhões para um filme, que só custara 15, ele provava ainda ser investimento seguro para quem se escusara a financiar-lhe este projeto.


quarta-feira, setembro 20, 2017

(S) O trágico destino do autor da «Carmen»

Um dos mais trágicos destinos de compositores conhecidos na História da Música é o associado a Georges Bizet, cuja morte precoce, aos 36 anos, ocorreu logo após o tremendo fracasso da sua «Carmen» na Ópera Comique de Paris. Nesse 3 de junho de 1875 já se afastara da cidade, acossado pela crítica e pelo público, não só escandalizado com o tema verista da estória, mas também com a fraca qualidade dos cantores e dos cenários, assaz desadequados para o quanto deles a obra dependia.
Bizet viu fracassados os seus planos de, com um merecido êxito, conseguir libertar-se dos alunos  a quem tinha de dar aulas para conseguir o necessário rendimento para o sustento da família. Porque, para trás, tinham ficado outras obras - mormente as óperas «Pescadores de Pérolas» (1863), «A Linda Rapariga Persa» (1867) e «Djamileh» (1871) cujo sucesso fora igualmente relativo, embora sem jamais haverem conhecido reação tão negativa.
No corolário da curta vida o compositor sempre revelou uma saúde frágil que, associada à infelicidade conjugal e à constante insegurança interior, encontrava particulares obstáculos na sociabilidade com quem detinha o poder: essa burguesia arrogante, que desprezava os mais pobres e por isso por eles se vira seriamente ameaçada nos combates da Comuna de Paris.
Bizet já não pode assistir à sua reabilitação pública: depois de ter sofrido com as pateadas e com o abandono da sala pelos espectadores das primeiras representações, os músicos ambulantes tornaram muitas das árias da «Carmen» em grandes sucessos populares. E quando, em outubro desse mesmo ano de 1875, a obra estreia em Viena logo é elogiada por tão insuspeitos apreciadores como Brahms, Nietzsche ou Richard Wagner. 
Foi, porém, Tchaikovski o seu maior defensor prevendo que, daí a dez anos a «Carmen» seria a mais apreciada obra do reportório operático dos palcos de todo o mundo. A partir daí o seu sucesso repetiu-se em teatros europeus e norte-americanos, sempre colhendo enfáticos entusiasmos dos seus espectadores.
Terá sido necessário esse êxito generalizado para que a Opera Comique a levasse de novo à cena em Paris. Os detratores anteriores primaram então pela ausência ou pela rendição ao talento de quem, já sepultado no cemitério do Père Lachaise estava impossibilitado de receber o reconhecimento por que tanto esperara e lhe fora sempre negado.
 

(DIM) O cinema português a testemunhar o que significaram os anos da troika

Se o 25 de abril e a guerra colonial não têm sido objeto de tão grande abordagem no cinema nacional quanto mereceriam ser revividos, reequacionados e reanalisados, o negro período entre 2011 e 2015 - quando as direitas viram a oportunidade de empurrarem os portugueses para o abismo a cuja beira tinham sido acossados pela crise dos subprime (por muito que no-lo tentem impingir foi o bater de asas de uma enorme borboleta, ou seja a falência da Lehman’s Brothers em Wall Street, a fustigar-nos com violento furacão!) - vai-nos chegando sucessivamente aos ecrãs.
Depois de «Os Gatos não têm Vertigens» de António Pedro Vasconcelos, «As Mil e uma Noites» de Miguel Gomes, «São Jorge» de Marco Martins e «Índice Médio de Felicidade» de Joaquim Leitão, eis que estão aí a chegar «Colo» de Teresa Villaverde e «A Fábrica do Nada» de Pedro Pinho.
Por muito que seja experiência difícil para quantos sofreram gravemente os efeitos das políticas danosas do governo anterior, as duas propostas fílmicas também comportarão algo de catártico para quanto de doloroso restou desse passado ainda tão recente.
Em «Colo» temos a crise e as suas sequelas à escala de uma família, quando ficar sem trabalho é um violentíssimo murro no estômago e se sabe não existir outro a que se possa aceder. Daí a angústia que paralisa, deprime e isola. O desempregado vê-se envergonhado perante os outros, que costumavam girar à sua volta, e sobretudo perante a família de que se habituara a ser  esteio económico.
Após a vitimização cresce a sensação de se ter tido culpa, que impede a energia de se tentar compreender a causa do sucedido. A partir daí é a curva sempre descendente, traduzida na destruição da unidade familiar, ferida de morte pela impossibilidade de comunicação. Mas é quando se chega ao fundo do poço, que a redenção volta a ganhar algum alento…
O desemprego também está presente em «A Fábrica do Nada», porque, logo de início, anuncia-se o encerramento de uma fábrica. Oportunidade para alguns ponderarem na possibilidade de arregaçarem as mangas e lançarem por diante um projeto de autogestão. O efeito é o de, em vez de concentrarem os seus agravos nos patrões, que os tinham conduzido a esse impasse, os operários digladiarem-se entre si, uns apostando na ousada possibilidade de agarrarem o futuro por si mesmos, os outros a dissuadirem-nos como se fossem quixotes a terçarem com irrelevantes moinhos.
Na mistura entre documentário e ficção, também aqui se representa o sentimento de impotência e de humilhação ou a dificuldade em entenderem-se quem tinham motivos de sobra para o fazerem e acabam desavindos. No fim ficam muito mais perguntas que as respostas, porque estas só proviriam da opção pelos artifícios do cinema militante e Pedro Pinho escusa-se voluntariamente a seguir por aí.
 

(S) A Valsa do Sangue Vienense, opus 354, de Johann Strauss II

terça-feira, setembro 19, 2017

(DIM) A experiência de psicologia social, que tanto revelou sobre os comportamentos humanos

Dois homens chegam ao mesmo tempo à porta do laboratório onde servirão de cobaias a uma experiência científica: à sorte distribuem-se nos papéis disponíveis, o que significa um fazer de aluno e o outro de professor.
Separados em salas diferentes, o «professor» fará perguntas ao «aluno» e, se ele responder erradamente, puni-lo-á com um choque elétrico, inicialmente fraco (45W), mas violentamente forte no final (450W).
Semanas após semanas os testados vão-se-sucedendo nas salas, com o «professor» a ser sempre diferente e o aluno o mesmo. Porque a experiência só está a acontecer em aparência: é o comportamento dos que fazem o papel punitivo a ser dissecado pelo autor do projeto, o psicólogo Stanley Milgram. A conclusão do estudo - quando publicado! - chocará a América: apesar de terem a noção de estarem a infligir dor ao «aluno», os sucessivos «professores» vão quase todos até ao final, sem se escusarem a prosseguir no que adivinham tratar-se de um ato de tortura.
Numa altura em que Eichmann está a alegar a sua inocência no Holocausto, porque apenas se limitara a acatar as ordens dos seus superiores hierárquicos, Milgram demonstra ser esse o comportamento da generalidade dos americanos quando sujeitos às mesmas condições: coagidos a cumprirem um determinado desempenho quase nunca chegam a pôr em causa a sua justeza ou sequer humanidade.
É da autoria de Michael Almereyda o filme «Experimenter», que serve de biopic à vida e obra do psicólogo em causa e dá conta dos seus dilemas morais e dos ferozes ataques de que se vê alvo, quer pela imprensa, quer pelos pares. Está em causa a tendência para que se assuma o comportamento esperado pelo microcosmos social em que cada ser se encontra. Por isso as experiências de Milgram vão ao encontro de outros comportamentos de mimetismo social: se alguém numa avenida movimentada se puser a olhar para o céu, logo será imitado por uma multidão de basbaques, incapazes de perceberem a razão de ser de assim procederem. Ou os que metidos numa sala em que todos os colegas são cúmplices de quem orienta a experiência e respondem erradamente a uma questão muito simples, contrariam a sua própria evidência repetindo a resposta errada, quando chega a vez de verbalizarem a solução. Ou ainda os que entram num elevador e todos os demais parceiros de viagem se viram para o lado contrário e eles, sem conseguirem resistir, também seguem a lógica do grupo.
As experiências de Milgram dão razão à célebre frase de Gasset: não somos apenas nós próprios, mas também as circunstâncias, que nos empurram numa ou noutra direção. O tão valorizado livre arbítrio acaba por ver-se subalternizado por quanto se passa à volta.
Foi com esse tipo de experiências, que Stanley Milgram compreendeu melhor como tantos milhões de judeus foram chacinados por homens banais, que assumiram a responsabilidade pelo Mal naquelas precisas circunstâncias.
 

(S) «Guitarrra» dos Madredeus

segunda-feira, setembro 18, 2017

(DL) Na Cidade de Ulisses descrita por Teolinda Gersão

Para Paulo Vaz a oportunidade é aliciante: o convite para uma exposição no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, trabalhando Lisboa como tema. Acontece que essa ideia já lhe germinara anos atrás, quando ainda vivia com Cecília, pelo que a pretende associar ao evento. O que poderá suscitar-lhe alguns problemas com Sara, a atual companheira, mas sobretudo com a própria Cecília, que havia com ele rompido a ligação amorosa e dele rejeitara todas as tentativas de contacto.
É assim, que inicia o romance «A Cidade de Ulisses», que Teolinda Gersão publicou em 2011 e a pôs a assumir o papel de voz do narrador masculino. O que suscita sempre aquele interesse de aferirmos quão credível é alguém colocar-se na pele de quem pertence ao género oposto.
Mas o romance não se cinge a esse triângulo potencialmente gerador de conflitos, porque a escritora opta por nos dar a conhecer o passado de Paulo Vaz, assim nos remetendo para os derradeiros anos do salazarismo e os subsequentes à Revolução de Abril. O pai era um major do Exército, que nunca se livraria dos valores ultraconservadores em que fora educado. Por isso mesmo a mãe será uma mulher cerceada nos seus valores artísticos, sempre confrontada com os ciúmes doentios de quem a fora buscar à mediocridade de uma cidade de província para a subjugar numa cidade, que lhe passaria completamente ao lado.
Se apostávamos em quezílias amorosas, elas tardarão a chegar, porque assistiremos prioritariamente ao conflito de gerações entre Paulo e esse odioso pai. A saída de casa e as bolsas, que lhe permitem estagiar em vários países europeus, libertam-no das amarras em que sabe deixar a mãe, anos depois a imitá-lo da forma mais trágica, porque evadir-se-á de si mesma ao ver-se acometida da doença de Alzheimer.
Conheceremos depois o período mais feliz da vida de Paulo, quando o dia-a-dia com Cecília parece continuamente pintado de cor-de-rosa. Até uma disputa terrível, e de consequências trágicas, os afastar. A escritora consegue vencer a aposta ao fazer-nos odiar esse protagonista, que continua a contar-nos as suas circunstâncias na primeira pessoa e procura desculpabilizar-se do seu indesculpável comportamento.
Chegamos, enfim, ao terceiro capítulo, quando a exposição se cumpre, apagando-se a de Paulo, perante a surpresa pública da descoberta da obra dela, durante anos acumulada no seu atelier. Para o pintor esse momento é o da definitiva libertação de um passado a que permanecera agarrado, ficando finalmente aligeirado para o futuro com a paciente Sara.
Não sendo um romance, que me entusiasmasse pelo tipo de tema e de personagens, há que reconhecer-se o talento da autora na forma como o estruturou e desenvolveu. No teste, que cá em casa fazemos como definidor da qualidade da escrita - a sua leitura em voz alta -., ele passa com distinção. 

(S) O Concerto para piano nº 25 de Mozart com Mitsuko Uchida como solista e Riccardo Muti a dirigir a orquestra