quinta-feira, novembro 23, 2017

(DIM) Esta noite no Cineclube Gandaia iremos escalpelizar «Paranoid Park» de Gus Van Sant

Em 2006 o realizador Gus Van Sant estava num impasse quanto ao que faria a seguir, depois de concluída a trilogia sobre a morte, que incluíra como títulos o «Gerry» de 2002, o «Elephant» de 2003 e o «Last Days» de 2005.
Entusiasmou-se, então, por um livro de Blake Nelson intitulado «Paranoid Park» e que tinha como cenário a cidade de Portland, no Oregon, um daqueles locais raramente objeto da atenção dos cinéfilos e onde poderia explorar personagens incomuns. O tema do romance ajustava-se à intenção de abordar a forma como a aprendizagem da vida poderia ser feita tão abruptamente, através de uma espécie de remake do «Crime e Castigo» de Dostoievski transferido para um ambiente contemporâneo. Tal como na obra maior do autor russo temos um anti-herói mergulhado num abismo metafísico. Com a diferença de aqui ter-se tratado da morte acidental de um segurança, brutalmente cortado em dois por um comboio, quando o protagonista tentava dele escapar.
Um dos aspetos que fascinam no filme é Gus Van Sant ter-se dissociado da estrutura linear da narrativa optando por baralhar e dar voltas no tempo. Logo de início há algo de premonitório na frase anotada por Alex no seu diário quanto a ninguém estar preparado para a experiência do Paranoid Park. O nome verdadeiro de tal espaço é Burnside Skate Park e foi construído e mantido por miúdos, ainda sendo um dos maiores e míticos recintos da modalidade a nível mundial.
Porque pretendia jovens atores, que ninguém conhecesse, e fossem hábeis praticantes de tal desporto, Gus Van Sant procurou recrutá-los nas redes sociais, tendo feito quase três mil audições para conseguir preencher os papéis congeminados no argumento, que levara apenas dois dias a criar.
Temos assim Alex, o Raskolnikov de serviço, a contas com a desagregação da família (os pais em processo de divórcio) e mais interessado nas sessões de skate do que nas tardes de sexo com a namorada. Há Jared, o colega de turma, que o levara pela primeira vez ao Paranoid Park, mas não o acompanhara na obsessão por ali vivenciar todo o tempo disponível. Há Scratch, o homem mais velho, que o convidara para divertirem-se à pendura nos comboios ali ao lado e, na prática, o aliciador para o drama, que se seguiria. E há o detetive Lu com a sua paciência asiática para conseguir a revelação do sucedido, esclarecendo que o aparente acidente comportava uma realidade complexa e enquadrável na classificação de homicídio. Se o Paranoid Park começara por representar a possibilidade de transgressão, acabaria por se converter em cenário de crime com a respetiva investigação policial mediatizada. E, como sucede habitualmente nos filmes de Van Sant a amizade serve de contrapeso à solidão e à desorientação suscitada pela dissolução dos laços familiares.
Existem poucos diálogos, mas atenção ao notável trabalho sonoro, que confere ao filme a ambiência pesada. O trabalho de fotografia, dirigido por Christopher Doyle é merecedor de particular atenção: além do recurso frequente da câmara ao ombro, não faltam os longos travellings típicos da filmografia gusvansantiana, distinguindo-se as cenas rodadas em 35 mm das que se optou pelo Super 8 (quase todas em que existem exibições dos skaters).
A música desempenha, igualmente, um papel determinante, podendo os apreciadores de Fellini encontrar aqui as sonoridades compostas por Nino Rota para «Amarcord» e «Julieta dos Espíritos».
Como balanço podemos questionarmo-nos sobre que sentido nos leva a integrar este filme num ciclo sobre o Sonho Americano e a facilidade com que ele se transforma num pesadelo. Mas parece-nos óbvia essa quase inevitável queda no abismo suscitada por circunstâncias, que prometiam compensações, mas afinal se convertem em angustiantes e insolúveis labirintos.
Pessoalmente este é o meu filme preferido neste ciclo, que corrobora afinal o motivo porque o prestigiado «Cahiers du Cinema» o tenha enaltecido como o melhor de quantos foram estreados em França em 2007.



quarta-feira, novembro 22, 2017

(DL) Dickens como testemunha da Revolução Industrial

Charles Dickens viveu na época em que Londres vivia a azáfama da Revolução Industrial. Quando ali chegou, em 1822, através dos barcos, que navegavam pelo Tamisa, ele era muito pobre, situação logo agravada com a prisão do pai acusado de falência. Aos 12 anos já estava a trabalhar nas condições terríveis então padecidas pelos operários das fábricas. Mas também sentia um crescente fascínio pela metrópole onde, dentro do mais imperscrutável nevoeiro dos fumos poluentes, continuavam a brilhar as luzes dos candeeiros.
A cidade ainda melhor dele será conhecida, quando a percorre como jornalista político, encontrando todo o tipo de personagens, sórdidos uns, miseráveis outros, que integrarão as obras literárias mais famosas: «Oliver Twist» ou «David Copperfield».
A rainha, que em todos manda, é Vitória, que chega ao trono em 1837 e aí se manterá nos sessenta e quatro anos seguintes. Será um período de uma enorme transformação da cidade e da própria Inglaterra: constroem-se numerosas gares ferroviárias, donde partem linhas para todas as principais cidades da ilha, permitindo que delas, mas sobretudo dos seus campos, venham os muitos milhões que, só no espaço de duas gerações, farão Londres passar de um para sete milhões de habitantes.
Se queremos conhecer como tais mudanças se produziram, o escritor é uma das mais conceituadas e credíveis testemunhas. 

(S) Au Revoir Simone interpretam "A Violent Yet Flammable World" (Twin Peaks 2017)

(EdH) O falso ícone excessivamente publicitado por quem deveria tê-lo reduzido à sua efetiva dimensão

Nunca pude compreender o fascínio, que Charles Manson suscitou no imaginário norte-americano desde que foi preso por assassinar Sharon Tate e os convidados da sua festa de 8 de agosto de 1969.
Apesar de todo o horror relacionado com tais homicídios, eles mais não são do que um dos muitos exemplos da psicopatia coletiva, que grassa na sociedade norte-americana. e traduzida atualmente na defesa intransigente da posse de armas, mesmo que elas continuem a causar anualmente muitos milhares de vítimas.
Transformar um torpe crápula num ídolo pop, e até dá-lo como coveiro da cultura dos anos 60, é um tipo de narrativa, que pode entusiasmar gente irresponsável, mas inaceitável para quem queira olhar para aquela época com alguma dose de sensatez.
É claro que a autodesignada contracultura estava condenada a embater no beco sem saída para que investira aceleradamente graças a overdoses de LSD e outras drogas sintéticas, que prometiam estados alterados da mente, mas conduziam invariavelmente ao cemitério.
Uma Revolução comporta sempre um modelo de Utopia, mas a mística do sexo, drogas e rock ‘n rol só prometia efémeras trips vividas individualmente sem que nada decorresse do ponto de vista coletivo. E, numa altura, em que os norte-americanos conheciam sucessivos insucessos na Guerra do Vietname era demasiado tentadora a possibilidade de se convencer a nação de haver uma relação causa-efeito entre a «degradação dos valores e dos costumes» e a decadência da força bruta imperialista.
O caldo de cultura para as derivas ultraconservadores das décadas seguintes (com Reagan, Bush pai, Bush filho e, agora, Trump) criou-se então. Sem que Manson ou as suas concubinas tivessem contribuído com prego ou com estopa.
Quando Sharon Tate foi brutalmente assassinada, Otis Redding já morrera e, sucessivamente, alguns dos nomes maiores da gesta psicadélica - Jimi Hendrix, janis Joplin, Jim Morrisson - seguir-lhe-iam os passos, levados por previsíveis overdoses. E essas mortes, sim, serviram de dobre de finados por uma época que nunca mais se dissociou das muitas lendas com que se viu colorida. Mesmo que a maioria delas nada tivesse a ver com a verdade dos factos. 

terça-feira, novembro 21, 2017

(S) A recordação de um anarca inconsequente

Os comunistas franceses nunca morreram de amores por Georges Brassens e ele pagou-lhes na mesma moeda. Ao contrário de Léo Ferré, que até por ter musicado e cantado Louis Aragon mereceu deferência dos organizadores da Festa do Humanité, o cantor de Sète sempre se assumiu como libertário e, como tal, justificou as desconfianças de quem, mesmo apreciando-lhe as canções provocatórias, as sabia inconsequentes para mudar fosse o que fosse.
Se queremos encontrar canções, que desafiem a  autoridade, a hierarquia e todas as demais premissas da ordem estabelecida, o reportório de Brassens dá-nos munições contundentes. Mas a impertinência contra as boas maneiras nada contribuíram para que essa ordem burguesa saísse beliscada.
Na época era um cantor completamente a contracorrente em relação às modas: extremamente inteligente, gostava de provocar o público com o recurso ao vernáculo, não deixando de apelar à sua inteligência. Ademais, ateu determinado, afirmava-o de forma quase sempre blasfema.
Em 1972 conhece em palco uma das maiores satisfações ao cantar «Gare aux Gorilles» no Bobino, depois de ter visto tal tema proibido durante anos a fio. Antimilitarista contumaz, afirmava sê-lo por, desde criança sempre ter detestado a disciplina. Já então o que mais gostava era dizer não.
Ao morrer em 1981, quando só contava 60 anos - e seis meses depois da vitória presidencial de François Mitterrand - o cantor pouco se devia identificar com a revolução serena, que se prometia levar por diante. É que pouco fazendo para a precipitar, Brassens preferiria sempre uma reviravolta mais tonitruante. Provavelmente esperançado que ela nunca acontecesse enquanto fosse vivo...

(DL) Estórias de um presente desencantado

Um livro sobre a miséria, a falta de dinheiro. Num pequeno apartamento de Lyon, por cujas frechas das janelas o frio enregela, Sophie dedica-se a escrever um romance como paliativo para a condição de desempregada, que teme vir a tornar-se irreversível.
A sua condição é a de muitos jovens: tão-só concluído o curso não arranjou colocação, subsistindo precariamente de subsídios demasiado espaçados para todas as suas necessidades. A fome é uma realidade, que não consegue evitar.
Há quem dê mostras de generosidade e solidariedade, ajudando-a, mas também não lhe faltam os que só lhe complicam a vida, nomeadamente o namorado, Hector, apenas obcecado pela satisfação sexual, ou o demoníaco Lorchus.
No meio de tanta provação manter a sanidade mental é uma proeza, que tem dúvidas se conservará por muito tempo. Por isso sente-se tentada a optar pelas vias mais desesperadas (a prostituição ou o roubo), sem que a alternativa enfim encontrada de um emprego precário e mal pago num restaurante, a console minimamente.
O romance de Sophie Divry, com muito de autobiográfico, também retrata uma sociedade marcada pela islamofobia, que se deixa seduzir pela argumentação da Frente Nacional. Às tantas a única alternativa a uma realidade marcada pelos contínuos conflitos é o recurso à imaginação. Até porque resulta num livro como este, onde a comicidade acaba por ser encontrada ao virar de muitas das suas páginas, porque já Albert Memmi nos ensinara que, não havendo outra solução, o desesperado ri.

segunda-feira, novembro 20, 2017

(S) O Adagio (2º andamento) do Concerto para Violoncelo de Haydn, interpretado por Rostropovich

(DIM) À espera de um Giovanni, que é mais do que um Godot

Jeanne chega à Sicília à procura de recuperar a relação com o ex-namorado. Giovanni convidara-a numa altura em que, viremos a sabê-lo depois de ter acontecido entre ambos a precipitar algo próximo da rutura. E que terá tido na leviandade dela a sua causa.
Anna, a putativa sogra, incita-a a ficar ali, na grande mansão familiar onde ela própria, também vinda de França, fora recebida muitos anos atrás com alguma hostilidade, sentimento que não pretende repetir com a inesperada convidada.
Que houve um funeral recente, sente-o Jeanne no comportamento dos que ali encontra reunidos já depois do sepultamento. Mas Anna diz ter-se tratado da cerimónia em prol do próprio irmão. E esse é o grande motivo de ceticismo, que teremos na hora e meia seguinte, quando constatamos que a recém-chegada nunca coloca a possibilidade de ter ocorrido a morte daquele cuja vida procurava. Enquanto isso pressentimos em Anna a vontade de, através da presença daquela que o filho amara, uma forma de o fazer perdurar um pouco mais em si.
O caseiro Pietro tem vontade de pôr cobro a uma situação, que considera mórbida e algo blasfema abandonando por isso a casa e deixando as duas mulheres ainda mais sós, uma face à outra, sem que emerja qualquer tensão inimistosa entre ambas. Até que Anna remove os panos, que tapam os espelhos, pondo fim ao luto e diz à rapariga, que Giovanni nunca regressará. Que a não quer mais. E é nessa ambiguidade, que o filme se conclui.
Baseado vagamente em personagens pirandellianos «À Espera» de Piero Messina não é filme tão interessante quanto alguns críticos o terão apreciado. Com Nanni Moretti a rarear nas suas propostas não há como encontrar algo de excecional no que se produz na península italiana. Apenas coisas assim, vagamente curiosas, que rapidamente se esquecem, mesmo que suportadas - como é o caso com Juliette Binoche!  -  em atores e atrizes, que estimamos.

domingo, novembro 19, 2017

(S) Ton Koopman a dirigir a Suite para Orquesta Nº 3, BWV 1068 de J. S. Bach

(I) Acerto no diagnóstico, mas não na solução

A acumulação capitalista cria a sua própria representação, que tende a esmagar-nos - eis uma das principais conclusões a que chegou Guy Debord, quando analisou a forma como os explorados são mergulhados numa ideia irrealista da sociedade real vendo-se impotentes quanto á espoliação das mais-valias do seu labor.
Ao contrário do tipo de exploração feudal ou esclavagista os detentores dos meios de produção sabem que têm de contar com os tempos livres dos que pretendem continuar a explorar. Daí a importância de os alienar, de lhes transmitir conteúdos nos jornais, nas televisões, nos suportes publicitários espalhados por todo o lado, que os levem a não questionar a justiça com que são distribuídos os rendimentos porque importa sobretudo alcançar os bastantes para usufruir dos bens de consumo - quantas vezes supérfluos, mas apresentados como imprescindíveis! - com que se veem continuamente bombardeados.
Para sujeitar os explorados a essa apatia, que os leve a nada questionar, também se transformou o desporto num exemplar jogo de compra e venda de mercadorias, com os jogadores de futebol a serem como tal transacionados, entre o fascínio beatífico da maioria e a indignação impotente de uns quantos, que tomam essa realidade como uma eficiente estratégia do capital para manter e aumentar a sua influência.
Se o pensamento de Debord merece reservas é que se fica pelo diagnóstico certeiro sem dar resposta consequente à forma de o alterar. Porque acreditando no despertar individual como forma de conseguir, a partir dele, a necessária consciência transformadora é algo de ilusório. Enquanto outras estratégias não se mostrarem mais proveitosas não há como utilizar as que passam pela militância ativa em partidos e movimentos apostados em virar do avesso esta forma de gerir a economia coletiva em que uns têm quase tudo e aos outros poucas migalhas restam...

sábado, novembro 18, 2017

(DL) «Serenidade és minha» de Raul de Carvalho dito por Mário Viegas

(I) A Sociedade do Espetáculo segundo Guy Debord

Desaparecido em 1994, Guy Debord continua a ser filósofo de referência no pensamento crítico contemporâneo. Passando agora um quarto de século sobre a reedição do seu «A Sociedade do Espetáculo», importa lembrar a intenção assumidamente crítica com que o escrevera esperançado em que pudesse prejudicar de alguma forma uma tendência que sentia cristalizar-se nos comportamentos coletivos.
Analisado a assinalável distância, o texto continua a resistir às leituras redutoras, que o davam como exclusivamente orientado para a crítica do poder dos media: O que, mesmo fosse esse o seu único fim, já o justificaria tão notória é a incompatibilidade dos atuais órgãos de comunicação de massas com o direito dos seus consumidores em serem honestamente informados.
Debord partiu de uma crítica da representação restrita para outra de cunho mais alargado. Progressivamente já não é a obra de arte que deve ser criticada como espetáculo, mas a cultura no seu todo. E, aprofundando as teses de Karl Marx, é a sociedade capitalista, que para ele deverá ser contestada.  A sociedade do Espetáculo é aquela em que todas as atividades - políticas, económicas, culturais - são modos de representação do indivíduo e do coletivo sem que ele participe ativamente, pois passa a só dedicar-se à contemplação passiva das coisas de que se viu desapossado.
Alexander Neumann, um dos comentadores atuais da obra de Debord, tem duvidas quanto à perspetiva cética, pessimista de Debord nos tempos de hoje, tendo em conta a multiplicação de alternativas, de movimentos, que extravasam esse quadro analítico e vão semeando grãos de areia na poderosa engrenagem tão temida pelo filósofo. Poderão parecer-nos demasiado minoritários, incapazes de moverem uma montanha do sítio onde parece estacionar-se, mas conhecemos o suficiente da tectónica das placas para percebermos que também as grandes estruturas geológicas estão condenadas a movimentarem-se.
Quando Debord reeditou «A Sociedade do Espetáculo» tinha em conta que Mitterrand trabalhara bastante esse lado da representação, quer com a ajuda do cineasta Serge Moati, quer com o publicista Jacques Seguela, como se o poder em si importasse mais do que o conteúdo das políticas, que pretendia implementar.
A contemplação das representações, dissocia o individuo da sua identidade para o integrar numa «massa» informe, condicionada pelas mensagens eficazmente nelas inculcadas. Por isso Debord analisa este tempo como o do primado de um movimento de banalização, que reduziria tudo a mercadorias apresentadas nas suas mais diversificadas variantes a fim de dar a ilusão da pluralidade da oferta, mas todas a convergirem pata o mesmo propósito de reduzir os cidadãos ao seu estado abúlico. Sacudi-los de tal passividade constitui o maior desafio de quem milita no sentido transformador de uma realidade insatisfatória...

quinta-feira, novembro 16, 2017

(DL) O realismo mágico de Gabriel Garcia Marquez

Mesmo que por intermédio de um telefilme rodado há quase trinta anos pelo também colombiano, Lisandro Duque Naranjo, «Milagre em Roma» é exemplar na demonstração do que caracterizou o realismo mágico latino-americano de que Gabriel Garcia Marquez foi um dos principais expoentes. Para além dos fenómenos inexplicáveis, que desafiam a racionalidade dos agnósticos, estas estórias revelam a cupidez dos políticos burgueses, a corrupção dentro da hierarquia católica e a ingenuidade do povo facilmente vítima das mais óbvias vigarices.
Para Margarito Duarte, protagonista deste conto de gabriel Garcia Marquez, a alegria esvai-se no dia em que trazendo um boneco de corda para oferecer de prenda à jovem filha, esta lhe morre nos braços de forma tão fulminante, quanto inevitável.
Sepultada no cemitério local, Evelia Duarte só voltará a centralizar a estória quando, doze anos depois, o município trata de mudar a residência dos mortos, fazendo-os transferir para outro campo santo. Para surpresa de Margarito, e comoção de todos quantos logo se rendem ao mistério, o corpo da miúda está sem qualquer deterioração em relação ao dia do seu enterro.
Que é uma santa!, logo se apressam a proclamar as mulheres da aldeia, que já se tinham sentido impressionadas pelas súbitas rajadas de vento levantadas, quando Margarito abrira o caixão.
Chamado de urgência para avalizar a canonização o bispo de Arménia apressa-se a nega-la, guiando-se pelas explicações que possam ter preservado o corpo da miúda. Mas logo um eclipse solar parece dar razão aos aldeãos, que clamam contra o centralismo indecoroso do bispo. Uma rápida subscrição pública logo garante a Margarito os meios para viajar até Roma na tentativa de que seja o Papa a dar razão aos anseios de população quanto á santificação da jovem conterrânea.
Alojado em casa de um tenor colombiano, que está a estudar na Cidade Eterna, Margarito vai confrontar-se com os cálculos políticos do embaixador e a burocracia do Vaticano. Resultado: cai no logro de um vigarista vestido de bispo, que o espolia do dinheiro numa altura em que a própria polícia municipal vem exigir-lhe o corpo da filha para que seja novamente sepultado.
Invetivando a miúda, instando-a a acordar para que possa escapar à prevista condenação, Margarito consegue que ela acorde e é levando-a ao colo que consegue passar pelos atónitos guardas. Operara-se o milagre de Evelia regressar à vida, retomando os seus dias de criança alegre tais quais os havia deixado interrompidos doze anos atrás.

(DIM) Hoje à noite no Cineclube Gandaia: «The Matador» de Richard Shepard (2004)

A pobre da criancinha até pretendia comunicar com o senhor que parecia particularmente atento ao que se estava a passar em frente ao prédio ali quase em frente. Mas John Noble não mostra particular simpatia por tão precoce irreverência. É que o seu modo de vida passa por ser um matador, cerceando a vida a quem lhe apontam como alvo a troco de lauta remuneração. E assim vemos um desses alvos voar pelos ares, estilhaçado por bem sucedida explosão.
Despedido do papel de James Bond, que lhe coubera por sete anos e ao qual dera o melhor dos seus limitados talentos, Pierce Brosnan prosseguia com este filme de 2004 uma alternativa ambiciosa para se manter na ribalta de Hollywood. Que se sai bem da tentativa é o que veremos neste «O Matador» de Richard Shepard, que hoje exibiremos no Cineclube Gandaia.
Com ele contracena Greg Kinnear, que veste o personagem Danny Wright, um executivo perseguido pelo estigma dos sucessivos fracassos e ansioso por um negócio no México capaz de lhe salvar a carreira. Mas, prenúncio do desastre para se encaminha, na véspera da viagem, uma tempestade faz despenhar uma enorme árvore sobre a sua casa, semidestruindo-a.
É pois num bar de hotel da capital mexicana, que um criminoso bem sucedido e um capitalista falhado se encontram e conversam, esmiuçando-se melhor o quanto são opostos: apesar de profissional de sucesso, Noble é um solitário malgré lui, enquanto Danny tem em casa a muito amada Bean, ainda assim incapaz de recuperar do drama de ter perdido tragicamente o filho de ambos.
No dia seguinte, convidando o novo amigo para uma tourada, Noble faz-lhe uma demonstração prática do seu ofício, em que o outro nem queria acreditar que pudesse existir. Mas descobriremos mais tarde o quão útil esse métier se lhe revela, porque seis meses mais tarde, quando Noble assenta arrais em casa do amigo em Denver, é para lhe pedir a retribuição do favor feito no México para ter conseguido êxito no seu crucial negócio. E, para surpresa de Bean, que nem quer crer no que vê envolver-se o marido, lá vão os dois para as corridas de cavalos em Tucson no Arizona para resolver o difícil imbróglio em que Noble se vira.
Tratando-se de um típico filme de série B, «O Matador» ajusta-se bem ao tema do sonho americano convertido em pesadelo. Porque o sucesso profissional é tão precário, que o reverso implica a possibilidade de perder a vida. E, tratando-se de salvar a pele, não existem na sociedade norte-americana grandes escrúpulos em recorrer aos mais drásticos argumentos. 

(S) Jonas Kaufmann entre Itália e o universo wagneriano

É possível que, aos 48 anos, Jonas Kaufmann não se mantenha durante muito mais tempo no restrito lote dos grandes tenores atuais. É que, nos últimos cinco anos, não têm sido raros os concertos anulados, quer por razões que se prendem com lesões nas suas cordas vocais, quer com a intenção de as poupar aos efeitos de uma exagerada presença em palco. Mas, vendo-o a atuar no Teatro Carmignano em Turim, com um reportório constituído inteiramente de árias italianas, é inevitável admirarmo-nos com a facilidade com que vai dos graves aos agudos e se atarda amplamente nestes, sem aparente esforço e até mostrando os recursos dramáticos, que lhe deram particular prestígio.
Nascido numa família de melómanos da burguesia bávara, Jonas Kaufmann desde muito cedo começou a conhecer a Itália como espaço ideal para as férias na praia ou na descoberta das suas cidadezinhas históricas do interior. Seguindo o exemplo de Goethe, e sem dele ignorar os aspetos mais sombrios, o grande país transalpino tornou-se-lhe sinónimo de uma espécie de «paraíso perdido» a que sempre gosta de voltar.
Em miúdo integrou coros infantis, chegando a solista quando já estava na escola secundária. Embora tentasse a matemática foi a voz que se lhe afigurou como argumento incontornável para dela fazer meio de vida. A maior influência foi-a buscar a uma enormíssimo tenor Fritz Wunderlich - precocemente desaparecido em 1972 -, que considerava imprescindível transmitir as emoções aos espectadores, que o escutassem. Daí que, tomando-o como exemplo, Jonas Kaufmann valorize bastante a expressão teatral das suas interpretações. Estas tanto se orientam para a grande ópera italiana dos finais do século XIX como para o reportório wagneriano: num dos seus mais saudados regressos, após uma das suas inquietantes pausas, maravilhou quem o viu e ouviu num «Lohengrin» dirigido por Daniel Barenboim.
Num documentário intitulado «My Italy» ele atribui à música o bilhete de passagem para sentimentos nostálgicos, que não excluem os pequenos prazeres dos momentos mágicos atuais.

terça-feira, novembro 14, 2017

(DL) Os sonhos como matéria perigosamente subversiva

Ao iniciar a leitura de «O Palácio dos Sonhos», que Ismail Kadaré publicou em 1990 - exatamente no mesmo ano em que se exilou em França! - a primeira curiosidade tem a ver com a sua própria personalidade. É que, durante muitos anos, ele foi glorificado como expoente máximo da literatura albanesa durante a vigência do regime liderado por Enver Hoxha até chegando a desempenhar funções parlamentares sem se lhe conhecerem sinais de desconforto. Daí que, na altura em que este livro saiu, tenha suspeitado do típico oportunismo dos que abandonam um barco, quando ele mete água, sem cuidarem de quem deixam para trás.
Avancei para o primeiro capítulo tomado de tal desconfiança, mas cedo me deparei com uma estrutura narrativa muito sugestiva a lembrar alguns romances de Stanislas Lem (mormente as «Memórias encontradas numa banheira») na descrição das instituições burocráticas dos regimes impropriamente ditos comunistas, como algo de labiríntico, maquinal na forma como produziam normas e regulamentos controladores do pensamento coletivo sem nele possibilitarem qualquer espírito crítico.
O protagonista é Mark-Allen, um jovem oriundo de influente família, acabado de entrar no Tabir Sarrail, mastodôntico edifício onde são selecionados, interpretados e analisados os sonhos rastreados em toda a população do vasto império comandado pelo Sultão. Procuram-se neles os vaticínios em relação ao que o futuro lhes reservará.
A exemplo da matéria em que trabalha, o protagonista vai-se apercebendo da nova realidade de modo fragmentário: uma conversa tida ali, outra escutada acolá, toda a estrutura do Palácio dos Sonhos vai-se desvendando na sua lógica totalitária. Há carceres na cave onde certos fazedores de sonhos são torturados até à morte, ou materiais aparentemente forjados como provocações, mas passíveis de denunciarem os propósitos subversivos de quem os lê e nunca suspeitara tê-los dentro de si.
Se o Sultão é servido com temor, todos os súbditos são levados a pensarem nos sinais que transmitem para o exterior, sempre acautelando a possibilidade de denunciarem tentações inconfessáveis. E Mark-Allen tanto sente isso na Seleção, por onde iniciara funções, como na Interpretação, para onde fora transferido e em que o deixo por ora, enquanto fecho o livro a meio. 

(DIM) "Twenty Four Dollar Island" (1927) de Robert Flaherty

Uma célebre curta-metragem de Robert Flaherty dos anos vinte que aborda as origens da Ilha de Manhattan cujo subtítulo é bem revelador "A Camera Impression of New York". Concebido para ser apresentado na Exposição Internacional de Nova Iorque enquanto manifesto por uma cidade à escala humana.



(S) Sol Gabetta a interpretar o Concerto para Violoncelo nº 1 de Shostakovich