domingo, julho 23, 2017

(DIM) Quem te viu e quem te vê

Não sou um grande entusiasta das reportagens da jornalista Stacey Dooley para a BBC. Além de optar por temas polémicos, que sabe aguçarem o gosto voyeurista dos espectadores, ela adota uma pose de falsa ingénua nas entrevistas aos vários intervenientes, não hesitando em simular comoção, quando sabe daí virem momentos fortes do ponto de vista televisivo.
Recentemente vi duas reportagens em que essas evidências saltaram à vista: numa delas mostrava-se o ambiente dos prostitutos transsexuais de Detroit, que se tornaram dramaticamente miseráveis com a decadência de uma cidade quase fantasma, outrora capital da produção automóvel norte-americana. Na outra optava por denunciar a pedofilia no Japão, onde apesar de legislação punitiva no sentido de proibir as relações sexuais entre crianças e adultos, se mantém fenómenos inexplicáveis como os dos bares JR ou as publicações de Cheku Ero.
Foi esta última reportagem a que causou mais celeuma com muitos dos criadores das revistas mangas a repudiarem a denúncia por ela incluída no programa sobre a representação, sob a forma de banda desenhada, desse tipo de fantasmas eróticos nos seus trabalhos gráficos.
É um facto que a pedofilia não pode nem deve ser aceite em nome de hábitos culturais há muito enraizados nas culturas específicas de certos povos. Nesse sentido os bares em que miúdas em idade escolar, e vestidas com os respetivos uniformes, servem de alternadeiras a homens com idades para serem seus país ou avós, merecem condenação mediática internacional. Tal como as revistas, que recorrem a modelos, mesmo que já com 18 anos, para simularem imagens eróticas em que parecem bem mais novas. Mas Stacey leva o mau gosto a entrevistar um tarado, que lhe faz uma demonstração prática da satisfação dos seus desejos libidinosos com uma boneca insuflável a aparentar uma dessas miúdas. Cenas dessas deixam de significar a denúncia de uma perversão para o escabroso exibicionismo de tais desvios patológicos.
Na assimilação das revistas de mangas a essa mesma campanha pode-se considerar que a sua perspetiva tem algum fundamento, mas dá a ideia de que, ao entrevistar um dos mais importantes criadores desse tipo de obras, a jornalista acossa-o com perguntas cada vez mais inconvenientes embora tivesse dado a ideia inicial de uma certa forma de assertividade para com o entrevistado. Como se fosse uma aranha letal, que estendeu a rede e se deleitou com o fatal enleamento da vítima na sua armadilha.
Quando se dava a BBC como exemplo de uma deontologia irrepreensível não se adivinhava que a nova geração dos seus jornalistas já estão dispostos a mandar ás malvas todas as regras conquanto consigam para si as audiências com que sejam promovidos a efémeras estrelas mediáticas.


sábado, julho 22, 2017

(V) Um delírio colorido na sombra de um vulcão

Que eu dê por isso a euforia dos portugueses em irem passar férias às Caraíbas arrefeceu bastante depois de vivenciados os rigores austeritários da troika. Ainda assim esse mar em que o Atlântico se mascara na reentrância entre as duas Américas continua a ser para muitos o nec plus ultra  do exotismo, a promessa de paisagens como não se encontram em nenhum outro lugar. E no caso de Cuba ainda ali resiste a derradeira ilusão de utopia, em tempos tida como o incontornável devir da História. Não admira que, anualmente, um vizinho tido como um dos mais ortodoxos comunistas no meu convívio, para ali vá passar um mês, regressando sempre retemperado na convicção de ter estado nos tais amanhãs cantantes, sempre vigorosos e bem afinados.
Em tempos percorri as várias ilhas e portos continentais da região. Estive nos sítios mais sofisticados do ponto de vista turístico (Rep. Dominicana, Bahamas ou Ilhas Virgens), mas também nos mais desolados e pobres (Haiti, Granada). Visitei fortalezas do tempo dos piratas (em Cartagena de las Indias), mas também, inevitavelmente, encontrei emigrantes portugueses (Antígua). Vi praias lindíssimas (em Tobago) e assisti a um concorrido espetáculo de música local (em Aruba). No entanto, quando me questiono qual das ilhas mais ali gostei, opto pelas francesas. Não tanto a Martinica, que pouco se distingue de uma pequena cidade da França continental, apesar dos bem visíveis bairros de barracas, mas Guadalupe, cuja beleza selvagem dá razão ao escritor Patrick Chamoiseau, quando diz ser a ilha um espaço mais apropriado para os verdadeiros viajantes do que para os abúlicos turistas.
Se a olharmos de cima ela tem a forma de uma borboleta e é dominada pelo vulcão La Grande Soufrière que, quando lá estive, andava a bufar uns fumos esparsos para os céus azuis. E o plural para definir a cor é bem ajustado porque é o mesmo Chamoiseau quem apela a que se atente na diversidade de tons da paisagem ao longo do dia, de acordo com a mudança da luz a banhá-la.
De cores também constam muitos dos poemas de Alexis Leger, escritor aí nascido em 1887, e que viria a consagrar-se como Nobel em 1960 com o pseudónimo de Saint-John Perse. Tendo passado os primeiros doze anos nas duas plantações de açúcar da família, ele sentiria a mudança para a metrópole como uma perda dolorosa. Tinha doze anos, mas já nele se vincara a majestosa afirmação dos verdes testemunhados na Ilha das Folhas. Em nenhum outro sítio encontraria essas tonalidades de que nunca mais se esqueceria.
É evidente que a memória de Guadalupe não me é assim tão forte, dada a brevidade da passagem por ali. Mas, se o futuro me ditar a possibilidade de regressar àquelas paragens, decerto escolherei a ilha como escala a não perder.

(EdH) Para que não esqueçamos o lado sinistro dos «heróis da Pátria»

Nestes  dias coincidiu ver tratado o tema da escravatura no que ando a ver e a ler.
No primeiro caso tratou-se da série canadiana «The Book of Negroes», ficção baseada num romance de Lawrence Hill e tendo por protagonista uma escrava meio peul meio bambara, raptada no Golfo da Guiné para ser levada para as plantações da Carolina do Sul. Estava-se em 1745 e ela apenas tinha onze anos.
Embora as vicissitudes por que passa Aminata Diallo sejam romanceadas de forma a singularizar-lhe a resiliência, a série cuida de ilustrar os aspetos mais medonhos desse comércio desumano. Na travessia do Atlântico as condições terríveis nos porões dos navios fomentavam as doenças e desidratavam os corpos, um terço dos quais era atirado para o mar ainda antes da chegada ao porto de destino. Depois a crueldade das plantações de algodão com as raparigas a serem invariavelmente estrupadas pelos patrões.
O que distingue Aminata é ter recebido da mãe os conhecimentos necessários para servir de parteira  às outras mulheres da exploração, ao mesmo tempo que, num esforço autodidata, aprende a ler e a escrever. Paralelamente às suas alegrias e tristezas vão evoluindo os vários episódios da História norte-americana, com a luta independentista a ganhar crescente ímpeto, sem que a Constituição progressista, inspirada nos valores da Revolução Francesa, significasse qualquer benefício para quem não via reconhecida a sua condição cidadã.
A tentativa de criar uma colónia para alforriados na Nova Escócia significa um falhanço rotundo, assim como não será fácil a reinstalação em África, no território hoje crismado de Serra Leoa.
Fundamentado numa laboriosa pesquisa, que justificou a demora de cinco anos em passar de projeto a livro publicado, «The Book Of Negroes» transformou-se numa série simpática, que serviu de revisão de matéria dada, mas com demasiada facilidade para cair no esquecimento.
No tema traduzido em expressão escrita, desta feita em formato teatral, li «Um punhado de Terra» de Pedro Eiras, que é o monólogo de um jovem trazido da mesma zona geográfica que Aminata, mas encaminhado para o nosso Algarve, deixando para trás velhos, mulheres e crianças, assassinados por negreiros, que nos ataques predadores invocavam São Jorge e Santiago.
À chegada a Lagos lá estava o Infante D. Henrique, que os historiadores teimam em qualificar de personagem heróico, quando, na realidade, a presença era explicada por reservar para si uma parte do quinhão.
O desespero do narrador é incurável: a fuga é impossível, sobretudo depois de lhe terem cortado um tendão por a ter tentado. Daí que só lhe reste o suicídio comendo terra, “a terra dos outros”, até mais não conseguir aguentar

quinta-feira, julho 20, 2017

(S) A Suite para Orquestra nº 3 de Bach

No reportório de Bach o segundo andamento da Suite para Orquestra nº 3 em Ré Maior, BWV 1068, é das peças mais conhecidas, mesmo dos que não prepararam os ouvidos para deslumbramentos auditivos. Composta por volta de 1731, quando o compositor estava em Leipzig, alterna uma atmosfera de magnificência e de solenidade com a beleza sublime, mais calma, dessa Ária.
Se o primeiro andamento dá grande expressão aos metais (trompetes, oboés), logo o seguinte assenta na essência melódica das cordas (violinos, viola), antes de concluir com o universo das danças, primeiro as gavotes e suas variações, depois as inspiradas na corte francesa, mormente a Bourée e a Giga.
Não sendo obra vocacionada para objetivos religiosos, esta suite ilustra bem a razão porque, sendo ou não o autor de todas as obras recenseadas como de sua lavra, Bach merece bem a admiração, que, à distância de  três séculos, lhe devotamos.

(AV) Ecos feministas na arte norte-americana do século XX

«The Dinner Party» é uma obra incontornável da arte norte-americana dos anos 70 por ser uma das mais representativas da afirmação do movimento feminista num universo até então quase exclusivamente tido como coutada dos homens. Judith Chicago, pseudónimo de Judith Cohen, tinha então trinta e seis anos, quando apresentou a famosa instalação num estúdio de Santa Mónica. Na mesa triangular com 13 x 11 metros de comprimento criou o ambiente de uma mesa posta para receber convidados, recorrendo a peças de cerâmica, a bordados e a pinturas. No fundo recursos criativos de que as mulheres sempre se serviram no contínuo labor de serem anfitriãs ou matriarcas apostadas em conseguiram o melhor dos bem-estares para ás respetivas famílias.
O ambiente doméstico pretendia ilustrar essa presença pouco valorizada das mulheres nas artes e impunha a necessidade de alterar tal realidade. A própria execução da instalação durante cinco anos constituiu uma obra de arte em si mesma, porque refletiu os debates, as contradições e as conclusões de um verdadeiro work in progress.
Hoje com 78 anos, a artista é reconhecida como a pioneira da afirmação feminina nas artes, até por nunca ter abdicado d as preocupações já expressas na peça de 1975, quer nas obras de pintura, de desenho, de performances ao vivo, de pirotecnia ou de gravura.


(DIM) Quando o que tem de ser tem muita força


Em 20 de setembro de 1932 os promotores imobiliários envolvidos na construção do Rockfeller Center convocaram vários fotógrafos para recolherem aquele que seria um momento icónico da arte fotográfica do século XX. Onze dos operários de construção civil contratados para levantarem a armação metálica em que seria suportada toda a alvenaria sentaram-se numa viga a 260 metros de altura e simularam estar a aproveitar descontraidamente a pausa de almoço.
Os criadores da obra - os que a imaginaram, não os que a captaram em suporte fotográfico - precisavam de fazer do seu investimento um sucesso: a Grande Depressão ainda era demasiado recente com os seus efeitos - paralisia económica, desemprego - a fazerem parte do dia-a-dia.
Nós, que olhamos para a imagem oitenta e cinco anos depois, sentimos a vertigem de nos imaginarmos na pele daqueles homens, que consideravam ser um dia bom aquele em que picavam o ponto de manhã e regressavam incólumes a casa ao fim da tarde. Não admira que o propósito do realizador Seán Ó Cualáin e do argumentista Niall Murphy de «Men at Lunch», documentário estreado em 2012, fosse o de responder às nossas perguntas mais óbvias: quem eram esses onze homens? O que sentiam com Nova Iorque a seus pés, lá muito em baixo, e nenhuma rede a aguentar-lhes o peso se a gravidade os atraísse involuntariamente para o abismo?
As respostas seriam difíceis de assegurar, pois nem sequer há certezas quanto à autoria da fotografia publicada no «New York Herald Tribune» de 2 de outubro. Durante algum tempo julgou-se esclarecida essa questão, mas contraprovas deram no regresso ao ponto zero. Mas, porque a produção é irlandesa, de entre os muitos testemunhos de quem viria diria a jurar ver ali um pai, um irmão, um avô - sabe-se como o desejo de protagonismo facilita as efabulações dos mais dados à doentia imaginação! - eles escolheram dois irlandeses, supostamente atraídos para a cidade que nunca dormia como forma de escapar à fome endémica nos campos do seu país, e ali radicados durante muitos anos para ajudarem a construir a baixa de Manhattan durante a década anterior à Segunda Grande Guerra.
Seriam necessários cinquenta e tal minutos para nos dar a conhecer a imagem em causa e sobre ela perorar de acordo com as mais contraditórias teorias? Decerto que não! O problema de muitos filmes deste género é terem de respeitar um formato temporal, que não condiz com quanto têm a revelar. No essencial a estória resume-se a isto: os operários de então corriam riscos medonhos, que transformavam cada dia num permanente desafio à morte? Sim! Mas, entre o desemprego e a fome, ou um precário ordenado ao fim da semana, a opção não se colocava. O que tinha de ser tinha muita força!

(P) O corpo numa sociedade mais mental

Em recente entrevista o bailarino e coreógrafo Rui Horta diz algo que faz perfeito sentido na sociedade atual: a evolução do conhecimento no último século adquiriu uma tal dimensão, que nos descorporizámos, tornámo-nos mais cerebrais. O corpo converteu-se numa “espécie de último resíduo de natureza que reside nas nossas cidades, quando tudo em redor é cimento, aço, etc.”
Como todas as teses, esta proposta contém contradições bastantes, que fornecem argumentos para a sua aceitação e rejeição. Por um lado nunca se viu tanta focalização no corpo, com ginásios espalhados por todo o lado, revistas dedicadas ao seu culto, mormente por via da dietética nutrição, e uma preocupação exagerada com quanto o possa potenciar: penteados, cosmética, tatuagens, etc.
As palavras de Horta fazem, porém, todo o sentido se nos ativermos à mítica serenidade bucólica de quem, no passado, vivia de acordo com o ritmo das estações, adotando rotinas, que excluíam a necessidade de grandes cogitações. Nesse sentido vivia-se mais com o corpo, que se investia na concretização de tarefas árduas, praticadas nos campos e nas fábricas. A partir do momento em que se substituíram as botas cardadas e os fatos-macacos pela camisa e gravata nos homens e o tailleur  nas mulheres, abandonou-se o ar livre das searas e pomares ou os fumos oleosos das máquinas em atividade pelo ar condicionado dos open spaces, perdeu-se algo da individualidade física para se adotar o ritmo acelerado de uma robotização, contra a qual as mentes se revoltam, se pretendem dissociar numa consciência sentida como própria.
No passado campesino ou proletário não havia necessidade de partir em busca da identidade. Ela estava bem presente nas dores do corpo ao fim de dura labuta. As oito horas passadas num escritório não extenuam os corpos, mas esgotam os recursos das mentes. Ao concluí-las, quem as viveu procura-se a si mesmo, alheia-se do corpo, busca-se dentro dele. É quanto basta para o sucesso das sessões de ioga e outras modalidades orientais, que prometem o acesso àquilo que se é e está tão acossado lá muito para o fundo das circunvoluções cerebrais. O corpo volta a ser um espaço de resistência, a resposta natural ao que passou a ser uma existência quase permanentemente mental.

segunda-feira, julho 17, 2017

(DIM) Um botão para um inexistente paraíso

Continuo sem compreender a sanha com que alguns europeus encaram a continuidade ou não de Bashar al Assad à frente da Síria. Então nos franceses surgiram entusiásticos militantes da causa rebelde sem que ninguém os confronte com as consequências de, em tempos, terem militado pela queda de Khadafi com as consequências decorrentes desde então nesse território por onde partem mais desesperados em busca de uma mirifica salvação numa Europa, que os repele. Para terem substituído o anterior ditador líbio pelos vários candidatos a essa mesma sucessão - mas com perfil ainda mais criminoso -, bem podem limpar as mãos à parede.
Ninguém parece, igualmente, interessado em atirar-lhes à cara a convivência multiétnica e multiconfessional na área dominada pelo regime sírio em comparação com o exclusivo primado muçulmano sunita no lado contrário. À exceção da Tunísia - e vamos lá a ver até quando! - todos os países que viveram a Primavera árabe tornaram-se asfixiantes para as minorias. Veja-se a má sorte de ser copta no Egipto ou cristão no Iraque.
O interesse do documentário «Dugma: the Button», realizado em 2016 pelo norueguês Paul Refsdal, é o de nos dar a conhecer alguns desses fanáticos, dispostos a matarem-se para imporem um regime jihadista em Damasco. É sinistro o riso do saudita Abu Qaswara, quando nos mostra a tecnologia aplicada num veículo blindado destinado a ser utilizado numa missão suicida. Ele próprio inscrito na lista dos candidatos a mártires, é quase com candura, que detalha a crença de conquistar o paraíso através do ato assassino de matar o máximo de inimigos, por muitas vítimas colaterais, que venham a ser mortas pela explosão do engenho ativado com a pressão de um botão.
Terrível, igualmente, a pressão do pai com quem fala pelo telefone e impaciente por o ver enfim a assegurar não só o passaporte para o paraíso, mas também o de outros setenta homens da família, cujos pecados terão sido perdoados graças ao seu sacrifício.
Há também um inglês de gema, Abu Basir al-Britani, idiota depressa levado a riscar a inscrição no tal livro dos mártires, porque casou entretanto e perdeu a vontade de desistir tão facilmente dos prazeres recém-descobertos pelo corpo até então virgem.
Se a organização terrorista deu carta branca a Refsdal para filmar o que quisesse, foi para garantir uma imagem positiva junto dos seus financiadores europeus. E, de facto, assim parece, pois o norueguês revela-se empático com os anfitriões. Mas se quisermos olhar com atenção para lá da primeira impressão, depressa constataremos quanto tudo aquilo é absurdo e medonho.

(DL) Um suicídio em ambiente buñueliano

Pode o suicídio banalizar-se de forma que as famílias se reúnam para receber tal notícia com a maior das naturalidades e até a festejem devidamente, saudando calorosamente a decisão de quem se propõe a tal? Esse é o tema da peça «Um Forte Cheiro a Maçã», que integra o primeiro volume de «Teatro» de Pedro Eiras.     
Não faço ideia se o autor teve essa influência subjacente, mas senti algo de Buñuel no ambiente marcado pelo encontro das várias gerações de uma família, onde o afeto é aparente, por esconder sentimentos menos meritórios, que acabam por gerar tensões contidas até à iminência do agressivo confronto verbal.
Janta-se, veem-se as estrelas candentes por entre as nuvens do céu, e há uma verbosidade constante, que impede o estabelecimento de um singelo momento de silêncio. Como se as personagens tivessem horror ao vazio e devessem encontrar nas futilidades, mas também nos subtis reparos, a estratégia para omitirem o óbvio: pouco as liga, de facto, para além dos vínculos familiares, que nutrem entre si. Existem pais, filhos, um neto, tios, sobrinhos, genros, noras, primos, ou seja toda a diversidade de elos possíveis entre gente que respeita a convenção de se obrigarem a suportar entre si. Há também - como elemento perturbador por excelência - a jovem Verónica, amiga da família, mas sobretudo da irmã do suicida, que apesar de ter presente o namorado, não deixa de lhe aceitar o assédio explícito para a concretização da satisfação sáfica. Existem, pois, opções sexuais por revelar, bem como fantasias eróticas, evidentes nos olhares e mais comedidas nas palavras.
No final, é com toda a naturalidade, que Madalena segura no colo o corpo suicida de Elias, qual Pietá a cumprir o desiderato anunciado. Pelo meio ficam implícitas questões tão pertinentes como a desesperança dos jovens quanto ao futuro, o crepúsculo das grandes causas sociais e políticas, ou as dificuldades nos diálogos intergeracionais.
A exemplo do que lhe temos conhecido nos romances, Pedro Eiras sugere-nos pistas de reflexão a partir do retrato banal do quotidiano de personagens bem mais complexas do que gostariam de transparecer.


domingo, julho 16, 2017

(DIM) Fernando Maurício, o reabilitador de um dos execráveis éfes

A minha relação com o fado não tem sido muito pacífica: ainda sou  do tempo em que o José Mário  Branco cantava que o fado choradinho de tabernas e salões, semeava só desalentos, misticismos e ilusões. Convenci-me, quando ainda vingava a «outra senhora«, que o fado era um dos três éfes a derrubar, razão porque me fui dissociando progressivamente da ligação  clubística da infância e me fiz ateu, avesso a todas as propostas metafísicas.
Pelos anos oitenta um casal amigo convenceu-nos a assistir a um espetáculo de Carlos do Carmo na Academia Almadense - ainda a sala comportava centenas de lugares! - e sensibilizou-me a  empatia do público  com o artista. Às tantas sentia-me como da vez em que fui ao Pedro dos Leitões, com toda a gente a degustar os pobres suínos juvenis e eu a bater-me com um bife de vaca conseguido quase a ferros do empregado espantado com a minha aversão ao prato da casa. Foi isso mesmo que sucedeu com o concerto de Almada:  toda a gente em coro a acompanhar o fadista e eu a sentir-me uma espécie de alienígena,  acabado de aterrara no planeta azul.
A conversão do autor de «Ser Solidário» perturbou-me o bastante para começar a ouvir o Camané  com atenção e até a assistir-lhe aos espetáculos no São Luís. E há uns quatro anos fui a uma dessas visitas guiadas com guia pelas ruas da Mouraria, com um fadista a acompanhar o grupo para exemplificar as diferenças entre um fado castiço e um fado corrido nos vários sítios onde íamos parando. Depois de sairmos do Largo da Igreja de Nossa Senhora da Saúde lá iniciámos a marcha com uma primeira paragem na Rua do Capelão para a homenagem à mítica Severa que ali vivera.  Fomos então subindo bairro  acima, na direção do Castelo, parando para uma ginjinha e para momentos musicais em que o Ruca - assim se chamava o jovem cantor -,  nos ir revelando alguns dos fados mais tradicionais, que compõem o reportório de tantos frequentadores das casas de fado tradicionais e de fado vadio. Foi numa destas últimas, já em Alfama, que concluímos a noite, a comer caldo verde e chouriço assado acompanhado pelo inevitável tintol.
Se não deu para me converter num rendido apreciador do fado - embora isso já tenha sucedido com o enorme Ricardo Ribeiro (mas será fado o que ele interpreta associado a Rabih Abou-Khalil?) - chegou para a atenção se prender num nome até então de mim desconhecido: Fernando Maurício, apelidado de Rei do Fado. Quem dele falou expressou uma devoção singular, que me fez questionar o que andava a perder. E um documentário de 2011, de Diogo Varela Silva, ajudou-me a compreendê-lo. Porque, tal como aprendi a apreciar em Frank Sinatra, ele tinha a preocupação de soletrar todas as palavras com um cuidado extremo, escusando-se a qualquer elisão, de maneira a que elas se nos tornassem limpidamente compreensíveis.
O referido Ricardo Ribeiro, que foi um dos reconhecidos discípulos dessa figura mítica, explica na sua inteligente forma de expressar as ideias, que Maurício fez-se grande, porque soubera criar a exceção, o «estilar» seu característico, que todos  os discípulos passaram a querer imitar. Mas, a exceção, para se cumprir, tem de se basear no conhecimento profundo de todas as regras. E essa é uma lição prodigiosa: a originalidade depende de se conhecer profundamente aquilo de que ela pretende dissociar-se como rutura.
Sobre a personalidade de Maurício ainda sobram outras revelações, que coincidem em todos os testemunhos ouvidos: a generosidade ilimitada e o desprendimento de não ambicionar carreira televisiva ou internacional, bastando-lhe o carinho de quem o ouvia na Mouraria, talvez porque detestava dele afastar-se, sobretudo se isso envolvesse as temidas viagens de avião.
Aos sessenta e um anos já não virei a ser um fadófilo militante, mas, pelo  menos, consegui dissociar este específico éfe dos outros dois, que constituem os paradigmas da execrável alienação.


sábado, julho 15, 2017

(DL) O encontro do jovem poeta com o exotismo tropical

Desconhecia que Charles Baudelaire tivesse vivido na Maurícia. E, no entanto, segundo alguns dos estudiosos da sua obra, a ilha terá sido o espaço de descoberta da embriaguez dos sentidos através dos odores e cores dos mercados e da arquitetura local.  Terá sido quase por acaso que o poeta ali desembarcou em 1841, quando  a escravatura acabara de ser abolida e Port Louis constituía escala importante na rota marítima do comércio das especiarias.
O futuro autor de «As Flores do Mal» tinha então vinte anos e a família decidira financiar-lhe uma viagem a Calcutá para que saísse da monotonia da vida de estudante.
Em princípio a ilha não figurava nas escalas previstas Da viagem, mas um ciclone ao largo do Cabo da Boa Esperança causara tais desgastes a bordo, que as reparações em terra firme tornaram-se inevitáveis.
Após longas semanas no alto mar o encontro com a paisagem local constituiu experiência determinante na vida do futuro escritor. Se as grandes extensões azuis já não lhe escondiam grandes segredos, constituindo-lhe uma  espécie de espelho, o exotismo tropical estimula-lhe sensações avassaladoras. O choque visual e olfativo é feito desse encontro com uma diferença tão abismal em relação a tudo quanto conhecera até então. As montanhas em volta, basálticas por causa dos vulcões ali escondidos, dão cor e consistência aos edifícios, em que paredes e pavimentos são construídas a partir desse recurso geológico.
Se é calorosamente recebido nessas casas, a quem os anfitriões continuam ainda hoje a apelidar de «seus castelos», Baudelaire replica nas ruas de Port Louis o hábito parisiense de tudo nelas atentar, recolhendo emoções caóticas, que cuidará de ir estruturando mentalmente  para utilização futura.
Nas cantinas descobre a gastronomia crioula confecionada com legumes e temperos a que não consegue ficar insensível, complementada pelos saborosos frutos legados por uma natureza generosa, que alimenta, perfuma, embeleza e até encontra soluções para curar as maleitas.
A descoberta mais excitante será, porém, a prodigalizada pelas mulheres negras ou mestiças com quem se deita e todas elas capazes de lhe alimentarem um erotismo depois replicado em versos ousados, que não pouco escândalo causam nos ambientes seletos onde, clandestinamente, sobressaltaram preconceitos.
Essa propensão será tão definitiva que, em Paris, Baudelaire tomará como duradoura amante uma mulher negra, Jeanne Duval, que lhe alimentará tantos outros poemas. Pode-se, pois, dizer que a ilha Maurícia exerceu uma influência incontornável na vida e obra do poeta.

(DL) O fim da história segundo Luís Sepúlveda

Não se trata de nada sobre que Francis Fukuyama perorou. É a história com h pequeno, bem mais relevante para quem a vive do que a com H grande, que fura os prognósticos  dos seus mais atrevidos adivinhos.
E é o fim, porque todos temos o direito de fechar ciclos, mesmo os respeitantes às revoluções perdidas.
Quando abrimos o mais recente romance de Luís Sepúlveda recuamos cem anos: mergulhamos na enorme confusão subsequente ao assalto do Palácio de Inverno, quando a momentânea vitória bolchevique viu-se ameaçada pelas hordas inimigas onde figuravam os cossacos do ataman Krasnov.
Aprisionado esse chefe Trotski, viu-se na contingência de decidir se o fuzilava ou não. A vontade tendia-lhe a dar essa ordem, mas a prudência levara-o a poupá-lo. Não imaginava ele quão imprevisíveis seriam as consequências da súbita compaixão, porque Miguel Krassnoff, neto do ataman, viria a ser um dos mais cruéis torcionários da ditadura chilena, apontando-se-lhe centenas de homicídios.
Não se trata de uma estória saída da imaginação do escritor chileno, mas factos indesmentíveis por ele recolhidos na investigação sobre os crimes cometidos na Villa Grimaldi e noutros centros de tortura do regime liderado por Pinochet.
De «Nome de Toureiro», romance que conhecemos há meia dúzia de anos, Sepúlveda resgatou Juan Belmonte, o antigo militante allendista, que tinha o nome de um famoso matador de touros espanhol. Tínhamo-lo deixado nas terras mais ao sul, onde dois oceanos se encontram, a viver com a silenciosa companheira, irreversivelmente afetada pelo sofrimento infligido por esse mesmo Krasnoff.
Belmonte é chamado a Santiago para localizar cinco homens vindos da Rússia de Putin para, a manda de forças subversivas cossacas, tentarem libertar o assassino, cujo ascendente religioso era tido como determinante para lançarem atividades separatistas contra o Kremlin.
O romance assume a filiação no género policial, mas nunca descurando a preocupação em denunciar a tragédia que se abateu em 1973 sobre o povo chileno a mando das multinacionais norte-americanas, que corromperam e financiaram os generais golpistas. É por isso muito mais do que um mero entretenimento, mesmo que de temática progressista, porque coloca questões pertinentes sobre qual a resposta mais consequente: vingar os mortos e os torturados com um certeiro tiro de um sniper  no meio da testa do assassino ou deixá-lo aprisionado até ao fim dos dias numa prisão, mesmo que com demasiadas mordomias.
E como as forças telúricas são tão agitadas na placa longitudinal, que acompanha o recorte costeiro do país,  o desenlace coincide com violento terramoto.
Sepúlveda voltou a oferecer-nos uma trama, que constitui um verdadeiro regalo para quem gosta de estórias bem contadas.