segunda-feira, maio 29, 2017

(DIM) O Espectador Espantado desafiado por Edgar Pera

Já levo bastante mais de meio século como espectador espantado. A primeira vez terá sido, quando uma vizinha, a Eva, me levou ao cinema do Porto Brandão para ver a «Gata Borralheira». Eu, que me habituara a ver as imagens a preto e branco dos televisores acumulados na sala onde o meu pai as ia reparando, surpreendi-me com o gigantismo do ecrã e as cores exuberantes com que os estúdios da Disney encantavam os miúdos desse mundo do pós guerra.
Outro deslumbramento aconteceu com o Menino Selvagem do Truffaut visto no Estúdio 444 da Avenida Defensores de Chaves. Mais do que a história de Victor e do doutor Itard,  que o tratava de normalizar para os padrões da sociedade do início do século XIX, fiquei rendido à música de Vivaldi. Eu que andava embrenhado nas sonoridades dos Beatles, dos Doors ou dos Crosby, Stills, Nash & Young começava a despertar para a riqueza da música clássica.
Já a fogueira da Revolução de Abril se reduzira a cinzas fumegantes, quando passei por comprometedora vergonha na sala do Nimas. O filme era o «Nevoeiro» do John Carpenter, que julgava ver com o distanciamento próprio de quem sabe tudo tratar-se de uma efabulação para entretenimento de quem o via. E, no entanto, aconteceu a cena em que, do farol, a Adrienne Barbeau vê a própria casa a ficar envolta em nevoeiro e teme pela segurança do filho, que ali deixara entregue à avó. Batem à porta, a velha senhora abre-a, recua porque o neto lhe diz qualquer coisa e nós sabemos que uma das criaturas do Além dali surgirá para a matar. Entusiasmado, terei soltado um grito só contido porque, a minha mulher cuidou de me acotovelar trazendo-me de volta à sala do cinema.
Se tenho por norma ver todos os genéricos até ao fim, dessa vez, e por razão maior, deixei-me ficar na sala escura até ao fim enquanto toda a gente saía. Manifestamente não queria ser apontado a dedo como o tipo que se entusiasmara demasiado com quanto vira no ecrã...
E, no entanto, três anos antes, olhara com complacente superioridade para um fogueiro que comigo trabalhava a bordo do navio »Gerês», quando, uma noite, fomos ao cinema de Matosinhos onde se exibia «A Guerra das Estrelas», então acabado de estrear. Na altura éramos uns quatro ou cinco tripulantes da Casa das Máquinas, que desistimos de tentar refrear o Gaspar (era assim que se chamava) de ir acompanhando o filme com expressões entusiasmadas do género «olha o gajo atrás de ti!», «tem cuidado que eles podem estar atrás da porta!», etc.
Estava aqui demonstrada a diferença entre cinéfilo e fã de cinema, tal qual o Edgar Pêra equaciona num dos seus filmes de 2016: exatamente «O Espectador Espantado». No filme do Carpenter eu fora o fã, que saíra da cadeira e entrara a pés juntos na estória revelada na tela, enquanto no do Lucas posicionara-me como cinéfilo a arrogar-me de atitude majestática para com os tontos, que viviam na trama como se nela participassem.
A proposta cinematográfica de Edgar Pêra é notável como quase sempre: visualmente atrativa com sobreposição de imagens num ritmo acelerado, que não exclui o slow motion e com uma sucessiva formulação de dúvidas e de convicções sobre o ato de ver um filme. Algo que nos inquieta, maravilha, assusta, informa, comove e sei lá que tantas outras emoções nos suscita. Mas também algo - e esse é dos poucos aspetos de que o filme passa ao lado - que nos pode condicionar para sermos diferentes de quem ambicionamos ser, porque dificilmente escapamos às mensagens subliminares e aos valores contrários aos nossos interesses de classe, que os produtores pretendem inculcar.
O que muito me agrada em Edgar Pêra como autor é o tratar-nos como pessoas inteligentes dispostas a sabotar-nos os cânones cristalizados, desafiando-nos para equacionarmos modelos de análise da realidade completamente distintos dos mais vulgarmente utilizados.

(DL) Os inquisidores e os seus embustes

Quem primeiro me falou de «Na Cova dos Leões» foi Reinaldo Ribeiro, amigo com quem partilho os mesmos valores de esquerda e idêntico distanciamento em relação ao fenómeno religioso.
Depois compareci a uma apresentação de «O Sol Bailou ao Meio-Dia», imprescindível ensaio do Prof. Luís Filipe Torgal sobre as «aparições» de Fátima e a obra do escritor Tomás da Fonseca voltou a vir a lume por quem se revelou seu atento estudioso.
Não precisava de mais estímulos para meter pés a caminho e ir à procura do livro de um autor, que até então só conhecia de nome como prestigiado republicano em duradouro conflito com o regime salazarista.
Era ele já um septuagenário de emblemáticas barbas brancas, quando lhe calhou a tarefa de publicar alguns artigos no jornal «República» no âmbito da pré-campanha do general Norton de Matos. Recordemos que, nesse ano de 1949, a memória coletiva ainda conservava a celebração entusiástica dos portugueses pela vitória aliada na Segunda Guerra Mundial para desgosto de Salazar, que até impusera luto de três dias pela morte de Hitler.
A Oposição não teria grandes ilusões quanto à equidade do pleito eleitoral, tanto  mais que, depois de tremer com essa derrota dos principais regimes fascistas europeus, logo Salazar se vira confortado pelo regime de Truman já empenhado em assanhada campanha anticomunista. Ainda assim Tomás da Fonseca não imaginaria a reação ao seu artigo em que punha em causa a veracidade do que se passara três décadas antes com os três pastorinhos da Cova da Iria.
À distância de quase sete décadas não nos é fácil conjeturar o quão imenso voltara a ser o poder da Igreja Católica nessa época, apesar dos esforços da I República para lhe conter as potencialidades tóxicas. O próprio Tomás da Fonseca esforçara-se por cercear a peçonha católica, quer enquanto chefe de gabinete de Teófilo Braga no governo provisório nomeado logo a 5 de outubro e, depois, como deputado e senador do Partido Democrático liderado por Afonso Costa.
Perante o texto de Tomás da Fonseca o cardeal Cerejeira lança o ataque a partir do seu jornal oficial ««Novidades«, que logo é secundado por quase toda a imprensa regional.  Em várias cidades organizam-se manifestações de desagravo da reputação da Virgem Maria, supostamente ultrajada pelo antigo caça-frades.
Do recato da sua quinta o escritor decide confrontar Cerejeira com a sua campanha, confrontando-o com os valores cristãos, de súbito distorcidos na sua campanha inquisitorial, aproveitando para, em sucessivas cartas, demonstrar como toda a religião católica, incluindo o seu culto mariano, assenta em fundamentos falsos, desmentidos por documentos históricos, que conseguiram escapar aos sucessivos autos-de-fé lançados pelo clero ao longo dos séculos para eliminar todas as provas  que desmascarassem o acervo de mentiras em que baseavam a sua fé.
Foram essas cartas, que Tomás da Fonseca viria a organizar e a publicar em 1958 na forma deste livro dedicado a Artur Oliveira Santos, administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém à época dos acontecimentos de 1917 e que “muito se esforçou para evitar o embuste de Fátima, que a Igreja continua perfilhando e explorando com a repulsa dos cristãos verdadeiros.”
Será preciso dar mais explicações quanto ao agrado que a leitura deste livro me está a facultar?

(S) Ney Matogrosso - Demarcação Já!

(DIM) Cinema militante ou de denúncia

1. «A Fábrica do Nada», filme de Pedro Pinho, foi recompensado com um dos prémios de prestígio do Festival de Cannes dando notoriedade a uma proposta ficcional alicerçada no real. Uma vez mais fica comprovada a eficácia dos filmes, que inserem uma vertente documental na sua ficção, ou enriquecem os documentários com estórias de permeio.
Na origem do projeto estava uma peça de Judith Herzberg em que os operários de uma fábrica abandonada pelos patrões criavam uma nova mercadoria de sucesso, o Nada.
Pedro Pinho instalou a sua equipa numa fábrica de elevadores à beira da falência e aliciou para o seu projeto alguns operários bastante identificados com a realidade a explorar: a necessidade de impedirem as máquinas de desaparecerem a meio da noite e a ponderação quanto à possibilidade de prosseguirem a atividade produtiva numa lógica de autogestão.
Numa recente entrevista ao «Expresso», o realizador considerou falidos ou desacreditados todos os discursos militantes. Mas “ao mesmo tempo damo-nos conta de que a realidade não mudou assim tanto, até pelo contrário: tornou-se mais agressiva”.
O sucesso previsível deste «A Fábrica do Nada», apesar das três horas de duração, e o de «Eu, Daniel Blake», alguns meses atrás, tornam questionável esse suposto esgotamento dos filmes com características ideológicas mais evidentes.
Talvez não seja fácil alcançar financiamentos para que eles se produzam, mas muitos potenciais espectadores aguardam por imagens sintonizadas com as suas inquietações e com as possíveis respostas para as verem aquietadas.
Quem declarou morto e enterrado o cinema militante, estava a pecar por claro exagero.
2. Em 2011 a cidade de Jacksonville, na Flórida, despertou para uma história horrenda: Cristian, um miúdo de 12 anos, aproveitara a ausência da mãe, para agredir violentamente o irmão de dois anos, causando-lhe múltiplas fraturas cranianas, que se viriam a revelar fatais após algumas horas em estado crítico no hospital.
As primeiras imagens do documentário «Juvenile Lifers» mostram uma detetive a forçar uma rápida confissão de culpa do miúdo, que seria aproveitada pela procuradora-geral Angela Corey para garantir a pronta condenação a prisão perpétua. E, nas suas palavras, fica implícita a pena por não levar a punição até à execução, porque disso foi impedida pela jurisprudência do Supremo Tribunal, que impede tal exagero nos casos com menores.
O escândalo foi tal, que uma conceituada firma de advogados tomou em mãos a defesa pro bono do réu, pondo em causa as circunstâncias em que o crime ocorrera. Ficamos, assim a saber que a mãe engravidara dele aos doze anos como resultado de uma violação. Que o padrasto costumava agredi-lo frequentemente como constatavam os colegas da escola onde aparecia com as marcas dessa violência. Mas o aspeto mais perturbante do documentário aparece quase no final, quando o sabemos condenado a sete anos de prisão depois de um acordo entre a defesa e a acusação para alterar a acusação para homicídio involuntário: na realidade ele teria encoberto a verdadeira autora do homicídio, a mãe, que num ataque de fúria, agredira a vítima e depois se declarara ausente do local onde tudo ocorrera.
Para além de pôr em causa a investigação, que pode condenar crianças inocentes a penas abjetas, fica em causa a «Justiça» de um Estado onde todos os programas de reeducação e reabilitação de delinquentes foram extintos e passou a vigorar um sistema apostado na punição. Independentemente de se ter ou não a certeza de a ver incidir sobre os verdadeiros culpados.
Cristian Fernandez só para o ano será liberto, mas não se pode adivinhar o que este longo encarceramento terá causado na sua personalidade.

domingo, maio 28, 2017

(DIM) Entre Brando e Nuno Lopes

1. 1967 foi o ano do assassinato de Che Guevara. Morria com ele toda uma mística romântica relacionada com as revoluções comunistas, que ora se tornavam mumificadas na URSS, ora ganhavam ímpetos virulentamente homicidas na China, sob a designação da Grande Revolução Cultural.
No Vietname os norte-americanos estavam a atolar-se e o desaire na Apollo 1 tornava quase utópica a intenção de Kennedy em concretizar a supremacia  no espaço, com a alunagem antes da passagem para a década seguinte.
As lutas pelos direitos civis e a implantação da ditadura fascista na Grécia constituíam direções opostas de uma História, que se agudizava sobretudo no Médio Oriente com os israelitas a apossaram-se de um território várias vezes maior do que lhes caberia por direito à luz das disposições das Nações Unidas.
É sobre essa Terra em Transe, que a Cinemateca promove em junho um ciclo sobre o cinema desse ano. Uma forma aliciante de recordarmos ou nos informarmos sobre os valores e as estéticas de há meio século.
Para iniciar a proposta propõem-se esta semana dois filmes, que merecem ser vistos e revistos: «A Condessa de Hong King» de Charles Chaplin e «Reflexos num Olho Dourado» de John Huston.
Marlon Brando, Sophia Loren e Tippi Hedren protagonizam o título com que o criador de Charlot se despediu da sétima arte através de uma sátira à política norte-americana, que o forçara a exilar-se na Europa. Embora um político se enamore de uma condessa russa, que encontra como passageira clandestina no camarote do paquete em que regressa a casa, tudo volta à normalidade conjugal, quando reencontra a legítima esposa a aguardá-lo no cais da chegada.
Brando também entra no filme de Huston e veste a farda de um militar, que descobre tardiamente a homossexualidade, para grande sofrimento da esposa (Elizabeth Taylor), que não consegue compreender como ele a pode preterir de forma tão ostensiva. Porventura nunca o ator representou tão de acordo com as lições aprendidas no Actor’s Studio de Lee Strasberg.
Há quem muito aprecie e também quem deteste. O que afinal é um bom argumento para justificar a chamada de atenção para o que acaba por ser um miniciclo Brando.
2.«São Jorge» está a ter um sucesso estimável nos ecrãs franceses. O que é merecido, porque é inolvidável a interpretação de Nuno Lopes na pele de um cobrador de dívidas, que tem ética a mais para cumprir o que dele se espera.
Numa entrevista a Luís Caetano o ator recorda o quão o impressionara aquele dia em que o habitante do Bairro da Bela Vista com que se inteirava das especificidades do tipo de personagem a interpretar, o despediu, porque já estivera tempo demais com ele e tinha de ir apanhar lixo para conseguir comer alguma coisa (umas sandes de fiambre) nesse dia. Mas também como, entre os mais miseráveis, vigora um racismo latente entre etnias, que podem partilhar o espaço, mas se revelam díspares nos valores e cultura.  Não é, assim de estranhar, que tendo-se perdido a ligação de tais estratos às forças comunistas, tenham passado a aderir às mensagens políticas mais simplistas, por lhes contarem histórias aparentemente justificativas do fosso em que se sentem afogar. As votações no Brexit ou em Trump encontram aqui uma explicação sem grandes fundamentos que a contradigam.
3. Na mesma entrevista, o realizador Marco Martins diz algo bastante curioso: os americanos gostam imenso de mostrar dinheiro nos filmes. Trata-se de momento quase obrigatório num certo tipo de filmes a mala a transbordar de notas ou os cofres, que se abrem para revelar incontáveis riquezas. Mas que esperar de um tipo de cinema que, segundo Godard, só precisa de uma miúda e de uma arma?

sábado, maio 27, 2017

(I) As notas falsas a intrometer na «música» que nos dão

Ando a ouvir o álbum que Riyuchi Sakamoto compôs para a música de um filme inexistente de Andrei Tarkovski e compreendo-lhe bem o fascínio pela obra de um autor cujos filmes nos interpelam, nos dão vontade de a eles regressar. Sobretudo esse «Solaris», que vejo e revejo por constituir um tratado filosófico com inesgotáveis pistas de leitura. Mas o compositor japonês interessa-me, igualmente, pela forma como trabalha os sons e constitui, em si, um método, que deveríamos adotar como regra orientadora de tudo o que fazemos ou pensamos: numa entrevista ele confessa, que vai muitas vezes para o piano, e inicia a interpretação de um tema qualquer logo aqui e além transfigurado por uma nota falsa, depois por outra, e ainda mais outra, a projetarem-no para outras substantivas possibilidades. Trata-se de sair do cânone, das baias de algo que temos como certo e nos sentimos obrigados a respeitar.
Esquivarmo-nos do pensamento convencional, das conclusões que nos querem meter olhos a dentro como axiomas e são falácias cuja validade deixamos de equacionar. Um bom exemplo disso mesmo passa-se com o cinema de Hollywood, que tanto contribuiu para a «mitologia da inocência» responsável pela eleição de Donald Trump. A expressão é utilizada pelo realizador Raoul Peck, de quem ainda se anda a exibir nos ecrãs um documentário sobre o escritor James Baldwin.
Desaparecido há trinta anos, depois de uma vida inteira a expressar a indignação pelo racismo da sociedade em que vivia, Baldwin denunciava precisamente um país onde a imaturidade fazia figura de virtude. Porque tendo tomado John Wayne como protetor-mor, o imaginário coletivo ficou marcado por essa ideia de existir uma divisão social entre os bons e os maus em vez de se situar entre explorados e exploradores.
Não admira que o discurso típico do atual inquilino da Casa Branca esteja pejado de supostas contradições entre os «good guys» e os «bad guys». As cabeças intencionalmente sujeitas a tremenda confusão, por causa das razões justificativas do mal-estar em que se encontram, não pedem mais do que culpados a quem possam odiar em nome das suas frustrações. Sejam eles os refugiados, os emigrantes, os que têm outra cor, outra religião, outro modelo de amar, até mesmo os «madraços» de geografias acusados de quererem viver à custa dos de outras mais à norte.
Podemo-nos revoltar contra quem nos pretenda desqualificar, acusando-nos de gastarmos à tripa forra por só nos interessarem os copos e as mulheres, mas os seus pretensos axiomas, repetidos até à náusea até se converterem em evidências irrefutáveis nos nossos subconscientes, continuarão a vigorar enquanto não multiplicarmos essas tais notas falsas. As que propiciem outra leitura da realidade, iluminando-a com a limpidez exaltante das verdades quase absolutas.

(S) «async»,o album mais recente de Riyuchi Sakamoto

sexta-feira, maio 26, 2017

(DL) Os homens sem mulheres de Murakami

Embora leia com gosto os romances de Haruki Murakami tenho considerado um exagero, que seja potencial candidato ao Nobel da Literatura sempre que a Academia Sueca trata de premiar os melhores escritores vivos. Mas tendo em conta a constatação em como ela tanto acerta nos seus juízos (Saramago, Grass, Garcia Marquez, Modiano, Le Clézio entre outros), como falha clamorosamente (como aconteceu com o mais recente!), não me admiraria que o autor japonês viesse a ter essa imerecida consagração.
Ele cria estórias bastante sugestivas, mas não se pode dizer que, na escrita, ou até mesmo na construção, os seus muitos romances, novelas e contos sejam Literatura com maiúscula.
Encontramos-lhe personagens comuns, transformados involuntariamente em detetives, acabando por uma ou outra razão a ficarem algum tempo encerrados num poço ou num outro espaço claustrofóbico, onde a solidão tende a tornar-se insuportável. Tem quase sempre um desejo platónico por uma mulher etérea, cujo desaparecimento lhe força a busca, contando pelo meio com a ajuda de uma rapariga sexy e atrevida com que não enjeita deitar-se.
Há quarenta anos, que este tipo de narrativas se repete, com gatos sempre por perto e muito tempo passado nas atividades quotidianas na cozinha ou a ouvir jazz. A mentalidade é adolescente, mesmo que os heróis vão avançando para a maturidade.
O seu título mais recente, «Men without women», reúne sete histórias curiosas e em que pretende experimentar algumas inovações. Nomeadamente os habituais felinos primam, desta feita, pela ausência. Há adolescentes e homens de meia-idade, mulheres que servem de médiuns entre o reino espiritual e a realidade. Mas a ambiência é, como de costume, melancólica.
Numa das histórias um homem viúvo conta à motorista pessoal o quanto deseja vingar-se de um dos amantes da defunta esposa. A conversa será suficientemente catártica para que resolva a frustração sem maiores consequências.
Noutra, uma dona de casa vai regularmente levar comida a um prisioneiro com quem se deita e que se torna no confidente das vicissitudes passadas.
Há, igualmente, uma cirurgiã plástica que se apaixona pela primeira vez e que considerará a relação com o amado como sendo semelhante a dois barcos amarrados com uma corda.
Noutra - por sinal falhada! - o protagonista da «Metamorfose» de Kafka acorda uma manhã devolvido à condição humana e sem se recordar do que consigo se passara. Porém, quando uma operária corcunda vem fazer reparações a sua casa e sobe um escadote, não deixa de sentir-se afetado pela semelhança, que lhe encontra com um inseto.
Noutra situação, que remete para a própria biografia de Murakami, há um homem que aguarda o primeiro cliente num bar animado pela música de jazz.  O pensamento leva-o para a mulher ausente, que perdeu para os braços do melhor amigo.
Todos esses homens sem mulheres contactam os outros em quartos e bares. E têm, cada um a seu jeito, excentricidades que os distinguem. Por isso distanciam-se de quem está à sua volta, protegendo-se da dor no desejo de solidão. A vida vai-lhes passando ao lado e, sem darem por isso, vão-se perdendo de si mesmos.

quarta-feira, maio 24, 2017

(DIM) O esquecido Hal Hartley

Será que Hal Hartley desapareceu dos radares dos cinéfilos? É uma pergunta lícita tendo em conta que, nos anos 90, ele era um dos mais estimulantes realizadores norte-americanos com direito a ciclos dos seus filmes nos circuitos de distribuição mais exigentes.
Consultando o que tem feito fica desmentida a sua paragem: na filmografia acrescentaram-se títulos mais recentes, mas nossos desconhecidos,  e até episódios de uma série televisiva de impacto não negligenciável (“Red Oaks»).  Aparentemente deixou de ter quem lhe financiasse a continuidade de uma obra completamente diferente da estabelecida pelos padrões de Hollywood.
De qualquer forma ele nunca voltou a conhecer o fulgor dessa fase já distante em que era associado a Jean Luc Godard, mas com uma estética mais apurada.
Em 1994 Isabelle Huppert rodou com ele «Amateur», quando ambicionava singrar no cinema do outro lado do Atlântico, comprovando a apetência por projetos arriscados. Ela é  uma freira, que saíra do convento após anos de devotada profissão de fé, e ainda acreditando-se movida por uma missão divina (mesmo que por esclarecer), vai ganhando a vida com narrativas pornográficas, que vai publicando.
Por mero acaso conhece Thomas,  a quem uma queda provocara inconveniente amnésia. Sobretudo porque não pode compreender a razão de ter uns quantos gangsters a querer abatê-lo. Ajudado por Isabelle, vai à procura do passado e conclui-o ligado a Sofia, uma estrela do cinema porno, igualmente ameaçada pelos mesmos perseguidores.
Os três juntam esforços para escaparem, ainda acompanhados por um contabilista do bando a que Thomas pertencera e sobre cujas vicissitudes consegue voltar a recordar-se. Durante esse processo de fuga, que os leva ao convento donde Isabelle saíra, começa a criar-se uma empatia amorosa entre ela e o novo cúmplice, inevitavelmente terminada em tragédia.


(DL) «Poema de Sete Faces» de Carlos Drummond de Andrade, dito por Paulo Autran

(DIM) «Intriga em Família» de Alfred Hitchcock

Em 1976, quando iniciou a rodagem de «Intriga em Família», Alfred Hitchcock sentia-se muito debilitado e Alma, a esposa e sua imprescindível metade criativa, ainda combatia um cancro na mama entretanto identificado. Não admira que pressentisse tratar-se do derradeiro filme da sua filmografia, o testamento. Isso mesmo está explicito no tradicional cameo, algures quando já passaram 40 minutos desde o primeiro fotograma, e em que vemo-lo a entrar numa Conservatória para Registo de Nascimentos e Óbitos obviamente como prenúncio da declaração do seu próprio fim.
Não se trata, no entanto, de um filme amargo: pelo contrário até é uma comédia divertida, com algo de traquinice infantil. Se anos antes, ele já ensaiara esta estratégia criativa no delicioso «O Terceiro Tiro» (um dos meus filmes preferidos dele, embora dos menos conhecidos!), repete-a agora quase da mesma forma: se nesse título anterior só havia um cadáver, que se ia enterrando e desenterrando, mas acabando por se concluir que não existira nenhum crime, agora nem sequer ele existe apesar das cenas num cemitério, incluindo um enterro.
O seu típico suspense  já aqui não consta: por esses anos o cinema, nomeadamente de terror, usara e abusara tão intensamente do método de segurar o espectador à cadeira perante a iminência de algo de terrível a acontecer na tela, que o Mestre abdicou simplesmente de o utilizar. Uma das poucas exceções ocorre numa cena bastante engraçada em que o casal de vigaristas simpáticos anda a discutir, com ele ao volante a virar-se sucessivamente para ela e chegamos a temer um acidente, que Hitchcock resolve numa brusca travagem.
Persiste, porém, no recurso ao jogo de enganos, das aparências, dos equívocos entre dois casais dispostos a espreitarem-se uns aos outros, mas levando tempo demais a esclarecerem-se.
Para que a estória melhor funcione ele utiliza estereótipos opostos na definição dos dois casais. Num deles é a mulher quem prevalece sobre o homem, orientando-o, instando-o a agir. Ela é uma falsa vidente, que engana velhas senhoras, quanto à possibilidade de comunicarem com o Além com uma bola de cristal, e ele um modesto motorista de táxi.
O outro casal é sofisticado, embora com uma natureza intrinsecamente criminosa: ele apossa-se de joias valiosas a coberto da sua loja de fachada dedicada a esse negócio, enquanto ela é a amante, que colabora com ele pelo gosto do risco, pela vontade em subverter os códigos morais. Podemos verificar neles uma típica opção do realizador para dar ao espectador uma piscadela de olho informando-o quando estão a mentir ou a oferecer-nos a sua verdade: se aparentam uma conversa entre um suposto vendedor e uma cliente normal, filma-os de perfil; se, pelo contrário, em surdina, combinam mais um dos seus planos criminosos, já estão virados para a câmara a mostrar-nos a sua verdadeira face.
Vimos, igualmente, pelos filmes anteriormente exibidos neste ciclo, que a relação de Hitchcock com a sexualidade costuma ser bastante explicita na perversa contenção dos seus próprios fantasmas. Aqui temos a vidente a mostrar um voraz apetite sexual, que o companheiro tem bastante dificuldade em satisfazer.
Como de costume não foi um filme pacífico de rodar pela difícil relação de Hitchcock com os atores: dado que Al Pacino - que desejara para o papel de George - se tornara, entretanto, demasiado caro, e Jack Nicholson preferiu rodar «Voando Sobre um Ninho de Cucos», foi convidado Roy Thinnes, muito conhecido pelo papel de David Vincent na série televisiva «Os Invasores». Uma semana depois estava despedido por o Mestre o julgar incompatível para tal desempenho. Felizmente Bruce Dern substituiu-o e são muitos os estudiosos da obra de Hitchcock, que o consideram a melhor alternativa relativamente a todos quantos tinham sido considerados para tal papel.
Para a Mme Blanche também a produção considerara a possibilidade de escolher Liza Minnelli ou Goldie Hawn. A entrega do desempenho à histriónica Barbara Harris foi muito feliz, como se comprova no reconhecimento coma nomeação para o Globo de Ouro desse ano quanto à melhor interpretação feminina.
Para o papel da sofisticada Fran, o desejo do realizador era vê-la representada por Faye Dunaway, que acabara de ter assinalável sucesso com «Chinatown» de Roman Polanski. Mas, desperdiçando a oportunidade de participar num filme de Hitchcock, ela recusou o papel por não ter suficiente protagonismo para si. Uma vez mais, foi mal que veio por bem, porque Karen Black é excelente, tornando-se memorável a cena em que um piloto de helicóptero lhe afiança que a pistola por ela empunhada não tem qualquer bala e friamente o alveja tangentemente enquanto acabam de descolar do  local onde tinham recebido o resgate por um rapto.
Uma referência final para a piscadela de olho do final, quando a vidente olha para os espectadores e acaba por deixar a ambiguidade quanto à natureza dos seus poderes. Será que, apesar de iconoclasta, sobrava em Hitchcock a esperança num Além? Esse epílogo presta-se às mais diversas leituras.

(O filme de Hitchcock será projetado amanhã, dia 25 de maio, no Cineclube Gandaia da Costa da Caparica, às 21 horas)