domingo, abril 23, 2017

(DIM) «Trumbo» de Jay Roach (2016)

Há críticas de filmes, que me surgem como insultuosas de tal forma usam critérios diferentes para ajuizar os filmes consoante as suas conotações ideológicas.
Vem isto a propósito de um articulista do «Público», Luís Miguel Oliveira, ter dado apenas uma estrela a «Trumbo», dizendo-o eivado de maniqueísmo contrário ao do macarthismo contra o qual se insurge.
Curiosamente nunca vi o mesmo opinador preocupar-se quando está explicito uma mensagem de sinal contrário que, se dotada de talento e meios de produção à altura, logo passa por obra-prima. «Trumbo» serve de pedra-de-toque para perceber o que se passa na cabeça de quem o comenta: se não gosta quase por certo alinha politicamente à direita, se gosta sucede precisamente o contrário. ~
Muito preocupado com o maniqueísmo, LMO esquece que o assunto não admite confusões: ou se está de um lado ou do outro. Ou se admira os que mantiveram as convicções, sofreram as consequências e acabaram por ser reconhecidos como vítimas de uma execrável operação política destinada a virar a América mais para a direita, de forma a satisfazer os interesses  da coligação de militares com a indústria de guerra (Eisenhower bem a pressentiu e denunciou, mas nada pôde fazer contra ela!), ou se alinha com os John Waynes, com os Ronald Reagans e com os Nixons, que dela foram cabeças de turco. Como Trump continua a ser com o recente aumento do Orçamento para os militares.
No final da Segunda Guerra Mundial o poder republicano julgou-se invencível ao ter a exclusividade da bomba atómica e engendrou a estratégia imperialista de expandir a  sua exploração a todos os continentes. Os comunistas estavam a jeito como inimigos principais, pois seria a União Soviética o maior obstáculo a esse objetivo. E entre eles, pela sua visibilidade, contavam-se os realizadores, argumentistas, atores, atrizes e outros técnicos, que davam vida às produções de Hollywood.
Dalton Trumbo era um deles: escritor talentoso, já enriquecera com alguns trabalhos, que haviam conhecido um enorme sucesso de bilheteira.
Em 1947 ele e outras nove personalidades conhecidas dos estúdios cinematográficos foram intimados a comparecerem em Washington para prestarem declarações perante a Comissão de Atividades Anti-Americanas.
Cientes de estarem a ser violados os seus direitos constitucionais quanto à sua liberdade de pensamento, nenhum deles colaborou com os interrogadores acabando condenados a um ano de prisão por «desrespeito ao Congresso».
Curiosamente o senador incumbido dessa Comissão não tardaria a ser igualmente preso por burla e peculato.
Nos anos seguintes - dez no caso de Dalton Trumbo - a vida viu-se-lhes virada do avesso com a pobreza a substituir-se à confortável qualidade de vida até então usufruída.
Alguns cedem à chantagem dos anticomunistas liderados pela intriguista Hedda Hopper (cuja influência advinha da sua muito lida coluna de mexericos!), como aconteceu com Edward G. Robinson, Outros, como Elia Kazan - que alguns enaltecem por títulos como «Esplendor na Relva» ou «A  Leste do Paraíso» - levaram a perfídia ao extremo de denunciarem, sem qualquer objeção, os que tinham sido seus amigos e nele haviam confiado. Mas houve também os que morreram por não encontrarem ânimo para contrariarem a inclusão na Lista Negra como sucedeu com John Garfield.
Trumbo organizou-se com um conjunto de outros argumentistas para escreverem argumentos mal pagos e de escassa exigência para filmes de série B.  Mas, entretanto, em trabalhos mais de acordo com o seu talento, foi ganhando Óscares sob pseudónimo. Aconteceu com «Férias em Roma» de William Wyler em 1953 e com «O Rapaz e o Touro» de Irving Rapper em 1956.
A reintegração na Writers Guild of America só aconteceu quando Kirk Douglas exigiu que o seu nome figurasse no genérico de «Spartacus» e Otto Preminger o imitou com igual decisão relativamente ao «Exodus», ambos em 1960.
A América parecia à beira da mudança e Kennedy, acabado de ser eleito para a Casa Branca sinalizou o fim da perseguição aos principais nomes da Lista Negra com a comparência à estreia do filme de Kubrik. Mas a malfadada Comissão manteria a atividade, mesmo em menor dimensão, até 1975. Trumbo ainda viveu o suficiente para lhe fazer o enterro, pois sucumbiria no ano seguinte fulminado por um ataque cardíaco.
Nesta abordagem biográfica não havia muito que pedir a Jay Roach: um argumento consistente, intérpretes irrepreensíveis e causar no espectador a reação emotiva contra este trágico exemplo de repressão contra o direito a ter as crenças políticas, que se pretendam defender,
Estranho que isso ainda incomode muita gente. Por mim o filme vale cinco estrelas.


(DL) Recordar Gabo: Um dia depois de sábado (2)

O velho padre também foi o primeiro a sentir o odor de morte impregnado no ambiente da vila, nele encontrando o tema mais apropriado para o sermão da missa de domingo:  a habilidade de Satã em infiltrar-se no coração humano através de um dos cinco sentidos. Mas foi tal a confusão suscitada na mente entre a realidade, as palavras ouvidas aos paroquianos e os textos bíblicos que, chegado o momento da homilia, acabou por improvisar um discurso sobre a caridade,  para ele mesmo incompreensível.
Outrora cultor dos clássicos gregos e admirado pela sapiência, o padre enterrara-se na vila e perdera, pouco a pouco, os interesses e capacidades. Os paroquianos consideravam-no soporífero na forma de discursar e não acreditavam nos seus supostos encontros com o Diabo. Ele mesmo, dado à reflexão metafísica, reconhecia há muito nada pensar, quando se dedicava à contemplação.
“Um sábado - nove dias depois de terem começado a cair pássaros mortos - o padre Antonio Isabel del Santísimo Sacramento del Altar dirigia-se à estação quando caiu um pássaro agonizante  aos seus pés, precisamente em frente à casa de Rebeca. Um resplendor de lucidez dominou-lhe a mente, dando-se conta de que o pássaro, ao contrário dos outros, poderia ser salvo. Tomou-o nas mãos e bateu à porta de Rebeca no momento em que ela se despia para dormir a sesta.”
É ao referir o parentesco distante da viúva com o bispo, que Gabriel Garcia Marquez introduz os nomes de Aureliano e Arcadio Buendia, seus primos, que serão personagens maiores do épico «Cem Anos de Solidão».
“- A vida de um animal - disse o padre - é tão grata a Nosso Senhor como a de um homem.”
E assim tenta convencer Rebeca a facultar-lhe a água e a sombra necessárias à salvação do pássaro. Algo que ela não dá de bom grado aterrada, que ainda está com todo o cenário inquietante dos dias anteriores.
A impiedade da parente dos Buendia desgosta o padre, que vê os seus esforços baldados: o pássaro morre graças à brutalidade com que ela o trata. E, no regresso à residência paroquial, Antonio conhece inesperada epifania:
“Um instante decorrido, tendo-o na mão, o sacerdote compreendeu que aquele corpo minúsculo e indefeso tinha deixado de respirar. Esqueceu-se então de tudo: da humidade da casa, da concupiscência, do insuportável cheiro a pólvora no cadáver de José Arcádio Buendia, e percebeu a prodigiosa verdade em que estava imerso desde o início da semana. Ali mesmo, onde a viúva o via a abandonar a casa com o pássaro morto nas mãos e uma expressão ameaçadora, assistiu à maravilhosa revelação de ter esquecido o Apocalipse enquanto perdurava a chuva dos pássaros mortos e só sentia saudades pela felicidade de quando não havia calor.”
Nesta altura da história ainda ela não chegou a meio, Mas prosseguiremos a sua abordagem no texto de amanhã.

sábado, abril 22, 2017

(DIM) O regresso de Rui Simões a São Pedro da Cova

Devo a Rui Simões muitas horas de prazer cinéfilo dedicadas ao conhecimento do excelente trabalho de tratamento de arquivos, que nos possibilitou um conhecimento ilustrativo do que foi o fascismo e os primeiros tempos da Revolução de Abril. «Deus, Pátria, Autoridade» ou «Bom Povo Português» são títulos imprescindíveis sempre que estiver em causa um qualquer ciclo dedicado ao documentarismo luso sobre a História do Século XX. O primeiro abordando o período compreendido entre a implantação da República e o 25 de abril, o segundo indo desta última data até ao 25 de novembro de 1975.
Infelizmente nunca foi realizador a quem fossem propiciadas grandes condições para ter a vasta filmografia, que o talento justificaria. Mais recentemente conhece-se-lhe um filme estreado em 2010 sobre a comunidade cabo-verdiana do bairro da Cova da Moura, e outro sobre a condição de carne para canhão a que foram sujeitos mais de cem mil jovens nas guerras das ex-colónias entre 1961 e 1974.
Pelo meio devo-lhe ainda mais: o único documento filmado que me resta de uma das mais exaltantes peças de teatro, que vi na minha vida: «Ensaio sobre a Cegueira» na encenação de João Brites para o grupo de teatro O Bando. «Ensaio sobre o Teatro» é um dos melhores making off que vi por dar a conhecer o processo criativo, que resultou num espetáculo inesquecível.
Sabemo-lo agora de regresso a São Pedro da Cova, onde, em 1974 e 1975, andara a filmar as experiências de organização popular promovidas por alguns dos mais ativos representantes dos mineiros, que tinham ficado desempregados cinco anos antes por fecho inopinado das minas de carvão.
O filme agora anunciado - «Do Carvão aos Resíduos» - não só pretende fixar a memória dos sobreviventes do período em que toda a aldeia funcionava em torno da atividade mineira, mas também denunciar as consequências de uma exploração, que não acautelou o desastre ambiental, que dela ainda é testemunho. 

(DL) Recordar Gabo: Um dia depois de sábado (1)

Quase a acabar o ano de 1953, Garcia Marquez escreveu um conto num impulso, que o fez ir de fio a pavio no mesmo fôlego: «Um Dia depois de sábado» é a história de um fenómeno insólito passado numa vila onde o calor mata inúmeros pássaros.
Como sucederia com toda a sua obra posterior, logo no primeiro parágrafo, é-nos prodigalizado um conjunto de informações importantes para entrarmos facilmente no que se seguirá:
“A inquietação começou em julho, quando Rebeca, uma viúva amarga, que vivia numa mansão enorme com dois corredores e nove quartos, descobriu os vidros das janelas partidos como se os tivessem apedrejado da rua. Começou por constatar a ocorrência no seu próprio quarto e pensou chamar a criada Argénida, também sua confidente desde a morte do esposo. Foi depois de apanhar os cacos - e durante um bom bocado não fez senão isso! - que viu ter acontecido o mesmo com as demais janelas da mansão.
A viúva tinha um sentido muito forte da autoridade, herdado talvez do bisavô paterno, um crioulo que combatera ao lado dos monárquicos durante a Guerra da Independência e encetara depois uma penosa viagem a Espanha para visitar o palácio mandado construir por Carlos III em San Ildefonso.
Foi ao constatar o estado das outras janelas, que esqueceu a intenção de apelar a Argénida , pegando no chapéu para se dirigir à Câmara e queixar-se do atentado. Mas, ao chegar ali, deu com o presidente em tronco nu, peludo e com uma solidez que lhe pareceu bestial, a reparar as janelas do edifício, tão danificadas como as suas.”
No ano seguinte  decidiu apresenta-lo num concurso organizado pela Associação Nacional de Escritores e Artistas Colombianos.
A 30 de julho de 1954 o júri atribuiu-lhe o primeiro prémio de entre os 46 textos em competição.  Seria a sua primeira de entre muitas consagrações, que receberia ao longo do percurso literário. E a Editora Minerva de Bogotá logo o incluiria num livro intitulado «Três Contos Colombianos», que associava o dele ao dos autores, que tinham recebido o segundo e o terceiro prémio: Guillermo Ruiz Rivas e Carlos Arturo Truque.
No seguimento da estória a viúva não consegue que o autarca lhe aceite a queixa, porque, segundo ele lhe conta, as casas da vila andam há três dias a serem invadidas por pássaros moribundos. Explicava-se, assim, que, no escritório da câmara, tivesse visto acumulados tantos pássaros mortos.
“Quando abandonou o edifício, Rebeca sentia-se envergonhada. Mas também algo ressentida com Argénida, que lhe levava todos os boatos da terra e lhe tinha escamoteado essa informação. Abriu a sombrinha, encadeada pelo brilho do iminente agosto e, enquanto palmilhava a rua escaldante e deserta, teve a impressão de que todas as casas exalavam um forte e penetrante cheiro a pássaros mortos.”
Antonio Isabel del Santísimo Sacramento del Altar Castañeda y Montero, o nonagenário padre da igreja local, fora dos primeiros a dar com dois pássaros mortos: o primeiro na terça-feira na sacristia, o outro no dia seguinte na residência paroquial. Apesar de afiançar já ter visto o diabo por três vezes, ele atribuiu aos gatos a razão de ser dos seus achados. E pensou que, num mundo perfeito, os gatos não deveriam existir.
No dia seguinte deu com outro pássaro morto na estação ferroviária e a convicção quanto à causa vacilou. Percebeu que algo de estranho se estava a passar com os pássaros, mas considerou o assunto pouco importante para que justificasse um sermão.
No próximo texto iremos continuar a abordar o talento com que Gabriel Garcia Marquez, neste seu primeiro texto premiado, desenvolve a intriga.

sexta-feira, abril 21, 2017

(DIM) «11 minutos» de Jerzy Skolimowski (2015)

Um encontro fatal para onze personagens de que acompanhamos os onze anteriores minutos antes de tudo acontecer. Tal é o tema deste virtuoso exercício narrativo do realizador polaco capaz de desenvolver em crescendo a tensão dramática antes do final absurdo.
No seu filme anterior - «Essential Killing» - Skolimowski acompanhava diversos grupos de perseguidos a um trânsfuga taliban. Agora opera um exercício contrário com onze personagens, um deles um cão, a serem seguidos pela câmara nos onze minutos, que faltam para virem a ser coletivamente afetados por um acaso fatal.
Cada um sugere uma dependência obsessiva, positiva ou negativa, que convergirá para a sua perda: o ciúme, a toxicomania, o roubo, a pedofilia…
Temos garantida uma multiplicação de perspetivas com recurso a diversos suportes de imagem, que vão da câmara convencional à de vigilância passando pelo telemóvel.
Cada personagem funciona no seu próprio ritmo, ora dilatado, ora contraído nos mesmo onze minutos, consoante o que o ocupa. Se dividíssemos o ecrã em onze painéis e víssemos a ação decorrer distintamente em cada um deles, poderíamos ter o filme a durar apenas os onze minutos de cada uma das partes. Tudo consagrado com um humor absurdo, mas ao mesmo tempo desesperado, que lembra Polanski...
No início temos os relógios a assinalarem as 17 horas e vemos uma atriz a ter um encontro com um realizador. O marido tenta avisá-la que tomou soporíferos por engano e dirige-se ao hotel onde a poderá encontrar. Um vendedor de cachorros quentes, em liberdade provisória, é abordado por uma rapariga, que lhe cospe a cara. Uma outra jovem reencontra o ex-namorado depois da sua tentativa de suicídio e do incêndio do apartamento. Ele pretende restituir-lhe o cão.
Incumbido da limpeza da fachada do hotel um homem espreita a companheira num dos quartos a ver o filme pornográfico onde contracena. Um dealer cocainómano escapa à polícia e prepara-se para entregar as suas encomendas. Uma equipa de assistência médica vence a resistência de vizinhos recalcitrantes e presta apoio ao parto de uma mulher. Um rapaz tenta assaltar uma loja de penhores dando com o cadáver do seu dono. Apanha o autocarro com um velho, que se dedica à pintura como amador.
Dez minutos passados o marido força a porta do quarto do realizador.  A varanda cede ao assalto, o realizador cai, fazendo com que caia um andaime e o seu ocupante. Uma conduta de gás explode à passagem da ambulância, obrigando-a a chocar com o autocarro, onde seguem o ladrão e o velho pintor, que, por seu lado, esmaga o vendedor de cachorros e o filho, o dealer. O marido não consegue agarrar a mulher, que também cai. A jovem e o seu cão são quem escapam ...
 

quinta-feira, abril 20, 2017

(AV) Os mortos e torturados, que não devemos esquecer

Ao enfatizar a importância da exposição, agora inaugurada no rés-do-chão do Torreão Poente da Terreiro do Paço, o curador  Diógenes Moura lamenta o quão desconhecida é a Operação Condor nos países latino-americanos onde ela se concretizou. Muitos brasileiros, argentinos, uruguaios, chilenos, bolivianos ou paraguaios desconhecem que, nos anos 60, a CIA chamou à sua sede em Fort Langley os principais militares dos respetivos países para com eles concertar o combate comum aos regimes e aos movimentos insurrecionais conotados com as esquerdas.
Allende, Che Guevara ou Victor Jara são apenas algumas das principais vítimas desse projeto assassino. Dilma Roussef também lhe sofreu os efeitos, como foi lembrado por aquele energúmeno que, ao votar a sua destituição, aproveitou para saudar o sinistro torturador, que tanto sofrimento lhe havia infligido.
A Operação Condor é um dos melhores exemplos sobre a persistente atividade da CIA para promover ações de permanente enfraquecimento dos regimes, que mais assustem os especuladores de Wall Street. Não é preciso ser um Einstein para adivinhar a sua presença nas «Primaveras árabes», que derrubaram ditadores laicos do mundo árabe, mesmo que deixando de herança um caos propício ao crescimento do terrorismo jihadista.
Quase por certo foi a CIA quem promoveu o mais recente bombardeamento com gás sarin na Síria de modo a acusar Assad e fragilizar ainda mais o seu regime. Há dedo da CIA em Moscovo e São Petersburgo, nas manifestações destinadas a enfraquecer Putin. E há por certo muitos conselheiros da agência na retaguarda dos Capriles venezuelanos para derrubarem de vez o já atarantado poder de Maduro.
Por muita piada, que achemos aos romances de John Le Carré ou aos filmes dele derivados - ou a coisas mais sinistras como a da série «24», que andou anos a entusiasmar uns quantos ingénuos - a espionagem continua omnipresente para impor uma «pax americana» a todos os continentes. E comporta sempre muitíssimas vítimas, algumas sem sequer perceberem como se viram subitamente acusadas de crimes, que nunca poderiam imaginar ter cometido. Continuam a funcionar prisões secretas onde quaisquer resquícios de direito à justiça é totalmente negado.
Dirão uns quantos, que também os russos, os chineses e outros países têm os seus espiões. Até Portugal os tem, embora pelo exemplo do que anda por aí a ser julgado nos tribunais, parecessem mais interessados em garantir os seus próprios interesses, que os do país para o qual deveriam supostamente espiar. Mas mesmo os russos, que ganharam alguma capacidade em livrarem-se dos opositores do Kremlin no estrangeiro, não conseguem causar os danos dos promotores da Operação Condor. Porque, desde início, eles pretendiam derrubar governos,  torturar e assassinar opositores e impor políticas diretamente ditadas pelos gurus da escola de Chicago.
É por isso que a exposição de João Pina deve ser amplamente divulgada e visitada. Porque não se tratam tão só de excelentes fotografias: estão lá os que desapareceram, as famílias que nunca os esqueceram, os que torturaram e mataram, os que se exilaram e salvaram, bem como as paisagens belas, aparentemente inofensivas à primeira vista, mas que escondem homicídios indesculpáveis, que nunca deveremos esquecer.
Deixo para o fim uma experiência pessoal sobre o meu contacto com esses anos de chumbo no subcontinente latino-americano: em Buenos Aires o paquete onde então viajava ficou atracado num cais em que, no percurso para o centro da cidade, se era obrigado a passar em frente de um dos mais sinistros centros de tortura da ditadura dos generais: a Escola de los Mecanicos de la Armada.
Em cada um dos topos dessa longa avenida existiam avisos bem explícitos: se não quiséssemos arriscar um tiro deveríamos nela transitar sem parar um momento sequer e quanto a fotografias, nem pensar em tirar a máquina do estojo em que, porventura, a transportássemos.
Sentia-se a ameaça latente e, sobretudo, a nossa inquietação quanto à possibilidade de, nesse preciso momento, estarem ali a serem seviciados muitos dos que teimavam em dizer não.
A Operação Condor espelha a ainda persistente injustiça de, aqui em Haia donde escrevo, só serem julgados e condenados alguns crápulas sem grande importância. Quanto aos grandes criminosos das últimas décadas, ninguém os fez comparecer em nenhum tribunal como o que, em Nuremberga, fez justiça aos do regime nazi.

quarta-feira, abril 19, 2017

(DIM) Os irmãos Coen em registo burlesco

Ultimamente tenho tido para os filmes dos irmãos Coen a mesma reação que me têm merecido os mais recentes títulos de Woody Allen: bem construídos, com um conjunto significativo de atores e atrizes conceituados (alguns deles quase cingidos a papéis, que só não são cameos, porque vêm creditados no genérico!), mas incapazes de me entusiasmarem.
Em «Salvé César» há excelentes momentos de cinefilia, mormente quando se incluem cenas de westerns, as coreografias aquáticas de Busby Berkeley, os musicais ou os melodramas, que eram produzidos como pãezinhos pelos estúdios de Hollywood nos anos 50.
Aquela em que uma vedeta apanha a boleia de um submarino soviético ao largo de Santa Mónica também consegue mimetizar o tom épico dos filmes heroicos da Mosfilm, mesmo que não destoe do registo burlesco de todo o filme. Que é uma sucessão de sketches sobre a vida de um diretor de estúdio obrigado a resolver mil e um problemas durante o espaço de um dia: a incompatibilidade de um cowboy cantor com os papéis dramáticos a que o querem obrigar; o rapto do protagonista de um filme bíblico (Clooney em versão estarola); a gravidez de uma atriz particularmente frívola (Scarlett Johansson quase irreconhecível), o assédio das autoras das colunas de mexericos; sem esquecer o convite da Lockheed para mudar de emprego.
Como não concordar com quem viu neste filme uma homenagem falhada à indústria do cinema dos anos 50? Haveria tanto por onde pegar para abordagem séria, não apenas destinada a criar um divertimento para espectadores tontos..

terça-feira, abril 18, 2017

(EdH) Quem se deixa ultrapassar pelo progresso...

Estive apenas umas horas na Dominica em ano de viagens particularmente exaltantes, porque levei umas boas semanas a aportar a quase todas as ilhas do mar das Caraíbas. Ficou-me a faltar uma, aquela que mais interesse me despertava, Cuba, um mistério apenas vislumbrado à distância. Mas a circunstância de falhar os sítios incluídos na lista dos meus destinos preferenciais foi regra verificada noutras latitudes: percorri toda a costa oriental dos Estados Unidos e não consegui passar uma noite a ouvir o típico jazz da Bourbon Street em Nova Orleães, dela mais não me aproximando do que de Pascagoula, no vizinho Estado do Mississípi. Não foram poucos os portos chineses por que passei e, no entanto, de Macau ficou-me tão-só a imagem distante facultada de Hong Kong, vendo os jetfoils a voarem acima da planura aquática na direção desse mítico espaço, que me permaneceria desconhecido. Na África Oriental vi o forte de Mombaça, as quase submersas ruas das Maldivas, a lindíssima praia de Praslin nas Seychelles, os lémures de Madagascar ou a degradada, mas lindíssima arquitetura de inspiração árabe, da ilha de Zanzibar. No entanto Moçambique ficou-me vedado tanto mais que, na altura de tais navegações, os criminosos da Renamo punham o país em polvorosa. Os turistas suíços que, no inverno do hemisfério norte, costumavam afretar o navio de que era tripulante, revelavam-se, ano após ano, ousados nos sucessivos programas, mas não ao ponto de arriscarem sítios onde uma qualquer bala perdida os pudesse alvejar.
Mas voltando à ilha das Antilhas sobre a qual vi hoje curiosa reportagem, assinalo nela terem-me ficado invisíveis os índios kalinagos, que descendem das populações encontradas por Colombo quando ali aportou no século XV. Mais ainda, essa população pré-colombiana dominava o comércio de toda a região caribenha e de apreciável faixa costeira da atual América do Sul, porque possuía a arte de construir um tipo muito específico de canoa, quase considerada insubmersível.
A arte de as construir continua a ser transmitida de geração em geração justificando ritos específicos desde a escolha da árvore da floresta destinada a ser trabalhada até ao momento de se lançar à água a nova embarcação.
Até Colombo trazer novos saberes e tecnologias, os kalinagos eram uma das tribos mais ricas da região graças à facilidade com que promoviam as trocas de mercadorias entre as várias outras com que comerciavam. A chegada desses navegadores desconhecidos precipitaria a inevitável decadência. O que não deixa de ser uma metáfora eloquente para quem se cristaliza no que pensa ou faz, inevitavelmente marginalizado pelos que sempre procuram novas ideias e meios de produção. Porque, hoje em dia, até na sua própria ilha, os kalinagos estão cingidos a uma exígua reserva de quinze quilómetros quadrados onde só podem explorar o lado folclórico do que, no passado, fora a força de pujante economia.


segunda-feira, abril 17, 2017

(DL) As leituras que me andam a acompanhar

Ainda adolescente apanhei em casa alguns exemplares de uma coleção de livros de bolso, que muito me seduziram: sem serem calhamaços, deixavam-se transportar facilmente para serem lidos onde os dias nos conduzissem, e tinham por autores alguns dos maiores escritores do século XX. O meu primeiro Steinbeck lembro-me de o ter lido nessa coleção Miniatura, cujas capas tinham ao meio uma ilustração de nomes importantes do nosso meio artístico como era o caso de Bernardo Marques.
Recentemente surgiram nos escaparates os livros da segunda série de tal proposta, aparentemente apostada em facultar propostas literárias excelentes por custo reduzido, subordinando-as ao mesmo formato e estética da capa.
Os primeiros títulos foram excelentes descobertas: «A Louca da Casa» é uma abordagem muito inteligente sobre o ofício do escritor redigido com a habitual capacidade de Rosa Montero para ir dialogando com o leitor. «Soldados de Salamina» põe o narrador a investigar a estória ambígua de um franquista escapado de um pelotão de fuzilamento e é toda a evolução do franquismo, que se vê analisada pela escrita de Javier Cercas.
Surgiu depois «A Um Deus Desconhecido», que continua a ser um dos mais bem amados romances de Steinbeck, e, nos últimos dias, «Novela de Xadrez» de Stefan Zweig.
Para as presentes férias holandesas trouxe dois destes títulos: o de Cercas, que me está a dar um enorme prazer na leitura e o de Zweig, que me aguça a curiosidade por se tratar do seu livro derradeiro antes de se entregar à morte, em cumplicidade com a esposa, ambos apostados em livrarem-se de um mundo segundo eles condenado a cair nas teias sinistras do nazismo.
Essa derradeira obra seria concebida e acabada em Petrópolis, a cidade onde o escritor viveu exilado os últimos anos de vida, depois de escapar da Europa em 1936.
Pelos escritos dessa época a chegada à baía de Guanabara enchera Zweig de esperançosa alegria.
Ele era na época um dos mais bem sucedidos autores mundiais, com as obras largamente traduzidas em muitas línguas e publicadas em todos os continentes.
Excelentemente recebido pelos intelectuais do Rio de Janeiro, o exilado austríaco não seria sequer molestado pela polícia política do Estado Novo, que sentia uma empatia indisfarçável com Mussolini e com Hitler.
Nos primeiros meses de estadia nas terras de Santa Cruz, o casal Zweig viaja pelo seu litoral, deixando-se cativar pela Bahia de Todos os Santos, cuja mistura exótica entre a arquitetura lusitana e a negritude dos antigos escravos constituiu cocktail tão aliciante, que a hipótese de ali se radicarem chegou a ser ponderada.
A opção seria, porém, a pequena cidade de Petrópolis pela sua semelhança com o país natal, que tinham deixado para trás. De facto, ela fora construída a mando do Imperador Pedro II como local de vilegiatura para a esposa, uma princesa oriunda da corte dos Habsburgos.
Não terá sido escolha asizada, porque o ambiente era muito fechado, sem grande convívio entre os vizinhos. Razão para Zweig ter aprofundado a sua característica depressão e ganhar ansiedades suicidas.
«Novela de Xadrez» espelhará por certo essa sensação de sentir o abismo bem próximo ao ponto dele se tornar irresistível.
À distância Zweig e Virginia Woolf são dois exemplos de escritores que, relativamente a recato do conflito, que grassava a nível mundial, terão insensatamente cedido ao desespero, quando afinal a derrota dos fascismos já se prefigurava...