domingo, abril 23, 2017

(DL) Recordar Gabo: Um dia depois de sábado (2)

O velho padre também foi o primeiro a sentir o odor de morte impregnado no ambiente da vila, nele encontrando o tema mais apropriado para o sermão da missa de domingo:  a habilidade de Satã em infiltrar-se no coração humano através de um dos cinco sentidos. Mas foi tal a confusão suscitada na mente entre a realidade, as palavras ouvidas aos paroquianos e os textos bíblicos que, chegado o momento da homilia, acabou por improvisar um discurso sobre a caridade,  para ele mesmo incompreensível.
Outrora cultor dos clássicos gregos e admirado pela sapiência, o padre enterrara-se na vila e perdera, pouco a pouco, os interesses e capacidades. Os paroquianos consideravam-no soporífero na forma de discursar e não acreditavam nos seus supostos encontros com o Diabo. Ele mesmo, dado à reflexão metafísica, reconhecia há muito nada pensar, quando se dedicava à contemplação.
“Um sábado - nove dias depois de terem começado a cair pássaros mortos - o padre Antonio Isabel del Santísimo Sacramento del Altar dirigia-se à estação quando caiu um pássaro agonizante  aos seus pés, precisamente em frente à casa de Rebeca. Um resplendor de lucidez dominou-lhe a mente, dando-se conta de que o pássaro, ao contrário dos outros, poderia ser salvo. Tomou-o nas mãos e bateu à porta de Rebeca no momento em que ela se despia para dormir a sesta.”
É ao referir o parentesco distante da viúva com o bispo, que Gabriel Garcia Marquez introduz os nomes de Aureliano e Arcadio Buendia, seus primos, que serão personagens maiores do épico «Cem Anos de Solidão».
“- A vida de um animal - disse o padre - é tão grata a Nosso Senhor como a de um homem.”
E assim tenta convencer Rebeca a facultar-lhe a água e a sombra necessárias à salvação do pássaro. Algo que ela não dá de bom grado aterrada, que ainda está com todo o cenário inquietante dos dias anteriores.
A impiedade da parente dos Buendia desgosta o padre, que vê os seus esforços baldados: o pássaro morre graças à brutalidade com que ela o trata. E, no regresso à residência paroquial, Antonio conhece inesperada epifania:
“Um instante decorrido, tendo-o na mão, o sacerdote compreendeu que aquele corpo minúsculo e indefeso tinha deixado de respirar. Esqueceu-se então de tudo: da humidade da casa, da concupiscência, do insuportável cheiro a pólvora no cadáver de José Arcádio Buendia, e percebeu a prodigiosa verdade em que estava imerso desde o início da semana. Ali mesmo, onde a viúva o via a abandonar a casa com o pássaro morto nas mãos e uma expressão ameaçadora, assistiu à maravilhosa revelação de ter esquecido o Apocalipse enquanto perdurava a chuva dos pássaros mortos e só sentia saudades pela felicidade de quando não havia calor.”
Nesta altura da história ainda ela não chegou a meio, Mas prosseguiremos a sua abordagem no texto de amanhã.

sábado, abril 22, 2017

(DIM) O regresso de Rui Simões a São Pedro da Cova

Devo a Rui Simões muitas horas de prazer cinéfilo dedicadas ao conhecimento do excelente trabalho de tratamento de arquivos, que nos possibilitou um conhecimento ilustrativo do que foi o fascismo e os primeiros tempos da Revolução de Abril. «Deus, Pátria, Autoridade» ou «Bom Povo Português» são títulos imprescindíveis sempre que estiver em causa um qualquer ciclo dedicado ao documentarismo luso sobre a História do Século XX. O primeiro abordando o período compreendido entre a implantação da República e o 25 de abril, o segundo indo desta última data até ao 25 de novembro de 1975.
Infelizmente nunca foi realizador a quem fossem propiciadas grandes condições para ter a vasta filmografia, que o talento justificaria. Mais recentemente conhece-se-lhe um filme estreado em 2010 sobre a comunidade cabo-verdiana do bairro da Cova da Moura, e outro sobre a condição de carne para canhão a que foram sujeitos mais de cem mil jovens nas guerras das ex-colónias entre 1961 e 1974.
Pelo meio devo-lhe ainda mais: o único documento filmado que me resta de uma das mais exaltantes peças de teatro, que vi na minha vida: «Ensaio sobre a Cegueira» na encenação de João Brites para o grupo de teatro O Bando. «Ensaio sobre o Teatro» é um dos melhores making off que vi por dar a conhecer o processo criativo, que resultou num espetáculo inesquecível.
Sabemo-lo agora de regresso a São Pedro da Cova, onde, em 1974 e 1975, andara a filmar as experiências de organização popular promovidas por alguns dos mais ativos representantes dos mineiros, que tinham ficado desempregados cinco anos antes por fecho inopinado das minas de carvão.
O filme agora anunciado - «Do Carvão aos Resíduos» - não só pretende fixar a memória dos sobreviventes do período em que toda a aldeia funcionava em torno da atividade mineira, mas também denunciar as consequências de uma exploração, que não acautelou o desastre ambiental, que dela ainda é testemunho. 

(DL) Recordar Gabo: Um dia depois de sábado (1)

Quase a acabar o ano de 1953, Garcia Marquez escreveu um conto num impulso, que o fez ir de fio a pavio no mesmo fôlego: «Um Dia depois de sábado» é a história de um fenómeno insólito passado numa vila onde o calor mata inúmeros pássaros.
Como sucederia com toda a sua obra posterior, logo no primeiro parágrafo, é-nos prodigalizado um conjunto de informações importantes para entrarmos facilmente no que se seguirá:
“A inquietação começou em julho, quando Rebeca, uma viúva amarga, que vivia numa mansão enorme com dois corredores e nove quartos, descobriu os vidros das janelas partidos como se os tivessem apedrejado da rua. Começou por constatar a ocorrência no seu próprio quarto e pensou chamar a criada Argénida, também sua confidente desde a morte do esposo. Foi depois de apanhar os cacos - e durante um bom bocado não fez senão isso! - que viu ter acontecido o mesmo com as demais janelas da mansão.
A viúva tinha um sentido muito forte da autoridade, herdado talvez do bisavô paterno, um crioulo que combatera ao lado dos monárquicos durante a Guerra da Independência e encetara depois uma penosa viagem a Espanha para visitar o palácio mandado construir por Carlos III em San Ildefonso.
Foi ao constatar o estado das outras janelas, que esqueceu a intenção de apelar a Argénida , pegando no chapéu para se dirigir à Câmara e queixar-se do atentado. Mas, ao chegar ali, deu com o presidente em tronco nu, peludo e com uma solidez que lhe pareceu bestial, a reparar as janelas do edifício, tão danificadas como as suas.”
No ano seguinte  decidiu apresenta-lo num concurso organizado pela Associação Nacional de Escritores e Artistas Colombianos.
A 30 de julho de 1954 o júri atribuiu-lhe o primeiro prémio de entre os 46 textos em competição.  Seria a sua primeira de entre muitas consagrações, que receberia ao longo do percurso literário. E a Editora Minerva de Bogotá logo o incluiria num livro intitulado «Três Contos Colombianos», que associava o dele ao dos autores, que tinham recebido o segundo e o terceiro prémio: Guillermo Ruiz Rivas e Carlos Arturo Truque.
No seguimento da estória a viúva não consegue que o autarca lhe aceite a queixa, porque, segundo ele lhe conta, as casas da vila andam há três dias a serem invadidas por pássaros moribundos. Explicava-se, assim, que, no escritório da câmara, tivesse visto acumulados tantos pássaros mortos.
“Quando abandonou o edifício, Rebeca sentia-se envergonhada. Mas também algo ressentida com Argénida, que lhe levava todos os boatos da terra e lhe tinha escamoteado essa informação. Abriu a sombrinha, encadeada pelo brilho do iminente agosto e, enquanto palmilhava a rua escaldante e deserta, teve a impressão de que todas as casas exalavam um forte e penetrante cheiro a pássaros mortos.”
Antonio Isabel del Santísimo Sacramento del Altar Castañeda y Montero, o nonagenário padre da igreja local, fora dos primeiros a dar com dois pássaros mortos: o primeiro na terça-feira na sacristia, o outro no dia seguinte na residência paroquial. Apesar de afiançar já ter visto o diabo por três vezes, ele atribuiu aos gatos a razão de ser dos seus achados. E pensou que, num mundo perfeito, os gatos não deveriam existir.
No dia seguinte deu com outro pássaro morto na estação ferroviária e a convicção quanto à causa vacilou. Percebeu que algo de estranho se estava a passar com os pássaros, mas considerou o assunto pouco importante para que justificasse um sermão.
No próximo texto iremos continuar a abordar o talento com que Gabriel Garcia Marquez, neste seu primeiro texto premiado, desenvolve a intriga.

sexta-feira, abril 21, 2017

(DIM) «11 minutos» de Jerzy Skolimowski (2015)

Um encontro fatal para onze personagens de que acompanhamos os onze anteriores minutos antes de tudo acontecer. Tal é o tema deste virtuoso exercício narrativo do realizador polaco capaz de desenvolver em crescendo a tensão dramática antes do final absurdo.
No seu filme anterior - «Essential Killing» - Skolimowski acompanhava diversos grupos de perseguidos a um trânsfuga taliban. Agora opera um exercício contrário com onze personagens, um deles um cão, a serem seguidos pela câmara nos onze minutos, que faltam para virem a ser coletivamente afetados por um acaso fatal.
Cada um sugere uma dependência obsessiva, positiva ou negativa, que convergirá para a sua perda: o ciúme, a toxicomania, o roubo, a pedofilia…
Temos garantida uma multiplicação de perspetivas com recurso a diversos suportes de imagem, que vão da câmara convencional à de vigilância passando pelo telemóvel.
Cada personagem funciona no seu próprio ritmo, ora dilatado, ora contraído nos mesmo onze minutos, consoante o que o ocupa. Se dividíssemos o ecrã em onze painéis e víssemos a ação decorrer distintamente em cada um deles, poderíamos ter o filme a durar apenas os onze minutos de cada uma das partes. Tudo consagrado com um humor absurdo, mas ao mesmo tempo desesperado, que lembra Polanski...
No início temos os relógios a assinalarem as 17 horas e vemos uma atriz a ter um encontro com um realizador. O marido tenta avisá-la que tomou soporíferos por engano e dirige-se ao hotel onde a poderá encontrar. Um vendedor de cachorros quentes, em liberdade provisória, é abordado por uma rapariga, que lhe cospe a cara. Uma outra jovem reencontra o ex-namorado depois da sua tentativa de suicídio e do incêndio do apartamento. Ele pretende restituir-lhe o cão.
Incumbido da limpeza da fachada do hotel um homem espreita a companheira num dos quartos a ver o filme pornográfico onde contracena. Um dealer cocainómano escapa à polícia e prepara-se para entregar as suas encomendas. Uma equipa de assistência médica vence a resistência de vizinhos recalcitrantes e presta apoio ao parto de uma mulher. Um rapaz tenta assaltar uma loja de penhores dando com o cadáver do seu dono. Apanha o autocarro com um velho, que se dedica à pintura como amador.
Dez minutos passados o marido força a porta do quarto do realizador.  A varanda cede ao assalto, o realizador cai, fazendo com que caia um andaime e o seu ocupante. Uma conduta de gás explode à passagem da ambulância, obrigando-a a chocar com o autocarro, onde seguem o ladrão e o velho pintor, que, por seu lado, esmaga o vendedor de cachorros e o filho, o dealer. O marido não consegue agarrar a mulher, que também cai. A jovem e o seu cão são quem escapam ...
 

quinta-feira, abril 20, 2017

(AV) Os mortos e torturados, que não devemos esquecer

Ao enfatizar a importância da exposição, agora inaugurada no rés-do-chão do Torreão Poente da Terreiro do Paço, o curador  Diógenes Moura lamenta o quão desconhecida é a Operação Condor nos países latino-americanos onde ela se concretizou. Muitos brasileiros, argentinos, uruguaios, chilenos, bolivianos ou paraguaios desconhecem que, nos anos 60, a CIA chamou à sua sede em Fort Langley os principais militares dos respetivos países para com eles concertar o combate comum aos regimes e aos movimentos insurrecionais conotados com as esquerdas.
Allende, Che Guevara ou Victor Jara são apenas algumas das principais vítimas desse projeto assassino. Dilma Roussef também lhe sofreu os efeitos, como foi lembrado por aquele energúmeno que, ao votar a sua destituição, aproveitou para saudar o sinistro torturador, que tanto sofrimento lhe havia infligido.
A Operação Condor é um dos melhores exemplos sobre a persistente atividade da CIA para promover ações de permanente enfraquecimento dos regimes, que mais assustem os especuladores de Wall Street. Não é preciso ser um Einstein para adivinhar a sua presença nas «Primaveras árabes», que derrubaram ditadores laicos do mundo árabe, mesmo que deixando de herança um caos propício ao crescimento do terrorismo jihadista.
Quase por certo foi a CIA quem promoveu o mais recente bombardeamento com gás sarin na Síria de modo a acusar Assad e fragilizar ainda mais o seu regime. Há dedo da CIA em Moscovo e São Petersburgo, nas manifestações destinadas a enfraquecer Putin. E há por certo muitos conselheiros da agência na retaguarda dos Capriles venezuelanos para derrubarem de vez o já atarantado poder de Maduro.
Por muita piada, que achemos aos romances de John Le Carré ou aos filmes dele derivados - ou a coisas mais sinistras como a da série «24», que andou anos a entusiasmar uns quantos ingénuos - a espionagem continua omnipresente para impor uma «pax americana» a todos os continentes. E comporta sempre muitíssimas vítimas, algumas sem sequer perceberem como se viram subitamente acusadas de crimes, que nunca poderiam imaginar ter cometido. Continuam a funcionar prisões secretas onde quaisquer resquícios de direito à justiça é totalmente negado.
Dirão uns quantos, que também os russos, os chineses e outros países têm os seus espiões. Até Portugal os tem, embora pelo exemplo do que anda por aí a ser julgado nos tribunais, parecessem mais interessados em garantir os seus próprios interesses, que os do país para o qual deveriam supostamente espiar. Mas mesmo os russos, que ganharam alguma capacidade em livrarem-se dos opositores do Kremlin no estrangeiro, não conseguem causar os danos dos promotores da Operação Condor. Porque, desde início, eles pretendiam derrubar governos,  torturar e assassinar opositores e impor políticas diretamente ditadas pelos gurus da escola de Chicago.
É por isso que a exposição de João Pina deve ser amplamente divulgada e visitada. Porque não se tratam tão só de excelentes fotografias: estão lá os que desapareceram, as famílias que nunca os esqueceram, os que torturaram e mataram, os que se exilaram e salvaram, bem como as paisagens belas, aparentemente inofensivas à primeira vista, mas que escondem homicídios indesculpáveis, que nunca deveremos esquecer.
Deixo para o fim uma experiência pessoal sobre o meu contacto com esses anos de chumbo no subcontinente latino-americano: em Buenos Aires o paquete onde então viajava ficou atracado num cais em que, no percurso para o centro da cidade, se era obrigado a passar em frente de um dos mais sinistros centros de tortura da ditadura dos generais: a Escola de los Mecanicos de la Armada.
Em cada um dos topos dessa longa avenida existiam avisos bem explícitos: se não quiséssemos arriscar um tiro deveríamos nela transitar sem parar um momento sequer e quanto a fotografias, nem pensar em tirar a máquina do estojo em que, porventura, a transportássemos.
Sentia-se a ameaça latente e, sobretudo, a nossa inquietação quanto à possibilidade de, nesse preciso momento, estarem ali a serem seviciados muitos dos que teimavam em dizer não.
A Operação Condor espelha a ainda persistente injustiça de, aqui em Haia donde escrevo, só serem julgados e condenados alguns crápulas sem grande importância. Quanto aos grandes criminosos das últimas décadas, ninguém os fez comparecer em nenhum tribunal como o que, em Nuremberga, fez justiça aos do regime nazi.

quarta-feira, abril 19, 2017

(DIM) Os irmãos Coen em registo burlesco

Ultimamente tenho tido para os filmes dos irmãos Coen a mesma reação que me têm merecido os mais recentes títulos de Woody Allen: bem construídos, com um conjunto significativo de atores e atrizes conceituados (alguns deles quase cingidos a papéis, que só não são cameos, porque vêm creditados no genérico!), mas incapazes de me entusiasmarem.
Em «Salvé César» há excelentes momentos de cinefilia, mormente quando se incluem cenas de westerns, as coreografias aquáticas de Busby Berkeley, os musicais ou os melodramas, que eram produzidos como pãezinhos pelos estúdios de Hollywood nos anos 50.
Aquela em que uma vedeta apanha a boleia de um submarino soviético ao largo de Santa Mónica também consegue mimetizar o tom épico dos filmes heroicos da Mosfilm, mesmo que não destoe do registo burlesco de todo o filme. Que é uma sucessão de sketches sobre a vida de um diretor de estúdio obrigado a resolver mil e um problemas durante o espaço de um dia: a incompatibilidade de um cowboy cantor com os papéis dramáticos a que o querem obrigar; o rapto do protagonista de um filme bíblico (Clooney em versão estarola); a gravidez de uma atriz particularmente frívola (Scarlett Johansson quase irreconhecível), o assédio das autoras das colunas de mexericos; sem esquecer o convite da Lockheed para mudar de emprego.
Como não concordar com quem viu neste filme uma homenagem falhada à indústria do cinema dos anos 50? Haveria tanto por onde pegar para abordagem séria, não apenas destinada a criar um divertimento para espectadores tontos..

terça-feira, abril 18, 2017

(EdH) Quem se deixa ultrapassar pelo progresso...

Estive apenas umas horas na Dominica em ano de viagens particularmente exaltantes, porque levei umas boas semanas a aportar a quase todas as ilhas do mar das Caraíbas. Ficou-me a faltar uma, aquela que mais interesse me despertava, Cuba, um mistério apenas vislumbrado à distância. Mas a circunstância de falhar os sítios incluídos na lista dos meus destinos preferenciais foi regra verificada noutras latitudes: percorri toda a costa oriental dos Estados Unidos e não consegui passar uma noite a ouvir o típico jazz da Bourbon Street em Nova Orleães, dela mais não me aproximando do que de Pascagoula, no vizinho Estado do Mississípi. Não foram poucos os portos chineses por que passei e, no entanto, de Macau ficou-me tão-só a imagem distante facultada de Hong Kong, vendo os jetfoils a voarem acima da planura aquática na direção desse mítico espaço, que me permaneceria desconhecido. Na África Oriental vi o forte de Mombaça, as quase submersas ruas das Maldivas, a lindíssima praia de Praslin nas Seychelles, os lémures de Madagascar ou a degradada, mas lindíssima arquitetura de inspiração árabe, da ilha de Zanzibar. No entanto Moçambique ficou-me vedado tanto mais que, na altura de tais navegações, os criminosos da Renamo punham o país em polvorosa. Os turistas suíços que, no inverno do hemisfério norte, costumavam afretar o navio de que era tripulante, revelavam-se, ano após ano, ousados nos sucessivos programas, mas não ao ponto de arriscarem sítios onde uma qualquer bala perdida os pudesse alvejar.
Mas voltando à ilha das Antilhas sobre a qual vi hoje curiosa reportagem, assinalo nela terem-me ficado invisíveis os índios kalinagos, que descendem das populações encontradas por Colombo quando ali aportou no século XV. Mais ainda, essa população pré-colombiana dominava o comércio de toda a região caribenha e de apreciável faixa costeira da atual América do Sul, porque possuía a arte de construir um tipo muito específico de canoa, quase considerada insubmersível.
A arte de as construir continua a ser transmitida de geração em geração justificando ritos específicos desde a escolha da árvore da floresta destinada a ser trabalhada até ao momento de se lançar à água a nova embarcação.
Até Colombo trazer novos saberes e tecnologias, os kalinagos eram uma das tribos mais ricas da região graças à facilidade com que promoviam as trocas de mercadorias entre as várias outras com que comerciavam. A chegada desses navegadores desconhecidos precipitaria a inevitável decadência. O que não deixa de ser uma metáfora eloquente para quem se cristaliza no que pensa ou faz, inevitavelmente marginalizado pelos que sempre procuram novas ideias e meios de produção. Porque, hoje em dia, até na sua própria ilha, os kalinagos estão cingidos a uma exígua reserva de quinze quilómetros quadrados onde só podem explorar o lado folclórico do que, no passado, fora a força de pujante economia.


segunda-feira, abril 17, 2017

(DL) As leituras que me andam a acompanhar

Ainda adolescente apanhei em casa alguns exemplares de uma coleção de livros de bolso, que muito me seduziram: sem serem calhamaços, deixavam-se transportar facilmente para serem lidos onde os dias nos conduzissem, e tinham por autores alguns dos maiores escritores do século XX. O meu primeiro Steinbeck lembro-me de o ter lido nessa coleção Miniatura, cujas capas tinham ao meio uma ilustração de nomes importantes do nosso meio artístico como era o caso de Bernardo Marques.
Recentemente surgiram nos escaparates os livros da segunda série de tal proposta, aparentemente apostada em facultar propostas literárias excelentes por custo reduzido, subordinando-as ao mesmo formato e estética da capa.
Os primeiros títulos foram excelentes descobertas: «A Louca da Casa» é uma abordagem muito inteligente sobre o ofício do escritor redigido com a habitual capacidade de Rosa Montero para ir dialogando com o leitor. «Soldados de Salamina» põe o narrador a investigar a estória ambígua de um franquista escapado de um pelotão de fuzilamento e é toda a evolução do franquismo, que se vê analisada pela escrita de Javier Cercas.
Surgiu depois «A Um Deus Desconhecido», que continua a ser um dos mais bem amados romances de Steinbeck, e, nos últimos dias, «Novela de Xadrez» de Stefan Zweig.
Para as presentes férias holandesas trouxe dois destes títulos: o de Cercas, que me está a dar um enorme prazer na leitura e o de Zweig, que me aguça a curiosidade por se tratar do seu livro derradeiro antes de se entregar à morte, em cumplicidade com a esposa, ambos apostados em livrarem-se de um mundo segundo eles condenado a cair nas teias sinistras do nazismo.
Essa derradeira obra seria concebida e acabada em Petrópolis, a cidade onde o escritor viveu exilado os últimos anos de vida, depois de escapar da Europa em 1936.
Pelos escritos dessa época a chegada à baía de Guanabara enchera Zweig de esperançosa alegria.
Ele era na época um dos mais bem sucedidos autores mundiais, com as obras largamente traduzidas em muitas línguas e publicadas em todos os continentes.
Excelentemente recebido pelos intelectuais do Rio de Janeiro, o exilado austríaco não seria sequer molestado pela polícia política do Estado Novo, que sentia uma empatia indisfarçável com Mussolini e com Hitler.
Nos primeiros meses de estadia nas terras de Santa Cruz, o casal Zweig viaja pelo seu litoral, deixando-se cativar pela Bahia de Todos os Santos, cuja mistura exótica entre a arquitetura lusitana e a negritude dos antigos escravos constituiu cocktail tão aliciante, que a hipótese de ali se radicarem chegou a ser ponderada.
A opção seria, porém, a pequena cidade de Petrópolis pela sua semelhança com o país natal, que tinham deixado para trás. De facto, ela fora construída a mando do Imperador Pedro II como local de vilegiatura para a esposa, uma princesa oriunda da corte dos Habsburgos.
Não terá sido escolha asizada, porque o ambiente era muito fechado, sem grande convívio entre os vizinhos. Razão para Zweig ter aprofundado a sua característica depressão e ganhar ansiedades suicidas.
«Novela de Xadrez» espelhará por certo essa sensação de sentir o abismo bem próximo ao ponto dele se tornar irresistível.
À distância Zweig e Virginia Woolf são dois exemplos de escritores que, relativamente a recato do conflito, que grassava a nível mundial, terão insensatamente cedido ao desespero, quando afinal a derrota dos fascismos já se prefigurava...

(AV) A nostalgia dos paraísos perdidos

Terão sido muitos os sítios onde vi expostas as obras escultóricas de Alberto Carneiro. Tão-só surgiam e logo lhes identificávamos a autoria, tão singular era a estética conceptual do artista agora desaparecido. Mais do que o seu aspeto formal, elas desafiavam-nos para as intenções filosóficas de quem as concebera.
Mas de todas as exposições em que pude apreciar-lhe as obras, quase todas tendo a presença da natureza sob a forma de troncos, ramos, folhas, a que melhor nos fica na memória foi a que esteve disponível no Palácio da Cerca em Almada há não muitos anos.
O espaço em si era propício para os propósitos do autor: perante o rio e a capital, os jardins cuidados projetam-nos para outros ritmos de vida mais propícios à contemplação, ao questionamento da nossa excessiva rendição aos aspetos mais betonizados das nossas urbes. As atávicas emoções oriundas do passado rural como que voltavam a ressoar sob a forma de inexplicável nostalgia.
No primeiro andar de uma das alas do edifício lá se enfileiravam as várias esculturas do artista, a dar-nos a demonstração plena como a land art não necessita de se cingir aos espaços naturais, onde tem conhecido as suas expressões mais exuberantes, podendo também impor-se num espaço fechado por paredes e teto. Sobretudo, porque as janelas abertas propiciavam o convívio com jardim ali ao lado. A sensação era a de nos abstrairmos dessa clausura para imaginarmos ali presentes os bosques e florestas donde muitos dos materiais esculpidos provinham.
Na morte do escultor importa sublinhar a admiração suscitada pelo improvável percurso de um miúdo nascido em famílias humildes, que o terão posto como aprendiz de santeiro numa oficina vocacionada para adornar altares das igrejas do norte do país, e cujo talento justificou uma tal evolução que, após uma bolsa em Inglaterra, o converteria num dos mais admiráveis artistas da sua geração.

domingo, abril 16, 2017

(DL) A viagem a Itália de Goethe

É comum o desejo de liberdade em todos escravizados pelos horários de trabalho. Quando andava a bordo ansiava pelo reencontro com a família tão só regressasse a casa. Depois, já sedentarizado na capital, almejava pela reforma, período para ver tantos filmes quanto desejasse, ler todos os livros até então adiados, comparecer nos melhores concertos do CCB ou da Gulbenkian e não falhar exposição merecedora de atenção. Passeando muito, visitando tudo quanto ficara remetido à fórmula «havemos de lá ir…»
Doce ilusão, porque a disponibilidade não chega para tanto e sobram sempre coisas por fazer, tanto mais que os dias escoam-se com tal velocidade que, apenas começados, logo parecem esgotados.
Goethe terá sido um dos exemplos mais conhecidos de quem levou a peito a decisão de romper com todos os compromissos e dedicar quase dois anos de vida a fazer o que mais lhe aprazava: viajar por Itália.
Aconteceu-lhe quando estava a fazer 37 anos e acabara de acompanhar o duque de Weimar à habitual temporada nas termas de Carlsbad. Na madrugada do dia em que a corte regressaria à capital o enfadado ministro partiu sem explicações, tomando o rumo há muito gizado.
A primeira escala seria Veneza, cidade fascinante que admirou pelas cores admiradas a partir das alturas do Campanile e com um céu de tonalidades diversas, que sublinharia depois nos seus textos. Mas se a descoberta começou pelos muito frequentados labirintos entre a Praça de São Marcos e o Rialto, com paragem obrigatória no já então existente mercado do peixe, Goethe depressa concluiria o mesmo que os maiores apreciadores da cidade: o sortilégio está na permanente descoberta das perspetivas inesperadas de cada esquina ou nos pequenos largos, onde se vão descobrindo igrejas e capelas surpreendentes, tão-só se abandone o bulício das filas de turistas e se arrisquem os dédalos mais periféricos.
Quando tomou a decisão de partir para Roma, Goethe ainda não imaginava o quão difícil se revelaria a viagem de diligência para lá chegar. Passando por Verona, Pádua, pelas sulfurosas margens do Lago Garda, por Assis e Florença que, inexplicavelmente, não o atrai para mais do que justificada estadia. Sessenta e cinco morosos dias até se confrontar com a arquitetura monumental da cidade eterna, onde se sentiria verdadeiramente ressuscitar a partir de algo de inexplicavelmente cristalizado até então. O viajante sentiu-se aligeirado ao percorrer as sendas verdejantes entre as sucessivas cascatas do Tivoli e concluiu nada doravante vir a ser como até então lhe acontecera.
Foi também em Roma, que sentiu justificada a opção de se ter constituído viajante clandestino, porque o suicídio do seu Werther ainda continuava abominado pelo Vaticano, que integrara o romance no seu sinistro índex. Só os amigos da reduzida comunidade germânica na cidade sabem quem ele é, e um deles, Johann Tischbein, até o reproduz num dos mais celebrados quadros que nos dão dele uma aproximada semelhança. Há também quem refira a ligação amorosa com uma mulher casada sete anos mais velha, Charlotte, mas ficaria a dúvida sobre se se trataria de empatia mais do que platónica.
Nápoles constituiu-se como escala seguinte. Escalou três vezes as encostas do Vesúvio, então em grande atividade vulcânica, para sentir o deslumbramento do impacto das forças telúricas escondidas debaixo dos seus pés. O perigo em que incorre é sério, porque chega a sentir a temperatura abrasadora da lava e quase é atingido pelos materiais projetados a partir da caldeira.
Pompeia foi outra visita memorável para testemunhar os efeitos terríveis da Natureza indomável, mas igualmente a nostálgica beleza dos frescos das casas durante séculos soterradas.
Mas a cidade à beira do vulcão encantou-o, sobretudo, pela suposta dolce vita. Contrariando a soturnidade dos romanos, os napolitanos desvendam-se ao viajante como um povo alegre e descontraído, mediterrânico quanto baste para o pôr a atentar-lhe nos gestos, nos comportamentos.
Goethe ainda visitará a Sicília, mas com o regresso a impor-se-lhe no íntimo como obrigação: é que viveu tanto, que é tempo de contar tudo quanto conheceu. Não só no registo autobiográfico, mas também em romances e poemas, que consubstanciariam a essência do romantismo.
Chegado a Weimar , o soberano não mostrou despeito com a falta de consideração do ministro, que zarpara sem lhe dar qualquer explicação. Complacente, manteve-o como conselheiro incumbido de menor carga de compromissos oficiais, dando-lhe enfim a quietação necessária para que viesse a desenvolver o talento literário. E científico, porque, embora menos conhecida tal vertente da obra, ele assinou alguns tratados científicos com tudo o que as viagens lhe tinham dado a conhecer nas áreas da botânica, da anatomia e da cor. 

sábado, abril 15, 2017

(AV) Na terra de Donald Judd

Marfa é uma localidade situada a meia hora de El Paso, uma das mais conhecidas cidades texanas. Foi nela que Donald Judd encontrou refúgio misantropo para se afastar do bulício cosmopolita para que o tendia a atrair a sua condição de artista minimalista em ascensão no mercado da arte.
Até à sua morte inesperada em 1994 foi no espaço aberto da planura envolvente, que conjeturou as suas obras escultóricas de uma simplicidade austera, porque pensadas para não estimularem em função das suas cores, formas ou matérias, mas para interagirem com todo o espaço envolvente. Por isso tratavam-se de «conceitos» sem qualquer intenção de virem a ser comercializados, porque gigantescos na dimensão e elaborados quase sem a intervenção ativa do artista na sua concretização, porque eram encomendadas a fábricas, depois incumbidas de as virem montar no local designado, aí sim com o acompanhamento final de quem as imaginara.
O que Judd não previra foi a reviravolta verificada nesse mercado da arte, com a chegada de clientes mais preocupados em comprarem obras de artistas conceituados do que em pensarem-nas numa lógica de comissariado para os seus próprios espaços ou coleções.
Surpreendentemente até as mais desproporcionadas esculturas de Judd passaram a integrar os mais conceituados leilões de arte contemporânea.