terça-feira, maio 31, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Nove Dias de um Ano» de Mikhail Romm

Compreendo que, em 1962, quando este filme foi rodado, ele tivesse uma missão propagandística compreensível: estando a União Soviética em disputa com os Estados Unidos na corrida aos armamentos, importava dar para o exterior uma imagem humanista do que se passava na célebre cidade científica siberiana onde se preparavam os novos saltos tecnológicos da superpotência comunista. Por isso os cientistas aqui representados são pessoas íntegras, cujo esforço mais não visa do que impedir o imperialismo norte-americano de dominar todo o mundo. Pelo meio revelam-se esforçados, se não mesmo obcecados, com o seu trabalho, mesmo que á custa da felicidade pessoal.
No entanto, mais de meio século entretanto decorrido, ele surge-nos tão datado, que vê-lo suscita interesse histórico, mas à custa de algum tédio. Daí que, dos filmes já vistos no Ciclo do Cinema Soviético, atualmente em curso no Nimas, é o mais fraco.
A história é simples: Dmitri Gusev e Ilya Kulikov são dois amigos, que procuram descobrir o fenómeno termonuclear, mesmo sujeitando-se a exageradas exposições a materiais radioativos.
Sabem bem o que arriscam, porque o professor Sintsov, uma espécie de mestre dos dois, morrera depois de uma dose mortal de radiação, que também incidira parcialmente em Gusev. Por isso os médicos alertam-no para a possibilidade de não sobreviver a uma repetição desse incidente.
Surgem, entretanto, complicações amorosas: Lolya, a namorada de Ilya, está verdadeiramente interessada em Dmitri e acaba por convencê-lo a desposá-la. Mas não se trata de um enlace feliz: em vez de se dar às alegrias românticas, Dmitri passa cada vez mais tempo no laboratório à procura da descoberta científica, que possa reequilibrar a disputa entre a URSS e os EUA.
Se Ilya se distanciara depois de perder a ex-namorada para o amigo, regressa quando este lhe pede, porque carece dos seus conhecimentos teóricos.
A experiência de Gusev acaba por ser bem sucedida, muito embora não diretamente no sentido, que ele pretendera. Mas, nessa altura, já está tão doente, que só pode acompanhar os desenvolvimentos avançados por Ilya com a colaboração de Lolya.
Em desespero de causa decide exigir que lhe façam o transplante à medula óssea, que só fora ensaiado em cães. E o filme conclui-se sem ficarmos a saber se a cirurgia do dia seguinte terá resultado ou não.


DIÁRIO DE LEITURAS: «Noites de Cocaína» de J.G. Ballard (V)

Poderá alguém ser suficientemente manipulador, que altere completamente os objetivos e os próprios valores de alguém, que chega a um espaço desconhecido e nele se tenta adaptar?
Chegados ao último terço do romance de J. G. Ballard o tema principal clarifica-se cada vez mais. Como é possível abandonarmos os nossos escrúpulos e sermos muito diferentes do que fomos até aí?
Trata-se de um tema pertinente ou não assistamos com demasiada frequência à assunção de comportamentos e ideias, que reputaríamos repugnantes, mas facilmente integráveis num imaginário coletivo. A tal psicologia de massas, que redundou em diversos regimes fascistas e a quem o psicanalista Wilhelm Reich deu particular atenção.
Pouco a pouca a aparência de normalidade em que os dias pareciam passar-se em Estrella de Mar começa a revelar o seu lado sombrio: Bibi Jansen, a antiga toxicómana, que encontrara abrigo na mansão Hollinger, estava grávida de Bobby Crwford, que se confirma ser o sol reluzente à volta do qual todos parecem rodopiar. Até chamuscarem as asas e tombarem. Até mesmo Andersson, que trabalha na manutenção dos barcos na marina e a amava, e só pode culpabilizar-se por não a ter conseguido salvar.
Mas Charles também cai nesse redemoinho, que a todos fascina ou intimida, quando não mesmo mistura em cada uma das duas reações: levando-o num passeio a Costasol, Bobby Crawford fá-lo encontrar o tipo de ambiente anteriormente existente em Estrella de Mar quando ainda ali não aplicara a sua “receita”.
“Os residentes de Costasol, como os dos aldeamentos de reformados ao longo da costa, tinham-se retirado para as suas salas escurecidas, os seus bunkers panorâmicos, precisando apenas daquela parte do mundo exterior que lhes chegava destilada do céu via antenas de televisão. Vazios ao sol, o clube de desportos e o Centre Social, como as restantes amenidades introduzidas no complexo pelos consultores suíços, pareciam os adereços abandonados de um filme cuja produção fora interrompida.” (pág. 204)
A razão do passeio, que o levara a rejeitar o convite de Paula para acompanhá-la na visita ao irmão no cárcere, depressa se esclarece: tal como Frank fora muito útil para transformar Estrella de Mar desse mesmo marasmo no aldeamento vibrante e convivencial em que se tornara, a intenção de Bobby Crawford é convencer Charles para que aceite a mesma função de gestor do Clube a partir do qual toda a animação futura daquele espaço irradiará.
“Podemos falhar, mas vale a pena tentar. A Re­sidência Costasol é um cárcere, nem mais nem menos do que a prisão de Zarzuella. Estamos a construir prisões por todo o mundo e a chamar-Ihes condomínios de luxo. E o espantoso é que as chaves estão todas do lado de dentro. Eu posso ajudar as pessoas a rebentar as fechaduras e voltar ao mundo real. Pense, Charles... se resultar, pode escrever um livro a respeito disto, um aviso ao resto do mundo.” (pág. 207)
Quando Paula toma conhecimento dessa possibilidade alerta Charles: será um ingénuo se acreditar que aceitando o emprego chegará mais facilmente à descoberta do que esteve por trás do incêndio da mansão e do aprisionamento de Frank. Até mais: classifica-o de cego perante as movimentações, que se estão a passar-lhe à frente do nariz sem que delas se aperceba.
Mas mesmo sabendo-o um criminoso - não sobram dúvidas quanto a quem quase o estrangulou no apartamento de Frank - Charles não consegue resistir à capacidade persuasiva de Bobby, quando ele lhe diz: “Preciso de si, Charles... É difícil fazer isto sozinho. A Betty Shand e o Hennessy só estão interessados no dinheiro. Mas o Charles consegue ver para lá disso e descobrir um horizonte mais vasto. O que aconteceu em Estrella de Mar vai acontecer aqui, e depois vai alastrar costa abaixo. Pense em todos aqueles aldeamentos a voltarem à vida. Estamos a libertar as pessoas, Charles, a devolvê-las aos seus verdadeiros eus.” (pág. 226)

segunda-feira, maio 30, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «A Pide antes da Pide» de Jacinto Godinho

A RTP encontrou forma adequada de comemorar a passagem de mais um aniversário sobre o golpe, que esteve na origem da ditadura do Estado Novo, com a estreia da sua série dedicada à História da Pide, um excelente trabalho surgido de anos de investigação levado a cabo por Jacinto Godinho. Uma vez mais, e se ainda tal fosse necessário, fica demonstrada a superioridade do serviço público na produção e exibição de uma programação de qualidade, capaz de informar e cultivar, em vez de embrutecer como é apanágio das estações privadas. Soubesse a RTP resolver a lamentável parcialidade dos seus telejornais e teríamos de reconhecer a sua efetiva importância na consciencialização dos portugueses quanto à sua identidade e aos seus verdadeiros interesses.
O início, porém, levou-se a julgar que  iria ver mais do mesmo, quando assistimos ao reencontro de Edmundo Pedro com João Silva, ambos a evocarem o dia em que foram presos, denunciados sabe-se lá por quem. Mas era só o ponto de partida para a demonstração da tese de ter existido um regime, que fundamentava a sua força na exploração de uma rede de denunciantes.
Apressadamente julgara-me perante mais um exemplo daquele tipo de documentários em que se dá a voz aos protagonistas e se julga cumprido o dever de análise daquilo que viveram. É o que sucede noutra série, em exibição na RTP 2 - «Estórias do tempo da Outra Senhora» -, que se revela muito desigual consoante a capacidade oratória dos protagonistas. Excelente, por exemplo, no episódio com o historiador Borges Coelho, mas de interesse bem mais limitado quando se tratou de evocar as tipografias clandestinas ou os médicos que cuidaram do moribundo Salazar.
Na série ontem estreada, porém, os testemunhos de alguns entrevistados ficaram subalternizados pelas imagens de arquivo., que permitiram o enquadramento da história sinistra da polícia política do regime. E esta decorre de uma tradição antiga, iniciada com os delatores dos tempos de D. João II e continua sucessivamente com a Inquisição, o Marquês do Pombal, Pina Manique e a polícia a soldo da ditadura de João Franco.
“Protagonista” deste episódio, o capitão Agostinho Lourenço correspondeu à típica eminência parda, que costuma acolitar todos os ditadores e se escondem no manto de secretismo, onde apreciam resguardar-se. Por vezes são mais do que um, como sucedia com Salazar, bastante menos autossuficiente do que gostava de aparentar pois contava com esse tipo de colaboradores para se incumbirem por ele das tarefas sujas, que sabia fundamentais para a sustentabilidade do regime.
Nascido numa família de aristocratas minhotos, o futuro criador e fundador da Pide passara a Primeira República a combater carbonários e a envolver-se em golpes fascistas e monárquicos (o de Sidónio Pais, o da Monarquia do Norte e o do 28 de maio de 1926). A ida forçada à guerra de trincheiras da Primeira Guerra resultara de um castigo disciplinar relacionado com essa atividade conspirativa, que não estancaria com a implantação do Estado Novo, porque seria ele a conceber todo o aparelho repressivo da ditadura assente em agentes especializados no combate ao comunismo e a outras formas de oposição, em denunciantes encapotados, que alertassem para os mínimos focos de contestação, e para as prisões em que seriam agrilhoados, senão mesmo assassinados - como no Tarrafal - os mais perigosos inimigos do regime.
Logo ao primeiro episódio atrevo-me a considera r a série como de visão obrigatória...

SONORIDADES: O quinto andamento da «Missa Solemnis» de Beethoven

«Agnus Dei» é o quinto e último andamento da «Missa Solemnis» de Beethoven, aquele em que o compositor mais se dissocia do cânone estabelecido para este tipo de composições. Se nos andamentos anteriores estavam em evidência os sentimentos mais íntimos expressos de forma abstrata, aqui ele vai apostar na teatralidade e no secularismo.
Começa com a imploração do «Cordeiro de Deus», e a insistência repetitiva do «Miserere» sussurrado, que desliza depois para o «Dona nobis pacem» («Dai-nos a paz»). Mas não há aqui sombra da rotina cerimonial.
Existe uma declaração final afirmativa de todos os solistas, do coro e da orquestra, mas interrompidos pelos tambores e fanfarras de trompete. Quando tudo parece encaminhar-se para o final apoteótico, a orquestra estaca para uma fuga instrumental novamente sufocada pelos metais e pelas estrondosas percussões
Volta o tom calmo, mas segue-se-lhe a cadência final, quase militarista, a indicar a direção seguida pela humanidade. A influência para esta solução poderá ter sido a «Missa in Tempore Belli» de Haydn, composta, em 1796, quando Napoleão ameaçava Viena. Hospedado no palácio do príncipe Esterhazy, o compositor arriscara a utilização de trombetas e tambores, até então quase sempre excluídos de obras litúrgicas, para o apelo final, e quase desesperado pela paz.
Beethoven concebeu este andamento com tratando-se de uma «oração pela paz interior e exterior», que pretende significar quanto se está impedido da felicidade o que tiver a mente ocupada com as preocupações da guerra. Assim, só mediante a estabilidade social e política será possível alcançar a serenidade bastante para viver a experiência da fé. Em vez de uma meditação espiritual reconfortante, a missa levanta a ambiguidade da impossibilidade dessa busca interior… pelo menos nas circunstâncias políticas de então.
No link aqui proposto, o «Agnus Dei» é interpretado pela orquestra da Staatskapelle de Dresden sob a direção do maestro Christian Thielemann, e contando com Elina Garanca entre os solistas.

domingo, maio 29, 2016

DOCUMENTÁRIO: «Big Men» de Rachel Boynton

Quem conseguirá apossar-se do petróleo do Gana? O documentário de Rachel Boynton, aqui proposto, investiga uma luta impiedosa em que são protagonistas as companhias petrolíferas, os grandes bancos internacionais, os governos e as forças rebeldes.
Quando esse petróleo foi descoberto na zona costeira do país, o carismático líder da Kosmos Energy, uma PME de Dallas especializada na prospeção marítima, partiu à conquista desse país, até então sem qualquer historial em tal tipo de negócio. Apoiado em fundos especulativos - entre os quais a Blackstone, que faz figura de Goldman Sachs do setor - e beneficiando da confiança do governo de Acra, apontou para objetivos ambiciosos. Mas com a mudança do governo os investidores perderam a paciência perante a evidência de não virem a receber os esperados retornos.
Rachel Boynton começou a investigar a indústria petrolífera da África Ocidental em 2006. Nos seis anos seguintes conseguiu falar com todos os atores aí em cena, permitindo-nos entrar nos salões onde se encontram administradores das empresas com chefes de estado e nas selvas tropicais onde guerrilheiros andam a sabotar oleodutos.
O objetivo é esclarecer quem ganha com essa luta sem tréguas pelo controlo dos recursos naturais.
Em contraponto o filme apresenta uma visão pessimista do futuro, utilizando para tal o exemplo de um país vizinho, a Nigéria, onde a mesma indústria está implantada desde os anos 50.
Sessenta anos depois a população do país não beneficiou dos biliões de dólares de receitas do petróleo, que foram diretamente para os bolsos dos políticos, dos militares, dos administradores das empresas ou  dos que lhes serve de intermediários.
Algo afinal muito semelhante ao que podemos, igualmente, verificar em Angola com a corte do plutocrata José Eduardo dos Santos.

DIÁRIO DE LEITURA: «Noites de Cocaína» de J.G. Ballard (IV)

Retomo o romance, que Ballard escreveu em 1996, sobre um nómada dos tempos modernos, que se sedentariza na Costa do Sol para encontrar fundamentos para inocentar o irmão mais novo dos cinco crimes de que ele está acusado. No texto anterior deixei Charles Prentice a seguir aquele que constitui o seu principal suspeito: Bobby Crawford, um tenista, que é igualmente o grande animador de todas as atividades lúdicas em Estrella de Mar.
E, de facto, confirma facilmente ser ele quem controla os negócios da droga e da prostituição no aldeamento e quem rouba descaradamente as lojas e vivendas onde se introduz.
Discutindo essa evidência com o psiquiatra Sanger, cuja antipatia por Crawford estivera bem à vista no funeral de uma das vítimas, Charles ouve-lhe uma teoria surpreendente sobre o futuro das sociedades orientadas para o lazer, como então se prognosticava possível antes das crises financeiras verificadas já neste século:
“(…) o Crawford pode ter sido o salvador de toda a Costa del Sol, e até de um mundo muito mais vasto para além. (…) Os nossos governantes preparam-se para um futuro sem trabalho, e isso inclui os pequenos criminosos. O que nos espera são sociedades de lazer, como as que se podem ver nesta costa. As pessoas continuarão a trabalhar... ou melhor, algumas pessoas continuarão a trabalhar, mas apenas durante uma década das suas vidas. Reformar-se-ão antes dos quarenta, com cinquenta anos de ociosidade pela frente.
(…) No entanto, como activar as pessoas, dar-lhes um certo sentido de comunidade? Um mundo estendido de costas fica vulnerável a todo o género de predadores. A política é um passatempo para uma casta de profissionais e não consegue interessar a maior parte de nós. A fé religiosa exige um vasto esforço de empenhamento imaginativo e emocional, difícil de conseguir quando ainda se está zonzo do comprimido para dormir que se tomou na noite anterior. Só resta uma coisa capaz de mobilizar as pessoas, ameaçá-las directamente e obrigá-las a agir em conjunto.” (pág. 169)
São  várias as testemunhas a quem Charles consulta sobre Estrella de Mar antes e depois da chegada de Crawford e todas convergem para a mesma conclusão: ao ambiente pacato, em que os habitantes quase não comunicavam entre si, mantendo-se dentro das suas vivendas com piscina a ver televisão por satélite, sucedera-se um outro, bastante mais agitado, em que se tinham formado grupos de vigilantes para combater a delinquência e, criados tais laços, logo as aulas de ténis, de dança, de teatro e de muitas outras atividades de preenchimento dos tempos livres tinham esgotado as suas incrições. Porque, ameaçadas na sua solidão, os habitantes tinham sentido a vantagem de buscarem segurança na pertença ao grupo.
A ex-amante do irmão, Paula, que se torna também sua companhia de uma noite, alerta Charles para o facto dele estar a ficar perigosamente ligado àquele espaço, sentindo-o como o lar, que nunca conhecera, desde a morte da mãe em Riade, tinha ele 12 anos. De facto o fascínio por tal ambiente fragiliza-o, diminui-lhe as defesas para o que lhe irá acontecer no que resta do romance.

sábado, maio 28, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Amy» de Asif Kapadia

Foi um encontro, que nunca mais esqueceremos: tínhamos passado a manhã na Primrose Hill e no Regent’s Park, antes de irmos conhecer as salas atafulhadas de quadros e esculturas da Wallace Collection. O repasto fora num restaurante grego na Marylebone Road. Ao sairmos do restaurante foi a Elza a apertar-me a mão a assinalar-me  quem estava ali a passar por nós a alguns centímetros: Amy Winehouse com dois dos seus impressionantes guarda-costas passaram por nós e prosseguiram na direção de King’s Cross.
Como era esse o nosse sentido ainda a seguimos à distância suficiente para a vermos a caminhar algo desengonçada, a entrar numa loja e a dela sair, sempre acolitada pelos mesmos companheiros, até virarmos numa das transversais e ela prosseguir na mesma avenida.
Não podíamos imaginar que aquela rapariga, com a idade da nossa filha, estaria morta um ano depois, apesar de todos os escândalos de excessos de drogas e álcoois, que a comunicação social ia tão profusamente publicitando.
Embora a música mais próxima do rock - muito embora ela se enquadre preferencialmente no jazz - não seja há muito a nossa praça,  demos acrescida atenção ao que nos ia dela aparecendo circunstancialmente, e tornámo-nos admiradores da sua admirável voz.
Agora pudemos ver o filme de Asif  Kapadia com as cautelas de quem não gosta propriamente de exercer o mester de voyeur  das desgraças alheias. E ele não escapa a essa regra, muito embora cuide de ser diferente do habitual, com testemunhos, que raramente escapam ao registo de voz off sobre fotografias de a quem ela pertence, de forma a suscitar o efeito de algum distanciamento.
Amy revela ser mais um daqueles casos tão frequentes no mundo pop de um Ícaro tombado por se aproximar demasiado do Sol/sucesso e nunca encontrar defesas para evitar esse abrasamento.
Os homens - o pai, o marido - podem ter precipitado a queda no abismo, mas a adolescente Amy, já com as suas crises de bulimia, prenunciava uma deriva, que se revelaria incontornável. 

SONORIDADES: «Sanctus», o 4º andamento da «Missa Solemnis» de Beethoven

Ao abordar a «Missa Solemnis» de Beethoven, William Hess caracterizou-a como “uma avalanche lançada por uma partícula de poeira”.
Se tivesse cumprido a sua função litúrgica a Missa teria sido obrigada a conhecer grandes interrupções para a realização dos diversos rituais a ela associados, perdendo-se assim o seu impacto de ouvi-la de seguida.
Beethoven apoderou-se do texto, não como um dogma, mas como forma de questionar a contradição entre a infinidade de Deus e os limites tangíveis do Homem. Nesse sentido terá utilizada esta composição para resolver a crise de fé em que se via mergulhado e afirmar a forma como sentia mais sincera a sua religiosidade.
O quarto andamento da obra, intitulado «Sanctus», começa com o ímpeto do naipe de metais (trompas, trompetes e trombones) como se evocassem as trombetas dos anjos sobre o templo de Jerusalém, segundo o relatado no Livro de Isaías.
No «Benedictus» há um belíssimo solo de violino a ilustrar a presença divina, e o final, onde deveria verificar-se a pausa para a elevação da Hóstia, Beethoven faz evoluir lentamente a orquestra para acordes profundos como se estivéssemos nesse estado primordial da existência, ou seja naquela escuridão absoluta, que precederia o ato da Criação.
O link aqui deixado é para a versão da London Symphony Orchestra, dirigida pelo maestro Colin Davis, nos Proms de 2011. Um ano depois de ali ter tido a experiência vibrante de assistir ao vivo aos «Mestres Cantores de Nuremberga»!

sexta-feira, maio 27, 2016

DIÁRIO DE LEITURAS: A Lua Crescente de Natália Correia

Na segunda das cinco partes em que Fernando Dacosta dividiu o seu livro sobre as suas memórias de Natália Correia - «O Botequim da Liberdade» - aborda algumas facetas peculiares, que justificavam alguns aborrecimentos sérios a quem cometia o pecado de lhe desagradar.
Avessa aos salamaleques perante os poderes instituídos não se coibia de correr do Botequim com um suposto génio literário, oriundo do Brasil, que aí se preparava para apadrinhar, mas apareceu ufano do convite ao embaixador, que lhes daria a “honra” de os gratificar com a sua presença.

O pobre do poeta azarado não adivinhava que Natália era do género de não permitir, que quem quer que fosse a sujeitasse a um patamar inferior. Pelo contrário, o usufruírem o privilégio da sua presença é que seria motivo para se sentirem agradecidos.
Majestática, também não se importava em assumir posições politicamente incorretas, nomeadamente quando nos restaurantes apareciam criancinhas choronas, que incomodavam os comensais com as suas birras. Ardilosa, olhava-as sedutoramente, fazendo-as crer que teriam ali uma aliada, e logo as fulminava com um olhar suficientemente assustador para provocar a retirada dos papás e dos petizes, escandalizados com a reação destemperada da escritora.
É, também, nesta segunda parte do livro, que Dacosta melhor esclarece a desilusão da escritora com o 25 de abril, que vira como a oportunidade para pensar Portugal, potenciando-lhe os pilares em que se sustentavam a sua identidade, e afinal se entregava nas mãos de uma Europa descaracterizadora.
O pessimismo, que a tomou na última fase da sua vida, resultou da previsibilidade quanto ao que se  seguiria: um consumismo desenfreado, um abandono de atividades produtivas estruturantes na nossa economia e uma alienação geral, que tornava quixotesco o esforço dos que teimavam em lutar contra essa forte corrente...

SONORIDADES: «Credo», o terceiro andamento da «Missa Solemnis» de Beethoven

A primeira oportunidade para assistir à versão da «Missa Solemnis» de Beethoven na atual temporada da Gulbenkian já se concluiu há hora e meia, mas pode-se ainda aproveitá-la na repetição a ocorrer nesta sexta-feira, 27, pelas 19 horas.
Continuando a abordar a peça, andamento a andamento, proponho o link para a versão dirigida, há quatro anos atrás, pelo maestro William Weinert com a Eastman School Symphony Orchestra e o respetivo coro.
Este andamento é o que coloca maiores dúvidas quanto à efetiva sinceridade religiosa do compositor em relação à doutrina, que supostamente aqui glorificava. Os tenores murmuram apressadamente os seus principais enunciados, mas são abafados pelos gritos corais repetidos de «Credo».
O texto torna-se muito mais audível, quando se trata da salvação, do sofrimento e da encarnação, e, sobretudo, na conclusão: «Et vitam venturi saeculi» (“E a vida do mundo que virá”). Sugere, assim, um futuro bem mais bonançoso do que a vida terrena terá facultado ao autor e a quem ouve a sua obra.
A dúvida sobre os sentimentos religiosos de Beethoven divide os seus biógrafos. Há quem sublinhe a pressão por ele imposta para que o sobrinho tivesse instrução religiosa, e até tomasse o último sacramento, embora já estivesse demasiado fraco para o conseguir rejeitar. Mas os que o veem como um católico não praticante alertam para o fascínio nele exercido por outras religiões (a persa ou as de cunho panteísta) bem como a amizade com Johann Michael Sailer, um teólogo iluminista, que desprezava o clericalismo e considerava prioritário o que se passava no íntimo de cada um, porquanto a espiritualidade seria sempre uma experiência individual.
«Missa Solemnis» deve, pois, ser ouvida na postura assumida pelo escultor Rui Chafes que, em entrevista recente, disse: “Acredito que a transcendência não tem outro significado a não ser o de mostrar ou pressentir algo que não está aqui”.
Pode, pois, não existir motivo para acreditar em nada do que aqui se celebra, mas que é bonito, lá isso é...

quinta-feira, maio 26, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO. «Cinzento e Negro» de Luís Filipe Rocha

Por questão de comodidade escolhi uma das salas de cinema do Forum Almada para ver «Cinzento e Negro» do Luís Filipe Rocha, que ali se estreara há menos de uma semana.
Dias atrás um familiar tinha-se antecipado nessa visualização e comentara ter tido a sala de cinema para seu exclusivo usufruto. Desta feita éramos três, o que leva a perguntar no quanto há a fazer para alterar este estado das coisas.
É que, apesar da predominância do tipo de cinema destinado a servir de alibi para os adolescentes irem consumir pipocas e coca-colas, continua a existir um público razoável quando se trata de Festivais, tipo Indie ou DocLisboa, ou mesmo para ciclos como o que o Nimas anda a promover em torno do cinema soviético.
Ademais as imbecilidades produzidas pelo Leonel Vieira com base nos títulos nacionais dos anos 30 e 40, ou as propostas mentecaptas das «Balas & Bolinhos» conseguem alcançar mais de cem mil espectadores.
Estaremos, pois, condenados a uma filmografia orientada para os idiotas chapados? Ou cabe ao governo promover o cinema nacional, que merece ser visto? Estou em crer que, se como contrapartida das concessões televisivas atribuídas, o Estado impusesse um minuto diário de publicidade em horário nobre sobre os projetos teatrais e cinematográficos, que apoia com subsídios, o resultado seria diferente.
É que «Cinzento e Negro» até é o tipo de filme, que não exige inteligência sobredotada para ser compreendido. Tem uma história bem carpinteirada, diálogos convincentes, atores e atrizes irrepreensíveis, fotografia lindíssima (sobretudo aproveitando as paisagens do Pico e do Faial) e uma banda sonora - de Mário Laginha!-, que já vi criticada menos positivamente, mas pelo contrário bem ajustada à evolução da trama.
A história conta-se em poucas linhas: saído de um desgosto pessoal - a filha atirou-se de uma ponte! - o polícia Lucas é convidado por uma empregada da limpeza, Maria das Dores, a procurar-lhe o namorado, que fugira com um saco contendo cerca de milhão e meio de euros. O dinheiro pertencia a um professor universitário, de quem ambos cuidavam, e progressivamente paralisado pela doença degenerativa. Ora cumprindo-lhe o desejo de apressar-lhe a morte, David Justo cuidara de desaparecer e libertar-se assim de uma relação afetiva com o seu quê de asfixiante.
É essa a razão porque de Lisboa os protagonistas viajam para os Açores, aonde o fugitivo terá encontrado porto de abrigo e uma relação amorosa ocasional com uma empregada do célebre Peter’s Café.
O realizador dá consistência à psique dos principais personagens, mas também deixa alguns subentendidos ambíguos, como o do verdadeiro laço afetivo, que ligava Maria das Dores e David Justo.
É, pois, um filme sobre as perdas e a impossibilidade de as recuperar, mesmo se se tenta compensá-las ora pelo dinheiro, ora pela ocupação do espaço físico que era o do outro. Trata-se, pois, de um exemplo eloquente do tipo de proposta cinematográfica, que merecia melhor sorte por parte dos potenciais espectadores. 

quarta-feira, maio 25, 2016

SONORIDADES: «Gloria», o segundo andamento da «Missa Solemnis» de Beethoven

Nesta antevisão do que serão os concertos de amanhã e depois no Grande Auditório da Gulbenkian, proponho aqui a versão do segundo andamento da «Missa Solemnis» de Beethoven tal qual Sir Gilbert Levine a dirigiu à frente da Royal Philarmonic Orchestra e o London Philarmonic Choir.
De facto Beethoven seguiu rigorosamente o cânone, que instituíra cinco partes para as Missas - Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei.
Este segundo andamento é uma explosão de êxtase com o coro e a orquestra no seu todo a exprimirem a «Gloria a Deus nas alturas».
Há fugas para o louvor, solos para a súplica. E a melodia ora é ascendente para «gloria», mais contida para «miserere nobis» («tende piedade de nós»), dinâmica para «te adoramus» e com acordes em pizzicato para o mistério sagrado do «quoniam tu solis» («pois só vós sois santo»).
A conclusão é galvanizadora com duas fugas a exprimirem «em gloria Dei Patria, Amém», culminando no grito a capella de «Gloria».
Segundo Cristina Fernandes “é principalmente nestas rubricas que os modelos da missa vienense são acomodados a antigas tradições como a herança das Missas de Palestrina, Bach e Haydn.” 

DIÁRIO DE LEITURAS: «O Fator Humano» de Graham Greene

Não lia um livro de Graham Greene há mais de trinta anos. De facto, ainda andava na minha vida de marinheiro nas graças do mar, quando «O Americano Tranquilo» me veio parar às mãos para o despachar em poucas horas, tão empática era a história passada na Indochina, ainda colónia francesa ameaçada pelos guerrilheiros de Ho Chi Minh, mas com os americanos já à espreita de lhes tomarem o lugar.
Se a fruição foi agradável, pela amostra achei exagerados os comentários dos que então consideravam Greene um potencial Nobel da Literatura.
Agora, com «O Fator Humano» a opinião mantém-se: a história é interessante, bem estruturada de forma a manter o leitor preso à intriga da primeira à última página, mas, como romance de espionagem, falta-lhe aquele grão de asa de que só Le Carré se mostra capaz nos seus melhores romances.
Escrito em 1978, o livro situa-se num tempo em que a União Soviética e o regime do apartheid ainda pareciam estar de pedra e cal. O protagonista, Maurice Castle, é um funcionário dos Serviços Secretos, que se ocupa em descodificar e classificar as informações recebidas da África do Sul. Na vida privada os seus dias são pacatos, parecendo apenas preocupado em usufruir o melhor possível a família constituída por Sarah e pelo filho desta, Sam. Ora ele tinha-os salvo das garras do coronel Muller, um crápula do regime racista, que lhe matara o anterior companheiro, um militante comunista. E tinham sido precisamente os colegas a soldo da União Soviética, que o tinham conseguido fazer transitar, com a rapariga e o filho, para o Hotel Polana em Moçambique, donde o MI5 os tinha conseguido resgatar.
Dessa colaboração com os supostos inimigos ficara a obrigação moral em ajudá-los, razão porque se convertera desde então num agente duplo.
As únicas derivações por ele feitas no invariável percurso entre o emprego e a sua casa nos arrabaldes de Londres eram episódicas visitas a um alfarrabista a quem entregava as mensagens cifradas do que conseguia ir sabendo da evolução sul-africana.
Os chefes recebem, entretanto, a suspeita de um infiltrado nos serviços africanos, mas entre ele e Davis com quem partilhava o mesmo gabinete, a suspeita vai para o segundo de quem identificaram a propensão para apostas nas corridas de cavalos. Daí que muito expeditamente o Doutor Percival trate de o assassinar a coberto de uma declaração de óbito por cirrose.
Apesar de estar seguro do que arriscava, Castle ainda entrega ao seu contacto mais um documento com utilidade para o KGB, mas a partir dessa altura sabe que arrisca um destino similar ao do defunto colega. Por isso manda Sarah e Sam para casa da mãe e ativa o resgate para que sempre se preparara.
Irrepreensivelmente eficiente o KGB consegue mudá-lo para Moscovo muito rapidamente, mas daí Castle vê dificultada a probabilidade de se reencontrar com a família, porque, vingativo, o doutor Percival dá conta a Sarah de tudo fazer para impedir esse desejo do trânsfuga. Até colocando-lhe a possibilidade de a devolver a Muller.
Se há aspeto positivo no romance de Greene é a simpatia com que trata os serviços soviéticos, no afã com que cuida dos seus, enquanto, pelo contrário, os serviços de Sua Majestade revelam a falta de escrúpulos de assassinarem, mesmo com provas insuficientes, aqueles de quem suspeitam.
Essa inversão do habitual padrão maniqueísta acaba por se revelar o que «O Fator Humano» tem de mais interessante...