quinta-feira, julho 20, 2017

(S) A Suite para Orquestra nº 3 de Bach

No reportório de Bach o segundo andamento da Suite para Orquestra nº 3 em Ré Maior, BWV 1068, é das peças mais conhecidas, mesmo dos que não prepararam os ouvidos para deslumbramentos auditivos. Composta por volta de 1731, quando o compositor estava em Leipzig, alterna uma atmosfera de magnificência e de solenidade com a beleza sublime, mais calma, dessa Ária.
Se o primeiro andamento dá grande expressão aos metais (trompetes, oboés), logo o seguinte assenta na essência melódica das cordas (violinos, viola), antes de concluir com o universo das danças, primeiro as gavotes e suas variações, depois as inspiradas na corte francesa, mormente a Bourée e a Giga.
Não sendo obra vocacionada para objetivos religiosos, esta suite ilustra bem a razão porque, sendo ou não o autor de todas as obras recenseadas como de sua lavra, Bach merece bem a admiração, que, à distância de  três séculos, lhe devotamos.

(AV) Ecos feministas na arte norte-americana do século XX

«The Dinner Party» é uma obra incontornável da arte norte-americana dos anos 70 por ser uma das mais representativas da afirmação do movimento feminista num universo até então quase exclusivamente tido como coutada dos homens. Judith Chicago, pseudónimo de Judith Cohen, tinha então trinta e seis anos, quando apresentou a famosa instalação num estúdio de Santa Mónica. Na mesa triangular com 13 x 11 metros de comprimento criou o ambiente de uma mesa posta para receber convidados, recorrendo a peças de cerâmica, a bordados e a pinturas. No fundo recursos criativos de que as mulheres sempre se serviram no contínuo labor de serem anfitriãs ou matriarcas apostadas em conseguiram o melhor dos bem-estares para ás respetivas famílias.
O ambiente doméstico pretendia ilustrar essa presença pouco valorizada das mulheres nas artes e impunha a necessidade de alterar tal realidade. A própria execução da instalação durante cinco anos constituiu uma obra de arte em si mesma, porque refletiu os debates, as contradições e as conclusões de um verdadeiro work in progress.
Hoje com 78 anos, a artista é reconhecida como a pioneira da afirmação feminina nas artes, até por nunca ter abdicado d as preocupações já expressas na peça de 1975, quer nas obras de pintura, de desenho, de performances ao vivo, de pirotecnia ou de gravura.


(DIM) Quando o que tem de ser tem muita força


Em 20 de setembro de 1932 os promotores imobiliários envolvidos na construção do Rockfeller Center convocaram vários fotógrafos para recolherem aquele que seria um momento icónico da arte fotográfica do século XX. Onze dos operários de construção civil contratados para levantarem a armação metálica em que seria suportada toda a alvenaria sentaram-se numa viga a 260 metros de altura e simularam estar a aproveitar descontraidamente a pausa de almoço.
Os criadores da obra - os que a imaginaram, não os que a captaram em suporte fotográfico - precisavam de fazer do seu investimento um sucesso: a Grande Depressão ainda era demasiado recente com os seus efeitos - paralisia económica, desemprego - a fazerem parte do dia-a-dia.
Nós, que olhamos para a imagem oitenta e cinco anos depois, sentimos a vertigem de nos imaginarmos na pele daqueles homens, que consideravam ser um dia bom aquele em que picavam o ponto de manhã e regressavam incólumes a casa ao fim da tarde. Não admira que o propósito do realizador Seán Ó Cualáin e do argumentista Niall Murphy de «Men at Lunch», documentário estreado em 2012, fosse o de responder às nossas perguntas mais óbvias: quem eram esses onze homens? O que sentiam com Nova Iorque a seus pés, lá muito em baixo, e nenhuma rede a aguentar-lhes o peso se a gravidade os atraísse involuntariamente para o abismo?
As respostas seriam difíceis de assegurar, pois nem sequer há certezas quanto à autoria da fotografia publicada no «New York Herald Tribune» de 2 de outubro. Durante algum tempo julgou-se esclarecida essa questão, mas contraprovas deram no regresso ao ponto zero. Mas, porque a produção é irlandesa, de entre os muitos testemunhos de quem viria diria a jurar ver ali um pai, um irmão, um avô - sabe-se como o desejo de protagonismo facilita as efabulações dos mais dados à doentia imaginação! - eles escolheram dois irlandeses, supostamente atraídos para a cidade que nunca dormia como forma de escapar à fome endémica nos campos do seu país, e ali radicados durante muitos anos para ajudarem a construir a baixa de Manhattan durante a década anterior à Segunda Grande Guerra.
Seriam necessários cinquenta e tal minutos para nos dar a conhecer a imagem em causa e sobre ela perorar de acordo com as mais contraditórias teorias? Decerto que não! O problema de muitos filmes deste género é terem de respeitar um formato temporal, que não condiz com quanto têm a revelar. No essencial a estória resume-se a isto: os operários de então corriam riscos medonhos, que transformavam cada dia num permanente desafio à morte? Sim! Mas, entre o desemprego e a fome, ou um precário ordenado ao fim da semana, a opção não se colocava. O que tinha de ser tinha muita força!

(P) O corpo numa sociedade mais mental

Em recente entrevista o bailarino e coreógrafo Rui Horta diz algo que faz perfeito sentido na sociedade atual: a evolução do conhecimento no último século adquiriu uma tal dimensão, que nos descorporizámos, tornámo-nos mais cerebrais. O corpo converteu-se numa “espécie de último resíduo de natureza que reside nas nossas cidades, quando tudo em redor é cimento, aço, etc.”
Como todas as teses, esta proposta contém contradições bastantes, que fornecem argumentos para a sua aceitação e rejeição. Por um lado nunca se viu tanta focalização no corpo, com ginásios espalhados por todo o lado, revistas dedicadas ao seu culto, mormente por via da dietética nutrição, e uma preocupação exagerada com quanto o possa potenciar: penteados, cosmética, tatuagens, etc.
As palavras de Horta fazem, porém, todo o sentido se nos ativermos à mítica serenidade bucólica de quem, no passado, vivia de acordo com o ritmo das estações, adotando rotinas, que excluíam a necessidade de grandes cogitações. Nesse sentido vivia-se mais com o corpo, que se investia na concretização de tarefas árduas, praticadas nos campos e nas fábricas. A partir do momento em que se substituíram as botas cardadas e os fatos-macacos pela camisa e gravata nos homens e o tailleur  nas mulheres, abandonou-se o ar livre das searas e pomares ou os fumos oleosos das máquinas em atividade pelo ar condicionado dos open spaces, perdeu-se algo da individualidade física para se adotar o ritmo acelerado de uma robotização, contra a qual as mentes se revoltam, se pretendem dissociar numa consciência sentida como própria.
No passado campesino ou proletário não havia necessidade de partir em busca da identidade. Ela estava bem presente nas dores do corpo ao fim de dura labuta. As oito horas passadas num escritório não extenuam os corpos, mas esgotam os recursos das mentes. Ao concluí-las, quem as viveu procura-se a si mesmo, alheia-se do corpo, busca-se dentro dele. É quanto basta para o sucesso das sessões de ioga e outras modalidades orientais, que prometem o acesso àquilo que se é e está tão acossado lá muito para o fundo das circunvoluções cerebrais. O corpo volta a ser um espaço de resistência, a resposta natural ao que passou a ser uma existência quase permanentemente mental.

segunda-feira, julho 17, 2017

(DIM) Um botão para um inexistente paraíso

Continuo sem compreender a sanha com que alguns europeus encaram a continuidade ou não de Bashar al Assad à frente da Síria. Então nos franceses surgiram entusiásticos militantes da causa rebelde sem que ninguém os confronte com as consequências de, em tempos, terem militado pela queda de Khadafi com as consequências decorrentes desde então nesse território por onde partem mais desesperados em busca de uma mirifica salvação numa Europa, que os repele. Para terem substituído o anterior ditador líbio pelos vários candidatos a essa mesma sucessão - mas com perfil ainda mais criminoso -, bem podem limpar as mãos à parede.
Ninguém parece, igualmente, interessado em atirar-lhes à cara a convivência multiétnica e multiconfessional na área dominada pelo regime sírio em comparação com o exclusivo primado muçulmano sunita no lado contrário. À exceção da Tunísia - e vamos lá a ver até quando! - todos os países que viveram a Primavera árabe tornaram-se asfixiantes para as minorias. Veja-se a má sorte de ser copta no Egipto ou cristão no Iraque.
O interesse do documentário «Dugma: the Button», realizado em 2016 pelo norueguês Paul Refsdal, é o de nos dar a conhecer alguns desses fanáticos, dispostos a matarem-se para imporem um regime jihadista em Damasco. É sinistro o riso do saudita Abu Qaswara, quando nos mostra a tecnologia aplicada num veículo blindado destinado a ser utilizado numa missão suicida. Ele próprio inscrito na lista dos candidatos a mártires, é quase com candura, que detalha a crença de conquistar o paraíso através do ato assassino de matar o máximo de inimigos, por muitas vítimas colaterais, que venham a ser mortas pela explosão do engenho ativado com a pressão de um botão.
Terrível, igualmente, a pressão do pai com quem fala pelo telefone e impaciente por o ver enfim a assegurar não só o passaporte para o paraíso, mas também o de outros setenta homens da família, cujos pecados terão sido perdoados graças ao seu sacrifício.
Há também um inglês de gema, Abu Basir al-Britani, idiota depressa levado a riscar a inscrição no tal livro dos mártires, porque casou entretanto e perdeu a vontade de desistir tão facilmente dos prazeres recém-descobertos pelo corpo até então virgem.
Se a organização terrorista deu carta branca a Refsdal para filmar o que quisesse, foi para garantir uma imagem positiva junto dos seus financiadores europeus. E, de facto, assim parece, pois o norueguês revela-se empático com os anfitriões. Mas se quisermos olhar com atenção para lá da primeira impressão, depressa constataremos quanto tudo aquilo é absurdo e medonho.

(DL) Um suicídio em ambiente buñueliano

Pode o suicídio banalizar-se de forma que as famílias se reúnam para receber tal notícia com a maior das naturalidades e até a festejem devidamente, saudando calorosamente a decisão de quem se propõe a tal? Esse é o tema da peça «Um Forte Cheiro a Maçã», que integra o primeiro volume de «Teatro» de Pedro Eiras.     
Não faço ideia se o autor teve essa influência subjacente, mas senti algo de Buñuel no ambiente marcado pelo encontro das várias gerações de uma família, onde o afeto é aparente, por esconder sentimentos menos meritórios, que acabam por gerar tensões contidas até à iminência do agressivo confronto verbal.
Janta-se, veem-se as estrelas candentes por entre as nuvens do céu, e há uma verbosidade constante, que impede o estabelecimento de um singelo momento de silêncio. Como se as personagens tivessem horror ao vazio e devessem encontrar nas futilidades, mas também nos subtis reparos, a estratégia para omitirem o óbvio: pouco as liga, de facto, para além dos vínculos familiares, que nutrem entre si. Existem pais, filhos, um neto, tios, sobrinhos, genros, noras, primos, ou seja toda a diversidade de elos possíveis entre gente que respeita a convenção de se obrigarem a suportar entre si. Há também - como elemento perturbador por excelência - a jovem Verónica, amiga da família, mas sobretudo da irmã do suicida, que apesar de ter presente o namorado, não deixa de lhe aceitar o assédio explícito para a concretização da satisfação sáfica. Existem, pois, opções sexuais por revelar, bem como fantasias eróticas, evidentes nos olhares e mais comedidas nas palavras.
No final, é com toda a naturalidade, que Madalena segura no colo o corpo suicida de Elias, qual Pietá a cumprir o desiderato anunciado. Pelo meio ficam implícitas questões tão pertinentes como a desesperança dos jovens quanto ao futuro, o crepúsculo das grandes causas sociais e políticas, ou as dificuldades nos diálogos intergeracionais.
A exemplo do que lhe temos conhecido nos romances, Pedro Eiras sugere-nos pistas de reflexão a partir do retrato banal do quotidiano de personagens bem mais complexas do que gostariam de transparecer.


domingo, julho 16, 2017

(DIM) Fernando Maurício, o reabilitador de um dos execráveis éfes

A minha relação com o fado não tem sido muito pacífica: ainda sou  do tempo em que o José Mário  Branco cantava que o fado choradinho de tabernas e salões, semeava só desalentos, misticismos e ilusões. Convenci-me, quando ainda vingava a «outra senhora«, que o fado era um dos três éfes a derrubar, razão porque me fui dissociando progressivamente da ligação  clubística da infância e me fiz ateu, avesso a todas as propostas metafísicas.
Pelos anos oitenta um casal amigo convenceu-nos a assistir a um espetáculo de Carlos do Carmo na Academia Almadense - ainda a sala comportava centenas de lugares! - e sensibilizou-me a  empatia do público  com o artista. Às tantas sentia-me como da vez em que fui ao Pedro dos Leitões, com toda a gente a degustar os pobres suínos juvenis e eu a bater-me com um bife de vaca conseguido quase a ferros do empregado espantado com a minha aversão ao prato da casa. Foi isso mesmo que sucedeu com o concerto de Almada:  toda a gente em coro a acompanhar o fadista e eu a sentir-me uma espécie de alienígena,  acabado de aterrara no planeta azul.
A conversão do autor de «Ser Solidário» perturbou-me o bastante para começar a ouvir o Camané  com atenção e até a assistir-lhe aos espetáculos no São Luís. E há uns quatro anos fui a uma dessas visitas guiadas com guia pelas ruas da Mouraria, com um fadista a acompanhar o grupo para exemplificar as diferenças entre um fado castiço e um fado corrido nos vários sítios onde íamos parando. Depois de sairmos do Largo da Igreja de Nossa Senhora da Saúde lá iniciámos a marcha com uma primeira paragem na Rua do Capelão para a homenagem à mítica Severa que ali vivera.  Fomos então subindo bairro  acima, na direção do Castelo, parando para uma ginjinha e para momentos musicais em que o Ruca - assim se chamava o jovem cantor -,  nos ir revelando alguns dos fados mais tradicionais, que compõem o reportório de tantos frequentadores das casas de fado tradicionais e de fado vadio. Foi numa destas últimas, já em Alfama, que concluímos a noite, a comer caldo verde e chouriço assado acompanhado pelo inevitável tintol.
Se não deu para me converter num rendido apreciador do fado - embora isso já tenha sucedido com o enorme Ricardo Ribeiro (mas será fado o que ele interpreta associado a Rabih Abou-Khalil?) - chegou para a atenção se prender num nome até então de mim desconhecido: Fernando Maurício, apelidado de Rei do Fado. Quem dele falou expressou uma devoção singular, que me fez questionar o que andava a perder. E um documentário de 2011, de Diogo Varela Silva, ajudou-me a compreendê-lo. Porque, tal como aprendi a apreciar em Frank Sinatra, ele tinha a preocupação de soletrar todas as palavras com um cuidado extremo, escusando-se a qualquer elisão, de maneira a que elas se nos tornassem limpidamente compreensíveis.
O referido Ricardo Ribeiro, que foi um dos reconhecidos discípulos dessa figura mítica, explica na sua inteligente forma de expressar as ideias, que Maurício fez-se grande, porque soubera criar a exceção, o «estilar» seu característico, que todos  os discípulos passaram a querer imitar. Mas, a exceção, para se cumprir, tem de se basear no conhecimento profundo de todas as regras. E essa é uma lição prodigiosa: a originalidade depende de se conhecer profundamente aquilo de que ela pretende dissociar-se como rutura.
Sobre a personalidade de Maurício ainda sobram outras revelações, que coincidem em todos os testemunhos ouvidos: a generosidade ilimitada e o desprendimento de não ambicionar carreira televisiva ou internacional, bastando-lhe o carinho de quem o ouvia na Mouraria, talvez porque detestava dele afastar-se, sobretudo se isso envolvesse as temidas viagens de avião.
Aos sessenta e um anos já não virei a ser um fadófilo militante, mas, pelo  menos, consegui dissociar este específico éfe dos outros dois, que constituem os paradigmas da execrável alienação.


sábado, julho 15, 2017

(DL) O encontro do jovem poeta com o exotismo tropical

Desconhecia que Charles Baudelaire tivesse vivido na Maurícia. E, no entanto, segundo alguns dos estudiosos da sua obra, a ilha terá sido o espaço de descoberta da embriaguez dos sentidos através dos odores e cores dos mercados e da arquitetura local.  Terá sido quase por acaso que o poeta ali desembarcou em 1841, quando  a escravatura acabara de ser abolida e Port Louis constituía escala importante na rota marítima do comércio das especiarias.
O futuro autor de «As Flores do Mal» tinha então vinte anos e a família decidira financiar-lhe uma viagem a Calcutá para que saísse da monotonia da vida de estudante.
Em princípio a ilha não figurava nas escalas previstas Da viagem, mas um ciclone ao largo do Cabo da Boa Esperança causara tais desgastes a bordo, que as reparações em terra firme tornaram-se inevitáveis.
Após longas semanas no alto mar o encontro com a paisagem local constituiu experiência determinante na vida do futuro escritor. Se as grandes extensões azuis já não lhe escondiam grandes segredos, constituindo-lhe uma  espécie de espelho, o exotismo tropical estimula-lhe sensações avassaladoras. O choque visual e olfativo é feito desse encontro com uma diferença tão abismal em relação a tudo quanto conhecera até então. As montanhas em volta, basálticas por causa dos vulcões ali escondidos, dão cor e consistência aos edifícios, em que paredes e pavimentos são construídas a partir desse recurso geológico.
Se é calorosamente recebido nessas casas, a quem os anfitriões continuam ainda hoje a apelidar de «seus castelos», Baudelaire replica nas ruas de Port Louis o hábito parisiense de tudo nelas atentar, recolhendo emoções caóticas, que cuidará de ir estruturando mentalmente  para utilização futura.
Nas cantinas descobre a gastronomia crioula confecionada com legumes e temperos a que não consegue ficar insensível, complementada pelos saborosos frutos legados por uma natureza generosa, que alimenta, perfuma, embeleza e até encontra soluções para curar as maleitas.
A descoberta mais excitante será, porém, a prodigalizada pelas mulheres negras ou mestiças com quem se deita e todas elas capazes de lhe alimentarem um erotismo depois replicado em versos ousados, que não pouco escândalo causam nos ambientes seletos onde, clandestinamente, sobressaltaram preconceitos.
Essa propensão será tão definitiva que, em Paris, Baudelaire tomará como duradoura amante uma mulher negra, Jeanne Duval, que lhe alimentará tantos outros poemas. Pode-se, pois, dizer que a ilha Maurícia exerceu uma influência incontornável na vida e obra do poeta.

(DL) O fim da história segundo Luís Sepúlveda

Não se trata de nada sobre que Francis Fukuyama perorou. É a história com h pequeno, bem mais relevante para quem a vive do que a com H grande, que fura os prognósticos  dos seus mais atrevidos adivinhos.
E é o fim, porque todos temos o direito de fechar ciclos, mesmo os respeitantes às revoluções perdidas.
Quando abrimos o mais recente romance de Luís Sepúlveda recuamos cem anos: mergulhamos na enorme confusão subsequente ao assalto do Palácio de Inverno, quando a momentânea vitória bolchevique viu-se ameaçada pelas hordas inimigas onde figuravam os cossacos do ataman Krasnov.
Aprisionado esse chefe Trotski, viu-se na contingência de decidir se o fuzilava ou não. A vontade tendia-lhe a dar essa ordem, mas a prudência levara-o a poupá-lo. Não imaginava ele quão imprevisíveis seriam as consequências da súbita compaixão, porque Miguel Krassnoff, neto do ataman, viria a ser um dos mais cruéis torcionários da ditadura chilena, apontando-se-lhe centenas de homicídios.
Não se trata de uma estória saída da imaginação do escritor chileno, mas factos indesmentíveis por ele recolhidos na investigação sobre os crimes cometidos na Villa Grimaldi e noutros centros de tortura do regime liderado por Pinochet.
De «Nome de Toureiro», romance que conhecemos há meia dúzia de anos, Sepúlveda resgatou Juan Belmonte, o antigo militante allendista, que tinha o nome de um famoso matador de touros espanhol. Tínhamo-lo deixado nas terras mais ao sul, onde dois oceanos se encontram, a viver com a silenciosa companheira, irreversivelmente afetada pelo sofrimento infligido por esse mesmo Krasnoff.
Belmonte é chamado a Santiago para localizar cinco homens vindos da Rússia de Putin para, a manda de forças subversivas cossacas, tentarem libertar o assassino, cujo ascendente religioso era tido como determinante para lançarem atividades separatistas contra o Kremlin.
O romance assume a filiação no género policial, mas nunca descurando a preocupação em denunciar a tragédia que se abateu em 1973 sobre o povo chileno a mando das multinacionais norte-americanas, que corromperam e financiaram os generais golpistas. É por isso muito mais do que um mero entretenimento, mesmo que de temática progressista, porque coloca questões pertinentes sobre qual a resposta mais consequente: vingar os mortos e os torturados com um certeiro tiro de um sniper  no meio da testa do assassino ou deixá-lo aprisionado até ao fim dos dias numa prisão, mesmo que com demasiadas mordomias.
E como as forças telúricas são tão agitadas na placa longitudinal, que acompanha o recorte costeiro do país,  o desenlace coincide com violento terramoto.
Sepúlveda voltou a oferecer-nos uma trama, que constitui um verdadeiro regalo para quem gosta de estórias bem contadas. 

quinta-feira, julho 13, 2017

(DL) Gente à deriva nos percalços da História

Anna regressou a Kangará muitos anos depois de aí ter vivido alguns dos seus mais recuados verdes anos. A mãe, condenada como inimiga do povo, fora internada naquele campo de trabalhos forçados criado em território cazaque, na Ásia Central. Chegada aos cinco anos transitara para um orfanato onde os maus tratos eram constantes sob o alibi de se tratar de filha de uma contrarrevolucionária. Como aceitar, então, que a quisessem forçar a amar esse homem de bigodes, reverenciado pelos carrascos?
O que encontrou nesse regresso ao passado nada tem  a ver com ele. Onde outrora se afadigavam prisioneiros em doloroso ritmo de trabalho escravo está agora uma cidade habitada por milhares de pessoas, que preferem esquecer a verdade oculta no subsolo. Porque, como reconhece um velho com quem fala, toda aquela área é um imenso cemitério, donde emergem ossos humanos, quando procuram resgatar da terra as batatas aí semeadas.
A Svetlana Alexievich a quem conta essa experiência de viagem, Anna mostra-se racional: quer os prisioneiros, quer os seus algozes, constituíam o povo soviético. Por isso não se espanta com a possibilidade de muitos dos velhos com quem fala terem sido carrascos dos que ali deixaram esses ossos. Mas, mesmo o não tendo sido, quase todos eles preservam o orgulho de terem pertencido a um mundo entretanto desaparecido. Porque a União Soviética era um império e a atual Rússia converteu-se numa sua caricatura risível. Isso fora-lhe dito por outro passageiro do comboio em que viajara para leste: Estaline pegara num  país atrasado, em que a ferramenta de trabalho mais comum era a charrua, e legara aos sucessores um país capaz de já então dominar a tecnologia atómica.
Anna confessa sentir uma insuportável solidão  por muito que, até aos quarenta anos, tenha sempre partilhado o espaço habitável com tanta gente, primeiro no tal orfanato, depois nos apartamentos comunitários tão típicos do conceito socialista. Quando se encontrara com a escritora contava 59 anos e quase não visitava o único filho com quem os litígios eram constantes. Mas, nesse sentido, reproduzia o que vivenciara com a própria mãe, com quem voltara a residir quando ela regressara de Kangará: nessa época os olhos tristes ainda mais se afundavam nos abismos íntimos da dor ao vê-la cantar com entusiasmo as canções da Konsomol. Agora, relativamente ao filho, Anna não consegue suportar o fascínio da nora com todos os atavios proporcionados pelo vitorioso consumismo. É que, em tempos, sentira  tudo ter, quando, na realidade, nada tinha...

quarta-feira, julho 12, 2017

(DIM) A desolação da paisagem sem vivalma

Temos poucas oportunidades para ver cinema latino-americano só nos aparecendo de longe em longe algumas propostas, quase sempre mais interessantes do que a maioria das outras, que vão sendo projetadas nos ecrãs nacionais.
O cinema argentino tem tido a capacidade de abordar as grandes questões existenciais - o amor, a vida e a morte - contextualizando-as no ambiente político em que são vividas. Amiúde está lá, mais ou menos explicitamente, o terrível período da ditadura militar, quando ser de esquerda significava a forte probabilidade de se ser torturado e assassinado.  De súbito, e sob a supervisão de consultores norte-americanos, que formaram milhares de sicários no Panamá, famílias normais, apenas desejosas de verem melhorada a qualidade de vida dos compatriotas, tornaram-se inimigos públicos e viram-se forçados a fugir para exílios exteriores  ou interiores.
«Kamchatka», de Marcelo Piñeyro, estreou-se em 2002 e tem dois excelentes atores como protagonistas: Ricardo Darin e Cecilia Roth, que interpretam os papéis de pais do miúdo por quem começamos a entrar na história, revelada na primeira pessoa. Se as primeiras imagens têm a ver com a sua génese - o espermatozoide paterno no útero materno - depressa entendemos a época relatada pelo miúdo: a mãe vai busca-lo à escola em horário incomum e veem-se obrigados a passar por barreiras do exército, que andam a procurar eventuais «subversivos» e os encaminhar para os lugares de martírio. Por isso partem para sul ao encontro das lindíssimas paisagens patagónias, cujas enormes extensões sem vivalma metaforizam a solidão a que se viram subitamente condenados.
Kamchatka será o sítio, longe de tudo, onde procuram evitar o que parece ser inevitável. É onde se pode continuar a resistir. Longe de tudo, como se se vissem no arquipélago russo no Extremo Oriente,  a família muda de nome, sem conseguir eximir-se ao medo. O amor está sempre presente, mas a ameaça nunca se dilui. E o final aberto deixa-nos duas certezas: nunca mais o miúdo irá reencontrar os pais, que vê desaparecerem numa longa estrada deserta, mas saberá receber o testemunho dos valores por que valerá a pena continuar a defender.

terça-feira, julho 11, 2017

(DL) A evocação do caminhante

Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
São famosos os versos do poeta António Machado, autor do indispensável «Campos de Castilla«, coletânea de poemas publicados em 1912 na sequência de uma fase particularmente difícil da sua vida, a da estadia em Soria, pequena cidade tão distante da sua Andaluzia natal.
Ele chegara a essa região situada no nordeste de Castela em 1907 para lecionar francês no liceu local. Mas logo o surpreendeu a paisagem desolada, que tornou protagonista dos seus poemas. Ela simbolizava a decadência de um país, que já fora imperial e se tornara decadente. As próprias muralhas e fortaleza, que via nos seus passeios ao longo das margens do Douro, também confirmavam essa ideia: decrépitas, a ameaçar ruína, já pouco lembravam o fulgor da época em que haviam sido levantadas.
No verão subiu às montanhas vizinhas e descobriu a sinistra Laguna Negra na caldeira de um antigo vulcão antigamente coberta pelos gelos glaciares. A voz popular dizia que um corpo para ali lançado nunca mais se voltaria a encontrar.
Nasceu aí um dos textos mais importantes dessa época criativa: «A Terra de Alvaro Gonzalez», que aborda o parricídio de um velho cujos filhos, convencidos pelas noras a apressarem o recebimento da herança, trataram de o matar. Numa terra tão miserável, Machado compreendeu que os atos mais ignóbeis tinham explicação na miséria extrema em que toda aquela gente vivia.
Nos passeios junto ao rio ganhou a companhia de Leonor, a adolescente que era filha do seu senhorio. Apesar da diferença de idades - ele já nos trinta, ela ainda mal saída da puberdade -, o amor que os uniu foi indestrutível. Ou quase, porque casando em 1909, detetar-se-ia na rapariga uma tuberculose, que a mataria em 1912.
Quando abandonou Soria, prostrado pela morte da amada, o poeta decidiu ali nunca mais voltar. Porque tudo ali lhe recordava a perdida e efémera felicidade.
«Campos de Castilla» tem a dimensão triste de quem sente dor, desilusão perante as circunstâncias adversas em que vive.
Não adivinhava, porém, a tragédia, que o acompanharia nos últimos dias: em 28 de julho de 1939, um mês depois de ter atravessado a fronteira para fugir ao avanço das hordas franquistas, morreu em Colliure, totalmente exangue pelo sofrimento de ver o seu país entregue à barbárie.

segunda-feira, julho 10, 2017

(DL) O entusiasmo do escritor perante a Revolução

A Revolução de Outubro de 1917 exerceu uma enorme curiosidade em Stefan Zweig e muitos outros escritores europeus do seu tempo. Isso é evidente em «Le wagon plombé», pequeno livro agora publicado pela Payot e que integra o texto homónimo além de dois outros, que o complementam.
No primeiro está em causa a viagem iniciada em 9 de abril de 1919 por Vladimir Lenine entre Zurique, onde estava exilado, e à Finlândia, donde lhe seria mais fácil chegar à Rússia agitada desde fevereiro, por uma revolução que pusera temo ao regime czarista.
Zweig começa por contextualizar a época, com Lenine a passar completamente despercebido numa cidade suíça onde não chegavam a trinta as pessoas que o conheciam. No meio de uma Europa em guerra atroz, aquela era uma pequena ilha de paz, onde  aprofundava os estudos filosóficos e políticos, aferindo a visão quanto à evolução dos acontecimentos no seu país. Era um homem aparentemente banal, que iria adquirir indelével protagonismo nos iminentes dez dias que abalariam o mundo. O que fascina o autor é a forte probabilidade de, contra ele, se terem obstado constrangimentos, que o impedissem de cumprir o papel histórico, Que não o conseguiram manifestamente travar.
O texto seguinte, «Viagem à Rússia», é mais longo e reitera a posição ideológica do autor, que aderiu entusiasticamente à nova realidade bolchevique, muito embora não deixasse, aqui e além, de sugerir algumas reservas.
Na ressaca de um périplo pela realidade revolucionária, Zweig constata que “a Rússia continua a ser totalmente incomparável!”. E acrescenta: “As principais questões ligadas à estrutura social e intelectual impõem-se, imparáveis, a cada esquina, conversa ou encontro. Sentimo-nos permanentemente ocupados, interessados, excitados, apaixonadamente motivados pelo entusiasmo e a dúvida, o espanto e as reservas.”
Complacente com as prateleiras vazias nas lojas ou os prédios decrépitos, Zweig ajuíza ainda não ter havido tempo nem recursos  para corrigir o que falta, elogiando a sobriedade do que se pode consumir. Porque, em compensação, há o Kremlin. a Praça Vermelha com o mausoléu de Lenine, os museus, o teatro popular e o idealismo dos jovens artistas. Aqueles que se dizem prontos a sacrificar o conforto pessoal em proveito dos interesses coletivos.
Em Gorki encontrou o que de melhor estaria a emergir de uma “Rússia saída das entranhas do próprio povo.”  Visitou a seguir o castelo de Tolstoi, conhecendo-lhe a filha e recolhendo-se, humildemente, junto ao túmulo do admirado escritor.
No final desse périplo, Zweig confessa-se rendido pelo entusiasmo popular em torno de um ideal, quinze anos depois dele se ter tornado bandeira do regime.
O terceiro texto é uma reflexão sobre Maximo Gorki, que promove como porta-voz e símbolo do povo russo na marcha triunfal liderada pelos bolcheviques. Escrito em 1931 o texto é um fervoroso elogio à revolução e ao povo que “silenciado durante mil anos, se pôs agora  a falar”.
Gorki cumpriria o papel, que se espera dos poetas e dos artistas durante o processo transformacional das relações de forças entre as classes sociais.
O livro agora publicado permite-nos constatar quão entusiástica era a intelligentsia europeia à promessa utópica vinda de Leste. Não tardaria, porém, a acontecer um doloroso divórcio, quando visitantes ulteriores começavam a dar conta de um crescente falhanço, suscitado pela incompetência dos homens, por muito que se acreditassem imorredoiras as ideias.

domingo, julho 09, 2017

(EdH) Nas profundas do Inferno

Tártaro não é apenas aquele povo turcomano, que Estaline mandou deportar para a Ásia Central como castigo pela cumplicidade com os ocupantes nazis e, recentemente, opositores frustrados da anexação da Crimeia para onde tinham regressado depois da morte do pai dos Povos.
Tártaro também não é apenas aquela coisa horrorosa, que surge na fronteira entre os dentes e as gengivas e nos levam a gastar uns quantos euros na visita anual à higienista dentária.
Tártaro também não é apenas aquele horroroso bife, que me serviram num restaurante de Haia, e que mais não era do que um naco de carne crua com umas batatas fritas. A expetativa de ter um bife normal, com um molho dito tártaro em cima, fora frustrada por aquele prato digno de um canibal,
Tártaro era, afinal, e no que diz respeito à mitologia grega, o local maldito do Inferno onde se concentram os deuses banidos, os heróis derrotados e os grandes criminosos. Mas, antes de assim ser crismado, Tártaro fora um deus nascido do Caos inicial, a quem Gaia empurrara no início dos tempos para aquele local subterrâneo onde era Hades quem mandava.
Zeus, nos seus insondáveis desígnios, decidia quem para ali mandava sem hipótese de remissão. Os Titãs e os Gigantes tinham sido dos primeiros a ali ficarem cingidos depois da frustrada tentativa de eliminarem o rei do Olimpo.
Sísifo era outro dos condenados mais conhecidos. Filho de Éolo e fundador de Corinto, fora o  criador do comércio.  Mas era também vingativo: um dia, sabendo que o vizinho Antolykos lhe andava a roubar os animais do seu rebanho, invadiu-lhe a casa e violou-lhe a filha, que iria casar no dia seguinte com Laertes.  Meses depois a jovem recém-casada dava à luz Ulisses, nunca se concluindo se era filho de Sísifo ou do traído noivo.
As suas aventuras não cessaram aí: para que os seus pastos tivessem sempre água, denunciou Zeus a outro vizinho, alertando-o para a tentativa dele lhe seduzir a filha. Passaria, assim, a garantir a rega abundante dos seus campos.

Furibundo, o rei dos deuses mandou a Morte ir buscar Sísifo levando-o para o inferno, mas, recorrendo à sua esperteza, o réu enganou-a e prendeu-a numa cela da sua fortaleza.
Tempos difíceis esses em que o inferno ameaçou esvaziar-se pela interrupção do fluxo contínuo dos mortos para o ir povoando. Decidido a resolver definitivamente o caso, Zeus condena-o a cruel suplício no Tártaro: todos os dias tem de carregar uma grande pedra montanha acima e, quase lá chegado, ela rebola-lhe encosta abaixo, obrigando-o a retomar a tarefa desde o  princípio.
Outro conhecido habitante dessas profundas infernais é Tântalo, o rei da Frígia. Ele tinha todos os atributos para ser um herói bem sucedido, tanto mais que era um dos muitos bastardos de Zeus. Mas a euforia do estatuto subiu-lhe à cabeça levando-o a distribuir néctar e ambrósia entre os mortais, apesar de saber tais iguarias apenas destinadas aos deuses. Pior ainda, convidou os deuses do Olimpo para um banquete e, ao compreender não possuir carne suficiente para lhes dar a servir, matara o próprio filho para assim suprir essa falta.
Denunciada a macabra fraude, Zeus castigou-o com outro terrível suplício: até ao fim dos tempos, Tântalo não consegue saciar a sede ou a fome, porque sempre que se baixa para beber a água em que está mergulhado, ela desaparece-lhe, a exemplo da árvore onde vislumbra apetitosas pêras, cujos ramos se afastam sempre que pensa alcança-las.
Igualmente sem perdão se vê Ixion, que começara por matar o rei da Tessalida a quem prometera valioso tributo por lhe desposar a filha, mas faltara ao compromisso na manhã seguinte à noite de núpcias. De seguida intentara ainda algo mais inaceitável para Zeus: tentara-lhe seduzir a esposa, Hera.  Juntamente com tantos outros, Ixion é um dos muitos condenados, que ecoam as súplicas num coro lúgubre abafado pelos níveis mais superficiais do Inferno.
Tártaro é, pois, o tipo de sítio particularmente quente e animado, ainda que inadequado para passar uma mesmo que curta temporada...