quarta-feira, dezembro 31, 2008

Uma BD que me continua a agradar apesar de tudo...

«O Caso Francis Blake» já não saiu da criatividade de Edgar Pierre Jacobs. Pegando nos personagens Francis Blake e Philip Mortimer, os também conceituados Jean Van Hamme e Ted Benoit criaram uma história, que respeita escrupulosamente o espírito da série.
Tudo começa, quando o chefe dos Serviços Secretos, Francis Blake parece desmascarar-se enquanto traidor capaz de pôr não só em risco a segurança nacional, mas também assassinar os agentes supostamente às suas ordens.
Mortimer decide-se a fazer os possíveis por ilibá-lo de tão ignóbeis suspeitas. No entanto, ele próprio acaba por se envolver em inesperada aventura, tanto mais que os jornais acabam por denunciar a cumplicidade com o «traidor» em fuga.
Afinal o que estava em causa era uma tentativa de Blake em desmascarar quem, ao mais alto nível do governo do país, estava conluiado com potências inimigas.
Obviamente que o sempiterno Olrik aparece do lado dos mauzões, que acabam derrotados.
É claro que há aqui um cheirinho a guerra fria e em que os ingleses são os bons e os «outros» os maus. Embora ideologicamente muito ambíguo, não deixo de sentir algum fascínio pelo grafismo e pela forma como se estrutura a intriga...

Sensemayá, Silvestre Revueltas.

Que melhor homenagem a Silvestre Revueltas, que o exerto da interpretação de uma das suas maiores oberas pela Orquestra Simão Bolivar dirigida por Dudamel?

Evocar Silvestre Revueltas

Nasceu precisamente há cento e nove anos. Era o último dia do ano do século XIX (embora subsista a discussão de quando se inicia um novo século!) e Silvestre Revueltas era mais um dos filhos de uma família talhada para lançar para o mundo gente que viria a ser influente no mundo das artes e das letras.
Silvestre viria a ter fama de feitio difícil. No entanto o seu talento para a composição musical era imenso e cedo demonstrado em sucessivas obras.
Quando o governo republicano espanhol o convidou para colaborar consigo no que poderia vir a ser o embrião de um projecto artístico de grande alcance, dirigia-se não só ao artista, mas também ao homem político, que tinha uma sólida empatia com as aspirações populares e delas colhia inspiração para a sua obra.
Os tempos eram, porém, difíceis: para os homens de esquerda a década de trinta trará a sensação de um toque a finados por muitas das suas ilusões de um mundo melhor. E Silvestre afundar-se no álcool, na miséria e na doença. Quando morre, de pneumonia, em 1940 - conta a lenda que tinha uma garrafa na mão no seu último alento - o fascismo parecia exuberante nas mais diferentes latitudes.
Quase sete décadas depois a sua música chega-nos, sobretudo, pela mão de entusiasmado divulgador, o jovem maestro venezuelano Gustavo Dudamel, que a executa com a sua Orquestra da Juventude Simon Bolívar. «Sensemaya» ou « A Noite dos Maias» correspondem aos títulos mais conhecidos dessa obra, que se enquadra na escola nacionalista e se considera a mais adequada para vestir de sons a cultura do seu país...

segunda-feira, dezembro 22, 2008

High Places - Shared Islands - Live @ The FADER Sideshow

Os High Places são, de entre os muitos grupos, que vão procurando singrar no competitivo panorama do rock alternativo, um dos mais interessantes. Pelo carácter hipnótico da sua vida, por alguma ingenuidade pressentida na voz da vocalista!
Um percurso a seguir com alguma atenção...

sábado, dezembro 20, 2008

Revolução no «Sonho Americano»?

Não sei se será possível, mas confio na necessidade de uma grande mudança no paradigma mental dos norte-americanos com o almejado sucesso da Administração Obama. Pelo menos que o «sonho americano» ganhe alguma lucidez e deixe de ter na conquista da riqueza a qualquer preço a sua principal estratégia. Até porque, para o cidadão das classes mais baixas ou, mesmo remediadas, as últimas semanas não devem ter sido fáceis de conciliar com tal idiossincrasia, quando até os mais insuspeitos milionários são denunciados como fraudulentos.
É claro que será uma revolução ideológica difícil de fazer prevalecer: McCain conseguiu o apoio de quase metade do eleitorado ao propor menos impostos para os ricos e ao diabolizar as práticas «socialistas» prometidas pelo adversário.
A palavra «socialista» está, aliás, tão desconsiderada por aquelas bandas que um homem inteligente como o actual Nobel da Economia, Paul Krugman, vem dizer nos media, que os homens políticos não devem, nesta fase, ter receio de «parecerem socialistas».
Não é, pois, o de serem, mas o de parecerem!
Que as realidades económicas acabem por propiciar essa tão necessária viragem à esquerda. Embora tenhamos bem presente a lição histórica de da Depressão de 1929 terem, afinal, emergido os tenebrosos fascismos…

terça-feira, dezembro 09, 2008

TEATRO MERIDIONAL: VLCD

O Teatro Meridional confirma ser, hoje, um dos mais fascinantes projectos artísticos de Lisboa. Os seus espectáculos continuam a surpreender pela originalidade e pelo experimentalismo em relação a novas formas de expressão.
Essa ânsia de vanguardismo surge logo no título da mais recente peça estreada nas suas instalações: «VLCD - do lugar onde estou já me fui embora».
O tema é o da velocidade a que somos coagido no nosso tempo, que nos prejudica a capacidade de ver, de pensar … até mesmo de sentir. Dando, pois, razão ao provérbio italiano citado no programa: «O Homem mede o tempo e o tempo mede o Homem.»
O tempo acelerado que aumentou a produtividade e a qualidade do consumo de bens materiais, mas igualmente a infelicidade de quem nele se perde.
Tanto mais que a competição fomentada socialmente enquanto forma de realimentar, em contínuo, essa obsessão pela velocidade, enaltece sempre o mais rápido. Independentemente da qualidade ou da beleza do que nesse lapso de tempo se concretizou…
Num século desumanizado todos se empurram para chegar o mais cedo possível ao emprego, tornando-se hediondas todas as possibilidades de colocar pauzinhos na engrenagem.
A proposta da companhia teatral sedeada no Poço do Bispo passa por abordar esse frenesim pelas vivências de quatro palhaços, uns mais do que outros, adaptados a tais regimes de produção.
Como diz o programa: «Destas premissas nasceu um espectáculo, feito do encontro de todos os seus criadores. Um espectáculo edificado e projectado dramaturgicamente no espaço contemporâneo dos ensaios e que também ele se debateu, na sua fase de criação, com as mesmíssimas questões que eram, afinal, o seu objecto. Da alegrias, descobertas, dificuldades e também tanta angústias resultou uma oportunidade de crescimento. e de valorização humana inesquecível.»
Graças a um belíssimo naipe de actores, dos quais ressai Carla Maciel, passamos em revista os grandes problemas sociais do nosso tempo e a forma como reagem os que a eles se vão procurando adaptar. Com maior ou menor sucesso…
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quinta-feira, dezembro 04, 2008

A BAUHAUS (1)

Fundada em 1919 por Walter Gropius em Weimar, a Bauhaus (que significa literalmente «casa do edifício») estendeu as suas pesquisas a todas as artes maiores e aplicadas, de forma a integrá-las na arquitectura. Segundo o desígnio do seu fundador, todos os que participam na construção do edifício devem ser imbuídos pelos princípios do coordenador da obra e criar, em harmonia com ele, a parte que completa o todo.
Convocados por Walter Gropius, os maiores artistas do tempo ensinaram ali.. Daí que a Bauhaus tenha suscitado um vivo interesse no mundo e provocasse fortes reacções nos meios políticos alemães.
Transferido para Dessau em 1925, e depois para Berlim em 1932, foi definitivamente encerrada pelos nazis, quando estes chegaram ao poder em 1933.
Os princípios da Bauhaus marcaram profundamente a estética contemporânea: um grande número de escolas e de universidades adoptaram os seus métodos de ensino, assim como aconteceu com a indústria a respeito das suas concepções.
A maioria dos seus mestres e dos seus antigos alunos, acolhidos pelos EUA pouco antes de 1939, continuam a influenciar a arte moderna.
Henry Van de Velde, desejoso de deixar a Grossherzogliche Kunstgewerberschule de Weimar, por ele fundada em 1906 e de que ele era director, convidou Walter Gropius para lhe suceder.
Em 1915 Gropius aceitou o convite na condição de poder reorganizar o ensino das belas artes em Weimar segundo aquilo que pensava.
Na Primavera de 1919, juntou a Grossherzogliche Kunstgewerberschule e a Grossherzogliche Hochschule für bildende Kunst numa Hochschule für Gestaltung, sob o nome de Das staatliche Bauhaus Weimar, que instalou nos edifícios construídos por Van de Velde.
Convidados por Walter Gropius foram professores da Bauhaus desde 1919: Johannes Itten, Lyonel Feininger, Gerhard Marcks, Adolf Meyer; Georg Muche juntou-se-lhes em 1920, seguido de Paul Klee e Oskar Schlemmer em 1921; Wassily Kandinsky chegou em 1922 e László Moholy-Nagy em 1923.
Tendo suscitado a oposição das autoridades conservadoras da cidade e do governo provincial da Turíngia, a Bauhaus de Weimar, instituição estatal, fechou portas - com os professores e alunos solidários com o seu director - no termo do seu contrato de sete anos a 1 de Abril de 1925.
Numerosas cidades como Darmstadt, Frankfurt, Mannheim, estavam disponíveis para a receber, mas quem ganhou foi Dessau. O município pediu a Gropius para construir a nova escola. Iniciados nos finais de 1925 os trabalhos ficaram concluídos em Dezembro de 1926. Foram chamados novos professores: Josef Albers, Herbert Bayer, Marcel Breuer, Gunta Scharon-Stölzl, Hinnerk Scheper, Joost Schmidt.
(Enciclopédia Universalis)

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Contemporâneos - Gafes:Manuela Ferreira Leite

Somos fãs impenitentes dos Contemporâneos.
O Nuno Lopes entusiasma-nos enquanto actores e o Bruno Nogueira tem surpreendido claramente pela positiva.
E neste sketch ambos mostram bem as «qualidades» da actual líder da oposição...

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Mozart - Requiem - Karl Bohm

Terá sido a última obra do genial Amadeus. O Requiem causa-me sempre uma imensa emoção, não tanto por se reportar à morte enquanto omnipresença incontornável dos nossos dias, mas pelo que a vida lhe poderá resistir.
Essas vozes, que se erguem, poderosas, apontam para o justificado inconformismo perante as leis da vida tais quais elas ainda se nos apresentam.
Por isso o interesse pelo que a Biologia ou a Medecina vão anunciando enquanto estratégias para adiar tanto quanto possível esse instante. Querendo acreditar na exequibilidade de um dia se verificar o que um lunático professor de Cambridge anuncia para breve: a possibilidade de se viver mil anos à conta da capacidade para ir substituindo os nossos órgãos internos à medida, que eles vão denunciando a sua imprestabilidade.
Esta notabilíssima versão de Karl Bohm com Christa Ludwig entre as cantoras remete-me para essa luta quixotesca com um adversário ainda demasiado poderoso para contra ele acreditar na possibilidade de uma vitória...

ROBERT WILSON: O CEGO DE SEVILHA

De entre as leituras muito interessantes por que vou dispersando a minha atenção avulta um romance policial de Robert Wilson intitulado «O Cego de Sevilha». O protagonista é Javier Falcon, o inspector da Brigada de Homicídios da cidade andaluza, a quem uma sucessão de crimes irá suscitar uma crise íntima muito complicada.
O primeiro morto é Raul Jimenez, um empresário de sucesso da área da restauração, cujo corpo aparece amarrado e de olhos abertos para uma cassete pornográfica com mais de vinte anos e aonde a sua actual mulher, Consuelo, actuava como uma das participantes.
O adjunto de Javier, o ambicioso Ramirez, que não esconde o desejo de lhe ficar com o lugar, aposta na culpabilidade da viúva, até pelos benefícios imediatos inerentes a essa súbita condição. Mas Javier não está disposto a guiar-se por tais evidências. Tanto mais, que se segue logo outro corpo, o da meretriz Eloisa com quem Raul tivera relações exactamente antes de ficar à mercê do seu assassino.
Aprofundando a sua investigação, Javier descobre que o morto começara por enriquecer em negócios obscuros em Tânger e de lá viera com a família depois do rapto do filho, Arturo, que nunca mais chegaria a aparecer. Nessa época ele estava casado com a primeira mulher, precocemente levada pela doença e com quem Consuelo se parecia como se dela fosse papel químico.
Mas Javier remete-se igualmente para a relação com o pai, um famoso escritor em cuja casa ainda mora e cujas memórias escritas ele começa a investigar. Para perceber, igualmente, o quanto Tânger também para ele fora o ponto de partida para a carreira e como, ainda antes de enviuvar da primeira mulher, já ele mantinha uma relação clandestina com quem viria a ser a sua segunda mulher.
Pressentindo o quanto este caso irá mexer com o que ele próprio está a vasculhar no seu passado, Javier sente-se em íntimo desequilíbrio não sabendo como iludir a longa jornada de cada noite: A casa era uma prisão, o quarto uma cela, a cama um catre em que era torturado todas as noites.

sábado, novembro 29, 2008

Teremos sempre Paris!

É uma das cenas inesquecíveis da História do Cinema. Bogart e Bergman a despedirem-se no aeroporto de Casablanca e aquele a dizer que, por muitas voltas o mundo dê, a ambos há algo que ninguém lhes retirará: os momentos felizes partilhados a dois...
Por isso há que ir acrescentando tais momentos sempre na convicção de que, mesmo tardando a Utopia, vão crescendo em nós essas gratas recordações de cumplicidades alimentadas...

segunda-feira, novembro 17, 2008

UM HOMEM SEM RUMO

A peça de um dramaturgo norueguês Arne Lygre é bastante actual no que diz respeito à ambição ilimitada, à avidez pelo dinheiro ou à solidão de todos, mesmo quando se fazem rodear por supostos familiares.
Mas, sobretudo, permite ao elenco da Comuna mostrar os excelentes actores, que ali se exprimem. Aos já conhecidos Carlos Paulo, Jorge Andrade ou João Têmpera, juntaram-se três actrizes de notável capacidade não só na sua dicção, mas também na capacidade para exprimirem os sentimentos, que as trazem àquele fiorde aonde antes nada havia e onde, trinta anos depois, está uma cidade.
A encenação de Álvaro Correia é bastante funcional, aproveitando o espaço da sala de uma forma bastante eficaz. Pena foi que, num domingo à tarde, fossem apenas duas dezenas os espectadores privilegiados com um esforço honesto e competente de tão esforçado elenco...

domingo, novembro 16, 2008

A VISITA À YORK HOUSE

Era um daqueles espaços míticos pelos quais se passa tantas vezes e relativamente aos quais se repete a curiosidade sobre o que o caracterizará lá dentro. Na Rua das Janelas Verdes a York House era um desses exemplos mais paradigmáticos até esta tarde, quando a experiência gastronómica no seu restaurante A Confraria suscitou apreciações extremadas: a sopa, por exemplo, de cogumelos com miolo de vieira foi dos melhores ágapes conhecidos nos últimos tempos. Mas os pratos de peixe desiludiram: o cozinheiro Nuno Diniz anda a ganhar progressivo prestígio, mas revela-se demasiado afeiçoado às gorduras para os nossos hábitos alimentares.
Mas o espaço em si corresponde ao que se espera de um hotel de charme: com um espaço ao ar livre sobre as árvores, que deverá ser particularmente agradável na Primavera ou no Verão, e o acesso da porta de entrada à recepção do restaurante faz-se por escadas alusivas ao espírito romântico, que deverá ter estado no espírito de quem fundou esta conhecida casa.
Foi, pois, experiência curiosa para desmistificar a ideia superlativa dela criada, mas não tão entusiasmante quanto prenunciava a degustação da referida sopa…

A exposição na Ellipse

A Fundação Ellipse fica em Alcoitão e constitui um dos mais interessantes espaços aonde se pode apreciar arte contemporânea no nosso país. Embora tenha nascido com maior ambição - nesta altura só abre três dias por semana - a quase ausência de visitantes é bem o espelho de um tempo e de um espaço avessos às preocupações culturais, sobretudo se elas se revelam demasiado ousadas para as embotadas mentes de muito boa gente.

Afinal quem anda  a fazer queixa à ERC a propósito dos sketches dos Gatos Fedorentos ou dos Contemporâneos passariam por horrores se vissem quadros, esculturas ou fotografias, que remetem explicitamente para sexualidades exuberantes e muito pouco convencionais.

Há a óbvia prisão da sensibilidade feminina segundo Louise Bourgeois, as experiências singulares de Matthew Barney ou de Baldassari, as fotografias dos amigos de Nan Goldin ou as telas singulares de Julião Sarmento.

No vasto espaço as obras respiram, possibilitam uma apreciação sem constrangimentos. E existem dois vídeos curiosos, sobretudo o de uma mulher de origem árabe, que utiliza meios ambiciosos para expressar os limites colocados às mulheres num mundo dominado pelas religiões. Sem entusiasmar por esta ou aquela obra em si, a exposição vale pelos estímulos por todas suscitados.

domingo, novembro 09, 2008

Geração Iraque

«Geração Iraque», um filme de Barbara Necek, começa por parecer um filme ambíguo em relação ao tema abordado: o estado de alma dos jovens soldados em plena formação antes de seguirem para o Iraque.  Muito jovens, nos seus dezanove ou vinte anos de idade, eles papagueiam o discurso oficial, que os torna defensores do modo de vida norte-americano ameaçado pelo terrorismo e a missão respeitosa de levar a outrem os ideais de democracia.

Esse lado propagandístico, que faz pensar numa encomenda do próprio Pentágono para justificar as suas estratégias, ainda continua bem presente, quando se constata a criação de nove ou dez aldeias no deserto junto a San Diego para dar aos recrutas as condições mais aproximadas possíveis do cenário com que se irão deparar.

Emigrantes árabes até aumentam a credibilidade de tal simulacro, ao acederem a comportarem-se como figurantes pagos a 25 dólares à hora, assumindo os personagens imaginados pelos criadores de tal megaprodução.

Mas o aliciante do filme resulta da sageza da realizadora em pôr os jovens recrutas a falar, deixando-os enlearem-se nas suas contradições. Afinal os outros estão na sua própria terra e estes ocidentais não deixam de ali chegar como invasores. «Tenho de reflectir melhor sobre o assunto!», diz um desses rapazes, confundido no que diz e silencia e a candura do olhar a dar lugar a inesperada surpresa.

E, quando a realizadora os confronta entre a inexistência de qualquer relação entre os autores dos atentados do 11 de Setembro e os iraquianos ainda mais veemente é a reacção de embaraço nos seus interlocutores.

Um filme, pois, que não deixa de ser elucidativo sobre uma das muitas realidades do país que Barack Obama se prepara para liderar...

 

sábado, novembro 08, 2008

Recordar Serge Reggiani

Há dias o programa do Júlio Machado Vaz e da Inês Meneses na Antena 1 deu-me a possibilidade de recordar uma bela canção de Moustaki cantada por Serge Reggiani: «Tes Gestes».
Infelizmente aqui pelo You Tube não a encontrei para aqui a propor a quem aqui vem consultar os sons, as palavras e as imagens por mim prezadas.
Mas fica a oportunidade para evocar um cantor, que marcou gerações com poemas musicados sobre as multiplas formas de liberdade...

Verdade, Humildade e Solidariedade

Verdade, Humildade e Solidariedade. O título do livro de João Ermida, cuja leitura agora inicio.

Trata-se do relato de um antigo responsável por instituições bancárias que, subitamente, começou a ser tomado de crises de pânico relacionadas com o seu progressivo estado depressivo. Essa crise vai facultar-lhe uma súbita lucidez relativamente ao cenário aonde se julgara realizar profissionalmente nos anos anteriores. E que caracteriza como pejado de pessoas sem qualidades humanas, apenas apostadas em sobreviver independentemente do que tiver de fazer para tal. Um ambiente não só sem amigos, mas com o risco de se ser vítima de facadas nas costas  à menor distracção.

Numa altura em que o capitalismo está a viver uma crise profunda, este é daqueles livros de utilidade evidente para procurar discernir algumas pistas pertinentes para a compreensão do que estamos a viver...

 

domingo, novembro 02, 2008

PORQUE NÃO VOU VER A LISA EKDAHL

Não deixa de constituir uma surpresa: a quase duas semanas do seu espectáculo no CCB, a cantora Lisa Ekdahl já praticamente esgotou a sala.
Frustrada ficou, pois, a possibilidade de colhermos ao vivo as emoções derivadas de um jazz cheio de glamour.

UMA EXPOSIÇÃO EM MADRID

Em Madrid, na galeria La Fabrica, está a decorrer uma exposição do fotógrafo norte-americano Helmut Newton e intitulada «Visionando la Mujer del Nuevo Milénio».
Oportunidade de excepção para apreciar as imagens deste artista nascido em Berlim em 1920 e falecido em Los Angeles em 2004.
O seu tema de eleição era a Mulher, não no conceito em que existia no seu tempo, mas no que ela não tardaria a assumir logo a seguir. Como alguém comentaria, com Newton as mulheres superam a sua condição de objectos sexuais para sujeitos sexuais.
Por isso ele inovará: «Evitei tanto quanto possível fotografar em estúdio. Ao fim e ao cabo, uma mulher não passa a vida sentada ou de pé contra um papel de parede. Embora isso não facilite o meu trabalho, prefiro sair à rua com a ciência, enfiar-me me locais públicos e privados que geralmente só as pessoas ricas frequentam. Foram sempre esses lugares, normalmente inacessíveis aos fotógrafos, que mais me estimularam.»

A TRÊS DIAS DA MUDANÇA

A três dias das eleições norte-americanas cresce a ansiedade em relação ao seu resultado. Tudo parece bem encaminhado para que Barack Obama venha a ser o primeiro presidente de cor a sentar-se na Casa Branca, mas até à madrugada de terça-feira será sempre possível uma qualquer forma de reviravolta, que torpedeie as esperanças de milhões de pessoas em todo o mundo, expectantes quanto à possibilidade de se estar a anunciar uma nova era.
Não é que a nova Administração signifique necessariamente uma ruptura em relação à actual, mas esta é daquelas ocasiões passíveis de exemplificar como, às vezes, a forma pode sobrepor-se em importância ao conteúdo.
E os indivíduos acabam por ter maior importância no desenlace de grandes acontecimentos históricos do que as movimentações de classes pressupostas pela análise estritamente marxista.
É, aliás, isso mesmo o que Nigel Townson sugere, quando dá dos mandatos de George W. Bush um veredicto arrasador: «A invasão do Iraque foi um dos acontecimentos mais desestabilizadores e destrutivos desde a Segunda Guerra Mundial. As suas consequências vão perdurar durante séculos. Neste caso particular, a análise contrafactual mostra claramente a importância decisiva dos indivíduos em certos momentos da História.»

domingo, outubro 12, 2008

Cavalia

Não terá sido espectáculo tão fascinante quanto o do Cirque du Soleil, mas teve a beleza cénica, a música suave e os cavalos em si, que fizeram o quanto sabem, mas sobretudo exibiram a sua inegável elegância...

domingo, outubro 05, 2008

Natacha Atlas - Mon Amie La Rose

Gosto imenso destas sonoridades árabes. Talvez porque no nosso passado histórico enfatize o carácter quase idílico do período em que os Almorávidas andavam por estas paragens. Natacha Atlas é, a esse nível, a expressão de uma sensualidade própria de um clima das Mil e Uma Noites...

E não se pode exterminá-lo?

Diria Karl Valentin: e não se pode exterminá-lo? Teremos de ir aguentando as sucessivas ressurreições de Pedro Santana Lopes como se jamais se lhe revelasse no íntimo a evidência da sua incompetência política?

Anuncia-se agora a repetição da sua candidatura à Câmara de Lisboa numa oportunidade para comprovarmos, uma vez mais, a tese de Marx: duas vezes os acontecimentos se repetem na História dos homens, a primeira enquanto drama, a segunda em forma de comédia.

O pior é que vezes há em que essa comédia se torna bastante negra como está a suceder com o inefável Berlusconi, cujas conotações de guarda-roupa com Mussolini, se vão tornando tão mais evidentes quanto espelham a ideologia xenófoba por ele encarnada.

No caso de Santana Lopes não existe esse risco, já que ele não possui os meios necessários para manipular a opinião pública, de que o proprietário da maioria das estações televisivas italianas dispõe. Mas não deixa de espelhar a permanência de conceitos populistas de direita, que não deixam de representar um enorme perigo para a nossa democracia.

 

sábado, setembro 27, 2008

Gustavo Dudamel at the Proms - Arturo Márquez - Danzón Nº 2

na próxima 5ª feira lá estaremos a saudá-lo, quando dirigir a Orquestra Gulbenkian num programa com música de Mozart e de Strauss.
Mas o que verdadeiramente gostaríamos seria vê-lo cá a dirigir a sua Orquestra da Juventude Simon Bolívar. Como aqui se vê num dos temas mais conhecidos de Arturo Marquez...

NA MORTE DE PAUL NEWMAN

A morte de Paul Newman não é nenhuma surpresa. Sabia-se que o actor estava bastante doente, sendo uma questão de tempo este desiderato. Mas olhando para trás, para os filmes, que dele ficam, há a convicção de ter sido um dos maiores actores do século XX. Não só pela sua beleza, que o tornou um ícone para mulheres da sua geração, mas sobretudo pela inteligência de muitos desses papéis. Fosse como actor, fosse como realizador, Newman mostrou uma ideia de carreira, que jamais pactuou com a facilidade. Sobretudo, a partir de 1961, quando assumiu o papel do ingénuo Fast Eddie Felson, que iria descobrir da pior maneira as idiossincrasias de uma América decididamente apostada em deixar florescer um capitalismo sem escrúpulos, onde tudo se justifica.
A partir de então foram vários os seus títulos demonstrativos desse mesmo desencanto com um país necessitado de princípios. Desde o juiz Roy Bean até à vítima do jornalismo sensacionalista de Sally Field em «A Calúnia», rodado vinte anos depois, passando pelo regresso ao papel do filme de Rossen em 1986, então realizado por Scorcese, o actor sempre deu corpo a esse lado sombrio de um país, que sempre imaginou passível de ser melhor do que era.
Ficam agora os seus filmes para recordar uma personalidade muito respeitável numa indústria, que sempre contou com muitos mais crápulas do que com gente decente como ele sempre foi…

O MENINO DE OIRO DO PS

O livro que Eduarda Maio escreveu sobre José Sócrates dá uma ideia muito aprofundada sobre a personalidade do actual primeiro-ministro. Se característica lhe há a assinalar como dominante é a determinação em levar por diante os desafios a que se submete. Para tal estuda atentamente os dossiers e procura as opiniões de quem possa ajudá-lo a adquirir um juízo mais fundamentado dos temas sobre os quais se deverá pronunciar. Mesmo que esse entendimento revele uma das suas facetas mais criticadas: a soberba com que encara os disparates proferidos pelos seus adversários menos informados.
Esse denodo ainda mais o distingue da mediocridade deses que sempre procuraram denegri-lo, fosse no período pré-eleitoral em que houve quem pusesse em causa a sua orientação sexual, fosse depois, já como primeiro-ministro, quando a tentativa de humilhação passou por desvalorizar o seu currículo universitário.
É bem elucidativa a falta de qualidade dessa gente, que nada de construtivo propõe e só se parece realizar na difamação e na maledicência. Gente da estirpe de um aleivoso bloguista de Alcobaça deve roer-se de despeito por terem falhado, uma a uma, as estratégias conspirativas destinadas a derrubar aquele que, pelas suas qualidades, se prepara para marcar indelevelmente todo o futuro do país, dotando-os dos meios necessários para se adequar aos desafios da globalização e da sociedade do conhecimento.
Antes de o conhecer o projecto da jornalista era arriscado: afinal o visado pela sua biografia ainda está a cumprir o primeiro dos (esperamos…) muitos mandatos, que exequibilizarão a visão por ele assumida para esse porvir. Mas da leitura fica a certeza de ter sido aposta bem superada: esta obra ajuda a compreender melhor os caminhos por que se norteará a história dos portugueses nos próximos anos…

quarta-feira, setembro 24, 2008

A PROPÓSITO DO MAGALHÃES

Escandalosa a reacção de muita da oposição ao Governo ao criticar a distribuição dos computadores Magalhães à população escolar.

Aquilo que, à falta de argumentos, acusaram de eleitoralismo, não é mais do que uma das medidas mais estruturantes de toda a política de José Sócrates: daqui a uns anos teremos a generalidade da população trabalhadora a dominar os mais básicos conceitos informáticos de modo a adequar-se seriamente à futura sociedade do conhecimento.

O que quereria, afinal, Pacheco Pereira, quando vociferou contra a justíssima importância dedicada pelos órgãos de informação ao evento? Que tudo ficasse na mesma? Que a escola pública continuasse a seguir os métodos do antigamente, destinados a preparar gente incapaz de ir além do diminutivo?

Esta Oposição não está à altura do projecto visionário perseguido pelo líder do Governo. Vive permanentemente numa lógica de bota-abaixo em vez de se dedicar por pouco que seja a propostas alternativas, que provasse virem a ser mais viáveis num futuro previsível.

E é por isso que, apesar dos efeitos dramáticos da crise económica na qualidade de vida dos portugueses não se vislumbra no horizonte quem melhor poderá conduzir esta turbulenta nave pelos mares revoltos que, à proa, se anunciam.

 

domingo, setembro 14, 2008

A invenção da hélice

A ligação comercial entre Trieste e Veneza era, em inícios, do século XIX, uma das mais importantes de entre as que existiam no Mediterrâneo. Esse tráfego marítimo era controlado por um inglês, William Morgan, que, para o efeito, possuía um navio a vapor.
Não se tratava de uma ligação rápida: o sistema de roda então existente fazia com que grande parte do trabalho mecânico desenvolvido pelas máquinas se perdesse quando esse dispositivo ficava fora de água. Daí as muitas reclamações dos comerciantes das duas cidades cada vez mais interessados em desenvolver os seus negócios com maior rapidez.
É então, que entra em cena Josef Ressel, o paradigma do inventor incapaz de rentabilizar o seu notável engenho para as invenções.
Ressel era guarda florestal, depois de não ter conseguido acabar os seus estudos universitários em Viena devido à falta de recursos da família. Responsável pela selecção das árvores a abater e a logística da sua entrega em Veneza para alimentar os estaleiros da Marinha Imperial, ele irritava visivelmente os superiores com a sua mania para melhorar as ferramentas e utensílios de trabalho. O seu escasso tempo livre era dispendido em novas invenções.
Uma noite, durante uma festa, ele olha para um saco-rolhas e tem o golpe de génio de imaginar o que seria essa mesma forma adaptada a uma hélice capaz de garantir uma propulsão marítima mais eficaz.
Ele julga natural, que Morgan se interesse por tal inovação e procura-o em busca de financiamento das suas experiências. No entanto, o homem de negócios pressente quão arriscada fica a sua fonte de rendimento e nega tal colaboração.
É outro comerciante de Trieste, Fontana, quem lhe garante esse apoio, constituindo-se uma sociedade entre ambos.
Segue-se, porém, uma época terrível para o inventor: a mulher morre de tuberculose, deixando-lhe a responsabilidade quanto á educação de três filhos menores. Um destes também não tarda em morrer. E, na sequência de intrigas de Morgan, sai um decreto imperial a proibi-lo terminantemente a prosseguir a sua actividade.
Deslocando-se à corte de Viena, Ressel consegue demover o primeiro-ministro de manter essa proibição embora tenha de respeitar uma condição, que se revelará desastrosa: em vez de recorrer a máquinas a vapor inglesas - as mais fiáveis de então - Ressel terá de recorrer às que forem construídas localmente, na fábrica de um barão austríaco.
Ele vive também a ilusão de expandir o seu negócio para França, mas os negociantes franceses, que o contactam só se interessam por lhe roubar a patente e construir hélices sem lha garantirem qualquer compensação. Em Paris, Ressel quase cai na indigência, sem se mostrar capaz de pagar o hotel ou de arranjar bilhete de regresso a Trieste.
Quando cheg à sua cidade, Fontana está com vontade de se retirar da sociedade. É in extremis, que Ressel consegue garantir o financiamento para uma experiência a bordo de um pequeno navio para o qual são convidadas as autoridades mais representativas da cidade.
Ocorre, porém, o desastre: a máquina a vapor gripa e, embora nos escasso minutos em que pudera mostrar o seu desempenho a hélice garantira uma excelente velocidade, Ressel sai desacreditado e definitivamente abandonado por Fontana.
Cai, então, em definitiva desgraça: transferido para região afastada e insalubre, o que ganha mal dá para o sustento de uma família mais numerosa: da sua segunda mulher já gerara mais sete filhos.
Ainda assim não desiste do seu afã de inventar novos dispositivos: além de ferramentas e alfaias agrícolas mais eficazes é dele o invento de um tipo de rolamento de esferas.
Em 1843 muda de emprego, comprometendo-se com a Marinha de Guerra, mas as suas sugestões mais audazes (exemplo disso é a substituição da madeira por ferro na quilha de um navio) são completamente desprezadas.
Ressel acaba por morrer em Liubliana em 1857 e só depois viu valorizado o seu labor.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Max Raabe - Klonen kann sich lohnen

Houve um tempo em que o mundo se parecia encaminhar para uma certa forma de Utopia. Os terrores da I Guerra tinham sido tão terríveis, que se acreditavam irrepetíveis.
Os anos 20 viram então refulgir o cabaré berlinense com grandes compositores e autores de canções maravilhosas. Karl Valentin ou Kurt Weill eram os nomes mais representativos de uma forma de espectáculo, que era irónico, crítico, alegre e despretensioso.
Hoje em dia o cantor Max Räabe assume-se como o herdeiro dessa tradição interpretando espectáculos divertidos em que a inocência dessa época única é recriada.
Terá sido uma época tão alegre quanto efémera, já que os nazis não tardariam a extingui-la. Mas Max Räabe ajuda-nos a prolongar um pouco mais o prazer desse espírito de uma cidade culta, ironicamente transformada durante uma dúzia de anos na capital da abjecção e do crime.

INGO MAURER: ESCULPIR A LUZ

A luz pode ser esculpida, eis o ensinamento que o designer Ingo Maurer nos transmite a partir de Nova Iorque. Mais do que as suas originalíssimas luminárias, são as suas instalações de luz, que espantam pelo que possuem de encantatórias, de únicas. Atento a tudo quanto vislumbra à sua volta, o artista alemão há décadas radicado em Nova Iorque, vai concebendo peças em série, mais preocupado em dar força ao seu fluxo criador do que em rarear a sua produção para as valorizar junto de potenciais coleccionadores.

Uma descoberta muito gratificante dos últimos dias por ser demonstrativa de como não existem limites ao livre curso da imaginação.

 

domingo, setembro 07, 2008

MANIPULAÇÕES MEDIÁTICAS

Acredito que um dos piores serviços, que as televisões e as rádios têm dado à democracia é abrirem os seus altifalantes à liberdade de expressão dos seus espectadores ou ouvintes. Porque quem tem tempo para se colocar na posição de opinador nesses espaços são os reformados e os desempregados, que se colocam na posição de vítimas de uma sociedade injusta, capaz de os empurrar para a inactividade entediada a troco de magras pensões ou subsídios. E são esses estratos sociais os apoiantes de formas lineares de fascismo expressas em repúdio dos políticos, em apelos à pena de morte contra os criminosos ou à expulsão dos imigrantes.

Não faltam nesses fóruns quem enuncie saudades de um passado idílico em que havia «ordem e sossego», forma eufemista de glosar a admiração pelo ditador de Santa Comba que, para nosso indignado descontentamento, ainda continua a ser herói virtuoso para muita gente.

Que os jornalistas aceitem esse tipo de concepções como raiz ideológica da sua versão da realidade, eis o paradoxo do que têm sido os títulos de caixa alta nos telejornais das últimas semanas. Às tantas até o mais defendido dos espectadores contra esse tipo de manipulação mediática acaba por se interrogar se, efectivamente, e de um momento para o outro, o país virou terra sem lei.

É evidente que não é assim: muitas dessas notícias apenas mereceriam nota de rodapé em jornais sensacionalistas, mas nestas últimas semanas deram ensejo a umas quantas pessoas saírem momentaneamente do seu anonimato para viverem os seus quinze ou vinte segundos de glória: precisamente aqueles em que se tornam protagonistas de uma ocasional entrevista em horário nobre das televisões…

Gogol Bordello - Supertheory of Supereverything

Os Gogol Bordello alcançaram o estatuto de uma banda de culto com um som de mistura das influências do punk e das músicas ciganas.
Há algo de Kusturica nesta banda, que já entusiasmou Madonna ao ponto de já terem sido convidados para os concertos dela.

sábado, setembro 06, 2008

Os cisnes negros de Manuel Maria Carrilho

Os artigos de Manuel Maria Carrilho no «Diário de Notícias» continuam a ser bastante estimulantes não só por reflectirem os acontecimentos do nosso tempo, mas também por o fazer de uma forma bastante acessível para o leitor comum sem transigir com o rigor do que pretende dizer.

Desta feita, sob o título «Cisnes Negros», ele aborda um livro recentemente publicado em Portugal por Nassim Nicholas Taleb, para demonstrar como tinha razão aquele conhecido futebolista, que dizia só se justificarem prognósticos no final de cada jogo. E assim é, de facto: a História nada tem de determinista pelo que os seus sobressaltos resultam de eventos quase inimagináveis pouco antes de acontecerem. Ora porque resultam de conjunturas completamente alteradas por um momento determinante de tudo o que se seguirá (uma inundação, um terramoto, um atentado, etc.), ora porque estando criadas as condições para a mudança, quem por ela ficará posto em causa entra previamente em estado de negação.

Quanto me recordo daquele comandante de um dos navios aonde andei como tripulante, que negava qualquer possibilidade de estar próximo o fim do apartheid, quando já se começavam a organizar concertos globais para o questionar!

O fascínio da realidade é esse: podemos utilizar os nossos conhecimentos da História e das idiossincrasias dos povos para lançar algumas pistas quanto à forma como evoluirão determinados regimes, mas teria o Muro de Berlim caído se à liderança da União Soviética não tivesse ascendido um político muito mais tíbio do que se julgaria (Gorbatchev)? Mas, no sentido contrário, quando percorri a América Latina então dominada por regimes militares fascistas, não poderia imaginar na possibilidade de, passados vinte anos, quase todo o subcontinente ter virado claramente à esquerda.

Mas é a tal história de só se terem conhecido os cisnes negros, quando se os descobriram na Austrália. Até então ninguém apostaria que essas aves tivessem outra cor, que não o branco… 

quinta-feira, setembro 04, 2008

SOPHIA MELLO BREYNER: «CONTOS EXEMPLARES»

Pode-se imaginar o desencanto de Sophia, quando escreveu os seus «Contos Exemplares». O tempo era de ditadura e a Igreja, ao seu mais alto nível, parecia rendida por inteiro às práticas muito pouco cristãs de quem, então, mandava.
Como aguentaria a autora essa religiosidade cristã, de que jamais abdicaria?
A resposta estará, porventura, aqui, através destes exemplos que prefiguram outras tantas parábolas relacionadas com a realidade de então.
No país aonde os ricos preservam os seus bens e o seu poder sem dar azo à melhoria das condições de vida dos mais miseráveis, a Igreja tem de optar entre a fidelidade aos seus princípios ou o pacto com Donos de Casa, com Homens Importantes e com Príncipes deste Mundo.
É que o Portugal de então é um país de mendigos e de tuberculosos, aonde a palavra divina peca pela sua excessiva surdina.
Nos escritos de Sophia não sobra testemunho de quem arriscava lutar na clandestinidade e tombava muitas vezes nos diversos tarrafais do regime.
Oriunda de uma classe privilegiada, embora atenta às injustiças, ela não se apercebia dos voluntariosos esforços de quantos se deixavam de resignações e se tornavam revoltados.
De qualquer forma, além de muito bem escritos, estes Contos reflectem o estado de alma de uma classe desencontrada com os desafios da História.

terça-feira, setembro 02, 2008

Quilapayún - El pueblo unido jamás será vencido

Continuando a recordar a grande música chilena da época de Salvador Allende - quando estão quase a passar 35 anos sobre o golpe de Pinochet - aqui fica o clássico «O Povo Unido Jamais Será Vencido».

Opiniões a ter em conta

Está quase a sair mais uma edição da revista «Visão», mas só agora a pude ler e dela retirar opiniões interessantes de dois dos seus entrevistados.
Um deles é o guru do ambiente Nicholas Stern, que se desloca a Lisboa para participar numa conferência sobre o tema.
Algo catastrofista ele alerta os governos europeus para os riscos de inacção perante os perigos, que se avizinham. Num resumo bastante sucinto dessas opiniões, diz o artigo: «a falta de acção perante as alterações climáticas pode custar à economia mundial até 20% do Produto Interno Bruto global. Pelo contrário, tomar medidas imediatas para atacar o problema custaria cerca de 1% do PIB mundial. O Mediterrâneo será a região do globo mais afectada, sobretudo Portugal, Espanha e Itália. E 200 milhões de pessoas poderão ter necessidade de vira a refugiar-se no Norte da Europa!».
A outra entrevista com interesse é com Rosa Mota. A propósito da recente participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim, ela mostra-se desassombrada na forma como denuncia a tremenda campanha mediática, que procurou denegrir a organização e a própria República Popular da China.
Este diagnóstico de completa rendição ao perfeccionismo da organização serve de carapuça para os defensores do chefe politico feudal conhecido por Dalai Lama e para quantos se preocupam demais com os Direitos Humanos dos chineses e se esquecem dos respeitantes à população mais empobrecida do Ocidente. Vejamos, então, as opiniões objectivas da ex-maratonista portuguesa sobre o entusiasmo dos chineses por este evento: «Percebeu-se que estes Jogos eram da cidade de Pequim, mas que foram aceites por todo o povo. Essa foi uma lição que a China deu ao mundo: um país tem de estar unido no mesmo objectivo para organizar um acontecimento destes.»
E sobre a campanha suja contra os Jogos, diz a ex-atleta: «Houve uma campanha contra estes Jogos, em que se usou e abusou dos fantasmas da poluição e do calor. E muita gente embarcou nela sem o mínimo conhecimento. (…) As pessoas que embarcaram nessa campanha deviam agora pedir desculpa».

segunda-feira, setembro 01, 2008

Victor Jara - El derecho de vivir en paz - Full Version

Estão quase a passar-se trinta e cinco anos sobre o assassinato de Victor Jara.
Sobre a autoria desse crime procuram agora os familiares do cantor e a Justiça chilena apurar a identidade. Mas consigam ou não dar resposta a essa interrogação, garantindo o consequente castigo, há algo que a História já definiu: a perenidade da memória de Jara, celebrado na sua arte e no seu comportamento político, em contraponto com o opóbrio vinculado aos seus anónimos torturadores.
Na inquieta cobardia em que se procuram esconder decerto viverão no despeito de verem crismado com o nome do assassinado o Estádio em que terão decidido executá-lo. E até provavelmente se sentirão injustiçados pelo rumo dos acontecimentos, já que após o recuo momentâneo suscitado pelo golpe de 11 de Setembro, o Chile volta a avançar pelas tais avenidas referidas por Salvador Allende no seu último discurso e que prometem conduzir a futuros mais radiosos para o seu povo...

domingo, agosto 31, 2008

Sigur Ros - Glósóli

Enquanto eles não chegam (o concerto em Lisboa é em Novembro!) vale a pena irmo-nos aqui preparando para essa experiência.
Tanto mais que o videoclip tem imagens de um dos sítios mais bonitos, que conheci:a Islãndia!

UMA VERSÃO RECICLADA DO FIM DA HISTÓRIA

Parece não haver cura para os esforços profetizadores de Francis Fukuyiama.
Depois de errar clamorosamente com o anúncio do fim da História e a vitória incontestada da sua versão de democracia - aquela em que os órgãos de poder e de comunicação social estão concentrados na posse da classe empresarial, assim dotada dos meios julgados necessários para controlar esse statu quo - o guru da direita ocidental vem anunciar a derrota iminente dos autocratas do tipo Putin ou Chavez.
Quanto mais não seja esta nova preocupação de Fukuyiama demonstra bem os incómodos, que os novos senhores do Kremlin ou o líder venezuelano estão a suscitar nos desconsolados epígonos da defunta pax americana.
O que o ideólogo da Administração Reagan e actual professor Universidade Johns-Hopkins em Washington continua a não compreender é a completa subversão da lógica política mundial com o advento das economias emergentes e com a necessidade de garantir novos equilíbrios através de redobrados esforços de negociação.
Que a União Europeia esteja a ser arrastada por uma visão maniqueísta das realidades internacionais, com os russos a fazerem o papel de maus e os Saakashvilis de virtuosos democratas, eis uma grave tendência, que se pode vir a pagar muito caro.
Infelizmente um órgão supranacional, que tem em Durão Barroso o seu líder, não precisa de se caracterizar melhor. Essa liderança revela bem o quão distantes nos encontramos da época em que Jacques Delors personificava por si mesmo um projecto europeu, assente numa lógica federalista e unificadora capaz de transformar a União numa verdadeira superpotência capaz de contrabalançar o poderio das demais.
Impotente nas suas contradições, incompetente à conta da mediocridade dos seus principais governantes (Sarkozy, Merkel, Brown, Berlusconi e uns tantos mais), a União Europeia tenta tornar credíveis as palavras de Fukuyama na expectativa de regressar aos «good old days» em que a História parecia definitivamente escrita e os negócios dos principais oligopólios ocidentais poderiam prosseguir a recato de quaisquer grandes ameaças.
Helás! Tal qual a sua defunta, mas mediática teoria, a actual revisão dela publicada nos jornais desta semana, fará Fukuyama provar, uma vez mais, uma fama de Zandinga. Porque a Rússia veio mesmo para ficar, a China está cada vez mais forte no seu crescimento económico e militar, a Índia e o Brasil vão fazendo o seu caminho e a velha Europa, se não quiser ficar para trás só tem de rejuvenescer os seus líderes e agarrar-se à única hipótese de ser actuante no futuro, que aí vem: a de se dissociar de conceitos neoconservadores e regressar à lógica de uma grande potência entre o Atlântico e os Urais…
O que significa negociar com a Rússia em vez de a diabolizar!

terça-feira, agosto 26, 2008

SÓCRATES BEM MERECE NOVA MAIORIA ABSOLUTA

É cada vez mais notória a decepção de muitos comentadores políticos de direita em relação à estratégia comunicacional assumida pela actual Presidente do PSD.
Reconheça-se a esta uma qualidade: depois do populismo das anteriores direcções do Partido, há que considerar higiénica esta forma de estar na política, muito embora as tentações de demagogia já espreitem, como agora sucedeu com o pedido de demissão do Ministro da Administração Interna por causa de alguns casos de polícia, particularmente enfatizados pelos media a contas com a falta de notícias desta silly season.
Mas, mais do que tal poupança de palavras, o que desnorteia nesta direcção do maior partido da Oposição é o quão contraditórios se revelam os seus valores, quando têm a palavra quem a representa.
Afinal que PSD é este? Defende a Regionalização, como a reivindica Rui Rio? É pela privatização da Caixa Geral de Depósitos como propõe António Borges? Ou é contra uma e outra como parece ser a visão da líder?
A ideia, que este PSD dá é que não sabe o que quer. Pode dizer uma coisa e o seu contrário, de acordo com quem em seu nome se exprime.
Não se trata, pois, de discursos insuficientes, mas de propostas coerentes, o que mais lhe falta. E quando, pelo contrário, o partido do Governo parece saber bem por onde quer ir e que objectivos pretende alcançar, o que mais surpreenderá é se a maioria eleitoral em 2009 não for ainda mais absoluta do que a verificada nas últimas legislativas...

Poudovkine: «Tempestade sobre a Ásia»

No início dos anos 20, durante a guerra civil, o exército inglês, que ocupa a Mongólia, captura um jovem caçador de peles, Baïr, que se colocara ao lado dos guerrilheiros. Encontram nele um amuleto, que pertencera a um lama, e que continha a carta de Gengis Khan, que o faz passar por descendente do célebre conquistador tártaro.
Depois de quase o terem executado, os ingleses decidem fazer de Baïr, um rei fantoche a eles submetido…
Vsevolod Poudovkine figura entre os cineastas de vanguarda que, em prol das ambições propagandísticas do jovem Estado soviético, conseguiram, criar uma notável força lírica no ecrã. Ela é bem notória neste filme rodado em cenários naturais da Mongólia e que fora amputado de muitas das suas sequências contemplativas hoje tidas como fascinantes.
Para celebrar a virtude bolchevique e a sua vitória sobre as forças do Mal, Poudovkine filma homens e lugares com uma inspiração única, visivelmente inspirado pelas infinitas planícies e pelo magnetismo do seu actor principal, Valeri Inkijinov.
E, paradoxalmente, é quando o argumento se dedica a denunciar o peso das tradições e das crenças, a verdade etnográfica de algumas cenas rodadas, de forma documental, num mosteiro budista, que o filme mais impressiona por nos dar a ver, a um século de distância, como se vivia na Mongólia nos anos 20.

***

É uma evidência, que poucos podem contestar: na história do cinema um dos seus períodos mais gloriosos aconteceu na União Soviética de José Estaline.
Nessa época, realizadores da dimensão de um Eisenstein, de um Dziga Vertov ou de um Poudovkine inventaram o cinema e deram-lhe a gramática essencial, que ele assumiria durante todas as décadas seguintes.
Até um notório fascista como António Lopes Ribeiro não se privou de colher em tais realizadores muito do seu saber, depois por ele investido em glória de Salazar.
A oitenta anos de distância os propósitos propagandistas de um filme como «Tempestade na Ásia» deixaram de ter a importância de então, embora sejam elucidativos quanto à forma como era então encarado o marketing político numa lógica de agitação e mobilização de quem deveria construir o novo regime. Mas, mesmo para quem torça o nariz a uma tão evidente defesa dos ideais comunistas, a beleza estética do filme de Poudovkine não pode deixar indiferente. Porque se trata de um monumento sob a forma de imagens em movimento. E as mais básicas preocupações culturais deverão sugestionar o potencial espectador para se render ao prodígio estético das imagens colhidas nos cenários naturais da Mongólia durante a primeira década da Revolução de Outubro.

segunda-feira, agosto 25, 2008

Catherine Sauvage - Special

É outro dos nomes quase esquecidos da música francesa da época de ouro dos anos 60 e 70.
Catherine Sauvage bem merece ser recordada como uma das grandes vozes dessa época.

No desaparecimento de António Charrua

Gostaria de ter sido mais consagrado, mas morreu quase no anonimato. Era o pintor António Charrua e dedicava-se sobretudo a temas abstractos.
Numa das suas convicções ele reconhecia que «toda a pintura dita moderna apela a uma nova construção do espaço que tem a ver mais com o que sabe do que com o que se vê».
É, de facto, uma constatação com que não posso deixar de concordar: quando me deparo com peças contemporâneas não se me coloca normalmente um gosto estético ligado á sua expressão, mas o quanto ela se interliga com outras referências culturais ou sociais, que lhe conferem o seu verdadeiro sentido.
Não se gosta de tais peças pela sua beleza, mas pelo seu significado.

domingo, agosto 24, 2008

Rubem Fonseca: «A Festa»

O início lembra «Mrs. Dalloway», a excelente novela de Virgínia Woolf sobre uma mulher de estatuto social elevado que organiza uma festa em sua casa e, através dela, compreende não só o quão vazia foi a sua vida, como o quanto ela poderia ter sido diferente se, num passado distante, houvesse seguido as inclinações do seu coração.
Mas Maria Clara Pons, a personagem do conto «A Festa» de Rubem da Fonseca, depressa perde protagonismo, entregando-o aos vários convidados da sua festa. Que têm a futilidade esperada em quem frequenta ocasiões sociais apenas ditadas pela obrigação de aparecer e de partilhar conversas estereotipadas com quem rivalizam em afirmação de sucesso.
O inesperado surge pela morte súbita de um dos convidados. Mas nem esse corpo sem vida perturba a convivencialidade instituída. Quem estava a dançar, a beber copos ou a conversar, continua a fazê-lo sob o álibi de se tratar assim de o homenagear como se ele continuasse a partilhar toda aquela fingida animação.
No entanto, que mais perturbador para aquela gente, do que a morte enquanto elemento perturbador das suas certezas. A morte, que desarticula todas as vaidades e transforma em nada o tremendo vazio daquelas vidas.
Mas todos os convidados da festa iludem esse íntimo receio de se confrontarem com a sua inevitabilidade enquanto partilham uma experiência colectiva.
Quando se coloca a possibilidade de participarem no funeral de Casemiro todos desaparecem apesar das promessas em comparecerem.
Tão solitária quanto terá sido a sua passagem pela vida, também o corpo do conviva baixa à terra na maior dos desamparos.
O conto de Rubem da Fonseca acaba por constituir uma crítica mordaz a uma classe social abastada, mas tão gelatinosa de personalidade, quanto ausente de genuínos sentimentos...

sábado, agosto 23, 2008

RUBEM FONSECA: «A CONFRARIA DOS ESPADAS»

O primeiro conto do livro é elucidativo sobre o conteúdo misógino de alguns textos de Rubem Fonseca. Através das cartas de um assassino de mulheres para a sua provável vítima seguinte questionamo-nos sobre as razões psicológicas assumidas por algumas pessoas para quem a sua morte, através de um qualquer ritual, corresponde a uma certa forma de realização.
Sacrifícios religiosos houve-os em diversas civilizações ao longe de toda a História da Humanidade. Ainda hoje, sob a forma de terroristas suicidas persiste essa forma extrema de dar sentido à vida, nem que seja em prol de uma causa política ou religiosa, já que se prometem recompensas indizíveis num mirífico Além.
Mas, mesmo nas nossas sociedades menos fanatizadas, dominadas pelo racionalismo cartesiano, que razão poderá levar um homem a dar-se a outro a comer literalmente como sucedeu ainda não há muitos anos na Alemanha?
Não posso, pois, compreender esta forma de livre arbítrio, que motiva as vítimas do narrador do conto do mesmo nome a se tornarem cúmplices da sua obsessão. Tanto mais, que terão passado pelas exigentes provas de pré-selecção a que ele as terá submetido e que comprovou o quanto elas prezavam a vida e a quanto nela se sentiam felizes.
É o absurdo sob a forma mais incompreensível. Ainda que o conto sirva igualmente para confirmar o domínio superlativo do autor quanto ao uso da nossa língua.

Serge Gainsbourg - Les Feuilles Mortes

Começo aqui a evocação de um dos discos mais memoráveis que, em tempos, conheci.
Estava em 1975 e em França o meu ex-cunhado dava-me a conhecer um album com 20 canções de ouro. Esta era uma das canções aí presentes. Tendo a peosia de Jacques Prévert como estímulo e a voz do imenso (em talento) Gainsbourg...

terça-feira, agosto 19, 2008

Casa das Penhas Douradas (6)

O maior obstáculo a uma eventual vontade de mudança para a Serra é a distância a que fica do litoral.
Não é impunemente que se nasce e cresce junto ao mar, que durante anos nele se mergulha para ganhar o sustento e, mesmo depois, já dele perdidas as graças, que não se o deixa de pressentir bem perto no voo cauteloso das gaivotas sobre o tecido urbano, quando se lhe adivinha grossa tempestade.
Por razão fundamentada se passou a designar por Beira Interior o que antes nos ensinaram como sendo Beira Alta ou Beira Baixa.
O que distingue estas terras de grandes contrastes entre montes e vales é esse divórcio da orla maríima. Mesmo que para ela lhe envie as águas dos rios, que brotam das suas nascentes!
Não lhe faltam, pois, essas águas aqui e ali recolhidas em represas, que simulam vastos espelhos azuis à volta dos quais balem as ovelhas e os carneiros.
Mas são espelhos com fronteiras bem demarcadas, que nunca dão azo à sensação de infinito colhida nas praias atlânticas. Se nestas se pode metaforizar a liberdade sem entraves, nas paisagens serranas colhe-se o pressentimento claustrofóbico de sobrarem limites. E a própria cor do granito evoca uma austeridade luterana, feita de medos e preconceitos.
É por isso que não acederia facilmente a uma vida na Serra. Por muito que se revelem agradabilíssimos os dias de férias aí vividos.

domingo, agosto 17, 2008

Um bispo como presidente do Paraguai

Enquanto a Europa vai elegendo governos de direita, que não conseguem trazer quaisquer soluções para a crise económica nela em curso, a América Latina vai enterrando de vez o seu passado recente manchado por ditaduras execráveis e elegendo novos líderes assumidamente de esquerda.
Que pese embora o incómodo causado a neoliberais de pacotilha, vão aprofundando as suas bases de apoio nos respectivos países.
Hugo Chavez continua a liderar o maior produtor de petróleo do continente sem que a burguesia de Caracas o consiga apear.
Lula demonstra com indicadores económicos o quão positiva tem sido para a maioria dos brasileiros a sua governação.
Na Bolívia o índio Morales superou com distinção a tentativa golpista da burguesia em vergá-lo e venceu o recente referendo com mais 10% de votos do que ocorrera no anterior escrutínio para a Presidência.
E há que contar ainda com o Equador ou com a Nicarágua, aonde governos de esquerda vão secundando esta viragem à esquerda, que poderá até ter consequências em Cuba, aonde Raul Castro experimenta via de afirmação do regime, aligeirando-o das suas características mais contestáveis para melhor defender o projecto de quem com ele esteve heroicamente na Sierra Maestra.
Cabe agora a vez a Fernando Lugo no Paraguai de quem se espera o sucesso, que está a ocorrer com alguns dos seus colegas latino-americanos.
E, enquanto antigo bispo, ele vem imbuído de uma filosofia cristã, que se julgaria marginalizada: a de uma Igreja orientada para a valorização dos mais pobres, dos mais desprotegidos face a uma classe cuja visão capitalista a transforma na cúpida e pecadora representação do que de mais diabólico deveria ser estigmatizado pelos servidores do Vaticano.

Casa das Penhas Douradas (5)

O que representa a Serra da Estrela no nosso subconsciente colectivo?
Em meninos ouvimos falar da bravura de Viriatos e Sertórios, capazes de darem a volta ao miolo dos bem organizados romanos, impedindo-os, anos a fio, de aqui cumprirem a sua colonizadora ideia de civilização.
Já então esta gente era tão teimosa quanto rude. Como se a rijeza dos granitos forjasse os tecidos de que são feitos os seus ossos e as suas carnes e o rigor das invernias acentuasse essa tendência para se fecharem entre as cumeadas, vendo com desconfiança quem a elas aportava.
E, no entanto, grandes eram as riquezas aqui produzidas: já na sua «Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela» Gil Vicente punha uma personagem - Serra - a listar a profusão de animais e produtos deles derivados com que poderia obsequiar os reis de então em preito de vassalagem pelo nascimento da infanta D. Maria.
Em anos mais próximos de nós radicava-se aqui uma forte indústria de lanifícios, que transformou em operários, quem só tinha até então os campos para trabalhar.
E, depois, foi o inevitável apelo das lonjuras. Primeiro para as promessas de vida fácil da cidade que, tão só esfumadas, deram origem a um fluxo de gentes daqui para tantas diásporas.
A Serra ficou ameaçada de abandono. Tanto mais que nem a altura dos seus cumes possibilitava a espessura das neves procuradas por turistas de Inverno para os seus tombos nos esquis.
A Serra tornou-se, assim, o local de atracção estival das excursões de fim-de-semana de grupos de pelintras ou de episódicas visitas de uma pequena-burguesia aí apostada em pisar, por uma vez, o proclamado sítio mais alto do país.
E, no entanto, a tal como o resto do planeta, também a Serra se move. E torna-se mais atractiva mediante investimentos destinados a um mercado mais abonado, capaz de sustentabilizar uma ocupação contínua dos seus equipamentos hoteleiros…
Há dias, na televisão, dizia-se que a Serra está com muitos mais visitantes neste Verão. Que as camas de hotéis estão quase esgotadas!
Prémio merecido para quem nos convida a descobrir cenários que nos tolhem a respiração, tão belos são.
E que valem a pena ser explorados mais do que episodicamente numa vida, que se quer preenchida...

Bartali - Paolo Conte

É um dos cantores, que sempre aprecio.
Há dias passou pelo Algarve, mas de pouco se soube desse concerto destinado a aligeirados veraneantes pouco dados às subtilezas da poesia do cantor.
Pena não ter subido até Lisboa, aonde outro público de apreciadores o poderia consagrar...

sábado, agosto 16, 2008

Shara Worden: March 2008

Uma voz a descobrir? Até agora Shara Worden era-me completamente desconhecida. Num jornal leio que a sua presença é anacrónica de perfeição e profundidade. Será?

Don't Go Down to The Quarry - Peter, Paul and Mary

Kings of convenience - Winning a battle, losing the war

Esta dupla norueguesa anda por estes dias a actuar no nosso país.
Não é que o seu estilo melódico e delicado me agrade por aí além. Mas fica aqui um exemplo do que costuma caracterizar as suas canções...

The Corrs-Dreams

Num DVD com os Chieftains encontrei um tema de colaboração desse mítico grupo irlandês com este conjunto pop.
Porque não tem sido frequente dar aqui espaço no blogue a um tipo de música mais ligeira, aqui fica «Dreams» só com as Corrs.

domingo, agosto 10, 2008

A VACUIDADE DOS ANTICHINESES MILITANTES

O artigo de Orville Schell publicado no The New York Review of Books, e agora traduzida na edição dominical do Público, é bastante elucidativo sobre o estado das idiossincrasias chinesas neste momento de exaltação nacionalista relacionado com os Jogos Olímpicos. Sobretudo, porque explica a vacuidade dos esforços de alguns activistas tontos, apostados em campanhas pró-Tibete ou pró-Direitos Humanos (embora se preocupem muito pouco com os mesmos objectivos nas sociedades ocidentais donde emergem!), que só conseguem aumentar a ligação dos chineses ao seu Governo.
Não foi preciso ter vivido em Xangai durante mês e meio em 1998 para sentir uma profunda admiração por esse povo extremamente voluntarioso, capaz de mover montanhas para chegar aos seus objectivos. Características muito preferíveis às desses monges oportunistas, liderados pelo Dalai Lama, e que aproveitando crenças religiosas, levam pobres camponeses a partilharem com eles o exíguo resultado do seu labor.
Entre os dirigentes chineses e esse sacerdote budista, a minha simpatia vai indubitavelmente para os primeiros. Não por serem comunistas que, decerto, não são. Mas, sobretudo por terem tido a arte de conjugar os vastíssimos milhões de pessoas para um objectivo fundamental: o de conseguirem melhorar de forma significativa os seus padrões de consumo mediante um crescimento económico capaz de atemorizar seriamente os ocidentais.
Os Jogos Olímpicos, que estão a decorrer, confirmam o sucesso de um país, capaz de reinventar uma antiga citação de Mão Zedong: ao suscitar uma Grande Desordem debaixo dos céus, a China está a subverter os fundamentos do capitalismo ocidental. E isso é excelente: talvez se assista ao nascimento de algo de novo. De revolucionário!

sábado, agosto 09, 2008

O DESESPERO DE UM ANÃO

Mikheil Saakashvili não é flor que se cheire. Só daqui a uns anos saberemos das suas ligações à CIA e à óbvia tentativa norte-americana de, com o conluio da NATO, cercar a Rússia com regimes hostis à sua volta.
Durante um par de anos, o actual presidente georgiano conseguiu iludir o seu povo prometendo-lhe uma clara melhoria dos seus padrões de vida à conta da sua proclamada amizade com os norte-americanos e, sobretudo, com George W. Bush.
No entanto, à medida que essas promessas iam sendo denunciadas como vãs ilusões, Saakashvili ia ficando cada vez mais nervoso. Começou a reprimir manifestações oposicionistas. Para já não falar do candidato, que contra ele concorrera nas eleições presidenciais e que foi liminarmente assassinado…
Agora que antevê mudanças na Casa Branca e um mundo cada vez mais influenciado no seu curso pelo ressurgimento da Rússia de Putin, ele sabe terminado o tempo de vida da sua carreira política. Tentou, pois, o desesperado salto em frente, esperançado que a NATO acorresse em seu socorro.
Ao avançar para territórios, que têm tanta (falta de) legitimidade para se tornarem independentes quanto o Kosovo, o resultado está à vista. A derrota adivinha-se e a Rússia não deixa de mostrar o quão energeticamente dependente está a Europa da sua boa vontade.
O bombardeamento de um oleoduto no Caúcaso funciona como óbvio aviso a quem tiver veleidades em se imiscuir no quintal das traseiras de Moscovo...

quarta-feira, agosto 06, 2008

AS LIÇÕES DE RANDY PAUSCH

Esta foi a semana em que morreu Randy Pausch, o professor universitário norte-americano saído da pior maneira do anonimato no ano transacto, quando, já anunciado o estado terminal do seu cancro no pâncreas, proferiu a sua derradeira lição, plena de sabedoria sobre o que é relevante na vida de cada um de nós.
Das suas citações mais celebrizadas pelos media, escolho duas, que me parecem particularmente felizes. Numa delas, Pausch definia argutamente o que é experiência: «é o que se consegue, quando não se alcança o que se desejava».
E, de facto, a vida está recheada de tiros desviados dos alvos para que se apontou. Se não se acerta na «mouche» de cada vez que se tenta mais sabedoria se tem para aferir a pontaria e aproximá-la tanto quanto possível do que se pretende.
Como lembrava Joseph Conrad (citado por Lobo Antunes na sua crónica semanal na «Visão») «tudo o que vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais».
Mas a outra citação de Randy Pausch não deixa de ser igualmente elucidativa da sua filosofia de vida: «Os obstáculos existem por alguma razão. Não para nos afastar, mas para que possamos mostrar em como queremos algo.»
E, de facto, um dos grandes argumentos diferenciadores sobre o carácter de alguém reside na sua determinação: são os teimosos, os que não baixam os braços perante as dificuldades, quem maior probabilidade possuem de alcançarem o outro lado do arco-íris. Porque, aos pusilânimes, aos que passam o tempo a ver o mar mais alto do que a terra, nem um bambúrrio de sorte os poderá guindar ao sucesso.

terça-feira, agosto 05, 2008

Casa das Penhas Douradas (4)

A sala de refeições esclarece que tipo de pessoas deverão ser cativadas para o projecto. Quatro mesas pequenas encostadas à parede das traseiras, aquela de cujas janelas se vêem as serranias distantes. Mesas, que se destinam aos casais aqui à procura de reviver cenários de excepção para reacender chamas esmorecidas nas rotinas do dia-a-dia.
Para quem escapa a tal regra, sobra a mesa grande do centro da sala, destinada a grupos mais heterogéneos.
Depois há a comida confeccionada segundo os preceitos da nouvelle cuisine adaptados aos sabores nacionais num resultado desigual, ora surpreendente pela novidade, ora repetitivo pelo recurso, dia após dia, a uma mesma lógica de recurso a produtos de custo moderado decorando-os de forma a épater le bourgeois.
Que resulta não duvidemos: numa das refeições deu para ouvir enfáticos elogios aos cozinheiros, como se deles só surgissem ágapes divinos, daqueles que até seriam capazes de assombrar o próprio Deus.
De elogiar sim o profissionalismo de quem nos serve, um homem de singular polivalência, pois cumpriu as mais diversas tarefas de apoio aos residentes enquanto ali estivemos.
De nome Paulo, ele desiludira-se com a sua passagem de vários anos pelas Pousadas de Portugal, antes de ali vir a aterrar como verdadeiro anjo da guarda de quem ali se recolheu, ciente de assentar arrais no Purgatório com vistas para o prometido Paraíso...

domingo, agosto 03, 2008

UM PARTIDO EM ESTADO CATATÓNICO

«Mero fenómeno de refracção da luz». É assim, que Emídio Rangel classifica o actual CDS, algo assimilado a uma inexistência de per si.
E, no entanto, não está muito afastado no tempo esse passado em que a chegada de Paulo Portas ao cargo de primeiro-ministro parecia uma inevitabilidade mais ou menos óbvia, tanto mais que a passagem do seu émulo no PSD, Santana Lopes, se denunciava a sai mesma como sinónimo de incompetência.
Agora são muitos os sinais de desagregação do partido, que ameaça regressar à dimensão do táxi com que, em tempos, os seus escassos deputados chegavam à Assembleia da República.
Em Setúbal, Carlos Dantas demite-se e arrasta consigo muitos dos militantes, que acreditavam na democracia interna para a escolha das futuras listas eleitorais. De férias no Algarve, Celeste Cardono espanta-se por ainda sobrarem algumas dezenas de militantes nesse distrito. E Narana Coissoró não se exime de proferir mais umas quantas farpas por conta das comparações entre o que valia o partido no tempo de Ribeiro e Castro e o que hoje valerá.
Parece, assim, condenado o futuro político do antigo director do «Independente». A quem já nem se consegue encontrar no discurso outra estratégia, que não passe pela contradição entre a defesa dos mais pobres pensionistas e reformados e a condenação xenófoba de outros não menos desvalidos a quem a sociedade empurrou para guetos sem cuidar da sua inserção social…
Um discurso vazio de quem já está em estado politicamente catatónico...

segunda-feira, julho 28, 2008

Casa das Penhas Douradas (3)

A tarde cai e o sol infiltra-se pelos interstícios dos ramos ou do tronco das árvores. Filtros, que dão a ilusão de não haver só um, mas vários sóis a iluminarem esse crepúsculo, que se espraia sobre a serra.
Mas, mais do que tal ilusão, sobra a evidência de uma simetria na forma como o paisagista do espaço entendeu a distribuição dessas árvores.
O encanto também tem dessas coisas: deixe-se a Natureza manifestar-se sem controlo e é o caos. Cabe, então, ao homem, domá-lo e orientá-lo para o que é a pulsão humana para a ordem, para a harmonia da proporção.
Porque orientado para o lazer, tudo neste edifício é pensadopara refrear os motivos de inquietação. Sobrará a escravatura inevitável do telemóvel, mas essa é da exclusiva responsabilidade de quem aqui deveria procurar o encantamento e não se livra de quantas correntes o tendem a aprisionar aos compromissosda cidade. Arriscamos uma surtida ao terraço, mas, apesar de estarmos em Julho, a tarde está demasiado fria para arriscar um arrefecimento. Não importa: abrem-se as cortinas e é no conforto do colchão, que nos entregamos ao prazer quase esquecido de observar a lenta declinação do sol no horizonte, transmutando-se do seu branco amarelado muito intenso para o alaranjado que, a acreditar nos antigos, anuncia um tempo bom para o dia seguinte. Se a vida é uma permanente rotina, sacudida por breves e luminosos momentos mágicos,este é decerto um destes…

Teatro Meridional: Contos de Viagens

Que espantosa actriz é Carla Galvão! Embora o trabalho de Fernando Mota na criação de uma ambiência sonora adequada seja, igualmente, carecedora dos maiores elogios pela capacidade de criar sonoridades a partir dos mais prosaicos objectos do dia-a-dia, é na actriz, que se polariza todo o espectáculo.
E se ela utiliza os seus diversificados talentos para ilustrar os mais diversos tipos de personagens, desde a rapariga que quer ir ao baile até à sua severa mãe, passando por velhos, por novos, por mulheres, por crianças a que a sua mímica e tom de voz dão credibilidade.
É uma hora intensa até se compreender as características de um povo que, para sobreviver, também se armou em conquistador do mundo, sem perder a nostalgia da terra deixada para trás.
A fome e a falta de água estão bem presentes no quotidiano de tais personagens, que procuram a sua via para a felicidade sem se queixarem da triste sina, que os deixou exangues…
A escolha de textos tem a marca de Natália Luísa, que continua a ser a impulsionadora de uma companhia, que não tem merecido o justo destaque, que o seu trabalho justificaria. E merece, igualmente, encómio a cenografia, que se mostra funcional e ajustada à imagem preconcebida pelo espectador quanto ao exotismo daquele país africano.
«Contos em Viagem» mostra bem como uma peça de teatro não precisa de ser comprida, nem maçuda, para revelar a sua originalidade e assim atrair público interessado…
Basta ser genuína, sagaz e soberbamente interpretada!