domingo, outubro 31, 2010

Joshua Bell plays Beethoven (5/5)

Concerto no CCB: EM RÉ MAIOR

Em noite de temporal umas dezenas largas de melómanos semi-lotaram o Grande Auditório do CCB para mais um concerto da Orquestra de Câmara Portuguesa dirigida pelo maestro Pedro Carneiro.
O programa incluía o Concerto para Violino e Orquestra em Ré Maior, op.61, de Beethoven e a Snfonia nº2, em Ré Maior, de Johannes Brahms.
Muito embora o público não tenha regateado aplausos ao desempenho dos intérpretes, este concerto esteve muito distante de algo de memorável.
Na primeira obra o solista era o violinista Adrian Florescu, que costumamos ver integrado em algumas das orquestras nacionais e depressa se concluiu que ele se ajusta muito mais a tal condição do que à de destaque assim momentaneamente atribuído. A sua competência técnica é evidente, mas não corresponde à mestria de um qualquer intérprete talentoso. E o próprio instrumento não terá favorecido a interpretação, apresentando algumas desafinações bem perceptíveis.
A segunda parte foi melhor com uma orquestra sintonizada com as orientações de Pedro Carneiro, que será, nesta altura, um dos mais interessantes maestros em actividade no nosso país.
Pena foi que esta segunda parte do concerto fosse dedicada a Brahms. Porque, muito embora haja bastantes apreciadores da música dele, é evidente a sua limitada capacidade de inovar, preferindo situar-se na continuidade dos génios da geração anterior. O que fará concluir pela sua essência conservadora no que ao percurso artístico diz respeito. Bem podia ele exceder-se em tonitruantes percussões ou em vibrantes sopros, que o resultado definitivo acaba por não ser o de uma empatia.
Mas, pesem embora tais limitações, a Orquestra de Câmara Portuguesa lá vai dando continuidade ao seu projecto, que ganha solidez e cativa simpatias muito por conta da extrema juventude da maioria dos seus músicos.

sábado, outubro 30, 2010

RHYTHM IS IT! Trailer

Filme: RHYTM IS IT! de Thomas Grube e Enrique Sanchez Lansch

Em 2003 o maestro da Orquestra Filarmónica de Berlim, Sir Simon Rattle concebeu um espectáculo diferente para uma das suas obras de referência: «A Sagração da Primavera» de Igor Stravinski.
O que o movia era a consideração de que a música clássica deve ser de todos e não apenas de homens de negócios e de suas entediadas esposas.
Contou para tal projecto com o apoio de uma escola berlinense frequentada por miúdos de bairros desfavorecidos e com dois coreógrafos ingleses: Royston Maldoon e a sua assistente Susannah Broughton.
As quase duas horas de documentário correspondem a uma das mais eloquentes demonstrações de um processo criativo. Porque as duas centenas e meia de miúdos entre os 8 e os 20 anos enfrentam uma experiência até então inédita nas suas vidas, que além do seu carácter artístico, os fará transformar.
Grube e Lansch alternam as entrevistas a Rattle, a Royston e a Susannah com as dedicadas a essas crianças e adolescentes, percebendo-se que muitos deles encaram essa vivência como a oportunidade para melhor se encontrarem consigo próprios.
Por exemplo Maria, a rapariga de 14 anos com a cara marcada pelo acne e que escolheu viver com o pai, porque sempre fora desatendida pela progenitora, talvez encontre aqui a solução para se tornar a boa aluna, que nunca foi.
Ou Martin que, aos 19 anos, encontra na solidão a estratégia para não ser tocado por outrem, talvez passe a encarar como natural esse contacto físico tão intimidante.
Ou ainda o jovem nigeriano Olayinska, que chegou órfão à Alemanha e ali vive sózinho, talvez encontre mais uma oportunidade para satisfazer a sua insaciável vontade de conhecimento.
A música em si é o que se sabe: o ritmo da peça de Stravinski apela às forças primitivas do homem e Rattle incentiva a sua orquestra e encontrar esse ritmo frenético, que o entusiasmo dos jovens bailarinos tornará ainda mais notável.

domingo, outubro 24, 2010

Filme: 36 VISTAS DO MONTE SAINT LOUP de Jacques Rivette

De todos os filmes quantos os que, actualmente, se exibem nos ecrãs lisboetas, um dos mais interessantes será este título de Jacques Rivette. Oportunidade para confirmar o seu tema recorrente: as ambiguidades das formas de representação assumidas por actores e actrizes capazes de seduzirem.
No caso deste filme não é o teatro em si, mas um velho circo ambulante para onde regressa uma designer parisiense numa espécie de regresso do filho pródigo decidido a reencontrar a sua perdida identidade. Levando consigo um italiano do tipo galã, que a ajudara, quando o carro se lhe avariara na estrada.
O circo em causa nada tem do aparato tecnológico hoje dominante e por isso arrasta consigo o sinal de uma decadência, que cativa tão exíguo número de espectadores. Apesar de uma fidelidade inquebrantável por uma forma quase artesanal de apresentar  o seu mundo de ilusões e de máscaras.
Como diz dele o crítico João Lopes o que mais conta é a capacidade de preservar uma dimensão romanesca do cinema, céptica em relação aos romantismos, mas sensível ao poder cristalino dos corpos e das palavras, das imagens e dos sons.

Filme: VISITA GUIADA de Tiago Hespanha (2009)

Como se explica Portugal aos muitos turistas estrangeiros, que de Guimarães ao Algarve nos visitam?
Foi para dar resposta a essa interrogação, que Tiago Hespanha acompanhou intérpretes de diversas línguas, que informam os seus clientes a propósito das vicissitudes da História portuguesa em relação com as paisagens por que vão passando.
Esses guias-intérpretes são, na maioria excelentes conseguindo interessar esses estrangeiros com histórias curiosas nem sempre alinhadas com a verdade científica.
Mas, como se diria num famoso filme de John Ford, «entre a realidade e a lenda, escolha-se esta última».
O documentário é, igualmente, bastante eficiente na forma como mostra que o discurso se altera consoante as nacionalidades a que se destinam conseguindo quase sempre criar uma certa forma de empatia entre o que se vê  e a cultura donde se provém…

terça-feira, outubro 19, 2010

Os Sorrisos do Destino de Fernando Lopes - CLAP FILMES 2009

Filme: OS SORRISOS DO DESTINO de Fernando Lopes

Ada e Carlos estão casados há mais de vinte anos e a relação entre ambos está longe dos seus melhores dias. Sobretudo, quando Carlos, até aí avesso às modernices dos telemóveis, descobre uma mensagem amorosa do amante dela, um jovem escritor angolano crismado de Manuel B.
Monogâmico por natureza, Carlos irá à procura desse rival  de quem se acabará por tornar amigo, ao mesmo tempo que Ada se vai distanciando, condenada a uma solidão pressentida como uma espécie de castigo.
Fernando Lopes volta a temas recorrentes da sua filmografia (a impossibilidade do Amor, o distanciamento de valores e de gostos por duas pessoas à beira da definitiva separação) contando com interpretações de actores habituais na sua obra, á excepção do pintor Julião Sarmento, aqui a interpretar o personagem Costa, o amigo em cuja casa o preterido Carlos irá encontrar provisório abrigo.
Singelo no seu desenvolvimento, o filme explicita a competência de um realizador, que não abdica das suas evidentes referências cinéfilas (de Godard a Méliés). Ao som dos inevitáveis boleros regados a bom whisky...

domingo, outubro 17, 2010

Filme: JEWBOY de Tony Kravitz (2005)

As primeiras imagens desta média metragem de uma hora são de um corpo a ser preparado para um funeral.
Estamos em Sidney, na Austrália, numa comunidade judaica de que o defunto era o rabino.
Embora instado a estudar e a suceder-lhe, o filho, Yuri, não está virado para essa hipótese. Muito embora não questione os fundamentos da sua religião, os seus objectivos de vida estão orientados para o mundo exterior a esse pequeno universo.
Bem pode Rivka, com quem a avó gostaria de vê-lo casar, assediá-lo, que Yuri tem outras ideias: sedu-lo muito mais Sarita, outra emigrante, que ele descobre na empresa de táxis aonde trabalha e com quem vai saindo sem, porém, se atrever a tocá-la.
Mas o corpo feminino atrai-o de uma forma quase irresistível e ele acaba por ir a espectáculos de peep show ou a deitar-se com uma prostituta.
Depois, se ainda procura pela mortificação do corpo, punir-se pelo seu «pecado», acaba por desistir e, pacificado consigo mesmo regressa a casa da avó, donde saíra semanas antes em conflito consigo mesmo…
O filme acaba por ser um documento interessante sobre a dificuldade em manter concepções fundamentalistas numa sociedade em que tudo se relativiza. Mas aonde o sentido de equilíbrio acaba por se revelar possível, quando se compreende a estupidez de manter cristalizações mentais, quando tudo nos ínclita a aderir aos valores dominantes.
Pouca sorte a dos que continuam a agarrar-se a concepções absurdas na sua falta de racionalidade...


Joan Sutherland no dueto da flor

Não será das mais emblemáticas interpretações de Joan Sutherland a que ela representou com o Dueto da Flor da ópera «Lakhmé» de Delibes, mas é das árias, que mais me encantam no reportório operático. E é mais uma boa oportunidade para evocar a soprano recentemente desaparecida.

Sutherland, Tourangeau - Viens, Mallika! "Flower Duet" Lakmé

sábado, outubro 16, 2010

Filme: 12 AND HOLDING de Michael Cuesta (2005)


Existe um grupo de amigos inseparáveis liderados por Jacob e que conta com o seu irmão gémeo Rudy, com o gordo Leonard e com uma rapariga chamada Malee.
Um dia, ao querer proteger a cabana por eles utilizada do ataque de uns vândalos, Jacob morre. E eles chegam, assim, ao fim da sua inocência infantil, com sentimentos até então desconhecidos: vingança, desgosto e, surpreendentemente, as primeiras paixões…
Os adultos não lhes servem de apoio, já que estão, eles próprios, a contas com os seus problemas.
Os sobreviventes passarão, pois, da infância à adolescência, carregando assim o sentimento de revolta.
O filme acaba por representar um belo testemunho sobre a juventude...

Documentário: «O Fantasma de um crime» de Robert Stone (2006)

Quase cinquenta anos passados sobre a morte de John Kennedy em Dallas ainda sobrará algum aspecto inovador capaz de dar resposta a muitas das perguntas jamais respondidas sobre tal acontecimento?
Quando revisitamos o caso através de documentários, que o abordam de forma quase incessante, é essa a nossas atitude prévia: será mais do mesmo ou ainda nos conseguiremos surpreender?
O documentário de Robert Stone procura inovar pela investigação a respeito da memória colectiva norte-americana em torno de tal evento. É que o assassinato do presidente dá-se à luz do dia num local público, com quatrocentas ou quinhentas pessoas a assistirem, muitas delas a tirarem fotografias ou a filmarem o que se ia passando.
E, no entanto, as muitas teses sobre o sucedido em seis segundos jamais se tornariam irrefutáveis…
Quando a lógica endossaria suspeitas para os sectores da direita é um suposto esquerdista - Lee Harvey Oswald - quem acaba preso. Por pouco tempo, já que, dois dias depois, acaba abatido por Jack Ruby perante novas câmaras de filmar.
De entre os colaboradores deste filme de quase hora e meia figura Norman Mailer, um dos mais argutos analistas da política do seu país na segunda metade do século passado...


The Dεspεratε Ηουrs (1955) 4/11

Filme: THE DESPERATE HOURS de William Wyler (1955)

Em 1955 o macartismo ainda constituía uma ameaça real a muitos dos actores, argumentistas e realizadores de Hollywood, que viam amigos ostracizados pelos estúdios onde outrora tinham desenvolvido o seu trabalho.
Embora não directamente associados às actividades  proscritas pelo execrável senador do Wisconsin,  Bogart e March eram dos mais activos actores a promoverem manifestações e outras formas de luta contra tal caça às bruxas.
Vê-los neste filme de William Wyler faz mais sentido por ele coincidir com a fase final desse evento do que pelo filme em si, caracterizado pelos habituais estereótipos maniqueístas da indústria cinematográfica norte-americana.
Bogart é um vilão ruim como as cobras, personificando um foragido de uma prisão, movido pelo desejo de se vingar do polícia que o apanhara. Por seu lado March é o pacato cidadão, que vê  o quotidiano da sua família  ameaçado por essa ameaça entrada portas adentro da sua casa.
O sequestro da família, as vicissitudes por que passam os personagens com algumas reviravoltas quanto a quem vai estando a controlar os acontecimentos, prolonga-se por quase duas horas ao fim das quais os maus morrem e os bons saem recompensados.
O filme vale, pois, pelo que lhe está associado colateralmente do que pela história banal em si mesma...

Homenagem a Joan Sutherland

Nos próximos dias iremos aqui homenagear a grande soprano Joan Sutherland, que agora se calou definitivamente aos 83 anos de idade.
La Stupenda foi uma das mais maravilhosas vozes do canto lírico, que nós pudemos ouvir em reportório rico e variado.
Agora que lhe foi redigido definitivo óbito, continuaremos a ouvi-la nos muitos testemunhos, que dela ficam registados.

Joan Sutherland - Luciano Pavarotti - Lucia di Lammermoor 79

quinta-feira, outubro 14, 2010

Livro: «OS CÃES DE RIGA» de Henning Mankell (5)

Há poucos dias a Letónia foi a eleições e o governo de centro-direita reforçou a sua maioria, embora ainda deva contar com mais de 20% de eleitorado russófono, que votou contra ele. Mas a notícia trouxe uma questão recorrente a propósito dos antigos países do leste-europeu, que viveram décadas na órbita soviética: como é possível que se tenha passado de uma cultura política orientada para uma lógica de redução das diferenças sociais e de uma distribuição mais equitativa dos rendimentos disponíveis para este vale tudo de um capitalismo predador,  caracterizado por uma assumida indiferença por quem não consegue alcançar condições para uma qualidade de vida minimamente digna?
Embora todos os romances, que abordem situações policiais numa atmosfera de guerra fria me suscitem sempre grandes dúvidas, consigo ler alguns deles com alguma capacidade de distanciamento para aferir da sua fundamentação ideológica.
Com o livro do genro do cineasta sueco Ingmar Bergman repete-se essa disponibilidade, muito embora esteja de regresso uma forma de maniqueísmo bem conhecida em que os pró-soviéticos são todos corruptos e cruéis e os seus opositores uns heróis sem mácula.
Que isso não era assim, demonstram-no os romances do insuspeito John Le Carré.  Assim como no campo pró-soviético existia quem acreditava nos ideais generosos propagandeados pelo regime, também não faltavam oportunistas sem escrúpulos no lado contrário. Pensemos em gente da estirpe de um Walesa ou de um Havel para ficarmos conversados.
À beira de chegar ao fim de um romance, que já me acompanha há três meses, não posso dizer que «Os Cães de Riga» me esteja a  entusiasmar. Desculpe-se o facto de ser um dos primeiros romances de Mankell a utilizar o inspector Wallander. Outros títulos posteriores revelaram-se bem mais interessantes. Com a vantagem de não incorrerem em ambiguidades nos seus pressupostos ideológicos...

Livro: «A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER» (2) de Gonçalo M. Tavares

Na sequência do seu acidente Joseph Walser acorda no hospital, aonde lhe amputaram, entretanto o dedo indicador da mão direita. E ninguém lhe dá a atenção, que ele sente como merecida: numa altura em que o seu parceiro de dados de sábado à noite (Flutz) organiza atentados mortíferos contra as forças ocupantes, o hospital enche-se de feridos em condições muito mais graves, que a sua.
Só lhe resta voltar a casa, para se fechar com a sua absurda colecção de objectos metálicos com um máximo de dez centímetros numa das suas três possíveis dimensões, indiferente ao choro de Margha, que se sente solitária com tal companheiro.
O regresso à fábrica priva-o da sua máquina: transferido para tarefas administrativas, Joseph Walser vai prosseguindo com as suas rotinas adaptadas à nova condição de deficiente sem atender a todo um mundo em mudança à sua volta.
E Gonçalo M. Tavares vai descrevendo este percurso com uma minúcia de pormenores, que quase o conota com os ritmos de um cinema português bastante premiado, mas de escassa capacidade de atractividade junto do seu público natural...

segunda-feira, outubro 11, 2010

Filme: THE ERECTIONMAN de Michael Schaap

Aos quarenta anos, Michael Schaap vai queixar-se ao médico dos seus problemas de erecção nas relações com a sua mulher, com quem já vive há dezoito anos.
Mas o verdadeiro motivo para essa visita tem a ver com uma investigação ao estilo de Michael Moore sobre o grande acontecimento sociológico ocorrido em 1998, quando surgiu no mercado a miraculosa pílula azul, publicitada por Bob Dole, um ex-candidato presidencial à Casa Branca. E que vinha dar resposta a uma preocupação masculina omnipresente no seu imaginário desde tempos imemoriais: a perda da potência sexual.
Uma das consequências dessa revolução medicamentosa teve a ver com o próprio vocabulário: deixou de se falar de impotência, passando-se, então, a considerá-la «disfunção eréctil». Mas a maior consequência do surgimento dessa pílula foi a de aumentar a insegurança masculina perante a mulher, com quem deixou de ter qualquer álibi para falhar. Cria-se, assim, uma nova dependência: sem a milagrosa receita, o homem fica com medo de falhar. E, por isso mesmo, toma-a de forma cada vez mais precoce, havendo quem o faça logo à saída da adolescência.
Quem ganha com isso é a indústria farmacêutica, capaz de multiplicar os seus já fabulosos lucros à conta de uma fobia cada vez mais expandida.
E acentua-se, também, aquilo que alguns já caracterizam como o declínio dos homens, intimidados pelas mulheres e buscando escape nas drogas, no desporto ou na pornografia. Ou no número crescente de grupos só de homens, que se reúnem para discutir entre si os seus avassaladores problemas de auto-estima...
No mundo competitivo de hoje, os problemas de realização sexual interligam-se com os de um cada vez mais difícil sucesso profissional.

domingo, outubro 10, 2010

Livro: «A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER» (1) de Gonçalo M. Tavares

Para Joseph Walser a vida não poderia ser feita de mais rotinas do que as habituais no seu dia-a-dia. Apesar de viver num país ocupado por um invasor, ele sente nada ter a ver com essa guerra, que lhe passa ao lado. Para se entreter tem a sua colecção, com a qual se encerra à chave na sua cave, os jogos de dados a dinheiro aos sábados à noite, ou os almoços de domingo com a mulher Margha.
Mas tudo muda subitamente na vida deste pacato operário quando, num desses sábados à noite, abandona mais cedo a jogatina e descobre a infidelidade de Margha com o encarregado da fábrica, Klober Muller.
Mas o que ainda mais o irá sacudir do seu tédio reconfortante é o acidente de trabalho na máquina da fábrica, de que se sentia prolongamento quase natural.

terça-feira, outubro 05, 2010

Documentário: RONALD SCHERNIKAU, UN GAY COMMUNISTE de Cláudia Müller

Ronald Schernikau sonhou toda a vida ir viver para a República Democrática Alemã para cumprir o sonho de viver numa sociedade comunista. Mas, quando o consegue em definitivo, em Setembro de 1989, o Muro de Berlim está a poucas semanas de ser derrubado. E, quando morre de Sida em 20 de Outubro de 1991, Ronald já sabe que o seu sonho se esfumou por completo.
Mas a sua notoriedade ficava garantida apesar de, em vida, só ter publicado três livros, por ser o símbolo de um intelectual insubmisso perante o sistema capitalista, que execrava.
Se estivesse vivo ele contaria, actualmente, 50 anos, já que nascera em 1960 em Magdeburgo, nessa Alemanha comunista aonde desejaria voltar. Mas, ainda é bebé, quando o pai foge para o lado ocidental, deixando-o com Ellen, essa enfermeira, que também nunca renegará os valores políticos da sociedade em que crescera depois da Segunda Guerra Mundial.
Será apenas porque deseja voltar a viver com o homem amado, que ela acede a meter-se na mala de um automóvel com o filho de seis anos e a passar a fronteira proibida. Para ter a maior desilusão da sua vida: esse marido tão desejado já tem outra família e nada quer dos que deixara no passado. Ciente de ter feito a opção errada, Ellen jamais deixará de lamentar a sua opção, até porque a vida de enfermeira na RDA lhe garantia regalias bem maiores do que as usufruídas na Alemanha Ocidental. Para o filho, a quem se liga ainda mais intensamente, não deixará de transmitir essa nostalgia do paraíso perdido.
Muitas vezes os filhos revoltam-se contra os valores inculcados pelos pais, mas esse não é o caso de Ronald, que adere, muito novo, ao Partido Comunista Alemão. Mas outra originalidade o distingue dos seus colegas de liceu: além de comunista, é assumidamente homossexual, escrevendo um romance de grande sucesso, quando ainda só tem 16 anos, «Kleinstadnovelle» sobre os amores entre dois rapazes adolescentes.
Acabado o liceu parte para Berlim, aonde a comunidade gay o recebe de braços abertos. Ronald Schernikau é então um jovem tão brilhante, quanto arrogante nas suas convicções. Que não deixava de adorar os espectáculos de variedades pimba da televisão leste-alemã.
De um e do outro lado do Muro todos o cortejam para entrevistas televisivas ou para conferências. Mas esgotado o dinheiro ganho com o primeiro livro, ele tem grande dificuldade em encontrar editor para o que se lhe segue. Sem dinheiro, acaba por ir viver para um apartamento sórdido.
Em 1986 inscreve-se na Universidade de Leipzig, apoiado por alguns dos maiores escritores comunistas de então. A bolsa de estudos e o apartamento confortável, que lhe é atribuído, reforçam-lhe as convicções quanto à sua escolha decisiva: ele quer ganhar a nacionalidade do país aonde nascera. E que, agora, lhe permitia passar o tempo a fazer o que mais gostava: ler e escrever…
Não era, porém, um seguidor do regime de Honecker: através das suas críticas, ele esperava que se corrigisse e melhorasse, adequando-se a um tipo de regime donde as pessoas não tivessem vontade de fugir, aliando o melhor do que existia nos dois lados do Muro.
Em 1 de Março de 1990, quando muitos dos presentes já só pensavam em virar a casaca, ele tem uma intervenção corajosa no último congresso dos escritores leste-alemães.
Não tardará a confirmar as suspeitas de ter contraído sida. Nos meses, que se seguem, ele vive uma verdadeira corrida contra a morte para concluir a sua obra maior: «Legende». Romance sobre a sua vida e o seu tempo, que só será publicado oito anos depois.

Documentário: ARIZONA: LE PARC NATIONAL DU GRAND CANYON de Marcus Fischötter (2010)

É decerto dos mais fascinantes locais para se visitar nos Estados Unidos. Não admira que só o Empire State Building rivalize com o Grand Canyon em número anual de visitantes. Porque é daqueles sítios míticos aonde se quer ir pelo menos uma vez na vida. Para testemunhar nas falésias a sucessão geológica de milhões de anos. Para ver as cores da paisagem a mudarem ao longo do dia segundo os humores do Sol. Ou para reencontrar as nuvens tal qual Ansell Adams as captadas com a sua mítica câmara.
Existem obviamente os percursos turísticos como o de ir de mula até às margens do rio Colorado. Ou a preservação de um dos felinos mais em perigo de entre as espécies vivas - o puma.
Mas a maior emoção suscitada pelo Grand Canyon reside no facto de nada mais se lhe assemelhar em todo o planeta.

domingo, outubro 03, 2010

Filme: DESASSOSSEGO de João Botelho (2010)

Que fique claro: por muito que lhe admire muito do que escreveu, o universo pessoano está-me tão distante quanto o estão as estrelas da constelação de Betelgeuse.
Não possuo estados de alma torturados sobre a existência e todas as questões relacionadas com os destinos pátrios esbarram na minha ideologia internacionalista.
Significa isto que me dispus a ver o «Filme do Desassossego» como obra artística em si sem me preocupar propriamente com o conteúdo filosófico a ele subjacente.
Primeira dificuldade, ou antes segunda,  já que essa falta de empatia temática me distanciava de imediato do objecto em si: a torrente de palavras. E aqui há um paradoxo: se o cinema deverá ser sobretudo o tratamento de um discurso (ficcional ou ensaístico) por imagens, Botelho vê-se obrigado (por veneração a Pessoa) a querer dar tanta importância à verbosidade das ideias como à sua representação por fotogramas. O que é tarefa complicada porque, sobretudo, por culpa da belíssima fotografia de João Ribeiro, acaba por ser fácil abstrairmos dessas palavras para apreciarmos os enquadramentos felizes de Lisboa nas horas crepusculares do início ou do fim do dia.
E é esse o argumento para ter gostado tanto do filme: nunca Lisboa foi tão bela nos ecrãs de cinema como neste filme. E só por isso vale a pena vê-lo.
Poderia, é claro, falar da descoberta de Cláudio da Silva como actor a ter em conta em futuros desempenhos. Ou de como outras curtas interpretações (Rita Blanco, Alexandra Lencastre) me pareceram ajustadas ao pretendido. Porque quanto ao desassossego em si deixemo-lo a Pessoa e a quem o continuam a idolatrar.