sábado, abril 30, 2016

FESTIVAL INDIE: «Treblinka» de Sérgio Tréfaut

À partida tudo começara com uma conversa entre Sérgio e Marceline Loridan Ivens, que lhe confessara o quanto gostaria de voltar à China, onde andara décadas atrás com o marido Joris, dali trazendo algumas das imagens cinematográficas mais icónicas do maoísmo no seu esplendor. Perante o medo de andar de avião, o realizador sugeriu-lhe a viagem no Transiberiano.
Foi o clic para imaginar a viagem de uma velha senhora nesse mesmo comboio onde se encontra com os fantasmas do seu passado, todos eles relacionados com os campos de extermínio: Auschwitz, Dachau, Treblinka.
Refletidos pelos vidros da composição em movimento, diversas vítimas de um passado, que se pretendia irrepetível, recordam as sucessivas provações dos que desapareceram no Holocausto: os comboios atafulhados, o frio, o medo, a fome, a ilusão de uma qualquer forma de sobreviver e o terror dos últimos instantes, quando as válvulas do zyklon B eram abertas.
O filme, de apenas uma hora, é extremamente bonito, suscitando sempre a controvérsia sobre a legitimidade de se estetizar o horror? Mas a resposta pode e deve ser sempre a mesma: porque não se contribuir para melhor realçar o quão inaceitável ele era?
Até porque Tréfaut - muito pessimista quanto ao presente e ao futuro - quer realçar que, em vez de não se repetir, o extermínio massivo de populações tem prosseguido desde então, bastando olhar para os massacres no Camboja, na antiga Jugoslávia, no Ruanda ou, atualmente, na Síria. Como se a pulsão do ser humano para destruir o seu semelhante não conseguisse ser contida.
Rejeitando uma perspetiva tão negra quanto ao que a Humanidade está destinada, não posso deixar de reconhecer a pertinência deste filme, que bem merecerá ganhar o Prémio dos que concorreram na Competição Nacional do Indie deste ano.

COSMOS: Seremos menos inteligentes do que os nossos bisavós?

Observamos o mundo para o compreender. A inteligência permitiu-nos forjar as ferramentas para saber o que há no infinitamente pequeno e no infinitamente grande. Há mais de um século psicólogos, biólogos, geneticistas e neurólogos dissecam-na, analisam-na, medem-na.
Inventámos os computadores, chegámos à Lua,  mas, contrariamente ao que julgaríamos óbvio, a nossa inteligência individual não está a aumentar.
Atualmente a Ciência explora as diferentes facetas da nossa inteligência. Mas será que os cientista saberão verdadeiramente o que é a inteligência?
Ela significa o estabelecimento de uma ligação de diversos elementos para encontrar uma solução. Para a compreender é fundamental que a fracionemos, isolando-lhe todas as componentes. Os investigadores debruçaram-se, pois, sobre todas essas diferentes facetas.
Para medir a inteligência uma das primeiras estratégias consistiu em analisar a velocidade a que o cérebro reage. Foi esse método que o prof. Jan te Nijenhuis utilizou: comparou o tempo de reação atual com o dos nossos antepassados. E os resultados do seu estudo não nos favorecem…
Para medir o tempo de reação de um indivíduo colocam-no em frente a um ecrã onde uma marca vermelha fica à esquerda ou à direita de um ponto de referência, devendo carregar num dos botões o mais depressa possível, consoante se verifica um ou outro caso. Não é um reflexo, mas uma informação bastante simples, que o cérebro deve tratar.
Trata-se de uma experiência bastante simples, que replica as que foram efetuadas em milhares de pessoas entre 1860 e 1880 em Inglaterra por Francis Galton, o primo de Charles Darwin.
Nessa época as pessoas tinham um tempo de reação muito rápido.
Comparando esses resultados com os de outros estudos realizados nos últimos cento e cinquenta anos, Nijenhuis concluiu que as pessoas foram-se tornando cada vez mais lentas.
Para o cientista a inteligência equivale a velocidade e o nosso cérebro tende a reagir 50 milissegundos mais devagar do que os dos nossos bisavós para tratar uma informação muito simples.
Aparentemente esses 50 milissegundos parecem irrisórios, mas replicados nas milhares de decisões, que somos obrigados a tomar diariamente, as consequências podem ser relevantes.
O prof. Nijenhuis está convencido que somos menos inteligentes do que eram os nossos antepassados no século XIX. E a prova vê-a na incrível inventividade dessa época, caracterizada pela criatividade e por novas ideias. O número de invenções por habitante era quatro vezes maior do que se verifica atualmente.
Estamos perante a evidência do declínio da inteligência! - diz Nijenhuis - mas no século XIX Francis Galton já acreditava que os seus contemporâneos eram bem menos inteligentes do que os gregos da Antiguidade Clássica.
Pela mesma lógica, seriam estes últimos menos inteligentes do que os homens primitivos da Pré-História? No Instituto Max Planck de Leipzig procura dar-se resposta a essa questão com o estudo aprofundado de caveiras humanas desse período.

FESTIVAL INDIE: «Mate-me por favor» de Anita Rocha da Silveira

Antes do genérico do filme aparecer temos uma situação típica do filme de terror: à noite uma rapariga desloca-se a pé por uma zona desértica quando começa a ser perseguida não se sabe por quem. Após uma breve tentativa de fuga acaba assassinada.
O filme de Anita Rocha da Silveira logo desmente a filiação no género em causa, porque a preocupação é outra: a classe média brasileira, que viu melhorado o seu padrão de vida nos últimos anos, comprou apartamentos novos em zonas periféricas das grandes cidades e deixou os filhos quase entregues a si mesmos durante grande parte do dia. Por isso este é um filme interpretado quase exclusivamente por adolescentes, que passam o tempo entre a escola, as festas de amigos e as sessões da igreja evangélica local. Trata-se, pois, de uma visão do Brasil muito elucidativa sobre a realidade política presente.
Bia, a protagonista, alimenta uma obsessão macabra pelos crimes, que se vão sucedendo nas redondezas e sobre os quais discute incessantemente com os amigos. Há algo de excitante nesse lado salvagem da vida, que ajuda a enganar o tédio e as frustrações amorosas. O namorado, por exemplo, assusta-se com as suas exigências sexuais, porque acredita piamente na mensagem religiosa de se manterem virgens até ao casamento. Por isso troca-a sem pejo por outra colega, que se mostra disposta a cumprir todos os estereótipos femininos que ele ansiará encontrar na «fada do lar» com que vier a casar.
Mas a insatisfação de Bia e o fascínio pelo que possa significar algo de diferente está eloquentemente representado no final, que lembra os filmes de zombies de George Romero. Subitamente, do campo aparentemente deserto, adjacente ao Bairro da Tijuca, ela levanta-se depois de uma noite ali passada à espera do assassino, e, paulatinamente, vão-se levantando outros adolescentes, também eles, movidos pela mesma intenção de viverem uma experiência capaz de os livrar do torpor dos seus dias.



sexta-feira, abril 29, 2016

DIÁRIO DE LEITURAS: «Os 36 homens justos» de Sam Bourne

Em 2003 Dan Brown andou nas bocas do mundo por causa do «Código Da Vinci». O fenómeno de moda foi tão significativo, que até o mais presunçoso dos intelectuais cedeu à tentação de ler a involuntária luta de Robert Langdon contra os sicários do Priorado do Sião.
Era uma espécie de chiclete literária, mas converteu o quase anónimo autor num bem sucedido milionário. Razão para outros o quererem imitar. Jonathan Freedland, jornalista inglês, foi um deles com este «The Righteous Man», publicado três anos depois do de Brown. E a imprensa britânica logo o promoveu a maior concorrente  do antecessor.
A estrutura deste sucedâneo é a mesma do original: há um protagonista transplantado do seu espaço original para outro quase desconhecido, a confrontar-se com duas seitas distintas, cujas crenças radicam nas origens do judaísmo: uns, os hassidícos, vivem na ânsia de ver chegada a hora da revelação do novo Messias, os outros são fanáticos desejosos de um Apocalipse redentor, que limpe a Terra do pecado.
Temos, assim, Will Monroe como um jornalista inglês, agora a trabalhar no «New York Times», e a viver intensa felicidade conjugal com Beth, com quem casou há um par de anos. Ora é ela que, sem nada que o explique, é raptada quando o marido estava momentaneamente a trabalhar em Seattle. Mas não tarda que a origem desse dissabor pareça radicar-se nas reportagens, que ele acabou de assinar sobre os assassinatos de um proxeneta em Nova Iorque e de um membro das milícias anti-governo federal, que grassam nos Estados mais interiores da terra do Tio Sam.
Sucessivamente vão morrendo, um pouco por todo o mundo, outros homens aparentemente comprometidos com formas diversas de delinquência, mas todos eles conhecidos por atos de compaixão para com os mais fracos.
Seriam eles os tais 36 homens justos que, segundo uma crença judaica, suportariam o equilíbrio da Terra, impedindo-a de tombar definitivamente no Apocalipse?
As pistas que Will vai recebendo através de estranhas mensagens de SMS, consolida-lhe a ideia de estar em curso uma conspiração para antecipar o momento do Juízo Final.
A dificuldade de relacionar todos esses crimes com a comunidade hassidica de Crown Heights em Brooklyn, onde Beth está aprisionada, obriga Will a cumprir mais um dos estereótipos do subgénero: arranjar uma rapariga jeitosa, que o ajude nas deambulações pela cidade, muitas vezes sob a forma de loucas correrias para fugir a agressores desconhecidos. Ela é uma pintora, e sua antiga namorada, logo por acaso, nascida e criada na mesma comunidade judaica, o que lhe permite entender o significado das inúmeras pistas recebidas no telemóvel.
A história conclui-se numa surpresa inverosímil, porque Will acaba por descobrir a identidade do líder da seita apocalítica na pessoa do progenitor, um juiz federal cujo percurso público sempre se norteara pela conotação com o mais arreigado ateísmo. E Beth fora raptada pelas melhores razões: grávida do potencial 36º homem justo e possível Messias, estava a ser protegida das intenções homicidas do sogro.
Quando cheguei á última página do livro há muito concluíra que, sendo mau o original, este sucedâneo ainda era pior. Mastiguei-o durante alguns dias e atirei-o fora. Daqui a um par de semanas já nem me lembrarei da intriga e muito menos do título e nome do autor.

FESTIVAL INDIE: «Kate plays Christine» de Robert Greene

Há uns trinta e cinco anos, quando começava o boom de videogravadores no mercado, um amigo sentiu-se nas sete quintas por poder doravante encher cassetes com imagens recolhidas das televisões e onde se vissem cenas macabras da vida real: toureiros trespassados pelos cornos dos touros, crimes horrendos, desastres da natureza com muitas vítimas humanas, etc.
Esse gosto por tudo quanto pudesse haver de representação do mais sinistro causou-nos alguma estupefação, mas deu para perceber a razão para que a Ponte se atafulhe de veículos dos dois lados, apesar de um eventual acidente só ocorrer num dos sentidos. A curiosidade lusa por tudo quanto seja mórbido já quase se tornou num estereotipo!
Por isso mesmo não foi particularmente estranha a reação de um espectador sentado ao nosso lado durante a projeção do filme de Robert Greene no Indie Lisboa e que, ao iniciar-se a passagem do genérico final levantou-se para sair e comentou em voz alta: «Que filme mais parvo!»
Decididamente ele deve ter ali comparecido na expectativa de ver as imagens verdadeiras do acontecimento, que lhe esteve na génese:  na manhã de 15 de julho de 1974 a apresentadora de uma pequena estação televisiva de Sarasota, na Flórida, suicidou-se em direto durante a emissão do serviço noticioso de que estava incumbida.
Foi esse funesto incidente, que levou Sidney Lumet a rodar o oscarizado «Network», dois anos depois, no qual Peter Finch fazia o papel de um locutor revoltado pelo tipo de notícias que era obrigado a apresentar e que propunha aos seus espectadores para irem às janelas dos apartamentos gritarem o quanto estavam fartos.
O projeto de Robert Greene não é, porém, sobre o caso em si, muito embora ele esteja omnipresente, porque a ideia é acompanhar a atriz Kate Lyn Sheil no trabalho de preparação para representar o papel de Christine Chubbuck. Se a depressão e o estigma da rejeição fazem parte dos temas abordados não é por constituírem em si a matéria principal do filme, mas porque Kate precisa de aprofundar a sua personagem de forma a torna-la tão próxima quanto possível da realidade e credível ao espectador pela sua verosimilhança. Nesse sentido essa compreensão da psique de Christine é tão importante como imitar-lhe tanto quanto possível o visual com a utilização de uma peruca e de lentes de contacto.
E porque se trata de um work in progress, durante as três semanas da rodagem, a pequena equipa técnica acompanhou Kate nas suas conversas com quem conheceu Christine ou quem trabalha nos sítios por onde ela passou: a estação televisiva, a loja onde comprou a arma para se matar, a casa onde viveu com a mãe e o irmão, etc.
O que de mais aproximado da tal costela voyeurista  que nos permite Greene foi quando mostrou um par de minutos com a verdadeira Christine a entrevistar convidados do seu programa um par de anos antes de se querer tornar no objeto da notícia.
Mas, a exemplo do filme de Lumet, um discurso de Kate quase no final, confronta o espectador com o lado sádico, que o leva a ver com deleite o sangue e as vísceras das vítimas de crimes, acidentes ou suicídios.
«Kate plays Christine» é pois um filme sobre a dificuldade de discernir a ficção da realidade, a dissociação de quem interpreta um papel e se confronta com as suas próprias assombrações, e sobre esse fascínio tétrico do público pelo que de mais terrível possa acontecer a alguém.

quinta-feira, abril 28, 2016

SONORIDADES: O balanço de Os Dias da Música

Foi um regresso ao CCB em grande depois de quatro anos de boicote às iniciativas ali comandadas pelos que se sucederam a Mega Ferreira, depois de Miguel Relvas ter imposto o seu despedimento para ali colocar Vasco Graça Moura. Muito embora já sem o dinheiro que possibilitava a vinda de alguns dos nomes mais comunmente vistos nas emissões da Mezzo, a prata da casa saiu-se muito bem do desafio, sobretudo porque contámos com tantos talentos ali a expressar-se num curto fim-de-semana.
O trabalho de formação de novos talentos concretizado por algumas das nossas Orquestras, com destaque para a Metropolitana e para a de Câmara Portuguesa, possibilita que tenhamos fundadas expectativas quanto a um futuro brilhante de muitos daqueles jovens a nível internacional. Nesse sentido foi memorável o concerto com Pedro Carneiro a dirigir a Jovem Orquestra Portuguesa na «Sinfonia do Novo Mundo» ou o da Orquestra XXI a contas com Mendelssohn, olhando para a idade de tantos dos que as integravam.
Na composição foi encantatória a peça estreada por Miguel Azguime, reveladora da vitalidade da nossa música contemporânea. E tivemos excelentes espetáculos de ensembles - o Ludovice e os Músicos do Tejo - ambos a satisfazerem o nosso fascínio pelo Barroco.
Não esquecendo o concerto de Rabi Abou Khalil com Ricardo Ribeiro, quem destaco como solista de exceção destes dias foi a violinista Tatiana Samouil, que interpretou o Concerto nº 5 para Violino de Mozart, K219 com a Orquestra de Câmara Portuguesa. Com a solidez da sua formação russa, embora agora radicada na Bélgica, a violinista demonstrou porque conta tantos prémios internacionais no seu palmarés.
Andei pelo You Tube a ver se a encontrava nesta peça e não a encontrei. Dei, porém, com a sua interpretação do 1º andamento do Concerto para Violino de Tchaikovski, de que tanto gosto. Fica, pois, a sugestão para apreciar um nome que fica registado como dos agora conhecidos.

FESTIVAL INDIE: «Chevalier» de Athina Rachel Tsangari

Há quatro anos «Attenberg» representara uma belíssima surpresa sobre o novo cinema grego.
Se dele guardava as belíssimas imagens dos filmes de Théo Angelopoulos, o de Athina Rachel Tsangari veio demonstrar que a passagem de testemunho estava devidamente assegurada, mesmo que num tipo de cinema muito diferente do antecessor. Onde neste havia o reequacionamento do passado, Athina propunha um cinema capaz de refletir inteligentemente o presente.
Ele está bem em evidência neste novo título - «Chevalier» - que é o nome de um anel, que seis amigos disputam ao viajarem num iate luxuoso ao longo da costa grega, enquanto comparam os desempenhos uns dos outros nos mais diversos e ridículos desafios: como se sentam à mesa, quem tem melhores dentes, com que rapidez conseguem montar uma prateleira, qual o nível de educação, que tipo de roupa interior usam,  quem é mais viril, etc.
Estamos, pois, num microcosmos revelador de uma sociedade em que todos competem entre si e se avaliam. Por isso fazem-se acompanhar de blocos onde vão anotando os desempenhos comprometedores dos adversários.
E, porque estamos numa sociedade dividida entre a classe dos que tudo possuem e os que só estão destinados a servi-los, estes últimos vão comentando as vicissitudes dos sucessivos desafios.
Não é difícil chegarmos à conclusão de se tratar de uma inteligente metáfora sobre o estado a que chegou o capitalismo, que, para se preservar, cria as condições para um hiperindividualismo em que vigora o cada um por si e todos contra todos. Um quotidiano onde valores como a solidariedade ou a mera expressão de simpatia são entendidas como sintomas de fraqueza penalizáveis à luz dos padrões vigentes.
O argumento é tão bem carpinteirado, que Athina Rachel não deixou de explicitar as jogadas sujas, que se planeiam na sombra, nomeadamente quanto à cartelização do voto. E, como paradoxo pessimista da evolução para que tendemos, não vemos os explorados a olharem para o entretenimento dos patrões com sentido crítico e distanciamento, mas com admiração e até mimetização no final do filme.
«Chevalier» não é, pois, o tipo de filme para espectadores preguiçosos, necessitados de quem lhes faça o “desenho” de tudo quanto vai decorrendo no ecrã. É um cinema, que apela à inteligência e se esforça por a estimular para chegar mais longe: na compreensão do tipo de armadilhas criadas pelo que estamos a viver para que se adie o mais possível a Utopia, que desejaríamos ainda experimentar em vida...

quarta-feira, abril 27, 2016

SONORIDADES: "Europa: o novo e o antigo" pela Orquestra de Câmara Portuguesa

No concerto de domingo da Orquestra de Câmara Portuguesa nos Dias da Música do CCB, tivemos a oportunidade para conhecer a mais recente obra de Miguel Azguime: «Illuminations».
Tratando-se de um dos mais estimulantes compositores portugueses contemporâneos a obra em estreia retoma o que têm sido as suas texturas sonoras, a que vamos tendo acesso por disco, já que não são muitas as oportunidades de as usufruirmos ao vivo.
Sendo igualmente um reconhecido percussionista internacional, sobretudo em obras dos finais do século XX, Pedro Carneiro prossegue o meritório esforço de intercalar este tipo de sonoridades mais vanguardistas em programas compostos por peças mais facilmente do agrado dos espectadores de concertos. E, no caso deste, ele tinha sempre garantido o sucesso com as duas peças de Mozart, que o integravam.
Pode-se até constatar que, apesar do sucesso estrondoso do Concerto para Violino, K219 de Mozart, com que se concluiu o espetáculo - com a excelente Tatiana Samouil como solista - a obra de Azguime muito ganhou em contraste com as duas entre que foi executada. 

FESTIVAL INDIE: «Mesmo que fosse criminosa» de Jean-Gabriel Pétiot

Um dos acontecimentos, que tive pena de perder o Indie deste ano foi a retrospetiva dedicada aos 28 filmes de Jean-Gabriel Périot, realizador francês conhecido pelos documentários dedicados a temas políticos, e trabalhados a partir de materiais de arquivo. Mas ou estava nos Dias da Música ou a assistir a essas sessões...
À partida surpreende que Périot confesse não ter tido grande formação política, o que o terá levado a absorver muitos lugares-comuns sobre fenómenos bem mais complexos do que a visão maniqueísta mais facilmente transmitida o sugeriria. Por isso os filmes surgem-lhe como pretexto para investigar esse assunto e devolve-lo sob a forma de curtas ou longas metragens,  libertos dos lugares comuns mais disseminados.
Veja-se o filme, cuja visão sugiro através do link para o youtube abaixo anexado: «Mesmo que ela fosse criminosa» mostra em menos de dez minutos as humilhações terríveis por que passaram muitas mulheres logo após a Libertação de 1944, acusadas de terem colaborado com os nazis ou com eles partilhado a cama.
Para contextualizar esse momento sórdido de um acontecimento, que deveria ter tido uma dimensão de grandiosidade, Périot faz desfilar em câmara rápida algumas das imagens mais elucidativas da invasão nazi e do colaboracionismo do regime de Vichy para depois apresentar as terríveis imagens de mulheres violentadas por biltres, que não se comportavam de acordo com o respeito pelos Direitos Humanos, que então se exigia.
Comparados aos rostos sofridos das mulheres ofendidas indignam-nos as expressões cruéis dos «vingadores» armados em heróis de pacotilha. E perguntamo-nos se teriam revelado essa mesma “coragem” nos meses e anos anteriores, quando urgia combater os Alemães na clandestinidade.


SONORIDADES: Concerto para traverso e flauta de bísel, de Telemann, pelos Giardino Armonico

A peça de Telemann, interpretada pelos Musicos do Tejo no passado domingo nos Dias da Música, também está disponível no youtube na versão do Giardino Armonico, com Giovanni Antonini na flauta de bisel. Nesta formação do prestigiado agrupamento italiano ainda temos Enrico Onofri como primeiro violino, quando ele ainda era bem encorpado...


SONORIDADES: "The Rights of Man" por "Os Músicos do Tejo"

Mas que excelente diálogo de flautas foi proporcionado por António Carrilho e Adriana Ferreira ao público da Sala Luís de Freitas Branco, que os viu no concerto de domingo d’”Os Músicos do Tejo” dedicado à música dos séculos XVII e XVIII.
A peça em causa era o “Concerto para traverso e flauta de bisel” da autoria de Telemann. Não a conhecia, mas o que exige aos solistas só a torna acessível aos que são mais talentosos.
O concerto deste agrupamento dirigido por Marcos Magalhães e Marta Araújo começara logo da melhor maneira com excertos de diversas composições de John Playford (ver o link anexo), que nos fizeram lembrar os nunca por demais referenciados The Chieftains. Nalgumas jigas dava mesmo vontade de saltar das cadeiras e rodopiar ao som de músicas entretanto integradas na música popular irlandesa.
E ainda houve Purcell e Bach num concerto, que dá razão aos muitos defensores da superioridade melódica da música barroca. A lenda diz que Eduardo Prado Coelho, nos seus últimos anos de vida, não costumava ouvir outra coisa... 

terça-feira, abril 26, 2016

FESTIVAL INDIE: «In the Last Days of the City» de Tamer El Said

Agora que se acabaram os concertos dos Dias da Música no CCB, voltamos ao Festival Indie, que nos está a dar a possibilidade de ver filmes com características identitárias, que os diferenciam dos cânones de Hollywood.
A longa-metragem «In the Last Days of the City», que Tamer El Said acabou ainda há pouco de rodar, levanta logo à partida uma questão: já demonstrados os efeitos perversos das Primaveras Árabes que, excetuando a Tunísia, resultaram  no caos jiadista ou em ditaduras tão ou mais férreas do que as anteriormente existentes, é natural que o realizador manifeste um indisfarçável desencanto com o quanto elas significaram. Mas seria este o filme que teria realizado se esses movimentos contestatários tivessem resultado em regimes democráticos como o que se tenta consolidar no antigo país de Ben Ali?
Os últimos dias a que se refere o título do filme acontecem em 2009, quando Moubarak está a cerca de ano e meio de ser derrubado. A praça Tahrir já estava em permanente animação com manifestantes decididos a contestar a degenerescência de um regime incapaz de  cumprir os sonhos de desenvolvimento outrora personificados por Nasser, mas Khalid pouco liga ao que se passa à sua volta: recentemente abandonado pela namorada, que pensa exilar-se, precisa de arranjar um apartamento o mais rapidamente possível, muito embora já tivéssemos constatado no filme de Sérgio Tréfaut sobre os cemitérios do Cairo, como essa tarefa é quase impossível para quem vive com dinheiro contado. Há também a doença incurável da mãe, que está hospitalizada e a quem deve diariamente visitar. E o seu filme, em fase de montagem, não chega à versão final, porque, segundo o técnico que o apoia, ele vive totalmente virado para o passado, em vez de olhar para o futuro.
Amigo de três outros colegas de profissão, um libanês e os outros dois iraquianos, passa alguns dias exaltantes com eles a discutir o tipo de cinema mais adequado para as presentes circunstâncias. Mas, à exceção do que está refugiado na Alemanha e já não pensa regressar tão cedo à sua Bagdad natal, os outros dois assumem um conformismo quase fatalista em relação à incapacidade em contribuírem para uma qualquer redenção revolucionária. Um deles, o iraquiano, que rejeitava veementemente o conselho do compatriota para se lhe juntar em Berlim, acaba mesmo por morrer como vítima de um dos atentados diários à bomba, que sacodem a capital.
Já com Laila também de partida, Khalid está condenado a uma incontornável solidão...

SONORIDADES: Na Escandinávia com a Orquestra Gulbenkian

O primeiro concerto a que assistimos no domingo no CCB teve por temática a música escandinava de Nielsen, Grieg, e Sibelius, na interpretação da Orquestra da Gulbenkian dirigida por Frédéric Chastlin.
Mas para nós a Suite nº 1 de «Peer Gynt» era o grande momento do programa por nos recordar uma experiência inesquecível: termo-la escutado no seu ambiente mais adequado.
Foi há mais de um quarto de século, quando estávamos a bordo do «Funchal» e naquela luz de lusco fusco de uma noite que não chegara a cair e de um dia ainda a romper pela madrugada, sentámo-nos na secretária do camarote a ver desfilar a paisagem dos fiordes, que nos iriam fazer aportar a Bergen ao início da manhã. No gravador de cassetes pusemos, então, uma interpretação desta peça, em som muito baixo para não despertarmos a nossa filha, ainda criança, que dormia profundamente ali quase ao lado. Sentimo-nos a viver um desses momentos mágicos, que raramente acontecem na vida e jamais olvidados. Porque estávamos juntos e deparávamos com a beleza em estado puro, apesar da promessa de futuras ausências relacionadas com a profissão de “marinheiro ainda nas graças do mar”. Uma preocupação que procrastinávamos para outra ocasião!
Quer isto dizer que, anteontem, não tivemos ouvidos para as demais obras propostas do programa? Claro que tivemos, mas convenhamos que, por muitas e boas razões, preferimos bastante mais Grieg a Nielsen ou a Sibelius.

segunda-feira, abril 25, 2016

DIÁRIO DE LEITURAS: «Regarde les lumières mon Amour» de Annie Ernaux

O hipermercado não é cenário apetecível para a ficção contemporânea, apesar de constituir um dos mais frequentados pelas populações citadinas. Quando, por exemplo, o cinema o utiliza é quase sempre em distopias onde representa o derradeiro espaço a saquear antes de se mergulhar num mundo caótico, quantas vezes entregue ao domínio dos zombies.
Em 2013, não sei se por encomenda do editor, se por impulso próprio, Annie Ernaux decidiu escreveu sobre o que via no dia-a-dia da grande superfície onde costuma fazer as suas compras. Encontrou, assim, um espaço hostil, onde os seguranças logo apareceram, quando tentou fazer uma fotografia, e onde os espaços de exposição de livros e jornais são mudados de forma a tornarem-se desconfortáveis aos que ali se costumavam demorar a folheá-los.
A mão-de-obra é explorada ao máximo (ela lembra que quem trabalha nas caixas dos supermercados integra o setor mais pobre da população) senão mesmo eliminada por “evoluções tecnológicas”, que obrigam os clientes a apresentar os produtos adquiridos a leitores de scanner e a fazerem o respetivo pagamento automático. Tende-se assim a excluir um dos poucos momentos onde o comprador, entregue a si mesmo, podia trocar algumas palavras, quer com quem o antecedia ou sucedia na fila, quer com a empregada dali doravante excluída.
Mas a abordagem de Annie Ernaux escalpeliza muitas outras realidades ali presentes: a definição muito restrita do que são brinquedos para meninos e para meninas, quando se trata de passar pelas prateleiras dedicadas às prendas natalícias. A quase inexistência de literatura digna desse nome na secção dedicada à cultura, onde avultam os best-sellers, os livros de culinária, de bricolage  ou de autoajuda. O receio de olhar para o teto, pela curiosidade de saber como ele era feito, porque estão lá penduradas as câmaras e fica-se com o receio de levar os seguranças da central a pensarem nalgum motivo equívoco para identificar a sua localização.
Quando as notícias revelam as mortes de centenas de bengalis, que trabalhavam em condições de grande insalubridade em prédios-fábricas, subitamente desmoronados, não existe qualquer surpresa quando se fica a saber que aí eram produzidos artigos têxteis para as grandes insígnias dos hipermercados europeus.
Numa tradução muito livre, cito Annie Ernaux quando em jeito de balanço final reconhece que, “naqueles meses , mediu a força do controle que a grande distribuição exerce nos espaços, quer no seu real, quer no seu imaginário - provocando desejos nos momentos que pretende - , a sua violência revelada ora na profusão colorida dos iogurtes, ora nas filas de prateleiras cinzentas dos artigos de ‘discount’. O seu papel na acomodação dos indivíduos à fraqueza dos rendimentos, na manutenção da resignação social. Quer sejam depositados em pequenas quantidades ou em catadupas de artigos nos tapetes das caixas, as compras são quase sempre dos que são mais baratos. Senti muitas vezes uma sensação de impotência e de injustiça ao sair do supermercado. E, no entanto, nunca deixei de me sentir atraída por esse espaço e pela vida coletiva, subtil e específica, que aí decorre.  Pode acontecer que esta vida desapareça muito em breve com a proliferação dos sistemas comerciais individualistas, como os das encomendas pela internet ou no drive, que parecem ganhar a preferência das classes médias e superiores.
Se assim for as crianças de hoje chegarão a adultas talvez recordando com melancolia as compras de todos os sábados no Hiper, como os que hoje contam mais de cinquenta anos e guardam as reminiscências das mercearias perfumadas do passado, quando iam ao «leite» com um púcaro de metal.”

domingo, abril 24, 2016

SONORIDADES: Fusão de Culturas com o Rabih Abou-Khalil Trio

«Eu sabia!», disse-me a Elza, quando Ricardo Ribeiro entrou em cena no Pequeno Auditório do CCB. É que, além dos três músicos do Trio liderado por Rabih Abou-Khalil, estava um microfone do lado direito para um convidado. E, como já há mais de seis anos que o fadista português participa em trabalhos de fusão com o grande compositor libanês seria mais do que natural essa reiterada colaboração perante um público disposto a deixar-se levar pelos sons do Próximo Oriente. Quer os decorrentes do seu exotismo, quer os dos seus dramas, porque Khalil não deixou de evocar a Guerra Civil do seu país, que pareceu superada, mas volta a estar tão iminente com os incêndios belicistas, que lavram à sua volta.
Além do líder com o seu alaúde (oud), Jarrod Cagwns nas percussões e Luciano Biondini no acordeão revelaram-se exímios executantes dos respetivos instrumentos.
Da prestação de Ricardo Ribeiro pode-se lamentar que o seu microfone não estivesse regulado suficientemente alto para que a voz não resultasse tão abafada pelo acompanhamento, mas bastou para perceber a proximidade idiossincrática entre a tradição do fado e as sonoridades do Médio Oriente faz todo o sentido. A forma sofrida como o amor é traduzido numa e noutra civilização - mais como anseio do que como concretização! - acaba por relacionar o lamento, que em ambos se colam às vozes ou aos instrumentos.
Mas a música de Khalil, na sua complexidade, permite muitas interligações com tradições musicais diversas, quer a da música clássica ocidental, quer a do jazz. Ela é a melhor demonstração do que é a world music no seu melhor...