terça-feira, outubro 17, 2017

(DIM) O legado de Lyndon Johnson

Um dos acontecimentos políticos, que mais me marcou a infância foi o assassinato de Kennedy em Dallas. Tinha sete anos e a notícia impressionou-me tanto quanto os acontecimentos em Angola que tinham justificado a Salazar a ordem de mandar soldados para Angola e em força.
Terei perdido algo da minha inocência ao concluir que poderia vir a ser um daqueles soldados mandados para longe com o fito de matar e morrer, ao mesmo tempo que ficava exposta a evidência de nem sequer os homens mais poderosos do mundo escaparem à condição de alvo de uma carabina. A relatividade de tudo, até de um Deus, de cuja inexistência já começava a desconfiar, ganhava espaço determinante em quem viria a ser.
Curiosamente o realizador Jay Roach tinha mais ou menos a minha idade, quando o nome de Lee H. Oswald se nos tornou inesquecível. Admitamos que passou pela mesma ambivalência em relação a Lyndon Johnson, que eu próprio vivi, contaminado pela pergunta de muitos sobre que transformações teria conhecido a América se o antecessor não tivesse sido abatido. As décadas seguintes viriam a esclarecer-nos que não só Kennedy nada tinha do virtuoso revolucionário, que muitos queriam nele ver (ainda que tenha tido o mérito de ser odiado por Salazar, o que nos obriga a dar-lhe o crédito de alguma simpatia!), nem Johnson se poderia reduzir à imagem do bronco texano, que o protocolo da Casa Branca tentava controlar nas suas intempestivas reações.
A peça «All the Way», que Robert Schenkkan escreveu e Bryan Cranston protagonizou nos palcos da Broadway, teve tal sucesso, que Steven Spielberg achou oportuna a sua passagem ao cinema. Não conseguiu que ela tivesse tal expressão, mas produziu-a em forma de telefilme e com indesmentível mérito para o já referido Jay Roach. Porque a imagem, que nos faculta de Johnson é a de ter vivido os primeiros anos de presidência sob o fogo cruzado das diferentes forças apostadas em empurrá-lo nesta ou naquela direção. Luther King pretendia a concretização plena da Lei dos Direitos Cívicos prometida por Kennedy, os senadores e congressistas democratas do Sul dos EUA nem queriam ouvir falar da possibilidade de ver os negros equiparados aos brancos, o FBI de Hoover prosseguia a cruzada anticomunista e a indústria militar pretendia ver o Exército no Vietname o mais rapidamente possível. No meio do sucessivo apagamento de fogos, conseguindo um voto aqui e outro acolá para compensar os que ia perdendo à medida que se aproximava a data da sua própria eleição para legitimar o mandato, que as circunstâncias lhe tinham dado sem o esperar, Johnson só pretendia concretizar a sua própria visão política, que passaria por políticas mais assertivas contra o empobrecimento e o analfabetismo.
Apreciamos mais uma excelente interpretação de Cranston, secundado por um enorme lote de secundários (Melissa Leo, Frank Langella, Ray Wise, entre outros), e ficámos bem mais inteirados sobre o que foram esses anos em que os EUA continuavam a atirar combustível para essa inquietante fogueira, que era a Guerra Fria.

(S) "I double dare you" por Felix Mendelssohn And His Band em 1938

(DL) As Primeiras Coisas de Bruno Vieira do Amaral

A Literatura Portuguesa está de boa saúde e recomenda-se como se depreende da leitura proposta pelos sucessivos galardoados com o Prémio José Saramago.
Bruno Vieira do Amaral recebeu a distinção em 2015 e logo confirmou a justeza de ser dos autores mais estimulantes de quantos traduzem em matéria literária as respetivas reflexões sobre o estado atual das coisas que vivemos.
Em «As Primeiras Coisas» travamos conhecimento com um narrador na casa dos trintas, que saiu de casa como corolário da deterioração afetiva com Sara. Não porque fosse essa a sua intenção, mas porque a tal se viu obrigado.
Sem outro sítio para onde ir regressa aonde crescera, no outro lado do rio. É o Bairro Amélia, muito semelhante àquele que o próprio autor conheceu na Moita. É ali que a mãe tem casa e onde, desempregado, poderá viver uma pausa antes de renascer. Porque essa é uma das primeiras conclusões a retirar do romance: se queremos dar a volta às contrariedades importa retomar o espaço anterior àquele onde se verificou a crise presente, porque dali se transitará para novo ciclo.
Como se entrasse numa espécie de Divina Comédia, o filho pródigo arranja um guia na pessoa de um Virgílio fotógrafo, que pode esclarecê-lo sobre todos os hiatos estabelecidos nas vidas dos que conhecera e tinham desaparecido ou dos que, aparentando ser os mesmos, tinham mudado significativamente nesse tempo de ausência. Recorrendo à ordem alfabética cada capítulo é uma espécie de ficheiro organizado em função das pessoas, dos espaços ou das situações, que ali testemunha. De forma fragmentada - mas não é assim que o «disse disse» em que muitas dessas informações lhe chegam ? -, começamos a criar do Bairro Amélia uma visão global em mosaico, que o fazem assemelhar a todos os subúrbios onde a sobrevivência é questão de todos os dias e muitas vezes extravasa os cânones da legalidade.
Há abortos e raparigas que desaparecem, homicídios em assaltos de incauto amadorismo, velhos que sonham com as perdidas vastidões africanas, poetas fracassados, empregadas de café concupiscentes e esperançosos futebolistas traídos por acidentes infortunados. Conhecem-se todas essas personagens e elas ajustar-se-iam facilmente a tantos outros arrabaldes da capital, mas o que releva do romance é o quanto está bem escrito e  construído, tornando da sua fruída leitura um grato prazer.

(EdH) Três portugas na Revolução Russa

Se por um passe de mágica o Steven Spielberg me aparecesse à frente, qual génio da lâmpada, a dizer-me estar a Amblin carregada de dinheiro para uma superprodução e não ter qualquer estória interessante para passar a filme, eu tiraria logo da manga a da incrível experiência vivida pelo nosso diplomata Jaime Batalha Reis na Rússia czarista e revolucionária entre 1912 e 1918, culminada sobretudo no turbulento regresso a Portugal.
Com os meios habitualmente mobilizados por Hollywood para as suas mais ambiciosas produções poderíamos ver o diplomata a chegar a São Petersburgo para representar a jovem República no jubileu do ano seguinte quando, com todo o fausto dourado típico da corte russa, o czar Nicolau II pretendia comemorar o tricentenário da dinastia dos Romanov.
Logo à chegada Batalha Reis teria uma surpresa: ao apresentar credenciais aos soberano este confidenciou-lhe ter almoçado nesse mesmo dia na propriedade de Tsarkoe-Selo com o exilado D. Manuel II. Mas, temendo reação antipática do anfitrião, logo pode descansar, porque este acrescentou que o derrubado rei português o qualificara como homem muito sábio.
Se a estadia deveria ser curta para que o diplomata concluísse a carreira de embaixador em Madrid, então topo de tal carreira, a guerra de 1914 reteve-o junto ao Báltico na companhia das duas filhas solteiras, que com ele continuavam a viver e lhe governavam as preocupações domésticas desde que a mãe as deixara órfãs.
Começam então as privações, porque o conflito europeu e, depois, aqueles meses confusos entre fevereiro e outubro de 1917 dificultaram a aquisição dos alimentos essenciais e a lenha com que se podiam aquecer. Mas essas dificuldades não teriam qualquer paralelo com as conhecidas após a vitória bolchevista, quando Batalha Reis e as filhas decidiram abandonar a capital soviética na direção de Murmansk, depois de falhada a opção Helsínquia (por a própria Finlândia estar acossada em violenta guerra civil!), atravessando regiões inóspitas, sofrendo fome, sede, frio e sobretudo medo sempre que se cruzavam com patrulhas do exército Vermelho, até conseguirem apanhar um barco para Newcastle.
Embora se tratasse de argumento onde a componente romântica tivesse de ser inventada (que tal o namoro de uma das balzaquianas com um oficial da Cavalaria czarista vítima dos façanhudos revolucionários?) teria tudo para ser oscarizável: cenários majestosos, grandes dramas humanos e um final feliz, que mandaria os espectadores felizes e contentes para casa. Até se lhe poderia acentuar a visão habitualmente maniqueísta do cinema norte-americano sobre os comunistas apresentando estes como mauzões da pior espécie e mostrando os derrubados soberanos como simpáticas e incompreendidas vítimas das circunstâncias históricas.
Digam-me lá se não é uma ideia de estalos? Seria um daqueles casos em que as bilheteiras não tinham cofres que bastassem para guardar tão prodigiosas receitas.

(S) O segundo andamento da «Xerazade» de Rimsky-Korsakov

segunda-feira, outubro 16, 2017

O Segredo das Meias

Situação complicada a vivida por Emilia e Angiolo, quando já tinham dobrado o cabo dos sessentas: a fábrica têxtil na Toscânia, que constituíra todo o seu projeto de vida, faliu deixando-os com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. O que fazer, quando tudo parecia virar-se contra eles? Só lhes restou o convite de uns clientes, que os contrataram para, durante dez anos, dirigirem uma nova fábrica em Yiwu, na província de  Zhejiang, transmitindo os conhecimentos, particularmente no controlo de qualidade, aos operários locais.
Nicola Contini começou a filmar este documentário, quando o casal preparava o regresso definitivo a casa, já com ela sozinha na metrópole asiática e ele a organizar o espaço em que viveriam na condição de reformados. Por isso mesmo, mais do que um filme sobre a resiliência ou a crise económica, responsável pela desindustrialização europeia, «O Segredo das Meias» aborda igualmente a solidão e a difícil adaptação a costumes e valores que não os da protagonista. Mesmo se, às tantas não pareciam sentir-se bem em lado nenhum: em Itália suspiravam pela China e vice-versa.
Não falando senão o italiano, a septuagenária recorria a tradutores para se fazer entender junto dos operários e seus encarregados, reagindo assertivamente se deparava com bom produto final ou zangando-se quando ele desiludia as suas expetativas. Em causa surge, às tantas, o tema da família e o quanto ela distava em quilómetros, que não em afeto. Como compensação Emilia procurava ser uma espécie de avó para as suas operárias.
Nos tempos livres procurava acomodar-se ao espaço, ora integrando turmas de tai chi, ora procurando nos mercados as vitualhas, que lhe permitissem imitar o mais possível as receitas italianas. Mesmo se lhe falhavam o forno ou as frigideiras para alcançar uma refeição tão próxima quanto possível do objetivo.
Há também a relação com Angelo a quem reconhece faltarem dotes de dançarino, mas que força a apurá-los sempre que possível, seja na China, seja em Itália, onde já os vemos definitivamente instalados nas cenas finais. Precisamente as que alternam com filmes antigos, em super 8, que os revela tal qual eram cinquenta anos atrás. E há sempre algum estremecimento ao constatar como é tão repentina a súbita passagem da juventude, quando todo o horizonte à nossa frente parece alcançável, e essa velhice onde só resta aproveitar o cada vez mais escuro crepúsculo, que culmina nos inevitáveis epitáfios.

(S) Pavarotti em 1988 a interpretar «Mal reggendo all'aspro assalto» da ópera Il Trovatore» de Verdi

(S) 

(EdH) A Revolução cem anos depois (III): A infância de Lenine

Quem em 1870 assistisse ao nascimento de Vladimir Oulianov em Simbirsk, uma pequena cidade à beira do rio Volga, dificilmente poderia imaginar que ele viria a mudar significativamente o rumo da Rússia e do mundo em geral. É que a família, ali estabelecida há pouco meses, porque o seu patriarca, Ilya, fora para ali nomeado como inspetor escolar, pertencia à elite local sem qualquer ligação a quem mais torcia o nariz à ordem social então prevalecente.
Ilya provinha de uma família de camponeses de Astrakan, os Oulyanine, que haviam mudado o nome para Oulianov. Mas outras fontes dão-nos como provenientes da região de Nijni Novgorod e misturas com outras etnias - a tatar, a kalmouke ou a kirghize.
Apesar de omitidas décadas a fio pelas autoridades soviéticas a família do lado materno tinha raízes judaicas embora as não praticassem: Moshe Blank, o bisavô materno tinha rompido com a comunidade em Vlhynie e tomado posteriormente posições bastante críticas a seu respeito. Daí que o avô de Vladimir se tivesse convertido ao cristianismo ortodoxo tendo ganho assim o acesso à carreira de medicina e à função pública. Em 1847, já como inspetor dos hospitais de Zlatooust, vira-se designado conselheiro do Estado, ascendendo com tal cargo à nobreza.
Vassili, o bisavô paterno de Vladimir, era um servo, que ganhara a alforria muito antes da extinção dessa realidade nos campos russos em 1861. O avô fora alfaiate em Astrakhan propiciando ao filho a licenciatura em Matemática, que lhe permitira a nomeação como professor em Penza. Fora aí que conhecera Maria Alexandrovna Blank com quem casou em 1863 e lhe daria oito filhos nos quinze anos seguintes, embora só seis sobrevivessem. Quando mudaram para Simbirsk o casal já tinha dois filhos: Anna, que nascera em 1864 e Alexandre dois anos mais novo. Vladimir era o terceiro e nasceu em 22 de abril de 1870.
Batizado na Igreja Ortodoxa, Vladimir tinha 4 anos, quando o pai foi nomeado conselheiro de Estado pelo czar Alexandre II. Vivia anos de grande felicidade, porque contrariamente à maioria dos concidadãos, condenados a atroz miséria, os Oulianov não passam por privações. Apesar de irrepreensível fidelidade ao czar, a família aderiu aos ideais mais liberais e progressistas, quanto à educação a transmitir aos educandos. Ilia revelou-se um ativo reformador das leis imperiais, abrindo novos estabelecimento de ensino por toda a região para que as minorias não russas pudessem ser  ensinadas nas respetivas línguas maternas.
Vladimir, ou Volodia, foi aluno brilhante, aprendendo várias línguas, incluindo o latim e o grego clássicos. Curiosamente o reitor do liceu onde estudou era o pai de Aleksandr Kerenski, seu futuro adversário político.

domingo, outubro 15, 2017

(DL) Rapariga Negra, Rapariga Branca

Nas apostas quanto a possíveis Nobéis da Literatura, venho reiteradamente cogitando nalguns autores norte-americanos contemporâneos dada a riqueza literária do que se tem conhecido nessa geografia específica. Claro que nunca teria escolhido Bob Dylan cuja consagração execrei quase tanto como se a opção tivesse sido a do nosso invejoso Antunes. Mas, constatando a escusa da Academia em premiar Philip Roth concentro as  fichas em Don DeLillo, cujos romances densos e bastante questionadores da presente realidade, garantem sempre leitura estimulante. No entanto não ficaria escandalizado se, em alternativa, possa recair em Joyce Carol Oates.
Há uns quantos anos, que não visitava o universo narrativo desta escritora, mas «Rapariga Negra, Rapariga Branca» fez-me lamentar essa distração ao comprovar a sólida construção de uma estória, que se alarga por muitas questões pertinentes da sociedade atual.
Quinze anos após os factos uma professora universitária revela o sucedido em 1975, quando, quase em simultâneo, a antiga colega de apartamento numa das residências da Faculdade de Schuyler, morreu em circunstâncias duvidosas, e o próprio pai, um ativista da esquerda antiguerra, foi preso e condenado a longa pena por combater essa política oficial.
Durante uma boa parte do romance somos levados a crer que se trata do testemunho de uma rapariga branca de famílias influentes a refletir sobre o assédio racista sofrido pela vizinha, que se recusa ser sua amiga. As aparências, porém, escondem a complexidade de Minette Swift , cujo fanatismo religioso justifica sempre o meu espanto por os descendentes dos antigos escravos mostrarem-se tão crentes numa religião em cujo nome foram metidas grilhetas nos seus antepassados. É questão para que nunca encontrei resposta : tendo o ADN dos antigos escravos como é que a população de cor não odeia, nem sequer se alheia de todo o folclore bíblico, legitimador do seu atávico sofrimento?
A pouco e pouco cresceu-me a suspeita de Minette autoinfligir-se as agressões e os insultos, que perturbam toda a academia, conseguindo criar o clima adequado para replicar o caminho para a Gólgota, em tempos idos seguido pelo seu adorado Jesus. É quase no final que tais suspeitas se confirmam com trágicas consequências colaterais: não sendo capaz de denunciar a estratégia suicida da rapariga negra, Genna adoece com inexplicável crise que a leva a trair o próprio pai. Como se o posicionamento progressista dele constituísse o verso da moeda, que levara Minette à morte, tornando-o merecedor de quase tão drástico sacrifício.
Na conclusão do romance podemos rastrear a evocação sobre as experiências juvenis na universidade, o Estado policial controlado pelo FBI, o papel da religião na alienação de parte significativa dos norte-americanos e o estilhaçamento dos laços familiares incapazes de recuperarem dos efeitos de uma liberalização irreversível dos valores e costumes.

(S) The Glenn Miller Orchestra interpreta «In the Mood» em 1941

sábado, outubro 14, 2017

(I) O dever de desobedecer, mesmo em Democracia

O conceito de Resistência faz sentido nas ditaduras, porque pressupõe atividade mais ou menos violenta contra quem oprime e nega a liberdade sem respeito por quem por ela pretende agir.
Numa situação política onde são autorizadas as manifestações, os protestos, as greves e outras formas de desagrado social faz sentido legitimar a Desobediência Civil? Vistas bem as circunstâncias, mesmo nesse contexto mais favorável não faltam razões objetivas para sentirmos indignação perante situações injustas e iníquas. Daí se justifique que, qualquer cidadão, possa revelar o descontentamento de forma não violenta. Tendo a ver com leis injustificáveis, procura-se-lhes a caducidade ou alteração sem pôr em causa o conjunto das demais, que fundamentam a organização política e social nesse momento.
O primeiro teorizador da «Desobediência Civil», à qual consagrou um ensaio com esse mesmo título, foi Henry David Thoreau, que defendia a legitimidade das ações individuais como forma de oposição contra um estado injusto. Por isso mesmo, em 1845, quando contava 27 anos, foi refugiar-se nas margens do lago Walden, entrando em rutura com a sociedade do seu tempo, que considerava justificável a escravatura, o genocídio dos ameríndios ou a guerra expansionista contra o México. Construindo a própria cabana e plantando e semeando aquilo que o alimentaria, o poeta e naturalista, assumiu nesse isolamento a resposta à imposição de um conformismo coletivo que execrava.
O ensaio de Albert Ogien e Sandra Laugier analisa o sentido dessa desobediência no contexto francês, onde ela se tem processado em escolas, hospitais, empresas e universidades, mostrando como tais atos correspondem à recusa da lógica de um modo de governar. Por exemplo se se sente ameaçado por algo, que sinta como uma perda - o emprego, a língua, a sua vontade - o cidadão tem o dever de desobedecer para propiciar o debate público capaz de corrigir a situação.  Foi o que fez a costureira negra Rosa Parks em 1 de dezembro de 1955 em Montgomery, Alabama, recusando-se a levantar do banco do autocarro, para que um dos passageiros brancos se sentasse. Ela revelou aí a quinta essência dessa atitude de desobediência, que constituiria o ponto de viragem na luta pelos Direitos Cívicos em todos os Estados Unidos.
O livro também interroga a vitalidade e a justeza das nossas democracias liberais depois da queda dos regimes ditos comunistas. Porque estão na ordem do dia as questões relativas à representatividade dos eleitores e os limites das maiorias. Alguns debates versam sobre as vantagens das democracias deliberativas enquanto aprofundamento das que se cingem às exigências participativas.
Desobedecer equivale a querer mais Democracia, recorrendo ao nosso espírito crítico para conseguir que a lei melhore. E ela está posta em causa na forma insuspeitada como o poder tende a ser ainda menos transparente do que alguma vez foi. É nesse quadro que a luta de Edward Snowden e de outros lançadores de alertas não pretende mudar o mundo em si, mas que se viva numa democracia efetivamente representativa baseada no voto de todos quantos nela vivem. Algo que as NSA’s e outras agências secretas tendem a impedir.

(P) Adoecer numa sociedade líquida

Sempre que revisito o espaço do Teatro O Bando no Vale dos Barris vou à espera de reencontrar o efeito jubilatório que o grupo me ofereceu com duas das suas peças, que nunca mais poderei esquecer: «Ensaio sobre a Cegueira» e «Quarentena»
Se a primeira adaptava o romance de Saramago e expunha cenograficamente na perfeição esse mundo de cegos onde ver resultava numa quase maldição por quanto significava ter outro nível de consciência quanto a iniquidade estabelecida entre quem oprimia e quem era oprimido, a segunda peça, revelada em 2015 naquela obscuridade criada pelo diktat de Passos Coelho, que já temíamos não ter fim, dava-nos (numa das duas versões possíveis!) a convicção de um tempo novo por chegar.
Numa altura em que ando a ler Zygmunt Bauman e dele retenho a mensagem testamentária de se explicar o Brexit e a vitória de Trump como consequências de décadas de consumismo, ando ávido de Política, preciso de estímulos incisivos para que possa refletir mais aprofundadamente como aqui chegámos e como daqui poderemos repartir para caminhos mais aproximados às nossas Utopias.
Aparentemente «Adoecer» na versão que Miguel Jesus criou a partir do romance de Hélia Correia não se exime a essa possível leitura, mas concretiza-a de uma forma ensimesmada. Paradoxalmente fazia mais sentido esta peça durante o período governativo anterior do que neste, onde a mensagem final da tal versão solar da «Quarentena» se enquadraria bem melhor.
A estória narrada por Hélia Correia projeta-nos para a segunda metade do século XIX, quando o ar de Londres era doentio por causa do fumo das fábricas e o Tamisa mais parecia um cano de esgoto a céu aberto. Não admira que a doença, as epidemias, constituíssem um risco suficientemente sério para justificar a fragilidade dos seus artistas. Entre eles estava Elizabeth Siddal, que servia de modelo aos pintores da fraternidade pré-rafaelita, mas também escrevia poemas e pintava.
A relação com Dante Gabriel Rossetti ficaria registada como um daqueles casos excessivos, em que o Amor já não é sentimento, mas constitui em si uma doença. Desaparecida precocemente, Elizabeth alimentaria mitos a respeito do seu cadáver incorrupto em cujo couro cabeludo prosseguia o crescimento dos seus cabelos ruivos.
Sem corresponder às interrogações mais diretamente políticas do nosso tempo, o texto remete para a condição feminina, demasiado sujeita à volubilidade e ao egoísmo dos parceiros masculinos.
Para concretizar o projeto cénico elaborado no papel a peça contou com quatro argumentos, que a tornaram numa belíssima proposta estética. Em primeiro lugar a tradução de muitas das palavras pelo movimento coreográfico dos dois bailarinos– protagonistas. Como escrevia a própria autora do romance no programa, a opção pelo bailado libertou o texto de si mesmo. Nesse sentido «Adoecer» é um híbrido entre o teatro convencional e a dança, com ambas as linguagens a interligarem-se como se de duas peças de uma mesma máquina se tratassem.
Há depois a excelente interpretação de todos os atores sem exceção e independentemente da dimensão do papel que lhes cabia. Algum histrionismo excessivo poderá ter surpreendido, mas acaba-se por o entender enquanto expressão de uma época ela mesma excessiva.
Os cenários, o guarda-roupa, os adereços e os movimentos dos corpos em cena constituem outro dos argumentos para a nossa rendição ao espetáculo, porque há pormenores esteticamente tão belos, que quase desejaríamos parar o tempo naquele instante e dedicarmos maior atenção ao quadro em que os movimentos ficariam congelados à nossa frente.
E acresce ainda uma componente das propostas de O Bando, que se revela sempre fundamental para a criação de uma atmosfera muito sua característica. Falo da partitura musical criada por Jorge Salgueiro para acompanhar os momentos mais impressivos. Como de costume sentiu-se a influência minimal repetitiva de Philip Glass, mas com ruturas estranhas a lembrarem o efeito conseguido com o desempenho de Fernando Ribeiro na peça «Saga». Que pena não dispormos da gravação de muitas das peças orquestrais que o compositor tem criado na sua já longa colaboração com o grupo.
Há que reconhecer que não obtive com «Adoecer» um efeito tão categórico como o verificado com aquelas duas peças exemplares, que comecei por recordar. Mas criações de João Brites e seus colaboradores nada têm a ver com aquela rendição aos valores líquidos, que Bauman aponta como os causadores do nosso incauto afastamento dos propósitos transformadores das sociedades em que vivemos.

quinta-feira, outubro 12, 2017

(DIM) O dia em que fui até à porta do Ermitage e não entrei

Com muita pena minha só estive uma vez, e por breves horas, em Leninegrado. Foi em 1989, quando Gorbatchev já tinha aberto a caixa de Pandora, a que dera o nome de perestroika, e o muro de Berlim começava a abrir fissuras, que se estilhaçariam em novembro desse mesmo ano.
Na altura era primavera e a cidade era uma incrível ostentação dos contrários, pois tanto conseguia brilhar nas cúpulas douradas das igrejas e palácios, como possuía ruas e estradas terceiro-mundistas com os buracos a ocuparem mais espaço do que o tapete de alcatrão.
Adivinhasse que não voltaria a pisá-la e teria aproveitado melhor as dez ou doze horas, que ali escalámos antes de seguirmos para as outras capitais nórdicas, que davam nome àquele cruzeiro específico. Não teria, por exemplo, agendado trabalhos na casa das máquinas para essa manhã, sabendo-os igualmente exequíveis na estadia seguinte , que ocorreria na pouco interessante Helsínquia. Infelizmente só saímos de bordo depois do almoço e com hora marcada para testar as máquinas principais antes da chegada dos passageiros entretanto mobilizados para as suas excursões.
Ao descer do portaló, acompanhado de outros dois colegas, tinha um alvo preciso a alcançar: o Ermitage, museu considerado como um dos mais interessantes a nível mundial, ombreando facilmente com o Louvre. Mesmo que só pudesse apreciar brevemente meia dúzia das suas mais emblemáticas obras, esse usufruto já teria justificado a caminhada até dar com ele. Mas o Palácio possuía um outro significado essencial: tinha sido sob a sua antiga designação, a de Palácio de Inverno, que a bem amada Revolução de Outubro de 1917 conhecera o seu clímax. Era, mais do que o objetivo artístico, o anseio que ali me levaria: calcorrear a tridimensionalidade do espaço onde Lenine e Trotsky tinham proclamado a vitória da República dos Sovietes.
A caminhada ao longo das margens do Rio Neva foi em passo acelerado, mas depressa percebemos que o Museu ficava a enorme distância e que os transportes não eram fáceis, nem frequentes, havendo a dificuldade complementar de não encontrarmos interlocutores capazes de nos ajudarem em língua inglesa.
Sucessivamente encaminhados por quem íamos contactando para a aferida direção certa, só ao fim de duas horas é que chegámos à porta do majestoso edifício azul esverdeado (ou verde azulado?), adornado de incontáveis colunas. Olhando para o relógio, concluímos o inevitável: urgia retomar, de imediato, o percurso de regresso a bordo sob pena de atrasarmos a saída do navio.
A contragosto assim fizemos: esse foi o dia em que estivemos à porta do Ermitage e nele não entrámos.
Compreende-se, assim, melhor, porque integrei o filme de Alexander Sokurov neste ciclo de cinema dedicado à Revolução de Outubro. Ele é o mais longo plano-sequência da História do Cinema, durando 96 minutos em que a câmara segue dois personagens - o próprio cineasta e um aristocrata francês do século XIX - pelas trinta e três salas principais do edifício, constituindo uma bela visita guiada pela sua incalculável riqueza patrimonial e reencontrando muitos dos vultos históricos, que fizeram efemeramente seu todo aquele espaço.
Encontramos Pedro I, que fundou a cidade e a tornou capital do seu império, a imperatriz Catarina com o seu fascínio pelo teatro, o czar Nicolau I numa receção faustosa ou o baile de celebração do terceiro centenário da dinastia dos Romanov, que não tardaria a ser derrubada. Há também a presença dos que sofreram o terrível cerco de mais de novecentos dias durante a Segunda Guerra Mundial e três orquestras, à frente de uma das quais reconhecemos aquele que é, muito provavelmente, o mais importante maestro do nosso tempo - Valery Gergiev.
Além de uma viagem fascinante pelo tempo e pelas artes ali expostas, a «Arca Russa» é uma notável proeza técnica, porque foi rodado no tempo real em que dura o filme e num só dia: 23 de dezembro de 2001. Para a tornar possível foram mobilizados dois mil figurantes e atores, que interpretaram os papéis correspondentes aos 877 personagens sinalizados como presentes no filme. Comandava-os os 22 assistentes de realização, que Sokurov superintendia, e abriam espaço para que o diretor de fotografia, Tilmen Büttner, evoluísse com a sua steadycam com que recolheria as imagens de toda aquela momentânea, mas grandiosa performance.
O grande trabalho de pós-produção ocorreu a nível do som, que resultou numa montagem complexa e perfeita.
Questionar-se-á, porém, o que o aqui mostrado terá a ver com a Revolução cujo centenário agora se comemora, e a resposta é óbvia: o grande evento histórico nunca teria podido ocorrer se não existisse um despotismo tão excessivo por parte dos Romanov, particularmente do que seria o último imperador da malquista dinastia.
A Arca do título mais não faz do que metaforizar a própria Rússia, arrastada pela corrente da História e à procura de se reinventar numa identidade integradora do seu povo, praticamente ausente de todo o fulgor palaciano, porque incumbido apenas de servir submissamente quem se equiparava a Deus. Os noventa e seis minutos revelam muito pelo que exibem da ostentação da corte, mas sobretudo pelo que omitem da miséria e da fome que estavam presentes no dia-a-dia da maioria dos camponeses. Perante tão obscena desigualdade entre quem colhia da vida os maiores benefícios e quantos eram convencidos a conformarem-se com a sua triste condição neste “vale de lágrimas”, como seria possível ignorar que a vontade emancipadora acabaria por ganhar alento no momento em que Lenine achou oportuno o momento de virar do avesso toda a ordem política e social até então existente?

(DL) Coisas de livros (I): Joyce Carol Oates, Maya Angelou, Jean Luc Godard e Marguerite Duras

1. Vou prosseguindo a leitura de «Rapariga Negra, Rapariga Branca», de Joyce Carol Oates, longo relato de Genna Mead sobre o ano em que partilhara o quarto da residência universitária com Minette Swift, uma colega negra, que morreria - tanto quanto posso prever! - por causa do bullying a que era sujeita pelas demais condiscípulas. E para não arriscar um pendor excessivamente maniqueísta, a autora - todos os anos incluída no lote dos potenciais galardoados com o Nobel - dá da futura vítima um retrato pouco simpático: engorda por causa das gulodices enviadas pela mãe, é arrogante no fanatismo religioso trazido da congregação onde o pai é pastor, e rejeita todas as tentativas da narradora para dela se aproximar e criar laços de amizade. Para além de adornar os olhos com uns ridículos óculos cor-de-rosa em plástico.
Mais de meio livro vencido, não posso imaginar como se concretizará a morte anunciada, embora as circunstâncias estejam a torná-la progressivamente credível no leque das hipóteses. Um dos aspetos mais surpreendentes até agora é o da tentação frequente de Joyce Carol Oates prescindir do registo da narradora para olhar para a intriga a partir de uma perspetiva exterior. Embora volte apressadamente a retomar a voz de Ginette.
2. Por esta altura anda nos escaparates das livrarias o primeiro dos títulos de Maya Angelou evocativos do seu passado na América do período anterior à Segunda Guerra Mundial.
Nascida em 1928 a ativista negra dos direitos das minorias também exime-se a uma divisão do mundo entre os bons e os maus, porque cresceu entre famílias disfuncionais em que a promiscuidade facilitava a violação como experiência traumática. Entre o Arkansas rural e a Califórnia, Maya convida-nos para uma viagem em que a violência racial está omnipresente e suscita a vontade emancipadora, que nortearia o seu prestigiado futuro.
3. O cinema e a literatura têm-se influenciado desde que o primeiro teve a sua primeira demonstração pública em 1895, nunca deixando de haver filmes baseados em romances, novelas e contos, ou estórias ficcionadas suscitadas pelo estímulo visual de imagens projetadas num ecrã.
Falando sobre essa interação, Jean Luc Godard disse um dia a Marguerite Duras, que era como se ambos viajassem em comboios condenados a continuamente cruzarem-se. 

(S) «For No Reason» pelo projeto Tomara

quarta-feira, outubro 11, 2017

(EdH) A Revolução cem anos depois (II): um César de fraca figura

Até que a Revolução de 1905 veio pôr em causa essa leitura o czar era tido como o detentor de um poder autocrático de alcance ilimitado. O título era um derivação de César, imperador dos romanos, Aliás, como sucedia com o termo kaiser para o imperador alemão.
O czar era igual a Deus como proprietário das almas e das terras. Reinava com o apoio do exército comandado por aristocratas, do poderoso clero e da temível polícia secreta, a Okrana, que se dizia estar espalhada por todo o lado. No entanto, comprovava-se ser ela insuficiente para prevenir o crescente deflagrar de atentados terroristas e de movimentos de protesto, quer nos campos, quer nas fábricas instaladas pelo incipiente processo de industrialização.
Nicolau II era um fraco, que se ajustava mal a esse poder autoritário. Ao contrário do progenitor, que possuía imponente compleição, desiludia quem o pretendia ver ajustado às pretensões do cargo apresentando-se na sua fraca figura. Em 1910 reinava sobre 160 milhões de súbditos, dos quais 130 eram camponeses sujeitos a atroz miséria apesar de ter cessado, cinquenta anos antes, o regime de servidão. As reformas lançadas desde então pouco tinham alterado os destinos dos que faziam da Rússia o principal produtor e exportador de cereais a nível mundial.
A esperança de vida estava nos 35 anos e os esfomeados camponeses reagiam através dos cultos religiosos, que lhes incutiam resignação, dos copos de vodka, ou algo que se lhe aparentasse, e, de quando em quando, com revoltas logo brutalmente sufocadas. O seu desenvolvimento cultural era muito baixo, sobretudo no respeitante à consciência política. O que não admira: o poder proibia os mais elementares direitos de associação, incluindo a organização de partidos políticos. Só assim se poderia manter uma situação social marcada por gritantes desigualdades.
Quando, em 1913, a coroa russa celebrou com grande pompa o tricentenário da dinastia dos Romanov, Nicolau II recebeu conselhos quanto à necessidade de reformar as instituições políticas, mas fez-lhes ouvidos de mercador. É que, em 1881, vira o primo, Alexandre II, ser assassinado precisamente depois de ter encetado um projeto de alteração liberal insuficiente para contentar os detestados extremistas.
Os revolucionários, porém, não provinham apenas das classes sociais fustigadas pela miséria: a maioria até era aristocrata ou de famílias burguesas como era o caso de Lenine, que vira o irmão enforcado em 1887 por atividades conspirativas contra o czar e ele próprio conhecera o degredo na Sibéria antes de tomar o caminho do exílio para vários países europeus.
Seria na Suíça que o futuro chefe bolchevique seria apanhado se surpresa pela revolução de fevereiro de 1917.