segunda-feira, dezembro 18, 2017

(DL) «Palácio dos Sonhos» de Ismail Kadaré

Publicado em 1981, este romance do mais famoso escritor albanês foi imediatamente proibido tão evidente era a abordagem do universo totalitário.
“Há muito tempo que pretendia construir um Inferno. Temia, porém, o que implicava de ambição e de quimérico um tal projeto depois de anónimos egípcios, Vergílio, Santo Agostinho e, sobretudo, Dante”, previne o autor que, para abordar a ditadura, recorre a uma polícia das consciências.
Num império indefinido, mas que tanto parece otomano, como a Albânia de Enver Hoxha devidamente disfarçada (“um dos mais vastos do mundo: mais de uma quarentena de nacionalidades de todas as confissões religiosas e etnias”), um jovem pertencente a influente família de servidores do Estado, Mark-Alem Quprili, é contratado para o Tabir-Sarrail, uma espécie de ministério da Adivinhação, o mais misterioso do regime, onde um exército de funcionários, autênticos polícias do inconsciente, recebem, classificam e interpretam os sonhos de todos os habitantes, mesmo os das províncias mais distantes, quer provenham de um ministro, quer de um vendedor de legumes, procurando neles discernir os presságios sobre o futuro.
Trata-se de uma missão gigantesca no intento de drenarem e centralizarem o inconsciente coletivo de todo o país. Lutas pelo poder, delações, encarceramentos, assassinatos…
Nessa burocracia misteriosa destinada a perpetuar as tiranias e as superstições, a promoção de Mark-Alem na hierarquia do Palácio dos Sonhos dá ao leitor a perspetiva global de um sistema de opressão, que devolve aos sonhos a importância por eles sempre tida desde a Grécia Antiga e do Oráculo de Delfos, e indispensável ao tirano para eliminar quantos tenham veleidades de lhe causar dano.
Ao fundir na narrativa as lendas e os «cânticos proibidos» dos poetas populares albaneses, o autor salta os séculos para revisitar um passado cristão anterior à ocupação turca, evocando o passado esquecido dessa grande família a uma ponte com três arcos situada na Albânia Central, construída quando ainda aí predominavam os cristãos e em cujos alicerces fora soterrado alguém.
Atravessando os círculos deste inferno kafkiano, Mark-Alem vai sendo promovido nas instâncias concêntricas do prominente centro do poder até se tornar no seu mestre todo-poderoso, mas constantemente assombrado pelo medo de também se ver esmagado pela burocracia, que dirige. Como todos os demais funcionários, ele põe  a si mesmo a eterna questão: “surgirá algum sonho que tenha a ver comigo?”.
Por isso sabe que a sua vez também chegará e talvez já estejam a dar flor as amendoeiras, que lhe ornamentarão a sepultura.

(DIM) Uma curiosidade cinéfila com Bela Lugosi

Hoje às 19 horas a Cinemateca apresenta pela primeira vez o «Voodoo Man», um filme realizado em 1944 por William Beaudine com Bela Lugosi no papel principal.
Rodado em sete dias, tratar-se-ia do último título desempenhado pelo ator para a Monogram. Ele surgia aqui como cientista apostado em ressuscitar o cadáver da mulher através das «essências vitais» colhidas em várias raparigas raptadas pelos seus colaboradores, um dos quais interpretado pelo pai do clã Carradine.
Evidentemente que, setenta e picos anos depois, tudo nos parece muito básico, mas «Voodo Man» tem o interesse de nos questionar sobre o entusiasmo então manifestado por filmes com este tipo de temática. Sobretudo quando na altura a Europa estava devastada por uma guerra despoletada por monstros bem mais reais e assustadores.



(S) Aida Garifullina a interpretar uma ária da ópera «A Filha das Neves»

Uma ária da ópera «A Filha das Neves» de Rimsky Korsakv, que conta a história de Snegourotchka, nascida dos amores entre a fada Primavera e o velho Inverno. Protegida pelos pais do ciúme do deus sol Yanilo, que promete aquecer-lhe o coração, quando se apaixonar, ela é confiada ao Espírito dos bosques...



(DIM) Uma América intolerante, egoísta e cúpida retratada por Joseph Mankiewicz

«Falsa Acusação» é um dos três filmes de Joseph Mankiewicz, que o canal ARTE nos possibilita rever esta semana. Realizado em 1950 o conteúdo antirracista fez com que fosse proibido nos Estados do sul dos EUA durante muitos anos, merecendo igual ostracismo por parte das televisões.
A história era a de um jovem médico negro sujeito ao ostracismo da população de uma pequena cidade. Esse Luther Brooks era interpretado por Sidney Poitier em início de carreira.
Convocado a casa de dois bandidos, que haviam sido alvejados, não conseguia evitar a morte de um deles. Logo o sobrevivente cuidava de o acusar da morte do cúmplice lançando uma campanha de difamação contra ele, forçado a lutar pela sua inocência.
Ao escolher este tema Mankiewicz desprezava o Código Hays, que exigia a abordagem de temas que enaltecessem a realidade norte-americana. Ora ele denunciava a intolerância e o ódio absurdo da camada mais iletrada da população branca.
Trata-se, pois, de filme muito atual, tendo em conta quanto esse tipo de eleitores contribuiu decisivamente para a eleição de Donald Trump.
Realizado no mesmo ano, «Eva» versa assunto bem diferente: a irresistível ascensão de uma jovem atriz, muito ambiciosa, em detrimento de uma outra já em plano declínio.
Anne Baxter interpretava o papel dessa jovem Eve Harrington, que começamos por ver detentora do prémio de melhor atriz do ano. Como chegou até ali é o que Mankiewicz nos irá mostrar em flash-back: um ano atrás ela assediara Margo Channing (Bette Davis) à porta da saída dos artistas de um teatro para lhe expressar a rendida admiração, vendo-se convidada para a visitar dias depois no camarim. Tão afável se mostrava que Margo convidava-a para ser sua secretária particular.
A influência junto da nova patroa crescia tão rapidamente, que toda a vida desta  passava a depender de si. O objetivo traiçoeiro de toda a sua ação acabava por se explicitar, mas Margo só o compreenderia demasiado tarde.
O que interessava Mankiewicz era descortinar como se abriam as portas do paraíso? Até que ponto justificava a renúncia a qualquer escrúpulo, mormente traindo quem quer que fosse?
O filme não se limitava a ser o retrato de uma arrivista, capaz de tecer todas as intrigas necessárias para alcançar o seu fim, porque mais interessantes se revelavam os padrões de comportamento nos codificados meios teatrais. Acabava por ser um impiedoso estudo de costumes, que confirmava o realizador como um dos mais lúcidos observadores das relações humanas. A perda de valores, o egoísmo e a manipulação consubstanciavam uma perturbadora inversão das expetativas: a caprichosa vedeta via-se transformada em vítima de uma “simpatiquíssima” falsa ingénua.
«Eva» tinha ainda o interesse de vermos Marilyn Monroe numa das suas primeiras aparições na tela.
Vinte anos depois dos dois filmes atrás referidos, Mankiewicz assinava «O Réptil», western quase esquecido, mas dotado de um humor corrosivo. De início tínhamos um assalto bem sucedido com Paris Pitman Jr a conseguir quinhentos mil dólares de um rico proprietário, não tendo de partilhá-los com os três cúmplices, entretanto eliminados.
Escondido o pecúlio numa toca de serpentes voltava para a cidade, mas era reconhecido pelo espoliado, que o denunciava e o fazia prender num estabelecimento situado no deserto do Arizona. Doravante Paris só pensaria em evadir-se e recuperar o seu tesouro.
Traições, vigarices e cupidez, era o tema de um filme, que tem Kirk Douglas e Henry Fonda a liderarem um elenco recheado de bons atores.




(S) Portugal. The Man - "Feel It Still"

sexta-feira, dezembro 15, 2017

(S) A versão de Petrushka de 1947 de Stravinsky sob a direção de Simon Rattle

(EdH) Catalunha em vésperas de uma eleição decisiva (IV)

Buscar nas discrepâncias geográficas, em relação às adjacentes, uma explicação para o separatismo catalão pode não ser o melhor argumento. Na realidade há países, até menores, cujas diferenças se revelam assaz significativas a distâncias curtas. Ainda assim é forçoso reconhecer que as montanhas da região possuem tonalidades verdes mais próximas da Europa além-Pirinéus do que das características ibéricas. Os parques naturais e as estações de inverno aí implantadas dependem tanto do fluxo turístico interno (entendendo-se Espanha nos ainda atuais limites geográficos!) como externo.
A região também ganhou renome pelo litoral, vendido a partir dos anos sessenta e setenta como destino idílico para europeus endinheirados mas, nos anos mais recentes, esse fulgor esmaeceu e, em número de visitantes, a Andaluzia até a ultrapassou. Trata-se de uma vasta área onde se atinge uma das densidades mais elevadas de população na União Europeia, em contraponto com o interior rural, que se caracteriza exatamente pelo contrário.
Em recursos naturais, a Catalunha revela-se pobre. O solo não lhe lega matérias-primas passíveis de serem exportadas mas, desde o século XIX, a burguesia cuidou de encontrar alternativa num crescimento industrial fundamentado na permanente inovação. A indústria têxtil é tradição com origem na Idade Média, tendo-se adaptado ulteriormente a todas as mudanças suscitadas pelos novos materiais de que é exemplo eloquente o recurso ao algodão dos ameríndios a partir do século XVIII. Em Barcelona, Sabadell e Mataró surgiram fabricantes de vestuário de pronto-a-vestir, que têm perdido dimensão desde o final do século transato como consequência da expansão global. O desemprego operário encontra aqui uma explicação incontornável.
Em compensação, na mira de conseguirem colaboradores bem qualificados, grandes consórcios estrangeiros, nomeadamente japoneses, têm feito de Barcelona o fulcro para a conquista dos mercados europeus.
Números recentes dão a Catalunha como tendo 48% da indústria têxtil espanhola e 80% da produção química havendo, igualmente, muitas fábricas do setor metalúrgico, das construções elétricas e eletromecânicas. Barcelona é, por isso mesmo, o principal polo industrial de toda a Espanha. Singularmente o setor terciário não revela o dinamismo esperado. Mesmo as empresas estrangeiras não costumam trazer para a Catalunha os seus departamentos de investigação e desenvolvimento.
Conclui-se, pois, que pesem embora alguns sucessos a economia catalã assenta num sistema de produção fragilizado e pouco produtivo, sobretudo em comparação com a rival Madrid, que conseguiu atrair a si a maioria dos investidores internacionais. A aposta do movimento independentista decorre da dinâmica europeia, que pode justificar a criação preferencial de sinergias com o outro lado dos Pirinéus em detrimento dos países ou regiões, que ficam do lado de cá.

quinta-feira, dezembro 14, 2017

(DIM) «O Eclipse» de Michelangelo Antonioni (II)

Vittoria perde Piero de vista. O corretor reaparecerá mais tarde, mas, antes desse reencontro, o realizador apresta-se a proporcionar à protagonista outra experiência: para passar o tempo ela pendura na parede a sua mais recente aquisição, um fóssil onde está gravada a forma de um ramo, e apalpa-a e olha-a como se quisesse deixar-se absorver por ela. O barulho da operação dá à vizinha Anita a oportunidade para vir falar com ela.
“Estou cansada, humilhada, desgostada e desfasada”, confia-lhe Vittoria. “Há dias em que ter nas mãos um pano, uma agulha, um livro ou um homem, é igual ao mesmo”.
As confidências dela são interrompidas pelo telefone: ao ver a janela iluminada, uma outra solitária, chamada Marta, convida as vizinhas a virem visitá-la.
“Agora só conheço pessoas novas”, murmura Vittoria quando está a entrar no apartamento de Marta, uma espécie de museu africano explicável por ela ter nascido no Quénia. Nas paredes estão expostas armas, troféus de caça e fotografias de vastas planícies Vittoria sente-se subjugada pela sensação de liberdade, de nobreza e de grandeza associáveis a esses testemunhos de um mundo primitivo e não contaminado. Disfarçando-se de negra improvisa uma dança africana frenética ao som de um disco de música exótica. Entrega-se a esse ritual libertador com tal vitalidade, que Marta decide interromper bruscamente a sessão para surpresa das visitantes.
Deitadas numa cama, com copos de whisky a animá-las, as amigas retomam a conversa sobre África. “Talvez lá se pense menos na felicidade” - sugere Vittoria - “As coisas devem avançar um pouco só por si mesmas. Aqui, pelo contrário, tudo se complica. Até mesmo o amor.”
Quando conclui esta frase Vittoria já está com as amigas numa escada , que acede à esplanada do Pavilhão dos Desportos. Subitamente ela para: no silêncio noturno surpreendeu-a um som misterioso, mas igualmente harmonioso: é o som causado pelos fios metálicos  agitados pelo vento contra as hastes das bandeiras dispostas de um lado do local até perder de vista.
Ela vê-se encantada e pensativa por essa insólita melodia noturna. A inesperada conclusão dessa sequência, bem como da subsequente viagem de avião,  acentua a personalidade de Vittoria: capta a linguagem dos objetos inanimados, como é costume nas heroínas antonionianas.
Para afastar-se o mais possível de Riccardo, que continua a assediá-la aparecendo-lhe por baixo da janela, Vittoria viaja com Anita, cujo marido, piloto aéreo, deve entregar um avião de turismo aos seus clientes em Verona.
O espetáculo do céu encanta Vittoria. “Entremos na nuvem” pede, excitada, ao piloto, quando fica a saber que elas são feitas de gotas de água e de flocos de neve. Mais do que a viagem o realizador propõe-nos dar a conhecer a sua conclusão mágica: a atmosfera serena e transparente, que reina no pequeno aeroporto (os jatos a desfilarem silenciosamente no céu, dois pilotos imóveis como estatuas em frente a uma mesa de bar sob um cómico guarda-sol). Antonioni entrega-se ao prazer de demorar na representação desses momentos de esquecimento e de magia do tempo suspenso, que propiciam a Vittoria a sensação de bem estar, que ela desejaria conservar para sempre.
Nesta altura já sabemos quase tudo sobre ela: mais adulta do que a Cláudia de «A Aventura», menos problemática do que Valentina («A Noite»), mas a exemplo delas, depressa desiludida com os sentimentos.
Vittoria é simples, sadia, natural e disponível. Sempre disposta a aproveitar a poesia, o sabor e o que existe, encara as ocasiões proporcionadas pela realidade sem preocupações nem antecipações ou planeamentos.
Viver um dia de cada vez, ver o mundo por outras perspetivas e até mesmo tornar-se num olhar - eis o que Vittoria quer. O passeio noturno de Lidia em «A Noite», destinada a encontrar uma verdade comprometida pelos cocktails literários, torna-se para Vittoria um estilo de vida e o tema principal da história. Em «O Eclipse», as abordagens de Antonioni sobre as mulheres, depositárias de uma verdade em oposição interna com a civilização contemporânea, tornam-se ainda mais claros e perentórios.
À engrenagem que esmaga os homens obcecados pelo dinheiro e pelo prestígio, pela acumulação e pelo consumo, contrapõe o ludismo. Numa situação social e cultural que as não satisfaz as mulheres dos filmes de Antonioni tentam agir de acordo com o que pensam, independentemente dos programas e esquemas a que as pretendem constranger. Quando volta a procurar a mãe na Bolsa encontra-a no auge da excitação e da desilusão, porque rebentara uma bolha e todos tentam libertar-se do desvalorizado papel. A câmara insiste no contraste entre o pânico dos clientes e o nervosismo dos agentes (todos se interpelam, buscam-se ou consultam-se febrilmente através de gestos) e a indiferença olímpica dos assalariados. A mãe de Vittoria senta-se num banco com o rosto desfigurado. “ Perdeu uma dezena de milhões”, anuncia Piero a Vittoria, “ mas se se pensarem nas centenas de milhões que se perderam esta manhã em toda a Itália…”

(S) O Concerto para Piano de Schumann interpretado por Khatia Buniatishvili

(EdH) Catalunha em vésperas de uma eleição decisiva (III)

A constituição de 1978 definia a transição democrática do pós-franquismo e recriava o estatuto de autonomia bem como a Generalitat da Catalunya, que Franco suprimira. A saúde, a educação, a polícia, a cultura e uma parte da fiscalidade passaram para as competências dessa instituição. O presidente da Generalitat passava a dirigir e coordenar as ações do governo catalão composto por um Conselho executivo, organizado em quinze departamentos investidos de poderes administrativos. Por seu lado o Parlamento catalão representava doravante o povo, legislando, controlando a atividade do Conselho, aprovando o orçamento e elegendo o presidente da Generalitat.
Desde então o estatuto da autonomia sempre foi debatido quanto à sua natureza, extensão e aplicação, relativamente a Madrid.
Barcelona, a sede do poder da Generalitat e de outras instituições públicas ou privadas (estruturas comunitárias, câmaras de comércio, organismos profissionais, etc.) desempenhou um papel primordial nas lutas pela conquista da autonomia regional. No contencioso com o Estado central persiste o sentimento de ser-se subalternizado em relação a outras regiões periféricas mais pobres. Os Catalães consideram tratar-se de um constrangimento ao seu próprio desenvolvimento. No início do milénio a Catalunha contribuía com 20% para o orçamento espanhol e só recebia 12% dos investimentos públicos, que privilegiavam bem mais a região de Madrid, o País Basco e a Navarra. Daí o desejo catalão de alargar as competências regionais para tudo quanto tinha a ver com as grandes superestruturas  (aeroportos, portos) e recuperar as receitas fiscais até então colectadas a partir de Madrid. 
No debate em causa não têm faltado as comparações entre a riqueza da região, o dinamismo, o potencial para servir de motor à economia europeia. Os discursos políticos passaram a incorporar mais frequentemente conceitos como os de «nação catalã», que fundamentariam a crescente aspiração á independência. A posição geográfica da Catalunha  e o seu poder económico permitem-lhe associar-se a outras regiões europeias, que se reivindicam como as mais dinâmicas do continente: a Lombardia italiana, a Rhône-Alpes francesa e o Bade-Wurtemberg alemão.
O novo texto estatutário aprovado pelo parlamento catalão foi alterado em Madrid, que só permitiu a palavra «nação» no seu preambulo a pretexto de respeitar a Constituição de 1978 no que ela refere a “unidade indissolúvel da nação espanhola”. O alargamento das competências fiscais e administrativas só foi aceite em parte, pois metade das receitas obtidas dos impostos sobre rendimentos e o consumo continuaram a ficar retidos pelas autoridades madrilenas.
O referendo de 2006 ainda revelava uma Catalunha pouco mobilizada para as aspirações dos seus mais arreigados independentistas: só 48% dos eleitores acedeu a ir às urnas. Mas o Partido Popular já se revelava tão rigidamente antagonista da mais dilatada autonomia catalã, que Rajoy apenas lhe vai mantendo a inflexibilidade, mesmo perante condições que vão a contracorrente da sua conceção de Espanha. Amiúde vêm dos setores mais aparentados ao franquismo o agitar dos fantasmas da guerra civil dos anos 30.
Independentemente do que acontecer no escrutínio eleitoral de 21 de dezembro, pouco se definirá  quanto ao essencial: o respeito mútuo entre a mentalidade catalã e a enfeudada ao centralismo castelhano. A luta por uma Catalunha livre e independente ainda promete muitas batalhas até à vitória final... 

quarta-feira, dezembro 13, 2017

(S) A Abertura de «Manfred» de Schumann

(DIM) «O Eclipse» de Michelangelo Antonioni (I)

A estória do filme resume-se em poucas linhas: depois de ter rompido com o amante, Vittoria vai à Bolsa encontrar-se com a mãe. É aí que conhece um belo corretor por quem logo se enamora. Mas ele resiste-lhe, parece levar a profissão mais a sério do que aquela relação para que ela o pressiona. Até que se deixa convencer. É nessa altura que Vittoria hesita quanto à vontade em render-se a essa nova ligação.
Michelangelo Antonioni escreveu num texto que um filme é sempre suscitado por um elemento externo, algo que despoleta uma narrativa. Pode-se sentir uma atmosfera e logo ela se vê transformada no cenário de fundo.
No caso desta sua nona longa-metragem, cuja rodagem iniciou em julho de 1961, esse estímulo inicial acontecera em fevereiro, quando o realizador fora a Florença para captar as imagens de um eclipse total do sol. “De repente tudo parou. Um silêncio diferente de todos os outros a que nos acostumáramos. Uma luz terrestre diferente de todas as até então conhecidas. Depois, a obscuridade, a imobilidade perfeita. (…) O único pensamento que me aflorou durante o eclipse foi que os sentimentos também talvez pudessem parar assim.
Um terço do filme passa-se no edifício da Bolsa. O que terá passado pela cabeça do realizador para escolher um cenário tão peculiar? “Aconteceu-me conhecer ambientes onde algumas mulheres jogavam na Bolsa e acabei por lhes achar algum interesse. Determinado a aprofundar o assunto, pedi um passe e frequentei a Bolsa durante uns vinte dias. Foi quanto bastou para captar-lhe o lado excecional numa perspetiva visual.”
Antonioni pediu a Alain Delon, que interpretaria o papel do jovem corretor, a fazer a mesma experiência na fase de pré-produção até lhe indicando um profissional em particular, um certo Paolo Vassallo que, singularmente, viria depois a ficar famoso pelo envolvimento num caso relacionado com drogas. Na época Vassallo trabalhava para o pai na Bolsa e Delon foi observá-lo, como se movimentava, o que fazia e ia tomando notas sobre todas essas suas constatações. O ator diria depois que tinha sido como se tivesse voltado à escola.
Para as cenas rodadas na Bolsa durante o seu fecho estival, Antonioni recorreu a quem ali realmente costumava trabalhar, desde agentes a banqueiros, de forma a que se comportassem com a desejada naturalidade naquele contexto. É esse lado quase documental, que confere maior veracidade ao filme.
O filme anterior de Antonioni, «A Noite» concluía-se ao nascer do dia com uma dolorosa separação afetiva. «Eclipse» começa por uma separação ao inicio da manhã: Riccardo, um intelectual com cerca de quarenta anos, e Vittoria, nos seus vinte cinco, estiveram a discutir durante a madrugada. Ela circula pelo apartamento, mudando um objeto de sítio, abre um cortinado (deixando ver a forma espectral do aqueduto mussoliniano em forma de cogumelo!), enquanto Riccardo está sentado a olhar para nenhures. Quando Vittoria anuncia a decisão de se ir embora, ele finge não a compreender. O rosto está-lhe tenso, marcado pela fadiga.
Horrorizada a rapariga ouve-o dizer que só a queria fazer feliz e aproximar-se para a abraçar. Mas ela reage: “Quando nos conhecemos eu tinha vinte anos e era feliz!”.
Ele insiste: “Diz-me uma última coisa. Já não me amas ou não queres casar?
- Não sei!
- Desde quando é que não me amas?
- Eu queria…
- Fazer-me feliz, já mo disseste. Mas para continuar eu também deveria sentir-me feliz!”
A crónica de uma separação anunciada conclui-se sem mais delongas. A jovem quis pôr um termo à relação. Que o intelectual não saiba falar ao íntimo da companheira para a conseguir reter junto de si diz muito sobre as razões para tal separação. A tranquilidade aparente de Riccardo esconde uma secura e uma autossuficiência irritantes. Ainda procura acompanhar Vittoria rua fora mas, na verdade, apenas procura o pretexto para conseguir ser ele a tomar a iniciativa de quebrar definitivamente as amarras entre ambos.
Esta sequência inicial - que Tommaso Chiaretti considerou construída como se fosse um triste adagio! - analisa com subtileza a perturbação da protagonista que, tendo decidido retomar a liberdade, sente-se prisioneira nesse apartamento de súbito estranho.
Numa sucessão insolitamente rápida de planos o rosto de Vittoeia parece agrilhoado numa miscelânea de linhas e formas conferidas pelos objetos decorativos, pelos cortinados, pelo abajur, que testemunham a rutura a consumar-se. Desde a primeira cena, que os objetos assumem um papel determinante. No final substituir-se-ão aos seres humanos.
Procurando consolo junto de quem possa compensá-la Vittoria irá procurar a mãe onde sabe ser fácil encontra-la - na Bolsa. Viúva, essa mulher de origens modestas, tem um enorme pavor pela miséria. Notemos que, a tal respeito, em «O Eclipse», a origem social dos personagens, bem como o peso do dinheiro na vida quotidiana e sentimental, são definidos com maior precisão do que nos filmes anteriores do cineasta, o que contribui para o reforço do realismo do filme.
Quando Vittoria entra nesse “templo da negociação e da degradação dos valores”, um relógio indica uma hora e uma data precisas. As negociações geram uma permanente azáfama, os clientes acompanham atentamente as cotações no enorme quadro onde elas são afixadas. Há rostos tensos, bocas a gritarem ordens, braços a agitarem-se acima das cabeças  (“não compreendo como conseguem compreender-se e fazerem operações com sinais tão rápidos” dizia Antonioni), mãos a anotarem números com grande nervosismo em minúsculos blocos de notas, gente que se movimenta em todas as direções no meio de uma enorme confusão…
O ex-documentarista de «Gente do Pó» convida o espectador a entrar nessa selva sem recorrer a trucagens expressionistas, limitando-se a registar a realidade pura e dura. O achado está em transitar sem quase o notarmos de um mundo vago e impreciso para um mecanismo oculto capaz de transformar os homens em sombras.
Na Bolsa jogam-se destinos individuais sem que se conheçam as razões dos que os condicionam Quando Vittoria consegue aproximar-se finalmente da mãe vê-a tão obcecada por aquele fluxo de milhões, que nem sequer lhe presta atenção. É inevitável que a mãe não a entenda, porque é outro o foco das suas obsessões. A única pessoa capaz de com ela dialogar é Piero, um dinâmico corretor, que lhe presta apoio  e a quem ladeia enquanto prestam a homenagem de um minuto de silencia a um colega vitimado por um enfarte. O pilar que os separa não está ali por acaso, nem por meras razões de composição visual: tem um valor simbólico, o de haver um obstáculo quase intransponível a separa-los, a Bolsa.
Nesse memorável minuto, Antonioni consegue criar o mais perturbador dos suspenses metafísicos com uma evocação sarcástica do nada, da imobilidade, precisamente no sítio onde impera o caos. Esse vazio que vem impor-se ao turbilhão é, de facto, a presença da morte...

terça-feira, dezembro 12, 2017

(EdH) Catalunha em vésperas de uma eleição decisiva (II)

Inicialmente a união entre a Catalunha e Aragão revelou-se consensual, sobretudo porque o rei prestava bem mais atenção à rica região costeira do que ao modesto território interior. O comércio marítimo proporcionara a ascensão de importante burguesia barcelonesa e importante desenvolvimento urbano, que tendia a considerar insuportável a tutela aragonesa. Para  mitigar tal sentimento a coroa transigiu numa decisão, que lhe retirava grande parte dos poderes: a criação da Generalitat - o órgão agora desrespeitado pelo governo de Mariano Rajoy! - nas Cortes de 1359, com reconhecido poder político e judicial.
Em 1412, com a subida ao trono do castelhano Fernando de Antequera, o relacionamento entre as duas regiões vai ficar ainda mais seriamente comprometido, mas é reinado curto, e o sucessor, Afonso V, o Magnânimo, assume-se como o conquistador, que domina a Sardenha e o reino de Nápoles, fechando os olhos às crescentes manifestações dos autossuficientes catalães.
Outra atitude será a de João II, que ascende ao trono em 1458: não só decide reprimir a autonomia catalã, como o faz violentamente, subjugando Barcelona após longo cerco. Trata-se de um momento de viragem com o poder central madrileno a virar-se para o Atlântico em detrimento do Mediterrâneo.
Apesar da violência a que se sujeitavam, os catalães irão revoltar-se amiúde nos séculos seguintes: primeiro em simultaneidade com os portugueses, quando estes restaurarão a identidade nacional sob um Estado próprio - algo que eles não conseguirão por voltarem a sofrer uma dolorosa derrota militar - mas também em 1700 e 1714.  Nesse século XVIII a região conhecerá novo florescimento económico não só por a sua população escusar-se à tentação migratória dos demais espanhóis, como por crescer demograficamente e contar com a reintensificação do comércio nos seus portos.
A invasão napoleónica trava essa dinâmica, embora  os franceses acedam a uma administração local bastante autónoma liderada por um prefeito, que aprova o lançamento de jornais em língua catalã. Quando o Império do vizinho claudica grassa uma guerra civil por toda a Espanha e reforça-se a unidade em torno do poder central madrileno Os catalães bem tentam contrariá-lo com atentados particularmente intensos entre 1830 e 1840, mas o domínio castelhano continua a prevalecer.
No século XX esse predomínio centralista perde gás e o impulso independentista ressurge com a insurreição de 1934, que declara a existência do novo Estado catalão liderado por Luís Campanys. Mas Franco sai vencedor da Guerra Civil sendo Barcelona o derradeiro bastião da resistência democrática à ditadura fascista. Quando a capital se rende, em 26 de janeiro de 1939, Franco logo se apressa a esmagar todos os indícios de identidade catalã por muito que greves operárias entre 1950 e 1970 e algumas revoltas estudantis a tentem recuperar para a normalidade quotidiana. A autonomia regional só volta a ser aprovada por referendo em 1975, logo após a morte do ditador...

(S) Há trinta anos Barbara a cantar "L'aigle Noir no Châtelet

(DL) Literatura para nascidos no Estado Novo

Nos últimos anos, sobretudo desde que se reformou do jornalismo, Fernando Dacosta tem publicado diversos relatos sobre quem conheceu ao longo desse percurso profissional, facultando-nos informações complementares sobre alguns aspetos da História portuguesa na segunda metade do século passado.
«Nascido no Estado Novo» foi publicado em 2001 e está dividido em cinco partes explicadas pelo próprio autor numa das últimas páginas do livro: “A Primavera esteve presente nos acordares da República e do 25 de abril; o Verão, nas ditaduras do Estado Novo e das multinacionais neo-esclavagistas; o Estio, na afirmação do erotismo e na emergência da liberdade; o Inverno, no martírio dos mobilizados das guerras e no abandono dos excedentários; o Outono, na reinvenção da esperança e na resistência global.”
Tendo sido visita de casa de Salazar quase se fazendo adotar pela governanta, D. Maria, é natural que o autor seja bem mais complacente com o ditador de Santa Comba do que com o seu efémero sucessor: Marcelo Caetano é descrito como um homem muito preconceituoso, dado a arrebatamentos morais, que paradoxalmente, se tornaram risíveis ao sabermos que, a seu lado, no cemitério onde foi sepultado, está a campa do libidinoso Nelson Rodrigues. Se os dois pudessem dialogar adivinharíamos o padrinho do atual Presidente a não perder o corado próprio de quem se sente escandalizado com os costumes alheios.
As palavras mais admirativas vão, porém, para alguns dos melhores amigos com que privou, nomeadamente os que com ele partilhavam as animadas tertúlias de vários cafés lisboetas, onde as discussões não perdiam entusiasmo pelo facto de se saberem vigiadas pelos delatores da Pide. Natália Correia foi-lhe particularmente grata, sendo curiosa a sua antipatia por Amália, com quem partilhava, porém ,muitos traços de carácter. Ary dos Santos era outro dos seus ódiozinhos de estimação, depois de tanto se terem querido, por causa da radicalização política subsequente a 1974. Há também Mário Viegas de quem se lamenta o tão precoce desaparecimento ou a simpatia contagiante de José Saramago e de Pilar del Rio. Outra das personalidades, que lhe merece respeitosa consideração é o professor Agostinho da Silva apesar da forma ostensiva como virara costas ao positivismo racional. Mas como não reconhecer-lhe razão, quando dizia que “o difícil na vida é saber fazer perguntas. Dar respostas todos dão, até porque as nossas escolas apenas são formadoras de respostas”?
Testemunho de um tempo que se vai revelando aceleradamente distante, este e outros relatos de Dacosta na primeira pessoa constituem uma oportunidade prazenteira de não o deixarmos fugir sem dele lhe agarrarmos nostalgicamente alguns ténues rumores.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

(EdH) Catalunha em vésperas de uma eleição decisiva (I)

A menos de uma dúzia de dias da eleição, que poderá influir decisivamente no seu futuro, vale a pena abordar o que é hoje a Catalunha e o que, no seu passado, justifica uma tão determinada vontade em se separar do resto da Espanha.
Comecemos pelo nome: porquê Catalunha? A razão tem a ver com o nome dado à antiga província romana, quando os Visigodos a conquistaram e lhe quiseram dar uma nova identidade: Gothalonia. Assim ficou até evoluir por sucessivas corruptelas até á atual designação, que abarca quatro províncias: Gerona, Tarragona, Lleida e a capital, Barcelona.
A superfície abarca 32 mil km2, ou seja quase 1/3 de Portugal, mas apenas 6,3% do território ainda tido como espanhol. Em riqueza é a mais rica região espanhola graças ao crescimento médio anual do PIB em 3,5% nas últimas duas décadas do século XX. Nesse período deixou de ter as fábricas a dominarem a paisagem, ao operar-se uma efetiva revolução nos serviços e no lazer.
A identidade específica de que se reivindica é condicionada pela presença impositiva dos Pirenéus e do Mediterrâneo, constituindo o Ebro o seu limite geográfico. Mas a língua e cultura extravasam essas fronteiras e chegam aos Pirenéus orientais e a sul até Alicante. Ao largo também as ilhas Baleares lhe estão ligadas, falando-se ainda catalão na Andorra, na periferia oriental de Aragão e na própria Sardenha. Mas, mais do que o mar ou a montanha, a planície litoral ou os deltas, foi a História a forjar a identidade catalã.
O seu território sempre foi região de contactos e de trocas entre populações distintas. As grutas e os abrigos testemunham uma ocupação ancestral, datada pelo menos do Paleolítico médio.
Nos alvores da época histórica era habitada por um povo de que ainda se desconhecem as origens - os Iberos - mas muito provavelmente resultante da miscigenação entre populações vindas de África com tribos celtas provenientes do norte da Europa.
No século VI a.C. os navegadores gregos criaram na região alguns dos seus mais distantes entrepostos comerciais. Os romanos ocuparam-na em 218 a.C., levando duas dúzias de anos a pacificá-la para lhe imporem as suas regras civilizacionais.
Os Visigodos chegaram em 531, mas não tardaram as invasões árabes sendo conhecida a data da queda de Barcelona - 717. Os francos reconquistaram-na e, sob a dinastia carolíngia, constituiu uma espécie de lança avançada contra os avanços do islamismo.
Foram vários os condes que a administraram e se foram autonomizando da tutela carolíngia até declararem a independência. Raimundo Berengário III estendeu o seu poder até à Provença a partir de 1113 e o seu primogénito, o IV com o mesmo nome, desposou a filha do rei de Aragão em 1137, criando a união das duas potências de então, mudando o destino da Catalunha. Ela irá desempenhar um papel determinante na Reconquista dos séculos VIII até ao XIII e, ainda mais, na expansão para o Mediterrâneo com a conquista das Baleares em 1229, do reino de Valência em 1238, da Sicília em 1282, da Sardenha entre 1322 e 1324, sem esquecer a Córsega.
No século XIV a Catalunha era uma das maiores potências do Mare Nostrum.

(S) «Libertango», o lindíssimo tema de Astor Piazzolla

domingo, dezembro 10, 2017

(DIM) As impressivas personagens femininas de Cláudia Varejão

Tendo entretanto passado para as longas-metragens,  Cláudia Varejão assinou anteriormente algumas curtas elucidativas quanto ao seu talento para, com poucos meios, contar estórias sobre personagens femininas. Se em «Luz da Manhã» víramos a conflitualidade indisfarçável entre uma jovem mãe e a sua própria progenitora, já indiciando os sinais de uma senilidade irreversível sob o olhar atento da neta de meia dúzia de anos, em «Fim-de-semana» está em causa a falta de comunicação entre os membros de uma família em que a filha adolescente vive a angústia de se saber grávida.
Esta última curta, datada de 2007 e produzida no âmbito de um curso organizado pela Gulbenkian, dá já conta da capacidade da realizadora em sugerir por olhares e gestos o que está no íntimo das suas personagens. Daí que sejam merecedores de justificada atenção todos os projetos por ela assinados que nos sejam disponibilizados.

sábado, dezembro 09, 2017

(EdH) Crimes tenebrosos contra mulheres argentinas

O caso do rapto de María de los Ángeles Verón agitou a Argentina nos últimos anos e merece ser melhor conhecido por demonstrar até que ponto a criminalidade organizada pode estar conluiada com os poderes judicial, policial e político de forma a condenar as vítimas e suas famílias a verdadeiros labirintos kafkianos.
Tudo começou em fevereiro de 2002, quando uma jovem de 23 anos foi raptada numa rua de Tucuman e a polícia eximiu-se de a procurar embora sobrassem testemunhos de quem a vira ser empurrada à força para dentro de um carro. Apesar da indiferença das autoridades a família de Marita iniciou um longo calvário, procurando-a por todos os prostíbulos de La Rioja e outras províncias vizinhas porque, desde cedo, intuiu ser ela mais uma das vítimas de uma rede organizada de rapto de raparigas com o objetivo de as forçar à prostituição.
Anos a fio os pais não desistiram dessa busca e, com a ajuda de um antigo militar, encontraram provas da passagem da desaparecida pelos bordéis geridos por Lidia Medina e seus filhos, conseguindo resgatar deles algumas mulheres também elas ali forçadas a idêntico suplicio.
Em 2012 o tribunal de primeira instância de Tucuman absolveu todos os suspeitos apesar das provas convincentes contra eles apresentadas pela Acusação. A subsequente revolta da opinião pública foi tão forte e indignada, que o Supremo reverteria essa decisão e inculparia os raptores condenando-os a muitos anos de prisão. Mas Susana Trimarco, a mãe de Marita, ainda continua sem encontrar os restos mortais da filha para lhes dar definitivo descanso junto aos do marido, entretanto falecido de tristeza e frustração.