sábado, junho 03, 2017

(AV) O Salão dos Sonhos de Joseph Steib

Em 1940 a Alsácia foi ocupada pelo exército nazi. Joseph Steib era então  um modesto funcionário da Companhia das Águas de Mulhouse, conhecido pela saúde frágil e pelo hobby de pintor de domingo. Epilético, deveria ter imitado o pai na condição de operário,  mas o emprego na empresa municipal constituíra alternativa mais prudente para acautelar a sua fragilidade. Mas à noite frequenta cursos de iniciação artística. ou vai até ao Museu para copiar algumas das obras mais admiradas.
Em 2013 as suas telas conheceram inaudita consagração, quando foram expostas ao lado das de Picasso no Museu Guggenheim de Bilbau. No entanto, durante quase sessenta anos a obra tinha ficado esquecida. Foi um historiador e arqueólogo, François Pétry, quem as redescobriu e as soube valorizar de forma a alcançarem a importância devida na História da Arte. Particularmente pela série de 57 quadros a que deu o nome de «Salão dos Sonhos», pintados entre 1940 e 1945.
A princípio fica-se com a sensação de o vermos a pintar o Paraíso, embora se pressinta a brevidade com que ele se converterá num inferno. Daí a questão explicita no quadro: «Quando?». Que tanto interroga pelo momento da reconquista da liberdade, como do fim da Guerra.
A partir daí ele torna-se no seu próprio realizador, no seu próprio operador de câmara para realizar pequenos filmes, traduzidos nessas laboriosas telas. Algumas delas, provocatoriamente blasfemas, escandalizam os vizinhos e familiares.
«O Salão dos Sonhos» dá conta de um quotidiano insuportável com particular destaque para a obsessiva representação da figura de Hitler de forma quase alucinada. Existem semelhanças, provavelmente não casuais com as preocupações outrora evidenciadas por Hyeronimus Bosch nas suas pinturas. As pessoas aparecem rodeadas de espetros, interrogando-se sobre o grau de ameaça por eles representado.
Steib crescera num ambiente muito religioso. Por isso não hesita em socorrer-se do imaginário católico, adaptando-o à sua própria linguagem artística. É o caso da obra em que, imitando a Última Ceia, Steib coloca Hitler no centro de uma mesa rodeado dos principais chefes nazis. Noutro quadro o aspeto de Hitler pendurado numa árvore lembra inevitavelmente um Cristo cruxificado.
O ditador alemão é arvorado em inimigo de estimação do artista nos quadros falsamente naïves, porque ricos em detalhes de sentidos intencionais e com um grande domínio da técnica pictórica. O estilo anda a meio caminho entre o hiperrealismo e o fantástico.
Rosa, a  mulher amada, com quem casa em 1930, torna-se a musa e protetora, sobretudo abrigando-o no seio da sua acolhedora família. Mas não deixa de temer por ele: acaso os quadros fossem descobertos e estaria em sérios apuros. Porque num deles não enjeita em tomar como motivo os embarques de judeus e outros prisioneiros no cais da estação ferroviária a encaminharem-se para os campos da morte.
Noutro veem-se pessoas à mesa, mas sem nada para comer, porque essa era a realidade da maioria da população. Há igualmente quadros premonitórios, que imaginam as manifestações de regozijo pelo fim da guerra.
Quando isso acontece ele silencia-se e assiste à recuperação das rotinas descontraídas pelos seus conterrâneos. Nessa altura volta aos temas religiosos, que lhe tinham valido encomendas de ex-votos e de pinturas para várias igrejas da região natal.
Uma única vez teve os quadros do «Salão dos Sonhos» expostos em vida, numa outra cidade alsaciana no âmbito das comemorações sobre a recente Libertação. O seu nome será incluído no álbum sobre a Resistência antinazi. Mas trata-se de momento raro, porque logo é esquecido, morrendo quase sem referências na imprensa aquando da sua morte em 1966.

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