quinta-feira, Setembro 04, 2008

SOPHIA MELLO BREYNER: «CONTOS EXEMPLARES»

Pode-se imaginar o desencanto de Sophia, quando escreveu os seus «Contos Exemplares». O tempo era de ditadura e a Igreja, ao seu mais alto nível, parecia rendida por inteiro às práticas muito pouco cristãs de quem, então, mandava.
Como aguentaria a autora essa religiosidade cristã, de que jamais abdicaria?
A resposta estará, porventura, aqui, através destes exemplos que prefiguram outras tantas parábolas relacionadas com a realidade de então.
No país aonde os ricos preservam os seus bens e o seu poder sem dar azo à melhoria das condições de vida dos mais miseráveis, a Igreja tem de optar entre a fidelidade aos seus princípios ou o pacto com Donos de Casa, com Homens Importantes e com Príncipes deste Mundo.
É que o Portugal de então é um país de mendigos e de tuberculosos, aonde a palavra divina peca pela sua excessiva surdina.
Nos escritos de Sophia não sobra testemunho de quem arriscava lutar na clandestinidade e tombava muitas vezes nos diversos tarrafais do regime.
Oriunda de uma classe privilegiada, embora atenta às injustiças, ela não se apercebia dos voluntariosos esforços de quantos se deixavam de resignações e se tornavam revoltados.
De qualquer forma, além de muito bem escritos, estes Contos reflectem o estado de alma de uma classe desencontrada com os desafios da História.

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