sexta-feira, dezembro 21, 2018

(DL) O Robespierre, que continua a dividir quem o odeia e quem o admira


Um dos mais reacionários historiadores franceses, Marcel Gauchet, decidiu abordar a tragédia protagonizada por Robespierre que, começando por defender a Declaração Universal dos Direitos do Homem como discurso político do regime subsequente à Revolução Francesa, acabaria tragicamente por, pretendendo-se a voz do povo, acabar por a silenciar.
A crítica constata que o autor nada revela de novo a respeito do seu biografado, sendo evidente a tentativa de o associar implicitamente ao que considera ser o populismo da «France Insoumise» de Jean-Luc Mélenchon, fazendo pressupor que, acaso fosse este político a assumir a liderança do país, seria quase certo o advento de um novo Terror.
Acontece, porém, que Robespierre é daqueles vultos da História, que melhor exemplifica a ideia de ser esta o produto da perspetiva intencional dada pelos vencedores relativamente aos vencidos. Tivesse feito vingar o seu ideário radical, aquele que os amigos tinham por melhor exemplo de quem por nada ou ninguém se deixava corromper, mereceria outro tratamento.
O que levou os donos da História a dar dele uma tão tenebrosa imagem, seria a mesma preocupação ulterior em diabolizar ao máximo quem representou maior perigo para a sobrevivência do sistema baseado na exploração do homem pelo homem. Daí que Robespierre tenha conhecido a desdita também conhecida pelos que, num ou noutro momento, assustaram os senhores do capital. Basta lembrarmo-nos de quem os nossos telejornais jamais se cansam de classificar de ditadores para compreendermos a existência de dois pesos, duas medidas, quando de um lado se depreciam os regimes sírio, cubano ou venezuelano e, do outro, se omitem os crimes de Netanyahu ou do próprio Trump. Contabilizando as vítimas, e enquadrando-as no contexto em que elas foram vítimas da opressão, os supostos inocentes revelam-se bem mais culpados do que no-lo querem convencer.
Robespierre merece ser analisado por quem possui outra honestidade intelectual, que não Gauchet. Porque permite analisar o sucedido em tantas Revoluções posteriores que, iniciando-se sob os melhores auspícios, se viram depois obrigadas a recorrer á força bruta para não retrocederem ao passado ignóbil, que terão pretendido superar.

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