segunda-feira, julho 28, 2014

LEITURAS: «Teatro de Sabbath» de Philip Roth (IV)

Nos textos anteriores tínhamos conhecido Mickey Sabbath, um provocador, que levava a vida aos seus limites, nunca se preocupando com o dia de amanhã, evitando assim fazer compromissos que o pudessem levar a alterar a sua maneira de ser.
Não exigindo nada à sociedade, também não deixava que esta lhe exigisse nada, estando em permanente conflito com todo o tipo de regras e condutas sociais, possuidor de uma eloquência e capacidade de argumentação que vencia qualquer pessoa que com ele se confrontasse.
Tínhamo-lo deixado quando decidira regressar a Nova Iorque para comparecer ao funeral de um antigo amigo e à procura das recordações de Nikki que, além de sua cúmplice nos espetáculos de fantoches, fora com ele casado há mais de três décadas:
Nikki: toda talento, talento fascinante, e absolutamente mais nada (…) Não sabia o que era mais forte, se o seu amor por Sabbath se o ódio que sentia por ele: a sua única certeza era que não poderia sobreviver sem a sua proteção. Ele era a sua armadura, a sua cota de malha”. (pág. 117)
Ela tinha o “talento para incorporar na alma tudo o que é contraditório e insondável, até a monstruosidade que a paralisava de medo” (pág.122)
Sabbath tornara-se artista de rua em Nova Iorque em 1953, quando contava 24 anos e acabara de regressar de Roma onde estivera a estudar. Fora numa dessas exibições na rua, que a conhecera: “ele tinha um metro e sessenta e três de altura e ela quase um metro e oitenta e era tão preta quanto o preto pode ser onde era preta e tão branca quanto o branco pode ser onde era branca” (pág. 140)
Ela desaparecera no dia em que descobrira a infidelidade dele com Roseanna ao vê-los juntos, de braço dado, na Tompkins Square: “Em Nova Iorque a única coisa em que conseguia pensar era no desaparecimento dela - quando andava pelas ruas, tornava-se uma coisa obsessiva, não acabava nunca -, e tinha sido por esse motivo, que nunca mais lá voltara. (…) Tinha-se mudado para Madamaska Falls quando sentira que começava a endoidecer de tanto a procurar nas ruas de Nova Iorque. Nesse tempo, uma pessoa ainda podia andar a pé em toda a parte, na cidade, e era isso que ele fazia: andava por todo o lado, procurava em todo o lado, não encontrava nada.” (pág. 143-144)
Agora ele procura Nikki “vendo todas as animosidades em conflito, o ignóbil e o inocente, o autêntico e o fraudulento, o odioso e o ridículo.” (pág. 219). E, no entanto, “quando Nikki desapareceu, além do desgosto, das lágrimas e dos tormentos da confusão, sentira-se tão encantado quanto um homem jovem poderia sentir-se. Abrira-se um alçapão e Nikki desaparecera. Um sonho, um sonho sinistro comum a todos. Que ela desapareça. Que ela desapareça. Só que para Sabbath o sonho tornou-se realidade.” (pág. 219)
Agora a Nova Iorque dos anos 90 surge-lhe bem diferente da cidade que conhecera: “era a cidade onde se podia obter, umas vezes sem dificuldade, outras por um preço considerável, o pior de tudo. Em Nova Iorque pensava-se que os bons velhos tempos, o antigo modo de vida, eram coisas que tinham deixado de existir apenas há uns três anos, tal a velocidade a que aumentavam a corrupção e a violência e o ritmo da mudança de comportamento louco” (pág. 210)



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