domingo, fevereiro 24, 2019

(DL) Avraham Yehoshua, o derradeiro sobrevivente de uma brilhante geração


Tanto quanto me apercebi nunca nenhum romance de Avraham Yehoshua foi publicado em Portugal, embora se trate de um dos grandes nomes da literatura israelita e, nela, um dos últimos a ter nascido antes da criação do Estado de Israel.
Nascido em Jerusalém em 1936, aí viveu a infância e a juventude, antes de passar uns anos em Paris, instalando-se depois em Haifa. Militando durante muitos anos no campo dos defensores da solução de dois Estados distintos, um para israelitas e outro para árabes, ter-se-á zangado com Amos Oz, antes deste morrer recentemente, por alterar a sua perspetiva e defender a existência de um só, laico e republicano, com direitos iguais para uns e para outros. Razão dessa mudança: os sucessivos governos israelitas terem sabotado a solução anterior de forma tão drástica, que deixou de existir a possibilidade de dividir Jerusalém em duas metades, ou garantir um território contínuo e homogéneo para os palestinianos sem obrigar  boa parte dos colonatos a desaparecerem.
Para o sucesso desse Estado multicultural, Yehoshua considera fundamental que, árabes e judeus deixem de se sentir tolhidos pelas respetivas memórias. É o apego a estas últimas, que inviabiliza a exequibilidade de soluções flexíveis, que substituam a animosidade entre os dois povos por um diálogo franco e profícuo.
No seu romance mais recente, que acaba de lançar em França - «Le Tunnel» - há um protagonista apostado em escavar um túnel de passagem para os animais por baixo de uma estrada movimentada, mas enfrentando a dificuldade de, para tal, ver-se obrigado a desalojar uma família. Através de uma estória muito simples, metaforiza-se eficientemente a realidade presente naquela região do Médio Oriente.

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