segunda-feira, maio 22, 2017

(DL) O inquietante turismo das almas inquietas

A primeira vez que vi um aborígene foi no aeroporto de Cairns, onde aguardava um voo de ligação para a ponta norte do Queensland, terra de casas distanciadas entre si por muitas milhas e onde fui instado a cingir-me à piscina do hotel, porque na praia, ali ao lado, incorreria no risco de acabar nas garras de um crocodilo de água salgada. O perigo fora-me transmitido logo à chegada: por muito tentadora, que a paisagem me parecesse, escondiam-se nela perigos demasiados para que me aconselhassem surtidas para além dos espaços seguros daquele complexo, onde se conjugavam, além do espaço de pernoita, um restaurante, um bar e um supermercado para benefício de quem atravessava de jipe longos trilhos poeirentos para ali colher a aparência de regresso à civilização.
Mergulhara num espaço estranho, que há muito me fascinara. Tinha presente um filme menor do Peter Weir em que o ator em tempos famoso pelo papel de Dr. Kildare, adivinhava a chegada de um enormíssimo tsunami apocalítico, alertado pelas previsões do povo ali radicado desde tempos imemoriais. Lera igualmente o «Songlines» do Bruce Chatwin, relato da sua viagem pela Austrália para indagar dos conhecimentos subtilmente escondidos nas canções indígenas e seguir as pistas de trajetos com sentidos místicos.
Embora hiper-racional vivia a contradição do deslumbramento pelo desconhecido, pelo invisível. Funcionava o estímulo para a tudo estar atento, para sinalizar tudo quanto pudesse relacionar-se com esses saberes primitivos.
Nada  viria a identificar, que me desse a confirmação de mistérios por esclarecer. Ao abandonar a região para demandar o continente americano em longos e plácidos dias de navegação pelo Pacífico, contentei-me em adquirir t-shirts com os motivos da arte ancestral, ciente de se tratar de pálida amostra do que se revelara inacessível.
Veio-me tudo isso à memória a propósito de «Voss», o romance de Patrick White datado de 1957, só recentemente vertido para português.
Nem sequer o Nobel da Literatura atribuído em 1973 justificou a atenção dos editores para um escritor muito interessante, que levou toda a vida a execrar a instituição monárquica, defendendo os valores republicanos, e ativista nos grandes combates do seu tempo, mormente quando se tratou de condenar o envolvimento do seu país na guerra do Vietname.
A Austrália, que descreve no romance, tem a ver com essa presença de povos milenares, elementos ativos da paisagem percorrida por um naturalista alemão no século XIX, também ele incapaz de transferir as pressentidas forças místicas para algo de racionalmente descritível.
Ludwig Leichhardt não é um personagem ficcional: existiu mesmo e ficou conhecido por ter um destino semelhante ao coronel Fawcett, sobre o qual nunca mais nada se soube desde que se  embrenhara na selva amazónica para descobrir os El Dorados.
Ludwig internou-se no deserto australiano em sucessivas expedições destinadas a rastrear a fauna e flora, alcançando como objetivo último a contracosta, mas também desapareceu após múltiplas vicissitudes. Algumas delas relacionadas com as tensões internas dentro do grupo de aventureiros, que liderava e depressa se cindira em dois.
Mas, Ludwig é mais do que esse personagem histórico: trata-se do alter ego do escritor, que  por seu intermédio exprime as sombras, que lhe agitam a mente. Tomando-o como referência, e associando-o a gémeos de outras latitudes - o Kurtz, que Conrad colocou nas margens do rio Congo, mas Coppola transferiu para o Mekong - pode-se questionar até que ponto a loucura surge como corolário de quem avança em espaço desconhecido e se dissocia suficientemente das fronteiras do consciente, permitindo o acesso das trevas íntimas, resguardadas nas espirais do ADN ou nas circunvoluções cerebrais para  revelarem um outro ser, muito diferente daquele onde se albergava.
É essa lenta revelação do seu outro Eu, que Ludwig vai transmitindo por escrito, e telepaticamente, a  Laura Trevelyan, a jovem órfã, que lhe começara por servir de confidente e depois se iria convertendo no seu duplo. A tal ponto, que além de a chegar a pedir em casamento, Ludwig contagia-a com os seus estados de alma, necessariamente em confronto com os valores da sociedade vitoriana em que estavam inseridos.
Não é, pois, um livro de viagens, a não ser que confiramos valor turístico ás que se fazem pelo interior mais perturbador de cada um de nós. Porque essa lenta deambulação de Ludwig e de Laura pelas camadas mais profundas dos seus próprios seres acabam por instigar-nos a algo de semelhante. Com todos os riscos subjacentes.

1 comentário:

Nuno Meireles disse...

Olá! Reparei no teu blog que tens uma opiniãp sobre um livro do Stephen King, "Escrever-memórias de um Ofício". Sou fã do autor, tenho mais de 40 livros, mas este livro é um pouco dos que me faltam. Posso perguntar se é um livro que considerarias vender ou trocar?
Obrigado!