sábado, junho 06, 2020

(DIM) «O Salão de Música» de Satyajit Ray (1958)


Que belo filme é O Salão de Música, história da decadência de um aristocrata (um zaminbar) confrontado com a ascensão de uma burguesia inculta, alheia ao requinte dele conhecido, mas tão inevitavelmente decadente quanto o seu palácio em ruínas. Do alto do terraço a fumar o cachimbo de água e a ouvir a música circundante, Roy ilude-se com a perspetiva de quem olha a realidade a partir de cima, mas é já para a vertiginosa queda, que os anunciados escombros o tenderão a arrastar.
Recorre ao vizinho usurário - que o substitui no patamar social dos mais abonados! -, para financiar a organização de noites festivas e musicais, mesmo que à custa das joias da família. Através desses eventos julga provar ser ele ainda quem mais manda, mas uma tempestade mata-lhe a mulher e o filho, levados por uma enxurrada na propriedade cuja manutenção negligenciara. Fechando-se para o mundo depois de despedir a maioria dos criados, ei-lo subitamente tentado a reabrir o famoso salão de música.
Lembrando um grande personagem da literatura russa - Oblomov - o aristocrata Roy imita-lhe a preguiça, mas complementa-o com o diletantismo estético. Tem certa a decadência, mas tenta enfrentá-la com dignidade. Não tem o gerador, que ilumina a casa do vizinho, mas as velas conferem-lhe a magia, que aquele nunca sequer pressentirá. Não possui um carro, mas conta com a marcha lenta e majestosa do seu elefante.
Algumas sequências são dignas de particular atenção: a barata que se afoga no copo de Roy e lhe anuncia a morte da família e a sua própria, a aranha na superfície de um quadro que o retrata, a hipnotizante e longa cena da dança, as velas a apagarem-se uma a uma como metáfora de um mundo a desaparecer, o último passeio a cavalo concluído com ele no chão.
Um mundo desaparece, mas a arte  com ele relacionada, não sobreviverá. E resulta daí uma incomensurável nostalgia...

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