Vemos, ouvimos, lemos e experimentamos. Tanto quanto possível pensamos pela nossa própria cabeça...
domingo, fevereiro 17, 2008
QUERERMOS SER DO NOSSO TEMPO É JÁ ESTARMOS ULTRAPASSADOS
O Governo, que precisava de algum sossego para consolidar todo o esforço produzido no saneamento das contas públicas, enfrenta agora os riscos de um arrefecimento significativo das economias para onde mais costuma exportar. Ora, as eleições aproximam-se, as campanhas difamatórias contra o primeiro-ministro continuam a ser lançadas com suspeitosa regularidade e o movimento sindical e social, mobilizado por efeitos das reformas na saúde ou na educação, dispõe-se a fazer o frete a quem mais interessado se mostra em mudar de políticas: o grande capital, que vê nos governos de direita a oportunidade de lançar as suas golpadas.
O que sucedeu com o Casino Lisboa e as trapalhadas do ex-ministro do CDS Telmo Correia para dar a privados o que deveria ser mantido na posse do Estado é só um exemplo de como ocorre o regabofe da corrupção quando a direita chega ao poder.
É claro que a desmistificação das competências governativas de tal gente aparece bem explicitado no que Sarkozy fez nestes seis meses de Presidência. Os escândalos têm sido inversamente proporcionais em relação a medidas concretas para melhorar a qualidade de vida dos franceses. As sondagens demonstram bem como depressa se fartaram de um pequeno tiranete, mais apostado em usufruir as mordomias da função em proveito próprio do que em trabalhar a sério pelo bem estar dos seus concidadãos.
Esperemos que uma vitória democrata nas eleições de Novembro traga alguma serenidade à forma dos norte-americanos encararem a sua progressiva perda de influência nos mercados financeiros internacionais.
Olhar longe é, agora, um desafio deveras complicado. Porque todas as semanas ocorrem golpes de teatro, capazes de modificarem os quadros de referência em que julgávamos possíveis as nossas conjecturas estratégicas...
sábado, fevereiro 16, 2008
A minha pateada em Newport
Se de repente me visse a viajar no tempo, aterrando no Festival de Newport em 25 de Julho de 1965, qual seria a minha atitude perante a actuação de Bob Dylan?Estaria entre os que o apupavam ruidosamente ou entre os que o apoiavam na decisão de abandonar um som canonicamente folk para abraçar as sonoridades eléctricas do rythm & blues e do rock?
Sabendo o que sei hoje penderia decerto para a primeira hipótese porque, se num Pete Seeger respeito a firmeza das convicções, Dylan aparece-me como um egocêntrico, que namorou com as grandes causas de então (Direitos Cívicos, Guerra do Vietname), ganhando notoriedade à esquerda e, depois, se dissociou completamente desse filme.
Poder-se-á reconhecer nele uma personalidade complexa, mas nesta biografia definitiva assinada por Martin Scorcese, o que sobressai é um confessado individualismo, alheio a valores, a emoções e a lealdades.
Terá sido um enorme talento na forma de recolher as palavras do seu âmago e transformá-las em poemas com assombrosa rapidez.
Reconhecer-se-lhe-á versos, que mesmo atendo-nos à sua aversão a constituir-se como porta-voz de uma geração revoltada, se tornaram bandeira de ideais muito mais avançados do que os por ele pretendidos. Mas como não escalpelizar os múltiplos sentidos de uma canção anunciadora dos tempos em mudança?
Ele terá cruzado, igualmente, a sua arte com a do seu tempo, convivendo com Andy Warhol, com Allen Ginsberg e tantos outros artistas, que nele chegaram a vislumbrar o mensageiro de uma época muito diferente, porque em radical corte com os valores enquistados de então…
Apesar do aprofundado trabalho do realizador, fica por esclarecer o mistério Dylan. Quem terá sido ele no meio de tantas e tão contraditórias imagens de si? Que elementos de personalidade serão comuns às suas sucessivas reinvenções de si próprio?
O documentário de Scorcese vale, sobretudo, como espelho de uma época conturbada em que se chegou a pensar exequível uma outra sociedade, liberta dos egoísmos do capitalismo.
O afastamento de Dylan desse tipo de utopia acaba por ser o melhor retrato desse idealismo frustrado. Porque nenhum sonho se aguenta de pé, quando os seus supostos guias espirituais se apressam a abandonar o barco…
Se na canção de Mercedes Sosa haverá que distinguir entre os bons, os muito bons e os imprescindíveis, Dylan incluir-se-á porventura na categoria dos primeiros…
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
Sobre a vingança em «Sweeney Todd»
Vingança, eis o tema de «Sweeney Todd», o filme de Tim Burton, que passa agora por Lisboa. E Johnny Depp assume, que é um dos que mais o interessam, porquanto toda a gente terá uma pitada de tal sentimento face a quem o humilhou ou prejudicou.Pessoalmente não gostaria de pôr as coisas nesses termos, já que a vingança é, sobretudo, emotiva, e a idade vai-me dando vontade de racionalizar o mais possível o que se passa.
Mas, quando penso nos crimes de Franco ou de Pinochet, será possível racionalizar? Só que a grande verdade é terem morrido de velhice nos seus confortáveis leitos sem sentirem o peso de uma justiça, que seria sempre incapaz de encontrar castigo bastante para as suas malfeitorias…
Como teria sido possível vingar as vítimas de tais algozes se tivesse havido oportunidade de os confrontar com uma qualquer forma de justiça?
Pegando noutro exemplo, os condenados de Nuremberga terão mitigado, um pouco que fosse, a vontade de vingança dos crimes nazis entre 1933 e 1944?
Quando Depp enfatiza assim tanto a vingança como sentimento justificado pelas injustiças de quem a procura não estará assim a esquecer o essencial? Que o fundamental continua a ser a procura de um outro tipo de sociedade aonde se reduzam em muito as injustiças no seu todo?
É claro que se trata de uma utopia, que os socialistas e os comunistas procuraram exequibilizar em formas diferentes de governar à esquerda e que falharam rotundamente em todas essas experiências. Mas isso não implica que se aprenda com esses fracassos e se busquem novas vias de solução para uma doença incurável: a de uma sociedade humana aonde se é naturalmente egoísta, arrogante e prepotente, quando se é poder, mas aonde o projecto de um homem novo mais justo e fraterno continua a fazer sentido!
sábado, fevereiro 02, 2008
OST - 'Barry Lyndon'
Falar de aristocracia e da sua vontade em cingir poder e prebendas a quem faz parte da sua corte, leva-me de volta a Stanley Kubrick e ao maravilhoso filme, que ele fez sobre um homem inquieto disposto a desafiar a fatalidade de não pertencer ao círculo dos privilegiados.
E a música de Haendel é encantatória...
EVOCAR O HEROÍSMO DE MANUEL BUIÇA E ALFREDO COSTA
No dia 1 de Fevereiro os trogloditas saíram das suas cavernas e vieram encher de encómios a memória do rei, que os heróicos carbonários mataram fez agora cem anos.Durante um dia os defensores da ideia de uma qualquer majestade iluminada, a quem os seus súbditos se têm de submeter durante toda a vida sem o poder correr a pontapé mediante a legitimidade democrática, encontraram veículos mediáticos de expressão desse absurdo, como se essa fosse uma ideia minimamente aceitável.
O que Buíça e Costa fizeram há cem anos foi um martírio em prol de um país mais justo. A aristocracia é o resíduo mal cheiroso de uma sociedade antidemocrática em que uns têm «sangue azul» e todos os direitos e os outros são convidados a entusiasmarem-se com as suas cenas de alcova ou de mera apologia nas revistas cor-de-rosa.
Depois, surgiu o inefável Rui Ramos: quando já nos julgávamos livres de um determinado tipo de abordagem da História por morte (eles é que ainda não deram por isso!) das múmias paralíticas oriundas do Estado Novo (Veríssimo Serrão e José Hermano Saraiva), eis que eles ressuscitam através da versão desse pseudo-historiador com assento permanente em jornais e televisões.
Autor de uma biografia hagiográfica do inspirador da ditadura cripto-fascista de João Franco (ademais apresentada como exemplo de «modernidade») esse paladino da direita ideológica teve quase tanta notoriedade neste dia quanto a do bem enterrado morto do dia.
Para um republicano, laico e socialista, este foi um dia de evocação da memória heróica dos revolucionários de há cem anos…
domingo, janeiro 27, 2008
Uma parábola e a manipulação da opinião pública
Num deles fala-se da Índia e recorda-se como a cosmogonia hindu - segundo a qual todo o universo terá resultado da oscilação produzida por um pau empunhado pelo deus Brama na calma superfície de um oceano de leite - tem estranhas similitudes com a teoria do Big Bang, para se contar depois uma lenda assaz interessante quanto à cultura desse verdadeiro subcontinente. Conta-se que a um reino mogul, aonde reinava a paz e a prosperidade, chegou uma vez um afluxo de refugiados vindos do mar a fugirem de um genocídio nas terras persas donde provinham.
Pedindo para serem aceites naquele reino, viram o seu comandante receber do rajá uma mensagem óbvia: um copo cheio de leite a transbordar. O significado era que aquela terra já estava demasiado povoada não podendo receber mais ninguém.
Da mesma forma simbólica foi a resposta desse comandante: pôs açúcar no leite e deixou-o dissolver-se.
Quando o rajá recebeu aquele copo de leite adoçado percebeu a mensagem e franqueou a entrada aos recém-chegados: é que eles prometiam dissolver-se na população do reino e torná-la mais doce…
No outro artigo merecedor de referência o autor recorda como à censura política, pura e dura, das ditaduras, está a suceder agora uma verdadeira censura económica sobre a comunicação social: centralizada em grandes grupos da comunicação, os media têm de expressar o que for do interesse dos seus proprietários.
Qualquer jornalista, que atravesse a fronteira do aceitável segundo esses padrões acabará obviamente despedido.
O resultado é uma manipulação sistemática da opinião pública, que se deixa condicionar por conceitos e teorias em última análise prejudiciais aos seus interesses.
E, com particular sentido de oportunidade - tendo em conta a queda do Governo Prodi e a ameaça do regresso do tenebroso Berlusconi - diz ele: «Veja-se o caso da Itália, em que um país moderno e desenvolvido caiu na malha mais grosseira da manipulação de massas, fruto da campanha bem orquestrada de um grande grupo detentor de inúmros agentes de comunicação social. Conseguindo catapultar para os píncaros do poder alguém de quem mal de conheciam as ideias, fruto de um fenómeno de marketing populista sem precedentes.»
Uma jogadora de xadrez
Bertina Henrichs é uma escritora e realizadora alemã, há muitos anos a viver em França, que aí publicou um livro deveras interessante: «A Jogadora de Xadrez».Em 150 páginas temos a história de uma mulher, Eleni, que aos 42 anos descobre uma imensa paixão pelo xadrez quando, no seu ofício de criada de quartos do Hotel Dyonisos, deixa cair uma peça ao chão de um jogo interrompido a meio por turistas franceses e desconhece aonde a deverá posicionar no tabuleiro.
A história passa-se em Naxos, uma das mais remotas ilhas das Cíclades gregas, num ambiente muito conservador, de que Eleni jamais descobrira os limites à sua afirmação pessoal: nessas quatro décadas de vida ela acostumara-se a uma rotina de dona de casa e de empregada de hotel a contas com os mesmos vinte quartos de sempre, as quarenta camas, os oitenta lençóis …
Será o velho Professor Kouros quem se apresta a ensinar-lhe a ciência desse jogo, que a vai obcecar a tal ponto, que põe em risco o seu casamento com o marido, Panis, um garagista, às tantas a preferir ver-se alvo de infidelidade dela do que dos efeitos daquela quase demência.
A localização da história na Grécia não se explica, apenas pela adesão da autora a esse país Mediterrânico comum a muitos outros autores alemães : é inevitável pensar na tendência dos deuses do Olimpo para se divertirem às custas dos seus súbditos terrenos!
Eleni irá libertar-se e, ao mesmo tempo, transformar o pequeno mundo concentracionário, que a rodeia. No seu paulatino esforço há algo de subversivo!
E, mesmo nas piores alturas, quando se confronta com a desaprovação generalizada dos que a rodeiam, Eleni não desiste por saber que a rainha, única peça feminina no tabuleiro, é a que no jogo tem todos os poderes…
É que nas 64 peças desse tabuleiro cabe todo o mundo e todas as suas intrigas…
segunda-feira, janeiro 21, 2008
A MORTE FICA-VOS TÃO BEM
É um filme, que quase esqueci, passados uns bons quinze anos desde que o vi. E decerto sem o sentido, que hoje leio ser o pretendido pelo realizador Robert Zemeckis: uma crítica incisiva à obsessão de Hollywood com as aparências.Recordo os excelentes efeitos especiais, que são imagem de marca do realizador, com Meryl Streep e Goldie Hawn a conhecerem alterações grotescas dos respectivos corpos como consequência da rivalidade, que as anima uma contra a outra. O que se compreende tendo em conta o péssimo hábito daquela em roubar todos os namorados da segunda. Que acaba internada no manicómio.
O filme passou agora na ARTE, mas dobrado em francês o que afasta qualquer boa intenção em revê-lo. Mas em próxima oportunidade valerá a pena comprovar se ele é mais do que a comédia competente, que supus ser na tal primeira abordagem.
A obra de Goran Bregovic
Já ficou aqui inscrito a minha enorme admiração pela obra musical de Goran Bregovic e da sua Orquestra.
Agora irei aqui partilhar alguns dos seus clips disponíveis no You Tube...
quarta-feira, janeiro 16, 2008
TORNAR-SE MULHER
anos no passado dia 9.É claro que se falou da sua relação aberta com Jean Paul Sartre, do seu amor pelo norte-americano Nelson Algren a quem escreveu mais de trezentas cartas ou do seu militantismo em prol das colónias francesas desejosas de se tornarem independentes (Argélia, Indochina). Mas o que mais se recordou foi a sua célebre frase: «uma mulher não nasce mulher, torna-se nisso», que simboliza o seu livro de análise da condição feminina, «O Segundo Sexo».
Publicado em 1949, esse título começou por escandalizar a partir do momento em que surgiram alguns capítulos na revista «Les Temps Modernes». Pornográfico, classificaram-no alguns, abjecto diria dele François Mauriac.
E, no entanto, ele logo se converteria num enorme sucesso editorial e no livro de cabeceira de milhares de mulheres um pouco por todo o mundo.
Hoje poucos duvidam da importância dos factores históricos, sociológicos e antropológicos na formação da feminilidade. Para o bem e para o mal…
segunda-feira, janeiro 14, 2008
O TEATRO COMO UMA OBRA EM ABERTO
Há, para começar, o con
ceito de «responsabilidade máxima do espectador», que é convidado a sair do seu papel passivo para assumir uma relação directa e interdependente com o espectáculo em si. Que não se resume ao texto: este, em vez de polarizar a atenção, deverá contribuir para a disseminação do foco de atenção do espectador para os diversos estímulos em presença paralela.Será do caos em que parecerá perder-se de forma labiríntica, que ele deverá procurar a chamada «verdade original».
«O limite do teatro não reside no reconhecimento imediato da proposta e menos ainda na satisfação dos envolvidos. Reside, sim, num constante questionamento sobre a validade do que se faz».
A companhia teatral assume plenamente o seu conflito programático entre o que é o verdadeiro e o falso. Para tal não hesita em utilizar qualquer material como potencialmente objecto do seu tratamento dramaturgico. Desde que possibilite o exercício de vanguarda, que consiste sempre em contestar uma burguesia com Poder, mas cada vez mais retrógrada…
domingo, janeiro 13, 2008
«O AVARENTO» pelo TEATRO PRAGA
Se pretendemos combater a letargia, com que as rotinas nos procuram contagiar, é bom encontrar obras capazes de nos impressionarem, de nos comoverem ou de nos chocarem.
Com «O Avarento ou a Última Festa», o grupo de Pedro Penim, Cláudia Jardim, Paula Diogo e Marcello Urgeghe consegue seduzir-nos com a desconstrução do texto do Molière e mostrando como esta é uma época de grandes impasses ideológicos. De facto está em causa a substituição de uma forma estereotipada do Poder, personificada em Arpagão, o Forreta, que tudo pretende decidir sobre quem vive à sua volta.
Mas o curioso é como nada de bom sobrevém do derrube de tal Poder. Os filhos, que ocupam o seu espaço, e se apossam
dos seus recursos, acabam por não encontrar forma alternativa de os utilizar, dissipando-os sem critério nem ordem.A peça, que resulta muito do trabalho do grupo em torno da adaptação da autoria do José Maria Vieira Mendes, acaba por ser extremamente metafórica em relação ao tempo presente. É que, dispersos entre muitas imagens, que lhes são bombardeadas (num ecrã sucedem-se cenas de cinema catástrofe, no lado oposto o de vistas aéreas de monumentos e do interior de museus) os jovens de hoje não se conseguem focalizar em objectivos bem definidos.
O Amor poderia representar uma via possível, mas não tende a sexualização excessiva das relações humanas a impossibilitá-lo?
Mas não é só na casa de Arpagão, que se assiste ao derrube do Poder paternal: numa oficina os operários revoltam-se e tomam conta do negócio, mas assustam-se com o resultado dessa decisão e, ora afundam-se em depressões, ora em incapacidades para manter a funcionar a estrutura produtiva.
Se as educações modernas comprovaram a sua ineficácia, não preparando as novas gerações para substituírem eficazmente os mais velhos, também a classe operária ficou distante do seu prometido paraíso.
A conclusão ideológica a que se chega acaba por se revelar bastante ambígua. Embora, numa lógica marxista-leninista, se comprove a necessidade de uma força orientadora (o partido) para evitar as derivas de um percurso tendencialmente libertário.
Mas a peça não se esgota no seu eixo temático: para além de um desempenho exemplar de todo o elenco (e Romeu Runa, no papel de Cleanto, é de facto, uma revelação!) a cenografia revela-se flexível e muito adequada ao que se passará entre os seus múltiplos adereços. Com relevante contributo de tudo quanto se conota com o imaginário contemporâneo: os ecrãs, a piscina ou o automóvel…
sábado, janeiro 12, 2008
FERDINAND HODLER: UM ARTISTA A REDESCOBRIR
Nascido em 1853, e falecido sessenta e cinco anos depois, Ferdinand Hodler tudo ousou apesar das incompreensões, que enfrentou.
Na Suiça, seu país natal, foi considerado o paladino do feio e do vulgar. Por
exemplo no quadro «La Nuit» (1889-1890) em que se representa a si próprio deitado e nu no meio da tela a ser atacado por uma estranha figura de negro sentada em cima dele, enquanto a mulher e a amante estão nuas e adormecidas.O escândalo foi tal, que mereceu a proibição taxativa do presidente da câmara de Genebra.
Em 1892, «Comunhão com o infinito» mostra uma mulher nua em estranha pose face a uma paisagem, que ele reduz a uma banda de três cores.
O escândalo volta a ser intenso com o quadro «L’Amor» (1907) em que mostra um casal em pose sexual explicita.
Hodler ia ao essencial e ao substancial, fazendo de tudo um estilo próprio: os corpos são sinuosos, a terra e a água mostram-se em linhas paralelas e as cores equilibram-se entre si.
Quando o seu tema é paisagístico, o pintor insere-se na própria natureza: monta o cavalete à beira das falésias e ao longo dos regatos e estuda o que vê do ponto de vista geológico ou meteorológico.
Quando é retrato é impressionante a sua densidade: é citado a imagem de Valentine, a amante que lhe morrera de cancro no Inverno de 1914.
Por tudo isso valerá a pena determo-nos um pouco na obra deste artista.
sexta-feira, janeiro 11, 2008
«FUR»: À DESCOBERTA DE DIANE AIRBUS
Bem procurou obstar à publicação da biografia não autorizada de Patrícia Bosworth, que fora seu modelo nos anos 60, ou à produção do filme de Steven Shainberg, que o traduziu em linguagem cinematográfica. («Fur, um retrato imaginário de Diane Airbus»).
Apesar de todas essas dificuldades, a obra da fotojornalista do «Esquire», do «The New York Times» ou do «Harper’s Bazaar», que se interessava, sobretudo, por pessoas à margem da sociedade ou pessoas comuns em poses enigmáticas, veio assombrar-nos através desse filme estranho, que mistura realidade e imaginário, e que constitui uma espécie de janela para a sua personalidade contraditória.
E não poderia haver, de facto, maior oposição entre a dona de casa e mãe de família, que conhecemos no início do filme e a
fotógrafa audaz, que não hesita em se despir para fotografar os frequentadores de um campo de nudistas.«Para mim o sujeito de uma fotografia é sempre mais importante que a própria fotografia. E mais complicado», dizia.
Por isso usava sempre uma Rolleyflex de dupla objectiva, que lhe garantia melhor resolução e o visor à altura do fotografado para dele se aproximar mais eficazmente.
É evidente que importa pouco se houve ou não um Lionel Sweeney na sua vida. Esse vizinho, acometido de estranha doença que o faz esconder o rosto invadido de cabelos de crescimento ultra-rápido por detrás de uma máscara e que a estimula a deixar de ser a mera ajudante do marido - ele próprio fotógrafo de moda - para assumir uma carreira própria, acaba por catalizar em si todos os estímulos, que a terão levado a abdicar do conforto da sua condição burguesa para se tornar na divulgadora de uma outra realidade.
Porque acabou por ingerir dose significativa de barbitúricos e cortado os pulsos, quando tinha 48 anos, que essa mudança esteve longe de sossegar as suas inquietações. Mas essa é outra história, que não coube no objecto do filme: nele houve o despertar para uma outra forma de encarar a fotografia. O que ela terá suscitado na sua personalidade fica por descortinar noutra possível abordagem…
segunda-feira, janeiro 07, 2008
O LIBERTINO FOI-SE EMBORA
Para trás ficou uma infância privilegiada na casa paterna, oriunda de uma certa aristocracia rural. Depois veio esse percurso de miséria, com mulheres sempre muito jovens por cujos ventres ia semeando filhos, que ia deixando ao deus dará.
O seu carácter irascível ia semeando inimigos entre os escritores da sua geração, tendo o Urbano Tavares Rodrigues como o de eleição.
Aos amigos ia tabelando de acordo com o dinheiro, que lhe iam dando. Amigos de dez, de vinte, de cinquenta (escudos), até um de quinhentos, que era o milionário Vinhas.Em Braga, terra de arcebispos e do Estado Novo, entretém-se a engatar magalas em tempo de Guerra Colonial.
O mais grave terá sido o que fez padecer a um dos filhos em particular, aquele que fez questão de ter consigo nas suas vicissitudes. Hoje, chefe de gabinete na Câmara de Palmela esse homem interrompe a ironia sarcástica com que vai contando as histórias do progenitor e, com a tristeza de quem lembra o seu sofrimento passado recorda ter esgotado todas as suas lágrimas aos sete anos.
É que isto de ser irreverente, contra todas as regras sociais tem um preço muito pesado. E muitas vezes até nem são os próprios a padecer as maiores consequências.
domingo, janeiro 06, 2008
A SOLIDÃO DE UM HOMEM CINZENTO
Primeiro que tudo, porque mostra, sobretudo, como uma adesão acrítica e assumidamente apolítica a uma organização tende a perverter o que de mais genuíno existe dentro de uma pessoa.
Se o protagonista Edward Wilson cultiva uma relação afectiva com uma jovem colega pensando
até em desposá-la, logo um peculiar sentido do dever se imiscui e é com a irmã de um colega a quem provavelmente engravidara durante uma festa, que será a eleita para levar ao altar.Terá estado nesse momento crucial da sua vida a definição de um padrão de comportamento futuro, que sempre prejudicará quem com ele convive: ao professor, que nele exaltara o gosto pela poesia, não hesita em denunciá-lo ao FBI como germanófilo e depois em colaborar no seu assassinato, quando as suas opções sexuais parecem representar um risco para a espionagem aliada durante a 2ª Guerra Mundial. A Margaret, que com ele casara, nunca conseguirá sequer facultar-lhe uma aparência de amor, quanto mais de simples afecto. A Laura, a surda a quem amara e voltará a dar a ilusão de uma paixão, reitera essa sua secundarização perante os valores mais altos da sua carreira. E até ao filho não hesitará em lhe matar a noiva por nela ver uma espia a soldo do inimigo.
Tratando-se, pois, de um filme sobre a CIA é, sobretudo a história de um homem cinzento, que comanda a história da sombra sem mostrar resquícios de escrúpulos.
E a embalagem em que o excelente argumento de Eric Roth vem embalado mostra como Robert de Niro se revela um verdadeiro mestre, acabando por se lamentar que a sua filmografia seja tão parca em títulos.
terça-feira, janeiro 01, 2008
O NIILISMO DOS PUNK E DOS PÓS-PUNK
No entanto, a sua estética muito própria, nunca me conseguiu seduzir. Se nas palavras de um dos proprietários da Factory, Tony Wilson, a expressão, que definiria os punks seria o «vai-te foder!», nunca considerei ser essa a melhor forma de tratar os que de mim discordam. Assim como nunca me considerei «fodido» se essa, no dizer do mesmo especialista, era a expressão
definidora de um sentimento pós-punk.Quer uma, quer outra expressão conotam esses movimentos com uma forma de niilismo, que a nada conduz.
Quando vejo filmes ou leio sobre quem personificou esses movimentos é fácil concluir que, na maioria, todos levaram as suas vidas a becos sem saída ou, a havê-la, a assumir a forma de suicício.
Ian Curtis, o líder dos Joy Division, escolheu de facto essa saída, aos 23 anos, quando uma iminente tournée pelos EUA, parecia ser o ponto de viragem de uma já improvável carreira musical, e o definitivo adeus à sua detestada Macclesfield.
De acordo com Anton Corbijn, que realizou o biopic «Control» ele estaria sobrecarregado com a possibilidade de pôr em causa o futuro da banda, com os seus frequentes ataques de epilepsia em pleno palco. Daí tomar tantas drogas, que lhe facilitariam a decisão de, de tudo, desistir. Seria essa a forma de se libertar das suas intermináveis depressões ou de não se conseguir decidir entre a mulher, que personificava todo o subúrbio de Manchester donde provinha e a amante belga, que lhe prometia abrir portas, que ele desconfiava ser capaz de franquear...
Uma Orquestra exemplar
Para os críticos do Presidente Hugo Chavez pouco dirá o nome deste chefe de orquestra - GUSTAVO DUDAMEL. Mas ele, com a juventude dos seus 26 anos, e com a enorme competência de quem é um talento notável na sua arte, espelha o que de melhor existe na Venezuela de hoje: a Orquestra Juvenil Simon Bolivar, que leva a grande música aos habitantes mais pobres de Caracas, fazendo-os viver momentos de intensa alegria, de pura magia...