quinta-feira, junho 21, 2007

«Long Way Home de Peter Sollett (2002)

Foi uma descoberta curiosa esta relativa à primeira longa metragem de Peter Sollett.
Estamos no Verão, em pleno Lower East Side de Nova Iorque. Um mundo à parte em relação a uma urbe recém perturbada pelos ataques do 11 de Setembro e que, aqui, jamais surgem referenciados.
Victor tem 16 anos e uma intensa pressa em descobrir o amor. A vizinha, Donna, poderia ser uma alternativa, mas a sua obesidade extrema só ameaça torná-lo no objecto de troça de todo o bairro.
Pelo contrário Judy é muito bonita. Mas está demasiado ciosa dos seus afectos, recusando-se a qualquer compromisso com quem apenas a julga pelo palminho de cara.
Mas há mais personagens singulares: a avó de Victor, que cuida dele e dos outros dois netos com um conservadorismo fora de moda. Se a neta Vicki começa a interessar-se por rapazes e Nino, o mais novo dos irmãos se masturba amiúde na casa de banho só acontece pela má influência do primogénito. Daí que o queira expulsar de casa: a seu ver a única alternativa para contrariar uma incontornável evolução dos acontecimentos à sua volta.
A crítica, quer a norte-americana, quer a francesa, foi pródiga em elogios a Sollett, enquanto realizador de um emergente cinema independente influenciado claramente pelo Sundance Festival ou por John Cassavetes. Quanto mais não seja pelo talento com que recorre à câmara ao ombro, capaz assim de criar uma dinâmica original. Segundo o crítico Julien Welter , o seu olhar fotográfico sobre estes jovens nova-iorquinos pode evocar alguns títulos de Larry Clark, mas de uma forma mais suave e pudica.
Subsiste, porém, uma certa dureza da condição adolescente com as raparigas estigmatizadas enquanto objectos sexuais e os rapazes empurrados para a sua condição viril, articulada com um racismo latente para com as camadas populares.
A opção de Sollett pela rodagem junto da comunidade porto-riquenha em Nova Iorque resultou de terem sido actores latinos os mais convincentes durante as audições pré-produção. Mas, a coberto de um romance típico do cinema independente americano (orçamento reduzido, filmagens em exteriores) mostram-se algumas realidades desagradáveis.

E no entanto ela move-se

A esquerda, claro.
Às vezes não parece. É nos dias em que os defensores do mercado liberalizado aparecem em força a ganhar eleições - como ainda sucedeu há pouco em França, com Sarkozy - ou a publicarem livros a que, provocadoramente, chamam «Revolucionários».
Mas, ao mesmo tempo, vão surgindo sinais de uma vaga de fundo a aproximar-se. E que pretenderá redimir esta fase grotesca do nosso tempo feito de globalização de capitais, que promovem maiores desigualdades sociais e a condenação à miséria de camadas progressivamente empobrecidas.
É, no entanto, o insuspeito «Financial Times», que dá conta do que se está a passar num dos principais países europeus: A fusão do ex-PDS comunista com os dissidentes do SPD gera, de um dia para o outro, o maior partido da Alemanha, com 72 mil militantes, e é capaz de abalar a arquitectura política do país.
Por outro lado, sabendo-se agora quanto deveu a vitória da direita francesa ao influente eleitorado da terceira idade, anote-se esta conclusão interessante do jornal «La Croix»: O centro urbano é habitado por elites e por jovens licenciados em asceñsão, o que na França de hoje corresponde a uma nova geração de esquerda.
Tendo em conta que os resultados das legislativas até temperaram a arrogância da direita sarkhoziana, pode-se concluir que os socialistas franceses têm, agora, a disponibilidade para, em cura de oposição, reformularem as suas estratégias de forma a engrossarem essa tendência política que, em breve, se revelará...

«Coração de Urso», um filme de Arvo Iho

É decerto uma novidade: um filme estoniano de 2001, filmado nos gelos siberianos. Aonde dominam os ursos e a taiga abriga tantos animais, que corresponde a um paraíso para os caçadores.
Niika é um deles: conseguindo uma concessão, ele divide-se entre a aldeia aonde se apaixona pela jovem professora e a liberdade superlativa dos grandes espaços gelados.
A sua integração parece bem sucedida, quer entre os aldeões, quer entre os nómadas da taiga.
Um dia, na floresta, ele assiste à cópula de um urso gigantesco com uma fêmea. Atacado pelo macho, ele mata-o com o seu último tiro, sendo perseguido pela fêmea que, em vez de o morder, o trata com doçura.
No Inverno seguinte, quando já casado com Guitia, ele exaspera-se ao ver desarticuladas as suas armadilhas. Usando a inteligência ele captura quem o está a prejudicar: uma jovem esquimó, envolvida em pele de urso, e que ele recolhe na sua cabana, embora ela pareça semi-selvagem.
O seu casamento desfaz-se com a destruição da escola e com a partida de Guitia a quem ele recusa a seguir no regresso à civilização.
O seu encontro é com a taiga e com a estranha mulher a quem crisma de Emilie. É ela quem lhe dá um filho, com quem desaparece ao reassumir a sua personalidade efectiva: a de ursa. Que ele acaba por matar com um tiro certeiro.
Ele vegeta então no alcoolismo e na loucura até conseguir encontrar morto a própria sombra: um esquimó explica-lhe, então, que ele está purificado…
Trata-se, pois, de um filme estranho, que não se deixa abordar com facilidade tão distinto é o seu misticismo em paralelo com os nossos valores.
Niika acaba por ser um homem em busca de si mesmo, encontrando-se com o seu lado mais obscuro.
Talvez ajudasse o conhecimento do livro de Nikolai Baturin em que se baseia. Mas, para um espectador não iniciado nas lendas dessa região, há o encantamento de uma belíssima fotografia, que reproduz a magia desses lugares inóspitos em que radica a sua acção.

quarta-feira, junho 20, 2007

So Much So Fast trailer

Ao ver um filme destes dá-se ainda maior importância à urgência em se aproveitar a vida como um supremo bem, que mais tarde ou mais cedo nos falha...

Viver Depressa

«So Much/So Fast», filme de Jeanne Jordan e de Steven Archer datado de 2006, convoca a sempiterna questão do voyeurismo nas imagens do sofrimento alheio.
Trata-se de um documentário, que mostra a evolução da esclerose lateral amiotrófica no corpo do jovem arquitecto Stephen Heywood e do gigantesco esforço da família para combater o inevitável.
Durante seis anos, acompanhamos o nascimento da fundação lançada por Jamie, irmão mais velho de Stephen, para convocar os meios e as vontades da sociedade civil e dos cientistas de forma a apressar a descoberta da cura.
Entretanto, inexoravelmente, os tecidos do sistema nervoso de Stephen vão sendo destruídos até à sua morte em 2006, quando contava 37 anos.
Entre as esperanças mais infundadas e os períodos de maior desânimo - nomeadamente quando, por falta de fundos, a fundação é obrigada a reduzir-se à mínima dimensão possível - o filme é elucidativo quanto à incapacidade em alcançar em tempo útil o objectivo do tremendo esforço dos seus protagonistas…
Que abdicaram de carreiras profissionais promissoras e de vida familiar para se dedicarem a quem, por natureza, está condenado à partida…

segunda-feira, junho 18, 2007

Auschwitz num documentário da BBC

Quem já foi a Auschwitz confessa uma sensação estranha ao percorrer aquele espaço onde morreram centenas de milhares de pessoas.
Um documentário televisivo, com a chancela da BBC, não expressa essa sensação de aperto no estômago perante o significado daquelas camaratas ou do percurso para as câmaras de gás, mas revela a injustiça de mais de 90% dos criminosos aí colocados para fazerem funcionar aquela máquina de morte, nem chegarem a ser julgados. A condenação à morte, por enforcamento do antigo chefe do campo, Rudolf Hoess, de pouco consolo serviu a quem viu a família esfumar-se pelas chaminés de Auschwitz.
Mas o documentário, apesar de diabolizar o Exército Vermelho, enfatizando as violações de mulheres alemãs e judias nas semanas subsequentes à libertação dos campos, tem a vantagem de pôr um dos esbirros ainda sobreviventes, Oskar Groning, a desmentir as teses revisionistas sobre o Holocausto: «eu estive lá e vi as atrocidades cometidas sobre os prisioneiros!», é a mensagem por ele deixada no final do documentário.

Auschwitz

Para o horror estão dispensadas as palavras...

domingo, junho 17, 2007

Martin Scorcese e JR no «Metropolis»

Embora a nova fórmula do programa, ensaiada este ano, esteja longe do interesse despertado durante a longa gestão de Pierre André Boutang, o «Metropolis» ainda continua incontornável de entre a oferta de programa culturais acessíveis pela televisão por cabo.
O programa desta semana começou com uma reportagem a propósito da edição francês em DVD do filme mais recente de Martin Scorcese: «Os Infiltrados».
Na origem estava uma trilogia de filmes de Hong Kong com gangsters ultra violentos inspirados nos dos primeiros filmes do realizador.
Mas Scorcese reescreve a história com as idiossincrasias tipicamente americanas : polícias que se comportam como cowboys, gangsters virulentos, armas em todas as mãos e a palavra “fuck” em todas as bocas.
Por outro lado, Leonardo DiCaprio substituiu definitivamente Robert de Niro como actor fetiche do realizador. Ele já fora o emigrante esfomeado de Gangs of New York, nababo de Hollywood em o Aviator, e polícia infiltrado e sacrificado neste «Os Infiltrados»: todos símbolos do nascimento de uma nação, da sua idade de ouro e da sua decadência.
Com uma forte envergadura, um rosto tenso, pele avermelhada, ombros descaídos e mãos nos bolsos como se fosse o herói de Taxi Driver, ele torna-se no herói trágico, quase num émulo de Cristo atirado para o sacrifício, disposto a resistir a todos: aos polícias e aos gangsters num mundo onde a fronteira entre o Bem e o Mal se torna cada vez mais difícil de determinar.

Outra reportagem do programa desta semana foi sobre JR, um jovem fotógrafo francês, que quis responder a duas perguntas - o que é um israelita? O que é um palestiniano? - mediante a realização de um conjunto de retratos gigantescos, que colou nas paredes e muros de Hebron e de Ramallah.
Como antes já fizera em Nova Iorque, Berlim ou Paris.
Vendo esses retratos nas paredes, os israelitas e os palestinianos compreendem como é tão difícil distinguir-se entre si. Que os motivos de divisão acabam por parecer fúteis face aos que os pode unir.
A fotografia acaba, assim, por assumir uma função política assinalável.

Rosa de Hiroshima

O espectáculo do Ney Matogrosso no Coliseu até deu para confirmar quão aquém do desejável é a acústica da sala. Mas o Ney é sempre o Ney, mesmo aos 65 anos: a música sensualizada pelas palavras e pelos gestos.
E o Coliseu quase vinha abaixo com os aplausos...

«O ANO DO PENSAMENTO MÁGICO» de JOAN DIDION (2)

Primeiro: o sofrimento. Só depois o luto. É esta a experiência transmitida por Joan Didion na sua evocação dos meses subsequentes à morte de John Gregory Dunne, com quem estivera casada durante quase toda a sua vida adulta.
As preocupações não lhe dão oportunidade para se entregar à reflexão racional da sua provação. Sobretudo, porque os problemas de saúde da filha, Quintana, não lhe dão descanso. E, enquanto ela volta a estar nos Cuidados Intensivos de um hospital em Los Angeles, Joan só procura evitar cruzar-se com as casas e com as ruas aonde outrora fora feliz. Não é impunemente, que se regressa em tão dramáticas circunstâncias ao sítio aonde se vivera vinte e quatro anos.
Há a sensação de viver num limbo, aonde os gestos se sucedem, os pensamentos caóticos se entrecruzam, sem darem resposta à obsessão contínua de se perspectivar como se poderá continuar a viver na ausência de quem comparticipava numa forte cumplicidade afectiva.
Acaso fosse crente haveria sempre a esperança num qualquer além. Mas, no casal era John quem perfilhava as concepções próprias de um catolicismo meio-céptico.
Quando, enfim, a saúde de Quintana melhora, ela pode assumir duas atitudes opostas: a de culpa por ter agido desta ou daquela maneira, que tivesse alterado o desiderato da noite de 30 de Dezembro de 2003, mas também a de raiva por John Gregory não poder ilibar-se do abandono a que a sujeitou…

Primeiro Tempo de Antena UNIR LISBOA

É curioso como o candidato do PS está a fazer convergir apoios de gente vinda de áreas políticas tão diversas...

sábado, junho 16, 2007

«Família Rodante», um filme de Pablo Trapero

A família é um verdadeiro local de massacre, quando mingua o espaço para os seus integrantes respirarem.
Esta é a conclusão mais óbvia, que se retira de «A Família Rodante», filme do argentino Pablo Trapero, que passara no Festival Indie de 2005.
Tudo começa no 84º aniversário de uma anciã, Emília a quem telefonam da sua quase esquecida cidade natal, Missiones. De lá convidam-na para madrinha de uma prima, que está em vias de se casa.
Logicamente as filhas, os cunhados, os sobrinhos, os netos e até uma bisneta associam-se à viagem de mil quilómetros até à fronteira brasileira a bordo de uma caravana fabricada e conduzida pelo genro Óscar.
Se o veículo está decrépito deixando-os apeados mais de uma vez à beira da estrada, muito mais complicada é a relação entre os doze viajantes.
Há um genro, que assedia incessantemente a cunhada até quase a vergar ao seu desejo e se vê expulso da viagem pelo despeitado e quase traído condutor.
Dois dos dois netos da anciã, Gustavo e Yarina, trocam os primeiros beijos até quase chegarem à concretização dos seus mútuos desejos, apesar das reservas morais levantadas pelo quase incesto.
Há a neta já mãe de uma criança resultante de uma relação - condenada por Óscar - com um motoqueiro mais ou menos duvidoso quanto às drogas.
Acresce ainda Matias, um miúdo com meia dúzia de anos, que consegue enfiar um rafeiro abandonado no já apertado espaço em que viajam.
Nessa verdadeira odisseia rumo ao norte, eles vão olhando para as mudanças na paisagem, para as pessoas com quem se vão cruzando, mas sobretudo para o quanto eles próprios estão a mudar dentro de si próprios.
É uma sociedade moralmente conservadora a contas com as suas pulsões sexuais, que permanecem reprimidas nas mais profundas das suas convenções. Aquelas cujo epílogo se anuncia nos choros de arrependimento de alguns dos seus pecadores, ainda sem compreenderem como puseram em causa a sua integração dentro do precário equilíbrio de uma família muito mais disfuncional do que, a princípio, aparentava.

sábado, junho 09, 2007

No S. Luiz: «Quando o Inverno Chegar»

Ao levantar o pano temos a floresta à nossa frente: troncos de árvores a denotarem uma densidade frondosa desse lugar fronteiro ao sanatório aonde Hans, Melchior e Emil esperam que a sua temperatura baixe.
A paisagem pressentida, esse receio em relação à tuberculose, os lieder interpretados por Carla Simões, remetem-nos para o universo romântico. Embora a gravidez de Lena e a sua condição de criada iludida pelas falsas promessas do jovem patrão remetam para as denúncias do ideário realista.
O tema não podia, porém, ser mais actual: os três doentes até não o estarão tanto quanto o desejariam. Porque o que eles ali vivem é a segurança de um espaço aonde não se sentem ameaçados.
Eles sabem que a verdadeira vida acontece lá fora. E que eles até almejariam por nela encontrar forma de integração. Mas Melchior nunca conseguirá ser o actor, que arrebataria plateias com os seus desempenhos. E, quanto a Emil, a proibição de sair dali ainda é mais contundente, já que, mais do que a doença, terá sido a paixão incestuosa pela própria irmã, a encerrá-lo naquele hospício das montanhas.
É Hans, quem menos se ilude com a possibilidade de sair da vigilância das freiras: ali, pelo menos, a sua condição de bastardo pouca importância tem até ser desmascarada por Emil num jogo de massacre lá para o final. Quando Lena, a jovem grávida, que começara por se querer enforcar, mas agora se quer arriscar a um regresso à planície, os desafia a acompanhá-la.
A peça encenada pelo realizador Marco Martins a partir de um texto de José Luís Peixoto e conceptualizada em conjunto com os quatro actores, vale, sobretudo pelo desempenho superlativo destes.
Beatriz Batarda é credível na sua fragilidade de mulher traída. Dinarte Branco é um Emil ingénuo, mas o mais idealista dos doentes do sanatório. Nuno Lopes é o alcoólico inveterado, que já perdeu a capacidade de acreditar em si, mas é capaz de reavaliar as suas possibilidades. E Gonçalo Waddington veste o mais cruel desses personagens por reduzir tudo o que vivem a um enquadramento de valores niilistas sem margem para a redenção.
Toda a história aparece embrulhada numa partitura musical muito tensa a cargo de um punhado de executantes muito jovens, escondidos para lá dessa floresta.
A cena teatral lisboeta está pujante com a revelação de actores menos conhecidos do que os habituais consagrados, mas com um talento notável.
Ainda que muito extensa e desigual, a peça em cena no S. Luiz acaba por ser dos grandes espectáculos deste ano.

Joan Didion e o ano do pensamento mágico

Em 30 de Dezembro de 2003 a escritora Joan Didion vai conhecer a maior provação da sua vida: a morte inesperada do seu companheiro de quase quarenta anos de visa, John Gregory Dunne, que sucumbe a um fulminante ataque cardíaco.
Nada a preparara para essa experiência, algo que ela quase sente como um «banal instante».
E, no entanto, esses eram dias bastante difíceis para o casal: a filha, Quintana, ainda estava num estado muito grave depois de ter contraído uma pneumonia, seguida de choque séptico, que a deixava em coma na Unidade dos Cuidados Intensivos do Beth Israel Hospital.
«O Ano do Pensamento Mágico» é o livro, que resulta da sua longa catarse, do seu lento renascer depois de, com a morte dele, se sentir quase morrer.
O tema é aliciante para quem já passou o meio século de vida e começa a pôr em causa a secreta expectativa de imortalidade.
É também um livro de uma enorme erudição: a autora investigou os comportamentos perante a morte, mormente a evolução histórica dessa vivência. Confirmando o que o historiador francês Philippe Ariés teorizou: nas nossas sociedades contemporâneas, em que tudo está canalizado para enfatizar a fruição dos prazeres da vida, a morte ganha foros de clandestinidade, de coisa quase obscena.
A atitude de Jane é muito contida: para o exterior, sabe que dá aparência de racionalidade na forma como fica sem o seu cúmplice. Mas essa contenção é relativa: mais do que contrôle das emoções, ela confessa uma certa forma de apatia. Como se, por um passe de mágica, se criassem as condições para a reversibilidade dos acontecimentos.
Há também um reviver do passado: aquelas palavras ditas por John nas suas últimas semanas de vida e que, interpretadas a posteriori, poderiam pressagiar um conhecimento inconsciente do desenlace iminente. Até porque o coração dele já andava periclitante: um pace maker procurava dar um comportamento normal a um órgão já muito desgastado.
Um exemplo disso mesmo é quando ele anda a tomar notas para um livro seu sobre as práticas desportivas e, sabendo-a igualmente com um projecto de contornos semelhantes, dissera à mulher para as aproveitar.
A leitura do livro pode comportar características voyeuristas: espreitamos como é que outrem viveu uma experiência pela qual nós temos bastantes probabilidades de passar. Mas o papel de leitor não é, afinal, a busca de respostas para o que nos inquieta nas palavras alheias?

quinta-feira, junho 07, 2007

S. Petersburgo ou Leninegrado?

A cimeira de Heilingendamm, que decorre a partir de hoje na Alemanha, revelará um Vladimir Putin cioso do seu papel de guardião dos interesses de uma Rússia à procura do seu passado imperial.
Poder-se-á condená-lo por isso, como o fazem os comentadores políticos com maior visibilidade nos nossos media, alinhados que estão com a defesa do eixo euro-atlântico?
Embora ainda não tenha avançado para uma estratégia visivelmente a contracorrente dos conceitos vigentes da democracia formal - como já parece ser o caso de Hugo Chavez na Venezuela - o actual ocupante do Kremlin já terá interiorizado algumas conclusões óbvias: que nunca a Rússia foi tão forte a nível internacional como na época da sua supremacia imperial sob a designação de União Soviética.
Nem mesmo Catarina ou Pedro, o Grande, terão rivalizado em poderio com Estaline, sobretudo quando a Segunda Guerra Mundial se concluiu com a influência de Moscovo sobre um conjunto significativo de outras nações leste-europeias.
Da mesma forma, também nunca a generalidade do povo russo terá acedido a condições de vida tão favoráveis como nos tempos de Khrustchev, quando o regime soviético tendia a aligeirar os seus constrangimentos a nível da liberdade de expressão sem pôr em causa a plena ocupação dos cargos políticos pelo seu partido único. No fundo algo que o Partido Comunista Chinês está hoje a gerir com maior eficácia e melhores resultados.
Por outro lado, os dirigentes da Nato e do Pentágono também ajudaram Putin a consolidar um sentimento nacionalista já nele anteriormente formatado na sua passagem pelo KGB: essa pressa em estender a União Europeia ou as mais avançadas armas ocidentais até países com uma mentalidade muito pouco consonante com os valores civilizacionais dessa comunidade de nações - hoje bem demonstrada no totalitarismo dos gémeos polacos ou no racismo anti-russo dos países bálticos - só arreigou a sua convicção da urgência de outro caminho, que não o seguido pelo seu antecessor Ieltsin.
Começaram por padecer essa mudança de estratégia os oligarcas que, à conta da tal democracia à ocidental, se apossaram dos principais recursos naturais do país. Que os mais emblemáticos desses sujeitos estejam nas prisões siberianas ou nos exílios londrinos, prova bem quanto os actuais líderes russos viraram costas a uma forma de capitalismo assente no primado da propriedade privada.
Padecem-na, igualmente, os jornalistas cuja liberdade de argumentação em favor desses interesses privados, ficou seriamente condicionada com sucessivos atentados, que tendem a serem mais prudentes na forma como interpretam o seu papel na defesa dos superiores interesses da nação russa. Sobretudo, quando se mostravam tão lestos a dar credibilidade a terroristas islâmicos, que defendem a transformação da Chechénia em mais um foco do expansionismo do fascismo muçulmano.
Se antigas repúblicas soviéticas ganharam a independência para se transformarem em países a soldo de ditadores sem escrúpulos, que reduziram os seus povos a uma profunda miséria, o Kremlin não mostrará sinais de abertura para outras aventuras desse tipo. Nem sequer para as repúblicas, que a Geórgia reclama como suas.
Um factor de relevante importância fortalece Putin nas suas posições: num mundo em que as fontes de energia escasseiam, a Rússia ganha um poder significativo face a uma Europa sem outra alternativa, que não seja a de se abastecer aí ou nos instáveis países do Médio Oriente.
Será, pois, provável uma deriva progressiva das autoridades russas no sentido de uma redução das liberdades formais defendidas a ocidente. Que foi perdendo, pouco a pouco, a sua argumentação pró Direitos Humanos nos seus contactos com as autoridades de Pequim.
Num mundo em permanente mutação, o pragmatismo dos condicionalismos económicos tenderá a limitar as tentações em enfatizar questões, que outrora garantiram prestígio a Sakharovs ou a Soljenitsins.
Poderá até ocorrer o que, ainda há pouco tempo, se afigurava improvável: a redenção dos antigos líderes soviéticos: no fundo talvez não falte muito para que S. Petersburgo volte a chamar-se Leninegrado. Quanto mais não seja por ter sido na cidade então assim chamada que o heroísmo russo escreveu uma das suas mais gloriosas páginas do século XX. E bem sabemos como todos os nacionalismos dão tanta importância aos símbolos.

sábado, maio 26, 2007

A favor da Ota

A campanha anti-Ota continua em força. O lobby dos interessados em construir o novo aeroporto na margem sul garantiu apoio dos principais jornais e televisões e quer impor uma alternativa, que não conseguira vincular na altura dos estudos fundamentadores da decisão.
Não lhes interessa, que a nova localização proposta esteja mesmo por cima de um lençol freático fundamental para toda a Península Ibérica num dos recursos naturais mais relevantes no futuro. De nada lhes importam os compromissos estabelecidos com Bruxelas para almejar esse empreendimento.
Já lhes poderão interessar os valores das portagens, que não deixarão de ser cobrados aos milhões de passageiros, obrigados a recorrer à travessia do Tejo para chegarem a Lisboa.
Já lhes poderão interessar, derrotados outros projectos financeiros, que fique facilitada a viabilização dos investimentos turísticos, que se preparam para desfigurar completamente toda a Península de Tróia.
Para quem conhece a localização proposta - e no caso pessoal até vivo no tal deserto, que o ministro Mário Lino designou - é óbvia a constatação de um maior número de dias de nevoeiro por ano do que se passa a norte do rio.
E as acessibilidades já estão praticamente construídas se a opção for a Ota ao contrário do que se passará com o Poceirão ou o Rio Frio.
O que os contestatários de hoje - ontem silenciosos, ou até apoiantes da opção pela Ota - podem estar a criar é um conjunto de bloqueios, que prejudicarão gravosamente o país.
Tal como no país vizinho a oposição de direita criou uma estratégia de terra queimada em que importa contestar qualquer decisão governamental, apenas por política politiqueira, a oposição ao Governo tem horror às realizações por aquele assumidas.
Os resultados económicos começam a ser cada vez mais incontestáveis, sendo difícil contrariar o que as próprias organizações internacionais vão concluindo sobre a recuperação operada depois dos desvarios de António Guterres, Durão Barroso e de Santana Lopes.
Tudo se conjuga para uma longa permanência do Partido Socialista no Governo se não se atentar a tempo contra a credibilidade da sua estratégia. E então vale tudo: pôr em causa a integridade do Engº José Sócrates (não resultou a gravíssima campanha antes das legislativas, está a falhar a relacionada com o seu título académico), sabotar os grandes projectos estruturantes da sua governação, agarrar em todos os argumentos para pôr em causa os ministros de verbo menos cauteloso.
O que se está a passar nesta altura com o debate em torno da Ota é mais um triste episódio da tentativa de derrube do único Governo que, nos últimos oito anos demonstrou visão para direccionar o país no objectivo do crescimento e do desenvolvimento.
Que seja mais uma tentativa derrotada é o que muitos - pelos vistos os que dão essa expressão nas sondagens - desejam.

À descoberta do Reino de Gugé

Até agora o Reino de Guge era-nos completamente desconhecido. Foi um documentário do «Odisseia», que nos abriu a mente para o conhecimento desta antiga civilização situada a Ocidente do Tibete, aonde outrora passava o pujante comércio entre a Índia e a China.
O local até era pouco adequado para o estabelecimento de uma comunidade humana. O planalto é desértico, as temperaturas rigorosas. Mas a contínua passagem de mercadores deu-lhe tal dimensão que seria a Oriente, o que a fulgurante Florença significava na mesma época.
E, no entanto, algures no século XVII, quando os primeiros viajantes europeus já tinham dado conta da sua existência, a rivalidade entre dois irmãos - um o seu último rei, o outro o líder religioso do seu principal lamastério, abriu condições para a sua destruição. E esquecimento…até despertar a curiosidade de arqueólogos europeus e norte-americanos, que desde os anos 30 têm procurado descortinar as razões do fulgor expressivo dos seus murais e as da sua súbita destruição.
Em visita à região, a redactora da revista «Rotas & Destinos» Ana Isabel Mineiro, escreveu num número já antigo e agora resgatado na net:
«As mais belas paisagens do planeta estão, provavelmente, aqui. Ninguém fica insensível à imensidão, às formas e às cores deste cenário em constante mudança. A atmosfera é magnética, densa, inexplicável. Padecemos do estado quase doloroso dos apaixonados. Dá ganas de ficar a levitar no silêncio abissal, de rumar à linha inalcançável do horizonte a pé, sobrevivendo apenas do alimento sagrado da errância contemplativa.
São planaltos sem medida, vigiados por montanhas, por onde serpenteia a estrada de terra que, nos passos mais altos, está ornamentada com bandeiras de oração, muros de pedras gravadas (manis), onde se depositam chifres pintados, lenços brancos, roupa, e até cabelo humano. São prados verdes sulcados por riachos, onde pastam iaques, ovelhas e cavalos. Lagos aprisionados por dunas de areia fina, de contornos sensuais, numa colagem fictícia sobre o azul do céu. E rochas de cores estranhas, em formações vanguardistas de escultura. Surgem desertos onde só vivem pequenos roedores, marmotas e pássaros gordos, do tipo dos pardais. No horizonte, montanhas nevadas rompem o algodão espesso das nuvens.
A paisagem humana perde-se nesta amplitude desmesurada. Nómadas acampam em tendas de pano ou de lã, cuidando de milhares de cabeças de gado. Um ou outro cavaleiro parece ir a caminho do nada - uma pincelada animada, na estagnação do tempo. As mulheres, com os aventais listados, os fios coloridos das tranças e as turquesas que enfeitam cintos, brincos e cabelos, são figurantes garridos e sorridentes na monotonia castanha dos planaltos».
Outra fonte de informação sobre este Reino é a Wikipedia na sua versão francesa. Em poucas linhas resuma a informação histórica disponível:
«Situada no vale de Khyunglung, no deserto tibetano, a cidade estado de Gugé abrigou uma das civilizações mais brilhantes da idade de ouro do budismo. O reino de Gugé foi criado em 700 da nossa era e desapareceu em 1630 por razões ainda não totalmente esclarecidas, mas decerto na sequência da intervenção do exército Ladakhi, que acorrera ao pedido das autoridades budistas de Gugé, lideradas pelo principal rival do rei, o seu próprio irmão».
Segundo as lendas passadas de geração em geração e só a sobreviverem por transmissão oral, a razão de ser desse trágico diferendo político até tem nos portugueses um inesperado papel: o casal real estaria a converter-se ao catolicismo por influência de jesuítas nossos compatriotas.
Na sequência desta guerra, o Reino seria anexado à Caxemira.
Um dos mais interessantes aspectos, que resulta das imagens deste documentário é a clara estratificação social subjacente aos edifícios em ruínas: na base da montanha, em grutas escavadas na rocha, ficavam os mais pobres: os camponeses, os pastores, os soldados. Depois, escalando a encosta encontram-se as antigas casas dos comerciantes.
Era no topo da montanha, protegida por muralhas, que ficava a aristocracia e os sacerdotes, que usufruíam de todas as riquezas inerentes à sua condição.
Nos seus antigos palácios descobriram-se os murais, que revelam uma arte muito elaborada e graciosa. O Reino usufruía da presença de muitos artistas, que haviam escapado ao avanço da influência islâmica por toda a região do norte da Índia e do actual Paquistão. Exilados ali, eram convidados pelas estirpes mais favorecidas de Gugé a deixarem espelhado o seu talento nas paredes dos edifícios.
Embora os estudos ainda estejam por definir o que realmente se passou nessa época em que Portugal vivia o jugo filipino, a derrocada do Reino de Gugé é bem elucidativa quanto os povos acabam por ser empurrados para uma espiral de violência e de miséria, quando à política se associam os condimentos das rivalidades religiosas.

quinta-feira, maio 24, 2007

«La Tombe 33, un mystère égyptien», documentário de Thomas Weidenbach

O Vale dos Reis já deve ter sido esburacado por milhares de arqueólogos e de aventureiros, para já não falar dos ladrões de túmulos, que os terão precedido nos séculos anteriores.
Quando se vê um documentário sobre egiptologia há sempre a expectativa de se perceber o que há ainda por resgatar das brumas do tempo.
E foi essa a reacção perante este documentário de Thomas Weidenbach, que acompanha os trabalhos dos arqueólogos da Universidade de Estrasburgo na pesquisa ao chamado túmulo 33, onde terá repousado Padiamenopé, um sacerdote da 26ª dinastia, cuja curiosidade assenta nas suas dimensões.
As suas vinte e duas câmaras, ligadas por longos corredores e em três níveis atingem uma profundidade de vinte metros a partir do solo.
Quantos metros cúbicos de terra foi necessário remover para conseguir uma derradeira morada para um mero servidor de faraós, ultrapassando-os em sumptuosidade nesse encontro com o Além?
Trata-se, pois, de um túmulo-palácio do século VII a.C. de concepção labiríntica, com uma enorme riqueza de hieróglifos , passíveis de constituir por si mesmos uma verdadeira colecção de literatura funerária egípcia.
Espanta, pois, que tenha havido um enorme hiato entre a sua descoberta nos finais do século XIX por Johannes Dumichen, só passado mais de um século volte a merecer a atenção científica de novos estudiosos, apostados em descobrir o que se encontra para além dos poços soterrados ou de galerias vedadas por paredes construídas muito depois da sua primeira ocupação.
É óbvio, que nenhuma grande descoberta científica resultará do seu esforço: mesmo nas câmaras ainda por explorar os saqueadores do tempo ter-se-ão antecipado, levando consigo tudo quanto poderia ser-lhes rentável no mercado das antiguidades.

segunda-feira, maio 14, 2007

O encontro da moda com a dança

Em Paris está actualmente uma exposição, que resulta da colaboração entre o costureiro Jean Paul Gaultier e a coreógrafa Régine Chopinot.
Nos inícios dos anos 80 eles uniram forças para criar uma dúzia de espectáculos, que acabaram por trazer algo de revolucionário à arte da dança.
Não é que a colaboração entre o mundo da moda e o da dança fosse algo de inédito: já em 1924 Coco Chanel e Diaghilev tinham colaborado numa obra interpretada por Nijinski. E também Merce Cunningham havia participado em projectos similares.
Mas o que foi novo na dupla Gaultier-Chopinot foi a duração desse projecto: dez anos, que ocorreram entre 1983 e 1993.
«O Desfile», em 1985, foi uma dessas obras, que resulta de um conceito da coreógrafa: um desfile de moda coreografado para o qual Gaultier inventa o guarda-roupa. Doravante a moda passa a ser encarada como dança, passível de assim dar maior originalidade á exposição das sucessivas peças de vestuário.
Mas, por seu lado, o próprio Gaultier é levado a utilizar como motivo de inspiração o fato por excelência de representação da dança: o famoso tutu. Questionando-se sobre o que significa criar peças de roupa para bailarinos ou como se apropriar dos seus códigos simbólicos.

terça-feira, maio 08, 2007

UM FILME SOBRE GUIZOS DE RENA

Confesso que não tinha muitas expectativas sobre este filme do Robert Zemeckis destinado a um público infantil. Mais do que a presença do Tom Hanks no projecto, estava, sobretudo, interessado em vislumbrar o efeito estético de uma animação claramente baseada no tratamento de cenas previamente rodadas com recurso a actores.
Zemeckis tem sido um experimentalista devendo-se-lhe projectos tão singulares como o foram ~Quem Tramou Roger Rabbit» ou «Forrest Gump».
A história do filme conta-se em muito poucas palavras: um miúdo de uns seis ou sete anos está com sérias dúvidas quanto à existência do Pai Natal. A irmã, mais nova, está excitadíssima perante a aproximação da noite mágica em que chegam presentes oriundos do Pólo Norte, enquanto ele abre uma enciclopédia aonde aprende a impossibilidade de haver condições de vida naquela região do globo.
No entanto, uma noite, ele acorda e vê chegada à beira da sua janela um estranho comboio, cujo revisor o incita a entrar.
Lá dentro ele vai conhecer mais um conjunto de miúdos, mais ou menos da sua idade, aonde avulta uma miúda de cor com particulares dotes de liderança e um miúdo irritantemente sabichão, afinal ainda com tanto para aprender.
A aventura irá passar por imensas vicissitudes, com a constatação, por parte do protagonista, da existência de um anjo da guarda, a amiúde abandonar a pose de vagabundo para lhe dar a mão em momentos particularmente difíceis. Porque há despistes num lago gelado à beira de ver partido o seu gelo, ou subidas e descidas vertiginosas, ou ainda paragens bruscas devido a manadas de caribus.
Embora completamente inverosímil, a história associa-se ao sonho de um miúdo, que irá aprender uma lição preciosa: a de nunca abdicar de uma certa forma de magia, traduzida pelos guizos das renas do Pai Natal.
No fundo não nos faz mal nenhum rendermo-nos ao sortilégio de uma fantasia infantil, que nos recorde como foi tão bom sermos ingénuos. É que, nessa altura, os medos, as angustias, as frustrações ainda não assumiam as trágicas dimensões conhecidas na vida adulta.
Aquela em que a sobrevivência não é apoiada na intervenção oportuna de um qualquer anjo da guarda...