sábado, novembro 19, 2005

Élisabeth CORONEL: «Saburo Teshigawara, danser l’invisible»

Saburo Teshigawara, homem secreto, aceitou trabalhar em frente da câmara de Elisabeth Coronel durante vários meses, em Tóquio, em Paris, em Lille e em Yokohama. Entra-se na dança com os ensaios de Kazahana (literalmente flor/vento), coreografia criada em 2004 na Ópera de Lille de que se descobrem alguns extractos no fim do documentário.
Começa-se com os primeiros passos de Prelude for dawn, para o qual o coreógrafo trabalha com crianças amblíopes da escola de Loos, espectáculo igualmente apresentado em Lille. É a entrada para o «rio subterrâneo», que anima a arte de Saburo Teshigawara, peça após peça.
Imersão no movimento e na respiração, a felicidade de partilhar um instante de beleza.
É-se tomado por um irresistível desejo de dançar por entre os corpos, que ele dirige com a voz ou com o gesto.
Apresentadas em voz off, as suas palavras, ora concretas, ora misteriosas, sempre evocadoras, guiam-nos para a contemplação do seu universo. Kazahana, tentativa para represnetar a «duração», corresponde assim para o coreografo à imagem de um céu sem nuvens, límpido, donde caem flocos leves de neve.
Entre os ensaios e as representações, a realizadora prolonga a dança com as imagens contemporâneas do Japão: barcos na baía de Tóquio, jogos de praia, chuva de flores de cerejeira nos jardins, lagos e montanhas.
Passo a passo, de encantamento em encantamento, as experiências e as descobertas de Teshigawara são-nos transmitidas, e permitem-nos uma abordagem desse lado inconsciente a que a sua dança dá acesso.

Saburo Teshigawara nasceu em Tóquio em 1953 e é o mais importante coreógrafo japonês contemporâneo. Igualmente bailarino, ele cria a sua própria linguagem, resolutamente inovador e baseado numa investigação permanente sobre a liberdade. Gozando de um prestígio significativo no mundo da dança, é convidado para os principais palcos mundiais com a sua companhia Karas (que significa «corvo», um pássaro benéfico na cultura japonesa)

sexta-feira, novembro 18, 2005

A PASSAGEM DO GRANDE NORTE


A passagem do Noroeste é a zona, a norte do Canadá, que fica mais próxima do Oceano Árctico. No Verão como no Inverno, ela está bloqueada pelos gelos.
Desde o século XVI constituiu uma terra de aventura para os exploradores à procura de uma via, que ligasse a Europa à Ásia.
Desde os finais dos anos 90, por acção do aquecimento climático, esses gelos estão a liquefazer-se com progressiva rapidez. Daqui a vinte anos, os gelos poderão já não servir de obstáculo para essa passagem do Noroeste.
Por trás das consequências económicas, que se adivinham imensas, dois parâmetros arriscam-se a ficar secundarizados: o equilíbrio ambiental e o modo de vida dos Inuits.
Jean Christophe Victor, investigador em geopolítica e autor da emissão «Les Dessous des cartes», faculta-nos aqui as suas reflexões sobre este paraíso branco ameaçado:
Daqui a dez ou vinte anos as consequências geopolíticas inerentes à libertação da pssagem do Noroeste serão diversas, a começar pelas relacionadas com os recursos minerais. A abertura dessa passagem facilitará o acesso às minas de níquel, de cádmio, talvez de urânio, e muito certamente de diamantes. E também ao petróleo.
A segunda consequência, de ordem jurídica, é o estatuto que será o das águas norte-canadianas.
Há um litígio: para o Canadá são águas territoriais, que lhe pertencem, enquanto para os EUA são águas internacionais.
A terceira consequência diz respeito ao transporte internacional: ter-se-á um novo estreito, mais curto que o do Panamá ou o do Suez, que implicará óbvias alterações à situação actual.
E o quarto desafio, que deveria ser o primeiro, é que constitui uma péssima notícia a nível ecológico.
Regularmente vamos tendo estatísticas sobre a modificação da calote glaciar da Groenlândia: os glaciares retraem-se a um ritmo facilmente detectável.
Os Inuits são duramente influenciados pelas poluições vindas do Sul. A passagem de cargueiros pelas suas costas apenas piorá o que se passa hoje. Será que se deve explorar o petróleo para que os habitantes da região tenham melhores proventos, mesmo sem se imaginar como eles poderão vir a ser distribuídos? Quando vejo o que se passou, a partir de 1953, com os Inuits da Groenlândia, já não sei que responder. A Dinamarca decidira que eles eram cidadãos com os mesmos direitos de quaisquer outros dinamarqueses. A priori trazia vantagens, a nível médico, escolar, etc… Mas quanto à economia local, constatou-se a destruição da sociedade tradicional. E depois, ao mesmo tempo que os medicamentos, chegou a cerveja e a destruição de aldeias inteiras. (…)
Interesso-me pelas expedições actuais ao Grande Norte, porque me atiça a curiosidade a evoução da sociedade Inuit. Por muito que os tempos tenham mudado. O meu pai fazia parte daquela geração, que conseguira aliar a exploração geográfica aos aspectos exclusivamente científicos.
Hoje, já não há mais exploração geográfica enquanto tal. Há sobretudo feitos individuais.

segunda-feira, novembro 14, 2005

IRMÃOS COEN: «O QUINTETO DA MORTE»

«The Ladykillers», o filme que os irmãos Coen realizaram no ano transacto, tendo Tom Hanks como protagonista, é um divertimento inteligente, embora se cinja a esse mero objectivo de provocar uma noite bem passada a quem o vê.
Tudo começa quando uma velha senhora Marva Munson, aluga um quarto ao erudito Professor G.H. Dorr (Tom Hanks) para ele aproveitar o seu ano sabático a dedicar-se ao seu grupo de música renascentista. Estamos no Estado do Mississipi, aonde a questão racial está omnipresente e as igrejas negras vivem a alegria dos seus «gospels».
O que Marva desconhece é que Dorr lidera um quinteto de ladrões apostados em escavar um túnel até ao cofre forte do casino mais próximo para dele extorquir 1,6 milhões de dólares.
Num filme destes autores cada um desses assaltantes teria de constituir por si mesmo um estereotipo tratado de uma forma quase caricatural. Pelo menos assim vem sucedendo nos filmes mais recentes destes autores. Existe, assim, um General, que não é mais do que um vietnamita especialista em escavação de túneis desde o tempo em que a Indochina ainda era uma colónia francesa. Há um brutamontes, que fracassara como jogador de futebol americano. Acrescenta-se-lhes o assistente de realização de filmes publicitários, autêntico pinga-amor por uma cinquentenária ainda penteada com tranças e sobrevivente dos Freedom Riders, que nos anos 60, haviam vindo da Pensilvânia enquanto promotores dos direitos cívicos das pessoas de cor. E, sobra, enfim, o negro Gawain, representante da geração do he-hop e capaz de arriscar o sucesso colectivo pelas curvas concupiscentes de uma qualquer cliente do Casino aonde se conseguira infiltrar como empregado da limpeza.
Se o roubo em si não tem história - salvo o dedo perdido por um deles numa explosão acidental - já o que vem a seguir é muito complicado: Marva descobre o que eles fizeram e ameaça-os com a polícia se eles não derem provas de arrependimento, devolvendo o dinheiro e acompanhando-a no domingo seguinte à Igreja.
As tentativas de matarem a senhoria não resultam: Gawain recusa-se porque ela lhe lembra a própria mãe e morre no disparo ocasional da sua própria pistola durante uma disputa com Garth. Este procura ficar com o pecúlio só para si e para a sua amada Mountain Girl e são os outros que os eliminam.
Segue-se o General: um susto, quando se preparava para estrangular a adormecida Marva, redunda numa queda precipitada - e fatal … - pelas escadas abaixo.
O brutamontes Lump e o Professor Dorr morrem acidentalmente em cima da ponte donde costumavam lançar o entulho, e mais recentemente os cadáveres, para as barcaças destinadas à ilha, que servia de aterro sanitário, na embocadura do rio. O primeiro é vitimado por uma inesperada repetição da cena de «O Caçador» referente à roleta russa. E a Dorr, como bom apreciador de Edgar Allan Poe, é sob a égide de «O Corvo», que tem encontro com as águas do rio.
Acaba, pois, por constituir uma história moralmente inatacável: o crime não compensa, acabando premiada a virtude. Mesmo que vestida de ironia…

sábado, novembro 05, 2005

CARROS, FADOS E ESTADOS DE ALMA

Já foi publicado há uma semana, mas mantém toda a actualidade: num artigo do «Expresso», o seu colunista Jorge Fiel recordava como, há uns anos atrás, com os filhos ainda crianças, ia para o Algarve na saga de todos os Verões, quando fazia o jogo das cores dos carros vindos em sentido contrário.
Era um tempo em que a auto-estrada entre Lisboa e aquela província meridional ainda era uma miragem e em que as crianças punham os pais à beiram de um ataque de nervos com as repetitivas perguntas: «Nunca mais chegamos?», «Ainda falta muito?»
Mas também era um tempo em que esse jogo de recurso era imprevisível nos seus resultados. Porque o parque automóvel nacional era multicolorido…
Hoje, lamenta-se o cronista, não acontece assim: a maioria dos automóveis são cinzentos, nos seus diversos matizes (claro, escuro, mais claro que escuro, mais escuro que claro, etc…). E as alternativas imediatas são as que se podem esperar de tal contexto: brancos e pretos…
Eu que disso não me havia dado conta, fiz a experiência ontem, enquanto atravessava a ponte 25 de Abril no sentido Sul-Norte. E corroborei tal constatação sem margem para qualquer dúvida…
Ora, Jorge Fiel, parte de tal conclusão para outra, que a ela surge associada: nas cores dos seus automóveis, os portugueses reflectem os seus próprios estados de alma. Que estão cinzentos, acabrunhados, desesperançados em relação ao futuro imediato...
Os carros coloridos de outrora corresponderiam a um outro tempo, quando a Revolução dava azo a todas as Utopias, e o risco era encarado como algo natural…
Talvez por este desânimo presente aconteça o ressurgimento do fado: através dos discos de Marisa, de Mísia ou de Mafalda Arnauth. E que reflectem sentimentos de nostalgia, de saudade de algo que se perdeu ou que nunca se encontrou…
Deseja-se um outro tempo mais colorido e de sons bem mais animadores…

quinta-feira, novembro 03, 2005

AS VIAGENS DA COLECÇÃO DO MUSEU DO PRADO

Uma das mais curiosas histórias relacionadas com o Museu do Prado diz respeito às reviravoltas por que passou a sua colecção durante o segundo quartel do século XX: durante a Guerra Civil de Espanha, a Sociedade das Nações convenceu as partes beligerantes a porem o fabuloso espólio aí guardado a recato de eventuais bombardeamentos. Depois de diversas vicissitudes, a cidade escolhida foi Genebra.
É imaginável o que terá sido essa sucessiva viagem de milhares de obras-primas, primeiro de Madrid para Valença, daí para Girona, e enfim para a cidade Suiça.
Mas, idêntica aventura terão vivido essas mesmas obras quando, em plena Segunda Guerra Mundial, elas tomam a direcção contrária, viajando de comboio por território francês até se verem, uma vez mais salvaguardadas no Museu madrileno.
Uma aventura, que só por si merecia um tratamento cinematográfico com a ensanguentada Espanha por fundo…

quarta-feira, novembro 02, 2005

SIGNORET E ARENDT: DUAS TESTEMUNHAS DO SEU SÉCULO

Huguette Bouchardeau era-nos conhecida de outras actividades. A de ministra, por exemplo, em governos socialistas… Mas, retirada da política activa, ela dedicou-se à biografia de Simone Signoret a quem muito admirou. Não apenas pelo seu talento enquanto actriz, mas também pelo seu papel activo nos grandes combates do seu tempo.
Ainda hoje ela continua a ser a única actriz francesa a alguma vez ser galardoada com um Óscar. Apesar do sucesso, acompanhá-la-á uma contínua culpabilização: primeiro, pelas suas origens burguesas; depois, por ter trabalhado, aos 18 anos, num jornal colaboracionista, cujos colegas eram-lhe muito simpáticos, apesar de ignóbeis. Enfim, por ter acreditado nas virtudes de uma União Soviética, cuja deriva totalitária não deixaria, depois, de condenar…
Numa época de maior militância, ela era capaz de chatear todos quantos a rodeavam para garantir mais um assinatura numa qualquer petição. Nesse sentido manterá, até ao fim, uma espécie de genuína ingenuidade…
Outra biografia, agora publicada em França, é a de Hanna Arendt («Dans les pás d’Hannah Arendt», Gallimard). Da autoria de Laure Adler, que reivindica a capacidade de associar as ideias da filósofa alemã à interpretação do caos actual do mundo, localize-se ele no Médio Oriente, na crise dos sem papéis ouda globalização. A sua vida, que percorre grande parte do século XX (de 1906 a 1975), será consagrada a todas as questões morais, sociais e políticas com que se depara. A filosofia será a sua resposta para os tormentos existenciais por que passa. Tanto mais que, adolescente, ela vive o drama de não se conseguir aceitar no seu corpo. Mesmo que a orgulhem as suas raízes judaicas, que a levam a perfilhar o sionismo, antes de inflectir para um convicto anti-sionismo. E será ela, um dos primeiros intelectuais de esquerda a pressentir o perigo, que Hitler viria a constituir…
Laure Adler enfatiza, igualmente, a desadequação de Arendt em relação às convenções, reivindicando uma permanente independência ideológica. Que a levará a entrar em polémica durante o julgamento de Eichmann com quem dele adoptava uma perspectiva meramente maniqueísta. Nesse torcionário nazi ela via explicitada a banalidade do mal, por não só ele se mostrar incapaz de entender o monstro em que o tornara a opção por cumprir as ordens recebidas, como sobretudo por nunca ter sentido a volúpia da transgressão.
Mas, numa figura tão complexa ficará por perceber como Hanna Arendt nunca se libertará da sua paixão por Heidegger, de cujo passado nazi depressa se deixou de poder duvidar...

terça-feira, novembro 01, 2005

LISE SARFATI

Em 2003, Lise Sarfati esteve duas vezes nos EUA durante dois meses. De carro percorreria vários Estados (Texas, Geórgia, Carolina do Norte, Oregon, Califórnia…), com a ideia de fotografar seres humanos nas paisagens, e não separados como nos seus trabalhos precedentes na Rússia. Mas, ao fim de uma semana de viagem, ela constatou não ter conseguido até então um único encontro: «A única altura em que vi pessoas foi quando meti gasolina. Aquilo é um cenário de ficção científica: não está lá ninguém. A geografia dos EUA é muito simples. Os Americanos contentam-se em sairem de casa para o local do trabalho ou ao supermercado. Então perguntei-me: como poderei ver pessoas. E a única maneira era ir-lhes bater à porta».
A fotógrafa francesa, que em tempos de fobia anti-francesa, se dizia belga, abordou os seus futuros personagens em motéis baratos, à saída das escolas, nos supermercados, raramente na rua. Depois negociou com os pais (todos viviam com os pais) para os fotografar em casa, em interiores, ora de caravanas, ora de casas hollywoodescas.
Mas, em Lise Sarfati, não se encontra um trabalho sociológico sobre a juventude norte-americana. As suas imagens são ficções, que se credibilizam na forma como os «teenagers» solitários, cientes da fotogenia da sua idade, se expuseram perante a câmara, tornando-se dela cúmplices.
Há perucas, acessórios, roupa vestida à pressa.
A maioria não olha para a câmara , como se fixassem um lugar imaginário apenas deles conhecido.
Pelas páginas do portfolio passam três dezenas de raparigas e de rapazes em supermercados, em parques de estacionamento..
Explica Lise: «Eu queria que os personagens olhassem com aquela expressão carregada de emoções, que viremos a questionar o resto da vida».
Numa enorme cama de madeira, um rapaz prepara mentalmente o seu dia, como um Oblomov (do escritor russo Gontcharov) a arranjar argumentos em favor da inacção.
Numa cozinha uma rapariga está com um ar perdido, como se fosse uma poetisa reclusa vestida de longos panos brancos. Uma outra está deitada no sofá, com uma expressão derrotada. Como se sentisse a decepção de se ver no seu próprio corpo dentro daquele salão vazio.
«Quando os visitava, eles perguntavam: “O que é que fazemos?”. Eu respondia: “Não sei”. Deixava as coisas evoluírem, decomporem-se.
Lise Sarfati, assumida fã de Robert Bresson, cita de memória o cineasta a respeito dos seus actores não profissionais: «É preciso deixá-los agirem por si, para seres então tu a agires neles».
«Com tais personagens conseguia chegar aos meus objectivos. A jovem e a morte, a jovem em fuga… Quando fiz este trabalho oscilava entre personagens um pouco perversas e as do tipo das de Emily Dickinson».
Janelas, enquadramentos de portas, espelhos, um frigorífico aberto, a barreira de uma varanda… Lise Sarfati adora os cenários fechados, que se interligam com o enclausuramento dos corpos. Sem céu, mesmo nos jardins. Mas uma densidade de cores, detalhes que enriquecem cada micro-história, enunciada antes da fotografia e que prossegue para além dela...

segunda-feira, outubro 31, 2005

A CARMEN COMO PRETEXTO

As iniciativas do Ginásio Ópera começam a ganhar consolidada relevância na forma de inventarmos os fins-de-semana. Desta feita o local do evento foi o Hotel Vila da Galé Ópera, junto à antiga FIL, e tinha a «Cármen» de Bizet como tema. Primeiro, sob a forma de conferência com José Maria de Freitas Branco e José Atalaya. Oportunidade para evocar a injustiça de jamais Georges Bizet ter recebido o reconhecimento por esta obra maior da sua criatividade, tanto mais quanto a estreia foi tumultuosa no repúdio público e da crítica em relação ao apresentado em palco. Uma prova reiterada de como a genialidade custa a ser quantas vezes reconhecida…
E, no entanto, quer Tchaikowski, quer Mahler, viriam a elogiar «Cármen» como uma obra perfeita. Quanto a Nietszche, servir-se-ia dela como arma de arremesso contra Wagner numa polémica, que incendiou a intelectualidade alemã nos finais do século XIX.
Na assistência o já retirado tenor Álvaro Malta trouxe algumas recordações deliciosas sobre o seu passado artístico, mormente quando co-interpretou esta Ópera com uma idosa e gordíssima soprano em quem seria difícil descortinar a sensualidade previsível da protagonista. Até porque, sendo um espectáculo tão popular quanto possível, a ópera deverá assumir-se, à partida, como credível.
Seguiu-se a interpretação de algumas das árias mais conhecidas da ópera, a cargo da meio-soprano ucraniana Laryssa Savtchenko e do tenor Pedro Chaves. Acabados de chegar de um ensaio de «Otelo» no «São Carlos». Ela com um intenso vozeirão, que Álvaro Malta viria a conotar com as suas apreciadas vozes búlgaras, mas só voz, sem qualquer expressividade quanto aos estados de alma supostamente ilustrativos das suas palavras. Ele, pelo contrário, uma muito boa surpresa, quer quanto à pujança da sua voz, quer no respeitante à tentativa de encenar as contraditórias reacções do ciumento Don José.
Ao jantar a conversa com o António Rebordão, um dos responsáveis do Ginásio Ópera, deu para entender como é possível fazer tanto com tão pouco: um orçamento de vinte cinco mil euros tem dado para mais de vinte iniciativas distintas. E já se sonha com a expansão para o Porto e para os Açores…
A concluir a noite ficámos perante o filme realizado por Francesco Rosi e com Júlia Migenes, Placido Domingo e Ruggero Raimondi nos principais papéis. Para apreciar em quase três horas como Bizet concebeu, de forma visionária, uma mulher livre, capaz de exigir do Amor uma dedicação quase absoluta, mas resoluta - sem olhar a consequências - na rejeição quando decepcionada com a qualidade desses afectos.
Apesar de muitas defecções, os resistentes que chegaram até quase à uma da manhã, tiveram o privilégio de constatar a tal sensualidade, que quer José Maria de Freitas Branco, quer Álvaro Malta haviam referido como um dos principais requisitos para uma intérprete desta personagem. Lamentando-se que Migenes tenha perdido as suas qualidades vocais de forma tão inglória e tão precocemente.
Mesmo com o corpo a reclamar da incomodidade das cadeiras, saímos dali com a sensação de termos vivido algo de excepcional...

sexta-feira, outubro 28, 2005

DE JUÍZES, DE MEDIDAS ANTIPOPULARES E DE UM EDIFÍCIO SIMBÓLICO

Ainda que quase todos os agentes ligados à Justiça estejam em greve contra o Governo - juízes, magistrados, funcionários dos tribunais - não sobram dúvidas quanto à falta de popularidade de tal contestação. Sendo uma luta corporativa cinge-se exclusivamente ao universo dos que se dizem prejudicados pelas medidas do Governo como se lhes sobrasse alguma razão do facto de se pretenderem acima dos demais cidadãos na distribuição de sacrifícios exigíveis a todos neste momento difícil.
É uma verdadeira vergonha o comportamento desses agentes da Justiça em tudo quanto têm sido os casos mais mediáticos dos últimos anos, a começar pelo ocorrido na Moderna, passando pela Casa Pia e desembocando, mais recentemente, com o saco azul de Felgueiras. Com tantas provas de dúbio profissionalismo, os senhores juízes e os senhores magistrados vêm defender que a sua «independência» só se revelará possível se forem lautamente pagos e usufruírem de melhores condições de assistência médica do que os demais cidadãos. Dá para citar um ministro deste Governo: «Haja decoro!!!»

***

Que as medidas tomadas pelo Governo são essenciais para solucionar a crise de consolidação orçamental herdada dos anteriores (e não esqueçamos que os dois imediatamente anteriores a este foram da responsabilidade do PSD e do CDS, pelo que se revela inqualificável o ar de virgem virtuosa representado por Marques Mendes e Ribeiro e Castro!!!), demonstram-no as palavras publicadas pela economista Teodora Cardoso no «Diário Económico» de 27 de Outubro: Quando uma economia exige a adopção de medidas difíceis, o pior que pode acontecer-lhe é convencer a opinião pública de que o ajustamento é imprescindível, mas não conseguir completá-lo. (…) O país tem condições para uma recuperação bem sucedida se perceber que não pode continuar a suportar assimetrias e ineficiências, que não só têm custos insustentáveis, como apoiam o imobilismo.

***

O movimento de indignação popular pela construção no local do antigo edifício da PIDE/DGS de um condomínio de luxo, mas tende a crescer como o demonstra mais um artigo publicado pela professora Clara Queiroz na edição de 28 de Outubro do «Público». Em que ela questiona:
E nós, portugueses e lisboetas, que memória tão curta e irresponsável teríamos se não protestássemos com todas as nossas forças contra este imenso roubo da nossa memória da história recente? Do edifício que corporiza a repressão que sofremos durante quase meio século, mas, sobretudo, da resistência que lhe fez face? Por que não lutarmos para que, à semelhança do que se fez em tantas cidades europeias, se transforme aquele edifício num museu de resistência ao fascismo?

segunda-feira, outubro 24, 2005

CULTURA AO CUBO

Que grande fim-de-semana a nível cultural!
Ontem, no Solar dos Zagallos, decorreu o penúltimo dos recitais subordinado ao Romantismo.
O conferencista voltou a ser o André Cunha Leal, a controlar melhor os nervos do que da primeira destas iniciativas. Ao demonstrar a passagem do Classicismo para o Romantismo ele evocou essa revolução estilística, que tornou obsoletas as regras canónicas até então dominantes no condicionamento da criatividade artística. Ao virarem-se para o seu íntimo, os compositores permitiram-se liberdades até então impensáveis. Explorando os seus estados de alma em comunhão com uma natureza tumultuosa em que a noite e as tempestades correspondem quantas vezes aos seus sentimentos angustiados.
Ou explorando o exotismo das civilizações orientais, muito embora para eles até os cenários ibéricos assumiam essa característica.
Para deleite dos nossos ouvidos contámos com o talento de dois jovens de 23 anos: Eduardo Regula no piano e Ricardo Mendes no violino. Interpretando a Sonata nº 1 de Beethoven, a Introdução e Rondo Capriccioso de Camille Saint Saens e o Zigueunerweisen do Pablo Sarasate.
Á nossa volta a sala estava cheia de ouvintes atentos. No único dos recitais deste ciclo aonde isto se verificou…
Hoje tivemos teatro e, outra vez, música.
No primeiro caso, «Animais Domésticos», a mais recente produção dos Artistas Unidos sob a direcção do Jorge de Silva Melo. Um texto difícil sobre a condição dos seres humanos numa sociedade aonde o direito à felicidade nem sequer é pressentido.
Há um idiota, que é capaz de o não ser, mas vive obcecado pelo desejo de, pelo menos por momentos, conseguir exilar-se da sua própria cabeça. Uma mãe que passa o tempo a contar barcos … ou carros. Uma mulher, que se rira de um rapaz muitos anos atrás, perseguindo-a hoje o sentimento de culpa por ser a responsável pela sua presente cegueira. Uma prostituta, que ensina palavras a quem as não sabe. Um empregado de jardim a quem o encarregado gosta de mostrar «ternura». Dois cães castrados, que nem sabem se são machos ou fêmeas.
É a grotesca comédia humana a desfilar perante os nossos olhos. Com notáveis interpretações de todos - mas todos - os actores, a maioria desconhecidos dos nossos habituais percursos teatrais. Mas deu para reconhecer a Elsa Galvão e o José Airosa, a Sylvie Rocha e o Gonçalo Waddington…
A acelerar atravessámos a ponte para comparecermos no último concerto do ciclo sobre o Romantismo no Solar dos Zagallos.
O conferencista era, uma vez mais, o fascinante José Maria de Freitas Branco, cuja erudição é mais sentida, que meramente colada.
Voltou-se a falar de Schubert e dos lieder, mas também desse canalha chamado Richard Strauss, cuja arte nada tem, porém a ver, com o seu comprometimento activo no nazi-fascismo.
Para interpretar umas treze canções voltámos a ter a soprano Ana Madalena Moreira. E, uma vez mais, à pujança da sua voz, capaz de chegar a registos extremamente exigentes, aliou uma expressividade muito sua, como se o seu coração batesse ao compasso daqueles lamentos perante a ausência do seu objecto amoroso.

terça-feira, outubro 18, 2005

A MORTE DE PA KIN

Pa Kin, o ultimo gigante da geração de escritores chineses anterior à era comunista, morreu em 17 de Outubro, em Xangai, com cem anos. Nunca se saberá se sucumbiu à doença, como o anuncia a agência Nova China, ou se a família e as autoridades chinesas terão enfim acedido à sua vontade de eutanásia, como o reclamava há muito.
As suas obras mais importantes foram escritas antes da chegada dos comunistas ao poder em 1949, em particular a sua célebre trilogia largamente autobiográfica: «Família» (1937), «Primavera» (1938) e «Outono» (1940).
Pa Kin nascera em Chengdu (Sichuan) em 25 de Novembro de 1904, sob o nome de Li Feigan. O seu pseudónimo era em si um verdadeiro programa: a contracção dos nomes de dois anarquistas russos, Bakounine e Kropotkine! Porque Pa Kin foi anarquista, chegando a corresponder-se com Bartolomeo Vanzetti, quando este aguardava execução nos Estados Unidos.
Pa Kin vivia, então, em França para estudos, que nunca chegaria a levar até ao fim, e revoltara-se com o caso Sacco e Vanzetti, que o influenciará profundamente.
Esta tentação anarquista custar-lhe-ia caro: em 1958, Yao Wenyuan, futuro membro do «Bando dos Quatro» durante a Revolução Cultural, publica um texto intitulado «Sobre a ideologia anarquista no romance “Destruição“ de Pa Kin». Durante esse período controverso, os guardas vermelhos irão desfilar sob a sua janela a gritar: «Abaixo Pa Kin, o anarquista mal-cheiroso».
No entanto, Pa Kin fora um comunista disciplinado desde 1949. Aceitara reescrever toda a sua obra para a expurgar da influência anarquista. O herói de «Destruição», Du Daxin muda de ideologia nas edições dos anos 50, convertendo-se num “socialista revolucionário”.
A Revolução Cultural foi cruel para Pa Kin, mesmo que não chegando aos extremos do sucedido com o grande Lao She, «suicidado» em 1966 depois de se ver perseguido. Mais tarde, ele escreverá:
«Fui escravo durante dez anos. (…) Éramos joguetes de uma imensa burla. Essa descoberta foi um choque terrível, que muito me doeu. Nem queria acreditar, porque me fez perder todas as ilusões».
A mulher, Xiao Shan, sucumbe em 1972, vítima de um cancro impossível de tratar devido ao assédio então padecido por Pa Kin às mãos dos Guardas Vermelhos. Num texto comovente de 1979, quando o pesadelo já terminara, ele confiará o seu sentimento de culpa: «Ela ainda estaria viva se não fosse considerada a “cúmplice infame de um intelectual malcheiroso”. Em suma, fui eu a causa do seu sofrimento e da sua morte».
O escritor reclamará, a partir de então, a criação de um Museu da Revolução Cultural. Em vão, já que esse período negro da história maoísta continua muito apagado.
Enfraquecido pela doença, Pa Kin converteu-se progressivamente num ícone mudo, num monumento à glória da literatura comunista, que ele, efectivamente, serviu antes de se tornar sua vítima. Resta a sua obra, anterior a 1949, testemunha da sociedade chinesa feudal e dos tormentos de uma juventude atraída pelo ideal revolucionário.

domingo, outubro 16, 2005

«CHARLIE E A FÁBRICA DE CHOCOLATE»

Demorámos, mas acabámos por ver «Charlie e a Fábrica de Chocolate» do Tim Burton. Foi no Seixal, num Fórum cheio de miúdos, que depararam com um filme algo diferente do que poderiam estar à espera.
Apesar de se tratar de um conto infantil, com as características enunciadas por Bruno Bettelheim para os caracterizar: com a magia operada pelos seus cenários psicadélicos, mas também com o terror suscitado pela forma como se castiga o mal.
Um mal personificado em quatro miúdos particularmente odiosos: um glutão, uma presunçosa, uma mimada e um teledependente. E pelos progenitores, que os acompanham, quanto mais não sejam enquanto responsáveis pela sua má educação.
Mas, como sucede nesses contos educativos, o bem sai premiado e enaltece-se o valor da família: os pais e os avós de Charlie juntam-se-lhe enquanto novo proprietário da fábrica aonde os Oompa-Loompas prosseguirão o seu infatigável labor na criação de inexcedíveis chocolates.
Nesse sentido o filme é muito capaz de gerar alguns sonhos buliçosos nalguns dos miúdos, que enchiam a plateia. Consoante as suas pulsões mais subconscientes eles tanto poderão, adormecidos, sorrir com a ideia de um rio feito de chocolate como rebolarem entre os lençóis com a possibilidade de serem atirados para uma conduta de lixo ou sugados por um tubo…
Para um adulto o prazer situa-se mais no processo narrativo, mais contido na sua mensagem moralista do que a versão do mesmo conto de Roald Dahl dos anos 70, e no esplendor visual da fotografia de Rousselot. Ou aceitando as piscadelas de olho à sua cinefilia, que Burton vai semeando pelas suas sucessivas cenas. Quer invocando os seus próprios filmes - desde «Beetlejuice» a «Big Fish», passando pelo inevitável «Eduardo Mãos de Tesoura» -, quer invocando os alheios, com particular destaque para «2001, Uma Odisseia no Espaço», «O Silêncio dos Inocentes» ou «Psico».
A personalidade de Willy Wonka é, a esse título, ambivalente: caracterizada por paragens catatónicas, ela parecerá tão desconcertantemente simpática numas ocasiões, como indefinidamente inquietante em tantas outras. A vocação para servir de veículo da justiça, aliada à sua condição de filho do personagem desempenhado por Christopher Lee (como esquecer a sua ligação aos papéis de «Drácula») fazem prever um desenlace igualmente trágico para o jovem Charlie.
Não é isso que acontece, porque o final feliz é condição quase obrigatória nas histórias destinadas a um público mais jovem. A recompensa a Charlie acaba por descansar os espectadores com ele identificados, enfim reconfortados com o equilíbrio obtido no final.
Altura em que enquadramos a produção neste tempo em que os princípios de cidadania são recorrentemente violados, muitas vezes por quem maiores responsabilidades deveria assumir na sua defesa.
Por isso mesmo este filme é tão relevante, merecendo uma divulgação muito mais extensa. Porque poderia contribuir para exigir comportamentos mais construtivos dos seus jovens espectadores. Tornando-os melhores, mais exigentes com um futuro tão problemático.
A esse respeito, «Charlie e a Fábrica de Chocolate» vale por milhentos tratados de boa educação.

sábado, outubro 15, 2005

SCHUMANN, BEETHOVEN E BACH NO SOLAR DOS ZAGALLOS

Mais um concerto do «Outono Romântico» no Solar dos Zagallos.
Desta feita o conferencista era um cego, Paulo Nazareth, que procurou polvilhar a sua palestra com alguns exemplos curiosos, mas sem conseguir o efeito pretendido. Começou por falar do caranguejo violinista, prometendo para mais adiante enquadrar a razão de ser da sua citação, e não voltou a lembrar-se dele. Quis crismar Beethoven de «Beethoffen» e foi posto na ordem pelo atento José Maria de Freitas Branco.
Mas, no demais, esteve bem, exemplificando ao piano os acordes fundamentais do romantismo na música, e como dele derivaram tantas e tão criativas variações.
A pianista, uma jovem chamada Joana Gama, de apenas vinte e dois anos, mostrou um talento ainda em maturação, mas que faz prever uma ulterior confirmação com o evoluir da sua carreira. Tanto mais que as três peças executadas - de Schumann, de Beethoven e de Bach - não lhe exigiram qualquer recurso a pauta…

quarta-feira, outubro 12, 2005

UM CONCERTO DESCONCERTADO

Tinha tudo para ser um concerto memorável. Para começar havia o discurso entusiasmado do José Maria de Freitas Branco sobre o papel de Franz Schubert no Romantismo. A lembrar a mesma convicção esclarecida do pai, quando antes e depois do 25 de Abril assumia um papel quase quixotesco de divulgação da grande música universal.
E ficámos, assim, informados sobre a curta vida do compositor, a sua contínua opção pelas tertúlias boémias, aonde apresentava muitas das seiscentas canções, que compôs em tão curto intervalo de tempo. E também sobre a sua adesão aos ideais da Revolução Francesa em contracorrente à tentativa de repor o Ancien Regime na sequência da derrota de Napoleão Bonaparte. E sobre a arte do «lied» em si: a equiparação em importância entre pianista e barítono, entre as palavras poéticas e os sons musicais, que as ilustravam.
Para complementar essa explicação o conferencista mandou entrar Manuel Pedro Nunes e Vera Prokic. Que em pequenos trechos demonstraram essas prévias explicações. Num momento mais confessional, José Maria contaria como uma das canções desse ciclo do «Canto do Cisne» havia desempenhado tão importante papel na sua história de amor pessoal. Com a ausente amada com quem cumpria neste dia vinte e nove anos de felicidade conjugal. E por isso dedicando-lhe esse tema à distância…
Mas, nessa altura, já a sala estava a ser perturbada por alguns sons inaceitáveis num concerto: crianças acabadas de desmamar para quem um concerto deste tipo se revela uma insuportável provação iam fazendo barulho com os seus super heróis e as suas barbies perante a exagerada complacência dos seus irresponsáveis progenitores Atrás de nós havia quem andasse sempre a mexer em papéis, perturbando uma audição, que mereceria ser mais atenta.
E às costumadas tosses juntou-se o inevitável toque de telemóvel numa reiterada demonstração da falta de civilidade de tais espectadores, que desmereciam, sobretudo, do apreciável esforço do cantor e da competência inatacável da pianista.
Claro que as catorze canções do ciclo em causa foram lindíssimas, mesmo que distantes da interpretação de referência de Dietrich Fischer Dieskau…
E ainda tivemos direito a mais dois encores, durante os quais aconteceu o mais inimaginável: o aparecimento de um cão pela porta lateral, que logo se dirigiu à pianista e ao cantor, antes de ser atraído pelas festas do João Maria de Freitas Branco.
O concerto ficou, pois, seriamente prejudicado por tais factores. Porquanto Schubert - e os seus intérpretes de ocasião - mereceriam uma atenção exclusiva, única forma de apreciar devidamente uma obra de génio...

quarta-feira, setembro 28, 2005

PICASSO E «GUERNICA»


É conhecida a campanha de denigrimento sistemático da memória de Pablo Picasso, seja através de um filme execrável com Anthony Hopkins, quer pelo «testemunho» de uma neta, que considerou bom negócio escrever o pior possível sobre o seu antepassado.
Picasso colhe, porventura, os custos de ter tomado posições assumidamente de esquerda enquanto foi vivo. Para além de ter rompido com os cânones da pintura do século XX, que revolucionou de uma forma irreversível.
Um dos ícones mais conhecidos do século XX é o seu «Guernica». Que ele pintou na sequência do bombardeamento dessa cidade basca durante a Guerra Civil Espanhola pelos aviões alemães, que tinham ido apoiar Franco. Quadro que ele tinha no seu atelier de Paris durante a Ocupação nazi.
Um dia seria aí visitado por um oficial alemão, que apontou para o quadro e lhe perguntou:
- Foi você quem fez isto?
E a resposta do pintor foi:
- Não! Foram vocês!

terça-feira, setembro 27, 2005

AS HABILIDADES DE ERROL FLYNN

Uma das histórias mais conhecidas de Hollywood diz respeito a Errol
Flynn: quando os estúdios proibiram o álcool na rodagem dos seus filmes,
ele passou a comer muitas laranjas. Como nelas injectara previamente
vodka o resultado era acabar o dia embriagado.

segunda-feira, setembro 26, 2005

RITA: O FURACÃO QUE FICOU AQUÉM DA DEVASTAÇÃO ESPERADA

Eugene Dobson é um habitante de Galveston, cidade texana aonde se aproximava o furacão Rita, que prometia ser tão ou mais devastador que o ainda recente Katrina.
Causticado pela queda abrupta nas sondagens, George W. Bush não arriscou e mandou evacuar as zonas costeiras do Texas, do Mississipi e do Luisiana. Para minimizar essa evidência de se preocupar mais com os iraquianos do que com o seu próprio povo.
Mas, afinal, a montanha pariu um rato: a tempestade desceu até ao nível 3 e ficou-se pelos danos materiais. Se descontarmos os vinte idosos carbonizados num autocarro durante essa evacuação…
Esperemos que esta decepção dos media perante a expectativa de um espectáculo frustrado - quão bem sucedidas em temos de audiência são as imagens das desgraças alheias!!! - não se traduza na desculpabilização do inquilino da Casa Branca, agora excessivo na forma como quis salvaguardar os seus cidadãos das sequelas de tal intempérie…
Porque nada pode apagar na biografia do actual Presidente a negligência criminosa de ter cortado o Orçamento dedicado ao reforço dos diques de Nova Orleães para lhe sobrar mais dinheiro para as suas agressões a outros povos...

domingo, setembro 25, 2005

A BARBÁRIE NUM PAÍS CIVILIZADO

Hoje a Finlândia é reconhecida como um dos países mais desenvolvidos. A sua população é educada e usufrui de um nível de vida invejável. No entanto é aí que o lobo cinzento está em extinção devido à perseguição de que é alvo pelos danos causados nos rebanhos de renas. Hoje restarão uns cem exemplares, cuja esperança de vida será limitada.
Num documentário sobre este tema nota-se um outro comportamento dos finlandeses a respeito dos seus cães-pastores. Habituados a andarem de mota de neve em vez de correrem em torno dos rebanhos de renas, eles terão ficado preguiçosos. Hoje, os donos desses rebanhos confrontam-se com as atitudes de rebeldia desses canídeos, quando os tentam desalojar do conforto desses veículos.

sábado, setembro 24, 2005

NAS CINZAS DE BAMYAN

E se se encontrasse o mítico Buda deitado nas redondezas do local aonde os talibãs destruíram as gigantescas estátuas de Bamyan? Sem conseguir resgatar o crime de lesa cultura, que esse acontecimento significou, tratar-se-ia de uma boa resposta da arqueologia ao vazio deixado por esse regime financiado pelos EUA para facilitar os seus projectos geo-estratégicos.
Porque nunca se poderá esquecer que o Afeganistão foi um país aonde a cultura teve um papel determinante.
Nos anos 60 o Museu de Cabul era uma instituição recheada de tesouros das muitas civilizações, que por ali foram passando ao longo dos séculos. E que energúmenos destruíram à machadada, porque o islamismo fundamentalista condena a representação humana.
Como destruíram todas as bobines do cinema afegão, que produzira centenas de títulos ao longo do século XX!
Depois de os terem financiado durante a guerra contra a Ocupação soviética, a Casa Branca nunca se incomodou com tais crimes. O cheiro a petróleo oriundo das grandes planícies da Ásia Central justificava uma empatia de interesses, que já provava dar tão bons resultados com o regime saudita.
Veio o 11 de Setembro e George W. Bush pôs-se a ouvir vozes. De Deus, sabe-se agora…
E em vez de o internarem num manicómio, os norte-americanos deixaram-se arrastar por ele para os verdadeiros atoleiros em que se converteram o Afeganistão e o Iraque.
Se em relação aos talibãs, todo o Ocidente civilizado suspirou de alívio esperançado numa melhoria significativa do respeito pelos direitos humanos, e mais especificamente por um maior respeito pelas mulheres, quanto ao Iraque já isso não se verificou. E foi a intervenção norte-americana, que não só destruiu inúmeros tesouros arqueológicos, doravante sujeitos a pilhagens, como criou uma base logística de apoio aos terroristas anteriormente aí inexistente.

sexta-feira, setembro 23, 2005

«GABRIELLE», UM FILME DE PATRICE CHÉREAU

Numa entrevista à TV5 o actor Pascal Greggori conta como lhe custou fazer o luto do seu personagem no mais recente filme de Patrice Chéreau. «Gabrielle» baseia-se num conto de Joseph Conrad, que possibilita um «jeu de massacre» intenso entre duas personagens: por um lado a mulher, aqui interpretada por Isabelle Huppert, que deixa um bilhete ao marido a anunciar-lhe a ruptura conjugal, mas decide regressar a casa antes do final da noite; por outro esse marido, que começamos por conhecer cheio de certezas a propósito da sua vida e vê-as todas abaladas por um bilhete inesperado.
No filme Greggori vai passar por essa intensa revolução interior, revelando-a verbalmente e através dos recursos expressivos do seu rosto. Que revelam uma assumpção quase vampírica da «alma» do personagem…
Não admira, pois, essa revelação do Greggori nesse programa televisivo. As primeiras impressões, que ressaltam dos críticos, é uma interpretação superlativa, que merece ser apreciada por quem gosta de cinema.