segunda-feira, setembro 11, 2017

(DL) Vontade não lhe faltou para lhes ir cuspir nas campas!

Andei quatro horas a acompanhar as emissões da France Culture dedicadas a Boris Vian e reconheço terem sido mais oportunidades de revisão da matéria dada do que de aquisição de novos conhecimentos sobre a sua obra.
Li-o há muitos anos, mas não enjeito a forte probabilidade de regressar a alguns dos seus títulos, quando eles me voltarem a surgir à mão na rearrumação dos livros da biblioteca cá de casa. Hoje reconheço tê-los, há muito tempo (tempo demais?) nas filas traseiras das estantes.
A experiência mais recente foi calamitosa: quando vi a adaptação cinematográfica assinada por Michel Gondry na Festa do Cinema Francês de há um par de anos, nada encontrei do que tanto apreciara na leitura. O que não admira: embora muito metafórico, o livro é demasiado relevante no tipo de linguagem utilizada para tornar-lhe exequível a tradução em fotogramas.
O que mais impressiona na curta vida do escritor foi a pressa com que quis preencher as várias existências, que para si inventou.  Se os nenúfares foram tão importantes nesse livro, tão infelizmente adaptado ao cinema, são como planta o melhor reflexo do que criou: a escrita é sedutora e calorosa à primeira abordagem, mas revela-se bem mais sombria se analisada com maior profundidade. A invenção é permanente ou não intentasse Vian fazer do pensamento uma permanente tentativa de percorrer caminhos totalmente avessos aos trilhados à sua volta. Então os lugares comuns ou as certezas inquestionadas eram-lhe demasiado tentadoras como alvo das suas provocações anarquistas.
O carácter condizia com essa bipolaridade: conseguia ser triste e brincalhão como uma criança perdida, diria um dos entrevistados nessa maratona radiofónica. E escrevia tão depressa quanto vivia: sabendo-se condenado a morrer jovem (e assim ocorreria, quando ainda só tinha 39 anos!), dormia entre duas a quatro horas por noite e preenchia todo o tempo livre a escrever, a conviver com os amigos ou a atuar como jazzman nos clubes parisienses atraídos pelo swing.
O relacionamento com os escritores da sua geração replicou essa ambivalência: houve os que foram seus amigos inquestionáveis (Prévert, que era seu vizinho), mas também exasperou os que se viam por ele troçados por se tomarem demasiado a sério. Por isso mesmo, se «L’Écume des Jours» tivera uma receção amistosa e tornara-o passível de se converter no que mais ambicionava, um autor da prestigiada Gallimard, os títulos seguintes foram criticados com violência feroz. Sobretudo, quando se tornou evidente a verdadeira identidade de Vernon Sullivan, o suposto autor norte-americano de policiais de que ele se limitaria a ser o tradutor. O enorme sucesso de vendas de «J’irai cracher sur vos tombes» seria considerado um escândalo para essa corte de literatos demasiado pomposos para acharem a mínima graça às patifarias de Vian.
Hoje, a leitura desses policiais desafiam o leitor para neles encontrar uma América mais verdadeira do que a real, por ser a criação de quem muito amou esse outro lado do Atlântico sem jamais ali ter conseguido ir. 

(S) Os dois D.J. de «Raving Iran» já na condição de exilados no Ocidente

domingo, setembro 10, 2017

(DIM) «Raving Iran» ou há sempre alguém que diz não!

A única vez em que estive no Irão, ainda o xá se iludia com a submissão do povo, acautelada pela CIA, e Khomeini esperava pelo seu momento no exílio em França. Já então a experiência de ali sequer ir ver um filme ao cinema - na época foi uma coisa de série B com um Peter Fonda irreconhecível em relação ao então bem amado «Easy Rider» - implicava significativas dificuldades com as autoridades a mostrarem uma arrogância prepotente, que o atual regime dos ayattollahs só terá agravado.
O interesse do filme de Susanne Meures sobre a cena techno em Teerão e a organização de animadas raves no deserto tinha a ver com a confirmação do que fomos conhecendo através do filmes de Jafar Panahi ou  Abbas Kiarostami: que até mesmo nas maiores expressões de intolerância e de opressão continuam a não faltar corajosos capazes de dizerem não.
O projeto de «Raving Iran» iniciou-se na cabeça da realizadora suíça, que pretendia satisfazer uma curiosidade idêntica á minha e tinha meios para a apurar: entre abril e setembro de 2013 voou por cinco vezes entre o seu país natal e Teerão para aí entrar em contacto com os protagonistas da clandestinidade musical. Foi assim que chegou a Anoosh e Arash, que tinham criado um grupo musical, os Blade & Beard, com os quais organizavam concertos não autorizados nas barbas dos mollahs.
Recorrendo, amiúde, às câmaras de telemóveis a realizadora conseguiu criar uma ficção dentro do documentário, porquanto os dois foram-se misturando intrinsecamente à medida que o projeto evoluía.
O grande momento do filme acontece quando os dois rapazes são convidados por um Festival de Zurique para apresentarem o seu trabalho e aproveitam para conseguir exilar-se, mesmo que o reconhecimento de tal condição só se tenha verificado dois anos depois, em 2015.
O que mais se explicita no documentário é o paradoxo de uma oposição entre o faz de conta repressivo do regime e a vida paralela, que o contesta nos mais pequenos gestos. Nas interações que os dois rapazes vão tendo com autoridades e pequenos comerciantes - muitos deles com as expressões convenientemente protegidas pelo seu desfoque de forma a evitar-se-lhes aborrecimentos com a polícia secreta - comprova-se o amplo desagrado com as imposições ditatoriais dos autocratas, mesmo se elas vão sendo incontornáveis. Ou não … porque há sempre alguém a sugerir a forma expedita de contornar a lei. E tenha-se em conta que o filme foi rodado já com Rohani no poder. Imagine-se como era no consulado do bem mais fanático Mahmoud Ahmadinejad!
Pelos exemplos que se vão sucedendo - e por estes dias está em foco a crise com os rohingyas do Myanmar! - sempre que se permite a intromissão das religiões na política o resultado é calamitoso.


sábado, setembro 09, 2017

(S) A Cantata BWV6 de Bach: «Fica connosco, a noite cai» de J.S. Bach

(DIM) Entre os dois lados em luta na Ucrânia e a luta antijiadista em Espanha

Duas reportagens no canal Arte revelaram aspetos elucidativos do que se passa na Ucrânia e na Espanha.
No primeiro daqueles países a independência ocorreu em agosto de 1991 mas, atualmente, quer a Crimeia, quer o Donbass escaparam ao seu controlo, decorrendo uma guerra de baixa intensidade, condicionada pelos Acordos de Minsk, que proibiram a aviação e as armas pesadas, mas não impedem que haja tiros dos dois lados diariamente ao longo dos 800 kms de linha da frente que separam ucranófonos e russófonos.
A música tornou-se numa arma e é esse aspeto particular que os repórteres seguiram: quer na Armya FM, estação radiofónica destinada aos militares até às tournées dos artistas da Associação «Help Army», tudo é feito para entreter quem faz a guerra, se possível com cantos patrióticos do mais surpreendente kitsch. No espetáculo organizado para um batalhão, inteiramente constituído por um partido da extrema-direita, os cantores interpretam, ora temas sobre a família capazes de fazerem chorar as pedrinhas da calçada até galvanizarem os combatentes com insultos a Putin.
No outro lado das trincheiras, os repórteres entrevistam Oleg, um militar veterano, que chegou a fazer as campanhas do Afeganistão, e que nunca se afasta muito da sua guitarra. Com ela compõe hinos patrióticos, mas também canções de um lirismo, que condiz com a sua vontade de regressar à pacatez dos seus dias de desmobilizado.
Há também a velha Lydia Kachalova, outrora soprano prestigiada, que chegara até a trabalhar com Chostakovich, e hoje encarregada de manter bem oleada a Ópera de Donetsk. Aos domingos há récitas com óperas ou operetas em que os militares têm bilhetes grátis.
E, ainda, do lado independentista, há o rap como linguagem contestatária, neste caso do tipo de combate empreendido pelos apaniguados dos políticos de Kiev.
De um e do outro lado a cantiga é uma arma e quem as canta está disso bem ciente…
A outra reportagem tem a ver com a luta antiterrorista em Espanha, reconhecidamente um dos países por onde transitam mais facilmente os jiadistas a partir de Marrocos. A reportagem segue uma família onde os dois filhos gémeos foram presos aos 16 anos quando, em Marrocos, estavam prestes a partir para a Síria, logo seguindo-se a respetiva mãe a ser igualmente enclausurada sob a acusação de ser uma recrutadora de terroristas. Algo que ela recusa, alegando ter-se deslocado a Marrocos para dissuadir os filhos de empreenderem essa viagem e trazê-los de volta para casa.
O que está em causa em Espanha não é só o combate ao terrorismo, com uma mescla de medidas de integração com outras de repressão, mas também a aberrante possibilidade de alguém poder vir a ser acusado de terrorismo apenas com base numa denúncia, mesmo que infundamentada. 

quinta-feira, setembro 07, 2017

(DL) Provavelmente um dos grandes romances do ano

Romance de fôlego o de Arundathi Roy, que muitos já dão como candidato aos mais prestigiados prémios literários dos próximos meses, justificando-se o hiato de publicação desde que, há vinte anos, a autora indiana tivera um enorme sucesso com «O Deus das Pequenas Coisas».
Neste «O Mistério da Felicidade Suprema» não está presente a Índia glamourosa dos marajás nem o seu lado mais moderno e cosmopolita propagandeado pelas suas ambiciosas autoridades políticas. Mergulhamos sim na confusão babélica de Nova Deli, tomando uma hijra, Anjum, como guia e mostrando como vem sendo constante a vontade de aniquilamento da minoria muçulmana pelos fundamentalistas hindus, entretanto guindados ao poder absoluto.
Há crimes horrendos como o são sempre os perpetrados pelas turbas ululantes quando convenientemente estimuladas por sinistros líderes, que lhes apontam a dedo as frágeis vítimas colhidas a horas erradas nos mais errados lugares. Mas há também a solidariedade entre os desvalidos, capazes de, na sua miséria, estenderem a mão aos que ainda se mostram mais miseráveis do que eles.
Nas primeiras cento e cinquenta páginas estranhei ambientes e mentalidades tão diferentes das nossas. Mas começo-as a entranhar de tal maneira, que vou ter dificuldade em parar a leitura até ao fim. 

(S) O Intermezzo da Cavalleria Rusticana de Mascagni

quarta-feira, setembro 06, 2017

(DIM) Heróis de um tempo que já não volta atrás

Nunca fui um grande entusiasta da Assírio & Alvim. A poesia nunca foi propriamente a minha praça e a edição de obras de autores reconhecidamente conotados com ideias fascizantes, ou no mínimo, bastante conservadoras, sempre me suscitou algum desconforto quando se colocava a questão de percorrer um dos seus espaços de vendas ou pavilhões na feira do livro. Ainda assim disponibilizei-me para ver a hagiografia de Manuel Hermínio Monteiro sob a forma de filme realizado por André Godinho em 2009. Veem-se testemunhos de quem o conheceu e fotografias ou extratos de arquivos em que ele estava no seu habitat natural, quer se tratasse do ambiente popular dos convívios em Trás-os-Montes, quer nas noites de boémia urbana.
Fica a ideia de um bon vivant, que preferiu divulgar as palavras alheias do que trabalhar prioritariamente nas suas, mas também um perfil de editor como já nunca mais será possível existir. Porque a produção de livros cumpriu a regra capitalista de ser centralizada em grandes empresas apenas interessadas nos lucros gerados pela atividade do que pela qualidade a ela associável. Podemos apoiar os pequenos editores, que se esforçam por nos proporcionar obras  a contrario do que são as modas, mas eles nunca conseguem sair do sufoco em que permanentemente vivem.
Editar livros sem ter como prioridade o retorno do investimento deixou de ser possível. E também já não existem excêntricos da estirpe de um Cesariny ou de um Al Berto, que foram os derradeiros bardos de uma época definitivamente encerrada.
O universo que Manuel Hermínio Monteiro criou morreu  quase ao mesmo tempo, que o seu projeto testamentário («A Rosa do Mundo»). A realidade deste milénio pouco se compadece com inspirações poéticas. Tudo se tornou impreterivelmente prosaico...

(S) Les sauvages, de Jean Philippe Rameau, interpretado por Grigory Sokolov

terça-feira, setembro 05, 2017

A ética da responsabilidade coletiva

Iniciei a «História Natural da Destruição» de Sebald e fui ao encontro de um dos temas que me têm interessado mais sobre a II Guerra Mundial, porque menos abordados naquilo que sobre ela vejo, leio ou ouço: como era a vida dos alemães sob a chuva de bombas, que sobre eles se abateu a partir de 1943.
Três anos antes, ciente do seu quase total isolamento face a um inimigo, que ia expandindo a sua influência por toda a Europa Continental, Churchill chegou à conclusão de ter como única solução a mais urgente construção de aeródromos, de aviões e de fábricas de produção de armamento, que lhe viesse a possibilitar o que designou como moral bombing do território do inimigo. Depois, quando todo essa máquina de guerra estava a carburar em pleno, não havia como a parar. Daí que alguns dos bombardeamentos do final da guerra tenham sido considerados sem justificação, porque dirigidos contra quem já estava acossado, pronto para reconhecer a rendição.
Essa sujeição da população civil alemã a tão duro castigo não encontrou, porém, nos escritores que a ele sobreviveram um testemunho, que nos permitisse conhecer o que sentiram, temeram, sequer pensaram, os que viram as suas casas reduzidas a escombros, perderam familiares e amigos ou vivenciaram a fome, o frio, a sede, o cheiro nauseabundo dos cadáveres e outras variantes de sofrimento. É essa a constatação feita por Sebald, que sobre o assunto apresentou uma conferência na Suíça em que referenciava os escassos testemunhos literários capazes de servirem de exceção a essa regra.
Tudo se passara como se os sobreviventes quisessem orientar a atenção para o futuro, virando costas a um passado, que só queriam esquecer. Havia na época um problema identitário para resolver e a que os escritores de então se dedicaram: que indivíduos eram lá bem no fundo de si próprios?
O problema residia tão-só nisto: a maioria dos alemães tinha participado ativa ou passivamente nos crimes nazis. Daí que o seu sofrimento fosse desprezado em comparação com o dos judeus, soviéticos e todos quantos haviam sido internados e mortos nos campos de extermínio. Provavelmente a dimensão do seu sofrimento, nessa segunda metade da guerra, nada ficara a dever aos de outros povos que, ocupados pelos nazis lhes sofreram tantas humilhações quantas as depois padecidas quando os libertadores os acusaram, implícita ou explicitamente, de não terem criado  os seus próprios exércitos de partisans.
O dilema ético que se me coloca é este: deveremos condenar todos os crimes contra civis, equiparando-os a todos, independentemente de terem sido cometidos por nazis ou exércitos aliados, ou justifica-se a diferenciação entre os que, mediante eleições levaram Hitler ao poder, e os que lhes sofreram as agressões expansionistas?
Até ao ponto a que cheguei - um pouco depois de meio do livro - Sebald não coloca essa pergunta, que me é essencial. Porque as vítimas de Dresden ou de Colónia, merecerão tanto apreço quanto as que se esfumaram pelas chaminés de Auschwitz? A responsabilização coletiva dos povos pelos crimes dos seus dirigentes continua a ser matéria, que merece alguma aceitação. Por muito que reconheça terem existido por certo muitos antinazis convictos que, na Alemanha, sofreram as consequências de um regime que, logo de início, não terão deixado de odiar.  

(S) O Dies Irae do Requiem de Berlioz

(DIM) Uma Marienbad bem menos inspirada do que a revelada por Resnais

No cinema a cidade de Marienbad está inevitavelmente ligada à paixão avassaladora de Giorgio Albertazzi pela misteriosa Delphine Seyrig no filme, que Alain Resnais rodou em 1961 e onde espaços, pessoas, jardins pareciam congelados num momento temporal sem fim. A memória é-me tão grata quanto relacionada com uma experiência, que nunca mais esqueci: quando vi esse filme pela primeira vez no início dos anos setenta - foi no desaparecido Cinema Copacabana da Costa da Caparica! - a sala estava inicialmente cheia de veraneantes e, passada a pouco mais de uma hora, que dura o filme, só restavam meia dúzia de heroicos resistentes.
Agora, a proposta de um filme produzido pela televisão checa, e intitulado «Verão Quente em Marienbad», prometia uma história palpitante: no primeiro quartel do século XIX, quando, com 72 anos, o celebrado poeta Goethe aí foi passar umas semanas de puro lazer, apaixonou-se por Ulrike, uma rapariga de 19 anos, que dele se tomou por assolapada paixão.
Milan Cieslar, o realizador, aproveitou para vestir o filme com alguns dos mais conhecidos estereótipos do romantismo, mormente a identificação entre os estados de alma da protagonista e as manifestações tempestuosas da natureza. E explorou o lado feminino da vingança das mulheres repudiadas, dispostas a recorrerem aos mais baixos truques para concretizarem a compensação do seu despeito. Mesmo servindo-se, e fazendo sofrer, quem mais deveriam amar.
O escândalo agita a pequena cidade e o poeta vê-se obrigado a partir para que o prestígio não seja beliscado. A pobre da rapariga abandonada continuará a amar perdidamente o trânsfuga, mesmo muitos anos depois dele ter desaparecido e o século XX quase lhe bater à porta.


segunda-feira, setembro 04, 2017

(DIM) Não haver crime significa utopia ou distopia?

No regresso às sessões da quinta-feira à noite no Cineclube Impala teremos como proposta «Relatório Minoritário», uma obra de 2002 com que Steven Spielberg quis consolidar a ideia de não ser realizador apenas de filmes para adolescentes e mostrar-se capaz de dirigir-se a um público mais adulto, que não será indiferente a esta questão: uma sociedade sem crime será uma utopia ou uma distopia?
Somos assim convidados a mudarmo-nos para Washington, em 2054, quando aí decorre uma experiência-piloto há seis anos, que permite identificar com antecedência quem está prestes a ser assassinado e por quem. O sistema apenas não responde a uma questão fundamental: aonde ocorrerá tal crime. Por isso, e mediante as imagens recolhidas pelos três seres mutantes, que estão mergulhados continuamente numa piscina do edifício, os agentes da PreCrime têm de identificar o local e a ele acorrerem antes que aconteça o previsto.
O chefe dessa unidade é John Anderton, interpretado por Tom Cruise. A pouco e pouco vamos identificar uma das razões essenciais para que ele sinta motivação no que faz no dia-a-dia: o filho desaparecera-lhe seis anos atrás, mais ou menos por altura do início desta experiência, e se ele já dispusesse dos seus meios, teria evitado o desenlace, que tanto o fazia sofrer a posteriori.
A confiança no sistema ficará, porém, abalada, quando identifica o caso de um dos primeiros homicídios evitados, o de uma tal Anne Lively, que se enquadrou naquilo que uma das inventoras designa como Relatório Minoritário: casos em que os crimes não decorreram da precognição dos três seres mutantes, porquanto só um ou dois deles os haviam visualizado.
Ao confiar ao seu superior hierárquico essa singular disparidade em pelo menos treze casos, desconhece o que lhe irá acontecer logo a seguir: ele próprio vê-se acusado da autoria de um homicídio na pessoa de um tal Leo Crow daí a trinta e seis horas.
Não vendo razão para cometer tal crime foge julgando-se alvo de uma cilada por parte de um funcionário do Ministério da Defesa, que parece demasiado interessado em tomar-lhe o lugar. Na sua perspetiva alguém fizera-o protagonista de um desses Relatórios Minoritários. De perseguidor passa a perseguido, dando o ensejo para aquilo que muitos apreciam - as cenas de ação! - mas que são das que mais me enfadam. Pelo meio ele obriga-se a uma operação de emergência junto de um cirurgião clandestino: é que vive-se numa sociedade em que todos os cidadãos estão facilmente localizáveis pelas retinas, pois é através da sua gestão à distância, que se lhes impõe a omnipresente publicidade.
É no recobro que Anderton evoca em nosso benefício de espectadores apostados em perceber-lhe a psicologia, a forma como o filho desaparecera junto de si, quando ele mergulhara numa piscina em apneia, enquanto ele contava o tempo. Temos, pois, um filme em que as piscinas tanto surgem como espaços de revelação como de sonegação. E não tardará que o polícia compreenda que, sem o ter suspeitado, existem nele pulsões homicidas, que não enjeitará satisfazer. 

(S) Le Déserteur na versão de Mouloudji

(DL) Boris, o do coração fraco

Já surgiu há dez anos a biografia de referência, que Claire Julliard escreveu sobre Boris Vian, um homem plural que, em apenas trinta e nove anos, viveu várias vidas e procurou conciliar a propensão para a fantasia e a excentricidade com a cinzentude carregada, que via estender-se à sua volta. Ele considerava o mundo absurdo e povoado de idiotas. Como eram exemplo lapidar esses miúdos e miúdas de 17 anos, promovidos em parangonas pela imprensa, e que se punham a redigir as suas Memórias. Atónito Vian perguntava-se: nessa idade o que tinham eles já vivido para que tivessem algo de interessante a contar?
Ele, pelo contrário, esforçava-se por ter o que efetivamente revelar, vivendo intensamente a boémia das noites parisienses do pós-guerra e trabalhando intensamente os textos tão-só chegava a casa. O facto de dormir pouco era um dos comportamentos, que os médicos lhe desaconselhavam, cientes da fragilidade do seu estado físico. Os outros eram o de tocar trompete ou passar horas nos ambientes cheios de fumo dos bares, que frequentava.
Os seus textos, embora próximos dos surrealistas não lhes seguiam os cânones. Mas eram completamente diferentes dos produzidos pelos realistas do século XIX, que lera atentamente, sem deixar que o influenciassem. A perspetiva era a de ser incompreensível, que os leitores andassem ocupados com histórias todas iguais umas às outras, incapazes de lhes transmitirem qualquer novidade. Daí apostar em algo completamente diferente.
Essa busca pela originalidade, colhera-a do pai, filho de uma família abastada, que nunca deixou de ser uma criança grande ostensivamente apostado em não amadurecer. Casara por isso com uma mulher mais velha, que lhe dera vários filhos e tentara dar à família alguma aparência de normalidade. Mas, portas adentro, Boris sentiu-se viver numa espécie de paraíso terrestre, que excluía qualquer interesse pelo que o rodeava no exterior. O pior foram os efeitos da crise de 1929, que obrigou a família a mudar-se para a casa do jardineiro na propriedade a fim de alugar a residência principal e passar a viver dos rendimentos por ela proporcionados.
Na escola o futuro escritor brilhará como aluno exemplar, embora viesse a reconhecer que vestira uma personalidade à medida das expetativas dos professores e dos condiscípulos, sem correspondência com o que sentia verdadeiramente dentro de si. Quando, aos dezanove anos, vê declarada a 2ª Guerra Mundial considera-a um escândalo: como seria possível algo de tão terrível, cuja razão seria a de matar seres humanos? A canção do Desertor terá começado a ganhar expressão por esses anos.
Depois, quando a guerra acaba, toma-se de amores pelo jazz e se a Gallimard lhe rejeita os livros, ele ganha a vida como cantor e compositor de canções de sucesso na rive gauche.
Embora rejeite totalmente a filosofia existencialista, torna-se amigo de Sartre, que o convida para assinar uma coluna regular na revista «Les Temps Modernes». O problema foi a infidelidade da companheira de Boris com o celebrado pensador e lá se foi a grande amizade pelo cano abaixo. Mas Úrsula, aquela que o acompanharia até à morte precoce, viria acalmar-lhe as frustrações amorosas.
Só que o coração era mesmo fraco: em 1959, enquanto via uma projeção privada da péssima adaptação do seu «J’ Irai Cracher sur vos Tombes» um ataque fulminante prostrou-o na plateia. Desaparecia cedo demais um dos nomes maiores da cultura francesa do pós-guerra.

domingo, setembro 03, 2017

(S) A Suite Siciliana de Fauré para «Pelleas et Melisandre»

(DL) Quando a Língua Portuguesa assume merecido protagonismo

Há quem afiance que todas as estórias já estão contadas sendo praticamente impossível ao mais imaginativo dos escritores encontrar uma ideia original para servir de suporte ao seu imaginário. Estamos forçados a repetir-nos, a copiar-nos, a plagiarmo-nos, mesmo sem o sabermos. E, no entanto, de vez em quando surgem-nos diante dos olhos algumas propostas, que pensamos no quanto estão bem concebidas, diferenciando-se de tudo quanto até ali conhecêramos.
Um desses casos mais recentes é «A Língua de Fora», o livro que o brasileiro Juva Batella publicou em Portugal no passado mês de junho e sujeito a uma escassa divulgação junto dos seus potenciais leitores.
Em primeiro lugar quem mais ganharia com o seu conhecimento seriam os alunos do Ensino Secundário a contas com as atávicas dificuldades na Língua Portuguesa. Mas, para além desse grupo etário, qualquer adulto encontra mais do que motivos de interesse para ler rapidamente o livro, que começa com a linda Língua Portuguesa encerrada numa torre à espera de um noivo mítico, o Idioma. Quem a tenta assediar e conquistar é o Tom Coloquial, jovem revolucionário apostado em sabotar a ditadura do Verbo.
Graças a muito humor e a citações habilmente doseadas, temos um romance movimentado com a Língua Portuguesa como personagem principal e muitas outras, retiradas da Gramática a fazerem figura de secundários ou figurantes.
Juva Batella, que viveu em Portugal durante uns anos e é hoje um dos criativos da Tv Globo é autor de uma das mais surpreendentes propostas literárias do ano!

sábado, setembro 02, 2017

(DIM) Regressar ao turbilhão da vida

Passados mais de quarenta anos desde que vi «Jules et Jim» pela primeira vez o prazer da sua redescoberta mantém-se intacto, não tanto pela história que já conhecia, mas pelo que é possível concluir de novo e me passara despercebido em pretéritas ocasiões. Por exemplo a homossexualidade latente entre os dois homens, vivida através do corpo da mulher por ambos amada. Segundo o texto de João Bénard da Costa, que agora acompanhou a sua reapresentação na Cinemateca, esse aspeto até estava mais clarificado no romance de Henri-Pierre Roché, no qual Truffaut se baseara tendo o realizador tornado-o menos evidente. Mas, visto agora por esse «filtro», a evidência está lá sem grande espaço para dúvidas.
Há também a questão do tempo, que surge explicitado através da ampulheta utilizada por Jules para substituir o relógio e assinala a impossibilidade de conservar os momentos mais gratificantes da vida, aqueles que desejaríamos conservar para sempre e deles nunca nos ausentarmos. Ora essa vertente prende-se com a nostalgia do passado mítico em que ir ao cinema tinha uma outra solenidade, que a evolução extinguiu e em que, nós próprios, possuíamos expetativas de futuros radiosos sempre adiados e agora sentidos como já inacessíveis.
Mas o filme seduz pelo que nele permanece imutável: a interpretação encantatória de Jeanne Moreau, a bela canção «Le Tourbillon de la Vie», que ela interpreta e a inspirada banda sonora de Georges Delerue.
«Jules et Jim» desmente aquela tese de não ser aconselhável o regresso ao que, em tempos, nos fez tão felizes. Há filmes, que têm essa virtude e justificam a ideia de ser hoje bem mais fácil satisfazer o prazer da cinefilia na sala da Barata Salgueiro do que em qualquer outra existente num centro comercial. Ou num ecrã da nossa casa, por muito que crismado de «home cinema». Porque obras assim têm de ser revividas em ambientes tão próximos quanto possível daqueles onde se desvendaram para a nossa capacidade de maravilhamento.


sexta-feira, setembro 01, 2017

(S) O Noturno, opus 19, nº4 de Tchaikovsky com Vytautas Sondeckis no violoncelo

(DIM) As religiões como fomentadoras das desigualdades

O modelo é universal e mantém-se atual desde os alvores da Humanidade: para além de todas as crueldades, de que se fizeram portadoras, todas as religiões foram criadas para garantir a divisão social entre quem explora e quem é explorado.  Isso mesmo se conclui da apreciação do filme «Chavin de Huantar: o teatro do Mais Além», que o documentarista espanhol José Manuel Novoa rodou no Peru e tendo por objeto a civilização aí criada há 3200 anos nas encostas dos Andes.
Ao mesmo tempo que a civilização egípcia conhecia o ímpeto unificador de Menés, surgiam na América do Sul os primeiros santuários liderados por sacerdotes apostados em imporem um regime teocrático aos que conseguiam atrair para os seus cultos. O maior interesse do filme reside em ilustrar a encenação criada em Chavin para credibilizar a capacidade do diálogo de quem geria o espaço com os deuses. A construção fora criada de forma a envolver os peregrinos, que vinham de longe para prestarem tributo às divindades ali “presentes”, como o indiciavam os sons vindos das profundezas da terra, os odores e os efeitos de luz. O maior contributo para a rendição dos crédulos ao culto proviria, porém, dos catos alucinogénios, que eram instados a ingerir desde que ali chegavam. Desde o primeiro momento os habilidosos sacerdotes cuidavam de alterar as perceções dos visitantes, doravante convencidos a prodigalizarem-lhes tributos cada vez mais elevados para se manterem nas boas graças de quem tudo vigiava e definia.
John Rick e Luis Lumbreras, dois dos arqueólogos envolvidos no resgate do passado, depreenderam que tipo de cerimónias iniciáticas eram ali cumpridas, nomeadamente as que envolviam os sacrifícios humanos. Provas de canibalismo, ali encontradas, parecem ser irrefutáveis, mas não espantam por se tratar de uma das práticas mais transversais a nível geográfico depois da sedentarização ter criado a agricultura.
Embora possam ter existido outros santuários semelhantes por essa mesma altura, o de Chavin de Huantar pode representar aquele onde o principio da desigualdade e do desequilíbrio social se afirmaram no subcontinente americano.: durante oito séculos, sem terem de recorrer a qualquer exército, a casta de sacerdotes mantiveram-se no topo da pirâmide social. O que parece ainda inexplicável é a decadência, que o tornou obsoleto face a outros cultos, entretanto afirmados com revigorada expressão na sua área de influência.