domingo, julho 15, 2007

O QUARTO RAMO DAS FORÇAS ARMADAS

Há o Exército, a Marinha e a Força Aérea. Em breve poderá surgir um novo ramo das Forças Armadas: o que refere à Ciberguerra.
Um especialista no assunto, Philip Ball, escreveu na «Nature»: «Os computadores e redes fazem parte de tal forma parte da maioria dos sistemas políticos e económicos que os efeitos potenciais de um ataque virtual são muito maiores. E estes não seriam ataques sem vítimas. Desconectar redes de saúde, comunicações ou de transportes pode facilmente ter consequências fatais. A ciberguerra pode matar sem um único tiro ser disparado».
Diz o suplemento «Digital» do «Público»: «Já há doutrinas militares que defendem que, em vez de bombardear centrais eléctricas, antenas parabólicas ou centrais telefónicas, é preferível invadir as redes desses serviços vitais e manipulá-los por forma a instalar o caos num país».
No limite pode imaginar-se que os Pattons do futuro são, nesta altura, miúdos especializados em jogos de computadores. Sobretudo daqueles que já empolam os valores militares numa lógica de vencer ou perder em detrimento da diplomática vertente da negociação.

Teatro Meridional: «À manhã» de José Luis Peixoto

José Luís Peixoto vem-se confirmando como um dos principais dramaturgos da cena teatral portuguesa do séc. XXI.
Contrariando uma característica muito comum noutros autores, o autor de «Cemitério de Pianos» não tenta amalgamar um conjunto muito diverso de temas num mesmo texto, antes aprofundando um só a que confere uma sólida consistência.
Quando os últimos espectadores se instalam e a luz se cinge ao espaço cénico, damos com uma velha louca, Olga, que fugiu de casa e anda à procura de «bocanços« por parte do seu amado. Que julga identificar no Estragão, que anda a semear favas na horta.
Pegando nela para a entregar ao marido, que Olga confunde com o austero pai, Estragão passa em frente à casa de Macha, acabada de chegar da Inglaterra, aonde estivera com a filha Lucrécia. Um sítio aonde ela descobriu que se fala pouco de sexo, mas se pratica mais, impressionando com isso a vizinha Irininha, que além de calhandreira, finge de grande puritana por jamais ter conhecido homem.
Falta então Vladimir, o marido de Olga, muito descoroçoado com a sua irreversível desorientação e, também ele, ávido de bocanços com as demais velhas da aldeia.
A peça torna-se, amiúde, uma comédia com os desencontros dos afectos, mas o tema principal é o da solidão dos velhos nas terras desertificadas do interior e a sua ânsia de uma afectividade, que receiam conduzir até à consumação.
Depois há, também, um riquíssimo vocabulário popular, que o dramaturgo investigou e recriou dando soberba oportunidade aos actores para nos surpreenderem com um desempenho irrepreensível.
Na hora e dez, que dura, deparamos com estereótipos bem alicerçados numa realidade específica, que Peixoto conhece muito bem...

quinta-feira, julho 12, 2007

«ANATHEMA», tgSTAN na CULTURGEST

Há neste projecto dos tgSTAN a memória do atentado terrorista ao Teatro Dubrovka, em Moscovo, quando um comando tchecheno tomou dezenas de reféns para reivindicar a alteração da política russa na sua república e tudo acabou numa carnificina.
Mas para contrabalançar o peso dessa temática, a peça começa enganadoramente a falar de amor, mais precisamente do que liga Romeu à sua desinteressada Julieta. Ora é do desamor, e mais especificamente do ódio, que surge essa vontade de acabar com o tempo das palavras simples e das certezas confortáveis e partir para o desconhecido. Este assume a vertente da escolha aleatória de qualquer vítima, incidindo nela a mesma demonstração do fim dos ilusórios equilíbrios estilhaçados. Mesmo que, desde cedo, fique demonstrada à saciedade a inocuidade desses gestos desesperados…
Interpelado, o público mal reage, apesar de supostamente constituir o colectivo ameaçado pelos dois terroristas. Será necessária a explosão de uma maçã-granada para crescer o alvoroço na plateia. A interligação actores/público fica-se por aí, talvez porque haja a barreira da língua e qualquer desvio ao guião poder prejudicar a fluidez da legendagem…
O outro momento de alvoroço, mas demonstrativo de como as palavras podem ser poderosas na transmissão de uma superlativa crueldade, é a cena em que Tiago Rodrigues conta, em português, como o jovem soldado decidira matar, de forma gratuita, a velha miserável, sua vizinha do andar de cima. Não me recordava de uma tão convincente descrição de acto cruel desde a leitura, há muitos anos atrás, da morte de um gato às mãos de uns miúdos irreverentes no romance de Mishima «O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar».
Uma abordagem ainda à utilização dos suportes multimédia para fundamentar o texto. A interligação dos actores com a tela onde se projectam imagens, quer de Verona, quer da sala aonde o espectáculo decorre, mostra bem como os caminhos evolutivos do teatro passarão, inevitavelmente, pelo diálogo da sua forma com a de outros veículos da mensagem artística...

A arte portuguesa na Gulbenkian

Ao segundo e ao terceiro dia o curso sobre Arte Portuguesa dos últimos 50 anos ganhou maior interesse muito graças à formadora de seu nome Carla Mendes. Apesar de ainda relativamente jovem, ela demonstra uma erudição e uma capacidade para tornar transversal a sua análise sobre o objecto da sua dissertação, que nós, enquanto formandos, ficámos rendidos.
Algumas linhas de força interessantes desta aula foram:
1. A frequente estultice dos críticos de arte, que inventam, amiúde, as mais estrambólicas explicações para objectos artísticos, que valem tão só pela sua forma ou pela sua cor;
2. A importância de Azeredo Perdigão enquanto motor da divulgação e do desenvolvimento da arte contemporânea em Portugal;
3. O conselho de Amadeo de Sousa Cardoso aos seus jovens pares: que saíssem o mais rapidamente do pais, enquanto era tempo;
4. A extraordinária juventude de Almada Negreiros com as quatro imagens abstractas de 1969, que estão na primeira sala do piso –1.
5. A consideração da arte contemporânea como aquela que privilegia a sensação pura em detrimento da ideologia ou da racionalidade;
6. A relativa pobreza da arte portuguesa na década de 70, não havendo correspondência entre a liberdade conquistada e a sua tradução em suportes artísticos.
7. A tendência em alguns artistas - António Areal, Paula Rego - para regressarem ao figurativo, depois de um período claramente abstraccionista.
8. O desaparecimento de alguns criadores com obras muito interessantes na sua fase de bolseiros - Armando Azevedo, Paulo Morais, Emílio Jordão - e cujo talento ficou por potenciar, desconhecendo-se, nalguns casos, o que lhes terá sucedido depois a nível biográfico.
9. O papel que a fotografia teve na libertação da pintura, ao dispensá-la da reprodução «fiel» de uma qualquer realidade, possibilitando-lhe a exploração de outras vias de ilustração de um estado de alma ou de uma afirmação do seu tempo.
10. A permanente intenção de muitos criadores em rejeitarem quaisquer escolas, doutrinas ou ideologias buscando um estilo original em ruptura com academismos ou preconceitos.

terça-feira, julho 10, 2007

BAPTISTA BASTOS: «AS BICICLETAS DE SETEMBRO»

Foi ao ler o registo biográfico sobre o autor, já acabada a leitura do seu romance, que descobri algo de curioso: na década de 60, quando trabalhava semiclandestinamente na RTP, o seu pseudónimo era Manuel Trindade.
Curiosa singularidade essa, a de ele ter escolhido um pseudónimo, que coincide com os meus dois nomes do meio. Que torna redundante uma empatia, que há muito se vem estabelecendo entre mim enquanto leitor e Baptista Bastos enquanto escritor.
Há muito que nele admiro a sapiência na utilização de uma língua, que ele aprendeu a amar nas prosas dos grandes jornalistas conhecidos nas redacções do «Século» ou do «Diário Popular» ou nos escritores superlativos com que chegou a privar: um mestre Aquilino, um José Rodrigues Miguéis, um José Gomes Ferreira, entre tantos outros.
O seu romance mais recente, «As Bicicletas de Setembro» é justificado pelo narrador a páginas tantas:
«Estas coisas não devem ser extintas da memória. Sei que outro daquele tempo escreverá um dia, acaso já escreveu, estes e novos episódios, adicionando-lhes pormenores que perdi, acontecimentos por mim não vividos nem sequer observados. Sei. O que me instigou ao registo avulso do que a memória permite é o medo da velhice, a tentativa de fixar aqueles instantes supremos, no interior dos quais julguei ser feliz. Já há muito que desisti de procurar o misterioso significado do mundo. Não faz sentido tentar descobrir porque é que as coisas acontecem desta maneira e não daquela. A felicidade nunca tocou no batente das minhas expectativas.» (pág.76)
A felicidade também não terá sorrido a Jesuína, a mulher que aparecera no seu bairro de miúdo, e ali encontrara refúgio de amargores de outros lugares.
Fechada em casa, ela alimenta uma tertúlia onde as vizinhas vêm trocas as suas bisbilhotices e falar dos seus desconsolos a respeito dos respectivos conjugues.
As conversas derivam para os temas mais íntimos e acabam por conferir ao ambiente dessas tardes uma certa lascívia.
Jesuína acaba por se responsabilizar, igualmente, por uns quantos rapazes e raparigas a ela confiados pelos seus ocupados progenitores. E transmite-lhes muitos dos saberes necessários para enfrentarem uma vida assaz complexa.
Mas Jesuína alimenta igualmente alguns mistérios irresolúveis: porque se recusa a sair à rua, só arriscando esse esforço já muitos anos depois, quando o seu prestígio no bairro dera lugar a um ostracismo eivado de maledicência? Quem seria o homem de negro tão rapidamente ali aparecido para a espreitar como logo desaparecido no nenhures donde viera? E que significado teriam os seus equívocos gestos para alguns dos miúdos, aos quais se associaria a sua perversa libidinosidade, que a tornariam odiada pelas antigas participantes das suas tertúlias?
«Aprendera que a noite pode ser devastadora. Reprimira o desejo, incandescente quando nova, e a tal ponto que suprimira das lembranças a violência dos desconcertos antigos. Emergiam, porém, num bulício de metáforas, sombras remotíssimas de amores passageiros: troncos nus, mãos, dedos, sexos que penetravam na sua vagina quente, húmida, maternal, acolhedora.»
A sua personalidade é controversa e sujeita-se à malvadez com que os desvalidos tratam os seus iguais, quando lhes apanham as fragilidades. Por isso acabará mais solitária do que nunca.
Para o escritor, a muitos anos de distância, justifica-se a homenagem: até porque, na sua imaturidade, também ele contribuíra com o seu relato nas tabernas a exagerar o que não haviam passado de indícios de pedofilia.
«Nunca quis muitas coisas. O que forma a minha e a tua vida foi a atracção mútua, embora nada nos aproximasse. Nem em dúvidas nem em certezas éramos semelhantes. Acreditavas em Deus, eu não só ignorava a Sua existência: desprezava-a. Hoje, admito que esse desprezo talvez contivesse algo de receio e de atracção. Como a morte: atrai-nos enquanto a repelimos. Detestavas os meus pequenos prazeres, fizeste-me amargar muitos deles com implacável zombaria: livros, músicas, filmes. Não merece a pena nomear as nossas divergências . Provínhamos do mesmo sítio, mas não pertencíamos aos mesmos sonhos.» (pág. 92)
Quando se conclui esta leitura, podemo-nos questionar a propósito de quantas Jesuínas estão à nossa volta: pessoas silenciosamente desesperadas, que não encontram sequer um conforto solidário a amenizar-lhes essa dor de se sentirem irremediavelmente sós.

Michael Moore parte a loiça na CNN

São estas as vantagens da transmissão em directo: sem papas na língua, Michael Moore denuncia ter estado proscrito dos seus écrans durante três anos e serem-lhe justificadas as desculpas por tudo quanto tinha dito sobre a Guerra no Iraque se ter comprovado...

segunda-feira, julho 09, 2007

VILLA BARBARO (1560) de ANDREA PALLADIO

Na colecção «Arquitecturas», que o canal franco-alemão ARTE, tem transmitido aos sábados ao fim da tarde, o documentário de Stan Neumann é extremamente interessante por revelar um edifício do século XVi de quando os comerciantes mais ricos de Veneza consciencializaram a importância de reorientarem os seus negócios, perdida que se encontrava a rota das especiarias e da seda em favor da rota das Índias aberta por Vasco da Gama. A solução era, então, dar valor às vastas planícies, que existiam a norte da cidade e na qual a agricultura iria florescer.
Os Bárbaro contrataram, então, o arquitecto Andrea Palladio para lhes conceber uma residência de campo, que tem muitas características notáveis: a influência da arquitectura clássica presente nas suas muitas colunas, o ajustamento da distribuição dos espaços em função das suas previstas funções, a construção em tijolos para tornar mais barata a obra, os frescos de Veronese com diversos trompe l’oeil.
Essa villa acaba por se tornar revolucionária nessa ligação entre o belo e o útil, a sua função palaciana e a de granja agrícola…

UM ARREPENDIDO A ABJURAR O CHE

É por demais conhecido o percurso ideológico do director do «Público»: depois de, na sua juventude, ter andado seduzido pelas teorias revolucionárias, veio a abjurá-las quando acometido de fatal envelhecimento precoce e irremediável. Hoje aquilo que parecem as suas ideias, mas mais não passam do papaguear de teses alheias, têm uma obsessiva tendência para acrescentar argumentos a esse viracasaquismo.
Na edição de domingo foi o Che quem se tornou a besta maldita a excomungar, servindo-se para tal de um obscuro opúsculo do filho de Vargas LLosa, cuja lamentável reputação decorre de ainda conseguir ultrapassar o progenitor em reaccionarismo, em ódio primário a tudo o que cheire a comunismo.
A força de Che Guevara, aquilo que faz dele o ícone de gerações sucessivas de jovens de todo o mundo, é a sua essência humana. É o saber-se que tanto acertou na utopia por que deu o melhor da sua vida, como errou na forma e nas estratégias por que as pretendeu implementar.
Os que admiram Che de forma consequente não fazem dele um Deus inatacável. Ele era homem e como tal com as virtudes e defeitos de qualquer um de nós. Mas o que é nele admirável é esse inconformismo com a má sorte dos desvalidos deste mundo e a possibilidade de se vir a criar um mundo novo a sério. Um mundo feito de justiça, de igualdade e de solidariedade entre os que o desejam. E essa é ambição, que prosseguirá no coração dos justos deste mundo, aqueles que acreditam ser possível criar na Terra o que as várias igrejas só prometem para os seus diversificados paraísos.
Os que querem enlamear a memória de quem assumiu a dimensão de símbolo para milhões de pessoas apostadas em contrariar a injustiça só se definem a si mesmos como veículos da mensagem contrária: a que o mundo está bem como está, com um punhado de oligarcas a quererem consumir os recursos a todos pertencentes.
Que José Manuel Fernandes se comova com a sorte dos «pobres diabos» mandados fuzilar pelo revolucionário argentino diz bem da sua involução ideológica: foram «pobres diabos» quem acabaram por assassinar o Che nas montanhas bolivianas. Ora, como lembrava alguém cujos ensinamentos o director do «Público» esqueceu, a revolução não é propriamente um convite para jantar...

domingo, julho 08, 2007

A PROPÓSITO DE «IT´S NOT FUNNY» DE MEG STUART (CCB)
Na sua transdisciplinaridade, a dança contemporânea assemelha-se a um caos de movimentos para reproduzir uma mensagem algo repetitiva: o excesso de informação, a violência permanente entre as pessoas, a escassa fronteira entre a graça e a loucura, a solidão no meio das grandes metrópoles.

Há quase nenhuma música, algumas palavras representadas, uma cenografia funcional tendo por eixo uma gigantesca escadaria a lembrar os filmes musicais da Metro, citações cinéfilas (a Busby Berkeley, a Gloria Swanson do «Sunset Boulevard».

Mas quase duas horas de espectáculo em assentos tão incómodos como mal imaginaríamos os houvesse no CCB ajudaram a temperar a abertura para a colheita de novas vivências.
Os criadores deste tempo têm o diagnóstico de tudo quanto está mal no nosso quotidiano, mas não ousam sugerir as utopias pelas quais todos os males poderiam ser ultrapassados. Mesmo que inviáveis, mesmo que de duvidosa credibilidade.

Mas o grande passo da criação dos tempos, que virão, terá de passar pela transmissão de uma alegria possível depois da cinzentude destes anos iniciados na queda do muro de Berlim e talvez enterrados com a saída de George W. Bush da Casa Branca...

LAKME - Léo DELIBES

Se há imensas árias da história da ópera, que poderia escolher como as de maior agrado pessoal, esta é porventura a que tomaria enquanto a melhor entre as melhores...

sexta-feira, julho 06, 2007

La Traviata (Verdi)

A Ópera italiana no seu esplendor. E uma criatividade muito grande de quem fez esta animação...

quarta-feira, julho 04, 2007

José Saramago - Janela da Alma

De como nos rodeiam cegos sem a consciência de o serem

Involuntárias entradas de leão

Até não se lhe pode assacar grande responsabilidade nos seus sucessos imediatos ao mudar-se para o nº 10 de Downing Street. Mas Gordon Brown pode considerar-se um sujeito afortunado: a eficácia com que a polícia inglesa desarticulou uma pífia ameaça terrorista joga claramente a seu favor. Começando a empurrar o legado do antecessor para o lugar na História, que ele merece: um político habilidoso, que soube jogar com as circunstâncias para fortalecer a economia numa perspectiva capitalista - afastando de forma drástica o legado socializante do seu partido - mas descredibilizado pelo acéfalo seguidismo de um expansionismo norte-americano, que partiu os dentes no Iraque.
O primeiro discurso do novo primeiro-ministro inglês foi animador: ciente de quão em perigo estão os actuais equilíbrios sociais com o assalto ao poder do novo líder conservador, Gordon Brown prometeu uma verdadeira revolução.
Os primeiros dias, porém, distraíram-nos de qualquer mudança significativa: desde a semana transacta, que diversos carros armadilhados causaram emoções fortes nas ruas de Londres e junto ao aeroporto de Glasgow num claro aviso ao recém nomeado: não se podem esquecer as suas raízes escocesas.
Por sorte ou por mérito da polícia inglesa, os vários atentados frustraram-se, reiterando uma certa sensação de confiança assumida pela população, que vê justificadas as câmaras espalhadas um pouco por todo o lado.
Mas os verdadeiros desafios são os que se seguirão: qual a postura de Brown em relação ao atoleiro em que se converteu o Iraque? Que resposta dará ele a uma Europa de onde os seus concidadãos se sentem muito mais afastados do que os escassos quilómetros de largura do Canal da Mancha? Que políticas desenvolverá para diluir as gravosas diferenças sociais, que os trabalhistas herdaram dos governos de Thatcher e de Major?
Num continente aonde as políticas de direita não têm mostrado capacidade para vencer os desafios da globalização, do aquecimento planetário ou da progressiva escassez de recursos energéticos e hídricos, a chegada de Gordon Brown ao poder abre reiteradas expectativas. Sobretudo porque quase concomitantes com o surgimento do Die Linke na Alemanha e com a ascensão de Veltroni á liderança da esquerda italiana…
Qual será, então, a evolução do Partido Socialista nesse contexto? Nesta altura ainda se justifica alguma prioridade ao equilíbrio orçamental e ao combate de muitos dos corporativismos remanescentes de tempos idos. Mas a esquerda socialista não pode ficar entregue aos ressabiamentos de Manuel Alegre ou à confusão ideológica de um Medeiros Ferreira.
Há uma grande urgência em se repensar no papel dos socialistas na sociedade portuguesa da próxima década. Esperemos que de Inglaterra soprem ventos inspiradores e consistentes...

terça-feira, julho 03, 2007

Jose Saramago em Janela da Alma

Há quem negue a Saramago a genialidade, que a sua obra reflecte. A idade acrescenta-lhe algo mais: a da sapiência serena dos que já muito viram, dos que já muito compreenderam...

«Janela da Alma», filme de João Jardim e Walter Carvalho

É um filme sobre o olhar. Surpreendente pela sua diversidade, sejam elas as histórias de alguns dos entrevistados, sejam as ideias em que outros primam.
O que está em causa é a questão: o que é o olhar? Poderá ser o espelho de uma alma, que todos pressentem, mas nenhum consegue definir? Ou não é nada disso, já que, para os cegos, esse olhar para o exterior substitui-se por um olhar de dentro, que permite uma maior acuidade em muitos aspectos.
Há algumas redundâncias: às tantas Wim Wenders e José Saramago estão a dizer exactamente o mesmo, ainda que por outras palavras. Mas compreende-se que, mesmo com 36 horas de material bruto, resultante de cerca de 50 entrevistas, João Jardim e Walter Carvalho não tenham prescindido de dois discursos tão inteligentes quantos os referidos. Porque eles falam do excesso de imagens, da inundação de dados, que nos põe em perigo a compreensão do que está à nossa volta. Da cegueira colectiva, que nos distrai do essencial, e que o Nobel português haveria de tão argutamente metaforizar no Ensaio em vias de ser traduzido em filme por Fernando Meirelles.
É ainda de Saramago uma história deliciosa e muito sugestiva sobre o tema do olhar: habituado a frequentar o S. Carlos, mas remetido para as alturas («o galinheiro») devido aos escassos recursos, deparava-se-lhe algo de paradoxal: um efeito decorativo no tecto do teatro parecia majestoso visto de baixo era horrível a partir da sua parte superior.
- Isso ensinou-me a ver sempre os dois lados da mesma realidade! - conclui o nosso prestigiado escritor.
Mas outros testemunhos são, igualmente, fascinantes: o de Hermeto Pascoal com a sua saborosíssima revelação do seu sucesso junto das «mininas lindas» a quem os seus olhos tortos confundiam, quanto à eleita da sua atenção; ou a de Agnes Varda a confidenciar os seus sentimentos contraditórios, quando filmava o companheiro de toda a vida, Jacques Démy, quando ele estava à beira da morte; ou a do vereador de Belo Horizonte, Arnaldo Godoy, quando conta como, já cego, estava numa praia deserta com a filha de um ano e as águas a levam, deixando-o em tal desespero, que os cabelos se lhe embranqueceram; ou a habilidade do filósofo Eugen Bavcar capaz de fotografar rostos apesar de não lhes divisar o mínimo sinal.
Um documentário fascinante sobre o olhar como o veículo ambíguo da nossa identidade...

domingo, junho 24, 2007

Philip Roth: «A conspiração contra a América» (1)

Na mesma altura em que Hollywood preparava a produção do filme de Raoul Walsh a América passou por um tremendo perigo: a de se tornar numa extensão do regime nazi. Simpatizantes de Hitler, havia-os ao mais alto nível, e não precisavam de se acobertar com silenciosas estratégias como Errol Flynn: Charles Lindbergh, o herói da aviação, que entusiasmara os seus compatriotas ao voar até Paris no seu «Spirit of St. Louis» não escondia a admiração pelos valores do regime alemão. Incluindo essa reiterada intenção de discriminar e oprimir os judeus.
No seu livro «A Conspiração contra a América», Philip Roth redige uma espécie de autobiografia Não quanto ao que aconteceu, mas quanto ao que poderia ter sucedido se Lindbergh tivesse sido designado como candidato republicano à eleição norte-americana de 1940 e houvesse vencido a Franklin D. Roosevelt. Então com sete anos o jovem Philip teria visto a sua família mergulhada no pior dos pesadelos: o de ver reproduzido em território norte-americano o mesmo terror então em curso por toda a Europa.
O livro está apenas começado: vou para aí nas primeiras quarenta páginas, mas é já bastante aliciante o que nele descobrirei nas quatrocentas seguintes…

O Cerco de Leninegrado - parte 2

Enquanto Errol Flynn ia escamoteando a sua germanofilia em cercos de pacotilha, os habitantes de Leninegrado davam uma incomparável lição de heroísmo e de capacidade de suportar os maiores sacrifícios.
Leninegrado deve ser sempre evocada como o paradigma do impossível tornar-se uma forte possibilidade de se concretizar...

«Todos morreram calçados» de Raoul Walsh

Há uma cena em «Sleepless em Seattle», que dificilmente esquecerei: aquela em que Sam Balwin (Tom Hanks) e Greg (Victor Garber) troçam de Suzy (Rita Wilson), quando esta lhes descrevera em lágrimas a cena pungente do final do filme «Na Affair to Remember», no qual Cary Grant e Deborah Kerr se reencontram em circunstâncias melodramáticas no topo do Empire State Building.
Usando o mesmo tipo de choro irreprimido eles evocam o final dramático de «The Dirty Dozen», em que, um a um, os protagonistas do filme vão caindo sob as balas alemãs.
Mas podiam ter evocado, dentro da mesma veia cinéfila, o epílogo deste filme de Raoul Walsh em que se recria a batalha de Little Big Horn, na qual o Sétimo de Cavalaria comandado pelo General Custer foi dizimado pelas tribos índias lideradas por Crazy Horse. Porque o filme tem todos os condimentos que, há uns quarenta anos, tanto sugestionaram o miúdo, que eu era.
Realizado em 1941, o filme permite algumas leituras singulares se ajuizarmos as suspeitas quanto às ambíguas ligações de Errol Flynn nessa época em relação ao regime nazi. Porque os políticos são aqui venais contra os militares apostados em trabalhar para a paz em vez de para a guerra.
Ora se pensarmos que os norte-americanos estavam, nesse mesmo ano, em grandes debates políticos entre intervencionistas e isolacionistas, pode-se perspectivar este filme como ambíguo quanto à sua intenção.
Visto exclusivamente como objecto cinematográfico, com todas as reservas passíveis de se colocarem a essa perspectiva restrita de abordagem, ele revela-se extremamente eficaz: Custer aparece aqui como um herói impoluto, que leva o sentido do dever até ao sacrifício da própria vida, para combater a intriga e a cupidez de políticos e de capitalistas. Nesse sentido acaba por ser paradoxal que uma mensagem política criptofascista não deixe de se poder transler numa outra de sinal político absolutamente oposto. Até porque, no fim desta triste história foram os índios quem acabaram por se lixar…

sexta-feira, junho 22, 2007

Não fazer nem deixar fazer

É lamentável o papel assumido pelo PSD de marques Mendes na oposição ao Governo socialista.
Depois da fuga do arrivista Durão Barroso tão só garantiu os apoios necessários para chegar à frente da Comunidade Europeia - mesmo sujeitando-se ao papel de criado de mesa na Cimeira dos Açores - e após o descalabro dos meses de desgovernação de Santana Lopes, o partido de Alberto João Jardim e de Rui Rio anda desnorteado com toda a agenda reformista de José Sócrates e dos efeitos positivos dela resultantes. O reequilíbrio das contas públicas, o crescimento virtuoso da economia, a contenção dos corporativismos e a perspectiva de grandes obras estruturais, que possam servir de locomotiva para o pretendido arranque desenvolvimentista.
Travar o novo Aeroporto e o TGV sob pena de se gorarem as débeis possibilidades de regressar ao poder em 2009 é a alternativa que se coloca à direita. Mesmo contra o interesse dos portugueses e à revelia de compromissos de Estado já firmados por pretéritos Governos.
A direita é hoje o exemplo lapidar dos que nem fazer, nem querem deixar fazer. E vendo em tudo um motivo, mesmo que absurdo, para o derrotismo, o pessimismo, a maledicência. E o grave é assistir ao desaforo de Belmiros e outros capitalistas prejudicados pelas decisões do Governo, acolitarem essa política de terra queimada...

quinta-feira, junho 21, 2007

O Cerco de Leninegrado -1

Houve quem lhe voltasse a mudar o nome para Cidade de São Pedro. Coisas de anticomunistas primários.
Ninguém pode esquecer é que ocorreram ali das páginas mais superlativas de sofrimento e de heroísmo no Século XX. Foi na Cidade de Lenine, que o fascismo hitleriano começou a perder a sua guerra assassina...