sexta-feira, janeiro 02, 2026

Banzo: a doença da liberdade perdida

 


Numa altura em que a alteração ideológica na mente da maioria dos eleitores lusos - com reflexo na tentativa de branqueamento dos crimes coloniais (mormente da escravatura!) - um filme como o de Margarida Cardoso funciona como a persistência de um olhar fundamentado historicamente para contestar aquilo que o misticismo colonial das direitas procura propagar. Os "heróis pátrios" eram gente sem escrúpulos, preconceituosa e ignorante. O objetivo da "gesta" lusitana sempre foi procurar riqueza além-mar para compensar a pobreza intramuros dos seus habitantes.

 

"Banzo" (2024), terceira longa-metragem de ficção de Margarida Cardoso após "A Costa dos Murmúrios" (2004) e "Yvone Kane" (2015), situa a ação em 1907, nas plantações de cacau de São Tomé e Príncipe. Portugal vivia os últimos e conturbados anos da monarquia - o regicídio de D. Carlos I e do herdeiro Luís Filipe ocorreria no ano seguinte. O Império Colonial estendia-se até ao Extremo-Oriente, mas viajar para as longínquas paragens africanas não era festa alguma. Era, na maioria das vezes, um grande sacrifício ou uma inevitabilidade - sobretudo quando alguém era para lá degredado por qualquer crime.

Afonso (Carloto Cotta), um jovem médico, desembarca em São Tomé vindo do Congo (provavelmente o Norte de Angola, o chamado Congo Português). Nunca saberemos com pormenor o motivo da sua vinda, mas essa indefinição é deliberada. Margarida Cardoso não nos dá mais informação do que a necessária. Cabe ao espetador conjeturar, depurar na memória o que vai observando - o dia-a-dia de uma colónia africana, as rotinas das personagens que, com as suas atitudes e pontos de vista, dão consistência ao processo narrativo. Personagens que acabam por encontrar o seu lugar próprio na dialética de relações que se estabelece num mundo fechado onde homens, mulheres e crianças, separados pela classe, religião e capacidade ou não de exercer poder, misturam-se quer queiram quer não.

A palavra que dá nome ao filme - banzo, do quimbundo mbanza (aldeia) - designa uma "moléstia crónica" que os escravizados sofriam e que, com o decorrer do tempo, os levava à sepultura. Foi o advogado Luís António de Oliveira Mendes quem primeiro a mencionou num relatório elaborado para a Real Academia das Ciências de Lisboa, em 1793: "Ressentimento entranhado por qualquer princípio, como por exemplo: a saudade dos seus e da sua pátria; o amor devido a alguém; a cogitação profunda sobre a perda da liberdade; a meditação continuada da aspereza com que os tratam; o mesmo mau trato, que suportam; e tudo aquilo que pode melancolizar. É uma paixão da alma, a que se entregam, que só é extinta com a morte."

Na prática, esta palavra categorizava um sentimento de profunda melancolia - uma depressão, diríamos hoje. Era usada para referir a morte voluntária dos que se encontravam escravizados e sem direitos, ou dos que eram forçados a sair das suas aldeias para noutras colónias assinarem contratos destinados a explorar a sua força laboral como verdadeiros proletários, pouco mais do que escravos. Para além das marcas da pressão e dos castigos infligidos pelos donos ou patrões, o emprego de atitudes radicais e extremas como modo de combater as adversidades da sua frágil existência passava pela consubstanciação de um desejo de morte, pela recusa de ingerir alimentos (uma espécie de greve de fome) e pela geofagia - a ingestão habitualmente fatal de matéria orgânica encontrada no solo.

Tudo isto faz parte da realidade que o doutor Afonso encontra nas suas funções de médico de uma roça como tantas outras. Junta-se aos que já lá viviam: outro médico resignado com a sua sorte, o administrador e a mulher, o atormentado adjunto do administrador (Ismael, interpretado por Rúben Simões), os criados e serviçais, os capatazes brancos e negros. O organigrama de carne e osso que habitava o microcosmos das plantações que o colonialismo português estabeleceu naquelas paragens insulares para garantir a exploração das principais matérias-primas: cacau, café, cana-de-açúcar.

Incapaz de compreender as razões profundas da crise de apatia e melancolia provocada pela doença, sentindo uma redutora impotência na procura infrutífera de compreender o que ia na alma dos que dela sofriam, o doutor Afonso acaba por aceitar ir com os serviçais até um sítio remoto onde era suposto os doentes atacados pelo banzo encontrarem alguma autonomia pessoal, alguma iniciativa que os levasse a recuperar da condição depressiva. Trabalho duro, associado a práticas coercivas pouco abonatórias para os valores cristãos e ocidentais, mas compensado com a ocupação de casas modestas onde os semiescravos podiam manter um mínimo de organização social e familiar. Nada, porém, que os fizesse partilhar o sentimento de liberdade - conceito impossível de conjugar em qualquer regime colonial.

É aqui que Margarida Cardoso introduz uma personagem singular: o negro Alphonse (Hoji Fortuna), fotógrafo que aprendeu a arte nas suas andanças pelos caminhos cruzados da África negra. Um homem que se considera livre e que, por isso, percorre a ilha montado num cavalo, aparentemente sem restrições - privilégio impensável para os que a pé se deslocaram para o morro chuvoso da quarentena ou do exílio que isolava os doentes com banzo dos restantes africanos.

Na sequência fulcral em que Alphonse dialoga olhos nos olhos com o doutor Afonso, referindo-se a um conjunto de chapas fotográficas com cenas da vida na floresta africana onde esta surge como pano de fundo do retrato dos serviçais, as suas palavras aproximam-se da "verdade da mentira" - ou seja, da ficção que ele irá vender sobre a vida dos que foram ali retratados. Através dos processos químicos da fotografia, fixa para sempre a alma dos que se perfilaram diante da sua objetiva. Essa alquimia redentora faz dele o detentor do segredo maior que este filme encerra: a verdadeira natureza e capacidade de manipulação da alma humana e, no limite, quem sabe, a mais improvável cura para essa maleita chamada banzo. "O mal não se deixa fotografar facilmente", diz Alphonse. E tem razão. Os que forem ver as fotografias só veem o que quiserem ver, não a verdade dos factos por detrás de um olhar distante e absorto. Para esses, a doença nunca existiu.

Afonso é o que se chama em cinema uma "personagem passiva" - não faz aquilo que normalmente as personagens fazem nos filmes, que é fazer avançar a narrativa. Margarida Cardoso construiu-o deliberadamente assim para manter o mistério: de onde vem? O que faz ali? Que relação tem com o homem que chega com ele a São Tomé e que desaparece logo no início? Esse espírito está sempre presente - pode até ser que o amigo nem tenha vindo, que seja apenas uma projeção.

"O Carloto é exatamente uma ideia, não é bem uma personagem", diz a realizadora. Essa passividade do protagonista, que seguimos durante as duas horas de duração do filme, deixa-nos à distância das imagens e do sofrimento que contêm (e, na maioria dos casos, insinuam). Mas é essa distância que permite a reflexão - não sobre o médico, mas sobre o sistema que o rodeia, sobre a violência estrutural das roças, sobre a ambiguidade moral de todos os que ali vivem.

Os elementos para a narrativa de "Banzo" começaram a aparecer durante a pesquisa e as filmagens de "Understory" (2019), ensaio pessoal de Margarida Cardoso sobre o cacau e todas as suas ramificações culturais e económicas. Passou meses na ilha do Príncipe, vivendo em contacto com muitas pessoas e conhecendo bem a geografia. As extravagantes ruínas das roças são uma constante na paisagem da ilha. "Há algo de estranhamente fantasmagórico naquelas estruturas, não só pelo lado mais evidente da decadência, mas porque tudo parece estar paralisado no tempo, como se as pessoas que hoje habitam essas ruínas estivessem ali há quase tanto tempo quanto os decrépitos edifícios. Parecem presas num limbo histórico à espera que o violento e absurdo passado se funda lentamente com a natureza até se dissipar."

Regressada a Lisboa, mergulhou nos arquivos das roças. Leu correspondências internas e externas, pessoais e comerciais, gráficos, relatórios dos Curadores dos Serviçais (onde as pessoas podiam apresentar queixas), boletins oficiais da colónia, viu filmes de arquivo e centenas de fotografias. "Quanto mais me embrenhava na revisitação do passado, mais se tornava evidente que o que ali se passou, num tempo que nos parece tão distante é, no fundo, uma 'história contemporânea'."

E é aqui que reside uma das grandes intuições do filme: a época retratada - início do século XX - corresponde ao momento em que nasce aquilo que hoje chamamos a "uberização" do trabalho. Oficialmente, os africanos eram contratados, assinavam com o dedo. Mas no fundo eram tratados como escravos. A escravatura tinha acabado legalmente, mas continuava na mesma com os chamados contratos de trabalho. Os ingleses andavam muito em cima da colonização portuguesa por causa disso. Daí a expressão "para inglês ver" - o hospital, a aparência de cuidado médico, tudo isso era fachada para esconder a realidade brutal da exploração.

Margarida Cardoso estava também interessada em retratar esse momento porque "a tecnologia e a ciência em Portugal e nas plantações parecia estar muito desenvolvida. Nem tudo foi mau. Essa tecnologia era superavançada em relação ao processo da plantação de cacau e da transformação dos grãos. Éramos estudados por todos os outros países. Tínhamos plantações-modelo."

Esse poder da ciência e da tecnologia fazia com que as pessoas acreditassem nessa ideia de que era uma mais-valia civilizacional. Mas essa "civilização" assentava na barbárie. Os proprietários das roças eram famílias que viviam em Lisboa e grande parte pertencia ao BNU (Banco Nacional Ultramarino) - os mesmos que depois se transformaram nos grandes grupos económicos que ainda hoje existem em Portugal. Uma boa parte, curiosamente, ainda vem do cacau.

Para além de Afonso e Alphonse, há outras personagens que merecem atenção. O Senhor António, o ancião mestiço que encontram no morro, representa os que não pertencem a lado nenhum. Nasceu ali, viveu sempre ali, mas não é dali - nasce desta mistura de violência e de várias outras relações. "Está lá como um fantasma, vê tudo", diz Margarida Cardoso. "Há senhores António por todo o lado" - em todos os sítios que foram colonizados.

E há Adélia (interpretada por Maria do Céu Ribeiro), a criada da casa que ouve tudo e engole em silêncio. Não é uma escrava - é uma condenada que provavelmente cometeu um crime na metrópole e foi degredada. De facto, grande parte do início da colonização portuguesa foi feita só com degredados para Angola, Moçambique e Brasil. As colónias eram lugares de degredo. Adélia é uma personagem aparentemente forte, mas que também não tem lugar no mundo. Não é dali mas não tem nenhum sítio para onde ir. Dramaturgicamente, apareceu porque era preciso alguém que estivesse a ver outras coisas - alguém que representasse essas pessoas que acabam por ficar sem sítio no "mundo dos bons."

O trabalho de fotografia de Leandro Ferrão capta graciosamente a assombração que se funde com a neblina da montanha. Irrepreensível e certeira é a fórmula que conjuga a tristeza da natureza e dos espaços interiores com o sentimento de não pertença àquele lugar, numa dicotomia acérrima e conflituosa. É na face de todas as personagens, e nunca nos seus silêncios, que a crítica mais se exprime.

O trabalho sonoro é uma amálgama expressiva do início ao fim - tudo pesa. Pesa a chuva a cair, as folhas a serem pisadas, o choro das crianças, a fome dos escravizados e o medo. Mas é especialmente o barulho do medo que não cessa. A transladação das almas e a sensação de se querer partir quando não se sabe estar. Partir, em "Banzo", não é sair. É morrer. E morrer significa entregar a alma ao descanso, independentemente da última morada do corpo.

Filmar em São Tomé foi extremamente difícil - todos os dias havia tempestades, estradas que desabavam. Mas, como diz Margarida Cardoso, "estávamos num ambiente natural muito semelhante ao que queremos retratar no filme. Apesar de ter sido muito difícil e a produção ter sofrido muitíssimo, isso acabou por se refletir no filme e isso é bom, porque aumenta-lhe a carga dramática."

"Banzo" é uma obra onde Margarida Cardoso demonstra mais uma vez as qualidades como realizadora e argumentista. Filme isento de lugares-comuns, planificação económica e muito eficaz, que nos interroga e impele a descobrir o outro lado da alma - e não apenas da alma africana. Belíssima direção de fotografia que evita o habitual folclore da representação do exótico. Excelente reconstituição histórica: cenografia, adereços, guarda-roupa, caracterização e penteados.

Mas acima de tudo, "Banzo" é um filme politicamente necessário neste momento histórico em que as direitas portuguesas tentam branquear os crimes coloniais, em que se fala de "heróis pátrios" e "gesta lusitana" como se não tivessem sido construídos sobre a exploração brutal de milhões de seres humanos. Margarida Cardoso oferece-nos um olhar fundamentado historicamente que contesta esse misticismo colonial. Mostra-nos que os tais "heróis" eram gente sem escrúpulos, preconceituosa e ignorante. Que o objetivo sempre foi procurar riqueza além-mar para compensar a pobreza intramuros.

E mostra-nos também algo mais profundo: que essa exploração não acabou com o fim do colonialismo. Transformou-se, metamorfoseou-se, deu origem à "uberização" do trabalho que hoje conhecemos. O banzo - essa doença da liberdade perdida, essa melancolia mortal dos que não têm lugar no mundo - continua vivo. Apenas mudou de nome. 

Sem comentários: