sábado, janeiro 10, 2026

A geografia da melancolia

 

Sempre longos, os filmes de Nuri Bilge Ceylan valem à partida pela beleza da paisagem da Anatólia, que transformam muitos dos fotogramas em fotografias, se não mesmo quadros, de uma beleza impactante. Mas há também a complexidade do relacionamento entre os personagens que, nas fraquezas, preconceitos e cobardias, são particularmente verosímeis. Neste caso sobressai Samet que, no seu egoísmo cínico, revela-se um crápula sem remissão.

Ervas Secas (Kuru Otlar Üstüne, 2023) abre com uma imagem definitiva: Samet (Deniz Celiloğlu) sozinho no centro de um ecrã completamente branco de neve. Professor de arte exilado há quatro anos numa aldeia remota do leste da Anatólia, conta os dias para a transferência para Istambul. À sua volta, um lugar que detesta - sem primavera nem outono, apenas inverno rigoroso e verão onde as ervas secam. A geografia torna-se metáfora: como as ervas, Samet vai secando por dentro.

Ceylan foi fotógrafo antes de cineasta e isso nota-se. Os enquadramentos são de uma beleza que suspende a narrativa - a imensidão das montanhas, o manto branco que cobre tudo, a luz que atravessa os interiores onde as personagens bebem chá ou whisky depois do frio. Cada plano poderia ser uma fotografia emoldurada. A paisagem não é apenas cenário - é presença que pesa sobre as vidas humanas, indiferente às suas misérias.

Mas esta beleza torna tudo mais cruel. Há um contraste brutal entre a sublimidade do exterior e a mesquinhez dos comportamentos humanos. É como se a natureza zombasse da incapacidade de estarmos à altura dela.

A meio do filme, Samet escreve no quadro da sala de aula uma palavra: "Perspektif" (perspetiva). Acabara de ser convocado, juntamente com o colega Kenan (Musab Ekici) com quem partilha apartamento, para ouvir que duas alunas os acusaram de comportamentos inapropriados. A acusação é falsa - uma vingança de Sevim (Ece Bağci), jovem aluna que Samet estimava e que se sentira humilhada quando ele ficou com uma carta de amor que ela escrevera.

A partir desse momento, a perspetiva de Samet muda radicalmente. Sevim era para ele uma espécie de luz na escuridão daquele exílio - a sua vivacidade contrastava com o conservadorismo opressivo da aldeia. Agora torna-se objeto de ressentimento. Samet perde as estribeiras com os alunos, diz-lhes que estão condenados a plantar batatas para servirem os ricos. A raiva toma conta dele.

Também a visão de Nuray (Merve Dizdar, Melhor Atriz em Cannes 2023) se altera. Professora numa aldeia vizinha, usa prótese depois de perder uma perna numa explosão durante protestos políticos. Quando Samet a apresenta a Kenan e vê o interesse mútuo, inicialmente sente apenas irritação por ser excluído. Depois, numa reviravolta mesquinha, decide conquistá-la como troféu para derrotar o amigo.

Nuray é tudo o que Samet não é. Onde ele cultiva o cinismo e sonha com fuga individual para Istambul, ela acredita na luta coletiva, na possibilidade de mudança através da ação política. Numa longa conversa - dessas conversas de largos minutos com câmara fixa que são marca de Ceylan - Nuray confronta Samet com a sua passividade disfarçada de individualismo, com o egoísmo mascarado de liberdade. É um momento brutal que ele não consegue aceitar.

Logo no início, Samet oferecera a Sevim um pequeno espelho redondo. No final percebemos: deveria tê-lo guardado para si. É incapaz de se ver verdadeiramente, de reconhecer no que se tornou. O pior inimigo está dentro dele.

Ceylan defende há anos que reagimos ao tédio tomando as decisões mais importantes das nossas vidas. O tédio é o motor dramático deste filme. E a preguiça - a palavra mais pronunciada em Ervas Secas - é apresentada quase como pecado original. Não a preguiça física, mas a preguiça moral: a recusa de agir, de tomar responsabilidade, de enfrentar a verdade sobre nós próprios.

Há um plano que resume tudo: Samet e Kenan vão à nascente no topo da montanha. Enquanto a água corre lenta enchendo os garrafões, Samet senta-se numa rocha como se montasse um cavalo, pronto a partir. Kenan permanece imóvel. Um quer fugir, o outro aceita ficar. Mas no final, talvez Kenan seja o menos infeliz.

A meio do filme acontece algo desconcertante: durante uma cena, Samet levanta-se, abre uma porta e vemos os bastidores - o set, a equipa técnica, toda a maquinaria do cinema exposta. Depois regressa e a cena continua normalmente. Será um lembrete de que tudo é perspetiva, de que o cinema constrói e desconstrói realidades? Ou apenas um gesto de rutura? Fica a perturbação.

Compararam Ervas Secas a Tchekov e a comparação faz sentido. Personagens presas em lugares que detestam, sonhando com vidas que nunca terão, incapazes das decisões necessárias para mudarem o destino. A tragicomédia da mesquinhez humana, a tragédia da incapacidade de generosidade.

Samet fotografa a paisagem e os habitantes nos trabalhos quotidianos - um hobby que poderia sugerir resto de humanidade, olhar poético ainda presente. Mas mesmo isso revela-se ambíguo. As fotografias capturam beleza mas também distância, incapacidade de verdadeira ligação com o que retratam.

As 3h20 de duração exigem concentração máxima. Os diálogos longos, densos, pesam. Mas esse peso é deliberado - faz parte da experiência de habitar aquele tempo suspenso, a melancolia que não tem pressa de passar.

Ervas Secas é diálogo constante entre imagem fixa e movimento - como se o Ceylan fotógrafo conversasse com o Ceylan realizador. É também filme político sem ser panfletário, tocando temas sensíveis da sociedade turca através do confronto de ideias: conservadorismo versus liberdade, individualismo versus solidariedade, fuga versus luta.

Quando o inverno dá lugar ao verão e a perspetiva visual muda, Samet verbaliza longamente as reflexões existenciais. Talvez preferíssemos que essa reflexão ficasse implícita, mas Ceylan quis que o personagem se abrisse pelas palavras, retocando pela confissão o molde que construíra pelas ações.

No final ficamos sem respostas fáceis, apenas com a certeza perturbadora de que Samet é reconhecível. Nas fraquezas, preconceitos e cobardias, é profundamente humano - e isso é o mais assustador. Quantos de nós, no mesmo tédio e desespero, não reagiríamos com egoísmo semelhante?

As ervas secam porque não há renovação. Samet seca por dentro até restar apenas a casca. E quando finalmente consegue a transferência para Istambul, perguntamo-nos: mudará alguma coisa? Ou levará consigo a secura interior?

Ceylan filma um lugar inóspito desta maneira para filmar o inverno severo - não apenas da Turquia asfixiante, mas da condição humana no que ela tem de mais desolador. E paradoxalmente, de mais belo.

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