segunda-feira, janeiro 12, 2026

Elena Ferrante e a sua amiga genial

 

Na altura em que os romances de Elena Ferrante ocupavam os lugares cimeiros das listas de vendas, deixei-me levar por um certo impulso provocatório ao classificá-los, em público, como “literatura cor-de-rosa”. Reconhecia-lhes a eficácia narrativa e a distância que os separa de uma prosa sentimental de consumo rápido, mas resistia a conceder-lhes estatuto de grande literatura: a amizade feminina, atravessada por ciúme e emulação, parecia-me matéria conhecida; e a Nápoles do pós-neorrealismo já fora melhor figurada por outros.

A leitura atenta do primeiro volume de A Amiga Genial obriga, ainda assim, a uma revisão desse juízo apressado. Quanto mais não seja porque a Elza apreciou os quatro volumes da tetralogia e não era fácil colher dela um tão enfático acolhimento...

O que Ferrante constrói não é uma história “edificante” de cumplicidade entre raparigas, nem uma crónica pitoresca de bairro. É antes um dispositivo narrativo que articula três níveis de tensão: a formação de duas consciências femininas, a violência estrutural de um meio social e a energia ambígua da rivalidade como motor de emancipação.

Elena e Lila crescem num território onde a pobreza, a intimidação e a hierarquia masculina impõem-se como lei quotidiana. A escola surge como promessa de fuga, mas também como lugar de seleção implacável. A desigualdade de destinos — uma prossegue estudos, a outra é confinada ao ofício do pai — não resulta de falta de talento, mas de uma distribuição social que decide, cedo, quem pode imaginar outro futuro. Aí, a amizade deixa de ser mero afeto: transforma-se num campo de forças, feito de admiração, dependência, ressentimento e desafio permanente. Lila, com a sua inteligência indomável e a sua recusa em aceitar limites, funciona como estímulo e ameaça; Elena, mais dócil e perseverante, aprende a existir na sombra e contra a luz dessa presença.

Ferrante escreve este processo sem idealização. A violência do bairro infiltra-se nas relações, no corpo em transformação, na linguagem, nos gestos. Não há nostalgia da infância: há a consciência de que crescer é aprender a negociar com a brutalidade, a competir, a desejar subir sem perder o chão. A cidade, longe de ser mero cenário, age como organismo vivo: as ruelas, as oficinas, os pátios, as famílias em confronto compõem uma rede de pertenças e hostilidades que molda as personagens tanto quanto as suas escolhas íntimas.

Se há aqui algo de “aditivo”, não é por complacência sentimental, mas porque a narrativa organiza-se como uma investigação contínua sobre o que faz de alguém um sujeito: a educação, a linguagem, o corpo, o olhar dos outros, a memória. A amizade entre Lila e Elena não oferece um modelo conciliador; expõe, antes, a coexistência de afeto e rivalidade, de impulso de fusão e necessidade de separação. Nessa fricção, a psique feminina não é reduzida a estereótipo: é mostrada como campo de conflito, de aprendizagem e de criação de si.

Quanto a Nápoles, a escrita de Ferrante evita tanto a estilização turística como a herança direta do neorrealismo. O que emerge é uma cidade atravessada pelo “milagre económico” e, simultaneamente, presa a estruturas arcaicas de poder e de género. O resultado é uma paisagem moral onde o progresso material não apaga a dureza das relações, mas a torna, por vezes, mais aguda.

Talvez a força de A Amiga Genial resida precisamente aí: numa literatura que, sem proclamar teses, faz sentir como a formação de uma vida cria-se no entrelaçamento de vínculos opacos, de ambições contrariadas e de uma atenção obsessiva ao mundo próximo. Não é um romance “cor-de-rosa”; é um romance de iniciação em que a ternura e a crueldade caminham juntas, e onde a amizade, longe de ser refúgio, é o lugar onde se aprende a medir a própria potência.

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