Numa recente emissão de “La Grande Librairie”, Augustin Trapenard propôs uma pergunta tão simples quanto paradoxal: que pode a literatura — e o que podem os escritores — perante o estrondo do mundo? Não se tratava de saber se a literatura muda o mundo, mas antes como resiste a ele, como o pensa, como o atravessa sem se render ao ruído.
Os cinco romances convocados nessa noite não formavam uma escola nem uma resposta unívoca. Eram, antes, cinco gestos literários distintos, unidos pela recusa da indiferença.
Em “Zem”, de Laurent Gaudé, a distopia surge colada ao presente, quase sem mediação. O mundo que se descreve não é um futuro remoto, mas uma exacerbação do agora: a violência política, o medo, a fragmentação social. Gaudé escreve como quem empurra o real um passo adiante para melhor o tornar legível. A literatura funciona aqui como um amplificador ético, não para prever, mas para alertar.
Mais distante no tempo, mas não menos inquietante, “De l’autre côté de la vie”, de Fabrice Humbert, imagina um futuro em que a vida e a morte se tornaram territórios administráveis. A questão central não é tecnológica, mas moral: o que resta do humano quando tudo parece regulável, previsível, otimizável? Aqui, a literatura não denuncia tanto quanto interroga, abrindo um espaço de inquietação onde a certeza científica já não basta.
Com “Tovaenger”, de Celine Minard, o gesto é outro: deslocar o olhar. Ao acompanhar o quase invisível rio de Los Angeles, soterrado, canalizado, esquecido, o romance transforma um elemento marginal numa metáfora poderosa do apagamento. O mundo moderno não colapsa apenas em guerras ou catástrofes; colapsa também no que decide não ver. A literatura, aqui, age como arte da atenção, devolvendo espessura ao que foi tornado insignificante.
Já “L’Homme qui lisait des livres”, de Rami Elhanan, inscreve-se frontalmente na história e na ferida política. A vida de um livreiro palestiniano, nascido no dia da expulsão de 1948, torna-se o fio narrativo de uma reflexão sobre memória, perda e dignidade. Ler, neste contexto, não é evasão: é sobrevivência simbólica, uma forma de manter vivo aquilo que a violência procura apagar.
Por fim, “Les Certitudes”, de Marie Semelin, assume uma posição mais polémica, revelando simpatias sionistas que atravessam a narrativa. O interesse do livro, no contexto desta emissão, não reside tanto na adesão ou rejeição das suas teses, mas no facto de lembrar que a literatura é também um campo de confronto, onde as convicções se expõem, se discutem, se arriscam.
O que une estes cinco romances não é uma resposta comum ao caos do mundo, mas a recusa de abdicar. Nenhum deles promete redenção. Nenhum oferece soluções. Todos, porém, afirmam que a literatura pode ainda pensar contra o esmagamento, criar zonas de lentidão, de complexidade, de resistência ao simplismo.
Perante le fracas du monde, a literatura não grita mais alto. Faz outra coisa: escuta, desloca, interroga, conserva. Talvez seja pouco. Talvez seja tudo o que pode. Mas é nesse gesto — frágil, obstinado — que continua a justificar-se.

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