terça-feira, janeiro 20, 2026

Os nossos sanguinários “heróis”

 

Assisti, há dias, a um documentário na televisão francesa que operou uma verdadeira catarse histórica sobre Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque. O programa lançou uma luz crua sobre factos que a narrativa nacional insiste em dourar, revelando um contraste gritante com a mistificação do "heroísmo" dos “descobridores” que foi cimentada durante o regime fascista.

É perturbador perceber como essa construção ideológica do Estado Novo — que transformou conquistadores em santos laicos e massacres em missões civilizadoras — tarda em ser desmontada no nosso presente democrático. Vivemos ainda sob o peso de uma herança que prefere o conforto do mito à crueza da verdade.

O documentário detalhou o horror do navio de peregrinos Miri, em 1502. Vasco da Gama, longe de ser o navegador diplomata dos nossos manuais, agiu com um sadismo arrepiante: intercetou uma embarcação com centenas de pessoas (incluindo mulheres e crianças), recusou todas as ofertas de resgate e ordenou que o navio fosse incendiado e canhoneado. O "herói" assistiu friamente, durante dias, à agonia daqueles que morriam queimados ou afogados.

Esta violência não foi um caso isolado, mas uma estratégia deliberada. Em Calecute, Gama enviou ao governante local um barco carregado de mãos, narizes e orelhas de pescadores cortados, sugerindo-lhe que fizesse "um caril". Esta é a face da nossa expansão que a censura e, mais tarde, o hábito democrático, decidiram omitir.

Um dos pontos mais fortes do documentário foi recordar como o Portugal democrático lidou com o legado de Gama em 1998. Enquanto internamente se celebravam os 500 anos da chegada à Índia, escondeu-se da generalidade dos portugueses o profundo repúdio dos indianos. Na Índia, especialmente em Querala, a data foi recebida com protestos veementes e efígies do navegador foram queimadas. Para eles, Gama não é o homem que "descobriu" o caminho, mas o invasor brutal que inaugurou séculos de opressão.

Se Gama foi o punho, Afonso de Albuquerque foi a mente geopolítica, mas igualmente implacável. A sua "Diplomacia das Naus" baseava-se no medo. Ao conquistar Goa, ordenou o massacre sistemático da guarnição e população muçulmana para enviar uma mensagem aos reinos vizinhos.

A persistência desta visão edulcorada no nosso presente mostra que a descolonização mental ainda está por fazer. Continuamos a celebrar figuras que exerceram uma brutalidade atroz sobre os povos da região apenas para sugarem as suas riquezas, tratando esses crimes como meras "notas de rodapé" de uma epopeia gloriosa.

O documentário francês não foi apenas uma lição de História; foi um espelho que nos obriga a perguntar por que razão, em plena democracia, ainda sentimos a necessidade de esconder os esqueletos de um império que nunca foi tão suave como nos ensinaram a acreditar.

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