sábado, janeiro 17, 2026

Homens que falam, mulheres que decidem

 

Os anos 30 foram uma década de ouro para o cinema francês. Entre a transição do mudo para o sonoro e a eclosão da Segunda Guerra Mundial, floresceu o "realismo poético" - estilo que combinava o realismo social com uma atmosfera de fatalismo lírico, onde personagens comuns enfrentavam destinos trágicos em cenários cuidadosamente construídos. Jean Renoir deu-nos "Boudu Salvo das Águas" (1932), "O Crime de Monsieur Lange" (1936) e "A Grande Ilusão" (1937). Marcel Carné, que começara como assistente de Jacques Feyder, realizaria "Quai des Brumes" (1938) e "Le Jour se Lève" (1939). Jean Vigo deixou-nos "L'Atalante" (1934) e "Zéro de Conduite" (1933).

Jacques Feyder foi figura central nesta revolução estética e mentor de uma geração de cineastas, embora tenha caído num esquecimento quase total. A morte relativamente precoce em 1948 e a hostilidade de alguns críticos influentes dos Cahiers du Cinéma nos anos 50 contribuíram para este apagamento injusto.

Nascido na Bélgica em 1885 como Jacques Léon Louis Frédérix, Feyder mudou-se para Paris aos 25 anos, onde adotou o nome artístico e começou como ator antes de passar à realização. Dirigiu filmes mudos nos anos 20 - "L'Atlantide" (1921) e sobretudo "Crainquebille" (1922), adaptação do romance de Anatole France sobre a vida parisiense, que deu-lhe reputação como realizador empenhado no realismo.

Em 1928 naturalizou-se francês e partiu para Hollywood, onde dirigiu Greta Garbo em "The Kiss" (1929), o último filme mudo dela. Mas desiludido com o sistema dos estúdios, regressou a França em 1933. Nos anos seguintes realizou três dos seus filmes mais importantes, todos em colaboração com o argumentista Charles Spaak e com a esposa Françoise Rosay em papéis principais: "Le Grand Jeu" (1934), melodrama de ritmo acelerado com cenários exóticos; "Pension Mimosas" (1935), drama contemporâneo mais contido; e "La Kermesse Héroïque" (1935), farsa satírica de época que lhe valeu vários prémios internacionais.

Feyder foi mestre do realismo poético antes mesmo do termo existir. Os filmes acumulavam detalhes criteriosamente escolhidos, rodavam-se em exteriores ou cenários elaboradamente desenhados e contrastavam com o estilo "impressionista" de alguns contemporâneos dos anos 20 como Abel Gance, Marcel L'Herbier e Jean Epstein, apontando o caminho para o género que encontraria expressão mais enfática nos filmes de Marcel Carné - seu assistente de realização nesses anos 30.

Filmado entre agosto e outubro de 1934 e estreado em Paris em janeiro de 1935, "Pension Mimosas" é um drama psicológico passado em duas épocas. Em 1924, Louise Noblet (Françoise Rosay) gere com o marido Gaston (André Alerme, barrigudo e truculento) a Pensão Mimosas na Riviera Francesa. Os clientes são sobretudo jogadores sem sorte que esperam vencer no casino local. Sem filhos próprios, Louise e Gaston acolheram o pequeno Pierre enquanto o pai cumpria pena de prisão. Ficam desolados quando o pai é libertado antecipadamente e vem buscar o filho.

Dez anos depois, em 1934, Pierre (Paul Bernard) é um jovem que vive em Paris entre jogadores e bandidos. Jogador inveterado, sedutor, vigarista, continua a explorar os sentimentos dos antigos pais adotivos para lhes extorquir dinheiro. Quando as dívidas crescem, Louise vai a Paris buscá-lo de volta à Pensão Mimosas. Mas Pierre traz consigo Nelly, a namorada volúvel...

Aquilo que poderia parecer à partida um filme onde o patriarcado manda - um patrão de hotel e casino, um jovem que faz de galã e pensa sempre safar-se com manobras - revela-se o retrato de mulheres de carácter com uma delas a dominar todas as outras.

Françoise Rosay encontra aqui um papel à sua justa medida. Gere o marido com a mesma destreza com que gere a pensão. Numa cena magnífica, acaba por lhe arrancar um patético assentimento a uma série de perguntas retóricas: "Não estavas hipotecado, pois não? Não me suplicaste que casasse contigo, pois não? Não me ameaçaste suicidar-te, pois não?" - "Sim..."

Temporiza, igualmente, perante clientes difíceis, encontrando soluções para gerir a namorada de Pierre e seus múltiplos problemas financeiros.

Ela paira sobre o conjunto do filme como mulher forte que uma única pequena fraqueza anima... Acabará por admiti-la, por ceder-lhe? Será toda a beleza da cena final.

Outras mulheres agitam-se à volta. A sedutora Nelly, com o seu charme calculista. E numa pequena mas vibrante participação, Arletty interpreta "la Môme Parasol" que lamenta (quase amargamente) não ser capaz de "ir para a cama com velhos" para ganhar a vida.

A verve e o vernáculo (Charles Spaak nos diálogos) caracterizam a parte do filme onde Louise introduz-se no "meio parisiense" - entre duas sequências que decorrem na pacífica Pensão Mimosas, contactando alguns marginais de estilo muito colorido.

Por contraste, os homens são figuras que, apesar do barulho que fazem, pesam pouco. Gaston berra mas obedece. Pierre manipula mas depende totalmente de Louise para safar-se dos problemas que cria. Os clientes jogadores são patéticos na obsessão com o dinheiro. O dinheiro constitui aliás um dos temas essenciais do filme: abre com aprendizes de croupiers e termina com um fabuloso "turbilhão de notas" (bela homenagem visual à roleta) que mostra até que ponto a "fortuna" de uns e outros pode... girar. Se o dinheiro permanece ilusão em que os homens afogam-se mais do que as mulheres, será o amor igualmente maldito? Serão as histórias de amor apenas de sentido único?

"Pension Mimosas" foi subversivo para a época não apenas por dar às mulheres papéis fortes, mas sobretudo por abordar com simpatia o amor quase incestuoso de uma mãe adotiva pelo filho. A tensão evidente que existe entre Louise e Pierre torna a relação ainda mais complexa: Nelly, a noiva de Pierre, suspeita fortemente que a "madrinha" está apaixonada por ele. Podemos dar-lhe razão?

Quando vê o interesse entre Pierre e Nelly, Louise inicialmente sente apenas irritação. Mas depois, numa reviravolta mesquinha reveladora, decide seduzi-lo - não por ele próprio, mas de forma a afastá-lo dela, de o manter para si.

Louise torna-se uma personagem da linhagem das figuras de Feyder que são arruinadas ou destruídas por um amor inadequado. E no entanto, mesmo quando a natureza dos sentimentos pelo filho adotivo se sobrepõe, ela retém a nossa simpatia. Ficamos comovidos, não chocados, pela mulher de meia-idade que perde o coração por um homem com metade da sua idade e depois arruína a vida dele quando o ciúme sexual faz o pior.

Embora possa parecer um melodrama comum dos anos 30, "Pension Mimosas" foi também revolucionário pela profundidade psicológica e maturidade com que aborda temas delicados. Um crítico contemporâneo julgou que o filme mostrava o verdadeiro Jacques Feyder, trabalhando por e para si próprio, criando uma história poderosa e comovente que era também cheia de delicadeza e humor; as personagens, reais e diretamente apresentadas, deviam muito à qualidade excecional dos diálogos e à escolha de atores capazes de representarem uns para os outros em vez de para a câmara.

Françoise Rosay (1891-1974), que casara com Feyder em 1917, teve muitas interpretações competentes nos filmes do marido. Mas nenhuma foi tão exigente ou poderosa quanto esta. Feyder escreveu uma dedicatória numa cópia do argumento à "emoção avassaladora" que ela trouxe ao papel. Mesmo críticos dececionados com outros aspetos do filme concordavam: "Embora nem tudo seja perfeito neste filme, pode-se dizer que o cinema raramente mostrou uma personagem humana e viva tão complexa como a retratada por Françoise Rosay, com tão maravilhosa inteligência e arte."

Rosay encontrou em Louise Noblet uma personagem à sua medida - uma mulher que não é vítima passiva mas agente ativa do seu próprio destino e dos que a rodeiam. Uma mulher capaz de gerir um negócio, um marido difícil, clientes complicados, e ainda assim ser vulnerável a uma paixão impossível.

Olhando retrospetivamente para as suas carreiras, nenhum dos dois foi tão bom sem o outro - a força dele como argumentista-realizador e a deles como equipa de realizador-atriz e argumentistas (ela colaborava frequentemente nos argumentos) representou a principal contribuição para o reavivamento da tradição realista no cinema francês.

A sobriedade de estilo e a falta de elementos sensacionalistas de "Pension Mimosas" impressionaram os críticos. Um historiador de cinema contemporâneo disse: "Redescobre-se [em Feyder]... uma simplicidade que beneficia a revelação frequentemente profunda do drama psicológico através da interpretação dos atores."

O filme foi rodado maioritariamente em estúdio (nos estúdios Tobis em Épinay), com alguns exteriores na Côte d'Azur mostrando o casino de Menton, os jardins e piscina, e algumas cenas em Paris. A contenção visual serve o drama íntimo, permitindo que a complexidade psicológica das personagens e a qualidade dos diálogos dominem.

O realismo de "Pension Mimosas" influenciou o cinema tal qual se expressaria em França nessa década e em parte da seguinte, especialmente em Marcel Carné, que reconheceu "a presença invisível" de Feyder como se ele estivesse ao seu lado quando passou a realizar os próprios filmes.

Durante as filmagens de "Pension Mimosas", Carné - então assistente de Feyder - conheceu Arletty, que tinha um pequeno papel. Ela tornar-se-ia a sua atriz favorita e dez anos depois fariam juntos uma obra-prima do cinema francês, "Les Enfants du Paradis" (1945).

É curioso que este filme não tenha tido grande circulação nas décadas seguintes. Mas nada perdeu do seu charme e força - em homenagem ao sexo feminino, claro. O beijo final, quando o vento sopra as notas de dinheiro, é um dos mais memoráveis do cinema francês dos anos 30.

"Pension Mimosas" é, pois, um filme sobre o poder - o do dinheiro que circula e escapa, o do desejo que consome e destrói, mas acima de tudo o das mulheres que, mesmo quando cometem erros terríveis movidas pela paixão, mantêm uma dignidade e uma força que os homens à sua volta nunca alcançam. 

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