quarta-feira, janeiro 28, 2026

A bondade como missão

 

Há duas dúzias de anos tivemos genuíno prazer ao vermos o filme com a história de Amélie Poulain, que parecia inovador na inventividade, na revelação de uma atriz talentosa, Audrey Tautou, e de um compositor a ter doravante em conta, Yann Tiersen.

Veio depois a questão perturbadora: não era obra à medida dos valores lepenistas que andavam em inquietante ascensão em França? E as dúvidas tornavam-se pertinentes.

Desde então nunca mais o revi. Embora talvez o espreite quando hoje passar na Arte.

Quando "Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain" estreou em 2001, foi um triunfo absoluto. Com vinte e três milhões de espectadores em todo o mundo, e uma chuva de prémios, o filme de Jean-Pierre Jeunet tornou-se instantaneamente fenómeno de culto, com as cores ácidas, o hino à infância, o desafio à solidão.

Era impossível ficar indiferente à inventividade desregrada, ao leque de personagens secundárias (Dominique Pinon, ator fetiche de Jeunet, mas também Isabelle Nanty, Ticky Holgado), à voz de André Dussollier a narrar esta fábula. E sobretudo à revelação do filme: Audrey Tautou com framboesas nos dedos, máscaras de Zorro e a irreprimível necessidade de fantasiar a vida.

A música de Tiersen - a valsa melancólica ao acordeão, a cantilena hipnótica - tornou-se omnipresente. Ouvia-se em todo o lado, identificava-se imediatamente com o filme, com aquela Paris de sonho.

Amélie Poulain tinha 23 anos e vivia em Montmartre. Após a infância solitária e a perda trágica da mãe - esmagada por uma turista canadiana que caiu do campanário de uma igreja - passava os dias entre o trabalho de empregada de mesa no Café des 2 Moulins, e seu lote de clientes habituais, e o prédio com inquilinos estranhos: a porteira de coração partido, o vizinho com ossos de vidro que pintava incansavelmente "Le Déjeuner des Canotiers" de Auguste Renoir.

Para enganar a solidão e a melancolia, Amélie intervinha discretamente na vida dos outros. Devolvia uma caixa de tesouros de infância escondida há décadas. Ajudava a porteira a reconciliar-se com a memória do marido. Protegia um rapaz mentalmente frágil das humilhações do patrão. Manipulava um lojista cruel até levá-lo à loucura. E apaixonava-se por Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz), colecionador de fotografias rasgadas das cabinas fotográficas automáticas.

Amélie era uma espécie de fada boa de Montmartre, que reparava o destino alheio e não ousava enfrentar o próprio.

Visualmente, o filme impressionava. A fotografia de Bruno Delbonnel banhava tudo numa paleta saturada de verdes e vermelhos, criando uma Paris irreal, de postal. Montmartre não é o bairro verdadeiro - é uma construção onírica, um parque temático do pitoresco parisiense.

Jeunet, vindo do cinema fantástico e da ficção científica ("Delicatessen", 1991; "La Cité des Enfants Perdus", 1995; "Alien: Resurrection", 1997), trouxe para esta comédia romântica toda a sua bagagem visual. Os enquadramentos eram meticulosos, simétricos. Os movimentos de câmara coreografados ao milímetro. Havia um prazer táctil em cada plano - a textura das framboesas, o brilho do açúcar caramelizado no leite creme, a luz filtrada através das cortinas.

E as invenções narrativas: as pequenas manias que definiam cada personagem (elencadas pela voz off de Dussollier logo na apresentação), as fantasias de Amélie que invadiam a realidade (ela derretia-se literalmente quando beijada), os anacronismos propositados (a televisão anunciava a morte da princesa Diana em 1997, mas a estética era intemporal), os jogos com a narrativa (a câmara que perseguia um caracol através de Paris).

Mas depois do deslumbramento inicial veio o incómodo. Não seria esta Paris demasiado limpa, demasiado branca, demasiado pitoresca? Onde estavam os imigrantes que povoam Montmartre e o norte de Paris? Onde estava a diversidade de uma cidade cosmopolita?

O único personagem não-branco com alguma proeminência era Lucien (Jamel Debbouze), o empregado do café com deficiência mental, tratado com condescendência maternal por Amélie. Não havia árabes, não havia africanos, não havia a Paris multicultural real. Apenas uma Paris de sonho - e esse sonho era surpreendentemente monocromático em termos étnicos.

Serge Kaganski, crítico dos Inrockuptibles, escreveu na altura: "Amélie Poulain é um filme petainista". A acusação era dura mas tocava num ponto sensível. A Paris nostálgica, a comunidade de vizinhos que se entreajudavam, a bondade um pouco ingénua - não estariam demasiado próximas do discurso da extrema-direita sobre a "verdadeira França" que se perdeu?

Jean-Marie Le Pen qualificar-se-ia para a segunda volta das presidenciais de 2002, meses após a estreia do filme. A Frente Nacional crescia com um discurso de nostalgia, de pureza perdida, de comunidade ameaçada pela imigração e pela globalização. E eis que o filme francês de maior sucesso do ano oferecia exatamente essa imagem: uma Paris sem imigrantes, onde os franceses "de sempre" viviam em harmonia pitoresca.

Jeunet defendeu-se dizendo que não fazia documentário social, que criara uma fábula, um conto de fadas urbano. Mas o incómodo permanecia: porque é que o conto de fadas francês de maior sucesso internacional era tão etnicamente homogéneo?

Há algo profundamente reacionário na nostalgia, mesmo quando revestida de cores pop e música moderna. "Amélie Poulain" era um filme nostálgico de uma Paris que talvez nunca tenha existido, de uma comunidade de vizinhos que se conheciam e ajudavam, de uma vida simples onde pequenos gestos de bondade faziam a diferença.

Esta nostalgia não era necessariamente fascista. Mas era conservadora. Sonhava com um passado idealizado em vez de imaginar um futuro. E quando esse passado idealizado excluía sistematicamente certas presenças tornava-se politicamente problemático.

Compare-se com outro filme francês de sucesso internacional, "La Haine" (1995) de Mathieu Kassovitz - curiosamente o mesmo Kassovitz que interpreta Nino em "Amélie". "La Haine" mostrava a outra Paris, a das periferias, multicultural, violenta, desesperada. Era um filme politicamente consciente, que não escondia as fraturas sociais e raciais da França contemporânea.

"Amélie" fazia o oposto: escondia essas fraturas sob uma camada de fantasia açucarada. E ao fazê-lo, voluntária ou involuntariamente, alinhava-se com um certo discurso político que queri acreditar que essas fraturas não existiam, que a "verdadeira França" era a de Amélie - branca, pitoresca, harmoniosa.

E no entanto havia que reconhecer as qualidades do filme com alguns momentos de antologia: Amélie a partir pedras na superfície do Canal Saint-Martin, a descobrir os prazeres simples (partir a crosta do leite creme com a colher, enfiar a mão num saco de grãos), a imaginar-se nas notícias da televisão após a sua morte.

E havia a mensagem sobre a importância dos pequenos gestos de bondade, a coragem necessária para arriscar a felicidade, a ideia de que podemos fazer diferença nas vidas dos outros. Numa época de cinismo e ironia constantes, havia algo refrescante nesta ternura sem vergonha.

Passaram vinte e quatro anos. Le Pen não ganhou em 2002, mas a Frente Nacional (agora Rassemblement National) continua a crescer. Marine Le Pen chegou à segunda volta presidencial em 2017 e 2022. O discurso sobre a "verdadeira França" ameaçada está mais forte que nunca.

Rever "Amélie Poulain" hoje é uma experiência estranha. O prazer visual permanece, a música continua irresistível. Tautou continua encantadora. Mas o incómodo político também permanece, talvez ainda mais agudo. Aquela Paris de fantasia parece ainda mais irrealista, ainda mais problemática na sua brancura, ainda mais próxima - voluntária ou involuntariamente - de um certo imaginário político que preferíamos não reconhecer.

É possível separar a arte da política? Apreciar a inventividade visual de Jeunet enquanto se questiona a sua representação de Paris? Deixarmo-nos encantar pela fábula enquanto reconhecemos as omissões ideológicas?

Talvez. Ou talvez não. Talvez seja precisamente este desconforto - entre o prazer estético e o incómodo político - que torna o filme interessante de revisitar. Não como obra inocente de entretenimento, mas como sintoma de algo mais profundo na psique francesa do início do século XXI.

Quando hoje passar na Arte, talvez valha a pena espreitar. Não com a inocência de 2001, mas com os olhos de 2025, conscientes de tudo o que aconteceu entretanto. Ver se o prazer sobrevive ao escrutínio político. Ver se a fábula colorida ainda seduz, ou se soa agora demasiado a canção de embalar reacionária.

"Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain" permanece um filme a ter em conta - mas talvez não pelas razões que pensávamos há duas dúzias de anos. 

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