Há romances que avançam pela intriga e outros que se instalam, silenciosamente, num território. Les solidarités mystérieuses pertence claramente à segunda família. A sua matéria não é o acontecimento, mas a persistência: dos afetos, das paisagens, das fidelidades que não se explicam. Lê-se como quem entra numa zona costeira onde tudo parece imóvel e, no entanto, nada cessa de se mover.
O ponto de partida é simples: o regresso de uma mulher à terra da infância, na costa bretã. Mas rapidamente se percebe que este regresso não é nostálgico nem reparador. Não se trata de recuperar o passado, mas de reencontrar uma forma de exposição ao mundo. Claire — nome instável, quase flutuante — vive como alguém que aceita a própria porosidade: aos lugares, às pessoas, à dor, ao desejo, ao abandono. A sua presença no romance é menos a de uma personagem do que a de uma figura de passagem, uma linha de força.
O livro organiza-se por vozes sucessivas, mas nenhuma delas pretende fechar o sentido. Cada olhar acrescenta uma nuance, nunca uma verdade. Esta polifonia cria um efeito muito particular: Claire é constantemente descrita, observada, comentada — e, ainda assim, permanece inacessível. Quignard escreve aqui uma literatura do irretratável, onde a proximidade não produz esclarecimento, apenas intensificação.
O que dá unidade ao romance não é a psicologia, mas o lugar. A costa bretã não funciona como pano de fundo; é uma entidade ativa, quase um princípio ontológico. Falésias, caminhos, rochas, vento e mar não ilustram os estados de alma — eles pensam por eles. A paisagem não reflete as personagens: absorve-as, envolve-as, dissolve-as. Viver, neste livro, é aprender a entrar num ritmo mais antigo do que o humano.
As “solidariedades” do título não se reduzem aos laços familiares ou amorosos, embora estes sejam centrais. Há a ligação entre irmão e irmã, inexplicável e indestrutível; há o amor interdito, que persiste para além da decisão e da razão; há a filiação falhada, a maternidade interrompida. Mas existe também uma solidariedade mais vasta, quase arcaica: a cumplicidade entre os seres e o mundo sensível, entre o corpo e os elementos, entre a solidão e aquilo que a acolhe.
A escrita de Quignard acompanha este movimento com extrema contenção. As frases são curtas, claras, depuradas de ornamento. Nada é dito em excesso. Essa economia produz um efeito paradoxal: quanto mais a linguagem se retrai, mais o romance se expande interiormente. O livro parece murmurar em vez de afirmar, e é nesse murmúrio que reside a sua força.
Não é um romance consolador, nem edificante. Pelo contrário, aceita a violência do desejo, a falha das relações, a impossibilidade de conciliar tudo. Mas há nele uma forma de paz — não a paz da resolução, mas a da aceitação de uma fidelidade sem promessa. Viver pode ser apenas isto: permanecer ligado, sem saber porquê, a um lugar, a um ser, a um movimento.
Ao fechar Les solidarités mystérieuses, fica a impressão de ter lido algo próximo de uma lenda contemporânea, despojada de mitologia explícita, mas atravessada por uma sensibilidade muito antiga. Um romance onde os seres humanos passam como silhuetas — e onde, no entanto, deixam marcas duráveis, como a erosão lenta da água sobre a pedra.

Sem comentários:
Enviar um comentário