terça-feira, setembro 18, 2018

(I) Freud: de hipnotizador a psicoterapeuta


Em 1885 Freud era médico interno no Hospital Geral de Viena. Não propriamente porque para elas se sentira vocacionado, mas por constituir área menos procurada pelos colegas, especializara-se em doenças nervosas, que incluíam a histeria e outros distúrbios singulares. Tendo pressa em casar-se antevia ser essa a alternativa, que melhor lhe apressaria o anseio de fundar a sua própria família.
As doenças mentais eram dos ramos mais descurados pela medicina no século XIX, sujeitando-se os pacientes a tratamentos não muito diferentes de autênticas sessões de tortura, que implicavam ser acorrentados e sujeitos a banhos de água fria. Os «especialistas« de então acreditavam que a histeria e as doenças afins tinham causas físicas decorrentes de danos nos nervos ou de lesões cerebrais. Quando foi para Paris em 1885, para estudar com Charcot, Freud ainda partilhava essas opiniões.
O médico francês coordenava experiências tão estranhas quanto fascinantes., porque sujeitava pacientes histéricos a hipnose. Freud compreendeu, então, que os distúrbios mentais poderiam nada ter a ver com razões físicas. A tese de Charcot era a da existência de crenças algures na mente, que se interligavam fortemente com os sintomas dos pacientes. Freud viria a criar o conceito de subconsciente, que se tornaria determinante na explicação do funcionamento mental de qualquer ser humano.
Em 5 de abril de 1886, poucos meses depois do regresso de Paris, Freud abriu consultório num dos bairros mais elegantes de Viena, começando por recorrer à hipnose nos tratamentos aos seus doentes, surgindo assim o emblemático divã, que considerava facilitador no acesso à sua «segunda mente». 
Se as tentativas de garantir a cura por sugestão hipnótica nunca deram provas de resultar, é forçoso reconhecer que nenhuma outra terapia conseguia melhores resultados. Por isso complementava as estratégias de cura com os medicamentos igualmente prescritos pelos seus colegas, com choques elétricos e imãs.  Concluindo que nada resultava, decidiu seguir uma pista lançada pelo dr. Joseph Breuer, que conseguira resultados animadores com uma paciente, Anna O., através da conversa. Sofrendo de contrações, paralisias, deterioração visual e da fala, ela parecia melhorar quando instada a descrever os sintomas o que a levou a considerar que se estava a sujeitar a um «tratamento pela palavra», que se tornaria na base do que viria a ser a psicoterapia.
Recorrendo ao mesmo método, Freud convidou os pacientes a contarem exaustivamente como tinham começado a desenvolver os sintomas, relacionando-os rapidamente com algumas experiências traumáticas de cariz sexual durante a infância. O que propôs logo gerou polémica: as neuroses pareciam ter inequívocas origens sexuais, fosse por efetivos abusos, fosse por fantasias reprimidas e recalcadas.
O sexo até viria a revelar-se omnipresente no consultório de Freud, porquanto se via alvo dos sentimentos amorosos das pacientes. No final de uma sessão uma mulher abraçou-o e deu-lhe um beijo apaixonado. Excitado como cientista, logo procurou compreender que enigma poderia explicar essa inesperada atração sobre as pacientes.  Não demorou muito a compreender que elas transferiam para si os sentimentos amorosos que haviam recalcado por terem nos próprios pais o secreto foco.
A transferência também passou a constituir uma das principais ferramentas da psicoterapia.

Sem comentários: