terça-feira, maio 19, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: O casamento como uma das belas artes

«Du mariage consideré comme une des beaux arts» é o ensaio assinado a quatro mãos por Julia Kristeva e Philippe Sollers, que acaba de ser publicado em França. Para eles o casamento não é mais do que o encontro lúdico entre duas infâncias, sem nada a ver com  fusões ou aquisições, balanços ou dividendos, mas com liberdade, igualdade e fraternidade.
Com 48 anos de conjugalidade feliz, Sollers e Kristeva consideram o amor como um projeto republicano, às vezes com convidados.
Ela viera da sua Bulgária natal e vira-o pela primeira vez num jornal comunista chamado «Clarté», onde Sollers proclamava a intenção de mudar o mundo através da transformação da própria linguagem. Estava-se na época do Nouveau Roman e a discussão sobre significados e significantes obcecava a intelectualidade bem pensante. Fascinada por ele, Kristeva decide pedir-lhe uma entrevista e nunca mais o deixou…
Estava-se em vésperas do maio de 1968 e a referência ao encontro de infâncias tem precisamente a ver com a urgência em libertarem-se do que era até então proibido pelos pais ou pelos poderes ainda vinculados a fronteiras físicas bem precisas. A começar pela sexualidade.
Vinda de um país comunista, a futura psicanalista não estava habituada a uma perspetiva tão aberta quanto começava a impor-se na juventude francesa a respeito do prazer proporcionado pelos corpos. Sollers terá sido para ela o guia inspirador das novas experiências, que a levariam a nunca mais se identificar com o universo fechado donde proviera.
E a igualdade absoluta entre ambos, também constituiu um requisito tácito assumido por ambos desde o início: “um e outro, em igualdade, conservam a sua personalidade criativa, estimulando-se continuamente.”
A paixão física e intelectual é potenciada por todo o espírito libertário da época, que os incita a viver a relação amorosa por trilhos em rutura com os cânones seguidos até então. Mesmo que a formalizem num casamento então visto como algo de «pequeno-burguês». Mas essa era concessão ínfima à necessidade de a dotar da nacionalidade francesa e não ter de regressar a Sofia, acabada a sua bolsa de cinco anos em Paris.
Desde então eles encontraram a arte de transformar as diferenças irreconciliáveis em divergências partilháveis.
Quando abordam a questão do ciúme perante o risco da infidelidade, Kristeva puxa dos galões de investigadora das pulsões mais recalcadas e demonstra como ele é a expressão de uma pulsão homossexual. Mas ambos defendem a importância da reserva de aspetos da vida pessoal, que merecem ficar num compartimento secreto. E Sollers dá o exemplo de Sartre, que defendendo o princípio da maior transparência possível de todas as suas atrações afetivas, não deixava de ter imensos segredos, que não revelava a Simone de Beauvoir.
Em suma, ambos assumem que o amor não é uma lei, não é uma religião, mas uma das belas artes, que nem sequer a morte ameaça, porque ela não é senão o … nada!

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