domingo, maio 03, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Melbourne» de Nima Javidi

Há três anos ficámos rendidos ao filme «A Separação» de  Asghar Farhadi, que ganhou, entre muitos outros prémios, o Urso de Ouro em Berlim e o Óscar de Melhor Filme  Estrangeiro em Hollywood.
De súbito abandonávamos as paisagens agrestes de Kiarostami e víamo-nos enclausurados na casa de um casal de classe média, dividido entre a vontade de partir do ambiente asfixiante da capital iraniana e o dever de ali permanecer para cuidar dum progenitor atingido pelo alzheimer.
Não é só por contar com Peyman Mardi como protagonista, que o filme de Nima Javidi remete para esse título. Porque estamos novamente no seio dessa mesma classe média iraniana e de igual vontade em partir. Melbourne  representa a terra prometida, esse paraíso na Terra para cujo voo libertador apenas faltam algumas horas.
É a partir dessa premissa que os dois filmes se distanciam. Porque onde Asghar Farhadi punha um casal a digladiar-se por ter deixado de ambicionar o mesmo projeto, Javidi mantém-nos solidários, mas em tensão semelhante devido à pressão exercida pelos outros, sejam eles, familiares, vizinhos ou meros desconhecidos.
A atmosfera torna-se claustrofobizante, porque eles têm um bebé morto em casa e pretendem que não constitua obstáculo bastante para impedir a saída. É que continuar em Teerão significa ver desmoronadas as suas ambições. Por isso as campainhas a tocar, os telemóveis a apitar, as pessoas a quererem ir mais além do que a soleira da porta onde terão batido, só gera inquietação.
A casa, que deveria ser lugar de proteção, passa a estar exposta ao exterior e, por isso mesmo, é o próprio casal que se vai alterando, desconfiando um do outro, desagregando-se.  No final, mesmo partindo, nunca mais serão os mesmos... 

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