Vemos, ouvimos, lemos e experimentamos. Tanto quanto possível pensamos pela nossa própria cabeça...
sábado, agosto 26, 2017
sexta-feira, agosto 25, 2017
(AV) Quando Miró trocou Barcelona por Maiorca
No ano em que nasci - 1956 - Miró tomou a decisão de se mudar da cada vez mais trepidante Barcelona para Palma de Maiorca, onde a luz, o mar e o sol prometiam ganhar uma enorme influência na sua obra. Instalar-se na ilha que, na infância, costumava visitar todos os verões a pretexto de passar férias em casa dos avós maternos, fazia todo o sentido, porque adivinhava nada ter ali que inventar. Tudo estava ali diante dos seus olhos para se espraiarem nas suas telas e murais. Ademais não fora ali que desposara o seu amor de infância, Pilar, também ela maiorquina?
Até então, e desde a década de 20, Miró passara por todos os géneros artísticos: do fauvismo saltara para o cubismo e deste para o surrealismo. Ganhara reputação como artista, mas sentia-se insatisfeito com a exiguidade do atelier e da sua imaginação. Por isso decide instalar-se na maior das ilhas Baleares.
Um arquiteto amigo, discípulo de Le Corbusier, desenha-lhe a casa na periferia de palma, abrindo-a para o horizonte marítimo e banhado de luz. O azul do seu famoso tríptico reproduz a cor do espelho líquido com que depara todas as manhãs.
Não muito longe dali também vai até à Catedral onde gosta de se recolher e ouvir, quando as circunstâncias o proporcionam, o som do seu órgão.
Nos anos que se seguirão Miró encontra o seu estilo abstrato e diversifica a paleta das cores nos seus quadros. Terá sido ali que verdadeiramente se encontrou. A exposição que, em breve, poderemos apreciar no Palácio da Ajuda será uma oportunidade única para captarmos algo dessa sua interligação com um espaço, que fez definitivamente seu.
(DL) A modernidade de Balzac ao assumir a cidade como personagem
Nunca fui um entusiasta da obra de Honoré de Balzac, embora tenha chegado á adolescência com o lançamento de uma coleção dedicada à sua «Comédia Humana». A ideia que dela então me ficou foi a de um conjunto de enredos muito datados, aos quais preferiria os de Zola, politicamente mais consequentes para a época então vivida (o final dos anos 60).
Agora, ao ler um dos capítulos do «Porquê Ler os Clássicos», Italo Calvino dá-me razões para vencer o preconceito e talvez reensaiar a leitura de uns quantos volumes na biblioteca cá de casa ainda por serem abertos verdadeiramente pela primeira vez. Mesmo que «Ferragus», aquele sobre que o ensaísta italiano se debruça neste texto de 1973, não seja um dos que me esteja, de imediato, acessível.
Calvino realça no romance em causa a capacidade para “representar os bairros e as ruas como personagens dotadas cada uma de um carácter em oposição aos outros”.
O verdadeiro protagonista não é Auguste de Malincour nem o que dá título ao livro mas a cidade viva, o monstro Paris. É claro que existe o super-homem que se vinga da sociedade de que foi banido transformando-se num demiurgo inatingível inspirador da posterior chegada dos Montecristos ou dos Fantasmas da Ópera à Literatura das décadas seguintes. Mas Balzac quase esquece a intriga e deixa-se fascinar pelo poema topográfico de Paris. Calvino intui ter sido ele o primeiro a compreender-lhe a linguagem, a ideologia, capaz de condicionar todos os pensamentos, palavras e gestos: “toda a força romanesca está apoiada e condensada pela fundação de uma mitologia de metrópole. Uma metrópole em que também cada personagem, como nos retratos de Ingres, parece o dono do seu próprio rosto”.
Será o direcionamento dos personagens para o espaço em que evoluem e que os irá condicionar, que faz de Balzac um autor de rutura com os cânones até então seguidos para a criação do romance.
quarta-feira, agosto 23, 2017
(AV) O artista e o seu modelo
Faltam menos de duas semanas para fechar a exposição «Raphael: The Drawings», que está a decorrer no Museu Ashmolean de Oxford. Desconhece-se quando se poderá voltar a apreciar a sumptuosa sensualidade da obra do pintor italiano que, desde muito cedo, cuidou de iluminar a pele das suas personagens como se a luz as acariciasse, suscitando-lhes inequívoca languidez nos olhares. O amadurecimento só o faria incrementar a sugestão sexual dos seus desenhos e pinturas.
Isso mesmo está à vista nos estudos preparatórios para a Villa Farnesina de Agostino Chigi, datados de 1517-1518, em que ilustrou concupiscentes raparigas, com destaque para uma delas de perfil, ajoelhada e a levantar um braço. O giz vermelho foi substituído pelo preto em três localizações precisas a fim de lhes enfatizar o encanto: as axilas, o mamilo direito e os pelos púbicos. Segundo o relato de Vasari o próprio encomendador cuidou de manter a modelo em sua casa durante a criação da obra para que Rafael dela se inebriasse antes, durante e depois das sessões de trabalho, e representasse a paixão inflamada que o animava.
(DL) Um breve momento de felicidade antes do horror
Em 1931 os filhos do escritor Thomas Mann partiram para a Côte d’Azur para escreverem um texto irreverente destinado à revista Baedeker, que procurava dar dos cenários mais glamourosos de então uma perspetiva diferente.
Com 26 e 25 anos respetivamente, Erika e Klaus gostavam de se apresentar como gémeos em todos os espaços por onde decidiram passear-se com a intenção de os verter em descrições irónicas, Dos casinos às esplanadas, dos hotéis às frequentadas praias, eles não podiam imaginar quão em perigo estava esse mundo descontraído em breve ameaçado pelo regime em breve implantado no seu próprio país. Nas semanas em que ali vão acumulando e até partilhando amantes, sendo ele homossexual e ela deitando-se quer com os parceiros do irmão, quer com raparigas fascinadas pela sua sensualidade, os jovens Mann terão vivido os momentos mais felizes das respetivas existências.
Obrigados a exilarem-se tão só Hitler empossado como führer, Klaus iniciará uma queda no abismo, que o levará ao suicídio em 1949, quando o álcool e os comprimidos o haviam já convertido num farrapo. Ainda assim tivera disponibilidade bastante para deixar como obra testamentária esse «Mephisto», que dá uma perspetiva tão desesperada do que foi esse sinistro período da História alemã. A irmã sobreviver-lhe-ia vinte anos, mas não deixaria de, enquanto exilada nos Estados Unidos, sofrer nova perseguição ou não se convertesse num ódiozinhos de estimação dos macarthistas.
Ao revisitar-se os textos resultantes da viagem de 1931 não pode deixar-se de sentir um certo frémito por serem os de quem não imaginava quanto tudo se lhes viraria do avesso e os deixaria a contas com ameaças, que nunca deixariam de os assombrar até ao fim.
terça-feira, agosto 22, 2017
(DIM) Antes da Revolução segundo Bertolucci
Nos anos que precederam a Revolução de Abril muito me forjaram os filmes, que via nas Quinzenas do Monumental ou nas Sessões do Império. Ali vi os primeiros Bergman ou os Antonioni, sem esquecer os da nouvelle vague. Mas havia a noção de sobrarem tantos e tantos filmes importantes, que a Censura nos impedia de conhecer. A esses só eventuais idas ao estrangeiro poderiam revelar-se acessíveis, mas elas ainda eram pouco frequentes e, no meu caso, restringiam-se a Espanha onde as limitações eram as mesmas.
Quer isso dizer que só vi Prima della rivoluzione de Bernardo Bertolucci doze anos passados sobre a sua realização. O que já era tarde para o tema ali desenvolvido; a Revolução, pelo menos a de abril de 1974 já passara e, dois anos depois, mergulhava-nos numa tal ressaca que só pensávamos como tudo estivera tão próximo de alcançarmos, mas deixáramos perder-se por conta dos defensores da liberdade dos mercados e do bonito respeitinho, que a todos impunha juizinho (O’Neill dixit!).
A exemplo de Fabrizio a minha orientação para a utopia igualitária não teria sido evidente à luz da classe a que pertencia: é verdade que os avós tinham sido camponeses ou proletários e o meu pai começara por trabalhar ao torno numa das muitas oficinas de Alcântara. Mas estudara, evoluíra, convertera-se num técnico com direito a automóvel e férias anuais em cada verão. A aposta de futuro residia em dar estudos universitários aos filhos e que estes não se metessem nas perigosas andanças da política. Por muito que ele próprio cultivasse a prática de ouvir clandestinamente as emissões radiofónicas vindas de longínquas paragens.
A identificação com Fabrizio contara com outra similitude: também eu tivera um professor de liceu que me alertara para uma realidade bem diferente da do salazarismo. Nunca deixarei de evocar a importância que o Padre Augusto Sobral teve na minha geração ensinando-nos a gostar das músicas do Zeca ou dando dos movimentos anticoloniais uma versão bem distinta da oficial, que os reduzia à ultrajante definição de turras.
Quer isto dizer que, aí por 1972, já andava a sonhar com alternativas bem diferentes, que levassem até ao desiderato ideal dessa intenção parisiense de procurar praias debaixo das pedras da calçada nos idos de 1968, altura em que também as universidades norte-americanas andavam imersas em gás lacrimogénio e em combates violentíssimos entre estudantes e polícia de choque.
Ao contrário de Paul Nizan suspeitava estar então à beira da mais bela idade, que se poderia ter.. Porque tudo parecia ser possível, tão forte parecia ser a vontade de acabar com todas as injustiças e desigualdades.
Onde o filme de Bertolucci me teria então incomodado seria na forma como Fabrizio desistiria do desígnio da sua vida e acabaria rendido ao tédio, mas também às mordomias da existência burguesa. Primeiro desvio de agulha fora a relação com a tia mentalmente fragilizada, mas capaz de dele se afastar, quando compreendeu o mal que lhe podia vir a fazer. Depois esse cansaço em ser-se quem não se é capaz de ser: em vésperas de casar Fabrizio reencontra a amada parente e compreender serem os anos antes da Revolução os que para ele podem significar maior doçura e satisfação…
Sem adotar essa condição burguesa com que o protagonista do filme se compraz no final - mesmo que com evidente desconforto! - também me vi por essa altura obrigado a respeitar as imposições das circunstâncias. A vida familiar ganhou prioridade sobre o quixotesco desafio a moinhos de vento. Mas nunca terei perdido essa ética da transformação da realidade, que impusesse outros modos de vida, que não estes em que vamos sobrevivendo...
(DL) Livro que é livro, em papel é!
Andando já nos sessentas não me vejo a substituir os livros em papel pelas suas versões digitais. E, no entanto, em tempos idos, teria sido um entusiasta dessa solução. Mas esses eram os anos em que saía de Lisboa para Miami ou Tóquio a fim de embarcar em navios e metade dos quarenta quilos de carga eram livros para desfrutar nos quatro ou cinco meses seguintes.
Só nessa situação admito que a alternativa seria aliciante, porque me facilitaria - e muito! - o esforço de carregar com tal peso. Nesse aspeto nunca esquecerei a experiência vivida em Gove, um minúsculo aeroporto no norte da Austrália onde iria ao encontro do «Team Trinta» e a pobre da hospedeira me mandou esperar pelas malas do outro lado da vedação, que separava a pequena pista da estrada onde o carro do agente me aguardava. Manifestamente não fora ela quem, em Cairns, carregara as malas transferidas de Singapura. Cabendo-lhe então a tarefa contrária, era vê-la em aflições para a cumprir. Valeu-lhe, é claro, os meus pergaminhos de gentleman lusitano desrespeitando-lhe as ordens, e indo-lhe ao encontro para resgatar o que era meu.
É Lídia Jorge quem no sexto capítulo do seu «Contrato Sentimental» (2009) cita Umberto Eco para advogar que “os livros pertencem a essa classe de instrumentos que, uma vez inventados, não precisaram de ser aprimorados porque já estão suficientemente bons para serem usados para sempre, tal como o martelo, a faca, a colher ou a tesoura”.
Um livro é um bem inestimável de que não se prescinde com facilidade. Não há quem defenda a correlação entre a realização pessoal e a autoria de um livro, para além da criação de um filho ou a plantação de uma árvore? Por isso mesmo a autora de «O Dia dos Prodígios» considera que “o livro vegetal funciona como um prolongamento do corpo”. Por isso mesmo deve ser manuseado, cheirado, anotado, riscado, sublinhado, possuir marcas do seu uso. Um livro, que ficou incólume na biblioteca, sem nunca ter sido descoberto, constitui um inaceitável desperdício. E que se desmintam todas as teorias sobre a decadência da leitura, ou a supremacia definitiva das imagens sobre as palavras: em vez de rarearem todos os anos surgem novos escritores, tradutores, ilustradores e outros profissionais da indústria do livro, que a tornam mais pujante e exigente nas escolhas que nos abrigam a fazer.
segunda-feira, agosto 21, 2017
(DIM) Uma Mary nada feliz
Em anos recentes o cinema tailandês tem sido objeto de significativa aceitação graças aos premiados filmes de Apichatpong Weerasethakul, muito embora nenhum deles me tenha grandemente entusiasmado. Ainda assim manifestei a maior das disponibilidades para apreciar este «Mary is happy, Mary is happy» de Nawapol Thamrongrattanarit, quanto mais não seja pela sua diferença em relação ao tipo de propostas cinéfilas, que abundam por aí.
À partida há uma ideia aliciante: acompanhar o quotidiano de uma finalista do curso liceal através dos quatrocentos e tal tweets por ela publicados, embora tornem-se bastante mais relevantes as suas confidências junto de Suri, a amiga mais próxima. Ou os acidentes, que a levam amiúde ao hospital, seja por ingerir cogumelos alucinogénios, seja por receber choques do seu telemóvel de fabrico chinês.
Não nos escapam, igualmente, as dificuldades em concretizar o projeto de criar o Anuário do curso desse ano, garantindo com fotografias, que todas as colegas figurem ali representadas. Mas, porque os problemas amorosos das adolescentes parecem ser tão equivalentes em Banguecoque como em Lisboa, o que passa a centralizar a estória é a frustrada paixão por um rapaz, M., que lhe rejeita o namoro. Mary irá viver dolorosamente esse sentimento de rejeição.
Embora dure duas horas, ao fim de meia toda a novidade já se esgotou sem que nos voltemos a surpreender com o que quer que seja. Nem mesmo com a morte de Suri, só então capaz de deixar escrita a paixão, que sentia pela amiga. O que demonstra a tese de tanto se desejar o inalcançável, que não se chega a entender o quanto de gratificante poderia obter-se em algo tão ao seu alcance.
No final Mary regressa a casa, com o diploma na mala, mas sem grandes conclusões quanto ao que a seguir irá fazer...
domingo, agosto 20, 2017
(DL) «Amuleto» de Roberto Bolaño
No próximo ano, quando os acontecimentos de 1968 forem recordados e reanalisados à luz do distanciamento imposto pela História, talvez o enfoque se coloque no sucedido em Paris, Praga ou na Universidade de Columbia nos EUA. Por instantes foi possível imaginar, que o movimento estudantil poderia arrastar atrás de si os operários e os trabalhadores em geral atirando o capitalismo para o caixote do lixo da História. Assim não foi, infelizmente, e temos assim sofrido mais meio século de exploração odiosa de uns e o esbulho das mais valias produzidas pela imensa maioria. Possa acontecer que a efeméride sirva para denunciar com maior contundência os crimes do neoliberalismo e as esquerdas se consigam unir a nível global para responder com outra eficácia à agudização contínua das desigualdades.
É provável que só a nível local se revivam os acontecimentos desse mesmo ano na Cidade do México, quando, em vésperas da inauguração dos Jogos Olímpicos, o exército invadiu a Cidade Universitária e matou um número indeterminado de estudantes, professores, funcionários e seus familiares, havendo quem os tenha contabilizado mais de mil vítimas. Foi o massacre de Tlatelolc.
Quem o invoca num dos seus romances é Roberto Bolaño através da personagem Auxílio Lacouture. Nascida em Montevideo, mas fascinada pelos poetas exilados na capital mexicana ou dali naturais, ela radicara-se ali começando por servir de empregada doméstica e governanta a León Filipe e a Pedro Garcias. Não auferindo deles qualquer retribuição cuidou de arranjar pequenos trabalhos administrativos ou de tradução na Faculdade de Letras e de Filosofia, sendo nesse edifício, que a História iria ao seu encontro. Porque, quando o exército desrespeitou a autonomia da instituição e a invadiu para dali levar presos quem ali se mantinha, ela porfia em esconder-se na casa de banho durante treze dias, só bebendo água, mitigando a fome com papel higiénico (sem muito sucesso!) e representando o papel de resistente aos ditames da ditadura.
Quando a sua estória é conhecida, Auxílio ganha a dimensão de personagem lendária, que se acrescenta à fama de ser já considerada a mãe da poesia mexicana. Mas nessa longa espera até o edifício ser devolvido aos seus legítimos ocupantes tem a oportunidade para nos transmitir tudo quanto vivera até ali, mormente os artistas e escritores com que partilhara o dia-a-dia. Nomeadamente Lilian Serpas, que em tempos fora para a cama com o Che, mas depois andava pelos cafés e bares a ganhar uns cobres com os desenhos produzidos pelo filho no seu voluntário exílio esquizofrénico. Ou a pintora Remedios Varo e os seus muitos gatos. Ou o chileno Arturo Belano, que viria a conhecer o horror do golpe de Pinochet e o compensaria numa catarse de drogas e de parceiros sempre muito jovens com quem comunicava num vocabulário inacessível aos mais velhos. Ou ainda o rei dos homossexuais do bairro Guerrero, que suscitava um ascendente de terror sobre quem tinha o infortúnio de o vir a ter como proxeneta.
O romance de Bolaño tem muitos crimes, mas testemunha um tempo preciso e irrepetível. Que o faça através do olhar pragmático de uma mulher só o torna mais surpreendente e inquietante.
sábado, agosto 19, 2017
(DL) Consciencializar o mal e não o conseguir erradicar
Não sendo um entusiasta da sua obra literária, confesso ter sentido alguma alegria, quando Nadine Gordimer ganhou o Nobel da Literatura em 1991, porque o mérito residia na forma como sempre utilizara os seus romances e novelas para denunciar e contrariar o apartheid.
Nascida em Springs, aldeia mineira não muito distante de Joanesburgo, desde miúda, que se habituou a ver da janela a separação entre os mineiros brancos e negros. Quando quis que lhe explicassem essa surpreendente realidade ninguém lhe soube dar uma resposta que pudesse entender. Daí por diante estaria atenta à grande diferença entre a qualidade de vida dos que viviam em bairros-da-lata e os que dispunham de agradáveis vivendas nos bairros brancos das cidades. E, no entanto, nessa terra onde nascera, o dinheiro era tanto que cresciam edifícios ao bom estilo art deco, que eram moda na Europa nesses anos vinte do século passado. As ideias políticas surgir-lhe-iam como resultado da consciência de quão desigual era a distribuição de rendimentos entre os seus concidadãos.
Ela não se contentaria em situar as suas histórias nesse ambiente mineiro: as estepes do highvelt ou o ambiente cosmopolita de Joanesburgo também figurariam como cenário de fundo de dramas sempre focalizados na segregação racial. Por muito que variassem os personagens ou os sítios onde viviam os seus dramas, motivava-a a obsessão com o desejo de uma sociedade bem diferente.
Quando Mandela foi liberto e o ANC levou por diante a democratização sul-africana, Nadine julgou possível acabar os dias numa sociedade mais justa, conforme com a utopia igualitária, que sempre a acompanhara. Claro que se desiludiu: não é apenas a vontade de um homem a virar do avesso uma cultura de opressão e de submissão. Mesmo que os oprimidos de ontem se arroguem do desejo de serem os repressores dos novos tempos.
Três anos depois do seu desaparecimento físico e com o mandato de Zuma a arrastar-se penosamente até novas eleições decidirem quem procurará fazer melhor, o legado de Gordimer ainda está por cumprir.
(AV) A infelicidade dos jovens na obra de Rafael
Entre 1509 e 1510 Rafael desenhou o estudo para o Massacre dos Inocentes, ilustrando nele a capacidade para suscitar a emoção dramática em quem viesse a apreciar a obra final. Nele vemos várias mulheres a tentarem salvar os filhos dos criminosos apostados em matarem-nos. Todos os personagens estão nus e avulta a personagem, que se agarra ao filho contra o peito como forma de o proteger. Mas são muitos outros os detalhes que poderemos apreciar: a expressão chorosa e de boca aberta de uma outra mãe, a criança do centro da composição quase em queda, o desespero de quem se procura afastar dos agressores.
É curiosa a frequência com que Rafael volta ao tema de crianças desprotegidas perante ameaças que as fazem procurem auxílio nos progenitores. Será que o pintor nunca se conseguiu livrar do trauma de ter ficado órfão de mãe aos oito anos e de pai aos onze? Será que as obras artísticas terão servido de paliativo para um sofrimento íntimo que nunca mais o abandonaria?
Não tendo como o provar, podemos ainda assim conjeturar que tal tese poderá fazer algum sentido!
sexta-feira, agosto 18, 2017
quinta-feira, agosto 17, 2017
(DL) Jean Rhys e as insanáveis dúvidas quanto ao sítio a que se pertence
Quando conheci a ilha de Dominica, nas Caraíbas, não a distingui grandemente de outras, que ali considerara semelhantes na exuberância da sua vegetação e no carácter quase selvagem das suas belíssimas praias. Na altura andava mal habituado: cirandando de ilha em ilha, deparava com cenários paradisíacos, como só viria a reencontrar depois nas Seychelles ou nas Maldivas. Não é fácil encontrar numa superfície ligeiramente inferior à de Portugal continental tantos rios e ribeiros ou seis florestas verdejantes.
Se sabia ter ali existido a exploração da escravatura como sustentáculo da rentabilidade das culturas do café, do cacau ou do açúcar, desconhecia ter sido ali que nascera uma das grandes escritoras inglesas do século XX, Jean Rhys, que se consagraria como uma das autoras de referência da escrita feminina desse período. Mais ainda, foi no ano do meu nascimento, 1956, que ela publicou o seu romance mais conceituado, «A Prisioneira dos Sargaços», que, embora situado no longo reinado da rainha Vitória, exprimia muito do que fora a insolúvel questão identitária da autora ao longo da sua vida. De facto, vivendo até aos 17 anos em Roseau, capital da ilha, Jean Rhys ainda ali pressentia os ecos dessa violenta forma de exploração humana. Embora condicionados pelos esforços de imposição da sua aculturação, os antigos escravos haviam conseguido preservar algo das suas tradições africanas na música, na dança e na gastronomia. Por isso mesmo olhava para a realidade à sua volta e encontrava-lhe expressões contraditórias em função das tonalidades da pele de quem as assumia.
Ela nascera dividida entre dois mundos: o da mãe, que provinha de uma dessas famílias de latifundiários sem escrúpulos relativamente á forma como haviam enriquecido, e o do pai, um médico, que servira na Índia e aceitara a transferência para aquela colónia inglesa na América Central. Na primeira Jean encontrava uma identidade crioula, mesmo que de pele alva, enquanto no progenitor, constatava a vontade de servir os outros, de tecer com eles elos de solidariedade. Politicamente essa visão refletia-se em posicionamentos distintos quanto à interpretação do passado, do presente e, sobretudo, do futuro.
A exemplo da heroína do seu romance Jean sempre verá sem resposta duas questões fundamentais: qual a comunidade a que pertencia? Qual o seu verdadeiro país? Essa estranheza fá-la-ia sentir-se desadaptada em todos os ambientes, que frequentava.
Mas essa singularidade complementava-se com a irrequietude em relação aos padrões definidos à sua volta para o que deveria ser o papel a mulher na sociedade. Jean Rhys não os aceita e nunca se cansa de, nos seus escritos, denunciá-los como limitadores do potencial que descobria em si e imaginava existirem no universo feminino.
Num mundo em que a globalização tende a diluir as questões identitárias e as conquistas femininas nunca deixam de ser postas em causa, a obra de Jean Rhys permanece atual e mereceria bem mais atenção do que vem tendo.
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