quinta-feira, agosto 21, 2014

LEITURAS: «A Mancha Humana» de Philip Roth (III)

Datado de 2001, «A Mancha Humana» é um dos romances mais interessantes de Roth, até pelo facto de nele convergirem muitos dos temas mais comuns em toda a sua vasta obra:  a dificuldade de se ser quem é perante uma sociedade depressa tomada pela tentação de estigmatizar quem, por razões de pele, de religião, de opinião ou de comportamento, não se coaduna com o que é tido como maioritariamente aceite.
Na terceira parte desta abordagem do romance, Coleman confessa-se ao seu amigo Nathan Zuckerman como alguém muito diferente do que lhe surgira pela frente quando se haviam tornado primeiro vizinhos, e depois amigos: “Antes de se tornar um reitor revolucionário, antes de se tornar um grave professor de estudos clássicos - e muito antes de se tornar o pária de Athena -, ele fora, além de um rapaz estudioso, um rapaz adorável e sedutor. Arrebatado. Travesso. Um pouco diabólico, até, um Pã de nariz arrebitado e pés de cabra. Noutro tempo, antes de as coisas sérias se imporem por completo. (pág. 37)
Se a vida já não estava a ser fácil para o velho professor por causa do equívoco causado pela utilização de uma expressão tida como racista, ainda pior se irá tornar quando começa a ser evidente a sua ligação amorosa com uma empregada doméstica quase analfabeta chamada Faunia Farley: “Trinta e quatro anos de surpresas selvagens deram-lhe sabedoria. Mas é uma sabedoria antissocial muito tacanha. Selvagem, também. É a sabedoria de alguém que não espera nada. É essa a sua sabedoria, é essa a sua dignidade, não é uma sabedoria negativa e não pertence ao tipo que nos mantém no rumo, dia após dia. Trata-se de uma mulher cuja vida tem tentado esmaga-la quase desde que ela existe. Tudo o que aprendeu vem daí.” (pág. 39)
Mas o passado de Faunia tivera um primeiro capítulo, que não pressuporia aquilo em que se viria a converter, já que nascera numa família rica do Sul do país e tivera uma infância privilegiada.
Tudo mudara quando os pais se divorciaram, tinha ela cinco anos. Quando a mãe voltara a casar, o padrasto passara a abusar dela, razão bastante para se pôr a milhas de casa, já que nem a mãe, nem o psiquiatra acreditavam na sua versão da realidade.
O casamento com um veterano do Vietname fora uma falsa solução, já que se via sujeita a sucessivas agressões. Daí também dele se ter separado. Mas, quando uma noite, estava com o novo namorado no carro estacionado perto de casa, não vira o incêndio, que lhe destruiria a casa e matara os dois filhos por asfixia. 
Farley nunca lhe perdoara o descuido que causara a morte das crianças.
É pois uma mulher mais complexa do que aparentaria a sua simplicidade a que torna Coleman reconciliado com a vida: “Sente-se mais do que feliz: sente-se emocionado, e já está ligado, profundamente ligado a ela por causa dessa emoção. Não é de família, não é responsabilidade, não é dever, não é dinheiro, não é uma filosofia partilhada ou o amor à literatura, não são grandes discussões de grandes ideias. Não, o que o liga a ela é a emoção.” (pág. 45)
E, como é normal nos livros de Roth, o sexo é para ser vivido intensamente: “Ele não está nisto para aprender, nem para fazer projetos, mas pela aventura, está nisto pelo mesmo motivo que ela: pelo gozo. Os trinta e sete anos que os separam concederam-lhe mais liberdade de ação. Um velho e, uma última vez, o ímpeto sexual. Há alguma coisa mais excitante para alguém?” (pág.46)
Novos entraves prejudicam, pois, o direito de Coleman à felicidade: na semana seguinte a contar a Zuckerman, ele recebe uma carta anónima: “Toda a gente sabe que explora sexualmente uma mulher molestada e analfabeta com metade da sua idade” (pág. 50)
Os olhos escondidos ameaçam empurra-lo de novo para a beira da estrada...


terça-feira, agosto 19, 2014

LEITURAS: «A Mancha Humana» de Philip Roth (II)

Philip Roth é um grande escritor norte-americano, que muitos teriam gostado de ver consagrado com o Nobel, mas a exemplo de outros casos famosos (Borges, Amado, Greene) sempre foi preterido pela Academia Sueca tantas vezes tentada a consagrar autores facilmente olvidáveis depois de alguns efémeros momentos de glória.
De origem judaica, Roth sempre questionou o puritanismo sexual e o conservadorismo da sociedade onde cresceu, quantas vezes tentada a formas de ostracização, que dá dela uma imagem oposta à da terra das oportunidades.
«A Mancha Humana» tem a ver precisamente com preconceitos e segregação dos que são tidos como diferentes do que se convencionou como padrão. Por isso mesmo constitui um dos livros mais interessantes de Roth, inserido que está num dos seus ciclos mais representativos: aquele em que o narrador é o escritor Nathan Zuckerman, alter ego do autor.
No texto anterior esse personagem conhecera e tornara-se amigo de Coleman Silk, um velho professor da universidade de Athena de que se demitira depois de denunciado por supostos comentários racistas proferidos no início de uma das suas aulas. Era a esse lamentável episódio - uma mancha indelével no seu irrepreensível currículo académico -  que ele atribuía a doença fulminante e a morte da sua esposa de muitas décadas.
Fora aliás na mesma tarde em que Iris morrera e a insanidade se apoderara de si, que Coleman aparecera em casa de Zuckerman, em quem ele esperava encontrar um determinado tipo de apoio: “Eu tinha de lhe escrever qualquer coisa, quase me ordenou que o fizesse. Se fosse ele a escrever a história em todo o seu absurdo, sem modificar nada, ninguém acreditaria, ninguém a levaria a sério, as pessoas diriam que se tratava de uma mentira ridícula, um exagero em benefício próprio, diriam que, como se não bastasse ter proferido a palavra ‘spooks’ numa dala de aula, também tinha de mentir quanto à sua queda. Mas se eu a escrevesse, se um escritor profissional a escrevesse…” (pág. 23)
Para a campanha, que o deixara sem apoio perante a acusação de racista, Coleman encontrara uma possível explicação nas decisões que tomara quando era reitor: “ sob a sua direção as promoções tornaram-se mais difíceis, e esse foi, talvez, o maior de todos os choques: as pessoas deixaram de ser promovidas automaticamente por categoria, com base no facto de serem professores populares, e não obtinham aumentos de ordenado que não correspondessem ao mérito. Em resumo, introduziu a competição e tornou a universidade competitiva, o que, com um dos primeiros inimigos observou, ‘é o que os judeus fazem’” (pág. 21)
Nos dois anos seguintes, Zuckerman convivera frequentemente com o amigo embora sem se dispor a avançar para o texto salvífico, que ele lhe pedira. Muito embora fosse notando os efeitos devastadores suscitados pelo ostracismo de que se via alvo na pequena cidade universitária:
“Há algo de fascinante  no que o sofrimento moral pode fazer a alguém que nada indicia ser uma pessoa frágil ou fraca. É uma coisa ainda mais insidiosa do que a doença física pode causar, pois não há perfusão de morfina, epidural ou cirurgia radical que possam aliviá-la. Quando caímos nas suas garras dir-se-ia que só nos libertaremos dela se nos matar.”  (pág. 24)
Quando o ia visitar nas noites de sábado, Zuckerman via-o mergulhado numa “humilhante ignomínia que continuava a consumir alguém ainda cheio de vitalidade. O grande homem derrubado ainda a sofrer a vergonha da queda. “ (pág. 30)



segunda-feira, agosto 18, 2014

HISTÓRIA: um navio centenário que ainda navega

Há histórias verdadeiras mais grotescas do que se as tivéssemos inventado. «A Matter of Time», que o suíço Alex Capus escreveu em 2007, é um romance histórico e de aventuras sobre o sucedido em África há cerca de cem anos.
Em 1913 o Gabinete Colonial do Reich enviou três operários dos estaleiros navais Meyer da cidade de Papeburg para Emsland no Lago Tanganica, para aí montarem um barco a vapor com 67 metros de comprimento, o «Graf Götzen».  O livro de Capus acompanha-os e transmite-nos a visão que eles vão tendo sobre um mundo até então completamente desconhecido.
Após o lançamento à água na Alemanha, o barco fora seccionado nas suas peças e embalado em cinco mil caixas enviadas por barco de Hamburgo para Dar es Salam e depois, por via férrea até Kigoma, o único porto existente no lago africano.
Esta ambiciosa proeza técnica tinha por objetivo alcançar a supremacia alemã no lago e em toda a vasta região circundante. Só que os rivais britânicos tinham planos semelhantes e encarregaram o excêntrico tenente Geoffrey Spicer Simon de enviar duas canhoneiras, também desmontadas, para a foz do rio Congo. Daí, primeiro por comboio e depois às costas de carregadores os dois barcos deveriam percorrer trezentos quilómetros até chegarem ao lago, serem montados e afundarem o barco alemão.
A Primeira Guerra Mundial inicia-se precisamente quando ambas as odisseias estavam em vias de se concluir à custa de múltiplas vítimas. Por isso o Lago Tanganica tinha condições para transformar-se num cenário de eleição da época até porque o conflito conheceria tão grande dimensão no continente africano, que as perdas portuguesas ali foram superiores às verificadas com o Corpo Expedicionário enviado para a Flandres. No entanto, em vez de uma batalha naval a sério tudo se resumiu a uma ridícula escaramuça, concluída de forma pouco gloriosa: os próprios alemães decidem afundar o navio, porque o avanço britânico por terra os obrigava a abandonar as margens do lago.
Depois da guerra, já em 1924, o  «Graf Götzen»  voltou a ser montado e tornou-se célebre no cinema com o filme «African Queen». Era dele que os personagens representados por Bogart e Hepburn escapavam enquanto iam caindo de amores um pelo outro.
Hoje, mais de um século passado, o velho navio alemão ainda navega no lago com o nome de «MS Liemba».

FILME: «Carmen» de Vicente Aranda (2003)

Mais do que pelo romance de Prosper Mérimée, conhecemos a história de «Carmen» pelo libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy para a ópera de Bizet.
Ao realizar o filme em 2003, Vicente Aranda voltou ao romance original, transformando o autor num dos seus principais personagens, já que o faz confidente de um condenado à morte.
Começamos por conhecer José Lizarrabengoa, que tem por alcunha “Navarro”, porque nascera 23 anos atrás numa pequena aldeia dessa província. Quando Carmen, uma das operárias da fábrica de tabaco se mete com ele já está há cinco anos no Exército e chegou a oficial. E tem de a levar depois de uma contenda com as colegas com quem tivera uma desavença por a chamarem cigana.
Há, igualmente, Prosper Mérimée, um escritor que tem um gosto muito particular por explorar os mistérios do coração humano. Em 1830 aventurara-se pelos campos espanhóis para investigar sobre as duas cidades, que tinham conhecido tempos gloriosos durante a ocupação islâmica: Córdova e Granada.
Ao percorrer os campos dessa região andaluz encontrara-se pela primeira vez com esse mesmo José Lizarrabengoa já convertido em vagabundo. Na altura o criado informara Prosper sobre a identidade desse assassino impiedoso com a cabeça a prémio.
Já em Córdova, conhece uma estranha mulher, que se lhe anuncia como serva de Satanás e lhe lê o destino nas cartas. Mas, quando o está a fazer chega José, que denuncia uma familiaridade indisfarçável com essa Carmen.
Alguns dias de ausência na cidade fazem-no perder as novidades do que aí vai sucedendo, reencontrando-a animada com a prisão e condenação à morte desse mesmo José.
Visitando-o na prisão quando ele está prestes a ser executado, Prosper ouve de viva voz a sua história. Que nos faz regressar ao início do filme, a esse dia funesto em que conhecera Carmen e a prendera na sequência do desacato na fábrica. A ajuda na sua fuga valera-lhe o castigo, que deitara a perder os cinco anos irrepreensíveis até então dedicados à sua carreira militar. Agora, na prisão, embora o revoltasse a forma como ela o enganara, não a conseguia tirar do pensamento.
Ao escritor conta como após o castigo devido ao su papel na fuga dela fora reencontrar Carmen dedicada ao ofício de prostituta. Ela incitara-o a abandonar de vez de vez a sua carreira militar, mas, no entretanto, foi empurrando-o cada vez mais para o abismo, obrigando-o a fazer vista grossa à passagem dos contrabandistas, quando estava de guarda.
Uma noite, quando surpreende o seu tenente com Carmen no bordel, pega na espada e mata o rival. É esse o momento em que tem obrigatoriamente de mudar de vida, juntando-se ao bando de contrabandistas para o qual ela lhe envia uma recomendação.
Quando a revê nas montanhas julga-se à beira de conseguir o que mais lhe importa na vida: ter Carmen só para si! Mas ela é propriedade do Tuerto, o chefe da quadrilha que a comprara aos 12 anos e, sobretudo, enamora-se de Lucas, um célebre toureiro, que ameaça torná-lo num mero figurante entre os que a rodeiam.
Numa escaramuça incendiada pelo ciúme, José mata Tuerto à navalhada. Relapso no assassinato, ele considera ser essa a altura decisiva para fazer um ultimato a Carmen: ou ela viverá doravante apenas com ele ou morrerá. Ora, ela escolhe essa segunda alternativa entregando-se com um sorriso à sua navalha.
À despedida do escritor, José acaba por reconhecer que, apesar de responsável por o ter feito cair na desgraça, ele nunca lamentaria ter conhecido aquela que tanto amara. 

sábado, agosto 16, 2014

DOCUMENTÁRIO: «Camaradas Cosmonautas» de Marian Kiss (2009)

No final dos anos 70 o bloco de países do leste europeu estava a abrir brechas cada vez mais notórias, que anunciavam a viragem verificada em 1989. É com a consciência da necessidade de travar esse processos, que os responsáveis pela propaganda soviética encontraram uma forma de incentivar um sentimento internacionalista nos países pertencentes ao Pacto de Varsóvia: levar para o espaço um astronauta de cada um desses países. Foi assim que um checo, um polaco, um alemão de leste, um búlgaro, um húngaro, um vietnamita, um romeno, um cubano, um mongol e um afegão foram incluídos no programa espacial Intercosmos, recebendo uma preparação de quase dois anos até estarem em condições de tripularem uma das naves Soyuz.
Marian Kiss, a realizadora deste documentário, sentiu-se então fascinada pelo seu compatriota, o húngaro Bertalan Farkas. Numa entrevista ela conta: “na minha infância comunista, o cosmos tinha uma grande importância. Julgávamos poder tocar o futuro com um dedo. O infinito parecia estar às portas da nossa aldeia.”
Por isso, trinta anos depois decidiu ir procura-lo não só a ele, mas também aos demais nove cosmonautas, rodando um documentário interessante sobre a época dourada dos voos espaciais.
Marian Kiss entrevistou-os a todos, traçando-lhes os respetivos percursos biográficos, desde a iurta familiar no meio das estepes asiáticas à aldeia afegã ainda distante do terror talibã até à consagração do regresso após o voo em torno da Terra.
Durante hora e meia são-nos oferecidas muitas imagens de arquivos, que ilustram bem a diferença entre o glamour de um passado mítico e a comezinha realidade presente. Porque se alguns deles ainda usufruem as regalias de continuarem a ser reconhecidos nos seus países - que se mantém formalmente como comunistas, como sucede em Cuba ou no Vietname - os demais vivem entre a indiferença ou o ostracismo dos seus concidadãos. Nesse aspeto avultam os exemplos do astronauta húngaro, hoje condenado a uma pensão miserável, do mongol, que teve de pôr na sua sala a nave espacial outrora clocada com toda a pompa no, entretanto extinto, Museu de Ulan Bator ou o afegão que, exilado na Alemanha, ganha a vida como tipógrafo.



DOCUMENTÁRIO: «O Mistério dos Elefantes Gigantes» de Jan Lorentzen

A Paleontologia tem-se revestido ultimamente de uma vertente singular, que a tornam mais atrativa a quem a vê divulgada através de documentários televisivos: as semelhanças com a investigação policial. É o que se comprova com ossadas fósseis encontradas perto de Leipzig e que dão algumas informações interessantes sobre os homens desse período longínquo. Porque a questão que se coloca desde princípio é esta: porque é que se encontraram tantos despojos de elefantes nas margens de um lago alemão? O que terá estado na origem da morte de tantos animais?
Datados de há 120 mil anos, esses sedimentos foram exumados em Neumark-Nord, na Alemanha, num local outrora explorado como mina a céu aberto.
Além dos setenta esqueletos intactos de elefantes gigantes, que deveriam medir quatro metros, pesar mais de dez toneladas e apresentarem presas impressionantes, os arqueólogos também encontraram ossos de veados e leões, além de vestígios de plantas exóticas, de larvas de insetos e de ferramentas pré-históricas.
Graças à colaboração dos investigadores, que estiveram envolvidos nessas escavações, o documentário tenta reconstituir o mistério desses animais gigantes. De que é que se alimentavam? Como se tinham adaptado ao clima pouco favorável da Europa Central? Quais eram os seus inimigos naturais?
O que mais intriga os estudiosos do local é a ferida encontrada no crânio de um desses elefantes, que uns atribuem à ação de um dardo humano, e outros explicam como resultado da luta entre machos, com um deles a conseguir perfurar o crânio do rival com uma das suas presas.
As certezas ainda são poucas em comparação com as interrogações, mas justifica-se a análise de todas as possibilidades desde as que atribuem a morte de tantos animais no mesmo local à ação de predadores (mesmo humanos), quer a fenómenos raros mas fulminantes como um envenenamento brutal causado por bactérias disseminadas a partir de um dos animais. 

DOCUMENTÁRIO: «Custer, uma lenda americana» de Stephen Ives (2012)

Era eu muito miúdo, quando vi pela primeira vez «Todos Morreram Calçados», o filme rodado em 1941 por Raoul Walsh com Errol Flynn  a fazer de General Custer.
Como era ainda muito inocente, comovi-me com a morte do herói em Little Big Horn e nunca mais esqueci  a banda sonora da autoria do sempre excelente Max Steiner (que já assinara a de «E Tudo o Vento Levou»).
Nessa altura não sabia ainda o que era colonialismo, genocídio ou sequer que provavelmente Flynn andava por essa altura a espiar a América por conta dos nazis.
Foi com essa ambivalência entre a ideia de herói tal qual a via em criança e a realidade bem mais complexa trazida pela consciência política da juventude, que regressei à biografia de Custer desta feita através deste documentário de Stephen Ives.
O ponto culminante da vida do general aconteceu a 25 de junho de 1876, quando ele e 261 soldados às suas ordens foram massacrados pelos guerreiros do chefe sioux Sitting Bull na batalha de Little Big Horn.
Esse desenlace chocou a América: como fora possível que um dos maiores heróis da Guerra da Secessão fosse vencido por uma horda de «selvagens»? Esse desastre militar permitiu, porém, que o jovem general de cavalaria atingisse o pico da sua glória e se convertesse numa lenda da “conquista” da América.
Mediante testemunhos de historiadores e de fotografias de arquivos, o documentário retrata o percurso de exceção do líder do 7º regimento de cavalaria desde a turbulenta escolaridade até à frequência da academia militar de Westpoint, passando pelos reconhecidos feitos na guerra de Secessão e culminando no seu trágico fim. Desenha-se assim o retrato de um homem ambivalente, impetuoso e irreverente para com a hierarquia, mas também o devotado esposo e o sagaz comunicador.
Com o seu sacrifício tornou-se até aos anos 70 do século XX na encarnação da coragem e do patriotismo até ver esse prestígio empalidecer, quando os movimentos contestatários contra a guerra do Vietname passaram a filtrá-lo por outros valores, os que o converteram no símbolo do imperialismo e da opressão.
O que este documentário melhor representa é a relação ambígua dos americanos com a sua própria História...



quinta-feira, agosto 14, 2014

CIÊNCIA: do espaço-tempo à gravidade

Mesmo que não o possamos ver, cheirar ou tocar, o espaço existe mesmo e serve de referência a certos tipos de movimento. Comprovamo-lo como real ao vermos uma patinadora: Newton diria que, quando ela faz uma pirueta, os seus braços são impulsionados para o exterior porque ela em relação a algo. E esse algo é o espaço.
Durante muito tempo os filósofos interrogaram-se sobre a natureza desse espaço.  Newton modificou os termos do debate e foi assim que nasceu a ciência moderna.
As teses de Newton conheceram um enorme sucesso e não foram questionadas durante mais de duzentos anos. Mas, nas primeiras décadas do século XX, surgiram novas ideias, que abalaram as convicções até aí defendidas, até no seu fundamento. Quem as formulou foi um modesto funcionário da Administração Suíça das Patentes chamado Albert Einstein.
Ele tinha vivido a sua formação escolar nos últimos anos do século XIX, quando começava a Era da Eletricidade. Essa energia iluminara as cidades dando origem a todo um conjunto de tecnologias, que Newton nunca pudera imaginar.
Todos os avanços de então decorriam de um fenómeno que cativara a atenção de Einstein desde a infância:  a Luz. Não a que irradiava das ampolas de vidro, mas a sua intrínseca natureza. E foi o seu fascínio por uma característica específica da luz -  a velocidade - que o levou a pôr em causa a conceção newtoniana do espaço.
Einstein defendeu a tese segundo a qual, não interessa a velocidade a que um objeto luminoso se desloca: mova-se ele mais depressa ou mais devagar a luz emitida desloca-se sempre à velocidade constante de 1 079 252 850  quilómetros por hora.
Como é que isso era possível? Como se explica que a luz sob todos os seus estados se desloque sempre à mesma velocidade?
Vejamos então como é que Einstein conseguiu explicar esse espantoso fenómeno.
Sabendo que a velocidade é o espaço percorrido por um objeto num dado período de tempo  propôs uma ideia deveras surpreendente: o espaço e o tempo estão interligados entre si.
Para respeitar essa propriedade universal da luz, o tempo e o espaço teriam de deixar de ser absolutos. Ambos deveriam ser entendidos como relativos de modo a ajustarem-se um ao outro numa nova grandeza designada como espaço-tempo.
Só não temos uma perceção clara dessa grandeza porque não nos deslocamos com suficiente rapidez para a constatarmos.
Na nossa vida quotidiana ainda vivemos placidamente com os conceitos de espaço e de tempo como eram definidos na época newtoniana. Mas Einstein fez transitar a ciência para um outro patamar, bem diferente do indicado pelos nossos sentidos. Residiu nisso o seu génio.
Com essa nova perspetiva do espaço e do tempo vai ser possível explicar um dos grandes mistérios até então considerados como insolúveis e relacionados com o cosmos: a gravidade.
Newton sabia que a gravidade era um fenómeno, que atraía os corpos uns em relação aos outros. E conseguiu calcular a força com que isso acontecia com uma precisão assinalável. Mas como é que funcionava a gravidade? Como é que a Terra atrai a Lua apesar das centenas de milhares de quilómetros, que as distanciam? E, no entanto, esses dois astros estão ligados como se uma corda invisível os prendessem um ao outro!
As leis de Newton não conseguiam dar resposta a essas perguntas. Foi então que Einstein concebeu outra explicação genial...


quarta-feira, agosto 13, 2014

LEITURAS: «A Mancha Humana» de Philip Roth (I)

Estamos em 1998 e, logo de início, o narrador sintetiza o debate de valores então em foco na sociedade norte-americana: “Foi o verão em que, pela milésima milionésima vez, a bagunça, o caos e a confusão demonstraram ser mais subtis do que a ideologia deste e a moralidade daquele. Foi o verão em que o pénis de um presidente esteve na cabeça de toda a gente e a vida, em toda a sua despudorada obscenidade, confundiu uma vez mais a América”. (pág. 15)
Na época desconhecíamos que o ovo da serpente estava a incubar dentro do Partido Republicano. Já o tínhamos como o representante das ideologias mais à direita das terras do tio Sam, mas não adivinhávamos como do conservadorismo puritano de então, neoliberal de acordo com as ideias de Milton Friedman, iria emergir algo que faria os antecessores parecerem verdadeiros meninos de coro.
É nessa altura que Nathan Zuckerman, um dos mais conhecidos alter egos de Roth, conhece Coleman Silk, um professor de estudos clássicos no Athena College durante vinte e tal anos, e seu reitor durante dezasseis, que entrara em confronto com a instituição: “No verão de 1998, já ele ali estava sozinho - sozinho na grande e velha casa branca revestida de tábuas sobrepostas, onde criara quatro filhos com a sua mulher Iris - havia quase dois anos, desde que Iris tivera um acidente vascular e morrera de um dia para o outro, enquanto Coleman estava em pleno combate com a universidade por causa de uma acusação de racismo que lhe fora feita por duas estudantes de uma das suas turmas”.(pág. 16)
A exemplo de outros romances integrados no mesmo ciclo Zuckerman encontramos uma América onde o individuo pouco vale, quando contra ele se coordenam o preconceito e a mentira propagados por gente de rosto quantas vezes escondido atrás de organizações ou de multidões acéfalas.
“Foi mais ou menos a meio do seu segundo semestre de novo como professor a tempo inteiro que Coleman proferiu a palavra auto-incriminadora [“spook”, que além de “espectro” ou “fantasma”, também é vernáculo para designar “preto”] que o levaria a cortar voluntariamente todos os laços com a universidade - a única palavra auto-incriminadora das muitas milhões ditas em voz alta nos seus anos de ensino e administração na Athena e aquela que, no entendimento dele, conduzira à morte da sua mulher.
A turma tinha catorze alunos. No início de várias das primeiras aulas, Coleman fizera a chamada, a fim de decorar os nomes dos estudantes. Como na quinta semana do semestre ainda havia dois nomes a que ninguém respondia, na sexta semana Coleman iniciou a aula perguntando: ‘Alguém conhece essas pessoas? Elas existem ou são spooks??” (pág. 18)
Valeu a pena alongarmo-nos sobre estas primeiras páginas do romance por elas caracterizarem um protagonista com o seu quê de surpreendente por descobrir lá mais para o final e que alterará totalmente o sentido da leitura até ali se chegar. E não será nada que diga respeito à relação amorosa, que Coleman iniciara recentemente com uma empregada de limpeza da mesma universidade, bastante mais nova, e que voltará a incendiar a opinião de muitos dos professores e alunos contra ele...


terça-feira, agosto 12, 2014

FILME: «Morangos Silvestres» de Ingmar Bergman

Em 1957 Ingmar Bergman roda dois dos seus filmes mais superlativos de toda a sua filmografia: “O Sétimo Selo” e «Morangos Silvestres». À beira de entrar nos 40 anos de vida a ideia da morte torna-se-lhe quase obsessiva e ambos os títulos refletem isso mesmo.
O personagem principal é Isak Borg, um médico prestigiadíssimo e por isso mesmo à beira de ser consagrado com uma cerimónia na Universidade de Lund. Quem interpreta esse papel é Victor Sjöstrom, o grande pioneiro do cinema sueco, que aqui se despede da melhor maneira de toda uma vida dedicada à sétima das artes.
O sonho que  ele conta em voz off remete-nos para uma cidade deserta onde um coche puxado por cavalos transporta um caixão, que se abre e revela conter ele próprio no seu interior.
Essa experiência onírica é suficientemente forte para que decida tomar a direção de Lund de automóvel em vez do previsto avião.
Ainda estamos no início e já compreendemos que se trata de um daqueles filmes em que a viagem constitui a oportunidade para um personagem fazer o balanço de si mesmo e operar a mudança de tudo quanto de nefasto terá entretanto consciencializado.
Borg surge-nos como o típico misantropo, que evita o contacto com os outros, como se assim dispusesse por opção pessoal. O que irá descobrir é algo de que jamais se consciencializara: foram os outros a afastarem-se de si como forma de se eximirem ao seu egoísmo.
É isso mesmo que lhe diz a nora, Marianne., Ela acompanha-o, primeiro como passageira enquanto ele ainda está ciente da sua condição de mandante, mas depois toma-lhe o volante ao senti-lo progressivamente fragilizado nas suas convicções.
É que, além dos sonhos, Isak dá rédea solta às suas recordações. Vemo-lo assim no passado distante, na casa de infância, quando namorava a prima Sara junto ao canteiro dos morangos silvestres. A breve paragem, que eles ali fazem, constitui uma oportunidade para Isak ver o passado de outra forma.
Sara terá sido o primeiro amor da sua vida, mas perdê-la-ia para o irmão, Sigfrid, mais disponível para lhe dar a ternura pretendida, enquanto ele se limitava a cortejá-la com a ostentação da sua erudição.
Recorda, igualmente, a defunta mulher, que o enganava e depois se fazia perdoar, como se de cada vez o desafiasse a ser menos frio e mais dado ao afeto.
Essas memórias fazem-no compreender a justeza das palavras de Marianne: fora sempre tão egoísta que jamais atendera às necessidades afetivas das mulheres a quem julgara amar.
Por essa altura já tinham dado boleia a outros personagens: existe o trio de jovens, que vai para Itália e em que a rapariga, Sara (precisamente o nome da ex-namorada, e ambas interpretadas por Bibi Anderson) alimenta a rivalidade amorosa entre os dois companheiros, Anders e Victor. Existe, pois, um claro paralelo entre estes três personagens e os da recordação de juventude de Isak.
Mas também surge o casal, que tivera um acidente e vive em permanente estado de guerra conjugal. O paralelismo é aqui evidente, quer com a relação de Isak com a defunta esposa, quer com o que se passa entre Marianne e Evald: este último não queria que ela engravidasse, mas precisamente por ter ido adiante com a conceção de um filho de ambos é que buscara momentâneo refúgio na casa do sogro.
Noutro sonho inquietante, Isak vê o homem quezilento a quem dera boleia a fazer de professor, que o questiona sobre as capacidades para ser médico. E Isak chumba precisamente por questão de carácter.
Antes da cerimónia de consagração em Lund, Isak e Marianne ainda têm tempo para visitarem a mãe dele, uma anciã de 96 anos, que explica bem a natureza dos Borg: a mesma secura e ausência de sentimentos do filho e do neto, como se se tratasse de fenómeno hereditário e incontornável.
Mas o filme conclui-se de forma francamente otimista como se Bergman quisesse provar que nunca é demasiado tarde para mudar: quer na forma simpática como se despede do trio de jovens, quer quando Marianne se vem despedir dele ao quarto antes de o ver adormecer em posição fetal, Borg terá chegado a uma forma de reconciliação consigo mesmo. E por isso o sonho com que o filme se conclui é idílico... 

DOCUMENTÁRIO: «O Abrigo» de Fernand Melgar

No Festival de Lucarno acaba de ser estreado este documentário de Fernand Melgar sobre o difícil quotidiano dos sem-abrigo na Suíça. O realizador, ele próprio de origens catalãs, procura dar uma visão objetiva de dois lados opostos da mesma realidade: o dos que procuram apoio e dificilmente o encontram e o dos trabalhadores das instituições de acolhimento dos sem abrigo muito ultrapassados pela exiguidade de meios de que dispõem para corresponderem ao problema.
Se a extrema-direita aposta na lógica racista de defender a necessidade de fechar fronteiras para impedir o fluxo constante de gente miserável de várias latitudes, a resposta de Melgar é a de mostrar o rosto dessas pessoas de carne e osso que tanto sofrem com o ostracismo a que são sujeitas.
Por isso mesmo o documentário deveria ser de visionamento obrigatório para quantos insistem em analisar a realidade da emigração clandestina de acordo com a lógica dos maniqueístas, que procuram difundir mensagens ignóbeis sobre uma Europa sitiada por gente de outras cores e credos, como se de Roma se tratasse ameaçada pelos bárbaros…
A realidade é que o que a Europa representa entra em inquietante degenerescência quando abandona os seus valores para, supostamente, se livrar de quantos a ela são atraídos precisamente por quanto ela representa de avanço civilizacional.
A História mostra que as grandes civilizações cresceram quando optaram pela miscigenação dos que nela procuravam sustento e que entraram em decadência quando apostaram no preconceito e na intolerância.