segunda-feira, dezembro 05, 2011

Babel - trailer


Se quisermos demonstrar o significado da palavra «manipulação», o filme de Iñarritu pode figurar como um exemplo lapidar: parte-se de uma tese que se quer demonstrar (num contexto de globalização todos estamos interligados e um gesto anódino aqui pode suscitar uma tragédia noutro lado), imaginam-se personagens mais ou menos estereotipados em zonas geográficas aonde se adivinham receitas potenciais, agudizam-se as cenas dramáticas até ao paroxismo … e tem-se um filme com todas as condições para singrar nos festivais de cinema.

O fascismo, enquanto esquema ideológico, não anda muito longe. E são muitos os incautos, que por ele se deixam levar.

Filme: AS CANÇÕES ESCONDIDAS De Andreas Struck (2009)

Martin é um trompetista em crise: num concerto abandona o palco e Kristina, a namorada, acaba por o pôr na rua, por tornar-se insuportável a vida por ambos partilhada.
Temo-lo, assim, reduzido à condição de sem abrigo, ganhando o sustento a tocar nos corredores do metropolitano. É aí que, um dia, descobre morta uma mulher a quem fica com o saco dos escassos pertences. Entre os quais uma espécie de diário cuja leitura o obceca: a lenta deriva de Hanna da sua vida burguesa para aquele desiderato trágico fascina-o ou não esteja ele apostado num  processo de auto-destruição similar.
Vale-lhe porventura a altercação com outro sem abrigo nos corredores do metropolitano e a sua condenação a 320 horas de trabalho comunitário num cemitério.
É essa rotina e o interesse nele manifestado pela jovem Maggie, aí também assistente, que o trazem de volta à realidade, acabando por compor a música para um CD em que os poemas da infeliz lhe estimulam a criatividade.
O filme é fraquinho, apesar da música de Nils Peter Molvaer: num registo semelhante «Alice«, filme português sobre um pai à procura da sua filha desaparecida, é bastante mais consistente.
Convenhamos que, hoje em dia, o cinema alemão está distante da época em que Fassbinder, Herzog, Straub, Wenders e Syberberg iam-lhe  criando uma identidade singular e estimulante

ARTSAVA - Everything Has a Music Deep Inside


O que é mais interessante neste filme de Andreas Struck é a música do norueguês Nils Peter Molvaer.

Britney Spears feat Max Raabe - Oops... I Did It Again

No espectáculo da Gulbenkian, Max Raabe demonstrou que até as canções de Britney Spears se ajustam ao estilo dos anos 20 e 30. De uma forma eloquentemente eficaz!

Max Raabe & Palast Orchester,Moon of Alabama 1927

Concerto: MAX RAABE & THE PALAST ORCHESTRA Gulbenkian, 4/12/2011

Em «Midnight in Paris» Woody Allen põe o protagonista Owen Wilson à procura da Paris mítica dos anos 20, época por ele mistificada por ser aquela em que teria podido conviver com Picasso, Gertrude Stein, Hemingway ou Scott Fitzgerald.
Pode-se dizer que, quando Max Raabe foi estudar para Berlim, também levava consigo todo um conjunto de mitos nele inoculados por uma avó encantadora, que aí vivera a euforia da boémia do mesmo período.
Max até se julgava vocacionado para ser cantor de ópera, mas os apertos da subsistência de jovem estudante sem grandes recursos levou-o a associar-se a alguns colegas da Universidade para criar uma banda - a Palast Orchestra - cujo reportório seria constituído pelas canções da época dourada do cabaré berlinense.
O sucesso foi tal que, logo no início da carreira, a Palast Orchestra estava contratada para animar os espectadores de um Festival de Música em Berlim no hall da sala em causa e esta esvaziou-se porque a preferência do público incidiu no que com ela se passava.
E assim se perdeu um cantor de ópera e se ganhou uma orquestra de entretenimento inteligente, apostada em recursos cénicos rigorosamente aplicados embora resultem num espectáculo ligeiro e extremamente divertido.
O que fascina num espectáculo como o desta noite é a possibilidade de nós próprios vestirmos a pele daquele personagem de Woody Allen e, durante um par de horas, vivermos a idealização de uma Berlim dos anos 20 e 30, antes que a chegada dos nazis ao poder cerceasse a revolução então aí operada a nível das artes e das ideias políticas. Como o próprio Max Raabe se encarrega de recordar muito do reportório por ele investigado e, depois implementado nos espectáculos, resulta da criatividade de tantos compositores judeus reprimidos ou obrigados a exilarem-se quando Hitler os votou à inexistência.
Nunca será demais conjecturar as razões, que levaram a cidade mais cosmopolita e ideologicamente fervilhante dessa época a permitir o avanço das forças mais opostas ao seu espírito. O que dá para concluir que a banalidade do mal está aí mesmo ao virar da esquina. E que nunca serão demasiados os esforços para a impedir de se expressar. Mesmo que, como no caso deste espectáculo, nos votemos momentaneamente à fruição de tão bons momentos.
Num ano não muito entusiasmante a nível de espectáculos, este terá sido o que elejo como o melhor dos que vimos em 2011. 

domingo, dezembro 04, 2011

Nina Simone - Ain't Got No...I've Got Life


Nina Simone já desapareceu do mundo dos vivos, mas a sua voz continua a impressionar. Neste caso vemo-la num espectáculo ao vivo três dias depois do assassinato de Martin Luther King...

Documentário: UM ESPIÃO NO CENTRO DA QUÍMICA NAZI de Scott Christianson e Egmont Koch (2011)

É uma das questões, que têm sido postas desde o fim da Segunda Guerra Mundial: será que os EUA tinham conhecimento das câmaras de gás muito antes de investirem seriamente no esforço militar?
A primeira experiência com Zyklon B no campo de concentração de Auschwitz ocorrera em 3 de Setembro de 1941 com os prisioneiros soviéticos do Bloco 11, mas já se recorria a esse ácido prússico nos EUA desde o seu teste numa execução em Carson City em Fevereiro de 1924, em que o condenado levara mais de quinze minutos a morrer. E ele era conhecido nos laranjais da Califórnia enquanto remédio para cura das moléstias desses pomares, desde que a indústria militar o inventara logo após a Primeira Guerra Mundial.
Erwin Respondek toma conhecimento com tal gás letal, quando trabalhava na IG Farben, empresa alemã, que, em 1930, o mandata a negociar com a norte-americana Dupont a forma de ambas monopolizarem o mercado mundial dos produtos químicos. Três anos depois, quando é um dos deputados centristas, que acolhem com assaz desconfiança a ascensão dos nazis ao poder, Respondek logo inicia uma rede de expatriação clandestina de judeus para além-fronteiras.
No outro lado do Atlântico, vive-se na Dupont o entusiasmo pelos sinais transmitidos por Hitler, tanto mais que a empresa iria apoiar os movimentos fascistas norte-americanos nos anos seguintes e apostaria em manter com a IG Farben a estratégia de cartelização monopolista do mercado mundial. Uma das herdeiras da família até casara com um alemão e mudara-se para a Europa, aí se confessando grande admiradora de Hitler.
As execuções com gás letal, que continuam a suceder-se na maioria dos estados norte-americanos recorrem ao ácido prússico produzido por essa mesma Dupont.
Com a consolidação do poder nazi e o início da guerra, Respondek sente um acrescido estímulo para combater o regime. É assim que, tomando conhecimento, da iminência da invasão da Rússia ele faz chegar tal informação ao Kremlin através da embaixada dos EUA, mas Estaline julga tratar-se de uma provocação e não age com a devida cautela.
Esse terá sido o primeiro acto de espionagem da autoria de Respondek.
Em 1942 está concluído o complexo de Auschwitz-Birkenau com as câmaras de gás aonde irão ser assassinados centenas de milhares de judeus aí chegados por via férrea.
Apesar de Respondek garantir que os principais administradores da IG Farben conheciam toda a estratégia de extermínio nazi, eles acabam inocentados no Tribunal de Nuremberga, quando a guerra acaba.
Pior destino tem Respondek que, nessa altura, é completamente abandonado pelos seus contactos norte-americanos, morrendo esquecido e empobrecido em 1971. Ao contrário de Madeleine Ruoff-Dupont, que acaba celebrada como benfeitora na Alemanha e da Dupont, cujas ligações ao poder nazi nunca chegarão a ser investigadas...

sábado, dezembro 03, 2011

Livro: DUAS SOMBRAS DO RIO de João Paulo Borges Coelho

Em 2003, quando «Duas Sombras do Rio» foi publicado, Moçambique já vivia em relativa paz há dez anos. O regime de partido único, de matriz marxista, dera lugar a uma aparente democracia aonde se iram integrando os terroristas da Renamo, responsáveis por tantas mortandades nos anos subsequentes à independência.
O livro de João Paulo Borges Coelho reflecte essas transformações, suficientes para perturbarem os moçambicanos, de alguma forma representado nesse Leónidas Nsato, um perdido de si mesmo, passando a vaguear pelos acontecimentos como se fantasma fosse, sem entendimento para ultrapassar a condição de indiferente espectador.
Mas apresentam-se, igualmente, outros aspectos plurais de uma realidade complexa como o é o da caça furtiva de elefantes e rinocerontes, causadora de uma funesta depredação da riqueza zoológica do país.
A acção localiza-se fora dos grandes centros populacionais, nesses cus de judas situados junto à fronteira com o Zimbabwe por onde os rios correm caudalosos e os terríveis nhacocos (crocodilos) dão cabo dos mais imprevidentes. Sobretudo, quando a estes resta uma de duas possibilidades igualmente temerosas: escaparem dos terroristas, que assassinam e deitam fogo a tudo quanto alcançam, ou darem-se às vicissitudes de um rio para cuja travessia são escassas as almadias.
O romance de Borges Coelho vem demonstrar que a literatura moçambicana está longe de se cingir a Mia Couto.  Sendo aqui muito mais clara a descrição do contexto histórico, mesmo perdendo-se em poesia e invenção da língua. E contando-se com personagens tão interessantes quanto o são Mama Mére, a cantineira congolesa, que já percorreu todo o cone sul africano e se encarrega da venda das presas de marfim, ou esse tenente Zvovo, zimbabweano, que joga com ela um verdadeiro confronto entre gato e rato. Ou ainda a enfermeira Inês, a contragosto conduzida à condição de meretriz do feroz Salamanga até encontrar a oportunidade de dele escapar levando consigo uma coluna de fugitivos ao jugo terrorista.
É claro que se sente aqui a imaturidade inerente a um romance de estreia, mas o domínio da história e da língua, já revela um autor original a ter em conta nos sucessivos títulos, que dele viermos a descobrir.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Chachapoyas - Cloud People of Peru

Documentário: CHACHAPOYAS, OS GUERREIROS DAS NUVENS de José Manuel Novoa

Nas falésias das montanhas peruanas da Província de Chachapoyas persiste um misterioso passado por identificar. Razão para que quinze arqueólogos enveredam por uma expedição a partir de Leymebamba dirigindo-se para as chulpas, ou seja, para os mausoléus escavados nas paredes alcantiladas por quem integrava uma civilização, que funcionou entre os séculos IX e XV para nelas encontrar corpos mumificados enrolados em panos e encerrados em estruturas de madeira.
O percurso para aí chegar é tormentoso, implicando caminhos quase impraticáveis da floresta virgem e por cursos secos de alguns rios. E depois, só mediante técnicas e equipamento de escalada é que se torna possível alcançar o objectivo.
Os chachapoyas acreditavam que a vida no Além dependia da mumificação dos seus mortos . O seu maior receio constituía a destruição dessas chulpas, que equivaliam à condenação definitiva dos mortos à total inexistência. Por isso optaram por essas verdadeiras fortalezas situadas a mais de três mil metros de altitude.. Mas, noutras ruínas circulares encontradas submersas pela vegetação luxuriante, as ossadas sugerem enterros dentro do espaço de habitação e sacrifícios com animais e, mesmo, pessoas.
Para além da evidente semelhança da sua estatuária com a da Ilha de Páscoa, a equipa de cientistas comprovou a aplicação da trepanação em certos doentes e a sua derrota final à custa dos Incas.

segunda-feira, novembro 28, 2011

O Turista | Trailer Legendado

Filme: O TURISTA de Florian Henckel von Donnersmarck

Ao estrear-se nos cinemas, esta remake de um filme francês com Sophie Marceau e Yvan Attal esteve longe de entusiasmar a crítica e percebe-se porquê. Mesmo contando com a beleza de Angelina Jolie e o carisma de Johnny Depp, cedo se desenha a solução de uma intriga policial, que se divide entre Paris e Veneza, o que significa o recurso acrescido ao lado glamouroso de ambas as cidades.
Mas um filme destes vive da capacidade de surpreender, e cedo se compreende que o professor de matemática Frank Tupelo pode ser Alexander Pearce, o antigo namorado de Elise Clifton-Ward, que terá recorrido à cirurgia estética para alterar completamente de fisionomia, forma prática de escapar à tenaz perseguição movida pela polícia fiscal inglesa ou pelo gangster a quem espoliara de muitos milhões.
Para encher película cria-se o dilema de Elise se apaixonar pelo desajeitado professor sem esquecer a paixão anterior, sem conseguir fundi-las no mesmo objecto amoroso e um conjunto de cenas de acção pelos canais, ruelas e telhados de Veneza com o desenlace final a propiciar a confirmação das nossas precoces suspeitas.
Trata-se, pois, de um entretenimento puro, facilmente olvidável. Serviu para descontrair das preocupações com a troika, mas nada acrescentou de perdurável à nossa condição de esforçados cinéfilos.

sábado, novembro 19, 2011

Documentário: O MISTÉRIO DO PÁSSARO BRANCO de Louis Pascal Couvelaire (2010)

Quando se abordam as grandes aventuras da aviação mundial, ouvimos tecerem-se loas a Charles Lindbergh, mas raramente se ouve falar de Charles Nungesser, um pioneiro francês, que esteve quase a conseguir antecipar-se àquele na travessia entre Paris e Nova Iorque.
E, no entanto, esse Nungesser era uma personalidade bastante mais interessante do que esse norte-americano, que viria a revelar comprometedoras simpatias pelo regime de Hitler e por todo o tipo de regimes autoritários…
Ele chegara à aviação na época em que, aluno deplorável, vira naquela aventura um modo de vida.
Era o tempo em que a coragem dos primeiros aviadores era bem mais relevante do que os seus conhecimentos técnicos.
A sua ousadia fora depois testada na Grande Guerra Mundial de 1914-18, aonde se notabilizara nos primeiros combates aéreos e, depois, nas exibições de destreza nos céus americanos aonde replicava as batalhas ocorridas nos céus europeus. Espectáculos, que lhe tinham valido o casamento com uma rica herdeira fascinada pela sua imagem heróica, mas a quem jamais pediria o dinheiro, que o aliviasse da sua sempiterna pelintrice. Mesmo contando com a sua efémera carreira de galã do cinema mudo.
Em Maio de 1927, quando acompanhado de Coli, avança para a grande aventura, sentia-se completamente falido e aquela aventura constituía uma espécie de última oportunidade para sair da cepa torta.  Tanto mais que estava em jogo uma recompensa valiosa para quem perfizesse a primeira travessia transoceânica sem escala. Mas, mesmo tendo porventura chegado ao continente americano, ele acaba por representar o paradigma romântico de quem andou  a perseguir um sonho demasiado grande para as suas possibilidades… sem ser bem sucedido.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Documentário: CADERNOS DO BRASIL de Luís Miranda

A colonização do Brasil desapossou os índios, que aí viviam, das suas terras, cultura, língua e memória.
A chegada da frota de treze barcos de Pedro Álvares Cabral em 22 de Abril de 1500 é o corolário lógico do Tratado das Tordesilhas, assinado seis anos antes entre os monarcas português e castelhano, e que atribuía tais terras ao primeiro.
A primeira reacção dos portugueses aos índios pataxós, com que começam por contactar, é a de surpresa. Na sua crónica de achamento do Brasil, Pêro Vaz de Caminha evidencia o espanto de quem se confronta com uma nudez perfeitamente natural, como se aquela gente nunca tivesse passado pela experiência bíblica do pecado original.
No entanto, quando Américo Vespúcio aí volta, três anos depois, a visão encantada dá lugar à de uma veemente crítica à sua suposta selvajaria assente em actos antropófagos. Que justificaria assim a sanha evangelizadora, traduzida na chegada em força dos missionários jesuítas, que abririam caminho aos aventureiros sem escrúpulos aí dispostos a explorarem as riquezas prometidas, a começar pelo tal pau-brasil, razão de ser do nome dado ao território.
Depois do entusiasmo inicial, os jesuítas, a começar por Manuel da Nóbrega, deparam-se com matreiras resistências culturais dos supostos selvagens, que os colonizadores pretendiam escravizar.
É para acelerar a conversão religiosa dos índios e a divulgação dos Evangelhos, que Anchieta procura criar uma língua geral nativa, baseada nos seus diversos dialectos, estruturados depois numa gramática latinizada.
Em 1600 os índios ter-se-ão quase por completo escapulido do litoral, embrenhando-se para o interior e, um século depois, dos quatro milhões existentes em 1500, esses nativos estavam reduzidos a metade. Mesmo considerando que os portugueses eram então apenas trinta mil…
No século XIX, os portugueses vão derrotando as diversas tribos e forçando-as a regressar para pequenas reservas no litoral (Prado, Porto Seguro).
É só nos últimos anos, com a introdução das línguas ameríndias nas escolas, que muitas delas, que foram sobrevivendo na clandestinidade, voltam a surgir à luz do dia. Mas para esses povos a recuperação da sua identidade já é manifestamente tardia: hoje apenas se cingem a 0,2% do total da população brasileira…
O documentário de produção francesa, mas realizado por um brasileiro, não é particularmente negativo para o papel dos portugueses. Mais do que os aventureiros em si, quem mais terá contribuído para o genocídio cultural das populações índias terão sido os missionários apostados em convertê-las à força...


terça-feira, novembro 15, 2011

DO THE RIGHT THING - Trailer - HQ

Filme: DO THE RIGHT THING de Spike Lee (1989)

Quando saíram juntos pela primeira vez, Barack e Michelle Obama foram ver este filme de Spike Lee que já estava a ser considerado como extremamente controverso porque, cuidando da violência racial, possibilitava interpretações equívocas, que o davam como estimulador de motins contra a propriedade e contra a autoridade.
A acção passa-se num bairro negro de Brooklyn, aonde a pizzaria de Salvatore e a loja de bebidas de uma família coreana figuram como excrescências anacrónicas. No entanto, estabelecido ali há um quarto de século, o dono do restaurante não aceita as críticas do filho mais velho, que desejaria ver-se liberto daquele espaço tido por ele como doentio. Pelo contrário, Sal manifesta o prazer, que lhe dá a visão de gerações de jovens do bairro a sucederem-se como seus clientes.
Mas o calor intenso desse dia estival irá precipitar a tragédia para a qual nem sequer falta o coro grego representado por três velhos sentados a uma esquina donde vão comentando os acontecimentos a que assistem. E eles são de tensão em crescendo entre as diversas comunidades, porquanto porto-riquenhos e negros competem pelo volume de som das suas respectivas músicas (salsa ou rap), os italianos vêem o seu negócio sujeito a boicote (é o caso de Sal por só ter afixados os rostos de actores brancos nas paredes do seu restaurante) ou um descapotável inundado pela água de uma das colunas do sistema de incêndios da rua, sem esquecer os coreanos, igualmente objecto de críticas xenófobas dos vizinhos.
Quando a noite começa a temperar o ambiente, é quando ocorre o clímax, surgido de um pequeno incidente, gerador de uma catadupa de consequências. Que deixam o restaurante de Sal em cinzas e um dos negros do bairro estrangulado pela polícia, para além dos que acabam presos.
Trata-se de uma violência cega e estúpida, porque só desaproveita a quem a cria e desenvolve. No final todos perdem, a começar por esse Mookie, interpretado pelo próprio Spike Lee, condenado ao desemprego depois de ele próprio ter ajudado a atear o incêndio com o gesto de partir a montra do restaurante onde trabalhava. Buggin 'Out
As legendas finais com citações de Martin Luther King e Malcolm X tendem a alertar para as consequências da violência cega e da importância de agir inteligentemente em cada circunstância.

segunda-feira, novembro 14, 2011

Filme: EINSTEIN E EDDINGTON de Philip Martin

Ilha do Príncipe em 1919: uma equipa científica liderada pelo britânico Arthur Eddington está a tentar colher imagens do eclipse do Sol.
Cinco anos antes ele fora nomeado para o Observatório de Cambridge, apesar da desconfiança suscitada à sua volta pelo pacifismo inerente à sua condição de quaker.
Por essa altura, Einstein é desafiado por Max Planck para abandonar a Suíça e voltar a instalar-se na capital alemã, aonde lhe serão oferecidas óptimas condições para estudar a gravidade, demonstrando o erro inerente às conclusões de Isaac Newton.
Não tarda que Eddington encontre num obscuro trabalho de Einstein a resposta para um dos mistérios, que o obcecam:  o desvio da órbita de Mercúrio.
A Guerra irá dificultar o diálogo epistolar entre os dois cientistas, que se sentem alheios aos motivos belicistas dos seus financiadores. O que lhes vale o ostracismo a que se sentem sujeitos… sobretudo, quando quinze mil jovens ingleses (incluindo o jovem tenente, por quem Eddington se sentia apaixonado) morrem gaseados em Ypres.
Revoltado com o comprometimento da universidade naquele crime, Einstein reage de forma intempestiva, que o condenam ao desemprego. Mas é nessa mesma altura, que descobre a tese fundamental da sua Teoria da Relatividade: o espaço tem forma e a gravidade explica o desvio das luzes das estrelas.
A razão da expedição de Eddington à Ilha do Príncipe é, precisamente, a de confirmar ou desmentir a tese do seu colega alemão… pondo de lado os seus próprios preconceitos religiosos.
Um ano depois, Eddington recebe Einstein em Cambridge, já na qualidade de principal defensor de uma teoria, que comprovara verdadeira pelo crivo da experiência.
Se cinematograficamente pouco há a dizer des ta obra escorreita reconheça-se nela a capacidade para divulgar com eficiência uma das etapas mais brilhantes da ciência do século XX:

domingo, novembro 13, 2011

Documentário: OS COMBATENTES DA SOMBRA (6) de Bernard George

Em Agosto de 1944 o Exército Vermelho está quase a entrar em Varsóvia com um governo trazido de Moscovo e pronto a entrar em funções. Os resistentes do interior procuram evitá-lo e revoltam-se contra os alemães combatendo-os durante sessenta e três dias.
Na outra margem do Vístula os russos aguardam pelo desenlace dessa batalha, que acaba momentaneamente vitoriosa para os alemães. Será nessa altura que o Exército Vermelho voltará a prosseguir no seu avanço, já com Churchill a abandonar o apoio ao governo polaco no exílio londrino.
Na Grécia é o contrário: o governo, maioritariamente comunista, acabará derrotado pelos britânicos acabados de aterrar na Acrópole e recebidos como libertadores, porque na divisão de zonas de influência negociado entre Churchill e Estaline, com a complacência de Roosevelt, esse berço da civilização ficaria na órbita ocidental. Embora os gregos tivessem um profundo desprezo pelo Rei, vêem-no imposto á força enquanto se massacravam e perseguiam os comunistas.
Também em França os resistentes do interior aumentam a pressão insurreccional contra os nazis. A capitulação alemã acaba por acontecer a 25 de Agosto, quando a divisão Leclerc, enviada por De Gaulle com o acordo americano, vem dar-lhes apoio.
Por seu lado, na Holanda, esse terrível inverno entre 1944 e 1945 - o da Grande Fome - culmina na derrota alemã em 5 de Maio, não sem nos dias anteriores, centenas de resistentes serem fuzilados nas dunas junto ao mar.
A etapa final da Segunda Guerra foi, pois, marcada por uma actividade frenética da Resistência nos diversos países.
Mas, se do ponto de vista militar se poderá reconhecer que os Aliados ganhariam sempre a guerra sem essa intervenção clandestina, na perspectiva política demonstrava-se o anseio das populações civis em construírem uma Europa das liberdades e da possibilidade de um mundo bem diferente.