quinta-feira, dezembro 28, 2006

A MORTE NA ESCRITA

Em «O Ano do Pensamento Mágico», Joan Didion exorciza a sua dor depois de ter perdido o companheiro de quarenta anos de vida, John Gregory Dunne. Tudo se passou há três anos, no dia 30 de Dezembro, quando ambos tinham acabado de chegar a casa, vindos do hospital aonde a filha adoptiva, Quintana estava em coma na sequência de um choque séptico relacionado com uma pneumonia.
O que sucedeu leva Joan a escrever: «A vida muda num instante. O banal instante»
Ela fez uma salada, acendeu a lareira e preparou um uísque para John. Que logo cai, fulminado por um AVC.
O pensamento mágico de que fala o título do livro é um termo psiquiátrico para designar a atitude mental de negação de um acontecimento, muito frequente em crianças atingidas por um trauma profundo. Um trauma como o que leva Joan a não arrumar os sapatos de John durante meses na expectativa de que ele regresse.
O vazio de que padece é compreensível: depois de se terem conhecido nos inícios dos anos 60, Joan e John constituíam um casal quase mítico da intelectualidade norte-americana fazendo tudo em conjunto: trabalhando em casa, viajando, completando as frases um do outro no convívio social.
A editora do «Público» diz que é uma obra de uma lucidez implacável, brilhante de sensibilidade e de inteligência.
Mas é também um livro, que se enquadra no espírito de um tempo em que a América está condenada a pensar na morte como uma inevitabilidade: porque houve o 11 de Setembro, o Katrina e os muitos soldados vindos encaixotados do Iraque, este é um tempo de luto e de procura de uma explicação para o vazio da ausência.
Já Yann Quéffelec escreve sobre a morte da mãe, trinta e muitos anos depois de a ter vivido. Em «Ma Première Femme», o irmão da pianista que vimos anos a fio na «Festa da Música» recorda esse momento único em que atendeu o telefone e o responsável da clínica aonde a progenitora estava internada o confunde com o pai dizendo-lhe: «A sua mulher não passou a noite».
Ora o rapaz de dezassete anos, que jamais tivera a percepção da gravidade dessa doença, fica aturdido nunca mais conseguindo ser o mesmo.
O livro recentemente publicado é uma homenagem, uma forma de redenção perante o remorso de nem sequer ter conseguido despedir-se dessa mulher corajosa, que sofrera em silenciosa agonia a evolução imparável da sua doença...

domingo, dezembro 24, 2006

SEXO E FILOSOFIA

O realizador é iraniano, Mohsen Makhmalbaf, mas o filme foi rodado no Tadjiquistão em 2005: «Sexo e Filosofia» leva um homem, Jan, a reunir as suas quatro amantes na sua escola de dança no dia em que faz quarenta anos. E num estilo narrativo muito lento, com grande apoio da música e, sobretudo, da dança, ele evoca as circunstâncias em que a todas terá conhecido. Concluindo pela relativização dos sentimentos em favor do acaso ligado a cada um desses encontros.
A Mariam conhecera quando fora o único passageiro num voo em que ela era a hospedeira. Fora um amor celestial, que lhe merecera a oportunidade para esculpir uma árvore em frente à sua escola.
Farzona impressionara-o pela forma de andar, pela cor dos seus sapatos. Embora ela lhe confessasse a sua capacidade de amar os homens, que já lhe eram passado em vez de presente.
A Tamineh conhecera-a no hospital, quando uma incómoda diarreia ali o levara em grande sofrimento. Sendo ela a enfermeira, que lhe serviria de anjo da guarda nessa ocasião.
Enfim Malohat, a última dessas amantes, experimenta algo semelhante ao intento dele: junta os seus quatro amantes na mesma mesa para lhes confessar essa diversificação dos seus afectos. O que não é propriamente bem aceite por alguns deles.
Neste filme pejado de símbolos a questão essencial é descobrir o que alimenta o amor, o que conduz à sua negação.
O Amor acaba por se revelar como o milagre de um momento, quando a solidão se define como incontornável destino...

LUANDINO VIEIRA: O REGRESSO AOS LIVROS

Acabei de ler uma interessante entrevista com o escritor angolano Luandino Vieira no suplemento «Mil Folhas» do «Público», a pretexto do lançamento do seu mais recente título: «O Livro dos Rios». Que é o primeiro de uma trilogia intitulada «De Rios Velhos e Guerrilheiros».
O tema é, segundo o autor, o da «relação entre o homem angolano com a natureza angolana, no contexto da luta de libertação nacional». Para tal recorre a um grupo de guerrilheiros, que se deslocam em direcção a alguém da frente interna, que lhes traz medicamentos.
Voltando ao autor: «Estava com a ideia de escrever sobre árvores, peixes, pássaros, céu, água, rio, e não percebia bem como é que o homem havia de estar no meio disso.» A solução passa por, dentro desse grupo de guerrilheiros, inserir um sonhador atento à novidade da paisagem, já que viera da costa aonde só conhecia as areias da praia.
O livro vem confirmar quão exageradas tinham sido as notícias sobre a «morte criativa» de um escritor celebrado pelo seu «Luuanda» - que, em 1965, suscitou a acção terrorista da PIDE à sede da Sociedade Portuguesa de Autores - mas perdido durante anos nas tarefas políticas a ele confiadas após a independência, e depois, no seu voluntário exílio de treze anos nas terras minhotas.
Ainda assim ele diz que nunca parou de escrever apesar de não publicar nenhum livro novo desde 1972.
Agora, aos 71 anos, vive austeramente na casa do porteiro do Convento de Sampaio, em Vila Nova de Cerveira, tendo por anfitrião o escultor José Rodrigues.
Na sapiência conferida pela idade, ele diz: «Eu gosto muito de viver. Se estiver sol já não escrevo, saio para a rua. Se está a chover também visto o impermeável e vou andando. Só em último caso, quando já não posso fazer mais nada» é que escreve.
Bens tem muito poucos. Cabem todos numa mochila. «Se compro uma camisa, tenho de deitar outra fora».
Mas a solidão não é propriamente um estado natural em si: «Sempre tive que me virar sozinho. Acabei por ficar mais solitário do que gosto de ser… Não percebe pela conversa que não gosto de ser solitário? Acabo por conversar muito, mas depois retraio-me, meto-me na minha concha».
Ao contrário do que quem o entrevista pretende, Luandino Vieira não está desiludido com o rumo dos acontecimentos no seu país: «Se tivéssemos a capacidade de só nos construirmos, mas, eu, pelo menos, não tinha percebido que isso só se faz com os outros todos, e os outros todos não eram só os meus colegas… Eram os americanos, eram os russos, eram os sul-africanos». Acaba, assim, por reconhecer a evidência de não se sentir desiludido, porque nunca alimentara ilusões.
«Um regime é uma coisa perfeitamente transitória. Os homens desenvolvem formas de se auto-governarem conforme as necessidades. São sempre circunstancialismos que determinam isso. Hoje o mundo tem esse modelo, a democracia. E viu-se por exemplo o que deu tentarem impor a democracia no Iraque.»

domingo, dezembro 10, 2006

RECORDAR PHILLIPE NOIRET

Na televisão francesa passa um filme quase desconhecido com o actor Philippe Noiret, que acaba de morrer.
Não era daqueles actores, que motivassem a imprescindibilidade da deslocação ao cinema para ver o que interpretava, mas sabia-se de antemão a agradabilidade de tais títulos e a superlatividade da sua interpretação.
Ele começou por nos chamar a atenção n’«A Grande Farra» do Marco Ferreri, que tanto escândalo causou nos meses subsequentes ao 25 de Abril.
Depois era ele um dos divertidíssimos foliões, que iam dar chapadas nos passageiros de comboios distraídos nos seus acenos de despedida em «Meus Caros Amigos». E, já na sua idade mais provecta, seria ele o projeccionista do comovente «Cinema Paraíso» ou o poeta Neruda a quem o carteiro ia levando a sua correspondência.
Poderia aqui evocar outros títulos, mas bastam estes para comprovar a previsão de se tratar de um daqueles nomes da sétima arte, que perdurarão nas nossas memórias por uns bons e largos anos…

segunda-feira, dezembro 04, 2006

CIDADANIA PRECISA-SE (NOS JORNALISTAS)

Num dos telejornais de ontem eram entrevistadas pessoas, que rejeitavam a possibilidade de «salas de chuto» serem instaladas na vizinhança das suas casas.
Como de costume - e aliás na linha do que esta nova geração de «jornalistas» vem difundindo nos nossos media - dava-se só voz a um dos lados da questão sem a oportunidade cívica de fazer prevalecer os argumentos pertinentes de quem defende nessa medida uma forma racional de ajudar a resolver um grave problema social.
Demonstrava essa reportagem que o populismo não é exclusivo do discurso político. Este crescerá sim a partir da divulgação acrítica deste tipo de mensagens, que só contribuem para a prevalência do que de pior existe no comportamento colectivo. Neste caso em concreto a segregação de um número significativo de nossos concidadãos a quem as circunstâncias infelizes da vida empurraram para a via da toxicodependência.
E, no entanto, nos bairros em causa - e em qualquer um deste país - quantos casos de toxicodependência se albergam por detrás das insuspeitas fachadas dos seus prédios?
O discurso desses entrevistados lembra os que empurram a sujidade para debaixo dos tapetes ou quem prefere esconder a cabeça na areia.
Porque é um assunto de tal gravidade, que exige ser tratado com frontalidade, todos deveriam ser comprometidos na sua resolução. Colaborando nas soluções em vez de lhes atravessarem obstáculos. Ou porque são de esquerda e se confrontam com uma iníqua situação de injustiça social, que urge resolver. Ou porque são cristãos e devem por natureza revelar a sua quotidiana generosidade. Ou porque são de direita e devem ter a consciência dos danos à sua sagrada propriedade privada, que o problema colateralmente cria.
Mas os primeiros responsáveis pela criação de uma tal postura devem ser os editores de notícias dos jornais, das rádios e das televisões, ao contribuírem para um discurso de cidadania em tudo quanto é publicado sobre assuntos desta relevância…

sábado, dezembro 02, 2006

THE OTHER FINAL

Johan Kramer realizou «The Other Final», mas o projecto era do seu amigo Matthijs que, em 2002, ficou extremamente triste pelo facto de não ver a sua Holanda natal apurada para a fase final do Mundial de futebol no Japão. Resultou daí um projecto assaz curioso por permitir a exploração da ideia de exorcizar a derrota a partir da vivência dos mais habituados a com ela lidar. Ou seja, o confronto entre as duas selecções de futebol relegadas nos dois últimos lugares da Classificação oficial da FIFA: as pertencentes ao asiático Butão e à caribenha Montserrat.
O documentário apresenta ambos os países. Montserrat ainda tem bem presente uma irrupção vulcânica, que cobriu de cinzas o antigo estádio e parte significativa dos seus terrenos de cultivo. De entre os seus 150 praticantes de futebol amador o seu treinador deverá escolher os que se deslocarão a Tinfu. Por seu lado o pequeno país dos Himalaias só muito recentemente se abriu ao exterior, mas a sua monarquia continua a explicitar um discurso político algo singular ao preocupar-se com o PIB de felicidade do seu povo. Por agora tem 900 praticantes da modalidade, que estão longe de ombrear com as preferências dos compatriotas pelo críquete.
Embora se tente promover o desporto como a oportunidade de encontro de culturas, vêm ao de cima os piores indícios de quão assim não acontecerá: o treinador de Monserrat acaba por se demitir ao negar ao poder político a decisão de escolher os titulares da selecção, enquanto do outro lado existe a rápida contratação de um treinador profissional holandês tão só morre o antecessor no cargo.
As cautelas dos asiáticos têm alguma razão de ser: em anterior confronto internacional a sua selecção fora cilindrada pela do Koweit por 20-0.
Chega a semana do jogo, quando o campeonato do Japão já vai bastante avançado. As equipas treinam, embora os visitantes padeçam de uma intoxicação alimentar, que lhes prejudica a preparação.
Quem não falta à preparação são os apoiantes das duas equipas, todos butaneses, mas unidos no entusiasmo em gritarem por quem estão incumbidos de suportar.
No dia do jogo a notícia daquele encontro singular já apareceu nos jornais de todo o mundo, que não são muito simpáticos para qualificar as duas equipas. Mas o jogo tem em entusiasmo - às vezes demasiado exagerado - o que lhe falta em técnica futebolística. E o Butão ganha o seu primeiro encontro internacional por 4-0.
No rescaldo recupera-se algo do clima pretendido com a taça em disputa a ser partilhada e com a consagração de todos quantos tinham participado no jogo.
É altura de concluir o filme com as pessoas mais díspares a darem uns toques na bola, um singelo objecto de diversão que, provou-se, é capaz de criar cumplicidades além fronteiras...

domingo, novembro 26, 2006

MARIANNE KAPFER: «PAISAGENS INDUSTRIAIS» (2006)

Bernd Becher começou por pintar e desenhar edifícios e fábricas, que sabia estarem abandonados e em vias de destruição.
Em 1957 passa a recorrer à fotografia por ela implicar uma maior objectividade e precisão ao seu trabalho.
Frequenta a Academia das Belas Artes de Dusseldorf e encontra Hilla Wobeser.
Juntos, encetam um trabalho organizado em séries, recenseando sistematicamente os castelos de água, os silos, os altos fornos, os poços das minas, os gasómetros, etc.
Elaboram um protocolo quanto a captação rigorosa das imagens, que se manteve ao longo das décadas: a construção é colocada no centro da imagem de uma perspectiva ligeiramente elevada e banindo pessoas, nuvens, fumos e sombras. A luz deve ser mais difusa.
A maioria dos locais fotografados na Alemanha, em França, na Bélgica, no Luxemburgo e nos Estados Unidos transformaram-se completamente. Mas fica deles a memória, graças às imagens dos Becher.

ARNOLD FANCK: «A MONTANHA SAGRADA» (1926)

Diotima é bailarina. Apaixonada, ela dança por todo o lado, mormente junto ao mar aonde ela capta a energia da espuma das ondas.
Procurando novas sensações ela parte para a montanha. Numa estação de desportos de Inverno ela trava conhecimento com Karl e Vigo, dois amigos apostados em aproveitar o tempo para esquiar e subir às montanhas em redor.
Ambos apaixonam-se por ela, descobrindo essa coincidência numa escalada a dois, que acaba de forma trágica. Apesar dos esforços de Diotima para ir em seu socorro…
Lá no alto, na montanha, os céus enevoados, os glaciares ameaçadores, as fendas impressionantes e as silhuetas humanas perdidas na imensidão são as características do cinema de Arnold Fanck, já então um mestre do filme de montanha, género por ele criado desde o início da década de 20.
Os seus primeiros filmes atraíram muito rapidamente a atenção do público alemão, que busca no regresso à natureza uma forma de diversão para o clima político e económico da época.
Entre os seus admiradores está Leni Riefenstahl, uma jovem bailarina para quem ele concebe o papel de Diotima. A colaboração entre ambos prosseguirá durante mais cinco filmes, todos eles dedicados ao tema da montanha: «O Grande Salto» (1927), Prisioneiros da Montanha/ O Inferno Branco de Piz Palu» (1929), «Tempestade no Monte Branco» (1930), «Embriaguez Branca» (1931) e «S.O.S. Iceberg» (1933).
É durante a rodagem de «A Montanha Sagrada», que Leni Riefenstahl começa a interessar-se pela carreira de realizadora. Os filmes de Arnold Fanck, que mostram os poderes irracionais da natureza sobre o homem, foram classificados como precursores do nazismo.
Leni Rifenstahl será a sua representante oficial com «Os Deuses do Estádio».

O MARTÍRIO DE UMA AVÓ

O que terá levado Fátima Al Najar a oferecer-se para morrer enquanto mártir do seu povo?
Aos 64 anos esta avó de 43 netos já deverá ter sentido muita dor em si, nos seus e nos seus vizinhos.
Só assim se compreende que se tenha convertido num símbolo dos palestinianos em luta contra as agressões sionistas. Como se doravante, depois de mulheres e crianças terem chegado à primeira fila dos que enfrentam o exército israelita, também os mais velhos não fiquem isentos da suspeita de constituírem arma de destruição letal de todos os seus agressores.
Por muito que nos repugne o terrorismo cego, como não entender as razões dos que nele encontram única forma de expressão dos seu desalentado sofrimento?

OS PLANOS DE UM ARRIVISTA

No «Diário Económico» o comentador Raul Vaz diz que «sempre que surge uma oportunidade. Durão Barroso reaperece. Em Portugal, onde pensa continuar a sua carreira política. Uma conferência, uma exposição, a celebração do segundo aniversário da sua Comissão…»
Eu que conheci tal personagem no Liceu de Almada nos idos anos 70, quando no seio de uma geração de colegas fadados para virem a ser todos brilhantes e capazes de virarem o mundo do avesso, ele passava completamente despercebido na sua já então gritante falta de ideias próprias, criei a seu respeito uma antipatia corroborada nas décadas seguintes.
No MRPP ele era o exemplo típico do provocador infiltrado, que justificaria as dúvidas de quem via nesse maoísmo a presumível influência de serviços secretos estrangeiros.
Quando o seu carreirismo no PSD/PPD o levaria a primeiro-ministro nunca nele se veria qualquer capacidade para - apesar da maioria absoluta garantida na sua coligação com Paulo Portas - qualquer intenção nem capacidade para empreender as imprescindíveis reformas agora assumidas por José Sócrates.
A sua cinzenta mediania prossegue na Comissão Europeia para onde se candidatara - segundo o livro agora publicado pelo seu comparsa Santana Lopes - quando supostamente andava a defender uma candidatura alheia.
Tudo em Durão Barroso lembra a mediocridade dos arrivistas, que utilizam os menos escrupulosos meios para almejarem mordomias para as quais os seus talentos jamais chegariam em condições normais. Que ele se ande por aí a preparar para eventuais futuros políticos no país só nos deve deixar alerta. Para jamais deixarmos esquecer a quem nos possa ouvir que esse personagem político esteve um dia ao leme do país e, vendo-o em tormentosas dificuldades logo se apressou a saltar para fora dele…

segunda-feira, novembro 13, 2006

SÃO, DE FACTO, TEMPOS INTERESSANTES

Se é certo que a governação de Sócrates não entusiasma - ainda não consegue transmitir a iminência de tempos melhores em que se fundamente as esperanças individuais - há uma credibilidade do que propõe como via de acesso a menores dificuldades. Mas, qual Nanni Moretti, também gostaria de ouvir dos lábios do primeiro-ministro algumas ideias de esquerda com maior frequência. Vale, por agora, uma completa crise de imaginação de uma direita espoliada de muitas das suas estratégias. E quando as críticas vêm enunciadas por Miguel Frasquilho fica-se com a noção de uma completa impreparação do PSD para sugerir alternativas mais consistentes. No jornal citado algumas linhas acima, a Helena Garrido comentava alguns dias atrás:
«A ideia de avaliar a evolução da despesa com valores absolutos, como ontem vimos por parte de um responsável do PSD, com formação no domínio da economia, é lamentável. Não é possível acreditar que alguém considere viável reduzir o peso do Estado na economia com diminuições efectivas nos gastos do Estado. Se aquilo a que vamos assistindo nas ruas com o que está a ser feito é o que é, com manifestações e greves, como seria se um qualquer Governo decidisse reduzir mesmo os gastos?»
Outra demonstração de falta de credibilidade do PSD tem a ver com o comportamento do seu líder, Marques Mendes a respeito da Madeira: esquecendo-se de quando foi desprezado e até mesmo insultado por Alberto João Jardim apressou-se a ir ao arquipélago apoiar o despesismo do Governo Regional, desculpabilizando ao correligionário o que ao Governo critica. Um comportamento de troca tintas, que pressagia um funeral político num futuro próximo.
Mas se a política de José Sócrates não evita a tremenda crise de emprego, que afecta não só os trabalhadores com menores qualificações académicas, mas também licenciados e bacharéis, não existem grandes alternativas de esquerda para ela. Vivemos tempos interessantes, na acepção de Hobsbawn, em que se podem prever graves crises políticas e sociais, mas ainda se não encontraram condições para lhes dar a resposta mais eficaz.
Não é com esta comunicação totalmente controlada pelos grandes grupos financeiros, que os cidadãos eleitores irão ganhar a consciência ideológica necessária para se furtarem às armadilhas semeadas na informação disponível. Que os leva a assumir como bons certos estereótipos no mínimo polémicos, como o do completo apagamento de conceitos marxistas…
Ora, eu defendo claramente a exequibilidade de surgir um marxismo reformulado e actualizado, que abra caminhos para sociedades mais justas. Falta só pensá-lo, reenquadrá-lo nos dias de hoje e implementá-lo de uma forma mais bem sucedida que nos diversos países ex-comunistas.
Vem a propósito retomar uma velha, mas actualíssima, citação de Abraham Lincoln:
«É possível enganar toda a gente durante algum tempo, e mesmo alguma gente durante todo o tempo, mas não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo.»
Lá virá o tempo em que esta aparente aceitação passiva perante os axiomas capitalistas - e das suas cruéis consequências - conhecerá uma inflexão determinante sobre o que será o conceito de Democracia na segunda metade do Século XXI.
A citação de Abraham Lincoln aplica-se, igualmente, ao sucedido nas eleições norte-americanas: provando como as opiniões públicas são muito voláteis a aceitação quase total das políticas de George W. Bush à época da invasão do Iraque deu lugar à sua maioritária rejeição. Dizia António José Teixeira a este propósito no editorial do «Diário de Notícias»:
«Censurar um presidente em tempo de guerra não está na tradição americana. Se aconteceu agora é porque os americanos estão fartos de guerra e não acreditam na sua justificação. O descrédito da Administração Bush é evidente.»
Para a derrota total de tão sinistra personagem só falta impor às novas autoridades iraquianas a não aplicação da pena de morte sobre Saddam Hussein, já que os factos estão a demonstrar à saciedade o erro em que lavrou todo o Ocidente ao removê-lo do poder em Bagdad. Não teria morrido tanta gente, nem tanta miséria teria acontecido, se tivesse havido quem demonstrasse a Bush, Blair, Aznar e Barroso, que os interesses das Enrons, Halliburtons ou Bechtels não justificavam uma agressão de que só aproveitariam os terroristas.
E, como escreveu Jorge Coelho:
«Faz todo o sentido que países e movimentos ocidentais se mobilizem para que a sentença não seja executada. Os valores da nossa civilização não se coadunam com a pena de morte. Apesar de alguns silêncios, esta tese começa a ganhar força e temos de a fazer valer junto das autoridades iraquianas. Não é para isto que soldados europeus andam a morrer em solo iraquiano»

domingo, novembro 05, 2006

DANIEL BARENBOIM EM LISBOA

Assumo uma simpatia justificada pelo maestro e pianista Daniel Barenboim. Recordo-o há muitos anos, quando ele era ainda uma jovem promessa e vivia com a violoncelista Jacqueline du Pré, com quem está a actuar na imagem da página anterior. Sobre o drama, que ambos partilhariam até à morte dela, de nada sabia, sendo-me necessário o filme com a notável Emily Watson para perceber quanto sofrimento ele conhecera naquela que foi uma relação demasiado breve e complexa.
Talvez porque contactou de muito perto com o martírio, Daniel Barenboim tem revelado uma grande generosidade ao longo da sua carreira. Os esforços para um diálogo israelo-palestiniano atestam-no e os seus espectáculos com a Orquestra Divan têm um carácter simbólico, que poderá vir a frutificar na criação de uma cultura mútua de aceitação das semelhanças e das diferenças. Para além da irrepreensível qualidade artística, que Barenboim impõe ao projecto.
Mas a sua carreira não se esgota nessa iniciativa partilhada com Edward Said e é tão normal vê-lo a dirigir as mais prestigiadas Orquestras como a limitar-se ao papel de solista em Orquestras por outrem dirigidas.
foi assim na Gulbenkian na semana passada, quando Barenboim presenteou os portugueses com mais um excelente espectáculo a acompanhar a Orquestra Gulbenkian dirigida por Lawrence Foster.

sábado, novembro 04, 2006

FÓSSEIS E MORAIS DE MOCRÁTICAS

Um estudo de Augusto Santos Silva, actual ministro dos Assuntos Parlamentares, a respeito da composição sociológica dos militantes socialistas, deu para concluir três aspectos principais:
· O grupo etário com maior dimensão é o dos homens de meia-idade, não sindicalizados e com formação académica limitada;
· As mulheres estão a surgir com maior frequência, já que, desde 2000, um terço dos novos militantes é do género feminino;
· Comparando as formações académicas de homens e mulheres socialistas, estas últimas possuem mais anos de escolaridade, que aqueles.
Conclui-se, pois, que estão a surgir condições para um partido mais culto e com uma sensibilidade mais apurada, que estigmatize muitos dos vícios aí criados por toda uma geração de militantes, cujo principal estímulo para a cidadania resultou de um anticomunismo primário, que ainda se revela de forma alarve em muitos dos que tomam a palavra em assembleias e reuniões internas do Partido.
***
Esta semana enquanto António Lobo Antunes proferia uma atoarda do mais primário anticomunismo («Não entendo como é que se pode ser um comunista. Racionalmente, não entendo como é que se pode pertencer àquele fóssil, que ainda continua a respirar de vez em quando»), o objecto dos seus inconfessados ódios, José Saramago, manifestava ao «Nouvel Observateur» o orgulho em continuar a acreditar no futuro das suas ideias políticas: «O comunismo? Nunca existiu. Não se sabe bem o que é. Há ideais e princípios. Mas estes princípios foram desnaturados logo que começaram a ser aplicados. Não se pode, pois, dizer que o comunismo é isto ou aquilo porque, na realidade, nada se sabe dele. Na União Soviética, o comunismo era um simples capitalismo de Estado. E a China vai no mesmo caminho com a cumplicidade das potências ocidentais, tão democráticas, que aplaudem e dizem bravo, bravo. É tenebroso.»
Mas a alternativa não é melhor, se verificarmos o que constitui a «moral democrática» dos Estados Unidos. Jacques Julliard comenta a seu respeito, que «durante dois séculos , os Estados Unidos permitiram-se dar lições de moral e de democracia ao resto do mundo. O seu território estava ao abrigo da violência exterior e não havia que pagar os custos da sua suposta virtude. Desde o 11 de Setembro, acabou o excepcionalismo americano. Os Estados Unidos normalizam-se. E é triste que seja pela porta pior».
Uma porta que, aprovada pelo Senado e pelo Congresso, legitima o uso da tortura e da prisão preventiva ilimitada sob o falacioso argumento da ameaça terrorista.

domingo, outubro 29, 2006

VIVA O TOUR - documentário de Malle, Ertaud e Clocquet

Era no tempo em que o Tour percorria a França de norte a sul e convertia-se numa enorme festa popular. O doping era quase desconhecido e, à beira das estradas, surgiam os espectadores mais inesperados (freiras e padres vestidos a rigor). Imperava o clima de quermesse popular em que todos eram estimulados para a «bonne franquette».
E, no entanto, os ciclistas possuíam um outro olhar para essa fila interminável de espectadores a vitoriá-los: a câmara adopta a sua perspectiva e a nitidez dessa multidão dilui-se num cordão humano impessoal de espessura impressionista.
O ciclismo, ainda que profissional, mantinha práticas de desporto amador: era normal a paragem dos atletas junto aos bistrots, ora para se abastecerem de líquidos, ora para muito simplesmente os esvaziarem. Para outros era desnecessária essa paragem: montados no selim, puxavam o pénis para fora dos calções e cumpriam a função enquanto pedalam.
Os heróis populares chamavam-se Anquetil - que ganharia cinco Tours - ou Raymond Poulidor, o eterno segundo classificado. Que por falhar a vitória por muito pouco acabava sempre por concitar as maiores simpatias.
Mas o Tour tem outras facetas menos festivas. Por exemplo a das quedas dramáticas, que suscita esgares de dor nas suas vítimas. Muitas vezes incapazes de explicarem como iam tão bem, semi-adormecidos na inércia de movimento do pelotão e, de repente, se viam emaranhados num novelo de rodas, pedais, guiadores e de corpos doridos.
Ainda pior os efeitos devastadores dos primeiros dopados, que não ganham forças à custa do que tomam, mas vêem adormecidas as dores do seu esforço sobre-humano. Quando nem isso lhes vale, têm uma explicação repetitiva para os seus «incómodos»: peixe estragado comido ao almoço.
Neste documentário notável sobre a mais prestigiada das provas velocipédicas, impressionam as imagens de um ciclista, que leva a sua exaustão até ao desmaio e consequente queda. Depois do seu transporte para o hospital, as duras condições de subida dos colos pirenaicos e alpinos já parecem desafios menos impressionantes.
Ainda que datado, «Viva o Tour» é uma evocação superlativa de um tempo de inocência, de descontraída crença nos valores depois estraçalhados pelo castrador liberalismo económico… O que transformaria essa festa num produto consumível e descartável ...

sábado, outubro 28, 2006

«Um Presente do Céu», um filme de Simone Aaberg Kaern


Durante cerca de dez anos, a artista plástica dinamarquesa Simone Aaberg Kaern trabalha no tema do voo, em associação frequente com a questão da representação da mulher.
Em 2002 ela lê num jornal a história de uma jovem afegã de 16 anos, cujo sonho maior é tornar-se piloto da Força Aérea.
Simone Aaberg Kaern, que sente intenso fascínio pelas aviadoras da Segunda Guerra Mundial, sente essa notícia como um apelo. Tanto mais que a liberdade dos céus parece perdida desde os atentados do 11 de Setembro.
Decide, pois, fazer os possíveis (e até os impossíveis …) para ajudar essa adolescente a cumprir o seu sonho. Para tal descobre um Piper Colt - o único avião para que chegam as suas posses limitadas e já vetusto nos seus mais de quarenta anos de idade. Mas com a vantagem de consumir combustível de automóvel, mais fácil de encontrar no seu périplo entre Copenhaga e Cabul.
As desvantagens não são, porém, de desprezar: só permitir dois passageiros e um máximo de 40 quilos de bagagem.
Convencido Magnus Bejmar a acompanhá-la na aventura para dela reter as imagens para o filme a realizar, a partida é dada em 4 de Setembro de 2002 … e irá durar quatro meses.
«Um Presente do Céu» é, pois, o testemunho dessa experiência audaciosa, traduzida num voo de seis mil quilómetros por toda a Europa Central e Médio Oriente , que dura cinquenta horas e passa por vinte e três escalas. Com algumas dificuldades inesperadas em Corfu (falta de combustível), na Bósnia (com o espaço aéreo fechado) e no Irão (por falta de visto e de autorização).
O momento mais complicado ocorre, porém, no percurso entre Mashad e Herat em que se arriscam a ser abatidos pelas forças norte-americanas de quem não conseguem obter a desejada permissão para entrarem no espaço aéreo afegão. Uma dificuldade, que não lhes tolhe a vontade: é em total ilegalidade, que eles aterram na sua penúltima escala antes de Cabul.
Dias depois a jovem Farial tem o seu baptismo de voo e nada parece demover a sua decisão de romper com a imagem tradicional das mulheres do seu país.
Mas depressa vem ao de cima a autoridade de um tio influente, que logo corta as asas à rapariga doravante condicionada ao peso da tradição...

segunda-feira, outubro 23, 2006

JÜRGEN STUMPFHAUS: «PERSEGUIÇÃO NO CABO HORN»

Sobre a Primeira Grande Guerra existem muitos documentários e filmes de ficção sobre as trincheiras da Flandres. E, no entanto, muitos outros episódios históricos desse mesmo período igualaram em dramatismo os descritos por Erich Maria Ramarque ou filmados por Stanley Kubrick.
A disputa bélica nos mares é menos conhecida, sobretudo as ocorridas na ponta mais a sul da América Latina.
O documentário de Jürgen Stumpfhaus tem duas grandes qualidades: o de abordar essa realidade quase desconhecida dos que a abordam à distância de quase um século e o de fazê-lo através de uma reconstituição credível no desempenho dos actores, no guarda-roupa e nos navios utilizados, que são mostrados em paralelo com as escassas imagens cinematográficas dessa época em que ainda estava longe o cinema sonoro e a cores.
O que se discute nas costas da Terra do Fogo é muito simples: quem irá dominar os mares nos anos seguintes? Os ingleses querem manter uma supremacia, que já dura há séculos, desde que afundaram a Invisível Armada espanhola. Os alemães, comandados pelo vice-almirante von Spee, apostam na inversão dessa relação de forças.
Em 1 de Novembro de 1914, ao largo da costa chilena, a frota germânica inflige uma derrota humilhante à da Royal Navy. E é vitoriada pelos muitos compatriotas estabelecidos em Valparaíso, aonde aportam antes de se dirigirem para a costa atlântica.
Chocada com essa derrota, e impulsionada por Winston Churchill, então no Almirantado, a Inglaterra prepara uma nova frota para, de imediato, procurar desforra. Ela ocorre a 8 de Dezembro ao largo das Malvinas…
À excepção do «Dresden», que consegue escapar para sul, utilizando o nevoeiro a seu favor, milhares de alemães afogam-se com os seus navios nessa batalha, que elimina qualquer possibilidade de definir nos mares quem ganharia esse conflito generalizado…
Decididos a levarem a vingança até ao fim, a frota inglesa persegue o navio fugitivo por todo o Estreito de Magalhães. E, apesar do engenho do jovem comendante Canaris, também esse navio acabará afundado nas águas da Patagónia...

domingo, outubro 22, 2006

MARTIN AMBROSCH: «MISSÃO SECRETA PARA SUA MAJESTADE»

Em 1665, quando os portugueses e os espanhóis ainda batalhavam em Montes Claros para definir se a Restauração da Independência seria ou não garantida, ocorre no Danúbio uma verdadeira epopeia para um homem culto chamado Peter Lambeck, que exercia o cargo de prefeito do Imperador Leopoldo I de Habsburgo.
A ordem dimanada se Sua Majestade era encher a recém-inaugurada Biblioteca Imperial com as mais magníficas colecções de manuscritos e de Bíblias ilustradas com iluminuras, que existissem, então, na Europa.
A missão de Lambeck não é fácil: apesar de empossado em tão relevantes funções, ele confronta-se com desconfortos tão pouco habituais para quem vivia a plácida comodidade dos cortesãos de Viena e com a oposição dos então detentores desses livros, pouco impressionados com a precedência imperial sobre a posse de documentos quantas vezes objecto de colecção há mais de duzentos anos.
O documentário de Martin Ambrosch procede a uma rigorosa reconstituição histórica, atribuindo a actores os papéis desse prefeito, do seu valete, dos mal encarados marinheiros que o acompanham rio abaixo e de quem com eles se vai encontrando pelo caminho.
Pernoitam em albergues pestilentos cujo conforto se limitava a uma lareira para aquecimento de uma divisão aonde os hóspedes comiam e dormiam sem que lhes fosse facultado qualquer talher ou prato, e muito menos um colchão.
A viagem pelo rio é um tormento com os marinheiros a embriagarem-se, com o leme a partir-se deixando-os à deriva e com alguns dos valiosos manuscritos a tombarem nas águas.
Ao chegar a Viena com a maior parte da sua valiosa carga, Peter Lambeck pode ufanar-se de ter ultrapassado tormentosos obstáculos e de nunca ter pensado em desistir da sua missão.

A PROPÓSITO DE UM CONVITE

A blogosfera anda um bocado agitada com a presença do Partido Comunista Chinês no próximo Congresso do Partido Socialista. Tanto mais, que anda a circular um filme mal amanhado em que se vêem Guardas Fronteiriços chineses a dispararem sobre um conjunto de pessoas em fuga através da fronteira com o Nepal.
Daí a voltar à baila a velha questão dos Direitos Humanos espezinhados foi um ápice. Com comparações maldosas em relação a supostos terroristas colombianos, que terão marcado presença na recente Festa do Avante…
A generalização pretendida é clara: a esquerda, seja na sua variante comunista, seja na socialista, relaciona-se com quem não respeita as opiniões alheias, prendendo, torturando e assassinando todos quantos ponham em causa a legitimidade do seu poder.
É escandalosa essa «indignação» da parte de quem despudoradamente a revela, sobretudo, quando nada teriam a dizer se fosse ao Partido Republicano norte-americano que tal convite fosse endossado.
E, no entanto, foi esse mesmo partido quem lançou na guerra do Iraque milhares dos seus jovens para servirem de carne para canhão e defenderem os interesses das companhias petrolíferas texanas e das Halliburton, que haviam sustentado a fraude eleitoral pela qual George W. Bush foi colocado na Casa Branca.
A China comunista, agora presente no Congresso socialista conta com muitas virtudes e com muitas razões para ser criticada. Mas decerto não avançou com políticas imperialistas, que causassem 650 mil mortos num qualquer Iraque, como ocorreu com os EUA.

sábado, outubro 21, 2006

UMA «NOVA» ALEMANHA

Oradour-sur-Glane: uma comunidade que aí vivera por mil anos é dizimada numa tarde. E tudo começara uns anos antes, em 1933, quando o Partido Nacional-Socialista chega ao poder numa Alemanha devastada pelo desemprego, pela desmoralização , sobretudo, quando eleitoralmente estava em queda.
Ainda assim, socialistas e comunistas julgavam tratar-se de fenómeno passageiro, condenado pelas circunstâncias imediatas. Mas estas - sobretudo representadas pelo incêndio do Reichtag - irão concorrer para a suspensão dos direitos civis e do Parlamento.
Hábil na condução e na criação de acontecimentos, Hitler anuncia uma Nova Alemanha, que perduraria por mil anos. É na mesma altura em que comunistas, socialistas, deputados e jornalistas começam a ser internados nos primeiros campos de concentração, então geridos pelas Secções de Assalto (SA), a face mais trauliteira das milícias nazis. Os mesmos que dão corpo à política de boicote às lojas de judeus e aos autos-de-fé de livros considerados subversivos. Ora, um século antes, o poeta Heine escrevera que «aonde se queimam livros não tardarão a queimar-se pessoas».
Nessa altura a maioria dos judeus mais abastados ainda julgavam sem futuro essa vertente extremista da propaganda nazi.
Os principais apoiantes do novo regime são os desempregados, os comerciantes arruinados pela Depressão, os agricultores e camponeses, os funcionários públicos cujas poupanças haviam desaparecido por efeito da carestia de vida.
Havia, igualmente, uma camada da população inconformada com os termos em que havia sido firmado o Tratado de Versalhes, que retirara da antiga Alemanha os territórios da Alsácia, da Lorena, do Sarre, da Galícia e a cidade de Danzig.
No Natal de 1933 o regime de Hitler estava fortalecido, embora os SA já fossem um estorvo para os planos futuros do chanceler. Já devia pairar pela sua mente o assassinato de cerca de duas centenas das suas principais figuras naquela que viria a ser conhecida pela Noite das Facas Longas (30 de Junho de 1934). Um episódio, que permitiria confirmar a inexistência de pruridos formais para afastar todos os obstáculos à estratégia delineada pelos títeres do regime.
E, quando, em 2 de Agosto de 1934, o Presidente Hindenburg morre, Hitler extingue essa função política e proclama-se Führer, chefe supremo do povo alemão e do seu exército.
Quando referenda a sua ditadura, Hitler lança uma campanha de propaganda, que lhe garante 90% de votos: Mas, ainda assim, avessos a ela, quatro milhões de alemães não se inibem de votar não.
A situação económica, já estava em franca recuperação, quando eles chegam ao poder, melhora significativamente e os nazis não deixam de aproveitar essa constatação empírica da maioria que os apoia.
A construção da primeira auto-estrada, que ligava Berlim à província, permitirá o rápido avanço dos tanques, quando eles estiverem preparados para a ocupação dos países vizinhos. Mas, enquanto isso não ocorre, fomenta-se a histeria colectiva em comícios encenados com competência, enquanto as actualidades cinematográficas são férteis em imagens de Hitler no seu retiro de Berghof a acarinhar crianças, a brincar com os seus cães e a conviver com Eva Braun e muitos dos dignitários do seu regime.
O rearmamento começa a ganhar um ritmo avassalador: aparecem novos blindados, os primeiros esquadrões da Luftwaffe voam nos céus e a nova marinha sai dos atarefados estaleiros. Embora os seus generais considerem extemporânea a decisão de partir para a guerra, Hitler proclama extinto o Tratado de Versalhes.
A recuperação dos territórios nele perdidos já começara a ocorrer em 1935 quando, sob acompanhamento internacional, a população do Sarre vota o regresso desse território à Alemanha. A Renânia é anexada em 1936 e a Áustria em 1938.
A minoria alemã na Checoslováquia é estimulada para manifestar-se contra uma suposta agressão das autoridades de Praga e possibilita a anexação do território dos Sudetas, sem que os aliados desse pequeno país (Inglaterra, França e URSS) reagissem.
As prepotências sobre a comunidade judaica vão subindo em escalada: em 1938, na sequência do assassinato de um diplomata alemão em Paris a violência torna-se descontrolada na que será conhecida como a «Noite de Cristal», quando se incendeiam sinagogas, se vandalizam lojas e se prendem ou assassinam indiscriminadamente quem se suspeita de não caber na classificação de arianos.
Em Abril de 1939 a Wehrmacht protagoniza a festa do 50º aniversário de Adolf Hitler. O seu alto comando ainda duvida do sucesso de uma agressão à Polónia, mas o Fürher já decidiu: exige a devolução de Danzig e um corredor de acesso através do território desse vizinho.
Uma vez mais, umas até então quase anónimas minorias germânicas reclamam a defesa dos seus interesses e dão o ensejo para a agressão.
No entanto os estrategas alemães conseguem um golpe de surpresa, que abana as certezas dos que se preparam para travar a iminente agressão: voando para Moscovo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Reich, Ribbentrop, consegue firmar com Estaline e com Molotov um Pacto de Não Agressão.
Já nada pode impedir a Wehrmacht e a Luftwaffe de avançarem: inicia-se a mais devastadora Guerra até então conhecida pela Humanidade.

segunda-feira, outubro 16, 2006

THEODOR ADORNO E A ESCOLA DE FRANCFORTE

Nos anos 20, graças ao mecenato de um negociante de cereais, nascia o Instituto de Pesquisas Sociais, que tornaria conhecidos Max Horkheimer e Theodor Adorno como expoentes de uma nova teoria de pensamento crítico, que procurava expurgar o marxismo dos seus dogmas e adequá-lo à realidade de uma sociedade em plena efervescência e mutação. A tal ponto que, quase sem se fazerem anunciar, os nazis chegam ao poder e obrigam ao exílio norte-americano esses ideólogos esquerdistas cujos livros alimentavam os autos-de-fé daqueles.
No outro lado do Atlântico, Adorno mantém um reconhecimento quase filial pelo seu mestre, que muito contribuíra para lhe salvar a pele e lhe garantir a sobrevivência nesse exílio forçado.
Quando, terminada a guerra, Horkheimer e Adorno regressam, estimula-os o projecto de contribuírem para a difusão dos ideais de liberdade e de democracia junto dos seus compatriotas ainda então sujeitos a campanhas de desnazificação.
Em 14 de Novembro de 1951 o Instituto é reinaugurado com pompa e circunstância, ficando dependente da Universidade de Francforte.
Os seus impulsionadores têm, então, uma justificada notoriedade entre os seus concidadãos. Mas logo despontam os críticos, sobretudo os que se desinteressam de qualquer explicação quanto á agudização do anti-semitismo entre os alemães, preferindo seguir em frente como se Auschwitz jamais houvesse existido.
A «Teoria Crítica» criada nessa Escola de Francforte interpreta a realidade a partir das ideias de Hegel e de Karl Marx e procura suscitar o pensamento crítico nos estudantes ao invés do que se passa a leste, aonde impera a tradição escolástica de considerar o Ser quem determina a Consciência.
É uma época muito estimulante para Adorno, que se interessa igualmente pela música experimental, participando ao lado de Boulez, Nonno ou Stockhausen na Universidade de Verão de Darmstadt.
Horkheimer já é, então, uma caricatura do filósofo brilhante do passado: cioso das mordomias das suas funções de reitor universitário, ele esconde na medida do possível os seus textos dos anos 20, que explicitavam a sua condição de comunista e vai ao ponto de contratar para o seu estabelecimento alguns académicos outrora proscritos pelo seu comprometimento com o regime nazi. Mas Adorno, apesar de nunca atravessar a fronteira, que separa o Bem do Mal, nunca se distancia do seu antigo protector. Nem mesmo, quando Habermas, brilhante professor do Instituto, é despedido devido ao seu pensamento demasiado conotado à esquerda.
Em 1959, Adorno chega à direcção do Instituto, sendo dessa época a sua conhecida afirmação: Quando o mundo não é senão desolação, as pessoas não podem senão sentirem-se desoladas. As suas aulas no mais vasto anfiteatro da escola atrai centenas de estudantes, que se acotovelam para conseguir aceder ás suas esclarecidas palavras. Mesmo que elas transmitam uma ideologia desesperada e sem solução, muito próxima do «esquecimento do Ser» de Heidegger, que, no entanto, se situa nos antípodas do seu posicionamento político.
Na contestação à guerra do Vietname através da música pop, Adorno entrevê algo de significativo, mas de paradoxal: surgido como movimento ideológico de cariz anti-capitalista, os seus militantes consomem música pop numa quantidade tal, que faz esfregar as mãos aos capitalistas responsáveis pela distribuição desses sons, em aparência, irreverentes.
Para Adorno a sociedade de consumo comporta fatalmente o individualismo, a atomização do Ser e, como tal. A impossibilidade da Revolução baseada no colectivo.

Ainda assim, ele vê com simpatia os movimentos estudantis em 1968, embora a sua violência intrínseca o levem a distanciar-se racionalmente. Ele entende que a Universidade não deve ser sede de revolta, mas de pensamento.
Regressado ao Instituto, Habermas não tem dúvidas e identifica-se totalmente com esse movimento, que Adorno classifica de «esforço desesperado para modificar a sociedade» sem que tal seja possível. A sua posição ainda mais se torna incómoda quando, vindo dos EUA, o filósofo Herbert Marcuse apoia a causa estudantil, que reflecte as conclusões do seu best seller «O Homem Unidimensional».
Quando a situação se agudiza e os estudantes ocupam o Instituto é Adorno quem pressiona o reitor da Universidade para recorrer à polícia como forma de garantir a evacuação daqueles estabelecimentos.
A traição de Adorno leva os estudantes a desconsiderarem-no, a sentirem-no como um inimigo. Não se estranhará, pois, que uma brigada feminista semeie o caos numa das suas aulas de 1969, despindo o tronco e expondo-lhe os seios como meio de o acusar de sexista.
Mortificado ele não voltará a ser o mesmo e morrerá de ataque cardíaco alguns meses depois.
Mas fica para a posteridade a sua importância na criação de uma escola de pensamento, que não soube desenvolver até ao fim as suas premissas fundadoras: a de descortinar caminhos sustentáveis para o marxismo. O seu pessimismo, pelo contrário, traduz um impasse filosófico, que ele não soube ultrapassar...