sexta-feira, setembro 12, 2014

GEOGRAFIAS: O Ol' man River - entre Mark Twain e o blues

De entre os maiores rios do mundo terei navegado ou aportado na maioria deles. Amazonas, Orenoco, Nilo, Danúbio ou Iansequião são exemplos de grandes vias fluviais de que guardo imagens gratas desse passado de nomadismo marítimo, que me caracteriza indelevelmente o currículo.
Faltou-me, porém, o Mississípi. E essa é falha grave para quem, desde a adolescência, tanto apreciou os romances de Mark Twain, ou, já mais tarde, se rendeu às excelências do blues e do jazz mais tradicional.
Este documentário, dividido em duas partes de cinquenta minutos, é bastante interessante sobre a história, a cultura e os valores relacionados com o rio, que nasce no Lago Itasca no Minnesota e simboliza, melhor do que nenhum outro, a própria América.
Com a sua extensão por 3800 quilómetros ele é o terceiro mais longo de todo o planeta. E os pântanos e afluentes que o compõem possuem uma das faunas e floras mais exuberantes conhecidas por quem fez do seu estudo a sua especialização.
As etapas da sua exploração permitem definir alguns dos marcos mais significativos da história americana: a sua descoberta, em 1541, pelo espanhol Hernando de Soto; a grande expedição ao longo do rio Missouri - o seu maior afluente! - quando, no século XIX o presidente Thomas Jefferson comprou a Louisiana aos franceses; e o desenvolvimento das grandes aglomerações urbanas situadas nas margens do rio como Nova Orleães, Saint Louis ou Memphis.
Porque, se o “Ol’ Man River” é, hoje em dia, uma imensa via fluvial industrializada, ainda é possível viajar nele até ao passado. E, ainda que menos numerosos, a maioria dos animais ali encontrados pelos primeiros exploradores ainda continuam a sobreviver ao longo do seu curso.



quinta-feira, setembro 11, 2014

Um espaço dinâmico

Com Einstein nem o tempo, nem o espaço são rígidos e absolutos. Com o movimento, ambos fusionam para se tornarem numa unidade designada como espaço–tempo.
Na nossa vida quotidiana ainda vivemos com a perceção newtoniana do espaço e do tempo. É isso que nos indicam os sentidos. Mas Einstein conseguiu ver mais além e reside aí o seu génio.
Há quem considere essa definição do espaço-tempo como o conceito mais excitante da História das Ciências. Porque permitiu resolver um dos maiores mistérios do cosmos: o da existência da gravidade.
Newton sabia que a gravidade era uma força que atraía os objetos entre si. E a sua lei definia o valor dessa força com uma precisão notável. Mas, para além desses cálculos, como é que ela funciona? Como é que a Terra atrai a Lua  apesar de as separarem muitos milhões de quilómetros de espaço vazio?
E, no entanto, os dois astros parecem ligados por uma espécie de corda invisível.
Einstein compreendeu que os trabalhos de Newton não permitiam encontrar resposta para essas questões. E demorou dez anos a refletir até desembocar a uma conclusão surpreendente: a resolução desse mistério passava, inevitavelmente, pela conceção do espaço-tempo. Este ainda conseguia mostrar-se mais flexível do que imaginara, podendo esticar-se ou torcer-se como se fosse um tecido.
Estávamos perante uma rutura total com tudo quanto Newton concluíra. Porque ele conjetura uma deformação do espaço-tempo por efeito dos objetos, que nele se encontram.
A Lua não permanece na órbita da Terra por ser para ela atraída por uma força misteriosa, mas porque se desloca numa curvatura criada pela aquela no tecido do espaço-tempo.
Para Einstein o espaço não só ganha substância como até flexível. Além de contra com propriedades específicas, ele conta com uma curvatura de geometria variável.
Einstein cria assim uma nova realidade, que se enquadra em todo o Universo.  Enquanto para Newton o espaço era passivo, para Einstein temo-lo como dinâmico. Está intimamente relacionado com o tempo e indica como é que os objetos se deslocam.
O espaço passou a ser visto como um ator com grande destaque no teatro cósmico. Uma espécie de tecido dinâmico, ativo e flexível, Mas tratar-se-á de uma metáfora ou representa, de facto, o que é o espaço? Poderíamos esclarecê-lo através de uma viagem a um buraco negro.
Os buracos negros são o que  resultou de estrelas, que morreram, objetos de enorme massa reduzidos a uma parcela minúscula do seu tamanho original. Nas suas proximidades a gravidade atinge tal valor, que o espaço poderia ser torcido para o seu interior como se se tratasse de um trapo.
Ora, como o buraco negro mais próximo fica a milhões de quilómetros da Terra  é difícil comprovar a teoria de Einstein com uma experiência prática.
No entanto, no fim dos anos 50, um cientista chamado Leonard Schiff recorreu a um giroscópio para detetar essa curvatura do espaço. O projeto Grivity Prob B só dará respostas concretas daqui a algumas dezenas de anos. De facto, só em 2004 é que começou a enviar respostas concretas, confirmando com as suas medições algumas das constatações, que já estavam ponderadas como hipóteses...

segunda-feira, setembro 08, 2014

FOTOGRAFIA: Orly Zailer entre o passado e o presente

A aventura de Orly Zailer começou com a descoberta de uma fotografia dos pais, tirada nos anos 70, em que eles denotavam uma alegria radiosa. Quarenta anos depois decidiu repetir a mesma pose, ela no papel da mãe e o companheiro no do pai. É a reprodução desses dois momentos, que ilustram as fotografias deste post.
Foi assim que iniciou o projeto «The Time Elased Between Two Frames», ou seja o tempo decorrido entre duas fotografias, em que tenta recuperar no presente a magia de um instante do passado aproveitando para confrontar os protagonistas com a sua história familiar e com os que os lhes deram existência.
Colocam-se assim várias questões: quem sou? Quais as minhas origens? Quem eram os meus antepassados? Como viviam? Que pensavam? Que sentiam? Que vestígios guardam deles o meu rosto? O que se passa quando vestimos a pele dos que nos precederam?
Foi com todas essas questões em mente, que foi instalar-se temporariamente num kibutz para, partindo das velhas fotografias familiares, convocar filhos, netos e bisnetos com evidente semelhança física em relação aos antepassados para os imitarem as mesmas poses.
À partida não lhe escapava o facto de, embora partilhando patrimónios genéticos comuns, existiriam dissemelhanças óbvias entre os modelos originais e os que asseguravam a sua imitação: épocas e experiências distintas, produziriam inevitavelmente pessoas diferentes. Até porque muitas de entre elas viveram em países diferentes com os seus respetivos linguajares. Mas Orly Zailer estava interessada em perceber até que ponto as semelhanças físicas poderiam influir nas questões da identidade e na forma como assumiriam as suas decisões. As respostas definitivas ainda estão por clarificar… se é que as possa vir a encontrar.
Para melhor demonstrar esses paralelismos, ela trabalhou tecnicamente as fotografias de forma a que, apesar de captadas com máquinas muito diferentes, se assemelhassem o mais possível como se tivessem sido colhidas pelas mesmas lentes. E alcançou até agora um resultado, que dá razão a uma célebre citação de Roland Barthes no seu «Câmara Lucida», em que ele constatava a capacidade do fotografo para fazer surgir algo de invisível num rosto real. Por exemplo uma característica ancestral resultante de algo de geneticamente incontornável.
Se outro efeito não produzisse, o trabalho de Orly Zailer já conseguiu um mérito reconhecido por aqueles que com ela colaboraram: a sensação de um vínculo bastante mais forte com as suas identidades subitamente ligadas a quem terão sido os seus antecessores… 

domingo, setembro 07, 2014

FILME: «As Noites Brancas do Carteiro» de Andrei Konchalovsky (2014)

A melhor notícia que a 71ª edição do Festival de Veneza trouxe foi o regresso de Andrei Konchalovksky ao Cinema com c grande, que lhe conhecêramos, quando ainda era um dos mais fascinantes cineastas da União Soviética. O seu «Siberíada» era dotado de uma força telúrica e épica, que o tornam obra ímpar inesquecível.
Mas, com a queda do Muro de Berlim ficámos atónitos com a sua transformação em Hollywood, onde rodaria filmes com Sylvester Stalone ou séries televisivas das mais banais. Questionávamo-nos como era possível um tal Jekyll conviver com tal Hyde...
Ao regressar agora à Rússia para testemunhar o quotidiano de quem foi deixado à sua sorte nas zonas rurais mais recônditas, ele demonstra não ter perdido nada do seu talento e nem as influências do seu mestre Tarkovski.
Vale a pena ver o trailer de quase quatro minutos para reconhecer a imprescindibilidade de virmos a ter acesso a tal filme nos ecrãs portugueses. 

sábado, setembro 06, 2014

HISTÓRIA: O segredos dos homens de Neandertal

Os vestígios fossilizados de neandertalenses na Espanha dão a Ruth Berry o ensejo para um documentário muito interessante - «Neandertal et ses secrets» -, onde inclui a informação genética sobre a organização familiar e sobre os indícios de canibalismo.
Ao explorarem uma rede de grutas subterrâneas em El Sidron, nas Astúrias, o paleontólogo António Rosas e o arqueológo Marco de La Rasilla conseguiram resgatar os ossos de uma dúzia de neandertalenses e numerosos utensílios em sílex. Alguns dos ossos apresentavam fraturas, outros estavam despedaçados e os crânios tinham sido esmagados. Indícios de canibalismo? Vestígios de um ritual religioso?
São muitos os mistérios suscitados pelo que resta desses hominídeos de há cerca de 49 mil anos. Mas Rosas e La Rasilla estão convencidos de que, por falta de alimentos, esses neandertalenses tinham sido obrigados a atacarem as tribos vizinhas para transformarem-nas em presas para a sua alimentação. Nesse sentido terá existido uma diferença abissal entre os hábitos alimentares dos que habitavam essa região do que é hoje o norte da Espanha com os que viviam, por essa altura, umas centenas de quilómetros a sul, em Gibraltar, onde a proximidade do mar facultava alimentação bastante por conta do marisco aí existente.
O biólogo Clive Finlayson, que tem-se debruçado sobre os achados nas grutas costeiras do rochedo britânico, procura perceber como terão desaparecido estes hominídeos, tanto mais que as condições privilegiadas de temperatura e de recursos alimentares  permitiram transformá-los nos neandertalenses que terão perdurado por mais tempo, coexistindo com os já então dominantes homo sapiens.

LITERATURA: a propósito do livro «Os Interessantes» de Meg Wolitzer

O tema de «Os Interessantes» de Meg Wolitzer - publicado em português pela Teorema - faz-me reencontrar os tempos do liceu de Almada, nos primeiros anos da década de 70, quando o padre Sobral nos fazia intuir o fim próximo do fascismo.
Ele próprio autor de ruturas drásticas - ai o ódio que as beatas de sacristia lhe devotavam! -  dava o corpo ao manifesto quando, de vez em quando o sabíamos em apertos junto da Pide.
Na altura, também nós nos sentíamos muito interessantes, sempre prontos para as tais conversas importantes, que significariam visões inovadoras para tudo quanto estava a ocorrer. Ouvíamos os Doors e Bob Dylan e devorávamos os livros do Wilhelm Reich sobre sexo e revolução. Aos sábados reuníamo-nos em roda no areal da Costa para compormos o ar mais sério possível e emitir as ingenuidades, que a idade justificava.
Quando, durante a semana, nos cruzávamos no pátio do barracão - era assim que tínhamos crismado aqueles pavilhões provisórios, que se tornaram definitivos durante tantos anos -  olhávamo-nos com a convicção de que, daí a não muitos anos, todos seríamos famosos no afã de transformarmos o mundo.
Ir à guerra era projeto, que não passava pelas nossas mentes. Pudera pois se às escondidas espalhávamos panfletos dos próprios movimentos de libertação!  Mas íamos ponderando nas alternativas possíveis, entre a emigração ou a marinha mercante.
Muitos anos depois, e a exemplo das personagens da escritora americana, também faríamos um balanço ao que viria a fazer a nossa geração. O que chegou mais longe foi quem pior se portou e reivindica-lo só nos pode encher de vergonha. Porque nunca esperaríamos que um dos nossos servisse de mordomo a bush, a blair e a aznar e fosse depois premiado com tão lamentável sinecura. Houve uns quantos que se dedicaram à música, um deles com carreira meritória nos gaiteiros alfacinhas. Mas, no geral todos os demais se anonimizaram nas suas azáfamas profissionais e afetivas.
Teriam sido aqueles os melhores anos das nossas vidas? Tal como Paul Nizan, nunca aceitaríamos que disso nos convencessem!


sexta-feira, setembro 05, 2014

FILME: «Pasolini» de Abel Ferrara (2014)

Normalmente os projetos de Ferrara entusiasmam-me mais como expectativa do que serão do que por aquilo que acabam por se revelar ser. No entanto admiro-lhe a persistência na concretização de um cinema muito diferente dos cânones de Hollywood.
Involuntariamente marginal a esse mundo da indústria cinematográfica, tem assinado filmes intensos sobre personagens solitários e dissonantes com o mundo em que se inserem.
“Pasolini”, que acaba de apresentar no festival de Veneza, suscita-me maior apetência do que o “Welcome in New York”, o filme anterior, que dedicara aos problemas de Strauss Kahn com a justiça americana e com a sua desenfreada libidinosidade. É que o seu ponto de partida é mais aliciante: está em causa o último dia de vida do realizador, em novembro de 1975,  antes de se fazer matar por Pino Pelosi e sabe-se lá por quem mais. Nele, dá uma entrevista emblemática sobre o novo totalitarismo que se estava então a afirmar: o do consumismo que, nas décadas seguintes, tantos danos causaria ao ideal de uma sociedade mais justa e igualitária.
Willem Dafoe, habitual cúmplice de Ferrara, foi considerado como um duplo perfeito do seu personagem.

FILME: «Shane» de George Stevens (1952) - II

Em «Shane» a morte surge na personagem do assassino contratado Wilson, interpretado por Jack Palance, que constitui o reverso maléfico do protagonista. Tudo nele representa o estereotipo do vilão: a forma de vestir, de andar, de montar a cavalo, de falar, de sorrir e até de matar: a cena em que elimina Elisha Cook numa rua lamacenta é de uma violência radical, que viríamos a reencontrar nos filmes de Peckinpah ou de Eastwood dos anos 70.
Mas engana-se quem julga haver aqui algum fascínio pela violência: desde que viera da Segunda Guerra Mundial, George Stevens já não a podia suportar e só a procurava estigmatizar através de um realismo o menos heroico possível.
Daí que não se possa falar de um verdadeiro maniqueísmo: é a perceção da criança que se deixa iludir por tal tentação. A par das paisagens magnificas potenciadas pelo recurso frequente à teleobjetiva (o que possibilita uma aproximação visual das majestosas montanhas de Teton Valley!), o vestuário e a faina quotidiana na quinta são mostrados com invulgar veracidade. E os personagens denunciam uma complexidade, que é inacessível a Joey.
Shane, o “modelo perfeito”, denota um secretismo tal que nada ficamos a saber do seu passado misterioso. Só lhe adivinhamos a consciência pouco tranquila, quando o mínimo ruído o faz sobressaltar. A sobriedade  - alguns diriam inexpressividade! - de Alan Ladd adequa-se bem ao personagem por muito que ele não suscite grande empatia.
Marian, por seu lado, revela-se bem mais do que a esposa devotada e a mãe extremosa, quando se constata quanto aquele homem misterioso a faz sonhar com horizontes longínquos. Lamentar-se-á, porém que, para o seu derradeiro desempenho cinematográfico, Jean Arthur pareça demasiado envelhecida para a personagem, já que contava então 52 anos. O que Stevens terá trabalhado para diluir essa ideia nos grandes planos, que lhe captava!
O personagem do pai, representado por Van Heflin permitirá a reflexão sobre o heroísmo: será necessária a violência? Será imprescindível recorrer a ela para que o filho admire o pai?
Mais arriscada é a aposta do argumentista A.B. Guthrie Jr. para com o personagem de Ryker,o líder dos criadores de gado: ele chega quase convence-nos da sua razão, porque juridicamente seria ele a ser reconhecido na legalidade das suas exigências, quando vai á quinta dos Starrett. Não contasse com o inquietante Jack Palance a seu lado e alinharíamos pela sua perspetiva.
Chris Calloway, outro dos criadores de gado, representado por Ben Johnson, transmutar-se-á do bruto da cena de pugilato quase do início do filme para o homem sagaz, que virá alertar os lavradores da ameaça iminente.
Quanto a todos estes personagens estamos, pois, bem distantes da aparente simplicidade do início.
Em balanço, «Shane» revela-se obra charneira no género, abrindo caminho para o maior realismo e violência dos filmes dos cineastas dos anos 60.
É claro que podemos reconhecer que perde tensão  a meio e que com outro, que não Stevens, fosse menos pomposo e mais homogéneo no seu ritmo. Mas, ainda assim, este foi o tempo dos adeuses a uma certa forma de inocência tão perdida quanto a do jovem Joey.



quinta-feira, setembro 04, 2014

BANDA SONORA: The Handsome Family - My Sister's Tiny Hands

Desde que os ouvimos na banda sonora da série «True Detective», passou a merecer a nossa atenção. Nunca serão um enorme fenómeno de vendas, mas constroem dos sons mais interessantes oriundos do outro lado do Atlântico.

quarta-feira, setembro 03, 2014

BANDA SONORA: Andreas Scholl canta Purcell

Há três séculos os castrados representavam um ideal no mundo da ópera. Os Senesino e outros Farinelli eram vedetas aduladas, quer por mulheres, quer por homens.
Deixado para trás esse breve período histórico, continuam a fascinar as vozes dos contratenores. Porquê? Será que os caracteres viris acomodam-se facilmente a uma tão elevada tessitura?
Refletindo sobre o seu percurso pessoal, Andreas Scholl é um exemplo perfeito de como foi possível manter uma voz aguda após a puberdade.  Em vinte anos de carreira ele nunca deixou de alargar o seu reportório, que se estende da Idade Média até à música contemporânea. Mas o cantor sabe que uma tessitura elevada não basta: uma voz angelical também entedia. Por isso mesmo decidiu dedicar-se a transmitir o seu saber e experiência na  Hochschule de Mayence. 
Neste vídeo com hora e meia de duração e datado de 2010, vemo-lo a interpretar árias e canções de Purcell


FILME: «Shane» de George Stevens (1952) - I

A sessenta anos de distância já não serão muitos os cinéfilos, que se recordam de Alan Ladd como um dos principais ídolos de Hollywood. E, no entanto, na época bastava o seu nome surgir nos cartazes para multidões se precipitarem a ver os westerns em que se especializara.
Um pouco por isso mesmo este «Shane» constituiu o maior sucesso comercial do género na década de 50:  receitas de 9 milhões de dólares e nomeações para seis Óscares, melhor do que «A Desaparecida» e John Ford (que podemos agora rever em Lisboa) ou do que «Rio Bravo» de Howard Hawks.
Durante muito tempo foi até tido como o melhor dos westerns alguma vez rodados nos estúdios de Hollywood, muito embora a crítica europeia o tenha vergastado com opiniões acintosas. Hoje poder-se-á dizer que terá havido exagero de uns e de outros: «Shane» nem é obra-prima, nem tão mau filme quanto outros o pintam. Por isso mesmo merece ser revisitado.
Um ano antes, Fred Zinnemann realizara «O Comboio Apitou Três Vezes», como tentativa de intelectualização do western tradicional aprofundando a caracterização psicológica dos personagens.  George Stevens rejeitou filiar-se nessa linha de renovação do género, continuando a respeitar a simplicidade e a subtileza psicológica, oscilando entre a ingenuidade e o maniqueísmo, por um lado, com a violência e o realismo por outro, que tanto iriam influenciar Sam Peckinpah, Sergio Leone e Clint Eastwood.
Shane é um cavaleiro solitário, que chega a um vale do Wyoming e é acolhido na quinta da família Starrett a quem passa a ajudar nas tarefas quotidianas. A anfitriã, Marian - interpretada por Jean Arthur - sente-se fascinada pelo novo hóspede apesar da sua condição de esposa recatada. Mas, sem esses escrúpulos é Joey, o filho de Joe e Marian, quem dedica ao novo amigo um enorme fascínio, sobretudo quando lhe presencia a tremenda habilidade com a pistola.
Não tarda que a guerra entre fazendeiros e criadores de gado se agudize: para estes últimos qualquer vedação constitui uma ofensa à exigência de espaços livres para os seus animais.  E por isso contratam um pistoleiro temível (Jack Palance no papel de vilão) contra o qual só Shane estará em condições de contrariar.
Resulta bastante bem que o filme seja visto a partir do olhar de um miúdo de 10 anos, por contribuir para a imagem idealizada do Oeste, de um lado com heróis puros e duros e do outro com vilões ruins como as cobras.

Shane surge na vida dos Starretts no momento certo: cavaleiro solitário vindo de nenhures, vestido de roupas maculadas e com armas cintilantes, constitui o modelo do herói perfeito para qualquer miúdo. Enquanto redentor cumprirá a sua “missão divina” e voltará a partir para novas aventuras.
Nas cenas iniciais, que integram o genérico e é acompanhada pela partitura composta por Victor Young, ele surge do lado esquerdo do ecrã como se fosse um ponto em movimento no seio da imensidade potenciada por um technicolor magnífico. Se a beleza dessas imagens impressionam como se se tratasse de um mundo imaginado por Rousseau, não tardará que Joey com quem iremos ser levados a  identificar-nos, se venha a confrontar com a violência e a morte...


https://www.youtube.com/watch?v=9DVPxbsTccg

LIVRO: «A Mancha Humana» de Philip Roth (VII)

E vamos chegar, enfim, ao final do romance de Philip Roth, com Les Farley a visitar uma réplica do Muro de Washington com o nome dos que morreram no Vietname. É aí que decide o que irá fazer.
Para Roth fica a oportunidade de, através deste personagem perturbado, revisitar um dos grandes conflitos em que a América se envolveu no século XX, com todas as consequências negativas dele colhidas. Neste caso a obsessão homicida de Les, que quererá matar a ex-mulher e um amante que, pela idade e cultura, eram a sua antítese. Daí o ódio visceral, que o guiaria: “Parecia sereno, mas isso era impostura. Tomou a sua decisão. Usaria o carro. Acabaria com todos, incluindo ele próprio. Ao longo do rio, iria direito a eles na mesma faixa de rodagem, na faixa deles, na curva onde o rio vira.
Tomou a sua decisão. Não tem nada a perder e tem tudo a ganhar. Não se trata de uma questão de se e se aquilo acontecer, ou se eu vi isto ou se eu pensar isto, faço-o; caso contrário, não faço. Tomou a sua decisão tão definitivamente, que já nem pensa. Está numa missão suicida e, interiormente, numa agitação incontrolável. Não há palavras. Não há pensamentos. É só ver, ouvir, saborear, cheirar: é fúria, é adrenalina e é resignação. Não estamos no Vietname. Estamos para além do Vietname.” (pág. 272)
As coisas não se passarão propriamente como o assassino imaginara, já que escapa ileso e sem que ninguém lhe adivinhe a autoria do acidente de Coleman e de Faunia. Apenas Nathan suspeita do sucedido, mas não consegue convencer as autoridades a investigarem a sua tese.
Por essa altura, para além da amargura suscitada pela morte do amigo, o escritor dirige a sua aversão para Delphine, a professora, que mobilizara professores e estudantes para acusar Silk de racismo e, agora quer fazer crer ter sido ele a enviar em seu nome uma mensagem para encontros românticos, que por engano ela própria enviara para uma extensa mailing list da universidade:
“Não é necessário que o perpetrador tenha algum móbil, não é precisa nenhuma lógica, nenhuma fundamentação racional. Basta um rótulo. O rótulo é o móbil. Por que fez Coleman Silk isto? Porque ele é um este, porque ele é um aquele, porque ele é ambas as coisas. Primeiro um racista e agora um misógino. O século vai já demasiado longo para lhe chamarem comunista, embora noutros tempos o rótulo tivesse sido esse. Um ato misógino cometido por um homem que já mostrou ser capaz de fazer um abjeto comentário racista a expensas de uma estudante vulnerável. Isso explica tudo. Isso e a loucura.
O demónio dos lugares pequenos: a mexeriquice, a inveja, o azedume, o tédio, as mentiras. Não, os venenos provincianos não ajudam. Aqui as pessoas aborrecem-se, são invejosas, a sua vida é o que é, e será sempre, e por isso, sem questionarem seriamente a história, repetem-na: ao telefone, na rua, na cafetaria, na sala de aulas. Repetem-na em casa aos maridos e às mulheres. Não se trata apenas do facto de, por causa do acidente, não haver tempo para provar que se trata de uma mentira ridícula; para começo de conversa, se não tivesse havido o acidente ela não teria podido contar a mentira. Mas a morte dele é a sorte dela. A morte dele é a salvação dela. A morte intervém para simplificar tudo. Todas as dúvidas, todas as desconfianças, todas as incertezas são afastadas pelo maior de todos os redutores que é a morte.” (pág.306)
Quando assiste ao enterro com que a universidade terá querido corrigir os danos entretanto feitos à reputação do seu antigo reitor, Zuckerman sente que ainda falta revelar-se algo: “Eu sei, é verdade, que não existe completude nem justa nem perfeita consumação, mas isso não significa que, parado apenas a alguns passos de onde o caixão repousava na sua cova recém-cavada, não pensasse obstinadamente que aquele fim, mesmo congeminado para restituir para sempre a Coleman o seu lugar de figura prestigiada da história da Universidade, não bastaria. Havia demasiada verdade ainda oculta. (pág. 331)
Esse algo surge na pessoa da anciã negra Ernestine, que também assistira ao funeral e lhe revela ser a irmã do próprio Coleman. Ele nascera, de facto, numa família negra e aproveitara o tom mais claro de pele para se fazer passar por branco ao alistar-se para o serviço militar. Com essa opção distanciara-se da mãe e dos irmãos, a quem raramente contactava.
E esse é o maior paradoxo com que se conclui o romance: não haveria, de facto, alguma razão  nessa acusação de racismo se, por motivo de sobrevivência, Coleman levara toda a vida a rejeitar a negritude de que geneticamente era feito?


segunda-feira, setembro 01, 2014

PRETÉRITOS: nostalgias hitlerianas

«O Marinheiro que perdeu as graças do mar» é uma das minhas novelas preferidas de Mishima, não só pela história em si - como se altera o quotidiano de um adolescente, quando passa a ter por padrasto um antigo marinheiro mercante subitamente sedentarizado em terra - mas porque esse título se me ajustou perfeitamente quando, a contragosto, me tive de despedir de uma vida de duas dúzias de anos enquanto oficial da marinha mercante.
Essa longa experiência enriqueceu-me com vivências extraordinárias, que tenho sido instado a conta-las, mormente por quem também comigo as partilhou. Razão para o ir fazendo com alguma frequência tão só me vão chegando ao sabor dos acasos da memória.
Pode parecer paradoxal que, de uma experiência de vida tão grata e enriquecedora, opte por lembrar em primeiro lugar um dos episódios mais desagradáveis por que passei. E recordei-o porque ainda há um par de horas conversava com um antigo emigrante na Austrália, que elogiava a disciplina e o rigor com que os alemães ali igualmente radicados encaravam o trabalho.
Ora, muito embora pudesse escolher exemplos confirmativos dessa opinião, logo me lembrei do ano de 1989, quando integrava a tripulação do paquete «Funchal» então afretado para uma viagem curta, de três ou quatro dias, com passageiros exclusivamente alemães, que entrariam em Hamburgo, no final de um cruzeiro às capitais do Norte da Europa.
Estava a experimentar as máquinas principais - tarefa obrigatória uma hora antes da partida! - quando veio lá de cima o Jacques Malabarista, um dos eletricistas mais antigos do navio. Ele e outro tripulante da secção de Máquinas - o serralheiro Manuel Lourenço - eram os únicos que praticamente só tinham conhecido o «Funchal» já que ali sempre tinham trabalhado desde que fora inaugurado em 1961para servir de uma espécie de iate privativo do «venerável almirante».
- Eh, primeiro! Nem queira saber que gente está lá em cima a entrar por portaló! São assustadores!
Na altura não dei muito crédito ao que ele revelava, já que o considerava muito propenso a exageros. Mas quando, ao jantar, me sentei na messe em frente ao médico e ao Chefe Inácio, soube a novidade: a organização que nos contratara era uma associação neonazi, que se dispunha a fazer uma viagem do tipo romagem a sítios onde navios alemães tinham sido afundados pelos aliados.
Com a curiosidade de quem nunca encarara face a face com tal tipo de gente arrisquei vestir o dólman e dar uma volta pelos espaços reservados aos passageiros. Já passava das nove e meia da noite e o Salão Ilha Verde, onde costumavam acontecer os espetáculos, estava vazio e às escuras. O Bar Porto tinha um pequeno punhado de clientes e o que se situava junto à chaminé - o «Tasco» - nem esses contava. A maioria dos passageiros estava já recolhida nos camarotes, à exceção dos que se tinham decidido pelo cinema. Aí sim, uns vinte espectadores viam o «Olympia» da Leni Riefenstahl.
Eu já o vira e apreciara-o como meritória obra de arte mas, naquele contexto, as silhuetas perfeitas dos atletas arianos soaram-me a algo de sinistro, que me levaram a desandar rapidamente dali.
Fiquei vacinado para o contacto com esses nostálgicos dos tempos hitlerianos. Nunca houvera, nem viria a haver nenhuma outra viagem onde me cingisse ao trajeto entre o camarote, a casa das máquinas e a messe dos oficiais. Com uma exceção: numa paragem ao largo da ilha de Bornholm vim ao convés espreitar o discurso e o arremesso de flores para as águas calmas onde, a alguma profundidade, jazia a carcaça de um dos submarinos da classe U.
Mas foi espreitadela de curta duração: tudo aquilo era tão soturno, que ficava a vontade de ver tais passageiros abandonarem um espaço quase sempre rendido ao clima festivo de quem ali vinha viajar por prazer e, por uma vez, conspurcado por tão grotescas figuras.