segunda-feira, setembro 18, 2017

(DL) Na Cidade de Ulisses descrita por Teolinda Gersão

Para Paulo Vaz a oportunidade é aliciante: o convite para uma exposição no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, trabalhando Lisboa como tema. Acontece que essa ideia já lhe germinara anos atrás, quando ainda vivia com Cecília, pelo que a pretende associar ao evento. O que poderá suscitar-lhe alguns problemas com Sara, a atual companheira, mas sobretudo com a própria Cecília, que havia com ele rompido a ligação amorosa e dele rejeitara todas as tentativas de contacto.
É assim, que inicia o romance «A Cidade de Ulisses», que Teolinda Gersão publicou em 2011 e a pôs a assumir o papel de voz do narrador masculino. O que suscita sempre aquele interesse de aferirmos quão credível é alguém colocar-se na pele de quem pertence ao género oposto.
Mas o romance não se cinge a esse triângulo potencialmente gerador de conflitos, porque a escritora opta por nos dar a conhecer o passado de Paulo Vaz, assim nos remetendo para os derradeiros anos do salazarismo e os subsequentes à Revolução de Abril. O pai era um major do Exército, que nunca se livraria dos valores ultraconservadores em que fora educado. Por isso mesmo a mãe será uma mulher cerceada nos seus valores artísticos, sempre confrontada com os ciúmes doentios de quem a fora buscar à mediocridade de uma cidade de província para a subjugar numa cidade, que lhe passaria completamente ao lado.
Se apostávamos em quezílias amorosas, elas tardarão a chegar, porque assistiremos prioritariamente ao conflito de gerações entre Paulo e esse odioso pai. A saída de casa e as bolsas, que lhe permitem estagiar em vários países europeus, libertam-no das amarras em que sabe deixar a mãe, anos depois a imitá-lo da forma mais trágica, porque evadir-se-á de si mesma ao ver-se acometida da doença de Alzheimer.
Conheceremos depois o período mais feliz da vida de Paulo, quando o dia-a-dia com Cecília parece continuamente pintado de cor-de-rosa. Até uma disputa terrível, e de consequências trágicas, os afastar. A escritora consegue vencer a aposta ao fazer-nos odiar esse protagonista, que continua a contar-nos as suas circunstâncias na primeira pessoa e procura desculpabilizar-se do seu indesculpável comportamento.
Chegamos, enfim, ao terceiro capítulo, quando a exposição se cumpre, apagando-se a de Paulo, perante a surpresa pública da descoberta da obra dela, durante anos acumulada no seu atelier. Para o pintor esse momento é o da definitiva libertação de um passado a que permanecera agarrado, ficando finalmente aligeirado para o futuro com a paciente Sara.
Não sendo um romance, que me entusiasmasse pelo tipo de tema e de personagens, há que reconhecer-se o talento da autora na forma como o estruturou e desenvolveu. No teste, que cá em casa fazemos como definidor da qualidade da escrita - a sua leitura em voz alta -., ele passa com distinção. 

(S) O Concerto para piano nº 25 de Mozart com Mitsuko Uchida como solista e Riccardo Muti a dirigir a orquestra

domingo, setembro 17, 2017

(I) A importância de curar os tratamentos da loucura

No Antigo Testamento conta-se que Nabucodonosor, rei da Babilónia, colocava-se a quatro patas a uivar e a beber água na companhia dos animais. No Livro de Daniel, o profeta explica que tal resultara de uma punição divina. A loucura serviria de instrumento a Deus para castigar os homens pelo seu pecaminoso comportamento. Mas data igualmente desses longínquos tempos, que a causa da epilepsia derivava da posse demoníaca do espírito do doente, causando-lhe convulsões.
O Diabo e o bom Deus serviam de bodes expiatórios para justificar o que não correspondia ao que era tido como normativo nas respetivas culturas. Por isso, na época medieval, os solitários que se escusavam à sociabilidade eram qualificados de loucos, em cujo ostracizado grupo também se incluíam as mães solteiras e os filhos bastardos.
Desde a Antiguidade mais recuada, que esses desvios  à conduta mereceram tentativas de tratamento de uma violência assinalável: em crânios dos alvores da Humanidade encontraram-se indícios de competentes trepanações, que constituíam tentativas ingénuas de abertura de uma «janela» por onde se pudesse escapar o «mau espírito», que nele se acoitava.
A incapacidade de compreensão dessas atitudes tornou a loucura um permanente objeto de dissecação enquanto fenómeno de desejável correção. Às vezes caindo-se nos maiores exageros, porquanto até exacerbações amorosas se vieram a incluir na tipologia das formas de loucura. Ou os suicídios, explicados mais facilmente como resultante desse  tipo de desorientação do que produto das frustrações depressivas de quem os havia concretizado. Demorou a aceitar a ideia de que a depressão era mais do que uma reação ao que a Igreja Católica impunha como aceitação resignada a este percurso pelo «vale de lágrimas» depois recompensado com os prazeres celestiais, quando a morte ocorresse.
A palavra Psiquiatria só foi inventada pelo alemão Johann Christian Reil em 1808 a partir de um derivativo grego, com que pretendia designar o tratamento médico da alma. Só com a introdução da compreensão dos afetos nos comportamentos doentios se tornou possível explicar a paranoia, a ninfomania, a piromania e tudo quanto decorreria da busca de prazeres delirantes. A demência seria igualmente termo introduzido no século XIX para definir as alterações nessa afetividade causadas pelas verificadas no próprio cérebro. Mas medicamentos vieram, desde então, minimizar o recurso a tratamentos, que equivaliam comummente a autênticas formas de tortura.
Boris Cyrulnik, conhecido etólogo francês, que partilhou a autoria de «La Folle Histoire des idées foles en Psychiatrie» (ed. Odile Jacob) com Patrick Lemoine, acredita que a Psiquiatria ainda está por nascer, porque a loucura ainda é tratada violentamente. Em vez de se cingir aos seus próprios conhecimentos a especialidade deve abrir-se multidisciplinarmente a outros saberes, nomeadamente aos que a neurofisiologia vai propiciando com acelerada propensão. A loucura poderá ser então um estigma, que perderá muito do seu potencial de infelicidade, quer para quem o sofre, quer para quem com ela lida.

(S) Jasser Haj Youssef

(DIM) Um antifascista injustamente esquecido

Há histórias trágicas, que merecem ser conhecidas, quanto mais não seja para darmos merecido crédito a quem tanto fez para o justificar. Há no entanto uma diferença entre a morte de Neruda e a de Victor Ramos: enquanto o primeiro terá exalado o último suspiro quando lhe doía a sinistra ditadura, estabelecida dias antes, e que matara o seu amigo Allende, o exilado português viveu uma semana de inesgotável entusiasmo até um aneurisma o prostrar em 2 de maio de 1974.
Uma semana antes, no dia do seu 54º aniversário, o Movimento dos Capitães libertara o país do regime por ele combatido durante toda a vida, primeiro na condição de militante clandestino do MUD Juvenil, depois já como exilado, porque de outra forma acabaria preso como tantos camaradas, ou mesmo morto como ocorrera a um dos seus melhores amigos: José Dias Coelho.
Tivesse sido poupado a tão precoce fim e teria, provavelmente, desempenhado papel importante no Portugal de Abril: como amigo de Agostinho Neto, Marcelino dos Santos ou Mário Pinto de Andrade teria, porventura, participado no processo negocial das descolonizações africanas. Ou poderia ter tido o agravo de boca de um Jorge de Sena ou de um José Rodrigues Miguéis, que tanto ambicionavam participar na construção do Portugal novo e tão indecentemente foram marginalizados por quem, os desconsiderando como exilados cumulados de mordomias pelos países onde se tinham abrigado, se sentiram com direito a não se verem por eles ultrapassados na distribuição dos lugares de poder do novo regime democrático.
E, no entanto, Victor Ramos - que a História injustamente esqueceu! - tinha lutado ativamente nas lutas estudantis, no apoio às empreendidas pelos operários contra a ditadura e participara ativamente no Movimento pela Paz no pós-guerra. Mesmo, à distância, primeiro em França, depois no Brasil onde constituiu família, nunca desistiu de mudar os destinos dos compatriotas sujeitos a tão odiosa opressão. Por isso mobilizou e organizou os exilados, assegurando-lhes um veículo de comunicação fundamental para a compreensão dessa época: o «Portugal Democrático«.
Quando a doença súbita precocemente o vitimou estava a ultimar os preparativos para, terminado o ano escolar na Universidade de São Paulo onde lecionava Português e Francês, pegar nas malas e voltar a Lisboa. Como não o conseguiu a filha Guimar decidiu seguir-lhe os passos quarenta e um anos depois, percorrendo os sítios onde vivera, quer em Lisboa, quer na Beira, e falando com quem fora seu cúmplice nas mesmas lutas.
Em principio «Por Parte do Pai» é uma homenagem de uma filha para com o pai de quem desconhecera muito do que vivera, mas é também uma oportunidade para revisitarmos um tempo, que nunca deveremos esquecer. Porque o fascismo continua a ser uma ameaça permanente, que temos de rechaçar nos seus furtivos ataques, venham eles através de candidatos a autarcas assumidamente racistas, venham de eurocratas e técnicos do FMI apostados em negar a vontade dos povos para os coagir a cartilhas destinadas a torná-los mais infelizes.

quinta-feira, setembro 14, 2017

(S) Hélène Grimaud a interpretar o Adagio do Concerto para Piano e Orquestra de Mozart

(DIM) A Queda e a Redenção como tema scorcesiano por excelência

Uma das referências mais frequentes, que se fazem a «O Touro Enraivecido», é a de Robert de Niro ter chegado a engordar trinta quilos para desempenhar convictamente o papel de Jake La Motta, quando envelhecido. Por isso terá alcançado neste filme o cume do seu talento, tantas vezes desperdiçado em coisas abstrusas posteriores. Mas esse era o tempo em que De Niro repetia em entrevistas a ambição de se converter física e mentalmente nas suas personagens enquanto durasse o tempo de rodagem dos filmes.
Pode-se, pois, dizer que existe uma ânsia de realismo reiterada na escolha pela filmagem em cenários reais, mesmo que com alguma ajuda da sua recriação em Little Italy, o bairro nova-iorquino onde se passa grande parte da história. Mas logo na sua primeira cena, aquela em que vemos o boxeur a dar socos no ar em câmara lenta ao som da música de Mascagni é induzido no espectador o clima simultaneamente romântico e trágico em que evoluirá este percurso de Queda e Redenção, um tema tão scorcesiano, que normalmente se o associa à filiação católica em que ele se situa. Não esqueçamos a sua realização de uma das versões da vida de Cristo segundo um dos Evangelhos…
As cenas de combates - todas elas diferentes umas das outras, desde a abordagem mais convencional da relativa ao primeiro deles até à mais brutal no da derrota com Sugar Ray Robinson - negam esse realismo mediante o recurso notável aos artifícios da montagem, ora acelerando os movimentos, ora retardando-os até à câmara lenta, complementando-os com travellings, deformações óticas e efeitos de luz, que redundam na sua transformação em autênticas viagens espirituais com consequências catárticas. Jake La Motta vai sendo progressivamente representado como o solitário condenado a perder tudo para que consiga vencer os seus demónios interiores.
Há igualmente que reparar nos planos-sequência tão inerentes ao cinema de Scorcese, como esse de longa duração, que leva La Motta a percorrer o trajeto entre o corredor dos balneários e o ringue para aquele que será o seu combate da consagração. Ou ainda, noutra especificidade do seu cinema, que implica os personagens olharem-se frequentemente ao espelho como que a procurarem recompor as suas diferentes facetas, tantas vezes contraditórias entre o que desejam e quanto o mundo à sua volta impõe.
Não sendo um filme fácil, tendo em conta a brutalidade de certas cenas e quanto o protagonista consegue ser odioso, «O Touro Enraivecido» é um belíssimo filme se compreendido em tudo quanto pressupõe. 

(DL) A enorme carga erótica dos silêncios

O amor pode ser vivido no silêncio, na cumplicidade dos pequenos gestos, enormes em sugestões e significados? Sim era a resposta dada por Wang Kar-Wai num belíssimo filme - «In the Mood for Love» - que rodou num estado de graça, nunca mais repetido nos que veio depois a assinar.
E é também o tema de «Seda», um livro a meio caminho entre a novela e o romance, que Alessandro Baricco publicou originalmente em 1996 e recentemente reeditado entre nós. Também Hervé Joncour, protagonista da estória, vai conhecer um amor assim com a concubina do japonês Hara Kei, que visita por quatro ou cinco ocasiões quando, a pretexto da atividade de importador de bichos-da-seda, procurava alternativa para o morticínio nesses bichinhos engenhosos atingidos por súbita epidemia no ano de 1861. Se o objetivo dessas viagens era puramente comercial, o negociante francês vai ao encontro de algo mais do que da seda pura: os olhos expressivos, os movimentos diáfanos, que o fascinam, o acometem de paixão profunda apesar de ter em França uma respeitável família a alimentar.
Tal como no filme de Kar-Wai, esta não é história com direito a final feliz. Até porque o jovem Louis Pasteur encontra solução adequada para combater a praga e as deambulações de Joncour tornam-se desnecessárias. Mas fica essa busca da beleza, que não deixa de ser a que sempre se intenta quando está em causa a satisfação de uma das mais primordiais carências de cada um de nós - a dos afetos amorosos. 

(S) A interpretação de Yuja Wang da melodia de «Orfeu e Euridice» de Gluck

(S)

terça-feira, setembro 12, 2017

(DIM) Como um filme pode salvar a vida de quem o realizou

Gosto tanto de boxe como provavelmente Martin Scorcese, que nunca deverá ter-se imaginado a realizar um filme como «O Touro Enraivecido». Assim como não me passaria pela cabeça considerar «São Jorge» um dos melhores filmes portugueses dos anos mais recentes e, no entanto, como tal o defino.
Existem, no entanto, razões de sobra para compreender a sintonia entre o cinema e esse desporto: em ambos importa a gestão do movimento e do ritmo, o confronto dos corpos, o espetáculo da violência, a projeção coletiva dos espectadores num destino individual. O boxe serviu perfeitamente aos norte-americanos para alimentarem mitologias de superiorização sobre um mundo a dominar. Por isso a cinematografia de além-Atlântico está tão repleta de títulos famosos - de que se podem evocar os mais recentes «Ali» de Michael Mann ou «Million Dollar Baby» de Clint Eastwood -, como pretextos para representarem as contradições do amplo espaço geográfico que medeia entre as fronteiras canadiana e mexicana: a agressividade, a coragem, a corrupção, o orgulho, a injustiça, a liberdade, a alienação, a força de carácter, a barbárie, o estado de graça, a mortificação, até mesmo a improvável transcendência.
Em 1970 surgiu nas livrarias uma biografia de Jake La Motta, notável boxeur dos anos 40 e 50, que chegou a ser campeão do mundo de pesos-médios, mas sempre se revelou um ser insatisfeito, egoísta e colérico com tendência para a autodestruição. O temperamento impetuoso e paranoico tinham-no levado a repetir erros atrás de erros. E, no entanto, a versão de Peter Savage até era bastante condescendente para com esse lado sombrio, que atenuava numa sucessão de desculpas esfarrapadas.
De Niro suspeitou do potencial dessa história para criar um filme à medida do seu histrionismo. E instou Scorcese para o dirigir, quando ele acabara de montar «Alice já não mora aqui». Estava-se em 1974 e o entusiasmo do convidado não era grande, limitando-se a pedir a um amigo escritor que, com ele já colaborara em vários filmes, para que iniciasse a adaptação do relato biográfico. Dois anos depois, Mardick Martin apresenta a sua versão, que insatisfaz De Niro e Scorcese. Essa proposta de argumento fora trabalho preguiçoso a seguir quase passo por passo o livro de Savage.
Chamado à pressa para remendar esse texto, Paul Schrader vira-o do avesso, confere-lhe o lado místico sempre presente nos seus trabalhos, e consegue dar alma a uma estória, que não a chegara a ganhar.
Nesse ano de 1978 Scorcese passou por uma grave crise pessoal, que quase o matou: o internamento em estado crítico tanto se devera a uma grave depressão nervosa como ao excessivo uso de drogas e barbitúricos. Eivado de graves dúvidas existenciais e com o casamento fracassado, Scorcese despertaria do leito do hospital decidido a fazer do percurso de La Motta uma réplica do seu. «Raging Bull» significará o início da redenção em que a personalidade do boxeur e a sua se irmanam como se saídos do mesmo ventre materno. Apesar da antipatia pelos combates no ringue, ele vai assinar os melhores planos cinematográficos alguma vez concebidos sobre tal espetáculo, realçando-lhes a selvajaria, o instinto primitivo de sobrevivência. Em certos planos atinge-se uma dimensão singularmente metafísica.
Apesar de ter constituído um fracasso comercial - que conjuntamente com «As Portas do Paraíso» de Michael Cimino precipitaria a falência da United Artists -, «Raging Bull» serviria a Scorcese para se salvar. Doravante ele reconheceria ter sido tal trabalho cinematográfico a devolver-lhe o perdido sentido da Vida. Mesmo que demorassem alguns anos para que corrigisse junto dos estúdios a fama de criador de flops, nos quais importaria não investir um cêntimo... 

(EdH) O que o meu avô estava a viver há (quase) cem anos

Sessenta milhões de homens participaram numa guerra, que deveria ser fulminante não chegando sequer ao Natal de 1914. Afinal foi por muito pouco que não se cumpriu uma quinta época festiva na lama das trincheiras. No total foram 8,5 milhões os mortos de um conflito, que deixou a Europa exangue. Oito mil foram os portugueses, que não regressaram de entre os cem mil mobilizados para garantir que as colónias não se perderiam nem que a jovem República se visse excluída da mesa dos vencedores. Mas tudo se começara a definir em 1916, quando ocorreu uma grave crise de transportes marítimos, tão necessários para garantir a logística dos exércitos em guerra e todos os navios eram preciosos. Razão porque o governo republicano teve de aceder à solicitação do aliado inglês de apresar os navios alemães estacionados no porto de Lisboa. Ao fazê-lo o governo sabia que os alemães declarariam uma guerra, que colhia tantos entusiastas lusos pela intervenção quanto férreos opositores. Sobretudo por se saber quão desguarnecido estava o Exército e tão fracos soldados possuía nas suas hostes.
O resultado viu-se em La Lys, que nunca deixaria de ser evocada pelo meu avô nos anos, que contou de vida desde então como sobrevivente de um desastre militar a que atribuía culpas aos ingleses em geral e a Afonso Costa em particular. Injustamente já se vê, porque dificilmente seria evitável esse compromisso com um esforço de guerra, que obrigava o frágil regime republicano a não pôr em causa o Império, que os seus principais líderes tinham defendido tenazmente na altura do Ultimato, nem em recusar os termos da aliança com a monarquia inglesa, que não o acolhera com grande entusiasmo.
Em miúdo ouvi muitas estórias de viva voz sobre o que se passara na Flandres e sempre imaginei o que esse meu antepassado ali viveu no ano terrível em que o frio, a fome, o fogo da artilharia e a ameaça dos gases tornava periclitante cada dia. Mesmo não apreciando o estilo, vejo-o mais realisticamente representado nas pinturas de Sousa Lopes expostas no Museu Militar do que nos filmes a preto-e-branco da época. Porque ele a representou a cores e, sobretudo, porque se sabe como viveu intensamente a experiência da frente de batalha para colher dela o retrato mais realista.
É na fisionomia daqueles soldados ali representados, que melhor imagino o João Trindade a dar tratos à cabeça de como dali haveria de escapar. 

(S) «I'm dreaming of home» de Philippe Rombi

segunda-feira, setembro 11, 2017

(DL) Vontade não lhe faltou para lhes ir cuspir nas campas!

Andei quatro horas a acompanhar as emissões da France Culture dedicadas a Boris Vian e reconheço terem sido mais oportunidades de revisão da matéria dada do que de aquisição de novos conhecimentos sobre a sua obra.
Li-o há muitos anos, mas não enjeito a forte probabilidade de regressar a alguns dos seus títulos, quando eles me voltarem a surgir à mão na rearrumação dos livros da biblioteca cá de casa. Hoje reconheço tê-los, há muito tempo (tempo demais?) nas filas traseiras das estantes.
A experiência mais recente foi calamitosa: quando vi a adaptação cinematográfica assinada por Michel Gondry na Festa do Cinema Francês de há um par de anos, nada encontrei do que tanto apreciara na leitura. O que não admira: embora muito metafórico, o livro é demasiado relevante no tipo de linguagem utilizada para tornar-lhe exequível a tradução em fotogramas.
O que mais impressiona na curta vida do escritor foi a pressa com que quis preencher as várias existências, que para si inventou.  Se os nenúfares foram tão importantes nesse livro, tão infelizmente adaptado ao cinema, são como planta o melhor reflexo do que criou: a escrita é sedutora e calorosa à primeira abordagem, mas revela-se bem mais sombria se analisada com maior profundidade. A invenção é permanente ou não intentasse Vian fazer do pensamento uma permanente tentativa de percorrer caminhos totalmente avessos aos trilhados à sua volta. Então os lugares comuns ou as certezas inquestionadas eram-lhe demasiado tentadoras como alvo das suas provocações anarquistas.
O carácter condizia com essa bipolaridade: conseguia ser triste e brincalhão como uma criança perdida, diria um dos entrevistados nessa maratona radiofónica. E escrevia tão depressa quanto vivia: sabendo-se condenado a morrer jovem (e assim ocorreria, quando ainda só tinha 39 anos!), dormia entre duas a quatro horas por noite e preenchia todo o tempo livre a escrever, a conviver com os amigos ou a atuar como jazzman nos clubes parisienses atraídos pelo swing.
O relacionamento com os escritores da sua geração replicou essa ambivalência: houve os que foram seus amigos inquestionáveis (Prévert, que era seu vizinho), mas também exasperou os que se viam por ele troçados por se tomarem demasiado a sério. Por isso mesmo, se «L’Écume des Jours» tivera uma receção amistosa e tornara-o passível de se converter no que mais ambicionava, um autor da prestigiada Gallimard, os títulos seguintes foram criticados com violência feroz. Sobretudo, quando se tornou evidente a verdadeira identidade de Vernon Sullivan, o suposto autor norte-americano de policiais de que ele se limitaria a ser o tradutor. O enorme sucesso de vendas de «J’irai cracher sur vos tombes» seria considerado um escândalo para essa corte de literatos demasiado pomposos para acharem a mínima graça às patifarias de Vian.
Hoje, a leitura desses policiais desafiam o leitor para neles encontrar uma América mais verdadeira do que a real, por ser a criação de quem muito amou esse outro lado do Atlântico sem jamais ali ter conseguido ir. 

(S) Os dois D.J. de «Raving Iran» já na condição de exilados no Ocidente

domingo, setembro 10, 2017

(DIM) «Raving Iran» ou há sempre alguém que diz não!

A única vez em que estive no Irão, ainda o xá se iludia com a submissão do povo, acautelada pela CIA, e Khomeini esperava pelo seu momento no exílio em França. Já então a experiência de ali sequer ir ver um filme ao cinema - na época foi uma coisa de série B com um Peter Fonda irreconhecível em relação ao então bem amado «Easy Rider» - implicava significativas dificuldades com as autoridades a mostrarem uma arrogância prepotente, que o atual regime dos ayattollahs só terá agravado.
O interesse do filme de Susanne Meures sobre a cena techno em Teerão e a organização de animadas raves no deserto tinha a ver com a confirmação do que fomos conhecendo através do filmes de Jafar Panahi ou  Abbas Kiarostami: que até mesmo nas maiores expressões de intolerância e de opressão continuam a não faltar corajosos capazes de dizerem não.
O projeto de «Raving Iran» iniciou-se na cabeça da realizadora suíça, que pretendia satisfazer uma curiosidade idêntica á minha e tinha meios para a apurar: entre abril e setembro de 2013 voou por cinco vezes entre o seu país natal e Teerão para aí entrar em contacto com os protagonistas da clandestinidade musical. Foi assim que chegou a Anoosh e Arash, que tinham criado um grupo musical, os Blade & Beard, com os quais organizavam concertos não autorizados nas barbas dos mollahs.
Recorrendo, amiúde, às câmaras de telemóveis a realizadora conseguiu criar uma ficção dentro do documentário, porquanto os dois foram-se misturando intrinsecamente à medida que o projeto evoluía.
O grande momento do filme acontece quando os dois rapazes são convidados por um Festival de Zurique para apresentarem o seu trabalho e aproveitam para conseguir exilar-se, mesmo que o reconhecimento de tal condição só se tenha verificado dois anos depois, em 2015.
O que mais se explicita no documentário é o paradoxo de uma oposição entre o faz de conta repressivo do regime e a vida paralela, que o contesta nos mais pequenos gestos. Nas interações que os dois rapazes vão tendo com autoridades e pequenos comerciantes - muitos deles com as expressões convenientemente protegidas pelo seu desfoque de forma a evitar-se-lhes aborrecimentos com a polícia secreta - comprova-se o amplo desagrado com as imposições ditatoriais dos autocratas, mesmo se elas vão sendo incontornáveis. Ou não … porque há sempre alguém a sugerir a forma expedita de contornar a lei. E tenha-se em conta que o filme foi rodado já com Rohani no poder. Imagine-se como era no consulado do bem mais fanático Mahmoud Ahmadinejad!
Pelos exemplos que se vão sucedendo - e por estes dias está em foco a crise com os rohingyas do Myanmar! - sempre que se permite a intromissão das religiões na política o resultado é calamitoso.


sábado, setembro 09, 2017

(S) A Cantata BWV6 de Bach: «Fica connosco, a noite cai» de J.S. Bach

(DIM) Entre os dois lados em luta na Ucrânia e a luta antijiadista em Espanha

Duas reportagens no canal Arte revelaram aspetos elucidativos do que se passa na Ucrânia e na Espanha.
No primeiro daqueles países a independência ocorreu em agosto de 1991 mas, atualmente, quer a Crimeia, quer o Donbass escaparam ao seu controlo, decorrendo uma guerra de baixa intensidade, condicionada pelos Acordos de Minsk, que proibiram a aviação e as armas pesadas, mas não impedem que haja tiros dos dois lados diariamente ao longo dos 800 kms de linha da frente que separam ucranófonos e russófonos.
A música tornou-se numa arma e é esse aspeto particular que os repórteres seguiram: quer na Armya FM, estação radiofónica destinada aos militares até às tournées dos artistas da Associação «Help Army», tudo é feito para entreter quem faz a guerra, se possível com cantos patrióticos do mais surpreendente kitsch. No espetáculo organizado para um batalhão, inteiramente constituído por um partido da extrema-direita, os cantores interpretam, ora temas sobre a família capazes de fazerem chorar as pedrinhas da calçada até galvanizarem os combatentes com insultos a Putin.
No outro lado das trincheiras, os repórteres entrevistam Oleg, um militar veterano, que chegou a fazer as campanhas do Afeganistão, e que nunca se afasta muito da sua guitarra. Com ela compõe hinos patrióticos, mas também canções de um lirismo, que condiz com a sua vontade de regressar à pacatez dos seus dias de desmobilizado.
Há também a velha Lydia Kachalova, outrora soprano prestigiada, que chegara até a trabalhar com Chostakovich, e hoje encarregada de manter bem oleada a Ópera de Donetsk. Aos domingos há récitas com óperas ou operetas em que os militares têm bilhetes grátis.
E, ainda, do lado independentista, há o rap como linguagem contestatária, neste caso do tipo de combate empreendido pelos apaniguados dos políticos de Kiev.
De um e do outro lado a cantiga é uma arma e quem as canta está disso bem ciente…
A outra reportagem tem a ver com a luta antiterrorista em Espanha, reconhecidamente um dos países por onde transitam mais facilmente os jiadistas a partir de Marrocos. A reportagem segue uma família onde os dois filhos gémeos foram presos aos 16 anos quando, em Marrocos, estavam prestes a partir para a Síria, logo seguindo-se a respetiva mãe a ser igualmente enclausurada sob a acusação de ser uma recrutadora de terroristas. Algo que ela recusa, alegando ter-se deslocado a Marrocos para dissuadir os filhos de empreenderem essa viagem e trazê-los de volta para casa.
O que está em causa em Espanha não é só o combate ao terrorismo, com uma mescla de medidas de integração com outras de repressão, mas também a aberrante possibilidade de alguém poder vir a ser acusado de terrorismo apenas com base numa denúncia, mesmo que infundamentada.