sexta-feira, dezembro 26, 2014

DIÁRIOS DAS IMAGENS EM MOVIMENTO (1): Hellzapoppin’

Há quantos anos ansiava pela oportunidade de ver «Hellzapoppin’», o filme que H.C. Potter realizou em 1941  com base numa peça de sucesso na Broadway! Todos os meses, quando olhava para a programação da Cinemateca, procurava por este título para, enfim, satisfazer a curiosidade há muito alimentada sobre ele.
Conhecido como uma espécie de cometa errante na produção de Hollywood dos anos 40, sempre foi considerado o paradigma do filme sem precursor que o influenciasse, nem sucessor, que lhe imitasse o estilo… a não ser muitos anos depois e pelos mais insuspeitos discípulos. Porque lembram-se das cenas de interação entre as personagens na tela e quem, na cabine de projeção ou na plateia, assistia aos seus desempenhos em «Rosa Púrpura do Cairo» de Woody Allen? «Hellzapoppin’» já as tinha.
Lembram-se da «Balbúrdia no Oeste» de Mel Brooks em que o xerife negro e os seus amigos iam passando pelos cenários de vários outros filmes em rodagem»? «Hellzapoppin’» já as tinha.
Poderíamos prosseguir com outros exemplos, mas basta acrescentar aquele que mais se justifica como herdeiro distante deste filme: tudo quanto os Monty Pithon criaram. Porque Ole Olsen e Chic Johnson - a dupla de comediantes da Broadway, que estiveram na origem deste projeto - já utilizavam a falta de lógica, o excesso, o absurdo, como estratégia para o riso. Na mesma época só os irmãos Marx seguiam um percurso criativo semelhante, mas transigindo bastante mais com o que as normas de Hollywood ditavam!
Não admira que passemos quase todo o filme a rir com sucessivos gags de uma imaginação, que os setenta e três anos entretanto decorridos não enferrujaram, mesmo que, pelo meio, tenhamos de aguentar com os obrigatórios números musicais das comédias de então.
Durante os primeiros minutos até parece não existir qualquer história, mas, mesmo quando ela surge sobre a forma do triângulo amoroso, o habitual recurso aos equívocos não impede o prosseguimento da ininterrupta sucessão de gags, que dão ao filme a aparência de uma loucura ilimitada. O que não deixa de ser um paradoxo perante o facto de, enquanto o filme era rodado, já a guerra antifascista na Europa estava em crescendo. Mas, em 1941, Hollywood ainda pouco se preocupava com o que se passava deste lado do Atlântico. Vivia-se, ainda, a cultura do entretenimento no seu fulgor!
Existe sim uma cinefilia revelada nas muitas referências que vão das homenagens às coreografias de Busby Berkeley, a Chaplin passando pela Rosebud que explicitamente se dirige a Orson Welles de quem Olsen e Johnson eram amigos.
Quase hora e meia depois pode-se dizer que o filme cumpriu as expetativas. Porque, divertido, consegue manter uma modernidade que justificaria um reconhecimento  para além do seu exíguo círculo de admiradores. 

DIÁRIO DE LEITURAS (II): Martin Amis

Desde «Koba the Dread», que a antipatia por Martin Amis tem sido uma constante na apreciação, que lhe faço. Tal como em Portugal prefiro Saramago a Lobo Antunes, e. em França, Sartre a Camus, também em Inglaterra simpatizo bem mais com Christopher Hitchens - que era por ele diretamente visado naquele livro de 2002 - do que por Amis.
Mas essa antipatia vinha de mais longe: sempre detestei aqueles que ganharam louros literários à conta do seu posicionamento político à esquerda e, depois, por indisfarçável arrivismo, viraram à direita. Foi o que sucedeu com Kingsley Amis, o pai de Martin, nos anos sessenta.
Este distanciamento, assumidamente preconceituoso, não me impede de acompanhar com interesse a polémica em torno do romance «The Zone of Interest», que as principais editoras francesas recusaram publicar pela ligeireza com que o acusam de abordar o tema do Holocausto.
Enquanto a Quetzal está a preparar a edição portuguesa - que surgirá nas bancas antes da Feira do Livro -, vale a pena recordar quão complicado é tratar literariamente o tema.  George Steiner até propunha a afixação de um cartaz no topo dos portões dos campos de concentração a aconselhar os romancistas a afastarem-se.
E, em cinema, os equívocos relacionados com a tradução do tema em comédia até valeu um excelente êxito na Broadway a Mel Brooks com «The Producers».
No romance agora publicado, Amis tem por protagonista um oficial nazi de segunda linha, colocado em Auschwitz, que se apaixona à primeira vista pela mulher do próprio comandante do campo.
A questão moral, que muitos levantam e justificou a escusa da Gallimard em publicá-lo é até que ponto faz sentido um romance cujo tema é a obsessão sexual de um alemão tendo por cenário de fundo os fornos crematórios?
Martin Amis não foge propriamente ao homicídio gigantesco, que ali se vive, mas também não agradará a muitos a escolha do judeu Szmul para o ilustrar. Porque este é o paradigma do oportunista, que salva a pele por mais algumas semanas, ao dispor-se a ajudar objetivamente os assassinos a convencer os que acabam de chegar nos comboios da morte em como nada de mal lhes acontecerá ao entrarem nos edifícios onde irão na realidade ser gaseados.
Num certo sentido até considero positiva a dessacralização do Holocausto não o limitando à  perspetiva estereotipada, que se limita à divisão maniqueísta entre as vítimas e os seus monstruosos algozes. Até porque, di-lo Martin Amis, os campos de concentração eram locais como quaisquer outros, onde os oficiais alemães viviam com as respetivas famílias. Mas fica a dúvida se Amis - ciente de ver a sua obra a cair na irrelevância, que precede o merecido esquecimento, não terá visto na conjugação entre o contexto muito canonizado e a sexualidade de um protagonista, a forma de gerar o escândalo capaz de lhe voltar a proporcionar espaço nas primeiras páginas dos jornais e nas capas das revistas literárias. E isso seria revelador do oportunismo, que desconfiamos ser um dos seus traços de carácter...

quinta-feira, dezembro 25, 2014

DOCUMENTÁRIO:«Star Wars The Legacy Revealed» de Kevin Burns

Passados quase quarenta anos sobre a estreia do primeiro episódio da saga «Star Wars» as duas trilogias faturaram 45 mil milhões de dólares a nível mundial e alimentaram o imaginário coletivo. As personagens atingiram a dimensão de mitos, que passaram a integrar a cultura popular.
Hoje há quem estude as aventuras de Annakin Skywalker e do filho Luke com a mesma seriedade com que cuidariam da «Ilíada» ou da «Odisseia».
George Lucas já arrumou as botas, mas parece que a guerra das estrelas esteja longe de terminada: a Walt Disney comprou os direitos para produzir em breve um sétimo episódio com que poderá iniciar-se uma nova trilogia.
É quase unânime a ideia de heterogeneidade  na série. Mas pouco importa a sua valia artística: nenhuma outra mitologia cinematográfica teve tal longevidade e causou tanto impacto.
Porquê? Este tipo de fenómeno impõe-se de forma imprevisível. Lucas confessava-o há não muito tempo: “quando se estreou o primeiro ‘Star Wars’, não fazia ideia do que se seguiria. A astúcia  está em dar a ideia de ter tudo planeado. Dê-se-lhe uma pitada da problemática pai/filho, acrescentem-se-lhe umas referências a outros mitos e aí está a saga pronta a servir!”
Mas a receita parece demasiado simplista para explicar tal sucesso. O documentário de Kevin Burns arrisca algumas explicações e análises com algumas cenas a apoiá-las.
Em 1977 a América saía de uma longa fase de dúvidas e de contestação política com uma leitura do mundo de acordo com a dicotomia entre o Bem e o Mal.
A epopeia imaginada pelo jovem realizador de «American Graffiti» tinha tudo para ressoar de forma positiva num país desejoso de voltar a levantar a cabeça. Assentava em arquétipos universais  criando um universo inédito onde se misturava o futurismo com a pré-história, e inventava efeitos especiais para acompanharem a impressionante banda sonora de John Williams.
O personagem de Luke, por exemplo, é influenciado pela mitologia grega, pelas lendas da Távola Redonda e pelo Senhor dos Anéis.
Para credibilizar esse sincretismo, George Lucas desviou-se dos valores políticos e espirituais dos anos 60 e estudou os trabalhos assinados por Joseph Campbell na área da Antropologia.
Foi quanto bastou para propulsar a industria de Hollywood até às estrelas. Depois do sucesso de «O Tubarão» a saga cumpria o modelo das superproduções, que iria marcar o cinema norte-americano das décadas seguintes.
Esta abordagem  aprofundada do que explica o sucesso da saga apoia-se em numerosos extratos dos seis filmes, no testemunho de professores universitários, jornalistas, atores e em realizadores como Joss Whedon, J.J. Abrams ou Peter Jackson.

DIÁRIO DE LEITURAS (I): Alberto Manguel, Henning Mankell, Patrick Modiano

1. Em 2004 o escritor argentino Alberto Manguel publicou o seu «Diario de Lecturas» através do qual traduziu por escrito as descobertas propiciadas pelos autores, que iam fazendo parte dos seus dias.
Sem preocupações de estabelecer um cânone assumia aquilo que a leitura deve ser: um prazer tão superlativo quanto possível.
Chegado a esta altura da vida  - reformado e não muito longe dos sessenta anos - a leitura também é um dos meus maiores prazeres. Sempre o foi, mas posso-lhe agora dedicar a concentração que era incompatível com a atividade profissional dos últimos anos quando o descanso era um bem demasiado escasso e passível de, a qualquer momento, ser interrompido por um telefonema com mais uma urgência por resolver.
Porque cheguei a uma fase em que as fronteiras se estreitam faz todo o sentido o que li hoje no posfácio de um romance de Henning Mankell: “le temps, qui manque toujours, manque encore plus. Je dois prendre des décisions de plus en plus fermes sur ce que je ne veux pas faire. C’est la seule façon de profiter du temps dont je dispose - et nul n’en connait la durée - pour accomplir ce que je désire le plus”.
Como leitor, mas também em tudo quanto ando a fazer dos dias, exijo o critério de só gastar este precioso tempo com o que me dá verdadeiramente prazer, o que é social e politicamente útil e com o que possa fazer mais feliz quem amo…
2. Ler policiais pode parecer algo de fútil em função do que atrás fica escrito, mas lá está o tal prazer a justificar a opção. E então se ela se traduz num título do sueco Henning Mankell, tenho garantida a almejada satisfação.
No caso de «Une main encombrante» a história até nem é muito consistente: Kurt Wallander, o detetive que serve de alter ego do autor, está tentado a comprar uma vivenda onde pensa viver serenamente a reforma acompanhado de um cão, que lhe sirva de companhia.
O problema reside no facto de, enquanto se inteira da propriedade, dar com uma mão humana a sair da terra. Desenterrada, ela descobre-se ter pertencido a uma mulher quinquagenária, cujo corpo já teria sido ali escondido há mutos anos.
Dias depois, a investigação consegue dar com outro esqueleto, dessa vez de um homem de idêntica escala etária, enterrado por perto.
Apesar de não haver grande entusiasmo da hierarquia com a afetação de recursos para crimes que já terão prescrito, Wallander consegue contactar quem viveu naquela casa e nas vizinhas nos anos da Segunda Guerra - altura em que tudo terá sucedido - e, depois de quase poder afiançar da possibilidade de se tratar de um casal de ciganos presumivelmente vítimas de ódio racista, consegue identificar os mortos como sendo o pai e a mãe de um engenheiro de origem estoniana ali radicados desde a época em causa. E terá sido ele próprio a matar o pai ao encontrar a mãe enforcada por já não conseguir aguentar por mais tempo a violência doméstica de que era vítima quotidiana.
Ao concluir-se a leitura a possibilidade de se lhe associar a tal futilidade de que aludia atrás, deixa de fazer sentido. Porque estão presentes questões sociais de primeira importância tão pertinentes na Suécia como em qualquer outro sítio onde os livros de Mankell conhecem merecido sucesso. Mas não é só o racismo ou a violência doméstica a conseguirem-nos cativar. Há também a  solidão do protagonista, quase chegado à reforma, divorciado, diabético e com a filha quase a sair de casa.
Wallander, que na série inglesa era interpretado irrepreensivelmente por Kenneth Branagh, contituium dos personagens mais interessantes do género policial das décadas mais recentes…
3. Concluído o romance de Mankell, o desafio seguinte é que Patrick Modiano publicou nos dias anteriores à notícia de ter sido galardoado com o Prémio Nobel deste ano: «Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier».
O meu entusiasmo pelos romances deste autor já dura há quase quarenta anos, quando conheci um autêntico sortilégio com «Villa Triste». Desde então quase nunca lhe perdi o rasto.
Embora ainda não tenha lido mais do que uma dezena de páginas, as características dos personagens e o estilo de escrita estão lá: existe um misantropo fechado há quase três meses em casa, e que recebe o telefonema de alguém com voz ameaçadora, apesar de lhe propor a entrega de uma agenda por ele perdida em Lyon.
Encontrando-se com esse Gilles Ottolini num modesto bar junto à gare Saint Lazare, Jean Daragane vê-se questionado sobre o paradeiro de um dos nomes incluídos no pequeno livro. Alguém de quem ele já nem se lembra!
Por amnésia ou porque trazer do passado esse alguém implica um sofrimento íntimo, que Daragane pretenderá evitar?
Já não se trata do tempo da Segunda Guerra, quando Paris pululava de clandestinos e delatores e as cidades de veraneio na província organizavam absurdos concursos de misses e bailes feitos de aparências, mas com muitas angústias a condicioná-los.
Mas existe uma similitude entre os romances de Mankell e de Modiano: em ambos o protagonista sofre a solidão da reforma anunciada e o acaso traz-lhes de volta passados há muito soterrados na poeira do tempo.
No caso de Daragane é a Paris dos inícios dos anos cinquenta, que volta à superfície, quando ainda era uma criança. Por isso colocava-se a questão de não se perder no bairro, como o título evoca.
Está lançada a intriga para ser desvendada nos próximos dias. Decerto que com a satisfação habitualmente propiciada pela escrita do mais recente Nobel.

terça-feira, dezembro 23, 2014

CINEMA:«Gravidade» de Alfredo Cuarón

Por muito que a crítica tenha zurzido no filme, criticando-lhe sobretudo a lamechice inerente à biografia da personagem representada por Sandra Bullock, confesso que gostei de «Gravidade».
É claro que, no género, continuarei a preferir-lhe «2001 Odisseia no Espaço». E até terei apreciado mais o «Interstellar», ainda há pouco passado pelas nossas salas. Mas a forma grandiosa como consegue recriar o espaço é perfeita na sua verosimilhança. Quase acreditávamos que, em vez de representaram em frente a cromaquis, Bullock e Clooney estavam de facto em órbita a cuidarem de salvar a vida.
A história não poderia ser mais simples: confrontada com desafios extremos, a protagonista tem de superar provas sucessivas para conseguir salvar a pele. A partir daí estamos em puro entretenimento.
Antes de ver o filme questionava-me sobre a forma como Cuarón conseguiria manter o interesse do espectador tendo em conta que tudo se resumia a ter uma astronauta em órbita da Terra, a contas com a falta de oxigénio, de  nave com que regresse à Terra  ou com a dificuldade em compreender as instruções em russo ou em chinês nas sucessivas alternativas por que vai passando até conseguir aterrar sã e salva cá em baixo.
Muito embora tenha havido quem achasse chato o filme, Cuarón consegue manter elevada a expectativa de se saber como ela se salvará. E os efeitos especiais, sobretudo os de cariz pirotécnico, facultam uma ajuda imprescindível nesse sentido.
É claro que Hollywood não deixa de, mesmo através de mensagens quase subliminares, dar a ferroada  nos russos, dados como os causadores do desastre com  a destruição de um satélite em órbita com um dos seus mísseis. Mas como manterá o cinema norte-americano a sua identidade sem  os tiques da Guerra Fria? 

segunda-feira, dezembro 22, 2014

TEATRO: «Al Pantalone» no Meridional

Em espetáculos dos  grupos com que sentimos maior afinidade  - o Bando, o Teatro Meridional -  costumamos  ir vê-los logo nas primeiras representações, porquanto não queremos deixar de os rever se eles nos derem muita satisfação. Foi o que aconteceu mais recentemente com «O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão» na sala do Poço do Bispo ou com «Quarentena» em Palmela.
As circunstâncias impediram-nos de ver «Al Pantalone», quando se estreou no início do ano ou ao apresentar-se, meses depois, no Festival de Almada. E só no último dia de representação pudemos comparecer  naquele que, não sendo a melhor peça vista no ano em curso, foi decerto a mais divertida. Porque «Al Pantalone» é, de facto, uma comédia acutilante sobre os tempos que andamos a viver, em que banqueiros e «doutores» conspiram para esmifrar os jovens e os pelintras.
O cenário e as personagens remetem para a tradição da commedia dell'arte. Temos assim uma Colombina e um Arlequim na versão de criados e na de filhos dos dois «poderosos» como Miguel Seabra, o encenador, classifica simpaticamente os dois refinados patifes, que não revelam qualquer escrúpulo em roubar as magras poupanças daqueles.
Mário Botequilha, o autor da peça, não poupou ninguém com um texto, que lembra algumas das melhores páginas do «Inimigo Público» de que é um dos principais autores. Se o banqueiro e o doutor são gananciosos, os criados são idiotas e os jovens enamorados primam pelo romantismo cor-de-rosa. Aos que exploram correspondem os que se deixam ingenuamente espoliar. Por isso mesmo a peça revela-se pertinentemente atual por explicitar este estado das coisas em que o poder económico já se desmascarou totalmente na sua corrupção e o poder político de cunho neoliberal procura escamotear o fracasso social dos mitos que engendrou. Sem que quem lhes tem sofrido as penas lhes chegue a roupa ao pelo!
Tratando de assunto muito sério, «Al Pantalone» suscita muitos risos no público, até pelas frequentes piscadelas de olho a expressões ou a acontecimentos recentes para que continuamente remete.
Mas o maior prazer está no trabalho dos quatro excelentes atores. Guilherme Noronha, Rui  M. Silva, Sofia Correia e Vítor Alves da Silva corroboram o que há muito defendemos: este é o tempo em que existe tanto talento no teatro nacional, que só se pode lamentar a falta de apoios para que possam mais frequentemente dar-nos dele provas.
Desta feita concluiu-se este ciclo de representações na sala do Meridional, mas a peça é merecedora de continuar a ser apresentada em itinerância ou em ulterior reposição. É que costuma-se considerar que, em época propícia para nos gerar tantas depressões, o melhor remédio é o riso. E muito melhor, quando em vez de alarve como acontece frequentemente na revista, ele prima pela inteligência. 

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=710620&tm=4&layout=122&visual=61

domingo, dezembro 21, 2014

CINEMA: «Juventude» de Ingmar Bergman (1951)

Datado de 1951, “Sommarlek” foi considerado por Jean Luc Godard, então crítico dos Cahiers du Cinéma, como um dos filmes mais belos da história do cinema. A protagonista é Marie, uma bailarina de 28 anos, que sente a inquietação de ver a juventude a escoar-se de si mesma. A presente relação amorosa não a entusiasma, levando-a a refugiar-se num diário, que lhe dá o pretexto para recordar um verão da sua adolescência em que estava partilhada entre a primeira paixão com Henrik e a ameaça sexual representada por um tio apostado em possui-la.
Há quem veja uma explicação pessoal para a diferença entre o clima depressivo deste “Juventude” com o bem mais otimista “Monica e o Desejo”, realizado no ano seguinte: enquanto neste último Harriet Andersson partilhava o leito de Bergman, no caso da protagonista do primeiro, Maj-Britt Nilson, nunca ele a conseguiu convencer a tal. Daí que a intriga tenha a ver com uma rapariga, que se entrega espontaneamente ao jovem namorado em vez de ceder ao desejo lúbrico do tio venal.
Nunca saberemos com quem Bergman mais facilmente se identificaria, se com o jovem desajeitado, se com o adulto abjeto na sua lubricidade. É que na vida pessoal, Bergman sempre aliou algo dessas duas vertentes: muito jovem rompeu com o ambiente austero imposto pelo pai pastor na igreja da terra natal para, com maior ou menor dificuldade, concretizar as suas aspirações. Mas depois, já consagrado como diretor teatral e realizador de cinema, conheceu-se-lhe um feitio de tirano capaz de intrigar contra colegas, despedir colaboradores que lhe não agradassem ou, no caso das mulheres, que com ele recusassem deitar-se.
Não o sabemos por outrem já que Bergman contaria isso mesmo na honesta autobiografia. Por isso mesmo o seu cinema oscila entre a representação de jovens idealistas em luta contra as circunstâncias, que os condicionam, e o reconhecimento de comportamentos inqualificáveis. E se os primeiros nunca conseguem ser bem sucedidos, os segundos, mesmo aparentando sê-lo, acabam por ser odiados e condenados a uma vida infeliz.
Um aspeto pouco comum da filmografia de Bergman, mas aqui bastante presente é o papel da natureza: através dos enquadramentos com que capta a flora ou os reflexos dos raios solares, Bergman cria a ambiência propícia para mostrar como a bailarina passou ao lado da vida. A idealização do passado confronta-se com a insatisfação colhida no seu amargo presente. Em muitos planos os corpos ficam secundarizados com a câmara a apenas captá-los em função da necessidade de, através deles, fazer avançar a intriga.
O filme utiliza eficientemente o paradoxo do verão nórdico em que a obscuridade nunca se consuma para diferenciar o tempo em que os dois jovens amantes inexperientes descobrem o inebriamento dos corpos daquele, ulterior, em que a noite cai quando Marie sai de mais um ensaio do «Lago dos Cisnes».
Num filme sobre a exploração sexual das mulheres pelos homens a bailarina ver-se-á acossada por sucessivos agressores potenciais, seja sob a forma do namorado jornalista, de um palhaço que já se revelava personagem-tipo da filmografia do realizador, de um ébrio ou de um mero provocador.
Ainda pertencente á primeira fase da obra do realizador, não se trata de filme que faça jus ao entusiasmo godardiano, mas merece decerto uma apreciação atenta nem que seja por dever de cinefilia... 

sábado, dezembro 20, 2014

ALHURES: as cores de Marrocos (3)

O ocre, o branco, o verde. Chegamos, então, aos vermelhos que dão vida às várias paisagens de Marrocos.
Vemo-los nas várias tonalidades das areias do deserto de Merzouga, consoante a inclinação do sol e as sombras que ele vai estendendo.  Surge também nos canyons de Ouarzate, que já serviram de cenário a tantos filmes desde «Lawrence da Arábia» até aos muitos westerns supostamente passados no faroeste norte-americano.  Sem esquecer que Orson Welles rodou aí «Otelo» um dos seus filmes mais difíceis de concretizar por falta de quem lho financiasse.
Temos, igualmente, vermelhos nos campos de açafrão, especiaria rara, porque restringida aos estigmas, que crescem dentro das flores lilases. Ou ainda as romãs, que crescem nas árvores e são tidas como o fruto da paixão. A mesma que justifica a cor dos tapetes laboriosamente tecidos pelas noivas do Atlas e que podem ser apreciados em todas as casas da região.
Vermelha também é a cor mais apreciada pelos tingidores de Fez, que levam um mês a tratar as peles de caprinos até as venderem como couros macios no respetivo souk. Mas encontramos, igualmente, o vermelho na decoração das esplêndidas casbás, na maquilhagem do rosto das raparigas ou no sangue das vítimas das aves utilizadas na arte centenária da falcoaria.
A pouco e pouco, à medida que os sucessivos episódios da série de documentários dedicados às cores de Marrocos vão progredindo é toda a paleta de um qualquer artista, que convida ao deslumbramento do nosso olhar.
- texto decorrente da apreciação da série de cinco documentários «Les Couleurs du Maroc» de Matthieu Belghiti, Jean Froment, Fanny Tondre et Jean-Bernard Andro 
  

ALHURES: os Alpes em voo de pássaro

Em 1979 estive durante uns meses na reparação de um supertanque nos estaleiros do Bahrain.
Todas as sextas-feiras, dia feriado dos muçulmanos, tudo parava e costumava ir para a cidade ao encontro dos odores a especiarias do bazar de Manama e, sobretudo, do telefonema semanal para casa.
Junto ao edifício onde acedia ao serviço telefónico internacional existia um centro comercial onde, além de excelentes e caríssimos gelados, estavam lojas com as câmaras fotográficas tecnologicamente  mais avançadas na altura. Razão para ter decidido ceder ao consumismo e adquirir uma Canon digna do mais ambicioso dos profissionais.
Fiz essa compra em vésperas de apanhar o voo de regresso a Lisboa, para gozar as merecidas férias. E logo cuidei de pôr um rolo e disparar sobre todos os motivos interessantes, que me aparecessem a jeito para a objetiva durante a viagem.
Ora a passagem sobre os Alpes foi gloriosa: o dia estava com uma luminosidade perfeita e da janela do avião da Singapura Airlines comecei a ver os picos a sucederem-se aos vales, aos rios e aos lagos. Cada enquadramento parecia melhor do que o anterior e ia disparando sem cessar. Intimamente pensava, que grande sucessão de fotogramas iria mostrar quando as revelasse em Lisboa.
Subitamente comecei a estranhar o facto de já ter passado as supostas vinte e quatro fotografias do rolo sem que ele acabasse. Olhei para o número no visor que informava sobre quantas teria já tirado e ele mantivera-se na bola preta que deveria anteceder o número um.
Resultado: quando levei a câmara a um fotógrafo para ver na câmara escura o que sucedera, ele confirmou o que suspeitava: não prendera convenientemente o rolo no carreto, que o faria deslizar, pelo que nenhuma imagem ficara registada.
Essa lamentável estreia da máquina fotográfica também prejudicou o usufruto, que pudera ter desses panoramas de eleição, se não tivesse obcecado em conservá-los para a posteridade.
Essa recordação voltou-me à memória ao ver «Les Alpes à Vol d’Oiseau», o documentário de Peter Bardehle e Sebastian Lindemann, datado deste ano, sobre essas mesmas paisagens vistas de cima, desde a Eslovénia até à Alemanha, passando pela Suíça, por França ou pela Áustria.
Durante hora e meia de excelentes imagens, que muito ganhariam se vistas num ecrã tipo Imax, aborda-se a interligação entre a conquista dos picos alpinos e o turismo massificado e como ela modificou toda a vasta região ocupada por uma cadeia montanhosa hostil, onde a natureza trata de, frequentemente, recordar a pertinência dos seus direitos.
Observado a partir de cima, esse mundo plural e majestoso revela as pastagens a grande altitude procuradas pelo gado depois da transumância estival, as cascatas alimentadas pelos cada vez mais exíguos glaciares, os castelos da Baviera mandados construir por Luís II, os rios turbulentos desafiados pelos praticantes de rafting, os cumes conquistados por vagas sucessivas de alpinistas, as falésias abruptas escaladas pelos entusiastas desse desporto radical. E também a aparência abstrata do traçado das estradas no verde dominante ou as aldeias a lembrarem casas de bonecas.
Os Dolomitas, o Monte Branco, o Allgäu ou o glaciar de Aletsch são espaços pujantes de vida e de História, que propiciam a experiência inesquecível, que em tempos perdi tão ingloriamente.