segunda-feira, julho 21, 2014

ARTE: A exposição de VHILS no Museu da Eletricidade

Não consigo identificar quando dei com a obra de VHILS pela primeira vez. Sei que foi a artista cá de casa quem me alertou para um rosto esculpido pela técnica do «scratching» numa parede entre o Aqueduto das Águas Livres e o Jardim Zoológico para quem conduzia pelo eixo Norte-Sul.
Depois foi outro rosto, criado com a mesma técnica para uma parede de Campolide visível para quem descia da Praça de Espanha para o acesso à Ponte 25 de Abril.
Na altura ainda não se falava de Banksy, mas Keith Haring e Jean Michel Basquiat já demonstravam que a arte urbana era bem mais do que o vandalismo de que muitos dos seus praticantes eram acusados.
Crescendo quase a par do hip-hop e com objetivos de contestação social aparentados, este género tem-se afirmado com cada vez maior evidência, ganhando expressão em exposições nas mais conceituadas galerias e museus a nível mundial.
VHILS viu agora chegada a oportunidade de expor o seu talento no Museu da Eletricidade, onde podemos testemunhar obras por ele criadas por várias cidades dos vários continentes.
Mas a obra de Alexandre Farto distingue-se bem do que vem sendo concebido por outros artistas urbanos: os seus rostos são os de todas as culturas, enfrentando-nos como que a interrogar-nos a respeito do nosso posicionamento perante uma sociedade cada vez mais gentrificada. Enquanto outros ainda apostam numa transformação da realidade, ele parece confrontar-nos com a evidência de uma sociedade onde todas as diferenças se esbatem e tudo parece neutralizar-se numa cultura de massas de onde a diferença quase não se consegue destacar.
Isso é particularmente evidente não só numa das principais peças expostas - uma carruagem de metropolitano explodida, dividida nas suas diversas partes  às quais o branco quase faz parecer todas iguais - mas também no túnel onde somos fustigados pelas imagens em movimento de uma civilização continuamente bombardeada pela lógica do apelo publicitário ao consumismo.
Noutra das peças mais memoráveis da exposição somos convidados a subir ao topo de um andaime para daí observarmos de cima uma cidade feita em esferovite onde se conseguem destacar o mesmo tipo de rostos, que se tornaram a imagem de marca do artista.
Para além do interesse das obras a exposição beneficia de um excelente trabalho do curador  - José Pinharanda - que volta a conseguir uma adequação perfeita entre a estética e o significado das obras expostas com os espaços da antiga central elétrica que iluminou Lisboa durante décadas.
Embora se possam referenciar outras exposições artísticas igualmente estimulantes, a de VHILS é uma das que seria imperdoável perder...

domingo, julho 20, 2014

FILME: «Ida» de Pawel Pawlikowski (2013)

Em 1962 Anna está convencida de que terá vocação para freira pelo que avança para esse pedido no convento onde fora acolhida na infância, quando os pais tinham morrido.
Prudente, a madre superiora instiga-a a procurar a tia, Wanda Lebenstein, que fora a única sobrevivente da sua família. É assim que Anna ficará a saber o seu verdadeiro nome, Ida, e a causa da sua orfandade: o extermínio dos judeus pelos nazis.
Ambas as mulheres irão regressar à aldeia natal para melhor compreenderem quem são em função desse trágico passado.
Esta é a síntese de um filme, que retoma um tema já muito explorado, mas onde se comprova a possibilidade de seguir por outras vias não menos estimulantes.
No início Anna fica boquiaberta, quando a tia lhe anuncia: “Resumindo, és uma freira judia!”. Esse encontro fora suscitado pela madre superiora do convento, que quisera confronta-la com a sua verdadeira identidade antes de avançar para a pronúncia dos seus votos de religiosa.
Até aí Anna fora tão pura quanto pudera ser uma protagonista dos filmes de Robert Bresson. Ao sorrir formavam-se-lhe três pequenas rugas ao canto da boca. Mais tarde um músico de jazz, que irá encontrar no seu périplo dir-lhe-á: “Não imaginas o efeito que causas!”
Mas está fatalmente condenada a perder essa inocência. Porque Wanda revela-lhe o nome por que fora identificada desde que nascera - Ida - e como ficara órfã de judeus desaparecidos durante a guerra, depois de denunciados pelos vizinhos.
“Onde é que estão sepultados?”, questiona. Mas ninguém lhe saberá dizer. Os pais simplesmente desapareceram.
Estamos, pois, numa espécie de policial com um investigador experiente e um ajudante ingénuo. Wanda sabe do que fala: fora procuradora da República e comunista convicta. Alcunhada de «Wanda Vermelha» ela condenava os «traidores» ao regime, quando possuía uma crença idealista na ideologia e ainda não abraçara o seu presente ceticismo.
Temos, pois, uma delas disposta a descobrir quem é e a outra a querer esquecer quem foi. Ida e Wanda percorrem a Polónia gelada e cinzenta desses anos sessenta, quando os jovens eram os dos filmes de Milos Forman, aborrecendo-se com temas ié-iés em hotéis tristes. Só os velhos se pareciam divertir como para melhor se anestesiarem das suas frustrações.
Quando se conclui essa viagem, resta uma conclusão dececionante: predomina uma amnésia coletiva e voluntária sobre os crimes do passado. O horror é negado, mas nunca expiado: os medíocres terão incorrido em atos vis para se apossarem de uma casa, de uma quinta...
Perante essa conclusão ficam as questões: como se poderá continuar a viver depois de tudo isso? Como crer em Deus? Pior ainda: como acreditar no homem?
É um filme com muitas imagens de espaços vazios. A luz parece esmagar os personagens, que quase surgem desenquadrados a um canto da imagem como se estivessem isolados, atemorizados. Os planos fixos, a preto e branco, perturbam e intrigam. Quase sem transição, o filme passa do segredo para a verdade, da sombra para a claridade, de canções pueris para a música de John Coltrane, que sugere a beleza e a melancolia.
Pawel Pawlikowski é um cineasta do absoluto: os personagens ou rendem-se ou morrem. Ida tenta resistir: tira o véu, liberta os cabelos, veste a roupa e calça os sapatos da tia e parte com o saxofonista, que lhe propõe mostrar o mundo. Ela sorri: “E depois?”
“Depois, compraremos um cão e uma casa! E teremos filhos!”
“Sim, mas e depois?”
“Depois, teremos problemas como toda a gente!”
Ida segue por uma estrada. Viu a mediocridade e continua a acreditar num possível Além. Ao som de um Prelúdio de Bach!
(em exibição no Corte Inglês em Lisboa e no Arrábida no Porto)

LEITURAS: «Teatro de Sabbath» de Philip Roth (I)

“Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado.
Foi este o ultimato, o exasperante, inacreditável e absolutamente imprevisto ultimato que a amante de cinquenta e dois anos  fez lavada em lágrimas ao seu amante de sessenta e quatro, no aniversário de uma ligação que persistira com espantosa licenciosidade - e que não menos espantosamente se mantivera secreta - durante treze anos” (pág. 15)
Mickey Sabbath, o alvo desse desafio, fora titereiro - ou «fantocheiro» como escolheu a tradutora - e dirigira uma companhia teatral da off Broadway  nos anos 60, antes do desaparecimento da sua mulher de então, a frágil Nikki.
Ela é Drenka, que fugira da Jugoslávia de Tito, quando casara com Matija e tinham vindo passar a lua-de-mel a Trieste. A vinda para a América, onde se tinham estabelecido com um restaurante de sucesso, correspondera ao conceito de «aventura», que ela tanto prezava.
“Drenka envergonhou os pais ao fugir para este país imperialista, despedaçou-lhes os corações e eles morreram, ambos de cancro, não muito depois da sua deserção. No entanto, ela amava tanto o dinheiro e amava tanto o ’divertimento’ que provavelmente devia agradecer aos seus ternos cuidados desses comunistas convictos o que quer que impedira o seu corpo pujante e juvenil, com o seu rosto atormentadamente brejeiro, de fazer consigo mesmo alguma coisa ainda mais extravagante do que tornar-se escrava do capitalismo” (pág. 19)
Logo nas primeiras páginas deste romance, que seria galardoado em 1995 com o National Book Award, encontramos muitas das características que tornaram Philip Roth num dos principais escritores norte-americanos da sua geração.
Existe uma pulsão sexual intensa nos personagens, obrigados a viverem-na clandestinamente para não se sujeitarem à censura de mentalidades demasiado espartilhadas pelo puritanismo dominante. E um balanço de tudo quanto se viveu, recorrendo-se por isso mesmo a frequentes recuos nas memórias.
Mickey Sabbath sempre tivera uma obsessão pelo sexo, indo para a cama com outras mulheres independentemente de ter ou não parceira fixa, porque considerava-se partidário da poligamia e das maiores e mais variadas fantasias sexuais.
Drenka será, nesse aspeto, a amante perfeita, partidária do relacionamento sexual com qualquer homem que lhe interesse minimamente, complemento necessário ao seu casamento feliz com um homem virado para o trabalho e de poucos prazeres. Por lhe conhecer essa mesma libidinosidade equiparável à sua é que Sabbath fica surpreendido pelo que ela agora lhe vinha exigir.
É que a aura sensual de Drenka estendera-se a quase todos os homens da região sem esquecer alguns, vindos propositadamente de Nova Iorque para a ver:  “Os homens começaram a compreender que aquela mulher baixota de meia-idade, apesar de não ser uma beleza estonteante e de espartilhada por toda a sua cortesia sorridente, era movida por uma carnalidade muito semelhante à deles próprios. (pág. 21)
Nada enciumado com o facto de a ver partilhar a cama com inúmeros amantes, Sabbath andava convencido que a ligação entre ambos beneficiava os terceiros envolvidos: “Drenka encontrara maneira de ser a amiga mais querida do seu marido. O ex-mestre fantocheiro do Teatro Indecente de Manhattan tornara-lhe mais do que meramente suportável a rotina conjugal que antes quase a matara - agora apreciava essa terrível rotina porque contrabalançava a sua temeridade. Em vez de ferver de asco contra o seu pouco imaginativo marido, nunca lhe agradara tanto a impassibilidade de Matija”. (pág. 24)
Neste arranque do romance Sabbath ainda está longe de imaginar que os seus dias felizes estão prestes a conhecer um fim abrupto...


sábado, julho 19, 2014

FILME: «A Rainha Africana» de John Huston

De todos os filmes em que surgiu o nome de John Huston no genérico, seja como ator, argumentista ou realizador, «A Rainha Africana» é o meu preferido.
Baseado num romance de C.S. Forester e realizado em 1951, seria o 11º filme da sua autoria quando já era reconhecido como um dos mais talentosos cineastas de Hollywood - graças, sobretudo, ao »Tesouro da Sierra Madre» apresentado três anos antes.
No entanto, o projeto inicial alterou-se logo que a equipa de filmagens chegou ao Congo. John Huston ficou impressionado com uma imagem, tal qual a contou numa entrevista à revista «Positif» em 1952: “da primeira vez que pus a Katherine Hepburn ao lado do Humphrey Bogart no pequeno barco, eles pareciam tão incrivelmente opostos um ao outro no meio daquela África selvagem, que todos nos rimos com vontade. Compreendi então que o filme deveria ser uma comédia, razão porque comecei desde logo a alterar o argumento e os diálogos.” Por isso mesmo, embora não abdicasse da rodagem em África, o continente nunca ganharia a dimensão de personagem ativo no filme, razão porque as arrelias dos protagonistas com os mosquitos ou com as lesmas, revelam-se maiores do que com os macacos ou os crocodilos.
A aventura dessas filmagens converter-se-ia num tal mito que, em 1980, Clint Eastwood tratá-la-ia no seu «Caçador Branco, Coração Negro».
Embora reorientando o projeto em termos de comédia, Huston estava disposto a transformá-lo num elogio ao amor com a ajuda da banda sonora, que ajudasse a caracterizar a evolução da história para o pretendido desenlace. E o palco da ação restringe-se quase sempre ao «African Queen», o barco com que Charlie Allnutt percorre as várias aldeias do rio para entregar o correio ou fazer negócio.
É numa dessas aldeias, que trava conhecimento com dois missionários ingleses: Samuel Sawyer e a sua irmã Rose. São eles os primeiros a suscitar um sorriso irónico no espectador quando, logo na primeira cena, os vemos a ensinar cânticos religiosos aos negros que, com rostos inexpressivos, os traduzem nas suas melopeias africanas.
Mas a sensação de estranheza entre os personagens também se repete, quando Samuel convida Charlie para um chá e surge a contradição entre os gestos sofisticados dos ingleses e os ruídos de deglutição sonoros do canadiano. Mas fica aí bem definida a época e as circunstâncias em que a ação irá decorrer: estamos no início da Primeira Guerra Mundial e os alemães já andam pelas redondezas, razão para que o «African Queen» fique prometido a águas menos turbulentas nas semanas seguintes.
Mas Charlie não tarda a regressar, quando fica a saber da destruição e incêndio da aldeia e a morte de quase todos os seus habitantes, incluindo Samuel, que não resiste a uma insolação.
Rose vê-se obrigada a acompanhar Charlie e a crispação entre ambos é quase visceral: ela, enquanto velha solteirona particularmente afeiçoada ao Império Britânico, não suporta aquele parceiro de viagem rude e exagerado apreciador de gin. Mas, quando descobre explosivos na carga do barco, entusiasma-se: porque não procurarem a canhoneira alemã «Louise», que patrulha todo o lago, e é um objetivo militar à medida dos seus anseios de vingança?
A contragosto Charlie embarca naquele plano e quase vê tudo perdido. Mas a chuva providencial e a corrente que ela provoca consegue criar o caldo favorável de circunstâncias para que sejam bem sucedidos. Nessa altura já os perigos, as dificuldades e as zangas tinham dissipado as divergências entre Rose e Charles (que até passou a cuidar da sua higiene!).
O final feliz mostra ambos a contas com a surpresa da descoberta do Amor já dobrado o cabo dos quarenta anos! 

quarta-feira, julho 16, 2014

FILME: «A Criança Terrível» de Connie Walther (2012)

Realizado para televisão, «Zappelphilipp» tem por tema o esforço de uma professora para, contra ventos e marés, conseguir educar o turbulento Fabian. Temos, pois, como tema a questão do papel da escola e da sociedade para gerir as crianças com perturbações.
Aos 9 anos Fabian Haas vive num tal descontrole nervoso que depressa começa a causar problemas na sala de aulas da recém-chegada professora Hannah Winter.
Logo no primeiro dia o temperamento turbulento e colérico do rapaz perturba a rotina dessa turma anódina.
Com a passagem dos dias ele torna-se cada vez mais incontrolável causando a exasperação de todos os professores e de alguns encarregados de educação. Para eles Fabian é um caso sem solução.
Hannah, porém, não desiste: procurando a empatia com o rapaz vai aplicar nele alguns métodos educativos pouco convencionais de forma a integrá-lo no conjunto da turma.
A opção da realizadora é por um estilo próximo do documentário que coloca a pergunta: o que acontecerá no futuro a uma criança indomável numa sociedade intolerante para com qualquer desvio comportamental ao que institui como padrão? 

sábado, julho 12, 2014

CIÊNCIA: Terras raras, a alta tecnologia a que preço?

As terras raras são indispensáveis para as empresas de tecnologia avançada, mas a sua extração continua a ser cara e poluente.
Smartphones, turbinas eólicas, veículos híbridos ou elétricos - todas as tecnologias à nossa volta recorrem a essas terras raras.
Durante séculos o neodímio, o ítrio, o disprósio ou o lantânio pareciam não ter qualquer valor: ignoramos quase tudo quanto às suas propriedades e mesmo quanto à sua existência.
Hoje este grupo de metais difíceis de detetar constitui uma matéria-prima mais preciosa que o petróleo e representa um mercado muito suculento.
Mas os processos de separação para obter metais de maior pureza continuam a consumir muita energia e extremamente poluentes. - e em certos casos até criam dejetos radioativos.
Ainda assim ninguém coloca a questão de criar limitações: os investigadores andam, pois, a procurar processos de extração mais ecológicos ou processos de reciclagem das terras raras contidas no lixo industrial.

sexta-feira, julho 11, 2014

HISTÓRIA DA 1ª GRANDE GUERRA: o inimigo hereditário

A rivalidade entre povos cujas fronteiras se tocam é inevitável e só a criação de realidades como a do espaço Schengen permitirá ir diluindo a atávica desconfiança entre vizinhos. Por exemplo na escola primária, quando o fascismo ainda parecia de pedra e cal, os professores alimentavam um ódio ao espanhol, que tinha a ver com o período de ocupação filipina. Nessa época acreditávamos seriamente no ditado segundo o qual de Espanha nem viriam bons ventos nem bons casamentos.
No início do século XX o antagonismo franco-alemão fundamentava-se na ideia de vingança e de regresso à mãe pátria das províncias perdidas a leste (Alsácia e Lorena). Os franceses também temiam os efeitos da impressionante explosão demográfica alemã ao contrário do que sucedia com a curva demográfica gaulesa.
Em Paris sentia-se avolumar a sombra do inimigo hereditário, pois a França  só dispunha de 74 divisões militares contra as 94 alemãs: por esse andar o que aconteceria daí a vinte anos?
Havia algum consolo na ideia de que a aliança com a Rússia czarista era sólida e beneficiava da reestruturação do respetivo exército após a guerra da Manchúria.
A Inglaterra também estava alinhada com a França ou, pelo menos, assim prometia.
A rivalidade franco-alemã verificava-se em vários tabuleiros: na expansão colonial, na exportação de produtos e na conquista de mercados financeiros. Já há vários anos que as empresas alemãs tinham ganho influência dentro do próprio território francês.
A Rússia ainda estava nos primórdios da sua industrialização, impulsionada pelo ministro de Witte, e via com inquietação a arrogância dos defensores da «teoria do «espaço vital» e da forte concorrência económica da Alemanha.
Face à coligação da França com a Rússia e com a Inglaterra, a Alemanha assina acordos de cooperação com o Império Austro-Húngaro e com a Turquia.
Para o Império sedeado em Viena o inimigo fidalgal era o conjunto dos povos eslavos, fossem eles sérvios ou russos. Por seu lado a Turquia tinha bem presente as pretensões russas para contar com o acesso ao Mediterrâneo, que, ainda há pouco, justificou a anexação da Crimeia. Vendo os antigos aliados ingleses coligarem-se à Rússia, os turcos viraram-se para Guilherme II da Alemanha para romper o isolamento político em que se viam.
A Alemanha, que não possuía colónias, apostou numa eficiente campanha de propaganda em que se apresentava como protetora das nações ultramarinas e garante da sua independência. Em pouco tempo passou a dispor das simpatias dos povos colonizados de toda a bacia do Mediterrâneo, desde o Cáucaso a Marraquexe.
Ao declararem a guerra os povos e os governos da Europa podiam alegar todas as justificações possíveis, ora dando-se como vítimas dispostas a proteger as suas fronteiras, ora como defensoras da honra e dos seus direitos.
Por essa altura só a Itália era tentada pela neutralidade, muito embora os nacionalistas (que execravam o antigo ocupante austro-húngaro) e os socialistas (pela sua estratégia revolucionária) pressionassem no sentido da participação mediante ao recurso a uma imprensa complacente para com os seus argumentos de acesso às matérias-primas das colónias para quem estivesse com os vencedores no fim do conflito. 

quinta-feira, julho 10, 2014

MÚSICA: Kodo, os Tambores do Diabo

Em japonês Kodo significa batimento do coração. Aquele que a criança ouve no ventre da mãe. Mas também significa batimento do tambor.
Sadogashima, ou ilha de Sado, é conhecida por ter funcionado durante séculos como lugar de exílio de samurais ou de homens letrados, que não estavam nas boas graças de quem detinha o poder.
Foi aí que, em 1970, um casal de intelectuais fartos da decadente Tóquio, se fixaram para criar uma escola apostada em revigorar as tradições nipónicas. Foi dela que se veio a assegurar o ressurgimento da arte do Kodo.
Todos os anos, quando acaba o Inverno, uma dezena de rapazes e de raparigas são admitidos como aprendizes nessa academia, que possui uma disciplina algo militar ou monacal. Tão só aí instalados os recém-chegados iniciam a exigente formação, que inclui uma corrida diária de dez quilómetros pelas veredas da montanha ainda cobertas de neve e a instrução facultada pelos colegas do 2º ano.
Esses aprendizes vêm de todo o Japão e sujeitam-se a regras espartanas, quer tragam já conhecimentos da arte, quer se disponham a praticá-la pela primeira vez.
A formação tem muito de exercícios físicos e de dança e baseia-se na imitação do que fazem os mais velhos, já que o Kodo é, sobretudo, uma  cultura, uma filosofia. Por isso mesmo o quotidiano dos aprendizes também inclui as tarefas da cozinha, da limpeza das instalações e até do fabrico dos paus com que farão os exercícios de percussão.
Há igualmente a ligação aos aldeãos da região: maioritariamente idosos, eles constituem um notável repositório de ideias, que serão utilizadas no reportório. Tanto mais que, para esses anciãos, esses jovens acabam por ser aceites como se fossem os próprios netos.
Ligada à escola funciona a Companhia, que anda em quase permanentes tournées um pouco por todo o mundo. Shogo Yoshii, que a integra, considera que o objetivo não é só interpretar música, mas transmitir energia, estabelecer laços entre os que a ouvem e ficam sugestionados pelas vibrações libertadas pelos tambores.
Há quem considere o som dos tambores de Kodo como paliativos eficazes contra as depressões por gerarem uma certa alegria em viver.
Há muitos anos que Tamasaburo Bando, lenda viva do teatro kabuki, assegura a direção artística da companhia depois de com ela já ter trabalhado anteriormente. Com o profundo conhecimento da estrutura daquelas peças, que costumam durar várias horas, ele procurou adotá-las à curta duração de cada tema de kodo.
Mas a maneira de interpretar cada composição depende muito da personalidade de cada instrumentista: há os que são mais subtis e delicados, mas também se encontram os que denunciam alguma rudeza.
(texto baseado no documentário de Don Kent e Christian Dumais Lvowski «Kodo - Os Tambores do Diabo», de 2012) 

terça-feira, julho 08, 2014

IDEIAS: Montesquieu e a questão sobre qual o melhor governo

Em 1748 Montesquieu publica um dos seus mais importantes ensaios - «Do Espírito das Leis» - em que se questiona sobre qual será a melhor forma de governar. Vai então distinguir a República da Monarquia e do Despotismo e compará-los como se fossem mecanismos dotados de uma estrutura posta em movimento por uma mola, um motor, uma ideia.
Na República é o povo, ou parte dele, quem exerce o poder, pelo que só se concretiza se existir virtude política.
Na Monarquia um homem reina apoiado em leis físicas e estabelecidas, que têm por alicerce o argumento da honra.
No Despotismo o tirano governa acima de qualquer lei, impondo o medo como forma de se afirmar.
Virtude, honra e medo - eis, pois, as emoções diferenciadoras das várias formas de governo. Em qualquer destas últimas, se a respetiva emoção perder substância, o governo corrompe-se e desaparece.
O relativismo político de Montesquieu irá, porém, complicar-se com a sua associação a um determinismo, que impossibilita a resposta à sua questão inicial.
Porque, nesse século XVIII ganham importância as teorias do filósofo árabe Ibn Khaldoun, segundo o qual existiria uma relação concreta entre o tipo de governo e o clima em que ele é exercido. Torna-se muito popular a tese da queda do Império Romano como consequência das transformações climáticas então ocorridas. As ruínas, a humidade e as epidemias causadas pela degradação do sistema de esgotos teriam corrompido irreversivelmente a atmosfera da antiga capital imperial.
Montesquieu acaba por ser sugestionado por tais teses especulativas, mas de aparência científica: no Livro XIV de «Do Espírito das Leis» usa como exemplo as fibras constitutivas da língua de carneiro, que contrair-se-iam com o frio e se dilatariam com o calor. O que levou o filósofo francês a chegar a uma conclusão absurda ainda hoje muito em voga como se depreendeu recentemente com as contradições dos países do norte com os mediterrânicos na União Europeia: devido ao frio os nórdicos ostentavam energia e coragem, enquanto no sul a distensão das células nervosas tenderia a fomentar comportamentos de preguiça e de cobardia.
Ao determinismo climático Montesquieu acrescenta a influência da extensão do território: assim, uma república faria sentido num espaço restrito onde todos se pudessem conhecer e avaliar, garantindo-se assim a prática quotidiana da frágil virtude.
Para espaços mais vastos justificar-se-ia o regime despótico, porque o medo constituiria aí o mais eficaz instrumento do governo.
Quanto a territórios intermédios e de clima temperado, Montesquieu considerava ideal o regime monárquico.
Mesmo que hoje estas teses nos pareçam absurdas, devemos reconhecer a existência aqui de uma tentativa de teorizar cientificamente os critérios objetivos de uma filosofia política. Para Montesquieu o melhor governo era um conceito relativo, porque menosprezava a História em proveito da Geografia.


LIVRO: «S’Abandonner à Vivre» de Sylvain Tesson

Sylvain Tesson sempre procurou ultrapassar o óbice de ser conhecido enquanto filho de um dos principais jornalistas franceses. Por isso dispôs-se a percorrer o mundo e a dele trazer as impressões sob a forma de livros, que alimentam o interesse dos que tanto apreciam a literatura de viagens.
Geógrafo de formação, caminheiro por paixão e alpinista quase irracional, tem percorrido os sítios mais inóspitos do planeta, descrevendo-os sob a forma de diários de bordo e de contos.
No seu primeiro sucesso literário, «L’Axe du Loup», relatava a sua viagem entre a Sibéria e a Índia na peugada de uns quantos foragidos de um goulag.
Em 2010 isolou-se nas margens do Lago Baikal e trouxe na bagagem «Dans les Forêts de Sibérie».
O seu livro mais recente, «S’Abandonner à Vivre», confirma a determinação em prosseguir viagem pela Rússia e encontrar-se com quem aí se vai cruzando. Trata-se de um conjunto de contos sobre personagens resignados e indiferentes à crueldade da vida para que se sentem arrastados, quase alcançando uma certa serenidade na aceitação da existência tal qual ela se lhes apresenta.
Tesson rejeita que a sua mensagem seja a de adotar esse estado de alma a um universo social no seu todo  - o que seria profundamente reacionário! - mas coloca-o no plano individual como forma de resposta a contrariedades que excedem a capacidade do sujeito em ultrapassá-las.
Quando parte a pé, montado num burro ou numa bicicleta para percorrer o mundo e buscar vivências em lugares improváveis, ele tenta encontrar motivos de encantamento, de ponderação filosófica ou de mero absurdo. A aventura alterna com o humor, as reflexões com as interrogações.
Mas «S’ Abandonner à Vivre» diverge dos seus livros anteriores, porque em vez de fazer do mundo o seu personagem, dá maior atenção à forma como os outros vivem.
Os personagens são marinheiros, amantes, guerreiros, artistas, loucos ou viajantes (ou um pouco de tudo isso). De Riga a Zermatt passando pelo Afeganistão, o Iacutia  ou o Sahara, as suas vidas estão ameaçadas: e, no entanto, têm de encontrar forma de sobreviver. Nem que seja através da recusa de um confronto direto com a existência!
Esses personagens são como que filhos improváveis de Beckett ou de Dostoievski, dotados de uma espécie de energia, que se equilibra entre o absurdo da sua condição e a tentação da dsmesura.
Anteriormente Sylvain Tesson vivera aventura bem diferente e mais ambiciosa: durante seis meses, entre fevereiro e julho de 2010, exilara-se num lugar isolado nas margens do lago Baikal para testemunhar a imobilidade e o silêncio. A 120 quilómetros da aldeia mais próxima só tivera como companheiros os livros e dois cães. Pudera assim dedicar-se à observação da natureza no seu estado mais puro e da beleza dos reflexos de luz nos gelos. Aprendera dessa forma as virtudes da meditação e a humildade da espera, o deslumbramento com as ninharias quotidianas.
Essa viagem interior convenceu-o da vacuidade de uma contemporaneidade barulhenta e agitada. Nesse austero eremitério confessou ter alcançado uma plenitude de que nunca suspeitara. “Dois cães, uma lareira, uma janela aberta para o lago bastam para me sentir vivo” e acrescentava: “E se a verdadeira liberdade consistisse em possuir o tempo? E se a chave da felicidade fosse a de dispor de solidão, espaço e silêncio?”
Em «S’ Abandonner à Vivre» partiu dos outros para evocar os riscos deste mundo, os desesperos do abismo ou as desilusões da condição humana.
Depois de «Dans les Forêts de Sibérie», o diário desse tempo de  solidão, partiu para a vida dos que vivem impossibilitados da plenitude que conhecera.
Enquanto eremita, denotava a vibração do tempo tão parado quanto o reflexo de um cedro no gelo. Com «S’Abandonner à Vivre» a existência é obrigada a submeter-se ao que é mesquinho. Como se a conquista absoluta do mundo não pudesse senão ser um eterno retorno a si mesmo enquanto o mergulho no mundo dos outros acaba por se traduzir numa forma de prisão...