domingo, junho 22, 2025

"A Pedra Sonha dar Flor" de Rodrigo Areias: Quando a Esperança se Ausenta da Tela

 

Estamos habituados a sentir um leque imenso de emoções na sala escura. Choramos, rimos, vibramos com os heróis e torcemos pelos finais felizes. Mas, e quando um filme nos recusa tudo isso? E se, em vez de esperança, nos oferece uma jornada pela mais profunda escuridão, sem promessa de luz ao fundo do túnel? É precisamente essa a proposta de "A Pedra Sonha dar Flor”, e é nessa ausência que reside a sua intrigante força.

Inspirado no universo soturno de Raul Brandão, Areias leva-nos à Vila Húmus, um lugar que exala decadência e desolação. Ali, acompanhamos o escritor K. Maurício, aprisionado nas teias da sua própria ficção, e Pita, uma figura que se deleita em orquestrar a miséria alheia. Crimes, alucinações e uma atmosfera gótica avassaladora pintam um quadro onde a redenção parece uma piada cruel. É um filme "sem esperança", mas essa característica, que à primeira vista poderia afastar, é o que o torna tão singular e poderoso.

A magia de "A Pedra Sonha dar Flor" reside na capacidade de gerar um efeito ambivalente em quem o vê. Ao recusar os caminhos fáceis do conforto e do otimismo, o filme empurra-nos para um desconforto visceral. E é nesse desconforto que se esconde uma oportunidade rara de reflexão. Somos obrigados a confrontar temas universais como a dor, a crueldade e o sentido – ou a falta dele – a existência. O filme não dá respostas, mas lança-nos perguntas que, por vezes, preferimos não fazer.

Para alguns, essa imersão na escuridão pode ser até catártica. É como se, ao testemunhar a angústia e o desespero dos personagens, pudéssemos libertar as próprias tensões ou processar emoções complexas de forma segura. A beleza aqui não está na alegria, mas na honestidade brutal da representação, que ecoa na nossa própria humanidade.

E há uma ironia fascinante na experiência de ver um filme tão desprovido de esperança: ela pode levar-nos a valorizar a nossa própria realidade. Depois de mergulhar num universo onde a luz é uma miragem, os pequenos vislumbres de alegria, as relações significativas e as possibilidades de um futuro melhor ganham um brilho renovado. "A Pedra Sonha dar Flor" não oferece esperança diretamente, mas, por contraste, pode fazer-nos reconhecer e apreciar ainda mais a que já possuímos.

Rodrigo Areias entrega-nos uma obra que desafia as convenções, exigindo mais do que a mera passividade do espectador. É um filme que, ao recusar-se a ser um bálsamo, convida-nos a uma profunda introspeção sobre o lado sombrio da vida, mostrando que mesmo na ausência da esperança, pode haver uma beleza crua e uma poderosa provocação artística. 

sábado, junho 21, 2025

"O Tigre e o Dragão": Para Lá das Artes Marciais

 

"O Tigre e o Dragão" (2000), de Ang Lee, transcende o género das artes marciais para oferecer uma experiência cinematográfica rica em significado cultural e impacto emocional. Mesmo para quem não é um entusiasta das lutas coreografadas, o filme revela-se uma produção curiosa pela beleza visual, profundidade temática e a forma como explora a condição humana.

A história, ambientada na China do século XIX, centra-se na lendária espada "Espada do Destino", na posse do mestre espadachim Li Mu Bai e da sua amiga e confidente, a guerreira Yu Shu Lien. O roubo da espada por Jen Yu, uma jovem nobre com talentos marciais ocultos, desencadeia uma jornada de perseguição e descoberta. Contudo, a trama vai muito além da simples busca por um objeto perdido. É uma exploração de temas universais como o amor proibido, a honra, o dever, a liberdade e a repressão.

Para o espectador que não domina a cultura chinesa, o filme funciona como uma janela. As coreografias de luta, desafiadoras da gravidade, são mais do que sequências de ação; são uma expressão artística da tradição wuxia. Cada movimento, cada voo gracioso, é um espetáculo de equilíbrio e disciplina que reflete a destreza física e a ligação com a natureza e a filosofia oriental. As artes marciais elevam-se a uma forma de dança acrobática.

Além disso, "O Tigre e o Dragão" reflete a luta dos indivíduos contra sistemas opressores. Jen Yu, aprisionada pelas expectativas sociais e pela condição feminina na época, anseia por liberdade e um propósito que vá além do casamento arranjado. A rebeldia e busca por autonomia ecoam nas batalhas dos explorados contra exploradores e dos humilhados contra assediadores, temas universais e atemporais. A sua jornada é um grito pela libertação pessoal, uma busca por um lugar no mundo onde possa ser verdadeiramente ela mesma, sem as amarras da tradição ou da sociedade.

A relevância do filme na altura em que foi feito, em 2000, foi considerável. "O Tigre e o Dragão" conquistou quatro Óscares (incluindo Melhor Filme Estrangeiro) e abriu as portas do cinema ocidental para o género wuxia, mostrando que os filmes de artes marciais poderiam também ser obras com profundidade emocional e cultural. Ang Lee conseguiu criar uma ponte entre culturas, apresentando ao mundo uma história intrinsecamente chinesa, mas cujos sentimentos e conflitos são facilmente reconhecíveis por qualquer pessoa, em qualquer canto do planeta. O filme demonstrou a capacidade do cinema em transcender barreiras linguísticas e culturais, atraindo pelas suas narrativas impactantes e beleza estética. 

sexta-feira, junho 20, 2025

"Oppenheimer" de Christopher Nolan: Um Retrato Íntimo

 

É compreensível o fascínio por J. Robert Oppenheimer, uma figura tão complexa e contraditória da História. O seu percurso, desde a liderança do Projeto Manhattan até à posterior perseguição política, é um testemunho do peso da consciência e dos perigos da histeria ideológica.

De início era mitigado o meu interesse pelo filme, partindo do pressuposto de já tudo saber sobre o aí abordado, mas o filme consegue ir além da mera biografia.

"Oppenheimer" não é apenas uma reconstituição factual da vida do físico, mas uma imersão profunda na sua psique e nas forças políticas que o moldaram e, eventualmente, o esmagaram. Nolan opta por uma estrutura narrativa não linear, alternando entre três linhas temporais: os anos que antecederam a criação da bomba atómica, o período do Projeto Manhattan e, crucialmente, os interrogatórios a que Oppenheimer foi submetido no pós-guerra. Esta abordagem permite ao espectador não só seguir os eventos, mas também sentir o peso crescente das decisões e as ramificações morais.

Aborda-se a dualidade inerente à figura de Oppenheimer: o génio científico que alcançou o impensável, e o homem atormentado pela responsabilidade das suas criações. Ele explora a contradição entre a ambição científica e a ética moral: o fascínio pela descoberta e o imperativo de desenvolver a bomba antes dos nazis colidem com a crescente perceção das consequências catastróficas. Nolan não suaviza o impacto das bombas, mas foca-se na tortura interna de Oppenheimer face ao poder que ele ajudou a libertar.

Há também o contraponto entre as ligações com as forças politicas de esquerda e a caça às bruxas.  A simpatia de Oppenheimer por comunistas confessos, longe de ser um segredo, tornou-se a arma perfeita para os seus detratores durante a era McCarthy. O filme expõe a crueldade e a injustiça da "caça às bruxas" e como a histeria anticomunista corroeu a liberdade individual e a verdade.

Há também o lado mais grotesco, o da mesquinhez politica, senão mesmo da mera inveja. Um dos pontos fulcrais do filme é o papel de Lewis Strauss, o político que orquestrou a queda de Oppenheimer. Nolan retrata Strauss não como um vilão unidimensional, mas como um homem impulsionado pela inveja, pela mágoa e por um profundo ressentimento em relação ao intelecto e carisma de Oppenheimer. É neste duelo entre um intelectual e um político, que a relevância do filme se aprofunda.

Nolan constrói uma narrativa ao mesmo tempo íntima e épica. Cillian Murphy é excelente enquanto Oppenheimer, capturando-lhe a inteligência, o conflito interno e a crescente fragilidade. O elenco de apoio, incluindo Robert Downey Jr. na pele de Lewis Strauss, é igualmente brilhante.

A favor do filme também a intensidade das sequências que retratam o teste Trinity, comunicando o poder aterrorizante da bomba sem a necessidade de mostrar explicitamente as suas vítimas. O design de som e a banda sonora contribuem para a atmosfera de tensão e presságio.

Por outro lado a alternância entre o preto e branco (a perspetiva de Strauss) e a cor (a perspetiva de Oppenheimer) é um artifício inteligente que não só diferencia as linhas temporais, mas também sugere a objetividade e a subjetividade das memórias e acusações.

A relevância de "Oppenheimer" no cenário político atual, nomeadamente num país "atrumpizado", é inegável pelo impacto num tempo em que a ciência é frequentemente atacada e descredibilizada para fins políticos. A perseguição a Oppenheimer revela como o conhecimento pode ser politizado e a verdade distorcída por interesses partidários.

A era McCarthy, retratada no filme, oferece paralelos perturbadores com a atualidade, onde a polarização política pode levar à demonização de oponentes e à supressão do debate racional. A forma como as "ideias de esquerda" de Oppenheimer foram instrumentalizadas para o derrubar ecoa a forma como determinadas narrativas são construídas e usadas para atacar figuras públicas hoje em dia.

No contexto atual, com a ascensão de novas tecnologias e os desafios globais, a reflexão sobre o impacto das inovações e a necessidade de uma consciência ética é mais premente do que nunca. Sobretudo porque a reputação de um homem pode ser sistematicamente destruída por interesses escusos. Num mundo onde as fake news e as campanhas de difamação propagam-se rapidamente, a história de Oppenheimer destaca a vulnerabilidade dos indivíduos face ao poder manipulador.

"Oppenheimer" não é pois um filme sobre o passado; é um espelho que reflete as tensões e os perigos do presente, convidando-nos a refletir sobre o poder, a ciência, a ética e a fragilidade da verdade num mundo cada vez mais complexo. 

A Ambivalência de Aranjuez

 

O Concierto de Aranjuez de Joaquín Rodrigo é obra relevante do repertório clássico. A melodia inconfundível e evocativa, especialmente no Adagio, transporta imediatamente o ouvinte para paisagens sonoras de Espanha. No entanto, para além da beleza irrefutável, a obra tem um contraponto complexo: a colaboração de Rodrigo com o regime franquista, uma realidade que ensombra a sua criação.

O Concierto de Aranjuez foi composto em Paris, em 1939, quando a Guerra Civil tinha terminado, e a Segunda Guerra Mundial estava prestes a eclodir. Rodrigo, que era cego desde os três anos, vivia um período de instabilidade, mas encontrou na música um refúgio. A inspiração para a obra veio das memórias dos jardins do Palácio Real de Aranjuez, um local de grande beleza e tranquilidade perto de Madrid. O compositor não pretendia criar uma peça descritiva, mas evocar a "fragrância de magnólias, o canto dos pássaros e o borbulhar das fontes" que associava a Aranjuez. A ideia de um concerto para guitarra e orquestra era, à época, inovadora, elevando a guitarra de instrumento solista folclórico a papel de destaque no universo concertístico.

As três partes do concerto revelam diferentes facetas dessa evocação: no “Allegro con spirito” capta a atmosfera luminosa e alegre dos jardins, com passagens rápidas e um diálogo animado entre a guitarra e a orquestra, reminiscentes da vivacidade da cultura espanhola. No “Adagio”, a parte mais conhecida, há um lamento, talvez pela Espanha ferida pela guerra, ou pela dor pessoal que Rodrigo sentiu com a perda de um filho recém-nascido e a grave doença da esposa Victoria em 1939. A melodia principal, inicialmente apresentada pelo corne inglês, é depois expandida pela guitarra, cria um momento de introspeção e beleza.

Enfim, no “Allegro gentile” há um retorno à luz e à dança graças ao carácter folclórico a celebrar a vida e a tradição espanhola, com um ritmo contagiante a encerrar a obra num tom de otimismo e vitalidade.

A popularidade do Concierto de Aranjuez não passou despercebida ao regime. Franco, ansioso por legitimar o seu governo e apresentar uma imagem de uma Espanha forte e culturalmente rica ao mundo, rapidamente adotou o concerto como um símbolo da "nova Espanha".

A música de Rodrigo, nas raízes profundamente espanholas e no apelo universal, foi usada como ferramenta de propaganda. O regime promoveu ativamente a obra em eventos internacionais e nas estações de rádio controladas pelo Estado, utilizando-a para projetar uma imagem de normalidade, estabilidade e grandeza cultural, desviando a atenção das atrocidades cometidas durante a guerra civil e a repressão pós-guerra. A filiação de Rodrigo ao regime, embora nunca abertamente política nas composições, facilitou essa apropriação. Ele foi agraciado com títulos e honrarias, como o Marquês dos Jardins de Aranjuez, o que cimentou a associação com o poder.

A complexidade reside em separar a obra do criador e do contexto em que foi utilizada. O Concierto de Aranjuez é, em si mesmo, uma peça de arte capaz de tocar as emoções humanas mais profundas, independentemente das intenções políticas daqueles que a usaram. No entanto, o legado é inseparável da sua história. A utilização pelo franquismo serve como um poderoso lembrete de como a arte pode ser instrumentalizada para fins políticos, e como a beleza pode, paradoxalmente, coexistir com realidades sombrias.

A apreciação do Concierto de Aranjuez, com o conhecimento das suas origens e a sua apropriação, convida a uma reflexão mais profunda sobre a relação entre arte, poder e história, enriquecendo a compreensão desta obra intemporal.

quinta-feira, junho 19, 2025

O Eco Silenciado da Guerra nas Vozes Femininas

 

É um paradoxo cruel: a guerra, na sua brutalidade avassaladora, molda e desfigura a vida de todos, mas a narrativa que dela emerge raramente ecoa a totalidade das experiências. Por gerações, os relatos de batalhas, estratégias e heroísmos foram, quase sempre, contados por homens e sobre homens. O que fica de fora? A vastidão da perspetiva feminina silenciada ou relegada a um papel secundário.

No entanto, a ausência dessas vozes nos ensaios históricos não significa que as mulheres estivessem ausentes da guerra. Muito pelo contrário. Seja empunhando armas na frente de batalha, cuidando dos feridos, mantendo a vida nas cidades devastadas, ou suportando a angústia da espera por um filho, marido ou pai que talvez nunca mais voltassem, as mulheres viveram a guerra com uma intensidade que poucas narrativas oficiais conseguem capturar. São mães que veem os filhos partirem para o desconhecido, esposas que enfrentam a solidão e a incerteza, filhas que crescem sob a sombra do conflito, e, muitas vezes, militares que desafiam as expectativas de género para lutar lado a lado com os homens.

É precisamente essa lacuna a preenchida por Svetlana Alexeievna com "A Guerra Não Tem Rosto de Mulher". Ao dar voz a centenas de mulheres soviéticas que participaram na Segunda Guerra Mundial – como combatentes, médicas, enfermeiras, sabotadoras, entre outras funções – Alexeievna não apenas reescreve a história da guerra, mas humaniza-a profunda e dolorosamente. Ela revela não o que a guerra é em termos de táticas ou vitórias, mas o que faz com a condição humana, especialmente a feminina, na sua resiliência, sofrimento e sacrifício.

Através desses testemunhos, percebemos que o "rosto" da guerra não é singular, nem estritamente masculino. Carrega as marcas do medo, da perda, da coragem e da esperança, inscritas nas faces de milhões de mulheres que, por demasiado tempo, viram as suas histórias silenciadas. Dar-lhes o devido lugar na memória coletiva não é apenas uma questão de justiça histórica; é uma necessidade para compreender a verdadeira e multifacetada natureza da guerra.

A Condição Feminina: O Marrocos como o "País dos Homens"

 

Continuando a abordagem por "O País dos Outros" de Leïla Slimani, depois de referirmos a experiência dos colonos e dos camponeses, chegamos ao tema das mulheres. É como se, para elas, o Marrocos fosse, muitas vezes, o "país dos homens".

Mathilde veio de França com aspirações de liberdade, mas na fazenda de Amine, a sua autonomia está sempre posta em causa. Os seus desejos, voz, ambições, tudo parece ter de se encaixar nas regras e na autoridade masculina. A casa, o trabalho e até as conversas são filtradas por uma estrutura onde o poder é, em grande parte, deles. Ela anseia por voar mais alto, por ser reconhecida por quem é, e não apenas pelo seu papel de esposa ou mãe.

Mas Slimani não se limita à Mathilde. Ela dá-nos um olhar sobre as vidas das mulheres marroquinas à volta dela. Nascidas e criadas naquele "país", elas também lidam com restrições e subordinações. As diferenças entre o que é permitido às mulheres e aos homens criam uma espécie de linha invisível. O mundo público, as decisões importantes, tudo parece pertencer ao "país dos homens", e as mulheres têm de navegar por estes limites, umas com resignação, outras com uma inteligência notável, e outras, como a Mathilde, com uma chama de rebelião que arde por dentro.

"O País dos Outros" mostra-nos, assim, que a sensação de ser um forasteiro pode ser sentida em tantos níveis: entre nações, entre classes sociais, e de forma pungente, entre géneros, num país que está a passar por uma mudança brutal.

quarta-feira, junho 18, 2025

Alfred Brendel: Um Legado ao Piano

 

Alfred Brendel, cuja morte hoje se conheceu, foi um intelectual do teclado, um artista cuja profundidade e rigor interpretativo marcaram gerações. Nascido em Morávia em 1931, a sua formação foi, em grande parte, autodidata. Essa particularidade permitiu-lhe desenvolver uma abordagem única, livre de muitas das convenções académicas, focada numa exploração meticulosa da partitura e numa busca incessante pela essência da música.

A sua carreira, que se estendeu por seis décadas, foi pautada por uma dedicação quase monástica aos grandes mestres do repertório clássico-romântico. Brendel é especialmente conhecido pelas suas interpretações de Beethoven, Schubert, Mozart e Haydn. Não se tratava de virtuosismo pelo virtuosismo, mas sim de uma clareza cristalina, uma arquitetura sonora impecável e uma capacidade ímpar de revelar as nuances e a lógica interna de cada composição. As suas interpretações eram sempre o resultado de um estudo profundo, de uma reflexão que ia além das notas, procurando compreender a intenção do compositor.

Um dos aspetos mais marcantes da sua arte era a precisão e a objetividade. Longe de sentimentalismos excessivos, Brendel privilegiava a estrutura, o fraseado límpido e a articulação perfeita. Contudo, essa aparente sobriedade nunca sacrificou a expressividade; pelo contrário, permitia que a emoção emergisse de forma mais pura e contundente, através da inteligência e da lógica musical. Ele tinha uma rara capacidade de fazer a música "falar" por si mesma, sem artifícios desnecessários.

Além da sua discografia, Brendel foi também um ensaísta e conferencista prolífico. Os seus escritos, como "Musical Thoughts and Afterthoughts" ou "Music, Sense and Nonsense", revelam um pensador agudo, com ideias incisivas sobre interpretação, a história da música e o papel do artista. Essa faceta literária complementava a arte pianística, evidenciando uma mente brilhante que abordava a música de forma holística.

A digressão de despedida, que lamentavelmente não conseguiu presenciar em Lisboa, marcou o fim de uma era. Brendel retirou-se dos palcos em 2008, mas o seu legado perdura através das gravações e da influência que exerceu sobre inúmeros pianistas e amantes da música. Ele ensinou-nos que a arte não é apenas técnica, mas também intelecto, disciplina e, acima de tudo, uma profunda honestidade para com a partitura e o espírito do compositor.

É compreensível que sinta a falta de não o ter ouvido ao vivo. A experiência de um concerto de Alfred Brendel era, certamente, uma aula magna de música, uma oportunidade rara de presenciar a comunhão perfeita entre o intérprete, o instrumento e a obra. A sua importância enquanto pianista reside precisamente nessa capacidade de elevar a interpretação a um patamar de pura inteligência e beleza intemporal. 

domingo, junho 15, 2025

Na hora entre cão e lobo

 

É dia de lembrar o aniversário de Edvard Grieg, não apenas uma data no calendário musical, mas sobretudo pretexto para um dos momentos mágicos partilhados com a Elza neste meio século de cumplicidade amorosa.

Era a noite da nossa chegada a Bergen. No "Funchal", estava obrigado a sucessivas idas e vindas da casa das máquinas para garantir as manobras do navio nas zonas mais estreitas do fiorde. Entre uma e outra, regressava ao camarote, onde a Elza me esperava. Sentávamo-nos à secretária encostada às vigias, observando a margem desfilar naquela luz peculiar que os franceses tão bem descrevem como "entre cão e lobo" – um crepúsculo que nunca se transformava verdadeiramente em escuridão total.

A filha, com meia dúzia de anos, dormia profundamente na cama, alheia à beleza envolvente. Nós, de mãos dadas, falávamos baixinho, quase sussurrando, para não perturbar o sono da nossa menina. E, nesse silêncio cúmplice, pusemos o "Amanhecer" da suite "Peer Gynt" de Grieg. A melodia preencheu o pequeno espaço, misturando-se com a paisagem nórdica que se desenrolava lá fora.

Se a Ilsa Lund e o Rick Blaine teriam sempre Paris, nós teremos sempre os fiordes noruegueses e aquela melodia,  momento dos mais belos que vivemos.

Oxalá que lá nesse outro lado onde a Elza se ausenta, permaneçam esses momentos. Que a memória daquela noite  e a música de Grieg possam atenuar, mesmo que por instantes, os constrangimentos da terrível doença que ela não merecia sofrer. Que esses fragmentos de felicidade e amor continuem a brilhar, onde quer que esteja.

Entre a Partida e a Permanência

 

Impacto significativo o das páginas de "Educação da Tristeza" de Valter Hugo Mãe na sensibilidade com que o autor aborda a ausência: "As pessoas que perdemos somam. Somam à ausência mas são nosso património mais delicado, um reduto de fortuna e saudade que detemos mais dedicadamente do que ouro."

Esta passagem não poderia ser mais pertinente para o que sinto. A Elza, mesmo com a doença a afastá-la desta realidade, continua a somar. Permanece o património cúmplice, construído nas partilhas, risos e talvez algumas lágrimas, mas sempre com amor.

A grande verdade, e a esperança que o livro traz, reside na ideia de que a perda de alguém que se amou profundamente não é apenas sinónimo de tristeza. Valter Hugo Mãe sugere haver mais: não se trata de apagar a dor, mas de a moldar, de a fazer coexistir com a riqueza da recordação. A tristeza, "não desaparece, ela torna-se respeitosa com a necessidade de sobreviver, de continuar a lembrar, de continuar a amar".

É isso que anseio: que a memória da Elza, quando o momento chegar, seja preenchida pela alegria da recordação. Que as infinitas coisas boas que vivemos juntos se sobreponham ao vazio da ausência. Que a sua pessoa, cheia de vida e de tudo o que nela se me tornou tão especial, prevaleça.

"Educação da Tristeza" sugere que a memória é um lugar onde o amor não morre, apenas se transforma. É um convite a abraçar a plenitude do que foi vivido, permitindo que a alegria das lembranças mais queridas seja farol na escuridão do luto. Mesmo na tristeza, o livro funciona como guia a iluminar o caminho de celebração do amor que sempre nos unirá.

quinta-feira, junho 12, 2025

A paranoia segundo Simenon

 

"As Janelas Defronte" de Georges Simenon é uma obra característica do autor, embora não das mais impactantes. A capacidade de Simenon em criar atmosferas opressivas é notória, e a presente narrativa, embora de leitura fluida e acessível, carece da intensidade presente noutros títulos.

O cônsul turco Adil Bey imerge na paranoia da União Soviética no final da década de 1920. A desumanização do indivíduo num ambiente de vigilância constante é eficaz, com as "janelas defronte" a funcionarem como metáfora da ausência de privacidade e da opressão sistémica. A atmosfera sufocante de Batúmi, a desconfiança interpessoal e a solidão do protagonista são elementos bem delineados. Para leitores que apreciam estudos psicológicos em contextos de tensão, a obra cumpre a função.

Contudo, a experiência de leitura desta obra não atingiu o mesmo patamar de outras produções do autor. Títulos como "A Neve Estava Suja", por exemplo, provocaram uma ressonância mais profunda devido à sua crueza e exploração intransigente da degradação humana. A intensidade emocional e o confronto com dilemas morais, patentes nessa obra, não se replicam com a mesma força em "As Janelas Defronte", que tem menor imersão emocional.

Em suma, "As Janelas Defronte" constitui uma leitura recomendável para contactar a obra de Simenon, apreciando a construção de ambientes e perfis psicológicos. Não obstante, para quem conhece a profundidade e o impacto de outras criações do autor, esta é obra menos distintiva, na bibliografia do autor. 

quarta-feira, junho 11, 2025

"O País dos Outros" – Os Campos e os Citadinos

 

Em o "O País dos Outros" Leïla Slimani faz-nos sentir a complexidade de viver numa terra que não sentimos nossa. Foca-se na protagonista, Mathilde, claro, mas também na sensação dos colonos franceses perante um Marrocos à beira da independência, um Marrocos que, de repente, passa a ser "o país dos outros".

Slimani mostra que o sentimento de não-pertença vai muito além de quem vem de fora. Amine, o marido da Mathilde, valoriza sobretudo os campos: a terra é tudo – o sustento, a labuta diária, a identidade mais profunda.

Contudo, para os camponeses marroquinos, como o próprio Amine e sua família, há uma outra camada de estranheza. Eles vivem, a seu modo, no "país dos citadinos". Longe do ritmo e das oportunidades das grandes cidades como Rabat ou Casablanca, a vida no campo é dureza, é tradição forte e sacrifício constante. As conveniências e mentalidades urbanas são um mundo à parte, um "país" que lhes parece distante, quase inacessível.

Mathilde, embora francesa, sente essa dicotomia na pele quando se isola na fazenda, vivendo a rudeza do rural face ao urbano de onde veio.

Ficam expostas as fraturas internas de uma nação: a independência política, por si só, não apaga as disparidades sociais e culturais. A terra que para os colonos era poder e agora é perda, para os camponeses é uma luta diária, e para eles, paradoxalmente, um lugar onde as regras são ditadas por um "país" diferente, o dos citadinos.

sexta-feira, junho 06, 2025

Mosquito: Uma Odisseia na Grande Guerra

 

O meu avô João morreu demasiado cedo para que as suas muitas histórias sobre a Flandres em 1918 me pudessem ter aproveitado. Tinha eu então treze anos e só começava a achar aliciantes as histórias que ele parecia desejoso de me contar.

Já João Nuno Pinto teve mais sorte: ouviu o avô Zacarias, que vivera nessa altura no norte de Moçambique. Com base nessas histórias, João Nuno Pinto criou "Mosquito", transportando-nos para a Primeira Guerra Mundial numa vertente pouco explorada: o teatro de operações africano.

A narrativa centra-se num jovem recruta, Zacarias, que, desejoso de lutar pela Pátria, se vê abandonado e perdido na savana moçambicana. A sua jornada é uma verdadeira odisseia, onde a natureza implacável do colonialismo e a brutalidade da guerra se revelam na sua crueza.

Desde a cena de abertura, o filme não deixa dúvidas sobre a desumanidade do que ali se passa. Quando os militares portugueses chegam a África e se deparam com a ausência de um cais, o capitão, de forma chocante, propõe que os soldados montem aos ombros dos carregadores negros, agarrando-se às suas carapinhas. Esta imagem, por si só, é um murro no estômago, expondo a profunda desconsideração pela dignidade humana e o abuso inerente ao sistema colonial.

O ator principal, João Nunes Monteiro, tem um desempenho notável. Ele encarna Zacarias com uma intensidade e fragilidade que nos prendem ao ecrã. Acompanhamos a sua transformação de um jovem idealista a um homem confrontado com os horrores da guerra e a solidão avassaladora. A sua interpretação é tão visceral que nos faz sentir a febre, a fome e o desespero de Zacarias, numa viagem em que a linha entre a sanidade e a loucura se esbate.

A proximidade de Zacarias com o protagonista de "Apocalypse Now", o Capitão Benjamin L. Willard, é inegável, especialmente na forma como ambos são consumidos pela selva e pela insanidade que a guerra provoca. No entanto, a referência a Kurtz de "O Coração das Trevas" (que inspirou "Apocalypse Now") também se faz sentir, pois Zacarias, na busca por um batatal e por respostas, vai-se embrenhando cada vez mais na escuridão de uma realidade que o devora. Tal como Kurtz, a descida à "loucura" é um reflexo do ambiente hostil e desumano em que está inserido.

"Mosquito" é um filme que confronta o passado colonial português, desmistificando qualquer ideia de um "colonialismo bonzinho". É uma obra poderosa e visualmente impactante, que nos faz refletir sobre a guerra, a identidade e a resiliência do espírito humano perante as adversidades mais extremas. É um filme que, tal como o seu protagonista, nos persegue muito depois de a sessão ter terminado.

quarta-feira, junho 04, 2025

"O País dos Outros" – Colonos em Terra Alheia

 

No romance "O País dos Outros" de Leïla Slimani, somos convidados a conhecer a vida de Mathilde, uma jovem alsaciana que casou com Amine no fim da Segunda Guerra Mundial e foi com ele viver para Marrocos, mas também a complexa dinâmica entre colonizadores e colonizados. O título, "O País dos Outros", ganha ressonância ainda mais forte ao explorar a perspetiva dos colonos franceses que, apesar de habitarem e explorarem a terra marroquina, nunca a sentem verdadeiramente como sua.

Mathilde sente-se forasteira num casamento e numa cultura que luta para compreender. No entanto, o livro vai para além da experiência individual de Mathilde mostrando-nos como a comunidade de colonos, da qual ela faz parte, vive num limbo. Construíram as suas vidas, explorações agrícolas e negócios em Marrocos, mas o chão sob seus pés é instável. O país é "deles" (dos marroquinos) e sempre foi, independentemente da ocupação.

À medida que a intriga avança para o período que antecede a independência de Marrocos, a tensão intensifica-se. A elite colonial francesa, que antes detinha o poder e os privilégios, começa a sentir a iminente perda de controle. O que era visto como "sua" colônia está prestes a tornar-se novamente "o país dos outros". A presença dos colonos, de dominadores, passa a ser a de convidados indesejados, ou, na melhor das hipóteses, de estrangeiros sem raízes profundas. A própria Mathilde, apesar da condição de "esposa de marroquino", sente-se presa nesse conflito identitário e político.

Leïla Slimani retrata a inversão de papéis e sentimentos. O temor, a incompreensão e até o ressentimento dos colonos diante da ascensão do nacionalismo marroquino são palpáveis. Eles veem o fim de uma era, o desmoronamento de uma estrutura que lhes garantia poder e status. Em "O País dos Outros", a autora força-nos a refletir sobre a complexidade da colonização sob uma ótica muitas vezes esquecida: a daquele que, mesmo dominando, nunca pertenceu, e que agora enfrenta a inevitável devolução do "país" aos seus verdadeiros donos.