sábado, setembro 20, 2014

FILME: «Alentejo, Alentejo» de Sérgio Tréfaut

Embora este seja o (des)governo, que pior tem tratado a Cultura em geral, e o cinema em particular desde o 25 de abril, os acasos da distribuição cinematográfica permitem-nos ter ao mesmo tempo nos ecrãs nacionais os mais recentes filmes de João Botelho e de Sérgio Tréfaut.
Sobre o primeiro ficou ontem registado neste blogue o meu entusiasmo. Sobre o filme de Sérgio Tréfaut o entusiasmo não é menor, porquanto ele reflete maravilhosamente a riqueza do cante alentejano e das idiossincrasias ligadas ao povo que o criou.
Naturalmente que não consigo ser objetivo nesta opinião: cá em casa, desde que tivemos a oportunidade de conhecer o Sérginho, quando ele era ainda um adolescente acabado de chegar ao Portugal de Abril, a consideração pelo seu talento e entusiasmo só se foi consolidando à medida, que lhe íamos conhecendo as sucessivas obras.
Também o ligamos, desde sempre, à personalidade ímpar do tio, esse Urbano Tavares Rodrigues, que sempre nos motivou uma enorme admiração não só pelo seu talento de escritor, mas também pela generosidade de que sempre deu mostras para quem teve a oportunidade de o conhecer pessoalmente.
É claro que a empatia do realizador com o Alentejo torna-se perfeitamente natural pelo facto de ser esse o espaço natal desse tio e do pai, Miguel, e que dele nunca se terão desviado sentimentalmente por muito que o futuro os tivesse sedentarizado em Lisboa ou noutras grandes cidades latino-americanas ou europeias.
E há ainda a memória íntima de um passado distante, quando ainda criança vivia em frente à igreja do Monte da Caparica - então centro da aldeia para onde estavam a convergir mutos alentejanos dispostos a procurarem emprego na grande Lisboa - e numa taberna diante das janelas dessa casa, esse tipo de canto começava a desfiar-se ao fim do dia e ia avançando pela calada da noite.
São, pois, muitas as razões subjetivas para mais do que gostar do filme de Sérgio Tréfaut. Mas esse juízo de absoluta rendição manter-se-ia mesmo que elas não existissem. É que a beleza de tal canto coletivo espelha a essência de um povo sofrido, a quem o fascismo tanto causticou e que nele encontrou forma de catarse e de revolta. E a câmara fixa-se nos rostos, ouve-lhes as palavras e as canções, mas também se atarda na beleza da paisagem feita de uma paleta de cores e de tons sem fim e de linhas curvas donde se recortam as azinheiras, os sobreiros e as searas.
É, pois, um filme para ver mais do que uma vez. Porque, além do propósito utilitário de registar uma cultura em riscos de desaparecimento, consegue abrir campo à esperança dos que pela sua juventude já estão distanciados das origens geradoras desse lamento cantado, e se mostram decididos a pegar no testemunho não o deixando morrer! 

sexta-feira, setembro 19, 2014

FILME: «Os Maias» de João Botelho

Houve um tempo em que frequentávamos o Quarteto para dar alimento aos nossos gostos cinéfilos. Depois, as salas de Pedro Bandeira Freire fecharam, mas passámos a contar com as do King para escaparmos ao tipo de cinema da pipoca e da coca-cola.
Encerradas as salas de Paulo Branco junto à avenida de Roma quase ficámos privados desse tipo de cinema incompatível com a lógica dos centros comerciais.
A abertura do Cinema Ideal, ali ao Camões, veio preencher essa lacuna e tornar-se doravante no roteiro obrigatório de quem aprecia os filmes enquanto expressão artística e não como se se tratasse de mais uma mercadoria.
Não admira que esteja agora ali em exibição a versão longa de «Os Maias», realizado por João Botelho.
Embora seja possível encontrar versões mais curtas noutros ecrãs, aquela que verdadeiramente nos interessa é esta de mais de três horas de duração em que  o realizador tem mais tempo para cumprir o propósito de seguir fielmente a intriga descrita por Eça de Queirós. E, porque o orçamento não era propriamente elástico, Botelho socorreu-se do pintor João Queirós para a criação de cenários, que dão um ar teatral ao filme, mas desmentido pelo cuidado com que o encadeamento de enquadramentos é estabelecido. Ao contrário do que ouvi a outros espectadores, não estamos perante «teatro filmado», mas sim face a Cinema com c grande.
Para mim, que lera a obra literária há uns bons quarenta anos, o filme representou mais do que a oportunidade para recordar o que a usura do tempo já apagara. Mas, mais do que isso, foi possível reencontrar a cultura da Lisboa dos finais do século XIX e o humor, com  que Eça vai  compensando o lado mais dramático da intriga romântica. Imperdível a cena em que Carlos Eduardo e João da Ega estão prostrados pela revelação do incesto e, quem se encarregara de a revelar àquele - o procurador da família Maia - entra e sai da sala preocupado por não conseguir encontrar o seu chapéu.
Tem havido quem reconheça que, apesar de ter passado quase século e meio sobre a época em que Eça situa grande parte da história, o país não mudou assim tanto: a cada passo tropeçamos num Dâmaso, que se mostra tão arrivista para poder almejar um estatuto social mais elevado do que merece, quanto intriguista para o manter; ou um público inculto, que é capaz de ir à ópera ou a um concerto para se dar ares de sofisticação, mas capaz de reagir estupidamente quando julga ouvir como tema de uma peça o termo «pateta» (e não «patética») e reage como se o estivessem a insultar.
O mundo descrito nos «Maias» é feito de homens, que corneiam os amigos ou são por eles corneados, de mulheres, que dependem financeiramente dos maridos ou dos amantes, mas iludem a rotina das suas vidas aborrecidas com as aventuras extraconjugais e em que meio mundo acorre ás salas do Chiado para ouvir quem tem dotes de retórica, mesmo que nada faça sentido por trás dos seus discursos palavrosos. Até porque estamos num tipo de sociedade onde o que importa é ver e ser visto!
É também um mundo em transição dos valores de uma aristocracia rural, muito enfeudada na sua interligação ao clero serôdio, para os das modas vindas de Paris, por muito que elas em nada condigam com a identidade de quem acriticamente as assimila e reproduz.
«Os Maias» garantiram, pois, umas horas de grande prazer tanto mais que representa o melhor filme de quantos vi de João Botelho, reencontrando-se algo do humor de «O Fatalista», que ele realizara em 2005. em suma, uma obra que muito se recomenda... 

quinta-feira, setembro 18, 2014

FILME: «O Nevoeiro» (1980) de John Carpenter

Já passaram trinta e cinco anos sobre uma das grandes vergonhas por que passei no cinema: estava no «Nimas» a ver descontraidamente o mais recente filme de John Carpenter, quando soltei uma exclamação de susto na cena em que os fantasmas vêm matar a avó que tem à sua guarda o filho da locutora de rádio de Antonio Bay. Que a tudo assiste a partir do farol donde emite o seu programa!
Se por norma costumo ficar sentado na sala até todo o genérico final desfilar perante os meus olhos (forma tácita de reconhecimento para com quem «fez» o filme) nessa tarde fui mesmo até à última legenda e até ao acender das luzes na expectativa de não vir a ser reconhecido por quem me ouvira tal expressão de surpresa.
E, no entanto, já assimilara a ideia de estar perante uma história com fantasmas dispostos a aterrorizar uma pacata aldeia de pescadores para se vingarem do que os seus antepassados lhes teriam feito. Sabia de sobra, que as cenas de terror marcariam presença ao longo de uma boa parte da hora e meia, que ele durava.
A história passava-se em Antonio Bay, que estava prestes a celebrar o primeiro centenário da sua fundação, muito embora os seus habitantes ignorassem ou quisessem esquecer que a cidade surgira e prosperara à conta dos salvados dos navios, que propositadamente fizera naufragar. Os fantasmas, que atacavam a cidade, trazidos pelo nevoeiro, mais não eram do que as vítimas de então…
Carpenter conseguiu com «O Nevoeiro» um dos seus melhores filmes, inspirando-se em Edgar Allan Poe, Val Lewton e Robert Louis Stevenson. Nunca se lhe viu melhor talento em utilizar o grande ecrã para explorar as diferentes estratégias para suscitar o medo e a inquietação a partir de quase nada: o vento, a noite e, claro, o próprio nevoeiro.
Por isso mesmo este filme não admite comparação em termos de qualidade com uma remake mais recente, onde se recorria abundantemente a inócuos efeitos especiais. Ademais, a versão de Carpenter contava com Janet Leigh, com Jamie Lee Curtis, com Adrienne Barbeau e… sobretudo, com dois dos melhores atores norte-americanos em papéis secundários: John Houseman e Hal Holbrook!



LEITURAS: «1Q84» de Haruki Murakami - 1º volume 1 - Apresentando Aomame

Nos últimos anos tenho lido vários romances de Haruki Murakami, não tanto pelo tipo de conteúdo fantástico nem pelo estilo vulgar, mas sobretudo por corresponder a um tipo de fenómeno literário a que convém estar atento. É que trata-se de uma moda, que acaba por condicionar algumas das linhas de força para que tende a evoluir a forma de encarar a Literatura. Já não tanto como obra de arte, mas como mercadoria, que se vende nos hipermercados ao lado das cebolas e dos detergentes.
Quando surgiu «1Q84» anunciava-se a obra mais ambiciosa do autor, até porque prometia-se a apresentação na forma de uma trilogia.
Hoje, quase a acabar a leitura do 2ºvolume, posso considerar que a montanha pariu um rato. Como sempre em Murakami lê-se facilmente, mesmo quando certos capítulos parecem ali inseridos para «encher chouriços», mas não existe nenhum argumento passível de justificar o entusiasmo por algo de inovador.
Tudo começa com uma jovem de cerca de trinta anos, Aomame, a inquietar-se pela possibilidade de chegar atrasada a um encontro no bairro de Shibuya já que a autoestrada para Tóquio parece assaz congestionada. Nem sequer a Sinfonietta de Janacek, transmitida pelo autorrádio do táxi, a parece consolar. Por isso o motorista dá-lhe uma sugestão, que ela acata: sair do carro e, através de umas escadas de emergência, aceder à rua situada num nível inferior ao da estrada e onde poderá encontrar uma paragem de comboio. Mas ele avisa-a:
“Só mais uma coisa (…) Não se esqueça do que lhe digo: as coisas não são o que parecem”  e acrescenta: “E quando uma pessoa dá um passo e faz uma coisa desse género [algo fora do comum] é provável que o cenário quotidiano … como hei-de dizer? … pareça mudado. As coisas à nossa volta podem revelar-se um pouco diferentes do que é costume. Eu próprio já passei por essa experiência! Contudo, não se deixe iludir pelas aparências. A realidade é apenas uma. (pág. 21)
Trata-se de conselho asizado, já que, sem disso se dar conta, Aomame irá mudar da realidade de 1984 para outra, paralela, fixada em 1Q84.
A caracterização física do rosto de Aomame surge pouco depois enquanto caminha rapidamente na direção da saída de emergência: “Cerrados com força, os seus lábios não sabiam o que era um sorriso, a não ser que fosse absolutamente necessário. Os olhos mostravam-se frios e vigilantes, fazendo lembrar um marinheiro de vigia na coberta de um navio. (…) Graças a essas características, o seu rosto não causava boa impressão.” (pág. 24)
“Quando acontecia alguma coisa suscetível de a obrigar a franzir a testa ou fazer uma careta, as suas feições mudavam de forma dramática. Os músculos da face crispavam-se, repuxando-lhe o rosto em todas as direções ao mesmo tempo e colocando em evidência a falta de simetria dos seus traços. Formavam-se-lhe profundas rugas, os olhos ficavam de repente mais próximos e encovados, o nariz e a boca mostravam-se violentamente deformados, o queixo retorcia-se todo, os lábios arrepanhados deixavam à mostra enormes dentes brancos.
De um momento para o outro, como se alguém tivesse cortado a corda que prendia a máscara atrás da qual ela se escondia, transformava-se numa pessoa diferente. O espetáculo chocante da sua metamorfose deixava qualquer um aterrado, por isso, Aomame tinha cuidado para nunca franzir o cenho na presença de desconhecidos.” (pág. 25)

quarta-feira, setembro 17, 2014

DOCUMENTÁRIO: uma abordagem alternativa sobre Amy Winehouse

DOCUMENTÁRIO: «Amy Winehouse» de Andreas Kanonenberg (2013)

Pessoalmente será difícil que venha a esquecer um determinado dia de julho de 2010, quando saía de um restaurante grego de Marylebone Road e a Elza, que se adiantara a chegar à rua, me apertou a mão para chamar a atenção de quem connosco se estava a cuzar tomando a direção da Regent Street, e vinda dos lados de Camden onde morava.
Com o seu penteado característico e seguida de um dos seus guarda-costas Amy Winehouse denotava alguma dificuldade em manter um rumo certo para os seus passos e desapareceria do nosso olhar atento, quando virou para os lados de Piccadilly Circus.
Esse deixou de ser o dia em que estivéramos numa das mais elevadas colinas de Londres (Primrose Hill), percorrêramos o Regent Park ou andáramos a passear o olhar pelas muitas obras da Wallace Collection, porque passou a ser aquele em que estivémos cara-a-cara com Amy Winehouse. Mesmo sem adivinharmos que, daí a um ano, ela morreria de forma trágica desmentindo quem não queria acreditar num desenlace à medida de outros grandes nomes da música também desaparecidos aos 27 anos.
Há três dias ela teria comemorado o seu 31º aniversário e poderíamos imaginar que, houvesse-se livrado da dependência do álcool como, em princípio, já se conseguira afastar das drogas, e contaríamos com novos temas entoados pela sua notável voz. Porque essa era a fonte do seu talento: já aos 16 anos conseguira perturbar grandes músicos de jazz sobre a capacidade para cantar os grandes standards com a voz de uma negra quinquagenária.
É essa uma das virtudes do documentário hagiográfico de Andreas Kanonenberg: estabelecer-lhe o percurso biográfico desde o nascimento numa família judia da classe média do norte de Londres, em que a mãe era farmacêutica e o pai motorista de táxi, até ao dia 23 de julho de 2011, quando os guarda-costas deram com ela definitivamente inanimada, com uma dose letal de álcool.
Terá sido o pai, Mitch, um grande apreciador de jazz, a dar-lhe a conhecer os grandes temas de Ella Fitzgerald, Frank Sinatra ou Tony Bennett. Mas a jovem Amy viverá como uma terrível provação a separação dos progenitores, quando tinha 9 anos. Agravar-se-ão nessa altura os problemas na escola, já que era difícil discipliná-la, tanto mais que o seu prazer resumia-se a cantar.
Por isso mesmo a mãe convence-a a matricular-se numa escola do tipo do nosso Chapitô, onde revela um enorme talento nas artes performativas, mas um desinteresse total pelas outras cadeiras ali lecionadas. Mas datam de então as mais antigas imagens disponíveis da sua atuação face a um público.
Através das sucessivas entrevistas com os pais, com a melhor amiga, com produtores dos seus discos, com o empresário e um dos músicos com que trabalhou, podemos compreender um pouco melhor a sua personalidade complexa, impelida para os infernos da toxicodependência pela relação amorosa com Blake Fielder. Será ele, decerto, um dos principais responsáveis pelo ciclo de autodestruição, que ela iria conhecer até ao último dos seus dias.

terça-feira, setembro 16, 2014

ARTE: Yan Pei-Ming e o mundo a preto, a branco e a cinzento

Nesta altura, em Arles, a Fundação Vincent van Gogh apresenta uma homenagem do pintor sino-francês Yan Pei-Ming ao seu homólogo holandês. Como sempre, ele opta por grandes telas onde usa sobretudo o branco, o negro e uma vasta gama de cinzentos. Foi, aliás, com essa imagem de marca, que já assinou retratos de Mao, de Buda, de Barack Obama ou da Gioconda.
Mas engane-se quem o julgue apenas interessado em representar os grandes vultos da política ou das artes: também têm lugar nas suas telas os barcos de refugiados ou até o seu próprio cão, que fielmente  o acompanha nos dias passados no atelier. 

ARTE: Martin Streit ou a arte e a luz

Durante este mês Martin Streit tem colocado uma câmara escura bastante singular em frente à catedral de Colónia. Trata-se de um conjunto de dois contentores sobrepostos, munidos de um diafragma por onde entra a luz.
Sobredimensionada, a instalação pesa toneladas e mede 14 metros de comprimento, baseando-se neste princípio: graças a um ecrã que ocupa toda a altura do dispositivo, Streit capta a luz recolhida na sua câmara escura. Nessa fina membrana aparece um reflexo do mundo exterior, que parece movimentar-se de cabeça para baixo. As imagens resultantes são esquemáticas, nebulosas, desprovidas de contornos.
Já conhecido pelos seus quadros resultantes de fotografias de objetos e pessoas com uma câmara escura da sua autoria, Martin Streit especializou-se em obras de pequeno formato, que apostam nos efeitos de luz e de nuances de cores para criar um efeito estético que identifica o seu estilo próprio. Aluno de Gotthard Graubner, ele nunca prescindiu da fotografia como suporte para as suas criações.

domingo, setembro 14, 2014

BANDA SONORA: «The Flow» de Melanie de Biasio

Como definiríamos a música da belga Mélanie de Biasio? Pop? Jazz? Ou um cruzamento entre as duas?
«No Deal» é o novo álbum da cantora, que leva muitos críticos musicais a comparar-lhe o timbre com o de Billie Holiday, Nina Simone, Joni Mitchell ou Beth Gibbons.
Com baladas sombrias e meditativas, encantamentos com uma densidade atmosférica, variações lentas e fraseado inventivo, Mélanie de Biasio assina uma espécie de mantras,que quase nos convencem de estarmos num tempo que parou. 

LIVRO: «la Petite Communiste qui ne souriait jamais» de Lola Lafon

O verão de 1976 trouxe para a ribalta um rosto e um nome durante os Jogos Olímpicos de Montréal: Nadia Comaneci.
Apenas com 14 anos e menos de metro e meio de altura, ela criou a própria lenda ao pôr em cheque os engenheiros programadores da Longines, que nunca tinham imaginado serem possíveis notas de 10,0 nas disciplinas de ginástica. Ora, por várias vezes, a perfeição das exibições de Nadia surgiu premiada com o comprometedor 1,0, muito embora todos compreendessem que era da nota máxima, que se tratava. Mas o outro lado desse sucesso traduzia-se na negação da infância sujeita aos ditames do treinador, o que explica o rosto sempre sério, sem sombra de um sorriso.
Sem tal suspeitarem em muitas das adolescentes da  época imaginaram-se dotadas desses músculos de aço, dos movimentos como se o corpo fosse feito de borracha e tivesse molas nos pés.
Ceausescu, o conducator romeno, transformou-a na heroína da juventude comunista sem prever que, anos depois, já o regime estava em cacos, ela fugiria para a Hungria e daí para os EUA.
Lola Lafon nasceu em 1975 e não consegue recordar as imagens de Montréal, mas no seu quarto em Bucareste contava, inevitavelmente, com o poster dela. Nada mais natural que, depois de nos romances anteriores ter feito da abordagem do corpo feminino, do movimento como vocabulário da vida e da confrontação leste-oeste os temas de eleição, tenha decidido dedicar a Nadia aquele que publicou no início deste ano.
O propósito não é o de fazer uma biografia da antiga ginasta, já que nem sequer entrou em contacto com ela para validar ou corrigir algumas das conjeturas sobre ela formuladas. O que lhe interessa, verdadeiramente, é o fenómeno em si e o impacto numa sociedade onde o ditador exigia explosões demográficas, mesmo sem resolver os condicionalismos do racionamento alimentar.
Trata-se, pois, de uma obra de ficção, onde Lola acaba por valorizar preponderantemente as suas próprias origens, questionando-as. Porque, nas três viagens anuais, que costuma levá-la de volta ao país em que nasceu, vai encontrando cada vez mais jovens com um progressivo ceticismo em relação à sociedade capitalista em que se sentem acossados pelo desemprego e por todos constrangimentos que os impedem de ser felizes. 

DOCUMENTÁRIO: «O Ministério do Ferro» de J.P. Sniadecki

Entre outubro de 1934 e outubro de 1935 ocorreu na China uma das maiores epopeias do século XX: perseguidos pelo exército de Chiang kai Shek, cem mil comunistas liderados por Mao Zedong iniciaram a viagem de dez mil quilómetros entre o sul do país e uma base recuada no Norte onde só um décimo de entre eles chegaria.
Sobre essa marcha li uma descrição encomiástica, quando era adolescente e marcelo caetano ainda tinha conversações «em família» com o país.
Data de então a enorme admiração, que sempre manifestei pelo povo chinês. A sua capacidade de sacrifício e a determinação para alcançar os objetivos a que se propõem ficaram-me como características nunca desmentidas por quanto apurei desde então.

A primeira vez que estive na China foi numa estadia de cinquenta e quatro dias em Xangai para a reparação do casco de um navio num dos estaleiros de Pudong. E depressa vi confirmadas aquelas ideias preconcebidas: todas as manhãs via literalmente dezenas de op
erários e operárias subirem o portaló e, qual formigas incansáveis, lá iam cumprindo diligentemente o contratado.
Conheci igualmente facetas menos nobres, como a tendência para conviverem bem com a sujidade: como esquecer o bar à saída do estaleiro, onde alguns dos tripulantes iam comer camarões apesar de nunca ter visto cozinha tão sebenta? Mas outra houve que me surpreendeu deveras e conhecida, sobretudo, através do Deng ou do Wang, intérpretes qye connosco conviviam: que apesar de traços fisionómicos diferentes dos nossos e de uma cultura milenar pouco consonante com o nosso judaico-cristianismo, eles mostraram-se pessoas iguais a nós nas aspirações e nos receios.
O documentário de J. P. Sniadecki  intitulado «O Ministério do Ferro» é sobre isso mesmo: aproveitando imagens de meia centena de viagens de comboio por toda a China, o realizador mostra que, afinal, ela está mesmo aqui ao lado, com pessoas semelhantes a quaisquer dos nossos vizinhos.
Vivemos, de facto, num «small world»... 

sexta-feira, setembro 12, 2014

FILME: «Rio Vermelho» de Howard Hawks

Em 1948, depois de realizar excelentes policiais e comédias, Howard Hawks arriscou-se a rodar um western e, logo à primeira tentativa, conseguiu criar uma das grandes obras-primas do género. Porque, mudando de ambiente, Hawks não deixou de aplicar o seu estilo próprio, onde importam significativamente as características psicológicas dos personagens. Com ele os estereótipos têm de dar lugar a personagens complexos e credíveis.
Pela primeira vez John Wayne interpreta uma personagem ambígua, que anuncia o seu papel antológico em «A Desaparecida». Ele é Tom Dunson, que regressa ao Sul depois de terminada a Guerra da Secessão e logo fica sem noiva num ataque a uma caravana.
O único sobrevivente é o jovem Matthew Garth, de quem ele faz filho adotivo.
Passados catorze anos Tom já conta com dez mil cabeças de gado, mas não encontra quem lhas compre num Sul ainda arruinado.  Por isso decide ir vendê-las ao Missouri, mesmo que à custa de um mês de viagem.
Tratar-se-á de uma expedição difícil em que os nervos de Tom o levam a mostrar-se dia-a-dia mais tirânico, o que conduzirá à revolta de Matt.
Será, pois, um filme no masculino, mas com uma singularidade curiosa: o belíssimo desempenho de Joanne Dru na forma como consegue enfrentar os  homens que a rodeiam.