segunda-feira, março 12, 2007

AGNÉS BERT: TU SERÁS UM HOMEM, FILHA!

«Tu serás un homme, ma fille» foi o documentário transmitido pela Arte para celebrar a efeméride. Da autoria de Agnés Bert mostra como em zona recôndita da Albânia existe um costume singular: certas mulheres são instadas a, desde a puberdade, a assumirem uma identidade masculina.
A realizadora entrevistou algumas delas para perceber o que esteve na génese de tão singular opção: nuns casos a razão parece ter a ver com uma efectiva masculinidade genética, mas noutros casos tratou-se de uma imposição paterna com tudo o que essa vontade pressupunha numa sociedade profundamente patriarcal.
O que parece evidente é a desconfiança dos conterrâneos pela ambígua postura dessas mulheres-homens, que revelam até competência em tarefas comummente destinadas aos homens (mecânicos, motoristas, pastores). Mas o interesse maior do documentário reside na capacidade da realizadora para tudo isso traduzir em imagens cuidadas, com enquadramentos bem recortados…
Segundo a revista de programas do canal franco-alemão este filme merece a seguinte recensão:
Num jardim verdejante com ervas daninhas, um velho seco de carnes apanha uma galinha e decepa-a com um machado. Mas haki não gosta de depenar a criação: «antes dos 40 anos nunca fiz trabalhos de mulher. Agora, que vivo sozinho, vou ter de me habituar»
A sua silhueta longilínea, o cigarro permanentemente na boca e o fato de homem são características enganadoras: Haki é uma mulher.
Nas aldeias do nordeste albanês, à volta de Bajram Curri - elas são várias a viverem como homens. A tradição a tal as autoriza - ou mais precisamente o «kanun», lei arcaica que rege as relações sociais há vários séculos. Nas famílias que tenham perdido um pai ou um filho, uma rapariga poderá preencher o papel de chefe de família. E as que se recusem a submeter-se à sua dura condição de mulher podem igualmente adoptar esse estatuto masculino. Na condição de jurarem ser eternamente virgens.
Haki, Solol, Shkurtan e Samic fizeram essa escolha. Por vontade própria, para ajudar as famílias, por sede de liberdade - frequentemente uma subtil mistura das três. Renunciaram ao casamento, à maternidade, ao amor. Em troca, ganharam o direito de ir aonde lhes apeteça., de não se submeterem a um marido ou a um irmão.
À força de obstinação e de trabalho ganharam o respeito de todos.
Neste belo recanto dos Balcãs, a realizadora encontrou diversas mulheres apostadas em serem homens. Entre elas, destacam-se os rostos de Haki, Samie, Sokol e Shkurtan.
Samie, que deve andar pelos cinquenta anos, é a mais nova. As outras três mulheres são da geração anterior.
Sozinhas ou rodeadas de familiares, sob as árvores dos jardins ou no interior de casa, cada uma revela-se: porque fizeram essa opção, como viveram, que espaço ocupam na comunidade.
Numa sociedade ainda largamente dominada pelos homens, há algo que se repete. «não tinha vontade de sofrer como todas as mulheres», dizem em uníssono.
A necessidade de dirigir a família depois da morte de um pai ou de um irmão só deu o álibi para essa decisão. Agnés Bert encontrou a distância necessária para filmar essas palavras: sem exagerado voyeurismo e com uma autêntica generosidade.
Confiantes, as mulheres revelam-se amiúde divertidas…
O cenário dessas confidencias é o de uma região magnífica: as folhas rumorejam e filtram uma belíssima luz de Verão. O que só aprofunda a impressão de serenidade inerente a esses testemunhos, quando se sabe quão difíceis terão sido os passados de tais mulheres...

UM GRINGO A SUL DO RIO BRAVO

George W. Bush decidiu visitar a América Latina. Agora que o seu segundo mandato já se precipita para o fim, ele decide dar alguma atenção a um sub continente quase sempre esquecido das suas preocupações. Excepto quando cria acrescidos entraves à emigração mexicana ou quando se trata de insultar os presidentes cubano ou venezuelano. É, pois, natural a recepção de que se vê alvo: nas grandes metrópoles por onde vai passando sucedem-se manifestações contra a sua presença. Ele é o Grande Satã com odor a enxofre como o acusa Hugo Chavez. E a verdade é que uma maioria significativa de latino-americanos acredita nisso mesmo. Em mais de seis anos de mandato ele só conseguiu agravar a opinião anti-imperialista assumida pela comunidade internacional…

UMA MANUAL DE HISTÓRIA COMUM?

Não me merece grande entusiasmo a notícia de um Manual de História comum a todos os jovens estudantes europeus, conforme consta de um projecto alemão, que conta com o acordo da França e da Espanha.
Não é que tenha perdido o entusiasmo por uns futuros Estados Unidos da Europa em que as diferenças nacionais se diluam em proveito de uma identidade comum. O receio é que um Manual como o agora proposto venha eivado de preconceitos ideológicos inerentes a quem dele seja incumbido.
Por exemplo seria equilibrado em relação a todos os anos de «socialismo» na Europa de Leste ou repetiria as habituais receitas anticomunistas primárias?
Por ora justifica-se a divulgação de conceitos diversificados, que dê espaço a leituras menos canónicas dos factos do passado…

domingo, março 11, 2007

EMBAIXADA PORTUGUESA EM BAGDAD: THIS IS THE END

Qual o motivo para investir recursos na representação diplomática num qualquer país?
A meu ver só duas razões justificam essa presença: ou a existência de uma importante comunidade portuguesa emigrante carecida de apoio ou um potencial económico passível de gerar retorno a curto ou médio prazo dos custos nela envolvidos.
A notícia do fecho da Embaixada no Iraque assume, a esta luz, toda a lógica. Nos tempos de Saddam, quando a maioria dos iraquianos usufruía um estilo de vida sem qualquer comparação com a insegurança e a miséria actuais, justificava-se essa presença em função dos negócios entre ambas as partes. Não seriam muitos os portugueses a trabalharem em Bagdad, mas eram os bastantes para fundamentar um esforço financeiro a nível do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Agora, pelo contrário, existe uma total insegurança, que compromete a vida de quantos ali prestam serviço, e ninguém no seu juízo perfeito antevê a possibilidade de estabelecer parcerias comerciais com quem que seja nesse país destroçado.
Quem poderá, pois, considerar justificável a manutenção de tal Embaixada? Pelos vistos, apenas quem vê em qualquer facto o argumento para arremessar atoardas contra o Governo. Como sucede com a actual liderança do PSD…
Existe alguma expectativa de recuperação de qualquer euro consumido com representantes diplomáticos em Bagdade? O seguidismo face à Casa Branca e ao seu desacreditado ocupante justifica posições políticas apenas movidas pela necessidade de querer dar uma aparência de normalidade ao que o não tem: a actual sociedade iraquiana?
Numa altura em que se quer menos despesa pública é completamente justificável a decisão de eliminar embaixadas e consulados aonde os custos estejam longe de ser compensados pelas receitas, económicas e/ou políticas subjacentes…

terça-feira, fevereiro 20, 2007

ROMAN KARMEN: UM REALIZADOR DA UTOPIA

Andei a ver um excelente documentário sobre a carreira do realizador soviético Roman Karmen. Um cineasta, que acompanhou todas as grandes revoluções do século XX subsequentes aos anos 30. Começou ao lado de Robert Capa na Guerra Civil de Espanha por ele testemunhada do lado dos Republicanos. Prosseguiu com a Revolução Chinesa, acompanhando os primeiros passos de Mao enquanto líder dos camponeses do Yunan. Foi depois a Segunda Guerra, quer durante o terrível cerco de Leninegrado, quer durante o avanço do Exército Vermelho. Prosseguiu depois no Vietname com a derrota francesa em Dien Bien Pgu e em Cuba com a vitória dos barbudos castristas. E ainda teve teve de acompanhar a esperança chilena em torno de Salvador Allende.
O fascinante nos seus documentários é a encenação de muitas dessas imagens numa recriação destinada a reforçar-lhes o sentido da mensagem. Nos filmes de Karmen o comunismo surge como utopia exequível, deles estando dissociados o seu lado mais obscuro.
Mas, ao ver tais imagens, pude constatar quão perto esteve a História de ter um encontro com algo de genuíno e de maravilhoso. Faltou apenas um grão de asa para toda a Humanidade adoptar o comunismo como sistema político de eleição para a criação de uma sociedade mais justa e fraterna.
Talvez por ter estado tão próximo de suceder essa utopia, exista uma tão veemente propaganda anticomunista procurando reduzir essa ideia pura em algo de criminoso,
Quando se fala de comunismo dever-se-ia falar dos gulags e dos processos de Moscovo, mas também da tremenda evolução económica conhecida pelos países do Leste Europeu e da Ásia, quando nele consubstanciaram a esperança de milhões de pessoas num futuro melhor.
Nos últimos anos o comunismo tem sido apresentado no que o caracterizou na coluna do Deve, sem nunca se citar o que quer que seja do muito contido na coluna do Haver.

«MRS. HENDERSON» de STEPHEN FREARS

«Mrs. Henderson», o filme do Stephen Frears com a maravilhosa Judi Dench e o seguro Bob Hoskins foi o filme por mim escolhido para vermos às refeições deste sábado. É a história de uma velha senhora, que enviúva depois de uma grande parte da vida passada na jóia da Coroa (a Índia). Agora, muito rica e desocupada, ela decide levar por diante um projecto excêntrico: inaugurar um teatro de revista aonde as raparigas se dispam, mesmo que não se mexam (para evitar dissabores com a censura).
Liderada pelo encenador Vivian Van Damm, o Windmill Theatre ficará conhecido por nunca ter parado com os seus espectáculos durante a Guerra, enfrentando os bombardeamentos alemães com a coragem de resistir à barbárie e manter uma certa ilusão de normalidade na cidade violentada pela destruição.
O filme alterna números musicais com as disputas constantes entre Laura e Vivian numa relação, que tem tanto de tensa, como de afectuosa. E a comédia alterna com a tragédia de quem padece as agruras da época, mormente - e aqui em consonância com as palavras da página anterior - uma gravidez indesejada acabada inevitavelmente em morte...

domingo, janeiro 28, 2007

O USUFRUTO DAS COISAS SIMPLES

Se algo desaproveitamos de muito belo é o rio, que banha Lisboa. Numa entrevista em que o Raul Solnado se gaba de poder dedicar-se agora a só o que lhe dá prazer, o passeio ao longo das margens do Tejo é um dos mais enfatizados.
Compreende-se até pela explicação dada pelo conhecido actor: «Este rio provoca uma impressão de liberdade muitíssimo grande e propicia outros voos ao pensamento.»
Sempre foi assim, mesmo no tempo da ditadura: através dos barcos, que deixavam Lisboa, existiam muitas terras por descobrir e nelas fazer valer os sonhos e as ambições de realização pessoal.
Mesmo nessas horas de tenebrosa opressão o rio era belo com essa profusão de navios nele ancorados, muitos deles com grinaldas de luzes e bandeiras a darem-lhe promessas de futuras alegrias.
Passear hoje à beira Tejo poderá representar uma forma de fazer balanços de vida. Não são as águas do rio uma metáfora dos percursos de vida, que vamos realizando?
À medida, que vamos avançando em anos, cresce essa tendência para o usufruto das coisas simples, mas perenes...

quinta-feira, dezembro 28, 2006

A MORTE NA ESCRITA

Em «O Ano do Pensamento Mágico», Joan Didion exorciza a sua dor depois de ter perdido o companheiro de quarenta anos de vida, John Gregory Dunne. Tudo se passou há três anos, no dia 30 de Dezembro, quando ambos tinham acabado de chegar a casa, vindos do hospital aonde a filha adoptiva, Quintana estava em coma na sequência de um choque séptico relacionado com uma pneumonia.
O que sucedeu leva Joan a escrever: «A vida muda num instante. O banal instante»
Ela fez uma salada, acendeu a lareira e preparou um uísque para John. Que logo cai, fulminado por um AVC.
O pensamento mágico de que fala o título do livro é um termo psiquiátrico para designar a atitude mental de negação de um acontecimento, muito frequente em crianças atingidas por um trauma profundo. Um trauma como o que leva Joan a não arrumar os sapatos de John durante meses na expectativa de que ele regresse.
O vazio de que padece é compreensível: depois de se terem conhecido nos inícios dos anos 60, Joan e John constituíam um casal quase mítico da intelectualidade norte-americana fazendo tudo em conjunto: trabalhando em casa, viajando, completando as frases um do outro no convívio social.
A editora do «Público» diz que é uma obra de uma lucidez implacável, brilhante de sensibilidade e de inteligência.
Mas é também um livro, que se enquadra no espírito de um tempo em que a América está condenada a pensar na morte como uma inevitabilidade: porque houve o 11 de Setembro, o Katrina e os muitos soldados vindos encaixotados do Iraque, este é um tempo de luto e de procura de uma explicação para o vazio da ausência.
Já Yann Quéffelec escreve sobre a morte da mãe, trinta e muitos anos depois de a ter vivido. Em «Ma Première Femme», o irmão da pianista que vimos anos a fio na «Festa da Música» recorda esse momento único em que atendeu o telefone e o responsável da clínica aonde a progenitora estava internada o confunde com o pai dizendo-lhe: «A sua mulher não passou a noite».
Ora o rapaz de dezassete anos, que jamais tivera a percepção da gravidade dessa doença, fica aturdido nunca mais conseguindo ser o mesmo.
O livro recentemente publicado é uma homenagem, uma forma de redenção perante o remorso de nem sequer ter conseguido despedir-se dessa mulher corajosa, que sofrera em silenciosa agonia a evolução imparável da sua doença...

domingo, dezembro 24, 2006

SEXO E FILOSOFIA

O realizador é iraniano, Mohsen Makhmalbaf, mas o filme foi rodado no Tadjiquistão em 2005: «Sexo e Filosofia» leva um homem, Jan, a reunir as suas quatro amantes na sua escola de dança no dia em que faz quarenta anos. E num estilo narrativo muito lento, com grande apoio da música e, sobretudo, da dança, ele evoca as circunstâncias em que a todas terá conhecido. Concluindo pela relativização dos sentimentos em favor do acaso ligado a cada um desses encontros.
A Mariam conhecera quando fora o único passageiro num voo em que ela era a hospedeira. Fora um amor celestial, que lhe merecera a oportunidade para esculpir uma árvore em frente à sua escola.
Farzona impressionara-o pela forma de andar, pela cor dos seus sapatos. Embora ela lhe confessasse a sua capacidade de amar os homens, que já lhe eram passado em vez de presente.
A Tamineh conhecera-a no hospital, quando uma incómoda diarreia ali o levara em grande sofrimento. Sendo ela a enfermeira, que lhe serviria de anjo da guarda nessa ocasião.
Enfim Malohat, a última dessas amantes, experimenta algo semelhante ao intento dele: junta os seus quatro amantes na mesma mesa para lhes confessar essa diversificação dos seus afectos. O que não é propriamente bem aceite por alguns deles.
Neste filme pejado de símbolos a questão essencial é descobrir o que alimenta o amor, o que conduz à sua negação.
O Amor acaba por se revelar como o milagre de um momento, quando a solidão se define como incontornável destino...

LUANDINO VIEIRA: O REGRESSO AOS LIVROS

Acabei de ler uma interessante entrevista com o escritor angolano Luandino Vieira no suplemento «Mil Folhas» do «Público», a pretexto do lançamento do seu mais recente título: «O Livro dos Rios». Que é o primeiro de uma trilogia intitulada «De Rios Velhos e Guerrilheiros».
O tema é, segundo o autor, o da «relação entre o homem angolano com a natureza angolana, no contexto da luta de libertação nacional». Para tal recorre a um grupo de guerrilheiros, que se deslocam em direcção a alguém da frente interna, que lhes traz medicamentos.
Voltando ao autor: «Estava com a ideia de escrever sobre árvores, peixes, pássaros, céu, água, rio, e não percebia bem como é que o homem havia de estar no meio disso.» A solução passa por, dentro desse grupo de guerrilheiros, inserir um sonhador atento à novidade da paisagem, já que viera da costa aonde só conhecia as areias da praia.
O livro vem confirmar quão exageradas tinham sido as notícias sobre a «morte criativa» de um escritor celebrado pelo seu «Luuanda» - que, em 1965, suscitou a acção terrorista da PIDE à sede da Sociedade Portuguesa de Autores - mas perdido durante anos nas tarefas políticas a ele confiadas após a independência, e depois, no seu voluntário exílio de treze anos nas terras minhotas.
Ainda assim ele diz que nunca parou de escrever apesar de não publicar nenhum livro novo desde 1972.
Agora, aos 71 anos, vive austeramente na casa do porteiro do Convento de Sampaio, em Vila Nova de Cerveira, tendo por anfitrião o escultor José Rodrigues.
Na sapiência conferida pela idade, ele diz: «Eu gosto muito de viver. Se estiver sol já não escrevo, saio para a rua. Se está a chover também visto o impermeável e vou andando. Só em último caso, quando já não posso fazer mais nada» é que escreve.
Bens tem muito poucos. Cabem todos numa mochila. «Se compro uma camisa, tenho de deitar outra fora».
Mas a solidão não é propriamente um estado natural em si: «Sempre tive que me virar sozinho. Acabei por ficar mais solitário do que gosto de ser… Não percebe pela conversa que não gosto de ser solitário? Acabo por conversar muito, mas depois retraio-me, meto-me na minha concha».
Ao contrário do que quem o entrevista pretende, Luandino Vieira não está desiludido com o rumo dos acontecimentos no seu país: «Se tivéssemos a capacidade de só nos construirmos, mas, eu, pelo menos, não tinha percebido que isso só se faz com os outros todos, e os outros todos não eram só os meus colegas… Eram os americanos, eram os russos, eram os sul-africanos». Acaba, assim, por reconhecer a evidência de não se sentir desiludido, porque nunca alimentara ilusões.
«Um regime é uma coisa perfeitamente transitória. Os homens desenvolvem formas de se auto-governarem conforme as necessidades. São sempre circunstancialismos que determinam isso. Hoje o mundo tem esse modelo, a democracia. E viu-se por exemplo o que deu tentarem impor a democracia no Iraque.»

domingo, dezembro 10, 2006

RECORDAR PHILLIPE NOIRET

Na televisão francesa passa um filme quase desconhecido com o actor Philippe Noiret, que acaba de morrer.
Não era daqueles actores, que motivassem a imprescindibilidade da deslocação ao cinema para ver o que interpretava, mas sabia-se de antemão a agradabilidade de tais títulos e a superlatividade da sua interpretação.
Ele começou por nos chamar a atenção n’«A Grande Farra» do Marco Ferreri, que tanto escândalo causou nos meses subsequentes ao 25 de Abril.
Depois era ele um dos divertidíssimos foliões, que iam dar chapadas nos passageiros de comboios distraídos nos seus acenos de despedida em «Meus Caros Amigos». E, já na sua idade mais provecta, seria ele o projeccionista do comovente «Cinema Paraíso» ou o poeta Neruda a quem o carteiro ia levando a sua correspondência.
Poderia aqui evocar outros títulos, mas bastam estes para comprovar a previsão de se tratar de um daqueles nomes da sétima arte, que perdurarão nas nossas memórias por uns bons e largos anos…

segunda-feira, dezembro 04, 2006

CIDADANIA PRECISA-SE (NOS JORNALISTAS)

Num dos telejornais de ontem eram entrevistadas pessoas, que rejeitavam a possibilidade de «salas de chuto» serem instaladas na vizinhança das suas casas.
Como de costume - e aliás na linha do que esta nova geração de «jornalistas» vem difundindo nos nossos media - dava-se só voz a um dos lados da questão sem a oportunidade cívica de fazer prevalecer os argumentos pertinentes de quem defende nessa medida uma forma racional de ajudar a resolver um grave problema social.
Demonstrava essa reportagem que o populismo não é exclusivo do discurso político. Este crescerá sim a partir da divulgação acrítica deste tipo de mensagens, que só contribuem para a prevalência do que de pior existe no comportamento colectivo. Neste caso em concreto a segregação de um número significativo de nossos concidadãos a quem as circunstâncias infelizes da vida empurraram para a via da toxicodependência.
E, no entanto, nos bairros em causa - e em qualquer um deste país - quantos casos de toxicodependência se albergam por detrás das insuspeitas fachadas dos seus prédios?
O discurso desses entrevistados lembra os que empurram a sujidade para debaixo dos tapetes ou quem prefere esconder a cabeça na areia.
Porque é um assunto de tal gravidade, que exige ser tratado com frontalidade, todos deveriam ser comprometidos na sua resolução. Colaborando nas soluções em vez de lhes atravessarem obstáculos. Ou porque são de esquerda e se confrontam com uma iníqua situação de injustiça social, que urge resolver. Ou porque são cristãos e devem por natureza revelar a sua quotidiana generosidade. Ou porque são de direita e devem ter a consciência dos danos à sua sagrada propriedade privada, que o problema colateralmente cria.
Mas os primeiros responsáveis pela criação de uma tal postura devem ser os editores de notícias dos jornais, das rádios e das televisões, ao contribuírem para um discurso de cidadania em tudo quanto é publicado sobre assuntos desta relevância…

sábado, dezembro 02, 2006

THE OTHER FINAL

Johan Kramer realizou «The Other Final», mas o projecto era do seu amigo Matthijs que, em 2002, ficou extremamente triste pelo facto de não ver a sua Holanda natal apurada para a fase final do Mundial de futebol no Japão. Resultou daí um projecto assaz curioso por permitir a exploração da ideia de exorcizar a derrota a partir da vivência dos mais habituados a com ela lidar. Ou seja, o confronto entre as duas selecções de futebol relegadas nos dois últimos lugares da Classificação oficial da FIFA: as pertencentes ao asiático Butão e à caribenha Montserrat.
O documentário apresenta ambos os países. Montserrat ainda tem bem presente uma irrupção vulcânica, que cobriu de cinzas o antigo estádio e parte significativa dos seus terrenos de cultivo. De entre os seus 150 praticantes de futebol amador o seu treinador deverá escolher os que se deslocarão a Tinfu. Por seu lado o pequeno país dos Himalaias só muito recentemente se abriu ao exterior, mas a sua monarquia continua a explicitar um discurso político algo singular ao preocupar-se com o PIB de felicidade do seu povo. Por agora tem 900 praticantes da modalidade, que estão longe de ombrear com as preferências dos compatriotas pelo críquete.
Embora se tente promover o desporto como a oportunidade de encontro de culturas, vêm ao de cima os piores indícios de quão assim não acontecerá: o treinador de Monserrat acaba por se demitir ao negar ao poder político a decisão de escolher os titulares da selecção, enquanto do outro lado existe a rápida contratação de um treinador profissional holandês tão só morre o antecessor no cargo.
As cautelas dos asiáticos têm alguma razão de ser: em anterior confronto internacional a sua selecção fora cilindrada pela do Koweit por 20-0.
Chega a semana do jogo, quando o campeonato do Japão já vai bastante avançado. As equipas treinam, embora os visitantes padeçam de uma intoxicação alimentar, que lhes prejudica a preparação.
Quem não falta à preparação são os apoiantes das duas equipas, todos butaneses, mas unidos no entusiasmo em gritarem por quem estão incumbidos de suportar.
No dia do jogo a notícia daquele encontro singular já apareceu nos jornais de todo o mundo, que não são muito simpáticos para qualificar as duas equipas. Mas o jogo tem em entusiasmo - às vezes demasiado exagerado - o que lhe falta em técnica futebolística. E o Butão ganha o seu primeiro encontro internacional por 4-0.
No rescaldo recupera-se algo do clima pretendido com a taça em disputa a ser partilhada e com a consagração de todos quantos tinham participado no jogo.
É altura de concluir o filme com as pessoas mais díspares a darem uns toques na bola, um singelo objecto de diversão que, provou-se, é capaz de criar cumplicidades além fronteiras...

domingo, novembro 26, 2006

MARIANNE KAPFER: «PAISAGENS INDUSTRIAIS» (2006)

Bernd Becher começou por pintar e desenhar edifícios e fábricas, que sabia estarem abandonados e em vias de destruição.
Em 1957 passa a recorrer à fotografia por ela implicar uma maior objectividade e precisão ao seu trabalho.
Frequenta a Academia das Belas Artes de Dusseldorf e encontra Hilla Wobeser.
Juntos, encetam um trabalho organizado em séries, recenseando sistematicamente os castelos de água, os silos, os altos fornos, os poços das minas, os gasómetros, etc.
Elaboram um protocolo quanto a captação rigorosa das imagens, que se manteve ao longo das décadas: a construção é colocada no centro da imagem de uma perspectiva ligeiramente elevada e banindo pessoas, nuvens, fumos e sombras. A luz deve ser mais difusa.
A maioria dos locais fotografados na Alemanha, em França, na Bélgica, no Luxemburgo e nos Estados Unidos transformaram-se completamente. Mas fica deles a memória, graças às imagens dos Becher.

ARNOLD FANCK: «A MONTANHA SAGRADA» (1926)

Diotima é bailarina. Apaixonada, ela dança por todo o lado, mormente junto ao mar aonde ela capta a energia da espuma das ondas.
Procurando novas sensações ela parte para a montanha. Numa estação de desportos de Inverno ela trava conhecimento com Karl e Vigo, dois amigos apostados em aproveitar o tempo para esquiar e subir às montanhas em redor.
Ambos apaixonam-se por ela, descobrindo essa coincidência numa escalada a dois, que acaba de forma trágica. Apesar dos esforços de Diotima para ir em seu socorro…
Lá no alto, na montanha, os céus enevoados, os glaciares ameaçadores, as fendas impressionantes e as silhuetas humanas perdidas na imensidão são as características do cinema de Arnold Fanck, já então um mestre do filme de montanha, género por ele criado desde o início da década de 20.
Os seus primeiros filmes atraíram muito rapidamente a atenção do público alemão, que busca no regresso à natureza uma forma de diversão para o clima político e económico da época.
Entre os seus admiradores está Leni Riefenstahl, uma jovem bailarina para quem ele concebe o papel de Diotima. A colaboração entre ambos prosseguirá durante mais cinco filmes, todos eles dedicados ao tema da montanha: «O Grande Salto» (1927), Prisioneiros da Montanha/ O Inferno Branco de Piz Palu» (1929), «Tempestade no Monte Branco» (1930), «Embriaguez Branca» (1931) e «S.O.S. Iceberg» (1933).
É durante a rodagem de «A Montanha Sagrada», que Leni Riefenstahl começa a interessar-se pela carreira de realizadora. Os filmes de Arnold Fanck, que mostram os poderes irracionais da natureza sobre o homem, foram classificados como precursores do nazismo.
Leni Rifenstahl será a sua representante oficial com «Os Deuses do Estádio».

O MARTÍRIO DE UMA AVÓ

O que terá levado Fátima Al Najar a oferecer-se para morrer enquanto mártir do seu povo?
Aos 64 anos esta avó de 43 netos já deverá ter sentido muita dor em si, nos seus e nos seus vizinhos.
Só assim se compreende que se tenha convertido num símbolo dos palestinianos em luta contra as agressões sionistas. Como se doravante, depois de mulheres e crianças terem chegado à primeira fila dos que enfrentam o exército israelita, também os mais velhos não fiquem isentos da suspeita de constituírem arma de destruição letal de todos os seus agressores.
Por muito que nos repugne o terrorismo cego, como não entender as razões dos que nele encontram única forma de expressão dos seu desalentado sofrimento?

OS PLANOS DE UM ARRIVISTA

No «Diário Económico» o comentador Raul Vaz diz que «sempre que surge uma oportunidade. Durão Barroso reaperece. Em Portugal, onde pensa continuar a sua carreira política. Uma conferência, uma exposição, a celebração do segundo aniversário da sua Comissão…»
Eu que conheci tal personagem no Liceu de Almada nos idos anos 70, quando no seio de uma geração de colegas fadados para virem a ser todos brilhantes e capazes de virarem o mundo do avesso, ele passava completamente despercebido na sua já então gritante falta de ideias próprias, criei a seu respeito uma antipatia corroborada nas décadas seguintes.
No MRPP ele era o exemplo típico do provocador infiltrado, que justificaria as dúvidas de quem via nesse maoísmo a presumível influência de serviços secretos estrangeiros.
Quando o seu carreirismo no PSD/PPD o levaria a primeiro-ministro nunca nele se veria qualquer capacidade para - apesar da maioria absoluta garantida na sua coligação com Paulo Portas - qualquer intenção nem capacidade para empreender as imprescindíveis reformas agora assumidas por José Sócrates.
A sua cinzenta mediania prossegue na Comissão Europeia para onde se candidatara - segundo o livro agora publicado pelo seu comparsa Santana Lopes - quando supostamente andava a defender uma candidatura alheia.
Tudo em Durão Barroso lembra a mediocridade dos arrivistas, que utilizam os menos escrupulosos meios para almejarem mordomias para as quais os seus talentos jamais chegariam em condições normais. Que ele se ande por aí a preparar para eventuais futuros políticos no país só nos deve deixar alerta. Para jamais deixarmos esquecer a quem nos possa ouvir que esse personagem político esteve um dia ao leme do país e, vendo-o em tormentosas dificuldades logo se apressou a saltar para fora dele…

segunda-feira, novembro 13, 2006

SÃO, DE FACTO, TEMPOS INTERESSANTES

Se é certo que a governação de Sócrates não entusiasma - ainda não consegue transmitir a iminência de tempos melhores em que se fundamente as esperanças individuais - há uma credibilidade do que propõe como via de acesso a menores dificuldades. Mas, qual Nanni Moretti, também gostaria de ouvir dos lábios do primeiro-ministro algumas ideias de esquerda com maior frequência. Vale, por agora, uma completa crise de imaginação de uma direita espoliada de muitas das suas estratégias. E quando as críticas vêm enunciadas por Miguel Frasquilho fica-se com a noção de uma completa impreparação do PSD para sugerir alternativas mais consistentes. No jornal citado algumas linhas acima, a Helena Garrido comentava alguns dias atrás:
«A ideia de avaliar a evolução da despesa com valores absolutos, como ontem vimos por parte de um responsável do PSD, com formação no domínio da economia, é lamentável. Não é possível acreditar que alguém considere viável reduzir o peso do Estado na economia com diminuições efectivas nos gastos do Estado. Se aquilo a que vamos assistindo nas ruas com o que está a ser feito é o que é, com manifestações e greves, como seria se um qualquer Governo decidisse reduzir mesmo os gastos?»
Outra demonstração de falta de credibilidade do PSD tem a ver com o comportamento do seu líder, Marques Mendes a respeito da Madeira: esquecendo-se de quando foi desprezado e até mesmo insultado por Alberto João Jardim apressou-se a ir ao arquipélago apoiar o despesismo do Governo Regional, desculpabilizando ao correligionário o que ao Governo critica. Um comportamento de troca tintas, que pressagia um funeral político num futuro próximo.
Mas se a política de José Sócrates não evita a tremenda crise de emprego, que afecta não só os trabalhadores com menores qualificações académicas, mas também licenciados e bacharéis, não existem grandes alternativas de esquerda para ela. Vivemos tempos interessantes, na acepção de Hobsbawn, em que se podem prever graves crises políticas e sociais, mas ainda se não encontraram condições para lhes dar a resposta mais eficaz.
Não é com esta comunicação totalmente controlada pelos grandes grupos financeiros, que os cidadãos eleitores irão ganhar a consciência ideológica necessária para se furtarem às armadilhas semeadas na informação disponível. Que os leva a assumir como bons certos estereótipos no mínimo polémicos, como o do completo apagamento de conceitos marxistas…
Ora, eu defendo claramente a exequibilidade de surgir um marxismo reformulado e actualizado, que abra caminhos para sociedades mais justas. Falta só pensá-lo, reenquadrá-lo nos dias de hoje e implementá-lo de uma forma mais bem sucedida que nos diversos países ex-comunistas.
Vem a propósito retomar uma velha, mas actualíssima, citação de Abraham Lincoln:
«É possível enganar toda a gente durante algum tempo, e mesmo alguma gente durante todo o tempo, mas não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo.»
Lá virá o tempo em que esta aparente aceitação passiva perante os axiomas capitalistas - e das suas cruéis consequências - conhecerá uma inflexão determinante sobre o que será o conceito de Democracia na segunda metade do Século XXI.
A citação de Abraham Lincoln aplica-se, igualmente, ao sucedido nas eleições norte-americanas: provando como as opiniões públicas são muito voláteis a aceitação quase total das políticas de George W. Bush à época da invasão do Iraque deu lugar à sua maioritária rejeição. Dizia António José Teixeira a este propósito no editorial do «Diário de Notícias»:
«Censurar um presidente em tempo de guerra não está na tradição americana. Se aconteceu agora é porque os americanos estão fartos de guerra e não acreditam na sua justificação. O descrédito da Administração Bush é evidente.»
Para a derrota total de tão sinistra personagem só falta impor às novas autoridades iraquianas a não aplicação da pena de morte sobre Saddam Hussein, já que os factos estão a demonstrar à saciedade o erro em que lavrou todo o Ocidente ao removê-lo do poder em Bagdad. Não teria morrido tanta gente, nem tanta miséria teria acontecido, se tivesse havido quem demonstrasse a Bush, Blair, Aznar e Barroso, que os interesses das Enrons, Halliburtons ou Bechtels não justificavam uma agressão de que só aproveitariam os terroristas.
E, como escreveu Jorge Coelho:
«Faz todo o sentido que países e movimentos ocidentais se mobilizem para que a sentença não seja executada. Os valores da nossa civilização não se coadunam com a pena de morte. Apesar de alguns silêncios, esta tese começa a ganhar força e temos de a fazer valer junto das autoridades iraquianas. Não é para isto que soldados europeus andam a morrer em solo iraquiano»

domingo, novembro 05, 2006

DANIEL BARENBOIM EM LISBOA

Assumo uma simpatia justificada pelo maestro e pianista Daniel Barenboim. Recordo-o há muitos anos, quando ele era ainda uma jovem promessa e vivia com a violoncelista Jacqueline du Pré, com quem está a actuar na imagem da página anterior. Sobre o drama, que ambos partilhariam até à morte dela, de nada sabia, sendo-me necessário o filme com a notável Emily Watson para perceber quanto sofrimento ele conhecera naquela que foi uma relação demasiado breve e complexa.
Talvez porque contactou de muito perto com o martírio, Daniel Barenboim tem revelado uma grande generosidade ao longo da sua carreira. Os esforços para um diálogo israelo-palestiniano atestam-no e os seus espectáculos com a Orquestra Divan têm um carácter simbólico, que poderá vir a frutificar na criação de uma cultura mútua de aceitação das semelhanças e das diferenças. Para além da irrepreensível qualidade artística, que Barenboim impõe ao projecto.
Mas a sua carreira não se esgota nessa iniciativa partilhada com Edward Said e é tão normal vê-lo a dirigir as mais prestigiadas Orquestras como a limitar-se ao papel de solista em Orquestras por outrem dirigidas.
foi assim na Gulbenkian na semana passada, quando Barenboim presenteou os portugueses com mais um excelente espectáculo a acompanhar a Orquestra Gulbenkian dirigida por Lawrence Foster.

sábado, novembro 04, 2006

FÓSSEIS E MORAIS DE MOCRÁTICAS

Um estudo de Augusto Santos Silva, actual ministro dos Assuntos Parlamentares, a respeito da composição sociológica dos militantes socialistas, deu para concluir três aspectos principais:
· O grupo etário com maior dimensão é o dos homens de meia-idade, não sindicalizados e com formação académica limitada;
· As mulheres estão a surgir com maior frequência, já que, desde 2000, um terço dos novos militantes é do género feminino;
· Comparando as formações académicas de homens e mulheres socialistas, estas últimas possuem mais anos de escolaridade, que aqueles.
Conclui-se, pois, que estão a surgir condições para um partido mais culto e com uma sensibilidade mais apurada, que estigmatize muitos dos vícios aí criados por toda uma geração de militantes, cujo principal estímulo para a cidadania resultou de um anticomunismo primário, que ainda se revela de forma alarve em muitos dos que tomam a palavra em assembleias e reuniões internas do Partido.
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Esta semana enquanto António Lobo Antunes proferia uma atoarda do mais primário anticomunismo («Não entendo como é que se pode ser um comunista. Racionalmente, não entendo como é que se pode pertencer àquele fóssil, que ainda continua a respirar de vez em quando»), o objecto dos seus inconfessados ódios, José Saramago, manifestava ao «Nouvel Observateur» o orgulho em continuar a acreditar no futuro das suas ideias políticas: «O comunismo? Nunca existiu. Não se sabe bem o que é. Há ideais e princípios. Mas estes princípios foram desnaturados logo que começaram a ser aplicados. Não se pode, pois, dizer que o comunismo é isto ou aquilo porque, na realidade, nada se sabe dele. Na União Soviética, o comunismo era um simples capitalismo de Estado. E a China vai no mesmo caminho com a cumplicidade das potências ocidentais, tão democráticas, que aplaudem e dizem bravo, bravo. É tenebroso.»
Mas a alternativa não é melhor, se verificarmos o que constitui a «moral democrática» dos Estados Unidos. Jacques Julliard comenta a seu respeito, que «durante dois séculos , os Estados Unidos permitiram-se dar lições de moral e de democracia ao resto do mundo. O seu território estava ao abrigo da violência exterior e não havia que pagar os custos da sua suposta virtude. Desde o 11 de Setembro, acabou o excepcionalismo americano. Os Estados Unidos normalizam-se. E é triste que seja pela porta pior».
Uma porta que, aprovada pelo Senado e pelo Congresso, legitima o uso da tortura e da prisão preventiva ilimitada sob o falacioso argumento da ameaça terrorista.