quarta-feira, setembro 24, 2014

LIVRO: «Oona & Salinger» de Frédéric Beigbeder

Era François Truffaut, à época crítico de cinema dos míticos «Cahiers», quem dizia que de filmes só se deveria escrever sobre aqueles de que gostávamos.
Reportando essa frase ao universo dos livros, sinto-me tentado a violar esse princípio para dizer mal de um livro que não li … nem conto vir a ler.
Frédéric Beigdeber é o tipo de intelectual francês que me irrita e faz ter saudades de um tempo que não vivi suficientemente porque não tinha ainda idade para isso: aquele em que de França vinham os ecos das opiniões e das obras de Sartre ou de Camus.
À profundidade das reflexões de tais mestres do pensamento, sucedeu-se hoje em dia uma vaga de opinadores cabotinos, que vão percorrendo as tribunas dos jornais e os estúdios de televisão para enunciarem umas vulgaridades entoadas com a prosápia de quem julga estar a distribuir pérolas a porcos. Ora, Beigdeber ou Bernard Henri Lévy são exemplos paradigmáticos dessa geração de supostos intelectuais, que causam mossa por haver lamentavelmente quem os leve a sério.
Ainda não há muitos dias Lévy via-se em palpos de aranha num programa da ARTE para explicar porque tinha sido melhor derrubar Kadhafi (e não é segredo de Estado as suas pressões de então sobre Sarkozy!) do que evitar esta Líbia a contas com o caos fundamentalista?
«Oona & Salinger», o romance assinado por Beigdeber nesta nova temporada literária, poderia ser interessante se tratasse literariamente o encontro entre a filha de Eugene O’Neill (e futura esposa de Charles Chaplin) e Jerry Salinger, um dos romancistas mais celebrados da literatura norte-americana do século XX.
Porém, se ao folhearmos o livro, encontramos “mimos” do género: “a angústia, o álcool, a solidão infantil são grandes ativos para a carreira do escritor, mas constituem os maiores defeitos para um pai de família” ou “Encontrar Chaplin em 1942, era como encontrar hoje alguém tão popular como Rihanna e tão poderoso em Hollywood como Steven Spielberg” podemos confirmar que estamos ao nível de uma margarida rebelo pinto (longe vá o agoiro!).
É certo que França continua a contar hoje com escritores muito meritórios - Le Clézio, Modiano, Orsenna, Quéfflec - que não merecem ser secundarizados só porque os Beigdebers desta vida conseguem ter uma imprensa fútil, que nos quer fazer crer que são quase génios...

segunda-feira, setembro 22, 2014

TEATRO MERIDIONAL: «Pedro Páramo» de Juan Rulfo

Numa estrada desolada da província de Jalisco, Juan Preciado e o seu burro dirigem-se para Comala onde o pai, Pedro Páramo, é o cacique local. Para o rapaz trata-se de cumprir a promessa feita à mãe no seu leito de morte e exigir os direitos, que lhe assistiriam enquanto herdeiro da fortuna por ele acumulada.
No caminho encontra um estranho sujeito, que saberá depois tratar-se de um antigo amansador de éguas, e por ora disposto a levá-lo à aldeia.
A surpresa é grande quando dá com Comala praticamente deserta à exceção de uma velha, que o alberga por ter recebido, entretanto, o pedido da mãe, sua amiga de infância. Mais surpreendente é ainda a outra informação, que lhe dá: o homem com que viera até ali já morrera há muito tempo, sendo apenas o primeiro dos fantasmas com que Juan se cruzará daí por diante.
Mas fantasmas é algo que na cultura mexicana tem todo o cabimento ou não seja essa a civilização que celebra anualmente os seus mortos com grandes celebrações nos cemitérios?
Este ponto de partida para a mais recente peça em cena naquela que Miguel Seabra qualifica como a melhor sala de espetáculos do Poço do Bispo, constitui o tema de um dos mais importantes marcos da literatura latino-americana por ser um dos textos fundadores do “realismo mágico” de que Gabriel Garcia Marquez viria a ser um dos seus máximos cultores.
Ao contrário do que estamos habituados em que uma história tem um fio condutor mais ou menos cronológico, Juan Rulfo, o autor do livro publicado em 1955, assume uma desordem deliberada com justaposições temporais em que cirandamos por vários tempos até eles deixarem de ter qualquer importância e assistirmos ao percurso de Pedro Páramo como se ele vivesse num limbo sem início nem fim.
Por outro lado se começávamos por ver em Juan Preciado o protagonista da história, não tardará que ele se transforme em mais um fantasma dos muitos, que assombram o palco do Meridional.
Pedro Páramo é quem sobressairá na sua arrogância e cupidez, capaz de conquistar vastos domínios graças às alianças estabelecidas (uma delas resultara no efémero casamento com a mãe de Juan), a muitas formas de intimidação que chegavam ao homicídio e à capacidade para virar a seu favor as aparentes contrariedades do destino. Por exemplo, quando a Revolução dera esperanças a quantos o tinham odiado, ele conseguira virar a relação de forças comprando os «defensores dos pobres» e colocando-os ao seu próprio serviço.
Comala submetera-se aos seus caprichos de tirano e aos seus apetites sexuais. Por isso mesmo a sua morte significará o fim da própria cidade. Com o paradoxo de ele só acabar vencido pela própria morte, passando os derradeiros dias assombrado pela imagem da única mulher que amara.
Aparentemente «Pedro Páramo» teria pouco a ver com as nossas preocupações atuais. Mas, na realidade, estão nesta história muitas das grandes questões, que nos preocupam no dia-a-dia: o poder exercido sem escrúpulos, a passividade dos humilhados e ofendidos, as contradições dos supostos «defensores do povo» para não falar das preocupações metafísicas ligadas à vida e à morte.
Soturna ao longo das suas quase duas horas de duração, a peça conta com a interpretação superlativa de todo o elenco com destaque para Ivo Canelas, Nuria Mencia,  Carla Galvão, Romeu Costa e Natália Luisa.
A cenografia é básica, que os tempos não estão para extravagâncias e, ademais, num grupo sempre apostado na itinerância, até se compreendem as soluções facilmente desmontáveis e transferíveis para outros palcos, nacionais ou estrangeiros.
Até 12 de outubro fica a oportunidade para assistir a mais uma excelente demonstração da vitalidade do Teatro Meridional...

Street Art: «Disturb» nas noites parisienses

Frequentemente o foto-repórter Pierre Terdjman e alguns amigos percorrem a noite de Paris para operações relâmpago: afixam nas paredes da cidade algumas cenas de guerra em formato gigante colhidas no Iraque, na Ucrânia, na República Centroafricana e noutros teatros bélicos.
O objetivo é o de alertarem a opinião pública para essas realidades e para a situação precária dos que fazem a sua cobertura jornalística.
É que, par testemunharem o que se passa nas diversas latitudes, o jornalista, e sobretudo o foto-repórter põe a vida frequentemente em perigo. Sempre ameaçados de assassinato ou de rapto, eles têm condições de trabalho, e sobretudo de remuneração, que se estão a degradas a olhos vistos.
Mal pagos e sem seguros são eles as primeiras vítimas dos cortes orçamentais nas redações.
A iniciativa «Disturb» de Pierre e dos seus amigos consiste em impressionar com as imagens afixadas no espaço urbano como forma de protesto!

domingo, setembro 21, 2014

CINEMA (OU UMA ESPÉCIE DE): «Somebody» de Miranda July

E se recebêssemos no nosso smartphone uma mensagem para procurarmos à nossa volta um homem ou uma mulher com determinadas características e fôssemos incumbidos de lhe transmitir a vontade de rutura do seu ou da sua parceira?
É esse o novo projeto artístico da surpreendente Miranda July, cujos filmes nos surpreenderam nos últimos anos: ela criou um novo serviço de mensagens por smartphone tão singular quanto ela mesma o é!
A aplicação «Somebody» funciona assim: escreve-se um texto a um amigo, a mensagem é enviada, mas em vez de chegar ao telefone dele, vai ser recebida por “somebody”, que está por perto. Será este quem ficará incumbido de transmitir a mensagem ao verdadeiro destinatário no tom definido por quem a emite: a chorar, encolerizado, com um beijo, etc.
Cineasta, escritora e atriz. Miranda July é uma artista plural, que vive em Los Angeles. Interessa-a sobretudo a relação dos novos meios de comunicação com a esfera privada. O que a levou a publicar no seu blogue as fotografias dos pais a beijarem-se apaixonadamente ou emails muito íntimos trocados com amigas como Lena Dunham ou Kristen Dunst…
Ela entusiasma-se, sobretudo, em provocar reações nos outros com situações peculiares, umas vezes embaraçantes, outras entusiasmantes, mas sempre muito humanas.
«Somebody» enquadra-se na lógica dos seus trabalhos anteriores, podendo-se considerar que esta aplicação é meio humana, meio app: ousar abordar um desconhecido para lhe transmitir a mensagem da parte de alguém que também não se conhece, eis o maior desafio de alta tecnologia que se pode conjeturar... 

DOCUMENTÁRIO: Os apaixonados pela Laguna de Arcachon

Estive em muitos sítios de quase todos os continentes, que concluí não ter visto com a necessária atenção e conhecimento, por me faltar então a informação adequada para que melhor interpretasse quanto tinha ao alcance do meu olhar.
Recuperei essa ilação, já há muito pressentida, ao ver este documentário de quase duas horas sobre a Bacia de Arcachon, uma zona lacunar perto de Bordéus.
E, no entanto, ela já me ficara como experiência vivida  inolvidável, sobretudo quando estivéramos na base da duna de Pyla e a quiséramos ascender a partir da praia.
O esforço demorara uma boa meia hora até nos julgarmos chegados ao seu cume. Só que, vencido esse exigente declive, deparámo-nos com outro cume, ainda mais acima e para o qual já não nos sobrou vontade para prosseguir no afã de alpinistas.
Comodamente pegámos no carro, fomos dar a volta pela estrada que conduzia ao verdadeiro cume e de lá pudemos apreciar Cap Ferret, do outro lado da laguna, e todo o delta até ao Atlântico.
A duna de Pyla aparece em todo o esplendor logo no primeiro quarto de hora deste documentário, que a ela regressa amiúde ou não se trate de um dos fenómenos mais singulares da região. Até por constituir um dos principais elementos da enorme dinâmica, com que ventos, ondas e outras formas de erosão vão redesenhando continuamente a paisagem.
Terá sido essa alteração progressiva, que fez afundar a dez metros de profundidade as muralhas ali levantadas pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial e que integravam o ambicioso Muro do Atlântico.
Exemplo dessa ignorância perante o que estávamos a ver não imagináramos que os vestígios ainda ali encontrados à superfície das areias da praia testemunhavam um dos momentos determinantes da História da Segunda Guerra Mundial.
Na altura a laguna, que ocupa umas dezenas de quilómetros quadrados, ainda não merecera o reconhecimento de parque natural marítimo por abrigar uma enorme variedade de paisagens, de espécies animais, de atividades e de pessoas ancoradas à realidade dessa bacia.
Durante um ano a equipa de filmagens, dirigida por Philippe Lespinasse andou a entrevistar uns quantos apaixonados por esse mundo fechado, quase cingido a si mesmo. Encontramos, assim, os carpinteiros incumbidos de construir belíssimas vivendas em madeira com recurso a materiais apenas dali extraídos e que, à hora do almoço, vão praticar surf.
Há também o fotógrafo Vincent Scotto, que percorre essas paisagens a partir de um pequeno avião donde extrai imagens de uma beleza quase irreal. E o arqueólogo Philippe Jacques, apostado em resgatar da duna os vestígios das populações, que aí viveram na Idade do Ferro, enquanto ao mesmo tempo os colegas especializados em arqueologia marinha exploram os bunkers do III Reich.
Outro «muro» é o dique que Benoit Bartherotte anda a tentar construir no lado de Cap Ferret para estancar a erosão do litoral e preservar o seu cantinho paradisíaco, nem que para tal já tenha gasto entretanto a fortuna acumulada quando rivalizava com Yves Saint Laurent no mundo parisiense da alta costura. E não esqueçamos ainda os produtores de ostras, que continuam a dar vida a uma das atividades mais emblemáticas da região.
Como costuma acontecer nos filmes transmitidos pelo programa «Thalassa» da televisão francesa, este muito se recomenda. 

sábado, setembro 20, 2014

FILME: «Alentejo, Alentejo» de Sérgio Tréfaut

Embora este seja o (des)governo, que pior tem tratado a Cultura em geral, e o cinema em particular desde o 25 de abril, os acasos da distribuição cinematográfica permitem-nos ter ao mesmo tempo nos ecrãs nacionais os mais recentes filmes de João Botelho e de Sérgio Tréfaut.
Sobre o primeiro ficou ontem registado neste blogue o meu entusiasmo. Sobre o filme de Sérgio Tréfaut o entusiasmo não é menor, porquanto ele reflete maravilhosamente a riqueza do cante alentejano e das idiossincrasias ligadas ao povo que o criou.
Naturalmente que não consigo ser objetivo nesta opinião: cá em casa, desde que tivemos a oportunidade de conhecer o Sérginho, quando ele era ainda um adolescente acabado de chegar ao Portugal de Abril, a consideração pelo seu talento e entusiasmo só se foi consolidando à medida, que lhe íamos conhecendo as sucessivas obras.
Também o ligamos, desde sempre, à personalidade ímpar do tio, esse Urbano Tavares Rodrigues, que sempre nos motivou uma enorme admiração não só pelo seu talento de escritor, mas também pela generosidade de que sempre deu mostras para quem teve a oportunidade de o conhecer pessoalmente.
É claro que a empatia do realizador com o Alentejo torna-se perfeitamente natural pelo facto de ser esse o espaço natal desse tio e do pai, Miguel, e que dele nunca se terão desviado sentimentalmente por muito que o futuro os tivesse sedentarizado em Lisboa ou noutras grandes cidades latino-americanas ou europeias.
E há ainda a memória íntima de um passado distante, quando ainda criança vivia em frente à igreja do Monte da Caparica - então centro da aldeia para onde estavam a convergir mutos alentejanos dispostos a procurarem emprego na grande Lisboa - e numa taberna diante das janelas dessa casa, esse tipo de canto começava a desfiar-se ao fim do dia e ia avançando pela calada da noite.
São, pois, muitas as razões subjetivas para mais do que gostar do filme de Sérgio Tréfaut. Mas esse juízo de absoluta rendição manter-se-ia mesmo que elas não existissem. É que a beleza de tal canto coletivo espelha a essência de um povo sofrido, a quem o fascismo tanto causticou e que nele encontrou forma de catarse e de revolta. E a câmara fixa-se nos rostos, ouve-lhes as palavras e as canções, mas também se atarda na beleza da paisagem feita de uma paleta de cores e de tons sem fim e de linhas curvas donde se recortam as azinheiras, os sobreiros e as searas.
É, pois, um filme para ver mais do que uma vez. Porque, além do propósito utilitário de registar uma cultura em riscos de desaparecimento, consegue abrir campo à esperança dos que pela sua juventude já estão distanciados das origens geradoras desse lamento cantado, e se mostram decididos a pegar no testemunho não o deixando morrer! 

sexta-feira, setembro 19, 2014

FILME: «Os Maias» de João Botelho

Houve um tempo em que frequentávamos o Quarteto para dar alimento aos nossos gostos cinéfilos. Depois, as salas de Pedro Bandeira Freire fecharam, mas passámos a contar com as do King para escaparmos ao tipo de cinema da pipoca e da coca-cola.
Encerradas as salas de Paulo Branco junto à avenida de Roma quase ficámos privados desse tipo de cinema incompatível com a lógica dos centros comerciais.
A abertura do Cinema Ideal, ali ao Camões, veio preencher essa lacuna e tornar-se doravante no roteiro obrigatório de quem aprecia os filmes enquanto expressão artística e não como se se tratasse de mais uma mercadoria.
Não admira que esteja agora ali em exibição a versão longa de «Os Maias», realizado por João Botelho.
Embora seja possível encontrar versões mais curtas noutros ecrãs, aquela que verdadeiramente nos interessa é esta de mais de três horas de duração em que  o realizador tem mais tempo para cumprir o propósito de seguir fielmente a intriga descrita por Eça de Queirós. E, porque o orçamento não era propriamente elástico, Botelho socorreu-se do pintor João Queirós para a criação de cenários, que dão um ar teatral ao filme, mas desmentido pelo cuidado com que o encadeamento de enquadramentos é estabelecido. Ao contrário do que ouvi a outros espectadores, não estamos perante «teatro filmado», mas sim face a Cinema com c grande.
Para mim, que lera a obra literária há uns bons quarenta anos, o filme representou mais do que a oportunidade para recordar o que a usura do tempo já apagara. Mas, mais do que isso, foi possível reencontrar a cultura da Lisboa dos finais do século XIX e o humor, com  que Eça vai  compensando o lado mais dramático da intriga romântica. Imperdível a cena em que Carlos Eduardo e João da Ega estão prostrados pela revelação do incesto e, quem se encarregara de a revelar àquele - o procurador da família Maia - entra e sai da sala preocupado por não conseguir encontrar o seu chapéu.
Tem havido quem reconheça que, apesar de ter passado quase século e meio sobre a época em que Eça situa grande parte da história, o país não mudou assim tanto: a cada passo tropeçamos num Dâmaso, que se mostra tão arrivista para poder almejar um estatuto social mais elevado do que merece, quanto intriguista para o manter; ou um público inculto, que é capaz de ir à ópera ou a um concerto para se dar ares de sofisticação, mas capaz de reagir estupidamente quando julga ouvir como tema de uma peça o termo «pateta» (e não «patética») e reage como se o estivessem a insultar.
O mundo descrito nos «Maias» é feito de homens, que corneiam os amigos ou são por eles corneados, de mulheres, que dependem financeiramente dos maridos ou dos amantes, mas iludem a rotina das suas vidas aborrecidas com as aventuras extraconjugais e em que meio mundo acorre ás salas do Chiado para ouvir quem tem dotes de retórica, mesmo que nada faça sentido por trás dos seus discursos palavrosos. Até porque estamos num tipo de sociedade onde o que importa é ver e ser visto!
É também um mundo em transição dos valores de uma aristocracia rural, muito enfeudada na sua interligação ao clero serôdio, para os das modas vindas de Paris, por muito que elas em nada condigam com a identidade de quem acriticamente as assimila e reproduz.
«Os Maias» garantiram, pois, umas horas de grande prazer tanto mais que representa o melhor filme de quantos vi de João Botelho, reencontrando-se algo do humor de «O Fatalista», que ele realizara em 2005. em suma, uma obra que muito se recomenda... 

quinta-feira, setembro 18, 2014

FILME: «O Nevoeiro» (1980) de John Carpenter

Já passaram trinta e cinco anos sobre uma das grandes vergonhas por que passei no cinema: estava no «Nimas» a ver descontraidamente o mais recente filme de John Carpenter, quando soltei uma exclamação de susto na cena em que os fantasmas vêm matar a avó que tem à sua guarda o filho da locutora de rádio de Antonio Bay. Que a tudo assiste a partir do farol donde emite o seu programa!
Se por norma costumo ficar sentado na sala até todo o genérico final desfilar perante os meus olhos (forma tácita de reconhecimento para com quem «fez» o filme) nessa tarde fui mesmo até à última legenda e até ao acender das luzes na expectativa de não vir a ser reconhecido por quem me ouvira tal expressão de surpresa.
E, no entanto, já assimilara a ideia de estar perante uma história com fantasmas dispostos a aterrorizar uma pacata aldeia de pescadores para se vingarem do que os seus antepassados lhes teriam feito. Sabia de sobra, que as cenas de terror marcariam presença ao longo de uma boa parte da hora e meia, que ele durava.
A história passava-se em Antonio Bay, que estava prestes a celebrar o primeiro centenário da sua fundação, muito embora os seus habitantes ignorassem ou quisessem esquecer que a cidade surgira e prosperara à conta dos salvados dos navios, que propositadamente fizera naufragar. Os fantasmas, que atacavam a cidade, trazidos pelo nevoeiro, mais não eram do que as vítimas de então…
Carpenter conseguiu com «O Nevoeiro» um dos seus melhores filmes, inspirando-se em Edgar Allan Poe, Val Lewton e Robert Louis Stevenson. Nunca se lhe viu melhor talento em utilizar o grande ecrã para explorar as diferentes estratégias para suscitar o medo e a inquietação a partir de quase nada: o vento, a noite e, claro, o próprio nevoeiro.
Por isso mesmo este filme não admite comparação em termos de qualidade com uma remake mais recente, onde se recorria abundantemente a inócuos efeitos especiais. Ademais, a versão de Carpenter contava com Janet Leigh, com Jamie Lee Curtis, com Adrienne Barbeau e… sobretudo, com dois dos melhores atores norte-americanos em papéis secundários: John Houseman e Hal Holbrook!



LEITURAS: «1Q84» de Haruki Murakami - 1º volume 1 - Apresentando Aomame

Nos últimos anos tenho lido vários romances de Haruki Murakami, não tanto pelo tipo de conteúdo fantástico nem pelo estilo vulgar, mas sobretudo por corresponder a um tipo de fenómeno literário a que convém estar atento. É que trata-se de uma moda, que acaba por condicionar algumas das linhas de força para que tende a evoluir a forma de encarar a Literatura. Já não tanto como obra de arte, mas como mercadoria, que se vende nos hipermercados ao lado das cebolas e dos detergentes.
Quando surgiu «1Q84» anunciava-se a obra mais ambiciosa do autor, até porque prometia-se a apresentação na forma de uma trilogia.
Hoje, quase a acabar a leitura do 2ºvolume, posso considerar que a montanha pariu um rato. Como sempre em Murakami lê-se facilmente, mesmo quando certos capítulos parecem ali inseridos para «encher chouriços», mas não existe nenhum argumento passível de justificar o entusiasmo por algo de inovador.
Tudo começa com uma jovem de cerca de trinta anos, Aomame, a inquietar-se pela possibilidade de chegar atrasada a um encontro no bairro de Shibuya já que a autoestrada para Tóquio parece assaz congestionada. Nem sequer a Sinfonietta de Janacek, transmitida pelo autorrádio do táxi, a parece consolar. Por isso o motorista dá-lhe uma sugestão, que ela acata: sair do carro e, através de umas escadas de emergência, aceder à rua situada num nível inferior ao da estrada e onde poderá encontrar uma paragem de comboio. Mas ele avisa-a:
“Só mais uma coisa (…) Não se esqueça do que lhe digo: as coisas não são o que parecem”  e acrescenta: “E quando uma pessoa dá um passo e faz uma coisa desse género [algo fora do comum] é provável que o cenário quotidiano … como hei-de dizer? … pareça mudado. As coisas à nossa volta podem revelar-se um pouco diferentes do que é costume. Eu próprio já passei por essa experiência! Contudo, não se deixe iludir pelas aparências. A realidade é apenas uma. (pág. 21)
Trata-se de conselho asizado, já que, sem disso se dar conta, Aomame irá mudar da realidade de 1984 para outra, paralela, fixada em 1Q84.
A caracterização física do rosto de Aomame surge pouco depois enquanto caminha rapidamente na direção da saída de emergência: “Cerrados com força, os seus lábios não sabiam o que era um sorriso, a não ser que fosse absolutamente necessário. Os olhos mostravam-se frios e vigilantes, fazendo lembrar um marinheiro de vigia na coberta de um navio. (…) Graças a essas características, o seu rosto não causava boa impressão.” (pág. 24)
“Quando acontecia alguma coisa suscetível de a obrigar a franzir a testa ou fazer uma careta, as suas feições mudavam de forma dramática. Os músculos da face crispavam-se, repuxando-lhe o rosto em todas as direções ao mesmo tempo e colocando em evidência a falta de simetria dos seus traços. Formavam-se-lhe profundas rugas, os olhos ficavam de repente mais próximos e encovados, o nariz e a boca mostravam-se violentamente deformados, o queixo retorcia-se todo, os lábios arrepanhados deixavam à mostra enormes dentes brancos.
De um momento para o outro, como se alguém tivesse cortado a corda que prendia a máscara atrás da qual ela se escondia, transformava-se numa pessoa diferente. O espetáculo chocante da sua metamorfose deixava qualquer um aterrado, por isso, Aomame tinha cuidado para nunca franzir o cenho na presença de desconhecidos.” (pág. 25)