domingo, novembro 06, 2016

(DbD) Mistérios e histórias esquecidas

1. Quem foi Shakespeare? Os mistérios da biografia do dramaturgo de Stratford-upon-Avon só se têm adensado com os sucessivos estudos de quem o tornou foco da sua investigação. Apesar do seu nome surgir pela primeira vez em 1593, ele continua escondido dos documentos que sobreviveram da Inglaterra do seu tempo. Assim como neles não se conhecem reações à sua suposta morte em 1616.
Quinhentos anos depois continuamos a ver adaptações mais ou menos engenhosas das suas peças sem as ajuizar criadas pelo comerciante William Shaksper, em quem muitos apostaram tal responsabilidade. Porque, mesmo faltando os documentos consumidos nos incêndios tão comuns da época, é pouco crível a capacidade de alguém do seu estatuto ter o talento e o engenho para quase contar todas as histórias intemporais da condição humana.
Passará o tempo da comemoração e essa interrogação permanecerá no baú das que só teriam resposta se nos armássemos em detetives com possibilidades de viajarmos no tempo para encontrarmos a seiscentista Inglaterra.
Mas, entre essa possibilidade e a de irmos à procura das possíveis origens portuguesas de Velasquez, estaríamos porventura mais interessados na segunda possibilidade. Quanto mais não seja por uma questão de nacionalismo.
2. Que todas as histórias já foram contadas, repetiu-o Arturo Perez Reverte numa entrevista dada em Lisboa a propósito do lançamento de um dos seus mais recentes romances. Ele acrescenta mais: tudo o que vemos acontecer na política já aconteceu e está reportado nos livros das bibliotecas.
Por isso mesmo seria avisado que tais livros fossem lidos para neles se aprender a forma de evitar os erros, que tendemos a repetir.
3. Um assunto que parece ter regressado ao esquecimento com a azáfama noticiosa criada pelas eleições presidenciais é o dos documentos secretos de 2003, reveladores do envolvimento da Arábia Saudita nos atentados do 11 de setembro. Eles constam do relatório produzido por ordem da Administração Bush, mas foram declarados secretos e sem previsão de virem a ser conhecidos.
Não é que se trate de uma novidade, tanto mais que quinze dos dezanove terroristas eram sauditas e os seus consulados em Los Angeles e San Diego prodigalizaram-lhes apoio nos meses anteriores ao dia em causa. Mas, tendo em conta o papel das autoridades de Riade na instabilidade criada na região, mormente no apoio aos rebeldes sírios ou a uma das fações da guerra civil no Iémen, talvez a situação se alterasse com o Pentágono a ver-se obrigado a deixar cair tal aliado. 

(DL) A abdicação da felicidade em nome do sentido do dever

«Um Retrato de Mulher» é a  obra mais conhecida de Henry James por comportar argumentos com que se satisfazem os gostos dos leitores superficiais ao mesmo tempo, que os possui de sobra para interessar os mais exigentes.
James conta a história de uma bela rapariga cheia de confiança em si e no futuro, e por isso causando empatia em quem a conhece. Mas a vaidade retira-lhe discernimento e acaba por viver infeliz, ora revoltando-se com a sua “sorte”, ora submetendo-se-lhe em nome do sentido do dever.
Isabelle Archer vê estiolar-se a juventude na enorme mansão de Albany, quando a tia Touchett, tão rica quanto extravagante, a vem convidar para lhe servir de companheira no regresso à Europa.  Ela acede com tanta alegria quanto vê assim forma expedita de se livrar da corte demasiado insistente do jovem Gaspar Goodwood, por quem não se vê disposta a hipotecar a liberdade.
Na primeira etapa da viagem Isabelle e Mrs. Touchett instalam-se na casa desta última em Inglaterra, onde conhece o primo Ralph, logo atraído pela sua beleza, graciosidade e inteligência. No entanto, apesar de apaixonado, ele silencia esse sentimento por saber-se acometido de doença incurável, inibidora de qualquer esperança de perene felicidade.
Outro candidato à mão de Isabelle é um amigo de Ralph, lord Warburton, cujo futuro se adivinha risonho, mas logo rejeitado por ela não prescindir do resto da viagem pela Europa.
A morte do velho Touchett transforma-a numa herdeira rica, porque, graças à intervenção silenciosa de Ralph, cabe-lhe por testamento metade da fortuna.
Essa nova condição irá, porém, prejudicar-lhe seriamente o futuro porque a torna presa fácil da armadilha estendida por uma aventureira, a Mrs Merie, que decidida a assegurar o futuro da filha gerada na sua relação com Gilbert Osmond, fá-la encontrar-se com este e apaixonar-se.
Iludida pelo ar nobre e digno, que Osmond ostenta com frio cinismo, Isabelle aceita logo desposá-lo apesar dos conselhos de Mrs Touchett e de Ralph para que pondere bem em tal decisão.
Não tardará que descubra o logro em que caiu embora tente dar para o exterior uma aparência de felicidade. No entanto, quando Ralph a convoca para a ver uma última vez antes de morrer, ela confessa-lhe a sua infelicidade.
Quando, depois em Londres, reencontra o antigo pretendente Gaspar Goodwood, em quem pressente a disposição para ajudá-la a escapar ao esposo, Isabelle toma a decisão sobre como será doravante o seu futuro: conformada, regressa a casa em nome do sentido do dever contraído pelas suas erradas decisões, que comportam uma estranha e ambígua forma de masoquismo.



sábado, novembro 05, 2016

(DIM) O esquecimento quase como maldição

Ao pensar nas experiências no Peru a primeira imagem, que me vem à memória, é a de um começo de noite em Lima e um grande aparato de bombeiros a combaterem um incêndio com chamas vivas num prédio com alguns andares. E, no entanto, apesar dessa ocorrência, mesmo ali ao lado, numa garagem de um piso térreo com aberturas para se ver o que se passava no exterior, centenas de pares continuavam a dançar indiferentes a tudo o que não fosse o seu prazer de bailarem.
Estranho Peru aquele, onde o Sendero Luminoso acendia gigantescos slogans políticos com as fogueiras, que ateava nas encostas das montanhas circundantes à capital. Ou onde havia gente reunida em torno de quem declamava poemas numa das principais praças, ao lado dos que faziam números circenses ou vendiam banha-da-cobra.
Foram essas memórias, que «El Olvido», o filme de Heddy Honigmann rodado em 2008, reavivaram. O esquecimento não era só o meu, que retivera tais reminiscências nos esconsos da mente, mas também remete para o dos sucessivos presidentes, acusado pelo barman da primeira cena do filme como exemplos de maus cocktails, inerentes à História de um país onde os eleitos o são em atos semi-democráticos, os ditadores vão surgindo com invulgar frequência a perturbarem a ordem constitucional, e quer uns, quer outros, comungam a mesma responsabilidade por más políticas e atos de corrupção.
Por isso sucedem-se dezenas de personagens a viverem com imensa dificuldade, numa pobreza quase extrema, mas sempre procurando olhar a câmara com grande dignidade. Porque o filme de Heddy é, sobretudo, uma sucessão de rostos profundamente tristes, dos quais não é fácil conseguir que evoquem boas recordações ou emitam os sonhos, que têm.
O filme acompanha jovens, que ganham a vida em números de malabarismo nas passagens para peões face a automóveis momentaneamente parados pelos semáforos ou em horas intermináveis a oferecerem os serviços de engraxadores e a quem se senta nas praças. Muitas vezes vendo passar os manifestantes das greves gerais, que lutam por políticas mais decentes para os explorados e desvalidos.
Nas visitas a cafés, a bares e a restaurantes finos, constata-se a incongruência de uma enorme desigualdade social, porque há quem manifestamente nem sequer faça uma ideia das necessidades por que passam muitos dos seus compatriotas. Heddy acompanha alguns dos empregados, que servem essa elite - muitas vezes os que foram, são ou serão presidentes - até às suas modestas casas caóticas e por rebocar para constatar-lhes como, criados de ricos, eles sobrevivem em condições quase tão miseráveis como os vizinhos dos seus bairros pobres. Esses bairros nas mesmas encostas onde se adivinhava, nesses idos anos 80 quando ali estive, a presença do movimento maoísta.
Num café, que os antigos donos deixaram em testamento aos empregados quando morreram, há um cliente que diz para a câmara qual é o problema do Perú: apesar de tanto ter ocorrido de errado durante tantas décadas a fio, os presidentes sucessivos não parecem ter memória, nada terão aprendido com o que erraram os antecessores. E essa é a razão para Heddy ter posto no título do seu filme esse esquecimento, que funciona quase como um estigma.



(DL) Um herege nos tempos de D. João V

Teria a Inquisição dado importância aos propósitos hereges de Pedro Rates de Henequim se ele se tivesse cingido a dar a sua versão muito singular dos escritos bíblicos pelas ruas de Lisboa, tentando convencer os concidadãos da conformidade do prazer sexual com os propósitos divinos?
Quase por certo não, que o Tribunal do Santo Ofício estava mais orientado para detetar e queimar judeus do que propriamente lunáticos a quem quase ninguém dava importância.
O problema foi que Henequim quis convencer os espanhóis a apossarem-se de uma das encostas da Serra Pelada onde existiriam riquíssimas minas de diamantes e de ouro e, não sendo por eles atendido, terá procurado o infante D. Miguel em Belas para o convencer a sair para o Brasil e aí declarar a independência em relação ao reino português.
Ora o Brasil era demasiado precioso para que nele se fomentassem ideias secessionistas. É que, apesar dos carregamentos inesgotáveis, que de lá provinham, D. João V tinha um feitio tão gastador, que o Tesouro do Reino estava sempre esgotado.
Acaso sentisse alguma folga, logo o magnânimo monarca inventava um novo palácio ou convento a construir, sempre luxuriante no recurso às talhas douradas e a outros artifícios decorativos do gosto barroco.
Henequim será assim conduzido ao Palácio dos Estaus, ao Rossio, donde envia sucessivas cartas ao inquisidor-mor no sentido de, contando a sua história, convencer o cardeal D. Nuno da Cunha e Ataíde da sua inocência. Mas os meses passam e esses apelos nenhuma resposta suscitam.
Delas contemporâneas são igualmente outras missivas enviadas pelo irmão de Bartolomeu de Gusmão ao embaixador de Portugal em Paris, D.  Luís da Cunha, a quem faz autênticos relatórios do estado do rei a quem serve de secretário. Graças a tal função Alexandre de Gusmão está num ponto de observação privilegiado para testemunhar a libidinosidade do rei a quem não basta a abadessa Paula do convento de Odivelas, deitando-se igualmente com algumas outras senhoras da corte.
A vida de excessos redunda num AVC, que quase o mata, mas de que vai recuperando o bastante para fazer o balanço de tudo quanto fizera até ali.
Apesar de iluministas, e como tal críticos latentes da realidade aristocrática em que vivem, quer Alexandre, quer D. Luís da Cunha, nunca deixam de vestir a capa inerente às suas funções. E, no caso do secretário do rei, a aversão à Inquisição, que lhe perseguira o irmão, não o impediu de a ela recorrer como forma de silenciar de vez o impertinente pregador, impedindo-o de criar ideias subversivas na já tensa comunidade brasileira.
Baseado em situações reais, que o autor coligiu num aprofundado trabalho de investigação, «Ouro Preto» é uma belíssima surpresa de leitura, pois Sérgio Luís de Carvalho não só respeita o vocabulário da época como aproveita para nos prodigalizar uma lição de História portuguesa.
Ao chegar à última página interrogamo-nos como foi possível esbanjar tanta fortuna, mantendo o reino mergulhado na pobreza. E concluímos que, infelizmente, ao longo dos séculos, os portugueses foram muito mal orientados pelos seus líderes.
"Retrato de D. João V e a Batalha do Cabo Matapão" de Giorgio Domenico Duprà

sexta-feira, novembro 04, 2016

(DIM) As mulheres como protagonistas nalgum cinema português

1. Cláudia Varejão acabou de ganhar um dos principais prémios do «DocLisboa» com a longa-metragem «Ama-san», rodado junto das pescadoras de pérolas japonesas. Um filme sob o signo da água e das relações intergeracionais entre essas corajosas mulheres cuja sobrevivência depende da captura de tais ostras em apneia.
Quatro anos antes, ela assinara uma curta-metragem em que esses temas já surgiam de forma explicita: em «Luz da Manhã» existem três mulheres a mergulharem num lago e com tensões silenciosas a separá-las. Há uma avó, uma mãe e uma filha. A mais velha tem provavelmente os sinais de progressiva senilidade, mas mantém-se ciosa do seu espaço. Por isso distancia-se das outras duas, quando as vê em empatia no banho.
A realizadora aponta para equilíbrios que extravasam a própria compreensão de quem os sente ora mais estabelecidos ou ora revirados, mas o filme é, sobretudo o dos silêncios e os dos olhares entre Elisa Lisboa, Beatriz Batarda e Matilde Colaço.
2. Nesse mesmo ano, Mariana Gaivão, que coassinou, com Cláudia Varejão, a montagem de «Luz da Manhã», rodou «Solo», um filme cuja rodagem quase teve a dimensão épica do «Apocalipse Now» à escala nacional: quando a equipa de filmagens foi para Góis para concretizar o projeto, e caiu tal tempestade, com inundações à mistura, que tudo se converteu num enorme desafio.
O resultado desta bombeira, que desaparece numa gruta subterrânea, quando estava a combater um fogo florestal, tem uma fotografia lindíssima de Vasco Viana a lembrar inicialmente alguns filmes de Tarkovski.
3. Data do ano anterior, o «Cerro Negro» de João Salavisa, igualmente com fotografia de Vasco Viana.
Resultante de uma encomenda da Fundação Gulbenkian o filme retrata a visita que Anajara faz ao marido, Allison, na cadeia onde cumpre pena de prisão, que tarda em concluir-se.
Entre as dificuldades de convencer o filho a ficar com uma vizinha, a morosa viagem nos transportes, a vistoria a que o seu corpo é sujeita antes de entrar no recinto onde ele a espera, tudo contribui para fazer desse périplo uma provação bem nítida no rosto profundamente triste da jovem, mas precocemente envelhecida mulher.




(DL) Arnaldur Indridason, «A Mulher Vestida de Verde» (3)

No romance de Arnaldur Indridason vem ao de cima um episódio histórico pouco conhecido entre nós: durante a Segunda Guerra Mundial a Islândia albergou bases inglesas, que ali tinham militares de reserva para o esforço militar distribuído pelos quatro cantos da Europa.
Na investigação sobre a identidade do esqueleto encontrado no início desta história, os investigadores do Departamento de Homicídios, consideram pertinente a conversa com Edward Hunter, um antigo comandante daquela base e que, casando com uma islandesa, radicara-se na ilha.
Ele recordou-se de um caso de roubo no entreposto militar de mantimentos, que envolvera o islandês residente numa das casas da colina adjacente, com a mulher notoriamente vítima de violência doméstica, e com os três filhos, a mais velha das quais deficiente.
Segundo conta, essa mulher fora o ser humano, que mais lhe merecera compaixão em toda a sua existência, por procurar, sem sucesso, esconder a sua vergonha. Ora ela começaria a ser visitada por outro militar inglês, David Welch, quando o marido fora encarcerado por causa desse roubo.
Simon, Tomas e Mikkelina nunca tinham sido tão felizes como nessas semanas de ausência forçada do progenitor. E a mãe, que se passeava amiúde com o novo namorado, ainda mais razões tinha para assim se sentir.
A história evolui com a incompatibilidade do ADN de Solveig, a  desaparecida noiva de Benjamin, com esses ossos desenterrados.  Confirma-se, aliás, que a sua indesejada gravidez resultara da violação a que um sobrinho do pai a sujeitara e justificação bastante para se fazer desaparecer nas águas do mar.
No local onde o macabro achado fora encontrado, Erlandur descobre a velha Mikkelina, que lhe desvenda o resto do mistério: a exemplo de muitos outros colegas, Dave fora mobilizado para outro teatro de guerra sem conseguir acorrer em socorro da namorada, cuja vida se encontrava ameaçada pelo iminente regresso de Grimur a casa.
Como estava grávida, é essa criança, que ele promete matar logo à nascença para omitir a vergonha de se sentir marido enganado.
Para evitar esse crime, ela decide administrar veneno em porções progressivamente crescentes na comida do escroque, mas ele descobre o sucedido e tenta matá-la. É nessa altura que o ainda muito jovem Simon lhe espeta uma faca no peito, salvando a mãe, mas não conseguindo evitar a morte do bebé acabado de nascer.
Nessa noite Simone e a mãe tinham enterrado Grimur e o enteado na cova, donde se procedera à exumação dias atrás.
Além de Mikkelina, bastante recuperada da sua deficiência passada, Simon ainda está vivo, mas internado num hospital psiquiátrico, onde Erlandur e Ellingborg o visitam.
Para concluir num final feliz, Erlandur recebe a notícia do hospital sobre a filha, enfim recuperada do estado de coma em que vivera todos aqueles dias. Haverá, porventura, a possibilidade de um novo recomeço...

quinta-feira, novembro 03, 2016

(A) As estátuas de Volgogrado

Uma das cidades russas, que lamento não ter conhecido, foi Volgogrado, a antiga Estalinegrado, particularmente por ter sido ali a definir-se a viragem dos acontecimentos durante a Segunda Guerra Mundial. Durante muitas semanas, com pequenos avanços e recuos de ambos os lados, clarificou-se ali se o Império por mil anos de Hitler iria por diante ou se acabaria destroçado como viria a acontecer.
A derrota do exército nazi e dos seus colaboracionistas ucranianos precipitou a dinâmica inversa com o Exército Vermelho a avançar, primeiro lentamente, mas depois com rapidez crescente até à tomada de Berlim.
Na colina onde ocorreram combates decisivos está hoje a gigantesca estátua do Apelo da Mãe Pátria, com a sua figura feminina a brandir a espada em desafio contra quem ouse ameaçar os seus filhos.
Concebida no obrigatório estilo do realismo social pelo escultor Evgueni Vourtcheitch, ela foi inaugurada em 1967. Mas é, igualmente, uma proeza de engenharia cujo mérito cabe a Nikolai Nikitine, porque não estando fixa em ponto algum, ela permanece ereta graças ao seu peso. De facto, a sua altura de 85 metros comporta 5500 toneladas de betão e 2400 de metal. Só a espada em si tem 33 metros e pesa 14 toneladas.
Sem pedestal ela é a maior estátua existente a nível mundial e a segunda, depois da representativa da Liberdade em Nova Iorque, se se levar em conta esse assentamento.
Volgogrado já possuía anteriormente uma gigantesca estátua erigida à beira do rio e dedicada a Estaline. Mas, uma noite, em 1961, sem pré-aviso, ela desapareceu depois da sua memória ter caído em desgraça no consulado de Kruschev.
Semanas depois e novamente sem anúncio de que tal iria acontecer,  o pedestal passou a contar com a maior estatua de Lenine existente na Rússia, que continua a ser um dos grandes motivos de atração de quem visita a cidade.

quarta-feira, novembro 02, 2016

No centenário de um homem coerente

Sendo este o ano do centenário de Mário Dionísio, volta à colação a sua divergência com os companheiros do movimento neorrealista, de quem se veio a dissociar por entender indissociável a função utilitária da arte com a sua efetiva expressão estética. No fundo aquilo que ouvi há algumas semanas a José Mário Branco, quando a entendia como obrigatoriamente respeitadora de três pilares imprescindíveis: o técnico, o estético e o ético.
Na época a questão punha-se nestes termos: conquanto traduzisse uma mensagem ideológica  coincidente com o objetivo de transformação da sociedade, a obra tinha reconhecido valor, ao contrário de outra cujo conteúdo não a direcionava para tal. Dava-se, pois, primazia a uma visão do que era eticamente adequado, independentemente do talento ou da impressiva beleza dessa expressão criativa.
No fundo verificava-se a reprodução do debate ocorrido nos primeiros anos da Revolução Bolchevique, quando as vanguardas com ela conotadas desde o primeiro momento, se viram fustigadas pela crítica e pela censura de quantos não tardaram a impor o realismo social como única escola estética aceite pelo regime soviético. E, no entanto, quantas dessas obras literárias, cinematográficas, teatrais ou das várias expressões das artes plásticas conseguiram resistir ao veredito do tempo e conseguem ainda ser apreciadas se nos dissociarmos da curiosidade por quanto está irremediavelmente datado?
Foi  esse debate o que dividiu os neorrealistas puros e duros com os que, no final dos anos 40, não se mostravam insensíveis ao que vinha de terras gaulesas com Camus a dissociar-se da maioria da intelectualidade dessa época, com Aragon de um lado, e Sartre do outro, a verberarem-lhe o excessivo pendor individualista.
Mário Dionísio terá sofrido bastante com as provocações, as intrigas e os boicotes a que foi sujeito, sobretudo depois de se ter demitido do Partido Comunista a que aderira em 1945.  Ele que tivera em Álvaro Cunhal um dos seus amigos mais próximos, recusar-lhe-ia anos depois o convite para o reatamento da relação epistolar proposta, apesar de, publicamente, ninguém lhe ter conhecido um queixume ou uma crítica contra uma ideologia de que nunca se terá provavelmente dissociado no íntimo, mas cujas fronteiras estabelecidas por quem dela se entendia dono, lhe eram demasiado estreitas por quanto lhe solicitavam a imaginação e a criatividade.
Não deixa de ser curiosa a evolução de um dos seus principais críticos de então, esse António José Saraiva (pai da viscosa criatura, que publicou há pouco um livro de mexericos!), que, de líder dos mais ortodoxos se converteria a uma ambígua viragem, quando pressentiu não ser para o seu tempo de vida os amanhãs cantantes exequíveis logo após finda a Segunda Guerra Mundial.
Dionísio terá sido o contrário desse vira-casaquismo tão frequente na intelectualidade europeia do seu tempo. Cem anos passados sobre a data do seu nascimento podemos apreciar-lhe a obra como sinónima da mais irrepreensível coerência.

terça-feira, novembro 01, 2016

(DL) Arnaldur Indridason, «A Mulher Vestida de Verde» (2)

Benjamin Kranden é o proprietário do terreno onde fora encontrado um esqueleto com sinais de ter resultado da morte violenta de quem o corporizara. Ora a investigação policial descobre ter existido algo no seu passado, que possa explicar o achado: em vésperas de com ela se casar, a noiva desaparecera-lhe sem deixar rasto, deixando-o em profunda depressão. Será que esse esqueleto corresponderá a tal rapariga e Benjamin autor da sua morte? - essa é uma das pistas da investigação prosseguida pelos polícias do Departamento de Homicídios da esquadra de Reiquiavique neste que é um dos primeiros romances assinados pelo islandês Arnaldur Indridason.
O foco da investigação desvia-se, porém, para a vida pessoal desses investigadores. Erlandur, por exemplo, tem a filha em coma no hospital, depois de uma hemorragia, que lhe fez perder o feto albergado no ventre. Mas a condição de toxicómana explicará em grande parte o sucedido. Ou não?
Ele questiona-se: “seria sua a culpa? Seria de alguém que não ela própria? Não caberia a ela o ter chegado àquele estado? A sua dependência da droga a quem senão ela poderia ser atribuída a responsabilidade? Ou caber-lhe-ia a ele uma parte da culpa do sucedido?” (pág. 123)
É que, sentindo incompatibilidade com a vida de casado, abandonara a família, quando os filhos ainda mal tinham começado a andar.
“As questões que Eve Lind lhe colocava sobre o passado embaraçavam-no sempre. Não sabia o que lhe dizer sobre esse breve casamento, as crianças que tinha tido e a razão que o levara a partir. Não tinha resposta para todas essas questões e isso encolerizava-a. Sentia-a sempre suscetível quando se tratava da família.” (pág. 135)
Uma questão, que o leitor também pode pôr, é sobre a credibilidade da investigação de um crime perpetrado há tantos anos, pois data do tempo em que os soldados ingleses ocupavam aquela colina e a guerra fustigava toda a Europa.
Enquanto Sigurdur Oli descobre na cave o nome do inquilino da casa adjacente ao achado - Höskaldur Thorarinsson -, que abre outra via da investigação, Ellinborg visita Bara, a prevista cunhada de Benjamin se a irmã não tivesse desaparecido quinze dias antes do casamento. Ela é taxativa quanto à possibilidade dele constituir um suspeito válido para o sucedido à irmã.
Por Elsa, sobrinha de Benjamin, Sigurdur fica a saber que, no dia em que desaparecera, Solveig rompera o noivado por estar grávida de outro homem. E tem algo, que pode esclarecer a dúvida sobre a coincidência do esqueleto com a desaparecida: uma mecha do cabelo num pendente.
Voltando a casa, esse polícia também conta com problemas pessoais a resolver: Berghora, com quem vive há alguns anos, pressiona-o para que se casem e tenham filhos, agora que chegaram aos 35 anos. Uma mudança de estatuto que ele duvida ser do seu agrado, confortável que se sente com o estado presente do relacionamento entre ambos.
Para complicar o enredo, Indridason vai inserindo um flash back correspondente a esse passado distante em que o crime ocorreu e onde assistimos a sucessivos episódios de violência doméstica de um brutal Grimur para com a mulher, a enteada e os filhos.
Como de costume, as várias narrativas paralelas tenderão a convergir para o epílogo, que se aproxima. 

(A) Samara

A cidade fica à beira do Volga e foi efémera capital, quando os alemães estavam a cercar Moscovo. Tinha a vantagem de estar acautelada sem a separar grande distância da metrópole onde se decidia o futuro de todos nós. Era ali que, prevenido, Estaline pusera presos de um goulag a escavar as montanhas próximas para criar um enorme reservatório de mantimentos debaixo do solo.
Quando faltaram outros braços, para ali foram encaminhados os prisioneiros de guerra, que tinham a incumbência de encher diariamente os vagões, que traziam toneladas de entulho para a superfície. O resultado é um enorme subterrâneo com onze quilómetros de extensão, onde surgiu um enorme glaciar natural.
Hoje, que os ditames da estratégia militar o tornaram obsoleto há quem o utilize para promover passeios a turistas curiosos ou para aí instalar cultura de singulares cogumelos, criados nas condições isotérmicas e de humidade necessárias para crescerem e se tornarem em próspera fonte de negócio. É que o teor proteico compensa bem o da mais dispendiosa carne constituindo alternativa pertinente para suprir a fome.
Uns dirão que a faraónica obra espelha o engenho dos comunistas soviéticos. Outros preferirão  falar do sofrimento dos que a construíram. No meio termo estará porventura a virtude.