segunda-feira, outubro 06, 2014

ÉCRANS: «O Deus Elefante» de Satyajit Ray (1979)

Está atualmente a decorrer no Nimas um ciclo de cinema dedicado ao grande realizador indiano Satyajit Ray, que se irá prolongar por várias semanas e com um conjunto muito significativo dos títulos da sua filmografia.
Porque só este domingo me decidi a abordar esta iniciativa, veio-me ao encontro um filme manifestamente menor, mas suficientemente explícito sobre o estilo e as preocupações mais comuns na obra de Ray.
Em «O Deus Elefante», filme estreado em 1979, encontramos o detetive Feluda a passar férias em Benares com o seu primo e assistente Tapesh e com o amigo escritor Lalmohan Ganguly.
Mas o que prometiam ser umas férias aprazíveis transforma-se numa nova investigação a pedido da família Ghosal a quem terão roubado uma valiosa estatueta do deus Ganesh (o deus elefante) do cofre da sua residência.
O principal suspeito será Maganlal Meghraj, um comerciante corrupto, muito embora Feluda também olhe com desconfiança para uma misterioso homem-santo, acabado de chegar às margens do Ganges.
Sayajit Ray decidiu voltar ao personagem Feluda - que já criara e utilizara cinco anos antes em «A Fortaleza de Ouro» - depois do fracasso comercial do seu filme precedente, «Jogadores de Xadrez».
Ele criara esse detetive inteligente muito antes, quando o fizera protagonista de diversos romances e novelas, uma das quais esteve na origem deste argumento.
Seguindo a pista do objeto artístico roubado, Feluda vê-se a contas com um antagonista impiedoso, mas o filme, embora divertido, nunca alcança os patamares de qualidade das obras primas do realizador.
O destinatário do filme é o público mais jovem, recorrendo por isso a doses acrescidas de humor.
Se a intriga obedece aos cânones policiais, nunca se orienta para a soturnidade dos filmes negros, antes amortece as tensões através do riso. Veja-se, por exemplo, a cena em que conhecemos o musculado co locatário dos três protagonistas, exata oposição do feitio cerebral de Feluda. Ou uma outra, quando Lalmohan, o amigo de Feluda, é obrigado a servir de alvo a um lançador de facas a mando do biltre Maghraj. Se começamos por nos sujeitarmos a uma tensão expectante, ela dá lugar ao riso à medida que o tremelicante lançador vai acertando nos centímetros adjacentes ao corpo do escritor.
Numerosas, essas cenas revelam-se eficazes constituindo um dos motivos mais interessantes do filme. O humor, como quase sempre sucede, reside na simpatia por quem o interpreta. Ora, nós reencontramos aqui Soumitra Chatterjee, que já aparecia em «O Mundo de Apu», em «Charulata» ou «Kapurush», associando-se a ele uns quantos atores bem conhecidos do cinema indiano: Harradhan Bannerjee ou Kamu Mukherjee.
Mas se a qualidade dos atores é credível, a dos personagens em si é mais contestável por reduzirem-se a meros estereótipos: os bons são perfeitos e infalíveis, enquanto os maus só parecem ter defeitos.
Ray aproveita para dar algumas piscadelas de olho à banda desenhada «Tintin», com Feluda a assemelhar-se ao herói de Hergé  na inteligência e coragem, mas sem ter a consistência bastante para suscitar alguma empatia. Na realidade à exceção do avô, que mostra algum conteúdo, os demais personagens pecam por serem invariavelmente monolíticos.
Resulta daí o progressivo desinteresse com que o espectador vai seguindo a história: às tantas já pouco nos importa o que sucederá aos personagens e se a investigação chegará a algum resultado.
Para além dessa superficialidade com que os personagens são criados, também a própria intriga segue o mesmo caminho. É certo que a estatueta roubada é um verdadeiro «mcguffin» na melhor tradição de Hitchcock, mas se ela pouca interessa ao espectador, dá para questionar por que razão estão nela obcecados os protagonistas do filme. Para quê mobilizarem-se para encontrar um objeto insignificante, que terá sido roubado, mas afinal o não foi?
As mudanças de rumo na história decorrem sem grade ritmo, sem verdadeiro sentido do cinema de aventuras. Pode-se associar «O Deus Elefante» aos thrillers de aventuras de Hitchcock, nomeadamente com «O Homem que Sabia Demais» (1956), mas onde o mestre do suspense consegue inquietar a cada sequência, Ray só entedia.
E, no entanto, algumas das cenas até poderiam ter acarretado maior intensidade - por exemplo aquela em que um dos personagens morre e é rapidamente esquecido - como se Ray quisesse apagar o mais rapidamente possível algum vestígio mais negro.
É certo que o objetivo óbvio do filme é oferecer um divertimento para toda a família, mas quer-se tudo tão certinho e limpinho, que prejudica seriamente a dinâmica do filme.
Felizmente Ray prodigaliza-nos as suas preocupações estéticas ao dar-nos a ver as ruas de Benres. Mas estão distantes as cenas antológicas criadas por Ray, quando criara grandes frescos neorrealistas.
«O Deus Elefante» não é o filme mais ambicioso de Satyajit Ray.por muito que ele aproveite para denunciar o contrabando de obras de arte indianas para fora do país. É que, infelizmente, ele não se mostra à vontade neste tipo de registo. 

domingo, outubro 05, 2014

OLHARES: as fotografias de João Pina

Serão daquelas recordações, que dificilmente esquecerei: depois de viver o Carnaval de 1989 no Rio de Janeiro, passei as semanas seguintes a percorrer diversos portos da  Argentina e do Chile. E a alegria colorida da Avenida Rio Branco deu lugar à soturnidade triste das ruas de Buenos Aires ou de Valparaíso.
Na capital argentina, o paquete «Funchal», de que era um dos tripulantes, ficou atracado num cais, que nas idas para o centro da cidade nos obrigava a passar defronte da sinistra Escola dos Mecânicos da Armada, onde sabíamos terem sido torturados e assassinados tantos opositores políticos. Teoricamente a ditadura dos generais já terminara com o desastre da guerra das Malvinas, mas o governo democrático de Alfonsin estava amarrado à legislação com que eles se tinham precavido antes de entregarem o poder aos civis.
Nessa passagem defronte dos altos muros das instalações militares, éramos obrigados a caminhar tão lestamente quanto possível. Assim no-lo obrigavam os cartazes e os sentinelas atentos a qualquer atitude audaz contra o que ali acontecera. Era o tempo em que os militares ainda julgavam poder escapar impunes aos seus crimes.
Dias depois, no maior porto chileno, era também notório o frágil equilíbrio entre a ditadura ainda vigente e a democracia já prometida com a vitória no plebiscito sobre a continuidade ou não de Pinochet no poder.
Na zona baixa da cidade - a mais moderna e abastada - estacionavam militares em muitas das suas esquinas. Também eles julgavam possível travar a dinâmica histórica, que os haveria de os desmascarar como os criminosos, que realmente eram.
Para honrar os muitos milhares de mortos, desaparecidos e torturados, bem como as famílias, que nunca desistiram de lhes fazer justiça, o fotógrafo João Pina acaba de publicar um álbum notável, que incide sobre toda a Operação Condor. Coordenada pala CIA, ela visava conjugar os esforços de todos os organismos repressivos das várias ditaduras latino-americanas para eliminarem os opositores comunistas.
João Pina retrata os espaços onde os crimes foram perpetrados e os velhos carrascos, agora suficientemente conscientes dos seus crimes para esconderem os rostos às câmaras. Para que não sejam esquecidos alguns dos mais bárbaros crimes do século XX!

sábado, outubro 04, 2014

PALCOS: «Quarentena» n’O Bando

De há muito que comecei a frequentar os espetáculos de O Bando, pela garantia de neles sempre encontrar motivos de surpresa, e quantas vezes de encantamento.
Quando me questiono sobre a melhor peça de teatro a que assisti na já longa carreira de teatrófilo não hesito em colocar em primeiro lugar o «Ensaio sobre a Cegueira» baseado em Saramago. E, no entanto, quanto a medo tinha abordado a peça, ciente (erradamente!) de que ninguém conseguiria traduzir cenicamente o admirável romance do nosso Nobel.
Agora, para comemorar o 40º aniversário da Companhia, João Brites e os seus cúmplices dão-nos a viver uma experiência inesquecível.
Iniciada no centro de Palmela, no Cineteatro São João, onde se compram os bilhetes, prossegue com um pequeno passeio pedestre até ao local do primeiro encontro intitulado «O Regresso a Casa».
Recebem-nos a Alba (de “A Noite” do Al Berto) e a Joana, que conhecêramos nos Jerónimos por ser personagem de “A Saga” de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Elas apresentam-nos o José Maria, que será o nosso guia na viagem prestes a começar para a qual recebemos logo um pão com queijo e uma água como abastecimento para o que der e vier.
Elas pedem-nos que falemos tão baixo quanto possível e sentem-se intimidadas por quem nos possa espreitar da rua. Porque estamos num sítio onde se pressente a tensão das cadeias que oprimem. E é delas que nos vem falar o Poldro (personagem de Manuel António Pina), que anseia por ir para o solarengo Sul, mas a tal não se arrisca, ou a Lurdes (conhecida em “Os Vivos” numa memorável noite de mau tempo em 2007, quando andávamos pela quinta do Vale dos Barris para a ouvirmos na paragem do outro lado da estrada a ela adjacente), que espera os homens numa esquina, e se revela presa num passado eivado de sofrimento.
Será ela a levar-nos ao autocarro, depois do Poldro ganhar coragem e sair desaforado, rua fora, a correr em direção ao sítio para onde canalizara todas as suas ilusões.
Durante um bom bocado andaremos às voltas sem vermos por onde, que a viatura tinha as janelas tapadas impedindo-nos de nos situar.
Que importava? O que de interessante tínhamos para ver situava-se lá dentro, primeiro com o Padre Simas, saído da imaginação de Manuel Teixeira Gomes, que nos prometeu levar para a inauguração de uma casa de banho, e logo seguido de outros sucessivos passageiros: o Menino saído de um texto de Jorge de Sena para vir à procura do seu pai, ou o Senhor de “Os Cágados” de Almada Negreiros, que deixara em 1985 outro personagem inesquecível da mesma peça - o que passava todo o tempo à procura da China sem saber como lá chegar.
Chegamos, enfim, à comemoração. Ao jantar temos a companhia de mais personagens vindos de sucessivas histórias que marcaram a vida de O Bando nestes quarenta anos: a Freira pessoana (porém mero disfarce do Diabo), a  prestável Marta de «Gente Feliz com Lágrimas» do João de Melo e o Administrador do «Cão Tinhoso» de Luís Bernardo Hongwana.
No todo serão quarenta as personagens que deambulam à nossa frente e noutros espaços adjacentes, onde tanto se dá que a morte nunca acabe por encontrar quem anda sempre a procurar, como o seu contrário. Depende dos dias e em que grupo de espectadores nos situemos.
O grande final junta as dezenas de atores e de instrumentistas da orquestra que, dirigidos por João Salgueiro, interpretam a belíssima peça orquestral, a lembrar o melhor de Philip Glass.
O desenlace é luminoso: os muros e abismos existem para ser derrubados, os sonhos têm a essência da sua imperiosa concretização. Se não hoje, será para amanhã. E quem se mostre incapaz de conceber utopias poderá ter a certeza de que já está morto. Porque quem não procura e se queda no mesmo lugar é como se já não visse, não ouvisse, não sentisse. Algures no desenlace dos nossos sonhos existirão porventura as tais alamedas largas por onde passará o homem livre, tal qual Allende nos prometeu da última vez que lhe pudemos ouvir a voz... 

sexta-feira, outubro 03, 2014

ESCRITOS: «Ao Contrário das Ondas» de Urbano Tavares Rodrigues

Há oito anos Urbano Tavares Rodrigues publicou este romance cujo título já constituía em si um programa coincidente com toda a sua biografia: «Ao Contrário das Ondas». Porque, a exemplo de uns quantos «imprescindíveis» - atendo-nos ao poema do Brecht - o escritor foi daqueles que sempre porfiou em contrariar a onda inerente ao rumo tomado pela História, em que tudo se tem conjugado para prosseguir e consolidar-se a exploração do homem pelo homem.
De fácil leitura, como sempre decorreu da sua bibliografia romanesca,  «Ao Contrário das Ondas» tem quatro personagens principais para definirem outros tantos modelos de comportamentos no Portugal do último quartel do século XX.
Sabina é a mulher mal amada, que encara o envelhecimento com serenidade, decidida a não alimentar por mais tempo os equívocos de uma relação definitivamente esgotada.
Mafalda é a mulher vistosa e apostada em conquistar um estatuto social, que lhe estará sempre vedado, porque não consegue entender a sua condição de mero suporte à afirmação viril do amante, por isso mesmo indisponível para lhe garantir a respeitabilidade do estatuto a que aspira. 
António Pedro é o amigo recatado, mais ouvinte do que falador, e que assiste a tudo quanto se passa à sua volta com a sageza de quem analisa um cenário sociológico sem nele comprometer quaisquer emoções.
E há Lívio, o ex de Sabina e o amante de Mafalda, que alimenta a lenda do seu antifascismo heroico, mas capaz de aceder ao convite do governo de direita para colaborar no projeto de privatizar a Justiça. Embora querendo iludir-se de participar nesse executivo para lhe limitar os danos, quando na realidade buscara satisfação para a sua incomensurável vaidade.
Urbano, que muito viu na sua preenchida existência, aposta nas abordagens do amor e da liberdade, mostrando-se tão crítico para com a misoginia quanto compassivo para com as suas desiludidas vítimas.  Sem deixar de ferrar justa farpa a quem abandonou os idealismos da juventude em proveito do arrivismo da acinzentada maturidade...

quinta-feira, outubro 02, 2014

ÉCRANS: « L’ Âge d’Or» de Luis Buñuel (1930)

Em 1930 a estreia de “L’ Âge d’Or” no cinema Ursulines em Paris significou um dos episódios mais marcantes do surrealismo, que estava então em plena afirmação depois da publicação do seu célebre manifesto em 1924.
Quando instado a financiar o projeto, o Visconde de Noailles desconhecia totalmente no que se estava a meter. E, logo na estreia, os espectadores ficaram, no mínimo, estupefactos com o que lhes era dado a ver, já que o filme sabotava deliberadamente a estrutura narrativa, desajustava o som da imagem e desprezava o cânone de respeitar a verosimilhança.
Ainda assim é possível alinhar um fio condutor, que explica o que se vê: num país dirigido por bandidos desembarcam uns maiorquinos encabeçados por bispos, que salmodiam a missa. Os bandidos e os bispos morrem, dando lugar aos fundadores da Roma Imperial - que são as Igrejas e os Estados -, ou seja, tudo quanto oprime o indivíduo.
Entre os fundadores que vêm pôr a primeira pedra está um casal, interpretado por Gaston Modot e Lya Lys, que não hesitam em fornicar na lama à vista de todos os convidados.
A polícia intervém, separa os amantes, leva preso o homem. Enquanto ocorre uma receção em casa dos pais de Lya Lys, os dois amantes a começam por se reencontrar espiritualmente e, depois, na realidade, porque ordens superiores dão instruções para o libertarem.
Para a fama do filme muito contribuiu a ação da Liga Antijudaica que, dois meses depois da estreia, decidiu investir de forma terrorista contra ele, com um grupo de trogloditas a invadirem a sala para pintarem o ecrã, lançarem bombas de fumo e destruírem os quadros de Miró, Max Ernst e Dali expostos no hall.  Estavam criadas as circunstâncias para que, apesar da veemente oposição da imprensa de esquerda, a prefeitura de Paris proibisse a exibição do filme.
Buñuel apostara em dois temas complementares: a contestação social e o amor louco.
O primeiro desses temas aparece explorado em três sequências de significado óbvio:
· no castelo em que decorre a receção lavra um incêndio na zona dos serviços. Como só os criados estão em perigo, os convidados mostram-se completamente indiferentes ao sinistro;
· pelo salão passa uma carruagem puxada a cavalo e carregado de operários agrícolas a beberem vinho tinto. Também a essa passagem os convidados da festa se mostram totalmente indiferentes, demonstrando-se a sua incapacidade para ver o povo;
· um guarda florestal mata o filho à pancada suscitando algum sobressalto nesses convidados para os quais o amor pelas crianças constitui um imperativo canónico. Mas quando o assassino revela que a criança fizera-lhe tombar o cigarro que enrolava, todos aceitam a explicação e continuam na sua amena convivência.
O amor louco surge na cena em que as personagens rebolam na lama com uma excitação erótica traduzida pela violência com que mordem os lábios um do outro.  Ou na forma como o protagonista é interrompido na receção pela mãe da amante, que lhe vem oferecer um cocktail, e ele esbofeteia-a e atira-a ao chão.
Quando se trata de mostrar o erotismo, Buñuel opta por uma ilustração indireta: um homem preso vê um cartaz que sugere a amante. A cabeça de Lia Lys substitui essa cabeça. Quando a personagem expressa amor e desejo, vê-se a mesma Lia Lys sacudida por um estremecimento lúbrico e estendida no jardim. Há pois uma mediação fortuita dos amantes, que estão em permanente comunicação.
No seu argumento, Buñuel contou o que pretendia fazer: “na rodagem não interromper os gestos ou seja fazer com que os gestos dos personagens - beijos, contactros, etc. - se cumpram integralmente. Só na montagem se deverá fazer com que cada ato erótico dos personagens seja interrompido.”
A montagem também será fundamental no que diz respeito ao som: Lia Lys entra no quarto, encontra uma vaca na cama e expulsa-a dali. O badalo da vaca toca.
Na sequência seguinte, Gaston Modot é levado preso pelos polícias e ouvem-se cães a ladrar. O som do badalo persiste.~
Volta-se a Lia Lys, que vê nuvens a passarem pelo seu espelho. Ouve-se o vento, mas os sons precedentes, o do badalo e o dos cães, persistem, com os três sons sobrepostos a acompanharem os amantes no que significará a comunhão durante a sequência em que estarão separados.
Em suma, o filme tem uma originalidade revolucionária, quer na forma, quer no conteúdo, constituindo o paradigma da obra surrealista. 

quarta-feira, outubro 01, 2014

AUDIÇÕES: «Hymnus» de Antonin Dvorak

Iniciamos aqui uma série de textos sobre Antonin Dvorak, um dos grandes compositores do século XIX, que associamos normalmente aos que enfatizaram significativamente os sentimentos nacionalistas e criaram obras destinadas a  dar-lhes substância musical.
A peça coral aqui proposta - «Hymnus» - foi apresentada em 1873 e refletia o sentimento independentista do povo boémio, recorrendo para tal ao texto «Os Herdeiros da Montanha» do poeta Halek.
Dvorak contava então 32 anos, porquanto nascera em 8 de setembro de 1841 em Nehahozéves, uma pequena aldeia a sessenta quilómetros de Praga e situada nas margens do rio Moldava.
A família era humilde: a mãe, Anna, servira como criada no castelo de Mülhausen, antes de se casar com Frantisek, que tinha um talho e uma estalagem.
Apesar de tocar violino e flauta e pertencer à orquestra local, Frantisek não aceitou de bom grado o talento musical precoce do primogénito dos seus nove filhos. Pelo contrário, manda-o estudar alemão para Zlonice, para que ele venha a liderar os negócios familiares.
Será graças às pressões do professor do rapaz, que a família aceitará vê-lo partir para Praga para, alojando-se em casa de um tio, concretizar os almejados estudos musicais.
Mas na grande cidade, a integração do jovem Antonin será complicada, nunca deixando de ser tido como um provinciano por mais que se revele  um bom aluno.
Dois anos passados as dificuldades económicas levam-no a concorrer com sucesso a uma vaga como violista pela Orquestra de Karel Komzak, depressa chegando a solista dos muitos concertos semanais apresentados no Teatro Provisório Checo.
Durará nove anos a ligação a essa orquestra, que lhe garante o ordenado fixo suficiente para se poder instalar num apartamento alugado no centro de Praga. É então que, para ganhar disponibilidade para o seu desejo de compor que consegue o lugar de organista na Igreja de São Adalberto, uma das mais antigas de Praga. Em pouco tempo assina as suas duas primeiras óperas: «Alfred» e «Rei e Carvoeiro», muito embora desta última só assista à apresentação da sua abertura, já que só virá ser estreada na integralidade em 1929, vinte cinco anos depois da sua morte.
Mas prepara-se, então, para dar um passo determinante no seu futuro: casar com Anna Cermakova, a irmã da sua aluna Josefina, por quem se embeiçara, mas que lhe negaria os avanços amorosos...