sexta-feira, agosto 08, 2014

MÚSICA: O regresso do Kronos Quartet a Portugal

Este ano o São Martinho terá um sabor muito especial porque coincide com o regresso a Portugal do Kronos Quartet.
O célebre agrupamento, que está a comemorar o 40º aniversário da sua existência, estará na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Misty Fest, para voltar a surpreender com a sua criatividade e originalidade. 

quinta-feira, agosto 07, 2014

FILME: «Mónica e o Desejo» de Ingmar Bergman (1952)

Bergmaniano militante nunca tive este «Mónica e o Desejo» na short list dos que mais me agradam na obra do realizador sueco. E, no entanto, nesta abordagem foi forçoso ficar fascinado pela qualidade estética da fotografia a preto-e-branco, que acompanha fielmente a evolução dos estados de alma por que vão passando os seus personagens.
Quando o realizou, em 1952, Bergman tinha 34 anos e estava a assinar o seu 12º filme. Era um encenador teatral reconhecido, mas a carreira cinematográfica andava a marcar passo com sucessivos fracassos comerciais, que lhe criavam angustias sobre a possibilidade dela se poder vir ou não a prolongar.
«Mónica e o Desejo» vai merecer-lhe um empenho criativo, que passa por uma história ousada, uma belíssima fotografia difícil de esquecer, sobretudo quando alia aos enquadramentos rigorosos as imagens dos céus nublados, dos lagos e das florestas, e a opção explícita pela nudez da atriz principal.
Para Bergman a estética deveria suscitar emoções no espectador, suscitando-lhe empatia com a evolução sentimental dos protagonistas, esse casal em fuga ao quotidiano para viver a perfeição do amor no breve espaço de um verão.
A história em si dá alguma razão a quem aponta a misoginia como um dos aspetos determinantes da obra bergmaniana: Harry e Monika encontram-se fortuitamente num café e começam a namorar. Nas confissões, que fazem um ao outro, comungam do desagrado pelos respetivos empregos, ele como ajudante numa vidraria e ela numa mercearia. E por isso sonham fugir dessa amarga rotina quotidiana.
Um dia, quando o pai chega a casa embriagado e lhe dá uma bofetada, a rapariga encontra o alibi necessário para libertar-se das correntes familiares, impelindo Harry para passarem algumas semanas em deambulação pelo arquipélago em torno de Estocolmo no barco do pai dele.
Na ilha de Orno vivem o sonho de liberdade, amando-se e nadando nas águas aquecidas pelo calor estival. Quando o dinheiro acaba já Monika está grávida e o regresso á cidade torna-se inevitável.
Casam e têm uma filha, mas a paixão já passou e as prosaicas vicissitudes do dia-a-dia impõem-lhes uma distância, que se cava como um abismo insuperável.
Entregando-se a outros homens Monika acabará por sair de casa deixando a filha aos cuidados de um Harry, que ganhou com a experiência um amadurecimento feito de sentido de responsabilidade.
Godard, que foi na época um dos maiores defensores do filme atribuía a Harriet Andersson numa das cenas derradeiras um dos mais tristes olhares da História do Cinema.
Mas, apesar do entusiasmo suscitado nos futuros cineastas da «Nouvelle Vague», «Mónica e o Desejo» suscitou não pouca polémica na altura com a abordagem explícita do desejo sexual. É que estava-se perante um filme de sensações, de tremores na pele, de empolamento da textura da carne, do movimento do peito com a respiração, do tempo que passa, do sol nos corpos e do vento a soprar.
É certo que não tardariam a surgir as obras admiráveis pelas quais Bergman se veria universalmente consagrado, mas «Mónica e o Desejo» já constitui um título, que não desmerece das razões justificativas desse sucesso.


https://www.youtube.com/watch?v=IfkxWIL76ok

quarta-feira, agosto 06, 2014

HISTÓRIA: As teses contraditórias sobre o esqueleto da Ilha das Flores

Quem se interessa pela paleontologia tem seguido com bastante interesse a discussão em torno do esqueleto encontrado na ilha das Flores na Indonésia e que é por alguns cientistas considerado como a prova da existência de um ramo desconhecido da evolução humana concomitante com a do homo sapiens. Mas, porventura mais realistas, logo outros avançaram para a hipótese de se verificar uma anomalia genética pontual, facilitada pelo facto de se tratar de uma população circunscrita a um território exíguo onde a consanguinidade constituía uma forte probabilidade.
Artigos científicos agora publicados nos EUA, e abordados por Nicolau Ferreira no «Público», vão mais longe e dão conta desse esqueleto ser o de uma rapariga de há dezoito mil anos atrás e que possuía uma anomalia bem conhecida do nosso tempo: a trissomia 21.
Embora ainda não se tenha conseguido uma amostra viável de ADN, que pudesse confirmar essa tese, diversas características desse esqueleto apontam para tal tese.
A confirmar-se tal hipótese voltamos a ter uma demonstração eloquente de uma regra científica básica, mas bastantes vezes esquecida: perante uma singularidade será mais judicioso encontrar a explicação mais fácil do ponto de vista lógico do que dar tratos à imaginação e produzir uma tese estapafúrdia em completa rutura com o até então conhecido.
De facto, embora tenha acontecido algumas vezes na História da Humanidade - vide Galileu, Newton, Darwin ou Einstein - raramente a Ciência avançou com Revoluções dessa dimensão. Quase sempre obedeceu aos pequenos avanços feitos de hipóteses momentâneamente aceites como verdadeiras, até se comprovarem como falsas...

segunda-feira, agosto 04, 2014

LEITURAS: «Teatro de Sabbath» de Philip Roth (VI)

Sem soluções de sobrevivência Mickey Sabbath decide revisitar o bairro onde nascera e crescera antes de se suicidar. É assim que encontra, quase que por acaso, o velho primo Fish, já quase centenário.
É na sua casa decrépita que irá encontrar o velho aparador, que pertencera à própria mãe e, numa das gavetas, a caixa onde ela costumava guardar as coisas de Morty, o filho mais velho cujo avião fora abatido nas Filipinas no final da Segunda Guerra Mundial.
O passado regressa à mente de Mickey não só através desses objetos, mas também pelas cartas escritas pelo irmão pouco antes de desaparecer. Por coincidência, ou talvez não, Morty faria setenta anos de idade nesse mesmo dia.
A descoberta leva Mickey a mudar os planos: já não quer morrer, porque se sente guardião da memorabilia tão estranhamente descoberta.
No caminho de regresso a casa continua a ser assediado de constantes e oportunos flashbacks, como por exemplo o da última noite de Drenka ainda viva. “Aquelas foram portanto as suas últimas palavras, pelo menos em inglês. Dou o meu coração, dou-me a mim mesma, quando fodo. Difícil dizer melhor.”  (pág. 460)
Quando estaciona o carro junto à casa imagina o que seria espreitar pela janela e encontrar Roseanna a masturbar-se: “Havia uma casa e dento dela uma mulher; no carro estavam coisas para venerar e proteger, substituindo a sepultura de Drenka como o significado e o objeto da sua vida. Nunca mais precisava de voltar a deitar-se na campa dela a chorar - e, ao pensar nisso, foi avassalado pelo milagre de ter sobrevivido  todos estes anos nas mãos de uma pessoa como ele. Ficou estupefacto por ter descoberto entre a esqualidez de Fish uma razão para continuar à mercê d inexplicável experiência que ele era, estupefacto pelo pensamento absurdo de que ele não existia, não sobrevivera, de que perecera lá em baixo, em Jérsia, muito provavelmente às suas próprias mãos, e estava no fundo do caminho de acesso ao Além, a entrar nesse conto de fadas finalmente liberto do anseio que era a marca de autenticidade da sua vida: o desejo avassalador de estar noutro lugar qualquer. (pág. 466)
Mas outra possibilidade se lhe coloca: e se Roseanna estivesse na cama com Christa, a rapariga que partilhara algumas vezes a cama dele com Drenka?
Saindo dali sem coragem para se voltar a colocar na dependência da ex-mulher, Sabbath dá de caras com Matthew, o filho de Drenka, que fizera carreira na polícia e agora lhe surgia disposto a vingar o desaforo por ele cometido com a progenitora como constatara ter acontecido pelo diário dela descoberto.
Quando se julga à beira de sofrer uma violenta e definitiva agressão, Sabbath vê-se abandonado em plena floresta: “mas o carro-patrulha arrancara, deixando-o enterrado até aos tornozelos na papa de lama da Primavera, cegamente tragado pelas hostis matas interiores, pelas árvores produtoras de chuva e pelos rochedos lavados pela chuva - e sem ninguém para o matar a não ser ele próprio. E não era capaz de o fazer. Não podia morrer, porra. Como podia partir? Como podia ir-se embora? Tudo quanto odiava estava ali. (pág. 483)
O romance conclui-se, pois, num final aberto, desapontando quem o julgara encaminhar-se para a morte efetiva do protagonista...

domingo, agosto 03, 2014

CIÊNCIA: o que é o espaço?

Quando percorremos uma qualquer rua de uma das nossas grandes cidades somos forçados a concluir que o mundo está recheado de milhentas coisas: edifícios, carros, transportes públicos, pessoas, etc.
No entanto, à volta de todas essas coisas, que constituem o nosso mundo quotidiano, há algo igualmente importante, mas muito mais misterioso: o espaço onde todas essas coisas existem.
Se suprimíssemos todas essas coisas e pessoas, e até a própria Terra, todos os planetas, estrelas e galáxias, em suma tudo quanto existe desde o que tem maiores dimensões até à mais minúscula partícula atómica de um gás, o que encontraríamos? A maioria diria que restaria então o Nada! Mas, tendo razão, também estariam a cometer um erro, porque ficaríamos com um espaço vazio com características tão específicas quanto as dos objetos presentes na nossa vida quotidiana.
O espaço é tão real, que até se pode curvar, torcer ou ondular. Por isso é tão fundamental para contribuir em tudo quanto nos rodeia e que faz parte da própria tessitura do cosmos.
Não se pode compreender o mundo, sem termos presente o espaço, porque o mundo não é mais do que espaço com coisas no seu interior.
Raramente temos consciência do espaço. É como se fôssemos peixes, incapazes de perceberem a água em que estão mergulhados e onde vivem.
O espaço está, pois, muito longe de ser o nada, tanta coisa se passa com ele.
Em geral, quando falamos do espaço estamos a falar do que é visto como intersideral, um sítio muito distante de onde estamos. Mas, na realidade, ele está em todo o lado por todo o Universo. Mesmo os objetos mais minúsculos como os átomos - ingredientes elementares de que somos constituídos - são constituídos maioritariamente de espaço vazio.
Se suprimíssemos todo o espaço que existe entre todos os átomos, que forma a pedra, o vidro e o aço de um dos nossos arranha-céus, restaria algo do tamanho de um grão de arroz., ainda que pesando milhares de toneladas. O resto é simplesmente espaço vazio.
Mas, afinal, o que é o espaço se ele tanto se parece com o nada? Como compreendê-lo? Porque é que existe? Porque é tridimensional? Porque é grande? Porque não é minúsculo? Não há consensos sobre as respostas mais corretas para essas perguntas!
Felizmente não estamos propriamente às escuras!  Há séculos que recolhemos indícios sobre o espaço! E um deles surgiu quando nos questionámos sobre as razões, que levam os objetos a deslocarem-se em relação às referências circundantes.
Isaac Newton representou o espaço como se fosse um palco vazio, a arena onde decorreria todo o espetáculo do Universo. Um palco imutável, onde seria possível perceber todos os movimentos ocorridos à nossa volta, criando-lhes leis sobre como iriam previsivelmente acontecer, nem que fosse sobre o movimento da queda de uma maçã de uma árvore ou como a Terra rodava em torno do sol.
São leis que funcionam tão bem, que ainda hoje as utilizamos, quer para lançarmos foguetões, quer para fazermos aterrar aviões. E todas essas leis assentam numa constatação primordial: a de que o espaço é real!


sábado, agosto 02, 2014

FILME: «Efeitos Secundários» de Steven Soderbergh (2013)

No início conhecemos um casal nova-iorquino a contas com dificuldades singulares: ele está quase a sair da prisão depois de uma condenação por crimes de colarinho branco e ela sofre de perturbações psicológicas, que a levam a tentar o suicídio. É na condição de paciente, que começa a ser tratada por um psiquiatra reputado e em notória ascensão: Jonathan Banks.
Sujeita a um fármaco ainda na fase experimental, Emily parece melhorar embora mostre alguma tendência para reações sonâmbulas. Mas, uma manhã, vê-se coberta de sangue, com uma faca na mão,  junto ao cadáver do marido.
Emily de nada se consegue lembrar e não tarda a criticar publicamente os métodos controversos do seu médico. Ora Jonathan não está disposto a assumir a responsabilidade pela tragédia. Por isso, para recuperar a sua degradada reputação e a confiança dos doentes, vai avançar para a sua própria investigação. Concluindo que a realidade é muito mais complexa do que parecia à primeira vista: ele mais não servira do que de peão inconsciente na hábil estratégia concebida por duas mulheres decididas não só a partilhar a cama, mas também a fortuna decorrente da indemnização da farmacêutica em causa.
Interpretado por Jude Law, o personagem Jonathan Banks tem tudo a seu favor: o aspeto físico e mental bem como a sua notoriedade. Ambicioso, imaginativo, reconhecido pelos pares, não pode imaginar-se ostracizado por ter prescrito um novo medicamento a uma mulher deprimida e ela ter esfaqueado o marido.
Mais do que filme sobre comportamentos psicológicos, estamos mergulhados no universo policial, conduzidos por um realizador com provas dadas na capacidade de o tratar com elegância e irreverência.
Steven Soderbergh já abordou a maioria dos géneros cinematográficos explorados em Hollywood e aqui pareceria regressado ao papel de denunciador de uma indústria - no caso a farmacêutica - como outrora já fizera com «Erin Brockovich».
Mas é apenas mais uma armadilha: porque depois de lançar as suspeitas sobre as práticas das empresas farmacêuticas, focaliza-se nas conspirações financeiras e amorosas em que ninguém é verdadeiramente quem parece ser. E Nova Iorque é filmada de forma semelhante à utilizada pelos grandes realizadores liberais da década de 70, Sidney Lumet por exemplo, ora familiarmente ora com a sua peculiar dose de mistério.



LEITURAS: «Teatro de Sabbath» (V) de Philip Roth

No texto anterior tínhamos visto como, abalado por um escândalo sexual que chocara toda a comunidade em que vivia e  pela morte da amante, Mickey Sabbath saira do conforto do lar, totalmente sustentado pela sua mulher, e voltara à Nova Iorque da sua juventude, sob o pretexto do funeral de um dos antigos empresários do teatro onde conhecera o seu apogeu profissional.
A morte surge-lhe como uma saída inevitável: “E depois, que importa que tenha levado uma vida estúpida? Qualquer pessoa com alguma inteligência sabe que está a levar uma vida estúpida mesmo enquanto está a levá-la. Qualquer pessoa com alguma inteligência compreende que está destinada a levar uma vida estúpida porque não há outra espécie de vida”. (pág. 226)
É Norman, outro dos seus produtores de então, que o recebe em sua casa: “Sabbath não podia voltar para trás. Roseanna não o quereria  em casa e Mathew Balich descobrira tudo e estava suficientemente furioso para lhe dar cabo do canastro. Não tinha para onde ir e nada que fazer. Se Norman não dissesse: ‘Muda-te para cá’ estaria liquidado!” (pág.162)
Mas, mesmo em casa do anfitrião, Sabbath não resiste à descontrolada libidinosidade: masturba-se com a roupa interior da filha mais nova e não resiste em assediar-lhe a esposa, sobretudo depois de lhe descobrir alguns pecados privados em forma de fotografias nas suas gavetas do quarto: “o riso dizia que ela estava farta de ficar, farta de fazer planos para partir, farta de tudo, farta de sonhos não realizados, farta de se adaptar, praticamente farta de tudo, exceto de existir. Exultante por existir embora farta de tudo: era isso que aquele riso continha”. (pág. 331)
Entusiasmado com a possibilidade de a possuir, Sabbath dá asas à imaginação: “ Nada comove tanto Sabbath como estas brasas a envelhecer com os seus passados promíscuos e as suas bonitas e jovens filhas. Sobretudo quando ainda têm a capacidade de rir como esta.” (pág. 332)
Michelle irá, de facto, fascinar Sabbath numa dimensão só conhecida outrora com Nikki, e mais recentemente, com Drenka: “O que é a felicidade? A substancialidade desta mulher. A combinação que ela era. O espírito, o denodo, a astúcia, o tecido adiposo, a singular indulgência com palavras pretensiosas, aquele riso sublinhado com vida, a sua responsabilidade para com tudo, sem excluir a sua sensualidade - era uma mulher com envergadura. (pág. 361)
Mas, quando julgava iminente a consumação desse desejo, Sabbath depara com a ordem de Norman para que saia de casa: a masturbação nas cuecas de Debby, o crack no bolso do casaco e a “brincadeira” debaixo da mesa de jantar com o pé dele julgando tratar-se do de Michelle, eram motivos bastantes para essa expulsão.
O suicídio passa a ser a partir dali a sua única opção. Por isso vai ao cemitério judaico de New Jersey onde estavam sepultados os país, os avós e o irmão Morty, para tratar da compra da própria sepultura.
“Apesar da lixeira do outro lado da rua, da cerca em mau estado atrás e do portão de ferro ferrugento e tombado a um dos lados, cresceu nele o orgulho do proprietário, por muito pobre e insignificante que aquele pedaço de solo arenoso parecesse, ali na beira da fila de sepulturas individuais relegadas para a margem do cemitério”. (pág. 402)
Para seu epitáfio, Mickey não podia ser mais lapidar: “Morris Sabbath. Mickey. Amado frequentador de bordéis, sedutor, sodomita, abusador de mulheres, destruidor da moral, desencaminhador de jovens, uxoricida. Suicida. 1929– 1994.”