terça-feira, março 21, 2017

(DL) Os paradoxos de um cientista e do seu amigo poeta

Um dos paradoxos, que sempre associei a Rómulo de Carvalho, é a de ter tido a noção das injustiças do regime em que quase sempre viveu, mas só no duplo Gedeão, lhe ter manifestado desacordo.
É verdade que foi admirável pedagogo, capaz de motivar gerações de alunos para as ciências da natureza. Muitos deles viriam, por isso mesmo, a tornar-se investigadores dos mistérios por ele sugeridos em aulas nunca mais olvidadas. Mas o homem reconheceu agrado na implantação do fascismo - para acabar com os “excessos” propiciados pelas liberdades sem freios -, provocou quem o ouvia com a novidade de ter em Américo Thomaz um admirador dos seus versos e apressou-se a pedir a reforma logo após a revolução de abril por não suportar a turbamulta dos corredores dos liceus. Pouco antes de morrer confessava nunca ter votado na vida, apesar da canónica importância de tal manifestação cívica. Às liberdades preferia o rigor austero, que sempre pautara o seu comportamento. Até por não ter qualquer confiança na bondade humana: em ditadura ou em democracia, associava todos os comportamentos aos interesses egoístas, à vontade de alcançar a satisfação das aspirações sem cuidar de quanto resultariam em prejuízo alheio.
No entanto basta ler «A Lágrima de Preta» para constatar o quanto o racismo lhe era absurdo. Ou como os versos da «Pedra Filosofal», escritos em 1956, viriam a ajustar-se a hino antifascista uma dúzia de anos depois.
A chave para entender a sua personalidade está no «Poema para Galileu»: a exemplo do cientista da época barroca de pouco lhe importavam as crenças alheias por muito que elas comportassem a magnificência arrogante das formas exuberantes, porque o conteúdo sabia ele bem qual era. Tal como anotara no poema, “estoicamente, mansamente”, foi passando pela vida sabendo que, mesmo julgando-se parados no espaço e, porventura, no tempo, os políticos, da ditaduras ou da democracias, viajam no espaço “à razão de trinta quilómetros por segundo”. Mais do que os homens nos estultos modelos criados para se organizarem, todos obedecem às leis da Física.
E é aqui que Rómulo de Carvalho justifica essa inicial paradoxalidade ao não ter entendido como o comportamento dos regimes perante a Ciência define-lhes a natureza e, por isso mesmo, justifica que a eles reajamos. Entre os que cerceiam as liberdades e negam as evidências dos sinais da natureza - como sucede com Trump na rejeição do aquecimento global e da urgência em travá-lo - e quantos aliam o anseio por sociedades menos individualistas e mais respeitadoras dos humores do planeta, há que fazer opções. Votar, manifestar, contrariar ou apoiar consoante o exigem as distopias ou as utopias, que só as Ciências permitem conjeturar. Legitima-se a relevância dada a António Gedeão em detrimento a quem o criou e o teve como dileto amigo.

(DIM) «SÃO JORGE», o lapidar retrato do austericídio

Até ver «São Jorge» considerava que os filmes mais representativos sobre o período vivido sob a tutela da troika eram os que Miguel Gomes rodou na trilogia das «Mil e Uma Noites».  Afinal, após a experiência proporcionada pelo título de Marco Martins, a escolha passou a ser esta.
É que, enquanto Miguel Gomes optou pela ironia, quando não mesmo pelo sarcasmo,  o realizador de «Alice» decidiu proporcionar-nos um murro bem certeiro ou não escolhesse para protagonista Nuno Lopes no papel do boxeur contratado para as cobranças difíceis. Quem entra no cinema para ver este filme, esqueça a intenção de se entreter, porque tem garantido o retrato quase insuportável do Portugal, que só o atual governo, começou a deixar para trás.
Mergulhamos, pois, no Portugal desgovernado por Passos Coelho. As fábricas fecham, os salários atrasam-se, as famílias ficam sem sustento, endividando-se muito para além dos limites das suas possibilidades. E há quem aproveite para lucrar com tanto desespero, exigindo pagamentos que se tornaram impossíveis de satisfazer.
Não admira que o suicídio acabe por se tornar na definitiva solução de quem não vislumbra mais nenhuma. Estará, aliás, por conhecer a verdadeira dimensão de tal drama nesse período: quase todos esses mortos deverão contar para o passivo do austericídio, que as direitas impuseram aos mais pobres e às classes até então tidas como remediadas.
As relações amorosas tornaram-se impossíveis porque não encontraram recato bastante para ganharem asas, tanto mais que o abjeto racismo  interpunha-se como obstáculo intransponível.
A exemplo do pai de Alice, que percorria uma via sacra na procura da filha desaparecida, Jorge move-se incansavelmente por paisagens suburbanas, tentando sair do labirinto em que se vai vendo cada vez mais perdido. Vagueia por campos de ruínas, como se tivesse sido a guerra das armas, e não a económica, a causar tanta devastação.
Os anos da troika foram de tal desespero, que os operários até se propunham trabalhar mais horas por menos dinheiro, mas de que servia esse amouxar se as encomendas quase desapareceram? O que o filme dá a ver é um país parado, sem rumo e com quase todos mergulhados na aflição.
O comportamento das muitas empresas fundadas nesses anos para conseguirem reaver as dívidas incumpridas é o expectável: a pressão constante, mesmo junto da família ou dos vizinhos das vítimas do seu assédio. E, mesmo que ilegal, o recurso à violência torna-se regra, quando não se consegue recuperar o que quer que seja dos bolsos virados e revirados dos que já nem sequer têm meios para sobreviver.
Nas entrevistas alusivas ao filme Nuno Lopes chegou a revelar o quanto lhe custava chegar aos locais de rodagem no bairro da Bela Vista em Setúbal ou no Jamaica do Seixal, e deparar com quem já nada comia há uma semana.
É isso que nunca poderemos perdoar a Passos Coelho e a Paulo Portas: no afã de alcançarem os seus objetivos a coberto da troika, não só viraram ostensivamente as costas a quem neles votara na esperança de serem solução para o infortúnio, como se comprazerem em servir-lhes de algozes.


segunda-feira, março 20, 2017

(DL) «A PÉ PELO PARAÍSO» de Luís Carmelo (II)

1. E se dois desconhecidos  tentassem abrir o mesmo automóvel num parque de estacionamento, reivindicando ambos a sua pertença? O que poderia suceder?
Ela descobrira uma vacina miraculosa, mas o mérito e o proveito fora-lhe espoliado sem que o pudesse impedir.  Ele comprara a viatura a alguém relacionado com o mesmo laboratório.
Quase por impulso decidem tomar a estrada e conduzem horas a fio, subindo a alta montanha, que lhes surgira por diante. Até que um javali a atravessar a estrada lhes causa o fatal acidente.
Que metáforas extrair de tal história intitulada «O Olho do Javali»? Muitas! Tantas quantas no-lo permite a imaginação. E, em grande parte, diferentes das pensadas pelo autor. Mas não é esse um dos desafios da escrita de Luís Carmelo?
2. Em «A Nuvem Gigante», Edmundo conhece Albe numa breve estadia na Costa Brava, em 1966, quando quisera livrar-se momentaneamente do cinzentismo salazarento de Lisboa.
Tinha-a visto  na piscina, confundindo-se com o seu aceno, afinal dirigido ao pai, que estava ali quase ao lado. Mas, fascinado por ela, acaba por a tornar a futura companheira da sua vida.
Até aqui tudo parece canónico.  Mas surge outra personagem, António Romeu, a quem duas dúzias de anos atrás, Edmundo fizera seu confidente sobre o amor por Albe. Razão para  lhe vir, tanto tempo depois, contar  o seu próprio segredo: acabara de ganhar a lotaria, abandonando de imediato a família e a pacatez da vida ribatejana onde sempre vivera. Agora instalara-se numa suite no Penta, decidido a levantar-se à hora que lhe aprouvesse, comesse o que lhe apetecesse e dormisse com quem conseguisse. Trata-se, em suma, de viver na liberdade absoluta, causando inveja ao companheiro de infância, já incomodado com o aburguesamento da sua relação com Albe.
Os anos passam e, afinal a liberdade de Romeu conhece triste desenlace, com ele transformado em sem abrigo. Quanto a Edmundo, apesar das contrariedades, ainda sente a capacidade de reviver com Albe alguns daqueles momentos mágicos em tempos partilhados.
3. O último conto do livro intitula-se «O Cometa» e tem por protagonista um homem acometido de súbito ataque cardíaco numa pastelaria lisboeta. Assiste-o a filha do colega da Universidade do Cairo com quem combinara ali encontrar-se, mas a troca até lhe convém: antes de exalar o derradeiro suspiro entrega a Clara dois livros antigos e, sobretudo, uma carta para ela ler daí a um ano na Montanha da Lua, É nela que lhe confessa sempre tê-la amado, apesar de a ter conhecido desde que nascera  e tantos anos os separarem...

domingo, março 19, 2017

(DIM) «ELDORADO XXI» de Salomé Lamas (2016)

Um filme como «El Dorado XXI» sugere-me três tipos diferentes de abordagem, todos eles passíveis de serem aprofundados, mas aqui cingidos às breves notas que se seguem.
Em primeiro lugar há a surpresa de, quase na mesma altura, estrearem-se documentários de duas realizadoras, que escolheram lugares e culturas distantes como foco da sua criatividade: se Salomé Lamas foi para a comunidade humana sedentarizada a maior altitude em todo o planeta - La Rinconada, no Perú, situada a cinco mil e cem metros  acima do nível do mar  - Cláudia Varejão escolheu testemunhar a atividade das pescadoras japonesas, que continuam a mergulhar onde outrora buscavam pérolas («Ama-san»).
Há depois uma questão pessoal: num determinado período da vida decidi ser altura de abandonar a contínua navegação pelos oceanos para me fixar em terra firme. Além da urgência de estar mais tempo com a família, começava a sentir-se o peso dos salários em atraso e não muito diferentes dos que poderia almejar na reorientação da carreira profissional. Tinha, porém, dois problemas quase intransponíveis: direito a férias era mentira e quase nunca aportava a Portugal. Como concorrer então aos anúncios, que me interessassem, e aqui permanecer as semanas suficientes para as sucessivas entrevistas? Sobretudo sabendo-se que, vivendo a família unicamente do meu salário, não poderia arriscar meses a fio sem o receber.
Nesse sentido como não entender o sentimento dos que vão para La Rinconada na ilusão de só ali estarem umas semanas, as bastantes para encontrarem as pepitas de ouro que os enriquecessem,  e depressa desesperam por se verem num beco sem saída, em que nem a mina lhes prodigalizou fortuna nem sequer lhes terá garantido o suficiente para regressarem a casa.
E, numa terceira abordagem, o filme não é obra canónica do documentarismo social, mas proposta artística de quem já tem currículo muito interessante na área do vídeo arte. Daí esse longuíssimo plano inicial com mineiros a subirem e a descerem a montanha, recorrendo a um caminho lamacento, enquanto a imagem vai escurecendo com o pôr-do-sol.  Esses homens deixam de o ser transformando-se em fantasmas aprisionados numa irreversível semiexistência.
Assumindo ter maior interesse nas perguntas que sugere no quanto mostra, Salomé Lamas consegue um exercício impressivo sobre os limites impostos pelos espaços remotos, pelas terras de ninguém.


(DIM): Um filme de visão obrigatória: «Antes do Dilúvio» de Fisher Stevens

Agora que a possibilidade de quatro anos de Donald Trump na Casa Branca (se a impugnação não o vier dali remover!) significará um recuo significativo das políticas mais amigas do ambiente por parte dos EUA, o filme produzido por Martins Scorcese sobre a iminência de grandes desastres sociais por causa do aquecimento global merece ser visto e revisto.
Não é que apresente grandes novidades em relação ao que já sabemos - o desaparecimento de glaciares na Groenlândia e na Antártida em contraponto com as inundações definitivas ou cada vez mais regulares em países do Índico e do Pacífico, ou até mesmo em Miami! - mas contribui para uma maior consciencialização da necessidade de tudo mudar no nosso modo de vida, quer nas pequenas coisas do dia-a-dia em que gastamos recursos não sustentáveis, até ao próprio sistema capitalista cuja voracidade acelera um rumo suicida para a Humanidade no seu todo.
O facto de, ainda há dias atrás, os sociais-democratas holandeses terem sofrido um autêntico rombo eleitoral em contraponto com a  muito estimável subida do Partido da Esquerda Verde, demonstra que as esquerdas terão de evoluir nesse sentido: não só deverão propor uma sociedade mais justa e igualitária, só concretizável com o socialismo, como deverão associá-lo a estratégias ambientais. Não só por serem elas as que mais facilmente mobilizarão os jovens, para os quais poderão ser dramáticas as consequências da contínua aposta numa produção avassaladora à custa de hidrocarbonetos, carvão e gás natural, mas também porque, perante a anunciada redução do acesso ao emprego mediante a robotização e a algoritmização de tantas atividades, ainda hoje assentes na mão-de-obra humana, terão todo interesse em verem respondidas as angústias sobre como irão sobreviver se não virarem de pantanas esta realidade feita de obscenas fortunas e massivas pobrezas.
A realidade política deste ano poderá alterar-se significativamente se se proporcionar uma maioria parlamentar de esquerda na Alemanha e as legislativas francesas, subsequentes à chegada de Macron ao Eliseu, confirmarem a viragem definitiva dos socialistas europeus para outras soluções políticas, que não as de conluio com as direitas. Quando anda toda a gente a temer populismos de extrema-direita, o grande acontecimento de 2017 poderá vir a ser o retorno de esquerdas dispostas a serem-no na substância e no proveito.
Poderá haver melhor forma de homenagear o centenário da Revolução Bolchevique?
Fica, pois, a proposta para ver o filme de Fisher Stevens, disponível na net, e considera-lo como um pequeno contributo para uma revolução civilizacional que urgirá levar por diante.

(DIM) «AS SUFRAGISTAS» de Sarah Gavron (2015)

Há poucos dias passou mais uma comemoração do Dia Universal da Mulher, com um golpista brasileiro arvorado em presidente a associar o segundo sexo ao mester de fazer boas compras nos supermercados ou, dias antes, um troglodita polaco a assombrar o Parlamento Europeu com um discurso cavernícola.
Não precisamos de pensar nas mulheres das sociedades árabes para ter a noção do longo caminho ainda por cumprir para as ver reconhecidas como a metade do céu, que urge promover. Vale a pena, aliás, o pioneirismo das revoluções comunistas do séc. XX ao darem à mulher o estatuto de igualdade em direitos e deveres, que os países capitalistas tardaram em reconhecer.
A Rússia de Lenine, a China de Mao Tsé Tung ou a Cuba de Fidel de Castro foram irrepreensíveis nessa justa legislação para com as mulheres. As afegãs, por exemplo, nunca foram tão prezadas na lei como durante o período de Najibullah, que Reagan cuidou de derrubar. E o mesmo com as mulheres polacas, que viram a transição para a Democracia, significar uma redução abusiva de direitos (daí o discurso do troglodita). E que dizer das mulheres líbias ou iraquianas após as mortes respetivas de Kadhafi ou Saddam?
O que espanta é andar por aí tanta gente a olhar para a Democracia como a antítese do Comunismo, quando este, mesmo nas versões dele muito desviadas, comportaram características muito mais democráticas para as mulheres e outros setores da sociedade do que as vivenciadas no mundo capitalista, onde as liberdades pouco mais são do que formais. Porque pode dizer-se que existe liberdade de imprensa quanto ela está totalmente detida por um pequeníssimo núcleo de plutocratas? Existe liberdade religiosa quando os fanáticos do catolicismo pretendem obstar os ateus, e não só, a concretizarem nas questões do aborto ou da eutanásia as suas próprias crenças? Existe sequer liberdade de existir, quando uns poucos tudo têm (vide o obsceno salário de António Mexia) e os demais vivem entre o remediado e a extrema necessidade?
Existe uma enorme mistificação em torno do que é a Democracia e a Liberdade, com os defensores da desregulação dos mercados a atirarem eficaz areia para os olhos dos que passam vidas inteiras acossados por deveres sem quase usufruírem dos direitos inerentes a uma vida feliz.
Vem esta longa introdução a propósito de «As Sufragistas», um filme de Sarah Gavron, visto por estes dias, e que evoca a difícil luta das mulheres inglesas do início do século XX em prol do direito a serem reconhecidas como eleitoras.
A ideia para concretizar o projeto teve origem num episódio histórico: em 4 de junho de 1913 Emily Wilding Davison causou a estupefação das sociedades europeias e americanas ao aproveitar o Derby de Epsom para se fazer atropelar por um dos cavalos mesmo em frente à tribuna onde estava o rei Jorge V. Nos quatro dias em que esteve moribunda a sociedade inglesa ficou suspensa do que significara esse gesto desesperado com o governo a adivinhar a força que, com aquela mártir, o movimento sufragista conquistaria.
Sendo esse episódio o desiderato do filme, a realizadora conduz os espectadores a conhecer as circunstâncias em que ele ocorreu. Para tal escolheu para protagonista, Maud (Carey Mulligan), que de empregada numa lavandaria, apenas preocupada com o marido e o filho, conseguiu ganhar súbita consciência política ao deparar com uma ação militante das reprimidas sufragistas. Empurrada, quase sem se dar conta, para a condição de porta-voz das operárias numa audição parlamentar, fez-se testemunha das horas de trabalho que elas cumpriam a mais do que os homens apesar de receberem paga bem menor.
Não adivinhava então as pesadas consequências do seu empenho por maior justiça: o marido expulsa-a de casa e entrega o filho para adoção e as frequentes agressões e passagens pela prisão, constituem um martírio, que não dissuade a sua determinação. Lamentavelmente sem conseguir que as demais operárias a sigam, porque demasiado temerosas das consequências pessoais, nela espelhadas.
Compreende-se, assim, a coragem desesperada de Emily naquela tarde de festa em Epsom: só algo de profundamente chocante poderia levar a sociedade profundamente misógina de então a reconhecer o papel político e social da mulher.
Entre o percurso de Maud e o sacrifício de Emily, o filme enfatiza a importância histórica de Emmeline Pankhurst (Meryl Streep), que viveu longa clandestinidade, preparando as estratégias, que as suas perseverantes apoiantes tratavam de concretizar.~
Um século depois destes acontecimentos nada está ganho em definitivo - vide como em Angola a Igreja Católica está a agir indecorosamente para reverter os direitos das mulheres! - e  quase todos os indicadores revelam como as mulheres são as mal pagas ou preteridas para cargos de chefia, quando comparadas com homens nem mais talentosos nem dotados nas respetivas áreas de atividade. São elas as violentadas por maridos ou namorados abjetos. Ou exploradas sexualmente por proxenetas sem escrúpulos.
Valendo pela irrepreensível reconstituição histórica, o filme de Sarah Gavron supera-se na pertinência do tema. Não é elucidativo, que quase tenha passado despercebido nos ecrãs, quase não merecendo qualquer atenção pelos críticos de cinema dos nossos jornais?


sábado, março 18, 2017

(DL) «A Pé pelo Paraíso» de Luís Carmelo (I)

1. Demoramos a perceber que Laurentino é um robô sujeito a uma experiência sobre a memória. Nos primeiros parágrafos do conto, que o designa no título -  «A Memória de Laurentino G.Z.» - temos a repetição das coisas de que ele se lembra. E elas tanto parecem ter a ver com as imagens de uma aldeia onde ainda existem bandas e coretos, com vales profundos e alfarrobeiras ou falésias de xisto e sinos a repicar.  Tudo se torna mais estranho, quando aparece a cúpula de uma central nuclear ou uma mulher que, num avião, conta um assombroso crime e se diz perseguida por quem a quer matar.
Acabamos por compreender que fomos levados pelas memórias induzidas numa máquina da qual os cientistas procuram resgatar a forma como as conservou.
2. A lógica não tem cabimento na história de um António que decide deixar tudo para trás e partir com Laura para uma viagem de muitos dias por uma reta infinda até a uma cidade com zigurates. Para trás ficara a descoberta de assombros perfeitos nas secretas fissuras de Briolanja, uma professora com tranças e idade para ser sua avó.
O conto intitula-se «O Amor Puro» com as descrições dos espaços, dos objetos, das personagens, a porem-nos à parte, desafiando-nos para interpretações diferentes das mais realistas. Como se a surrealidade se sobrepusesse à que tenderíamos a criar como leitores e nos facilitasse a interpretação. Por fim há a interação Eros-Thanatos. Um camião TIR mata António e a união com Laura passa a existir em dimensões diferentes.
3. Em «Um Crime Imaculado» damos com um arquiteto ansioso por um telefonema, que lhe conformará decisiva encomenda para Buenos Aires. No entretanto, e enquanto aguarda, constata o homicídio da médica a viver à sua frente.
Há igualmente a mulher fascinante, que ele vai encontrando ao acaso e com quem acaba na cama em noite de conveniente ausência do marido num congresso na Irlanda.
A coincidência de um galgo ter estado no local do crime e do adultério, leva o arquiteto a ver na amante a assassina da vizinha.  Mas leva-a consigo para a Argentina vendo-a receber a mensagem da súbita viuvez por «suicídio» do legítimo.
Até ver a leitura dos contos de Luís Carmelo revela-se desafiante pela construção elaborada as intrigas e o comportamento pouco canónico dos personagens.  Pressente-se a tentação de géneros populares (a ficção científica, o fantástico, o policial), mas negando-lhes a lógica narrativa, intrincando-a, distanciando o leitor do conteúdo lido. Ainda me confesso na fase da estranheza...

quinta-feira, março 16, 2017

(DIM) «O Coro dos Amantes» de Tiago Guedes (2014)

Uma mulher acorda de manhã sem conseguir respirar. As bombas contra a asma não mitigam a sensação do ar não chegar aos pulmões e, inesperado, surge a constatação da morte iminente.
O marido leva-a para o carro, enceta uma frenética corrida até ao hospital.  Salvar-se-á? Não se salvará?
Em três canções a estória desenvolve-se desde esse início até à sala de reanimação do hospital e aquela, onde ao lado se desespera na espera. O epílogo já reside no regresso à banalidade inquieta da partilha do espaço caseiro.
O texto é de Tiago Rodrigues, a realização de Tiago Guedes e a interpretação de Gonçalo Waddington e Isabel  Abreu. Mas o que torna mais interessante esta curta é a divisão do ecrã em duas metades, uma ocupada pelo homem, a outra pela mulher e os discursos íntimos cruzarem-se, sobreporem-se, ora sendo percetíveis, ora perdendo-se os detalhes nas vozes misturadas.
O resultado é uma das mais interessantes propostas do recente cinema luso em formato reduzido. Há o medo da perda e do tempo a faltar para tudo quanto se quer fazer.  Mas há, sobretudo, a incomunicabilidade dos corpos, que as vozes não conseguem aproximar.

 

quarta-feira, março 15, 2017

(DL) A Psicanálise dos ditadores

A propósito de a publicação de um texto inédito de Freud, datado de 1931, o «L’Obs» foi  entrevistar a psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco que lembra como, antes de Donald Trump, os Estados Unidos contaram com outro presidente tão mentalmente ambíguo como ele: Thomas W. Wilson, que ocupou a Casa Branca entre 1913 e 1921.
Filho de um pastor presbiteriano, Wilson sempre viveu obcecado com a imponente figura paterna, situação agravada pelos numerosos problemas cerebrais de que foi sendo acometido e suscetíveis de lhe afetarem o discernimento. Por isso mesmo julgava-se eleito de Deus e benfeitor da Humanidade. Freud via-o como um louco, que pretendia passar por Messias, ou seja um déspota iluminado. Teria sido, aliás, ele um dos mais acirrados defensores das humilhações impostas à Alemanha através do Tratado de Versalhes de 1919, que daria aso à ascensão dos fascismos.
Wilson é, pois, um bom exemplo para aferir o problema de coexistirem num governante nevroses, pulsões, obsessões.
É certo que Lincoln era dado à melancolia, mas soube liderar o país em circunstâncias muito difíceis. Nixon sofria de patologia conspirativa e adorava colocar escutas aos adversários políticos mas, não tivesse ocorrido o caso Watergate, seria reconhecido como um político muito hábil. E nem Kennedy com a sua hipersexualidade ou Lyndon Johnson obcecado pela dimensão avantajada do pénis (o «Jumbo») prejudicaram a função presidencial com as suas taras.
Freud não conheceu estes últimos, mas reconheceu em Wilson o protótipo do que de pior poderia caracterizar um presidente ao convencer-se que a América constituiria a personificação do Bem no combate maniqueísta contra o Mal absoluto. Não representou algo de tão monstruoso como Hitler, mas patologicamente não seria particularmente diferente. 
Em 1945 os processos de Nuremberga  pretextaram a questão de se saber até que ponto o mundo poderia ser governado por monstros, cuja loucura seria traduzida pela banalização da morte de milhões de pessoas. Houve pois quem estudasse a infância de Hitler procurando nela detetar a explicação para a sua psicopatologia.
Sagazmente, Ian Kershaw cuidou de desvalorizar esses estudos, porque o nazismo era bem mais do que a expressão da loucura de um só homem. Mais relevantes tinham sido as explicações económicas, que haviam possibilitado a criação de um sistema totalitário facilitador de todas as perversões cometidas à sua pála. A possibilidade de se conduzir os ditadores a divãs para serem “curados” em sessões psicanalíticas poderia ser tentadora, mas a realidade não se ajusta a tão primária leitura.
Mesmo Trump é bem mais do que o revelado pelo seu infantilismo e narcisismo.  O nepotismo que o leva a rodear-se de familiares e amigos ou o desrespeito pela separação de poderes, conjugados com a vulgaridade e incultura, são pormenores com o seu quê de folclórico em relação ao essencial: o dele constituir o protagonista de uma fase da luta de classes, que prenuncia grandes mudanças na América da próxima década. E de que ele terá sido derradeiro representante da faceta mais selvagem de um tipo de capitalismo a chegar ao seu fim.

 

(DL) Siri Hustvedt e o machismo precário

Quando muitos pensavam que o maior desastre político do ano de 2016 teria sido o Brexit,  a eleição de Trump veio mostrar que o pior estava por vir: quase metade dos americanos elegeram um homem abertamente misógino que se chegou a vangloriar das agressões sexuais cometidas contra as mulheres.  Algo que não terá impressionado negativamente 53% do eleitorado feminino branco, porquanto nele votou!
Os homens e as mulheres que escolheram Trump disseram que lhes fora roubado um passado maravilhoso em que tinham acreditado. Com empregos para todos os homens, eletrodomésticos quanto bastassem para as mulheres e muita diversão para os filhos.
Bem se pretendeu desmistificar essas ideias feitas de uma realidade, também ela marcada negativamente por dificuldades e preconceitos, que quase todos esqueceram.  Como interpretar então esse voto?
Siri Hustvedt, escritora e feminista nova-iorquina, há muitos anos casada com Paul Auster, vê no fenómeno a ascensão de um machismo reacionário acompanhado de uma recaída nos estereótipos de género que se julgavam definitivamente ultrapassados. Por isso todos que os olham como sintomas de um neofascismo inquietante devem congregar esforços para os vir a derrotar.
O fenómeno não se cinge ao outro lado do Atlântico: também na Europa os populistas tratam de promover uma imagem inquietante dos homens. Razão para a escritora falar de um «machismo precário»: enquanto a feminilidade é entendida como um estado biológico consolidado, os homens revelam-se obcecados pela  virilidade. Este retorno ao machismo é, como de costume, alimentado pelo desprezo relativamente às mulheres. Porque muitos dos votantes em Trump foram homens, que perderam os empregos nas fábricas , entretanto deslocalizadas para países asiáticos. E que encaram com despeito a competitividade assumida pelas mulheres para os cargos mais prestigiados e melhor  remunerados, dada a superioridade da sua formação académica.
Esses despeitados perante a ascensão feminina na sociedade tomam Donald Trump como a imagem clássica do homem forte jamais travado nos seus destemperos verbais.
Aquele que não se afirma diariamente uma sexualidade arrogante e agressiva é visto como permeável às armadilhas femininas, senão mesmo desqualificado como homossexual. Para evitar esse machismo precário é necessário começar por analisá-lo e encontrar a forma mais expedita para o derrotar.
Na realidade os iludidos duros não o são assim tanto.  Motiva-os a insegurança da  precariedade do mundo onde se sentem fragilizados, derrotados. E temem ver-se expostos na inequívoca fragilidade num mundo onde já pouco conseguem fazer de motu próprio para o moldarem à imagem e semelhança dos seus evanescentes fantasmas interiores.